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28.9.23

Falta de quartos e preços especulativos empurram estudantes para aldeias em Bragança

João Faiões e João Tuna, in SIC Notícias

O Instituto Politécnico de Bragança ultrapassou este ano os 10.000 estudantes, sendo que grande parte deles estão deslocados de outras zonas do país. Este crescimento não está a ser acompanhado pela oferta de alojamento.


Centenas de estudantes deslocados no Politécnico de Bragança defrontam-se com a falta de alojamento e preços especulativos. Naquela cidade do interior, a renda de um quarto pode atingir os 250 euros sem despesas de água e luz.

O Instituto Politécnico de Bragança ultrapassou este ano os 10.000 estudantes, sendo que grande parte deles estão deslocados de outras zonas do país. Este crescimento não está a ser acompanhado pela oferta de alojamento.

A Riskivector, uma agência de alojamento local sedeada na incubadora de empresas do Politécnico de Bragança, ajuda os estudantes deslocados, sobretudo estrangeiros, a encontrar alojamento, mas há muito que esgotou a oferta de que dispunha. A maior comunidade estrangeira a estudar no Politécnico de Bragança é a Africana. com mais de 2.000 alunos. Estes estudantes queixam-se de aproveitamento por parte dos senhorios.
Alunos optam por diferentes soluções

Para ultrapassar a falta de alojamento e os elevados preços das rendas, os estudantes deslocados tentam encontrar soluções que não são as mais convenientes. Muitos optam por ficar em casas de amigos, em situação de sobrelotação, ou em locais a mais de cinco quilómetros do Campus, junto às aldeias.

Da parte do próprio Politécnico de Bragança também não há capacidade de resposta para a necessidade de alojamento. A instituição dispõe apenas de pouco mais de 300 camas nas várias residências da instituição.

As quatro novas residências para estudantes do Politécnico de Bragança, que deverão aumentar para 600 o número de camas disponíveis, vão custar 16 milhões euros e só estarão contruídas em 2025.

31.7.23

Opinião: Quem vive quer casa

Manuel Rocha, opinião, in Diário A Beiras


Estudar em Coimbra é, ainda antes da sebenta, viver em Coimbra. É essa a preocupação de grande parte dos mais de 25.000 estudantes que todos os anos “almamaterizam” na Universidade de Coimbra, e de significativa parcela dos mais de 10 mil jovens que aderem a uma das muitas escolas do Instituto Politécnico de Coimbra. Em contas por alto há, nesta Cidade, 35 mil jovens precisados de cama para o recobro diário das forças que as atividades cerebrais e físicas lhes levam (pelas mais diversas razões, algumas de juvenil disponibilidade), precisados de lugar a que chamem casa quando a casa de família não fica perto daqui.
Estudar, para ser direito humano, é também direito à habitação em custo que não signifique a recusa da colocação por falta de vaga na residência universitária. Alojamento de estudantes é preocupação prioritária numa Cidade em que o ensino superior ocupa grande parte dos seus orgulhos. Desconhecendo os números reais dos estudantes do ensino superior que chegam dos tantos lados de Portugal e do estrangeiro, forçoso será concluir que a oferta institucional de cerca de duas mil camas é curta. Coimbra precisa mesmo de dar prioridade ao alargamento do alojamento estudantil a preços comportáveis, aumentando, também assim, a atratividade da oferta local de ensino superior.
Trabalhar em Coimbra é, antes do ofício, morar por cá. Quando a satisfação das necessidades do “mercado” deixar de ser a prioridade dos dignitários da pirâmide governativa, Coimbra voltará a ser a cidade funcional de que precisamos. Nesse dia, e nos dias a seguir, estará cumprida a parcela de liberdade individual que depende do direito à habitação, a concretização da convicção, entre outras, de que “quem casa, quer casa”, tradução simplificada da fase da vida em que o afastamento da descendência não é impedimento da aproximação afetiva – o único traço familiar que perdura vida adentro.
A soberania das vidas é um fator de liberdade, pelo que ao “mercado” deve caber o que cabe ao mercado: a oferta para além da satisfação da necessidade básica. O “mercado” dos nossos dias, porém, comporta-se como predador, abundante em paciência, esperando o melhor momento para atacar. Assim se explica o escandaloso volume de casas vazias na Cidade, a sistemática fuga ao fisco em troca de miseráveis reduções do preço do arrendamento, as “Lei Cristas” que banalizam o despejo, a subida de taxas de juro com que a Banca nos verga quando quer.
Viver em liberdade é também ter direito à habitação a preços comportáveis. Por isso é que, na Coimbra partilhada por estudantes e trabalhadores, é urgente o alargamento do património habitacional público – única forma de habitar o desabitado, recuperar o arruinado, valorizar o desprezado, revitalizar os lugares históricos que não podem ser apenas-cenário, programar o espaço público para os passos de todos os dias, disciplinar o negócio imobiliário – o anunciador de “sonhos” que é, afinal, o grande concretizador de pesadelos.
A Coimbra dos nossos anseios é, todos os dias, encantadora. A Coimbra da especulação imobiliária é que não tem encanto nenhum – nem na hora da despedida.