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28.9.23

Falta de quartos e preços especulativos empurram estudantes para aldeias em Bragança

João Faiões e João Tuna, in SIC Notícias

O Instituto Politécnico de Bragança ultrapassou este ano os 10.000 estudantes, sendo que grande parte deles estão deslocados de outras zonas do país. Este crescimento não está a ser acompanhado pela oferta de alojamento.


Centenas de estudantes deslocados no Politécnico de Bragança defrontam-se com a falta de alojamento e preços especulativos. Naquela cidade do interior, a renda de um quarto pode atingir os 250 euros sem despesas de água e luz.

O Instituto Politécnico de Bragança ultrapassou este ano os 10.000 estudantes, sendo que grande parte deles estão deslocados de outras zonas do país. Este crescimento não está a ser acompanhado pela oferta de alojamento.

A Riskivector, uma agência de alojamento local sedeada na incubadora de empresas do Politécnico de Bragança, ajuda os estudantes deslocados, sobretudo estrangeiros, a encontrar alojamento, mas há muito que esgotou a oferta de que dispunha. A maior comunidade estrangeira a estudar no Politécnico de Bragança é a Africana. com mais de 2.000 alunos. Estes estudantes queixam-se de aproveitamento por parte dos senhorios.
Alunos optam por diferentes soluções

Para ultrapassar a falta de alojamento e os elevados preços das rendas, os estudantes deslocados tentam encontrar soluções que não são as mais convenientes. Muitos optam por ficar em casas de amigos, em situação de sobrelotação, ou em locais a mais de cinco quilómetros do Campus, junto às aldeias.

Da parte do próprio Politécnico de Bragança também não há capacidade de resposta para a necessidade de alojamento. A instituição dispõe apenas de pouco mais de 300 camas nas várias residências da instituição.

As quatro novas residências para estudantes do Politécnico de Bragança, que deverão aumentar para 600 o número de camas disponíveis, vão custar 16 milhões euros e só estarão contruídas em 2025.

19.6.23

PRESSUPOSTOS PARA UMA INTERVENÇÃO SOCIAL NO ÂMBITO DO COMBATE À POBREZA

Padre jardim Moreira, opinião,  in Mensageiro de Bragança



Tendo em conta o momento crítico que atravessamos, o aumento intenso da pobreza, sobretudo dos grupos mais vulneráveis, a EAPN Portugal/Rede Europeia Anti Pobreza propõe uma reflexão sobre os desafios colocados às entidades com responsabilidades sociais, no que respeita a enfrentar este problema complexo, de natureza multidisciplinar, gerador de exclusão e de perda oportunidades e de capacidades.

Apesar do investimento em políticas sociais, nas duas últimas décadas em Portugal, os indicadores de pobreza monetária e de desigualdades são ainda bastante elevados, sendo Portugal um dos países europeus com taxas de incidência de pobreza mais altas. Não obstante o esforço redistributivo da proteção social dos últimos anos, do qual resultou alguma redução das desigualdades, da pobreza e exclusão social, este permanece como um dos grandes desafios que Portugal tem de enfrentar.

De acordo com um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) de 2018, Portugal é dos países desenvolvidos onde é mais difícil sair da pobreza ou, do outro lado, deixar de ser rico. Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio.

Porque é que é assim?

Pensamos que não tem sido considerado que a pobreza tem causas multidimensionais, e não basta apenas uma resposta monetária. O conceito de pobreza multidimensional refere-se à experiência e ao impacto da pobreza no percurso de vida das pessoas. As pessoas experienciam a pobreza como uma série de privações, não apenas como ‘dinheiro insuficiente’ – ou outras coisas, mas experiências, oportunidades, serviços e ambientes que outras pessoas aceitam como normais. Estas privações podem incluir desemprego e baixa intensidade laboral, recursos financeiros, acesso a educação de qualidade e a cuidados de saúde, integração social, apoio familiar, condições de alojamento e residência. As pessoas em situação de pobreza também podem ser vítimas de estigma, vergonha, discriminação, isolamento e exclusão da vida social, consequências negativas de decisões restritivas ou de curta duração, pior saúde mental e física e uma esperança de vida mais reduzida. Por outro lado, o impacto da pobreza multidimensional pode ser mitigado nos seus efeitos através de fatores pessoais, relacionais, sociais e culturais de apoio ou que diminuem danos, criam resiliência e resistência. Episódios de pobreza frequentes, pobreza muito profunda ou pobreza persistente (i.e que dura um longo período), pode enfraquecer a resiliência das pessoas, reforçando a sua pobreza e isolamento.

Será indispensável uma resposta pluridimensional, que conte com a participação das próprias pessoas em situação de pobreza. Lembramos o aforismo: ”nada por nós sem nós” e todos os atores que intervêm aos vários níveis territoriais, bem como um cuidado acompanhamento de proximidade.

Trabalhamos já há vários anos, com uma equipa de âmbito nacional, composta de alguns dos melhores especialistas na matéria, na apresentação de uma estratégia nacional de luta contra a pobreza.
Temos assistido, e bem, a uma grande sensibilidade por parte das autarquias e muitas juntas de freguesia, organizações sociais públicas e privadas, empresas e sociedade civil, a responder, cada um a seu modo, aos problemas e carências de muitos portugueses, nesta hora de pandemia que enfrentamos.
Penso que são pressupostos e condições que propiciam uma nova intervenção para uma sociedade mais respeitadora dos direitos humanos de todos os portugueses; de exigirmos o exercício verdadeiro da democracia, da defesa das vítimas da injustiça e não prioritariamente na defesa das elites.

Sabemos que muitos cidadãos (ãs) portugueses, vivem hoje em condições que não são compatíveis com a dignidade humana e com uma sociedade democrática; estamos conscientes de que uma parte considerável da população portuguesa não vê satisfeitas as suas necessidades básicas em domínios como educação, saúde, habitação, justiça, emprego e proteção social. Sabe-se que as diversas formas de desigualdade (de rendimento, de riqueza, de poder, etc) se entrelaçam e se reforçam mutuamente.

Os pressupostos essenciais do combate à pobreza são a participação, a intervenção em parceria, a abordagem territorial e a intervenção integrada (Jordi Estivill). Sendo todos eles importantes para o êxito da intervenção social, entendemos que existem, ainda fortes limitações, sobretudo quanto à participação e quanto à ação integrada, que devem ser corrigidas.

De facto, frequentemente, combinam-se na mesma pessoa ou na mesma família vários problemas a necessitar de apoio, como insuficiência de recursos, baixa escolarização e qualificações, emprego precário, habitação degradada, desarticulação familiar, saúde debilitada, dificuldade no acesso à justiça e aos serviços.

A multidimensionalidade do fenómeno da pobreza tem de ser reconhecida pelos programas, e dar lugar a respostas integradas que mobilizam competências e recursos de diversas especialidades e parcerias. A promoção do acesso de todos os cidadãos a um conjunto de direitos sociais, designadamente, a um rendimento mínimo, ao mercado de trabalho, à proteção social, à educação e formação, à habitação, a cuidados de saúde, a serviços e equipamentos sociais, constitui um desafio estratégico e exige uma articulação de políticas que conjugam três pilares da inclusão ativa: (1) Favorecer a melhoria do rendimento, (2) Apoiar a integração socioprofissional, (3) Proporcionar mais e melhor acesso a serviços.

Uma estratégia de luta contra a pobreza requer medidas de carácter transversal e a avaliação dos efeitos (positivos e ou negativos) que as políticas poderão ter sobre a pobreza e a exclusão social.

O sistema judicial é um instrumento central no exercício da democracia “como instrumento de adensamento da cidadania “

Diversos estudos têm demonstrado que as categorias sociais mais vulneráveis evidenciam uma maior dificuldade no exercício do direito, o que indica uma desigualdade da proteção dos interesses sociais, ou seja, uma desigualdade jurídica dos cidadãos. Por parte, dos mais desfavorecidos, também se traduz num maior desconhecimento dos direitos e uma maior propensão para a resignação, e pela sua fragilidade linguística enfrentam dificuldades acrescidas.

A pobreza e a desigualdade em Portugal constituem problemas profundos e multidimensionais que requerem uma ação política para serem erradicadas. A EAPN Portugal acredita que é hora de concretizar uma Estratégia Nacional que mude positiva e eficazmente o destino de quase dois milhões de pessoas em Portugal.

Mantemo-nos disponíveis para cooperar com as entidades nacionais, regionais e locais na procura de soluções e iniciativas para a superação da profunda crise económica e social que estamos a vivenciar, nomeadamente através do desenvolvimento de projetos experimentais junto de populações afetadas por situações de depressão social e pressão económica, nas suas várias vertentes, tendo em vista assegurar um acompanhamento próximo, inteligente e inovador. O combate à pobreza e exclusão social exige-nos, mais do que nunca, essa coragem transformadora e urgente.
Edição
3788

10.5.23

Fugiu do país numa rusga, regressou, foi emboscado em Espanha e condenado por 144 crimes: Camilo, dono da maior casa de alterne de Bragança

Joana Ascensão e Rui Duarte Silva, in Expresso


Detentor de dois bares de alterne em Bragança, foi um dos principais alvos da polícia após a cidade ter sido capa da revista “Time” por um escândalo de prostituição. Camilo acabou a ser condenado, mas fugiu para o Brasil. E quando as notícias de um mandado de busca atravessaram o atlântico, aterrou de livre vontade no Porto, onde lhe carimbaram o passaporte. Vinte anos depois da polémica, alega que ainda é o Estado que lhe deve dinheiro. Esta é a sua história


Hoje com claros sinais de degradação, o Montelomeu ainda ostenta o que foi. Depois de uma porta majestosa, o espaço redondo da discoteca tem um bar ao centro e um balcão circulares onde restam papéis manuscritos da contabilidade. Numa plataforma elevada, evidencia-se um palco e um varão onde, além de shows de strip, chegou a haver sexo ao vivo. Mas com dois pisos de mil metros quadrados cada um, a discoteca esconde muito mais do que um sítio para dançar. Distribuídas à volta do bar, há 27 suítes, algumas com jacuzzi, um restaurante, um refeitório, ginásio, sauna, cabeleireiro, piscina e campo de ténis, numa enorme extensão onde, além de Camilo e a família, chegaram a viver avestruzes.

Comprar aquele espaço erigido na melhor vista para a cidade, paredes-meias com o santuário de São Bartolomeu, foi o passo natural para Camilo. Como qualquer filho de imigrantes, daquela terra Camilo só conhecia os agostos, tórridos, em que a cidade ficava menos esvaziada. Já tinha ganho algum dinheiro no negócio do imobiliário, a alugar condomínios em França. Até que, num desses agostos, já casado com Eliane, foi explorar as potencialidades empresariais da noite bragantina. A mulher incentivou-o a comprar a ‘Bruxa’ com o dinheiro das poupanças. E notando o ritmo da caixa registadora, a sugestão foi aceite com relativa segurança. “Três meses depois aquilo era uma mina de ouro. Até o procurador lá ia uma vez por semana”, recorda Camilo Gonçalves no dia em que faz uma visita guiada ao Expresso pelo passado do alterno de Bragança.


Mas o Montelomeu, comprado cinco anos depois (2002), era muito maior do que os outros, mais luxuoso e afastado o suficiente dos olhares da cidade para que outros clientes, mais prestigiados, pudessem alimentar o negócio. Rapidamente dominou a noite de Bragança naquele início de novo milénio.

Uma rua tão carente de movimento, como a que sobe até ao santuário, passou a ser destino preferencial dos táxis, num corrupio para baixo e para cima. Às mulheres de fora a entrada estava interdita. As de dentro, quase todas brasileiras, ganhavam dinheiro para pagar a diária no quarto e ainda para gastar na cidade, em cabeleireiros, floristas, taxistas. A Camilo caíam na conta bancária “milhares de euros por dia”, diz-nos. O suficiente para pagar a quem cozinhasse e fizesse limpezas no Montelomeu. Na altura de cabelo preto comprido organizado num rabo de cavalo, nunca andava sem um ou dois seguranças. Além de um apartamento ao lado do Montelomeu – e dos dois bares – detinha quatro carros, entre eles “o mais caro da cidade, igual àquele em que morreu a princesa Diana”, e ainda apoiava com uma renda de cinco mil euros o clube desportivo local.

A RUSGA

Quando a 30 de abril de 2003 a agência Lusa noticiava o movimento de um coletivo de mulheres autodenominadas “Mães de Bragança” contra o mercado da prostituição na cidade, Camilo não deu grande importância. Mas a partir daí algo mudou.

Era preciso acabar com o “flagelo da prostituição”, escreviam as “mães” no abaixo-assinado entregue ao bispo, ao governador de Bragança e ao presidente da Câmara, além da agência Lusa. As quatro mulheres (e outras tantas que assinaram o documento) diziam-se prontas a declarar “guerra aberta” às meninas brasileiras. “Não podemos continuar a permitir que Bragança seja conhecida como a cidade número um em vida noturna, em droga, em consumo de bebidas alcoólicas e em prostituição”, podia ler-se no documento.

Se até ali a economia local se regozijava com “as brasileiras”, começaram a empilhar os pedidos dos jornalistas para entrarem nos bares. As reportagens também. Mas o tema nacional saltou fronteiras quando a revista “Time” dedicou a capa de 14 de outubro de 2003 (e oito páginas) ao assunto, chamando a Bragança “Europe´s New Red Light District” (a nova cidade vermelha da Europa).

A cidade até então encoberta pelas fronteiras do interior estava agora à vista dos olhares externos – e a razão incomodava. Tanto, que a polícia começou a circundar a meia dúzia de bares de alterne que ali existiam, em rusgas frequentes. “A polícia ia, tentava apreender tudo o que poderia ser ilícito, como as “camisinhas” das mulheres, os livros das contas, os lençóis descartáveis e pouco mais”, conta-nos o empresário. “Na penúltima rusga veio uma subcomissária e disse-me que sabia que eu tinha um cofre lá em baixo. Você quer colaborar? Disse que colaborava, claro. A mulher ficou de boca aberta, porque pensava que houvesse droga. O cofre não estava cheio, mas tinha ainda assim uns 40 mil euros, que eles levaram com eles”.

Mas nada foi igual àquela noite dos Namorados, de 14 de fevereiro de 2004. “Tinha amigos no Ministério Público que me avisaram de que ia haver uma grande rusga”, recorda o empresário.

Camilo não estava. Observava ao longe o movimento do negócio. Tentava manter-se omnipresente através do telefone, mas afastado o suficiente para não ser apanhado na rusga que sabia estar a ser preparada para aqueles dias. E ainda a noite não ia a meio quando agentes da polícia e inspetores do SEF lhe entraram de metralhadoras e cabeça tapada pela discoteca dentro, ordenando “mulheres para um lado e clientes para outro” e lhe fecharam a casa. Metros ao lado, Camilo recebeu uma chamada do gerente do ML. “A casa caiu, Camilo”. “Caiu? Alguém está ferido?”, respondeu-lhe o dono, ignorando a metáfora, até perceber que não só a sua, mas todas as casas de alterne tinham sido fechadas em Bragança. Para nunca mais abrirem. Camilo desapareceu nessa noite do radar das autoridades.

A FUGA

Dirigiu-se a Alcanices, em Espanha, e na mesma noite em que viu arruinado o negócio que lhe garantia uma vida de luxo há sete anos, negociou a compra do ‘Club Playboy’, um bar do outro lado da fronteira. Mulheres e restantes funcionários foram transferidos para lá. Mas não duraria mais de meio ano até que as autoridades espanholas o pressionassem para acabar com o negócio.

E ao perceber que mais cedo ou mais tarde seria apanhado, voou desde o aeroporto de Madrid até ao Brasil, para só voltar daí a quase uma década.

Mais tarde, Camilo seria acusado num julgamento à revelia por 144 crimes de lenocínio e um crime de auxílio à emigração ilegal. Segundo o Tribunal da Comarca de Bragança, as “subidas” no ML, onde se provou viverem uma média de 20 mulheres, rendiam por dia pelo menos 600 euros e na ‘Bruxa’ rendiam uma média de 250 euros diários.

Nas contas da acusação, entre 2003 e a data do seu encerramento tinham passado 210 mulheres pelo ML para trabalhar na prostituição. Camilo diz que só lá trabalharam três portuguesas.

Na acusação do Ministério Público, é dito que Camilo recrutava mulheres do estrangeiro, especialmente do Brasil, a quem pagava passagens aéreas com valores inflacionados que iam sendo descontados no trabalho diário das mulheres. Além disso, obrigava-as a ficar enquanto não pagassem a dívida.

Ao Expresso, o empresário nega. “Se isso fosse assim, as mulheres fugiam e iam à polícia. E a verdade é que nunca lá entrou uma denúncia. Passar aqui três meses rendia muito mais do que três anos na terra delas”, argumenta. Mas, de facto, muitas ultrapassaram o tempo limite de legalidade no país, permanecendo ilegais.

Somando tudo, entre cartões de entrada, shows de strip, bebidas e atos sexuais, o Ministério Público considerou que o empresário e a esposa lucraram ilicitamente 4 milhões e 700 mil euros. O montante, considerado perdido para o Estado, teria de ser pago pelos arguidos. Como consequência, o ML e a ‘Bruxa’ passaram para as mãos do Estado, bem como o recheio. Mesmo assim, sobrou uma dívida a exceder o milhão e 800 mil euros.

Em 2012, em recurso no Tribunal da Relação do Porto, os advogados de Camilo conseguiram ver o valor diminuir para “apenas” 313 mil euros a pagar ao Estado, tendo igualmente revogado a decisão anterior de declarar perdidos a favor do Estado os carros, os estabelecimentos ML e Bruxa e o recheio dos mesmos. Ao todo, Camilo seria condenado a oito anos de prisão.

A EMBOSCADA

Quando a notícia de um mandado de detenção internacional chegou ao Brasil, Camilo havia refeito a vida na terra da esposa e erguido uma empresa de construção civil com 20 funcionários. “Fui para o Brasil para não ir preso. Mas quando lá fui notificado pelo tribunal português tive medo”, confessa. O medo de ser preso no país natal da companheira, onde também o sogro já teria estado detido, levaram-no a uma decisão difícil: ia voltar a Portugal pelo próprio pé.

Escolheu um voo diferente do da família, para que aos filhos e à esposa não permanecesse na memória a imagem do pai e marido a ser detido. Mas quando aterrou no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, viu o passaporte a ser-lhe carimbado como se de um cidadão sem crimes se tratasse. “Desejaram-me as boas-vindas e eu pensei: ‘Então eu sou procurado pela Interpol, chego a Portugal e é isto?’”. Agradeceu e seguiu caminho.

Invariavelmente, nos meses seguintes, evitou Bragança. A vida passava por Setúbal, ia algumas vezes ao norte. Até que um dia foi convidado para um almoço por um amigo, a quem pede para evitarem Bragança. Acabam a almoçar em Alcanices, na vizinha Espanha.

Das memórias desse almoço pouco lhe sobra depois do primeiro gole no vinho. Quando acordou, estava algemado a passar a fronteira para o lado português. Tinha caído na esparrela de uma emboscada preparada pelas autoridades. E daí teve passagem direta para quatros anos de prisão efetiva, primeiro na cadeia de Paços de Ferreira e por fim no instituto prisional de Bragança.

Camilo saiu da prisão em 2018. Cumpriu algum tempo de domiciliária, até terminar a pena e decidir que não mais havia de viver em Portugal. Como negociante nato, em março abriu uma empresa na Suíça, de isolamentos, e é lá que refaz a vida.

Ao apartamento que mantém paredes-meias com o que resta do ML volta só de vez em quando, quase sempre de carro. Ainda agora são visíveis as dezenas de câmaras de vigilância a circundar o perímetro do edifício.

Só no ano passado o Tribunal de Bragança autorizou a avaliação do recheio do ML, assim como da sua habitação. O prejuízo pelos estragos e roubos ocorridos quando o património estava nas mãos do Estado, visíveis à vista desarmada naquilo que hoje é o esqueleto da antiga discoteca, ascendem aos 500 mil euros – mais do que o valor que Camilo ainda terá de pagar ao Estado. Nas suas contas, e vinte anos depois, ainda é o Estado que lhe deve dinheiro. Mas o processo está parado, até que volte a ter dinheiro para desbloquear os serviços dos advogados. A dívida não consegue pagar por alegar não ter dinheiro suficiente. “Como é que eles querem que eu pague se há 20 anos que as minhas contas estão apreendidas em favor do Estado?”, questiona.

De Bragança diz não guardar rancor. Nem das “mães”. Somente das autoridades. “Tinha aqui um património de dois milhões de euros que hoje não vale nada”, lamenta. Quer desfazer-se do que resta do ML e abandonar de vez a cidade que, afinal, só foi temporariamente sua.

8.3.23

PRESSUPOSTOS PARA UMA INTERVENÇÃO SOCIAL NO ÂMBITO DO COMBATE À POBREZA

Padre Joaquim Moreira, opinião, in Mensageiro de Bragança

Padre Jardim Moreira, presidente da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti Pobreza

Tendo em conta o momento crítico que atravessamos, o aumento intenso da pobreza, sobretudo dos grupos mais vulneráveis, a EAPN Portugal/Rede Europeia Anti Pobreza propõe uma reflexão sobre os desafios colocados às entidades com responsabilidades sociais, no que respeita a enfrentar este problema complexo, de natureza multidisciplinar, gerador de exclusão e de perda oportunidades e de capacidades.

Apesar do investimento em políticas sociais, nas duas últimas décadas em Portugal, os indicadores de pobreza monetária e de desigualdades são ainda bastante elevados, sendo Portugal um dos países europeus com taxas de incidência de pobreza mais altas. Não obstante o esforço redistributivo da proteção social dos últimos anos, do qual resultou alguma redução das desigualdades, da pobreza e exclusão social, este permanece como um dos grandes desafios que Portugal tem de enfrentar.

De acordo com um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) de 2018, Portugal é dos países desenvolvidos onde é mais difícil sair da pobreza ou, do outro lado, deixar de ser rico. Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio.

Porque é que é assim?

Pensamos que não tem sido considerado que a pobreza tem causas multidimensionais, e não basta apenas uma resposta monetária. O conceito de pobreza multidimensional refere-se à experiência e ao impacto da pobreza no percurso de vida das pessoas. As pessoas experienciam a pobreza como uma série de privações, não apenas como ‘dinheiro insuficiente’ – ou outras coisas, mas experiências, oportunidades, serviços e ambientes que outras pessoas aceitam como normais. Estas privações podem incluir desemprego e baixa intensidade laboral, recursos financeiros, acesso a educação de qualidade e a cuidados de saúde, integração social, apoio familiar, condições de alojamento e residência. As pessoas em situação de pobreza também podem ser vítimas de estigma, vergonha, discriminação, isolamento e exclusão da vida social, consequências negativas de decisões restritivas ou de curta duração, pior saúde mental e física e uma esperança de vida mais reduzida. Por outro lado, o impacto da pobreza multidimensional pode ser mitigado nos seus efeitos através de fatores pessoais, relacionais, sociais e culturais de apoio ou que diminuem danos, criam resiliência e resistência. Episódios de pobreza frequentes, pobreza muito profunda ou pobreza persistente (i.e que dura um longo período), pode enfraquecer a resiliência das pessoas, reforçando a sua pobreza e isolamento.

Será indispensável uma resposta pluridimensional, que conte com a participação das próprias pessoas em situação de pobreza. Lembramos o aforismo: ”nada por nós sem nós” e todos os atores que intervêm aos vários níveis territoriais, bem como um cuidado acompanhamento de proximidade.

Trabalhamos já há vários anos, com uma equipa de âmbito nacional, composta de alguns dos melhores especialistas na matéria, na apresentação de uma estratégia nacional de luta contra a pobreza.
Temos assistido, e bem, a uma grande sensibilidade por parte das autarquias e muitas juntas de freguesia, organizações sociais públicas e privadas, empresas e sociedade civil, a responder, cada um a seu modo, aos problemas e carências de muitos portugueses, nesta hora de pandemia que enfrentamos.
Penso que são pressupostos e condições que propiciam uma nova intervenção para uma sociedade mais respeitadora dos direitos humanos de todos os portugueses; de exigirmos o exercício verdadeiro da democracia, da defesa das vítimas da injustiça e não prioritariamente na defesa das elites.

Sabemos que muitos cidadãos (ãs) portugueses, vivem hoje em condições que não são compatíveis com a dignidade humana e com uma sociedade democrática; estamos conscientes de que uma parte considerável da população portuguesa não vê satisfeitas as suas necessidades básicas em domínios como educação, saúde, habitação, justiça, emprego e proteção social. Sabe-se que as diversas formas de desigualdade (de rendimento, de riqueza, de poder, etc) se entrelaçam e se reforçam mutuamente.

Os pressupostos essenciais do combate à pobreza são a participação, a intervenção em parceria, a abordagem territorial e a intervenção integrada (Jordi Estivill). Sendo todos eles importantes para o êxito da intervenção social, entendemos que existem, ainda fortes limitações, sobretudo quanto à participação e quanto à ação integrada, que devem ser corrigidas.

A multidimensionalidade do fenómeno da pobreza tem de ser reconhecida pelos programas, e dar lugar a respostas integradas que mobilizam competências e recursos de diversas especialidades e parcerias. A promoção do acesso de todos os cidadãos a um conjunto de direitos sociais, designadamente, a um rendimento mínimo, ao mercado de trabalho, à proteção social, à educação e formação, à habitação, a cuidados de saúde, a serviços e equipamentos sociais, constitui um desafio estratégico e exige uma articulação de políticas que conjugam três pilares da inclusão ativa: (1) Favorecer a melhoria do rendimento, (2) Apoiar a integração socioprofissional, (3) Proporcionar mais e melhor acesso a serviços.

Uma estratégia de luta contra a pobreza requer medidas de carácter transversal e a avaliação dos efeitos (positivos e ou negativos) que as políticas poderão ter sobre a pobreza e a exclusão social.

O sistema judicial é um instrumento central no exercício da democracia “como instrumento de adensamento da cidadania “

Diversos estudos têm demonstrado que as categorias sociais mais vulneráveis evidenciam uma maior dificuldade no exercício do direito, o que indica uma desigualdade da proteção dos interesses sociais, ou seja, uma desigualdade jurídica dos cidadãos. Por parte, dos mais desfavorecidos, também se traduz num maior desconhecimento dos direitos e uma maior propensão para a resignação, e pela sua fragilidade linguística enfrentam dificuldades acrescidas.

A pobreza e a desigualdade em Portugal constituem problemas profundos e multidimensionais que requerem uma ação política para serem erradicadas. A EAPN Portugal acredita que é hora de concretizar uma Estratégia Nacional que mude positiva e eficazmente o destino de quase dois milhões de pessoas em Portugal.

Mantemo-nos disponíveis para cooperar com as entidades nacionais, regionais e locais na procura de soluções e iniciativas para a superação da profunda crise económica e social que estamos a vivenciar, nomeadamente através do desenvolvimento de projetos experimentais junto de populações afetadas por situações de depressão social e pressão económica, nas suas várias vertentes, tendo em vista assegurar um acompanhamento próximo, inteligente e inovador. O combate à pobreza e exclusão social exige-nos, mais do que nunca, essa coragem transformadora e urgente.

Edição
3788

9.2.23

Reformados descobriram na ginástica uma forma mais saudável de passar o tempo

António G. Rodrigues,  in Mensageiro de Bragança

Há 16 anos que um grupo de ‘jovens’ reformados começou a praticar ginástica em conjunto, no Instituto Politécnico de Bragança, no âmbito de um projeto de investigação em desporto. Agora, quase duas décadas volvidas, são já cerca de 80 e não querem outra coisa.

“Venho por esta alegria e para sair de casa”, conta Amélia Cordeiro, que integra o grupo praticamente desde o início e garante que os ganhos têm sido muitos. “Sinto-me feliz. Há pessoas que, com a minha idade (72 anos), já não fazem metade do que eu faço”, aponta.

“É uma forma de sair de casa mais cedo”, diz Rosário Monteiro.

O projeto + Idade + Saúde começou em 2007, pelas mãos de Miguel Monteiro, docente de desporto na Escola Superior de Educação do IPB.

“O objetivo é proporcionar exercício físico regular aos mais velhos e, também, serve de lado experimental para avaliações e implementação de exercícios”, explicou ao Mensageiro.

Também serve de “local de estágios para alunos de desporto e educação social”, tendo dado origem “a várias teses de doutoramento”.

O grupo é dedicado a pessoas com mais de 65 anos. O participante mais veterano tem 90 anos e é brasileiro, pai de um aluno, sendo que a maioria são mulheres.
Neutério Pires, de Bragança, é outro dos participantes. No final de mais uma aula, de uma hora, aproveita para ficar à conversa com outros participantes, como Manuel Sarmento, que também integra o grupo desde o início.

“Vimos por tudo. Pela ginástica, pelo convívio. Os reformados não têm mais o que fazer”, apontam, a rir-se.

Lurdes Gomes, que entretanto se juntou à conversa, garante que “a diferença em termos físicos é muito grande” e que se sente “mais aliviada”.

Manuel Monteiro, originário do distrito do Porto, experimentou e gostou. “Vim, fiquei a gostar e continuei. Esta iniciativa é muito boa. Em vez de ir ao médico, venho aqui”, revela.

A brigantina Marta, a madeirense Fátima, a pacense Catarina, o caboverdiano Mauro e o brasileiro Samuel são os monitores de serviço e notam a evolução na turma ao longo do ano letivo.

“Para além de terem atividade física, faz com que não fiquem sempre fechados em casa. Assim, criam um grupo de amigos. Fazemos avaliações regulares e vê-se uma grande melhoria na flexibilidade e destreza”, garantem.

De acordo com Miguel Monteiro, o objetivo será encontrar um financiamento que permita estudar os benefícios deste programa também na prevenção de doenças degenerativas, como o Alzheimer.

“O número de pessoas idosas irá quase triplicar até 2050, e com isso, promover estratégias para um envelhecimento ativo a nível mundial são fundamentais para prevenir o surgimento e evolução de doenças crónicas não transmissíveis (DCNTs), tais como diabetes, doença cardíaca, hipertensão, obesidade, e doenças neurodegenerativas”, explicou Samuel, um dos investigadores do projeto.

“Nos últimos anos tem sido aplicado o treino multicomponente (TMC), caracterizado por ser um tipo de treino capaz de estimular melhorias nas capacidades físicas diferenciadas, tais como força muscular, capacidade aeróbia/cardíaca, flexibilidade, agilidade e equilíbrio dinâmico, além de proporcionar melhorias na qualidade de vida e bem-estar das pessoas idosas.

Ao longo dos anos, o projeto tem contado com um grupo médio de 50 idosos (o que é bastante expressivo em termos de investigação científica). Atualmente, tem corrido uma investigação de doutoramento, na qual, foi acrescentado um novo tipo de treino ao TMC, e esse treino é chamado de High Intensity Interval Training (HIIT), o qual, tem como principal característica produzir curtos períodos de exercício aeróbio em altas intensidades, intercalados por períodos de repouso curtos ou relativamente maiores, os quais, produzem um forte estímulo cardiorrespiratório e circulatório no organismo das pessoas idosas”, explicou ao Mensageiro.

Deste projeto já resultou um outro, o Rosa Ativo, para doentes oncológicos e que tem, atualmente, cerca de uma dúzia de participantes.
As aulas decorrem três vezes por semana e as inscrições estão, neste momento, encerradas, por questões logísticas.

Só quando houver desistências se poderão admitir novos participantes.

11.11.22

É urgente “relançar” o voluntariado porque algumas faixas abandonaram a atividade no pós pandemia

Glória Lopes, in Mensageiro de Bragança

O presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado (CPV) defendeu em Bragança, na passada sexta-feira, que é urgente “remobilizar” uma faixa do voluntariado. “Na pandemia, sobretudo uma faixa etária que foi mais obrigada a confinamento, e que ainda está dominada por um certo receio, tem que se fazer uma aproximação e dar-lhe uma motivação maior e ter uma sensibilização acrescida”, referiu Eugénio Fonseca no final do VIII Encontro Intermunicipal de Voluntariado, que se realizou em Bragança na passada quinta e na sexta-feira. “Estamos a notar que no campo universitário está a haver uma mobilização acrescida. No contexto nacional, no rácio comparativamente com outros países da Europa, ainda temos um trabalho muito grande para fazee face ao que sabemos ser a capacidade generosa do país e o compromisso mais consistente, relativamente à dádiva do tempo que os cidadãos poderiam dar. É esse trabalho que estamos a procurar fazer e tem sido o mote deste encontro: mobilizar as pessoas para esta prática de cidadania, a nível local”, referiu o responsável.

As dificuldades de relacionamento entre os bancos locais de voluntariado e as instituições preocupam a Confederação Portuguesa que quer promover “um maior encontro entre quem faz o recrutamento e quem pode receber essas pessoas”, explicou Eugénio Fonseca, sublinhando que quem já é voluntário “pode captar os outros.

Delegação da EAPN lançou guia de apoio para a vida autónoma dos jovens institucionalizados

GL, in Mensageiro de Bragança

O Núcleo Distrital de Bragança da EAPN lançou o GUIAR-(TE)! – Guia de Apoio para a Vida Autónoma dos jovens institucionalizados que aos 18 anos, por vontade própria, ou aos 25 por indicação estatal, deixam as casas de acolhimento.Trata-se de um instrumento que serve para ajudar na integração destes jovens, uma vez que se trata de um produto de capacitação, autonomização o orientação no pós- acolhimento. “Será um recurso facilitador para os técnicos trabalharem a autonomização dos jovens, mas sobretudo será um instrumento promotor da autonomia e facilitador no seu processo de inclusão e inserção social”, explicou em comunicado a delegação de Bragança da EAPN.

O Guia surgiu do desafio lançado aos participantes de uma das ações de formação promovidas pelo Núcleo Distrital de Bragança da EAPN em 2021 sob o tema “Como promover um acolhimento reparador nas crianças e jovens em risco”, cujo formador foi o João Pedro Gaspar, presidente da Plataforma PAJE. “As casas de acolhimento, por muito e bom trabalho de capacitação e de autonomização que realizem com estes jovens, finda a medida de promoção e proteção aos 18 anos por livre vontade do jovem ou aos 25 anos na eventualidade de andarem a estudar ou numa procura ativa de emprego, são lançados na sociedade sozinhos. Estes jovens enfrentam prematura e precocemente a responsabilidade de se tornarem autossuficientes, sem uma base de segurança e estabilidade”, explicou uma fonte da EAPN.

Na ausência de respostas de acompanhamento e integração e na maioria dos casos e de uma retaguarda familiar capaz de se constituir como uma rede de segurança e apoio, exige-se que estes jovens autonomamente consigam lidar com os desafios de uma vida autónoma, se consigam inserir social e profissionalmente e promovam o seu desenvolvimento sozinhos. “Na impossibilidade de o fazerem e conseguirem, muitos destes jovens são arrastados para a situação de pobreza, de exclusão social e muitos até enveredam pelo mundo da delinquência”, acrescenta a fonte.


2.11.22

Projeto cultural de escola de Bragança proporciona partilha entre crianças e idosos

 in Porto Canal

O projeto cultural “Bike Solidária” da Escola Miguel Torga de Bragança leva, neste ano letivo, os alunos até um lar de idosos para ouvirem “os contadores de tradições” ou participarem nos “serões de antigamente”, divulgaram esta segunda-feira os responsáveis.

Depois de no ano anterior, o projeto ter levado os alunos dos 5.º e 6.º anos a conhecer o património da cidade de Bragança, este ano vai proporcionar a experiência de “apadrinhar um avô” entre os utentes da Fundação Betânia.

A iniciativa “Bike Solidária” está integrada no Plano Nacional das Artes - Projeto Cultural de Escola Arte(S) de Crescer e os responsáveis na Escola Miguel Torga de Bragança decidiram manter a temática da bicicleta, incentivando os alunos ao uso deste meio de transporte, e promover a solidariedade e a interação intergeracional.

Ao longo do ano letivo, os alunos dos 5.º e 6.º anos vão deslocar-se de bicicleta até à estrutura residencial para idosos da Fundação Betânia, onde são recebidos pelos mais velhos e terão a oportunidade de participar em várias atividades.

“O objetivo é proporcionar aos estudantes a possibilidade de conhecer o património cultural imaterial valorizando os saberes, os ofícios e a experiência de vida dos mais velhos”, segundo um dos professores envolvidos no projeto, José Domingues.

Em simultâneo, os promotores da iniciativa acreditam que “a presença dos jovens naquela instituição é uma forma de promover o envelhecimento ativo e o contacto intergeracional”.

A primeira atividade decorre na quinta-feira e os mais novos vão começar por participar num bingo de apadrinhamento, em que, através dos números que saírem, cada aluno fica destinado a um dos idosos da instituição.

Ao longo do ano letivo, o grupo de idosos vai ensinar às crianças a fazer tricot/crochet, explicando “todo o processo, deste a tosquia das ovelhas até ao tratamento da lã”, segundo a diretora da Fundação Betânia, Paula Pimentel.

Noutras sessões, os alunos vão ouvir “Contadores das Tradições” como a vindima, a apanha da castanha, a apanha do marmelo, a apanha da azeitona, a apanha dos frutos da época.

Pretende-se com esta sessão a partilha das profissões mais antigas e o modo de vida, associando a cada atividade músicas tradicionais e cantares.

Uma terceira oficina destina-se a criar uma peça de teatro sobre “Os serões de antigamente”, em que “os alunos e os utentes vão ter de preparar em conjunto o cenário para recriar os serões, com mochos antigos, lenha, o pote, colher de pau, faca para torrada, assador de castanhas, mantas farrapeiras etc,”.

As personagens podem incluir as utentes da Betânia a fazer na meia, na renda, a fazer a cevada no pote e as torradas à lareira e assador de castanhas, como descrevem os promotores.

O objetivo final é “Criar um Livro de Testemunhos”, em conjunto entre idosos e alunos.

15.6.21

Iniciada fase de entrevistas para o programa emergencial de auxílio-desemprego

in Jornal Mais Bragança

Foi iniciada na última segunda-feira (07/06), no prédio da Secretaria Municipal de Ação e Desenvolvimento Social (SEMADS), o atendimento às pessoas que se cadastraram no Programa Emergencial de Auxílio-Desemprego e Qualificação Profissional, uma iniciativa da Administração Jesus Chedid e Amauri Sodré que visa minimizar os impactos provocados pela pandemia do Coronavírus.

A meta do programa é criar até 1.500 bolsas auxílio para qualificação profissional, sendo que 5% será destinado para as pessoas com deficiência física, com o pagamento mensal de R$ 1.000,00 por 8 horas diárias de qualificação através de cursos e prática através de prestação de serviço à comunidade, visando a elevação de conhecimento profissional, escolaridade e alfabetização. Ao bolsista será fornecido também cesta básica, condicionada à assiduidade do programa, seguro de acidentes pessoais e vale-transporte. O período do Programa é de 12 meses, prorrogável por até 12 meses.


Os serviços de atendimentos estão sendo realizados pela empresa terceirizada SP Soluções Empresariais (Sertec), no horário das 8h às 17h30. A funcionária Wedja Silva comentou sobre o comparecimento dos inscritos no programa. “Estamos solicitando a presença de todos que foram inscritos no programa, através dos telefones que estão nas fichas de inscrição. Alguns inscritos estão desistindo por vários motivos particulares e com isso estamos convocando os demais na sequência. Quem tiver dúvida sobre o programa é só comparecer aqui na SEMADS que estamos à disposição para as orientações que se façam necessária”, disse Wedja.

A Secretaria da SEMADS, Sandra Teixeira, solicita que todos os chamados compareçam no dia e hora marcada para a efetivação da inscrição no programa até o próximo dia 11 de junho, conforme lista divulgada na edição 1.080A (Edição Extra) da Imprensa Oficial do Município, da última sexta-feira (04/06) – veja lista no link: https://dosp.com.br/exibe_do.php?i=MTczNjM3.

Nesta primeira semana, foram chamados cerca de 500 inscritos. “Nem todas as inscrições feitas foram aceitas para o programa, por não estarem qualificadas conforme o regulamento do edital. Tivemos inscrições de pessoas que residem na cidade há menos de dois anos, inscrições em duplicidade, pessoas menores de 18 anos. Com isso o próprio sistema invalidou essas inscrições. Aqueles que foram qualificados, conforme edital, estão sendo chamados pela empresa terceirizada para que façam a entrevista socioeconômica e apresentem as documentações solicitadas. Quem não comparecer no dia e hora marcada, até o próximo dia 11, serão desclassificadas”, afirmou a Secretária Sandra Teixeira.

10.3.21

Maioria dos imigrantes de Bragança já se sentiu discriminado

Glória Lopes, in JN

Um estudo sobre a comunidade de imigrantes residente em Bragança aponta que a maioria já viveu situações de discriminação.

O inquérito tem uma amostra constituída por 60 pessoas, nomeadamente imigrantes residentes, requerentes ou não de asilo, trabalhadores, desempregados e estudantes-trabalhadores. Em 57 entrevistados, "39 referiram situações em que foram alvo de atitudes discriminatórias de índole diversa e onze assinalam não terem vivenciado qualquer situação negativa". Além disso, 22 inquiridos admitem a discriminação racial, relacionada com a cor da pele, que é percebida com uma conotação negativa.

"O preconceito racial não é subtil, mas totalmente aberto e rude como uma das mais insidiosas causas de incómodo no quotidiano", refere o trabalho realizado nos meses de setembro e outubro de 2020, no âmbito do "Estudo Imigrantes: Sombras e Claridades na Comunidade Brigantina", pela delegação distrital da Rede Europeia Anti Pobreza (EAPN), em colaboração com a Escola Superior de Educação.

Este foi o primeiro estudo do género a ser realizado no concelho, referiu Ivone Florência, da EAPN.

É na altura de arrendar casas, no mercado de trabalho, por parte da entidade patronal, e no atendimento dos serviços públicos, comerciais ou empresariais, que os imigrantes se sentem mais discriminados.

Ainda assim, no que respeita ao acolhimento pela comunidade verifica-se que 40% considera-o "adequado" e 3,3% "pouco adequado".

Ivone Florência explicou que apesar do reduzido numero de inquiridos, o estudo " é um contributo relevante dado evidenciar grandes temas da imigração, como a discriminação, o preconceito existentes, a eterna burocratização da legalização, a carência de emprego e o não reconhecimento de direitos".

20.5.20

Bragança alberga pessoas sem-abrigo

Olímpia Mairos, in RR

A medida é temporária para pessoas em risco, durante a pandemia da Covida-19.

A Câmara Municipal de Bragança var dar alojamento temporário a pessoas em situação de sem-abrigo. A medida surge no âmbito da implementação de um Plano de Contingência para pessoas em risco, durante a prevalência da pandemia provocada pela Covid-19.

A criação de alojamento alternativo temporário (AAT) resulta de uma parceria entre o município de Bragança, o Centro Distrital de Bragança do Instituto de Segurança Social, a Associação Socorros Mútuos dos Artistas de Bragança e a Associação Reaprender a Viver.

“É uma resposta social de emergência, com vista a evitar ou atenuar a exclusão severa a que se expõe este grupo de risco, sobretudo durante a situação atual vivida em todo o País”, explica em a autarquia em comunicado.
Para poderem “usufruir” desta medida social, os beneficiários, em situação de sem abrigo e que vivem numa situação de grave carência económica e com incapacidade para assegurar uma solução habitacional condigna, comprometeram-se com um conjunto de obrigações, nomeadamente o cumprimento das normas gerais de funcionamento, do acordo de cedência e horários definidos.

De entre as obrigações destaca-se a abstenção de provocar ruídos de qualquer natureza, especialmente no período de silêncio, entre as 23h00 e as 07h00, tanto no AAT, como nos espaços comuns do prédio.
Também não poderão realizar qualquer tipo de atividade ou ação que provoque danos nos espaços e equipamentos do AAT, bem como nos espaços comuns do prédio.

Os beneficiários da medida devem ainda “tratar com respeito e cortesia os corresidentes e moradores do prédio”, bem como “manter o alojamento limpo e arrumado a expensas próprias” e “permitir o acesso de técnicos devidamente identificados, sempre que necessário, às áreas comuns e ao espaço de privacidade que está destinado ao beneficiário”.

De acordo com o compromisso assinado “a restituição do AAT” deve acontecer “no exato estado em que o mesmo se encontrava na data da celebração do acordo, ressalvadas as deteriorações decorrentes da sua normal e prudente utilização”.

Já ao município de Bragança e às restantes entidades parceiras cabe a responsabilidade de assegurar o alojamento transitório e temporário, apoio e acompanhamento psicossocial, pagamento de despesas de funcionamento do alojamento, como eletricidade, água e gás, serviços de limpeza de roupa de cama e serviços de alimentação diária.

No imediato, a autarquia de Bragança vai alojar quatro sem abrigo.


26.3.20

Proteção Civil Distrital pede quarentena para migrantes nacionais e voluntários para IPSS

in Mensageiro de Bragança Online

A Comissão Distrital de Proteção Civil de Bragança solicitou hoje ao Ministério da Administração Interna que decrete o confinamento por quarentena de emigrantes e de cidadãos de outras zonas do país, sobretudo devido “à densidade populacional e índice de envelhecimento” da região.

A comissão, hoje reunida, decidiu solicitar ao Ministério da Saúde a disponibilização da informação diária por concelho, pois a informação que tem sido disponibilizada pela ARS “é desfasada”, não sendo, por isso, “real e exata”.

Por fim, e tendo em conta os casos de quarentena de trabalhadores de IPSS do distrito, foi criada uma bolsa de voluntariado através do link http://unitate.typeform.com/to/aNoBPe.

21.2.18

Bragança inaugura abrigo para vítimas

in Público on-line

O primeiro abrigo de emergência do Nordeste transmontano para acolher vítimas de violência doméstica abre na segunda-feira, passando a dar resposta a situações de perigo até agora encaminhadas para pensões.

Bragança abre o primeiro Centro de Acolhimento de Emergência para Vítimas de Violência Doméstica Paulo Pimenta

Trata-se do primeiro Centro de Acolhimento de Emergência para Vítimas de Violência Doméstica nesta região criado pela Associação de Socorros Mútuos dos Artistas de Bragança (ASMAB) responsável pelo Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica de Bragança.

Este centro tem capacidade para receber nove pessoas por um período de 15 dias a um mês, depois do qual as vítimas podem seguir a sua vida se tiverem reunidas condições ou ser encaminhadas para casas abrigo, onde podem permanecer entre seis meses a um ano, como explicou à Lusa a técnica Teresa Fernandes.
O distrito de Bragança tem apenas uma casa-abrigo com cinco vagas, da Santa Casa da Misericórdia de Bragança, mas não tinha resposta para situações em que é necessário retirar de imediato as vítimas da situação de risco, avaliado pelas forças de segurança e tribunais. Nessas situações, até agora as vítimas eram encaminhadas para pensões, como explicou Teresa Fernandes, por falta da resposta que passa a ser dada a partir de segunda-feira depois de um investimento de 118 mil euros financiados por fundos comunitários do Portugal 2020.
De acordo com dados oficiais, nos últimos dois anos, em 2017 e 2016, o núcleo de Bragança de apoio à vítima recebeu 48 solicitações, 24 em cada ano, para resolver situações de emergência. Em todo o país, incluindo as ilhas, existem 20 centros de emergência e 44 casas abrigo.
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“É inevitável” o Ministério Público falhar nos casos de violência doméstica

Equipa para casos de violência doméstica pode corrigir o que está mal

A nova resposta para acolhimento de emergência em Bragança vai garantir "maior segurança e acompanhamento técnico permanente" às vítimas, segundo ainda a técnica. Estas respostas sociais asseguram alojamento e as necessidades básicas às pessoas acolhidas, regra geral mulheres e crianças, e acompanhamento de uma rede parceiros, nomeadamente da Segurança Social.

O centro de emergência de Bragança irá funcionar durante 15 meses, o período de tempo em que a ASMAB espera ser possível construir uma nova casa abrigo ambicionada há anos, que já tem terreno e projecto e aguarda aprovação do Instituto da Segurança Social para avançar com o concurso público para obra.

13.9.17

Projeto de aldeia de Bragança para idosos apontado para replicar no país

in Diário de Notícias

O investigador António Fonseca apontou hoje o projeto da "Aldeia Pedagógica da Portela", em Bragança, como um exemplo a replicar pelo país por promover o envelhecimento ativo atendendo aos interesses e vivências dos idosos.

Professor da Universidade Católica do Porto, António Fonseca é autor de várias obras dedicadas às temáticas das ciências psicológicas e do envelhecimento e aceitou avaliar os resultados do projeto que está a ser desenvolvido pela associação de jovens Azimute, na aldeia da Portela.

Nos últimos sete anos, a associação impulsionou os "mestres" da aldeia a partilharem os saberes com os mais novos e, mais recentemente, com outros idosos de lares de Bragança com resultados "positivos" no combate ao isolamento e estabelecimento de relações, como comprova um estudo realizado por uma equipa coordenada pelo investigador.

O reatar de relações, o regresso às sensações das memórias, o trabalho manual ou a simples caminhada de casa para a associação revelaram, segundo o estudo apresentado hoje, benefícios, nomeadamente ao nível da saúde mental e física, com melhoria inclusive dos movimentos.

Há sete anos que a Azimute trabalha com os mais velhos, primeiro os da aldeia e no último ano e meio de quatro instituições de Bragança, concretamente a Misericórdia, Obra Padre Miguel, Fundação Betânia e Santo Condestável.

O projeto tinha a duração de 15 meses, mas continua devido à recetividade, apesar de ter acabado o financiamento atribuído pelo BPI-Sénior, como indicou João Cameira, presidente da Azimute.

Durante esses 15 meses, a associação pediu a parceria da equipa da Universidade Católica para avaliar os resultados do projeto que juntava os utentes das quatro instituições periodicamente em atividades na antiga escola primária da Portela, recuperada para sede da Azimute.

O estudo foi realizado pelos mestrandos André Soares e Diana Barros, sob a supervisão de António Fonseca, e as conclusões levam o investigador a apontar este projeto como um exemplo a replicar pelo país.

Para o especialista, "este é um projeto importante porque está inserido na comunidade, aproveita os recursos da comunidade para levar as pessoas mais velhas, que vivem em instituições, a participarem em atividades na comunidade e que são para elas significativas".

"É um projeto que não inventa, que usa os recursos da comunidade, nomeadamente os saberes que "mestres" têm de fazer o pão, as compotas, e saberes relacionados com a vida rural, para proporcionar às pessoas que vivem em instituições implementarem as suas memórias e puderem realizá-las", apontou.

António Fonseca usa a imagem de uma excursão para assinalar o que distingue este projeto de algumas atividades que são realizadas pelas instituições de acolhimento de idosos.

"A grande diferença entre a excursão e a participação é que quando nós fazemos uma excursão, levamos as pessoas ao sítios, mas não as fazemos participar naquilo que os sítios podem oferecer", comparou.

Nesse sentido, alerta que "há muitas atividades que são propostas aos idosos, mas que não têm a ver com os interesses deles, que são atividades que poderão ser interessantes sob o ponto de vista de quem as propõe, mas não interessantes para quem as realiza".

"Eu posso promover o isolamento colocando a pessoa à frente do computador a falar para um Skype, mas não estou a promover relações pessoais, de toque, de intimidade, de riso, de humor", observou.

António Fonseca defende que, em vez da obsessão em estimular os mais velhos com programas, as instituições deviam proporcionar-lhes "uma rotina do dia a adia em que aquilo que é uma vida mais ou menos parecida com a vida comum esteja presente".

"As instituições estão pensadas muito no modelo dos anos 70 e 80, que eram instituições pensadas para proteger os idosos e, portanto esse modelo aproxima-se hoje muito mais de um modelo hospitalar do que daquilo que seria o ideal do modelo assistencial para idosos", observou.

A associação Azimute tem já um novo projeto com financiamento assegurado para testar durante três anos o modelo da Portela em mais três aldeias, outra do concelho de Bragança e duas do concelho de Vimioso, como adiantou o presidente João Cameira.

Segundo disse, esta nova etapa ainda está em fase de preparação e, por isso, ainda não revelou o nome das três aldeias onde vai chegar o projeto da Portela que nos últimos anos envolveu mais de 250 idosos, entre os "mestres" da aldeia e os utentes de instituições.

27.6.16

A prostituição diz muito sobre a sociedade

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

O manifesto das auto-intituladas “Mães de Bragança” fez José Machado Pais mergulhar num estudo que lhe levou uma dúzia de anos a concluir. O enfoque não tem de estar nas “mães” ou nas “putas”, pode estar nos maridos-clientes, prisioneiros na relação de submissão a que sujeitam as suas mulheres.

Lembra-se do movimento das “Mães de Bragança”? Absolviam os maridos. Perdoavam-lhes os desvarios, porque eles, “coitados”, eram “amarrados” pelas “sedutoras”, “macumbeiras”, “pecadoras” vindas de além-mar. As “brasileiras” valiam-se de “falinhas mansas”, “drogas”, “feitiços”, “rezas”, “mezinhas”, “bruxarias”, “pétalas de rosa”, “raízes de amor-perfeito” para os deixar “de cabeça perdida”.

Muito se escreveu sobre o assunto nos jornais e na Net. E aí a culpa era quase sempre das mulheres que eles tinham em casa. Era como se elas os empurrassem. “A maior parte das críticas partia das hostes masculinas”, afiança o sociólogo José Machado Pais. “Reivindicavam uma ‘entrega sexual mais activa’ por parte das mulheres, o ‘fim dos tabus sexuais’ e o abandono da ‘moral caduca’.”

Os homens nem precisavam de se redimir. As “danadas”, nota José Machado Pais, eram sempre as mulheres: ou se excediam na sedução e no fervor sexual ou, pelo contrário, ficavam muito aquém do desejado.

Até os homens se viam como vítimas. Eram uns machos. E “como entre os desejos sexuais e a sua satisfação se interpunham as persistentes dores de cabeça das mulheres, coitados, viam-se obrigados a satisfazer os défices sexuais noutro lado”. Estavam “carentes, confusos, necessitados”.
Capa do álbum "Espacial Popular Mix", do Duo Abelhudos

“Estas narrativas, dominantes no universo masculino, surgem em muitos CD de música popular”, explica o investigador. “Na feira de Bragança, mesmo ao lado do mercado, ouvi muitas dessas músicas, alusivas a carências sexuais. Por exemplo: ‘Ó Maria dá-me o bife/ Dá-me o bifinho agora/ Se me não deres o bife/ Maria vou jantar fora’.”

José Machado Pais chamou-lhe Enredos sexuais, tradição e mudança: as mães, os zecas e as sedutoras de além-mar. Não é um livro sobre trabalho sexual, imigração clandestina ou tráfico de pessoas, este que acaba de ser editado pela Imprensa de Ciências Sociais. É “um debate sobre os valores e as representações sociais que encapotam a sexualidade”. É que “a prostituição diz muito sobre a sociedade”.

O movimento “Mães de Bragança” começou quando duas mulheres descobriram que os maridos “padeciam de semelhante maleita”: chegavam a casa tarde, com desculpas duvidosas e restos de perfume. “A solidariedade feminina permitiu um trabalho de espionagem em rede”, diz o sociólogo José Machado Pais
Sexualidade reprimida

Em Outubro de 2003, quando Bragança fez capa da revista Time, o investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa sentiu uma “enorme tentação” de viajar até lá. Os amigos avisaram-no: “Não te metas nesses terrenos”; “arriscas-te a ser perseguido por mães, maridos, proprietários de casas de alterne, putas, polícias, bispos e até pela tua mulher.” Nada o impediu de fazer várias viagens de 400 quilómetros para, ao longo de 12 anos, observar, conversar com trabalhadoras do sexo, clientes, mulheres de clientes, donos de bares de alterne e de cafés, barbeiros, cabeleireiras, agentes imobiliários, e vasculhar arquivos de jornais. Queria “desvendar os mecanismos sociais de produção de estereótipos associados quer às trabalhadoras do sexo (tratadas por putas, brasileiras ou macumbeiras), quer às mães (apelidadas de beatas ou papa-hóstias)”.

Havia muita sexualidade reprimida por esse país fora. Não convém esquecer que, “entre 1926 e 1974, Portugal viveu numa ditadura conservadora que impunha uma forte moral de contenção sobre a sexualidade”. As mentalidades iam-se abrindo à força do desenvolvimento — indissociável da emigração e da adesão à União Europeia — e Bragança era um exemplo disso mesmo. Em 30 anos, o número de habitantes dedicados ao sector primário passara de 70% para 10%. A área urbana triplicara. O sector do comércio e serviços expandira-se. Na cidade reproduziam-se bares de alterne e cafés “de subir”, isto é, com quartos no piso superior que podiam ser arrendados à hora.
Em Outubro de 2003, Bragança fez capa da revista “Time”

Desde o desembarque das caravelas no Brasil, as brasileiras povoam as fantasias dos portugueses. Primeiro, eram as índias sedutoras. Depois, também as mulatas. Esse imaginário persiste “como uma herança colonial”. E, com o movimento das “Mães de Bragança”, ganhou força o estereótipo da brasileira como mulher acessível, disponível, erótica e sensual

Não era só o aumento do poder de compra. “A euforia masculina em torno dos bares de alterne foi também nutrida por uma espécie de mobilização sexual não de todo alheia à crescente influência dos media”, escreve José Machado Pais. O cinema e a televisão “concorriam com os sermões da paróquia no que às moralidades quotidianas dizia respeito”. Perante o afrouxar da ordem moralista ou repressiva, muitos homens deixavam-se levar pelos impulsos sexuais. Iam às casas de alterne para “beber um copo”, “lavar a vista”, “desenferrujar os zecas”.

O movimento “Mães de Bragança” começou quando duas mulheres descobriram que os maridos “padeciam de semelhante maleita”: chegavam a casa tarde, com desculpas duvidosas e restos de perfume. “A solidariedade feminina permitiu um trabalho de espionagem em rede.” Revoltadas, redigiram um manifesto e entregaram-no ao presidente da câmara, ao governador civil, ao comandante da polícia. Com isso, despertaram a atenção de meios de comunicação social dentro e fora do país. Bragança entrou na rota do turismo sexual. “Curiosos vindos de Espanha, mas também de outros países europeus, passaram a frequentar a pequena cidade e a desfrutar dos prazeres do alterne”, recorda o investigador. Apesar da fama, “nada se passava de diferente de outras regiões do país”.
As “meninas” do Brasil

Haveria 80 a 100 trabalhadoras do sexo, a maior parte oriundas do Brasil. Os clientes e os empresários da noite, mas também os comerciantes e os taxistas que com elas ganhavam dinheiro, chamavam-lhes “meninas”. As mulheres dos clientes, auto-intitulando-se “mães”, chamavam-lhes “putas”. Recatadas, fieis, trabalhadoras, sentiam-se “ultrajadas no seu estatuto de mães”, “desvalorizadas, traídas, trocadas”. Tinham medo de “perder os maridos, a estabilidade económica, a reputação”. E queriam recuperar o seu “estatuto fragilizado” e intimidar as trabalhadoras do sexo, expulsá-las.

As “Mães de Bragança”, na opinião de José Machado Pais, constituíram um movimento social. Havia nelas uma revolta que era um “reflexo de uma conquista de liberdade”, ainda que uma “liberdade não liberta das pendências do passado, como as idas à bruxa para quebrarem o feitiço do chá”.

“O meu marido estava cheio de porcarias dentro dele”, afiançou uma delas a José Machado Pais. “Pretos e brasileiros em bruxarias são terríveis”, disse-lhe ainda. “Elas também usam um chá de amarração.” Como livrou o marido disso tudo?, perguntou ele. “Através da oração”, respondeu ela.

Nada está como antes da capa da Time que indiciava a tomada de Bragança por trabalhadoras do sexo. Com o alarido que se seguiu ao manifesto, o despontar da crise económica, a intensificação das rusgas feitas pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, muitas trabalhadoras do sexo instalaram-se do outro lado da fronteira

Quando um homem casado vai ao bar de alterne é sinal de quebra de estabilidade conjugal, diz o investigador. “Ou a crise desemboca em divórcio ou se busca o restabelecimento da ordem danificada.” Em vez de se revoltarem contra os maridos, de reconhecerem as suas escolhas, as mulheres acusam as trabalhadoras do sexo, dizem que elas lhos roubarem através de meios ilícitos. “A desculpabilização dos homens alimenta a esperança de se salvar o casamento.”

Desde o desembarque das caravelas no Brasil, as brasileiras povoam as fantasias dos portugueses. Primeiro, eram as índias sedutoras. Depois, também as mulatas. Esse imaginário persiste “como uma herança colonial”. E, com o movimento das “Mães de Bragança”, ganhou força o estereótipo da brasileira como mulher acessível, disponível, erótica e sensual. “Elas passaram a constituir uma figura dramática compósita, fonte de desejo e de maldição, de prazer e de dor”, menciona o investigador. Do outro lado do Atlântico também existem estereótipos sobre os portugueses. Os brasileiros vêem os portugueses como ingénuos, “burros”, avaros, exploradores, donos de incontornáveis apetites sexuais, a quem as mulheres poderiam dar a volta.
Cristo imóvel na cruz

Para muitos homens, em Trás-os-Montes, “‘ir às putas’ é um sinal de virilidade, uma marca de masculinidade”. Alguns até parecem ignorar que as trabalhadoras do sexo vendem ilusões, “fingem excitação para excitar os clientes”, despachar o serviço mais depressa, ganhar mais dinheiro.

No entender do investigador, “a sexualidade da mulher representada como ‘um Cristo imóvel na cruz’ revela muito mais do que uma rotina sexual. Representa, sobretudo, para muitas mulheres, uma rotina de vida, de uma vida sacrificada, que a crucifica nas suas labutas quotidianas”. “A dignidade conferida ao estatuto de esposa e de mãe exige a prática de uma sexualidade dominada”

Pelo que contaram trabalhadoras do sexo ao investigador, alguns não seriam capazes de grande desempenho. Por vezes, os “zecas” enferrujavam mesmo. Elas serviam-se então de todas as suas habilidades e estratégias, incluindo o uso de acessórios, como vibradores. Só que muitos dos que gostavam de ter novas experiências sexuais não aceitavam que as suas mulheres as tivessem.

José Machado pais dá o exemplo de um homem que se queixou que a sua mulher, na cama, parecia “um Cristo imóvel na cruz”. Ele lamentava-se, desse modo, “do carácter rotineiro e roteirizado da sexualidade, isto é, de um script sexual de natureza cultural, o sexo à ‘missionário’ ou à ‘papai-mamãe’”. Ora, quando os homens recorriam à prostituição era também porque se sentiam prisioneiros de si próprios na relação de submissão a que sujeitavam as suas mulheres, analisa.

No entender do investigador, “a sexualidade da mulher representada como ‘um Cristo imóvel na cruz’ revela muito mais do que uma rotina sexual. Representa, sobretudo, para muitas mulheres, uma rotina de vida, de uma vida sacrificada, que a crucifica nas suas labutas quotidianas”. “A dignidade conferida ao estatuto de esposa e de mãe exige a prática de uma sexualidade dominada”, nota. “Às mulheres exige-se abnegação, sacrifício, esquecimento de si mesmas.” Sobrecarregadas com tarefas, são “acusadas de histerismos, maus humores, feitios ruins”. “Alguns casais pouco mais partilham do que as rabugices, o rolo de papel higiénico e o leito conjugal.”

Nada está como antes da capa da Time que indiciava a tomada de Bragança por trabalhadoras do sexo. Com o alarido que se seguiu ao manifesto, o despontar da crise económica, a intensificação das rusgas feitas pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, muitas trabalhadoras do sexo instalaram-se do outro lado da fronteira. Quando deixaram de valer “as malbaratadas justificações das voltinhas a Espanha para atestar o depósito de gasolina, algumas meninas montaram apartamentos em Bragança e redondezas”. Queixam-se de quebra de clientela.

Não será só falta de dinheiro. Algumas mulheres “começaram a deixar esturricar a comida, a tolerar os buracos nas meias dos maridos, a desleixar-se nas tarefas domésticas”, garante o sociólogo. Arranjaram tempo para frequentar salões de beleza, cuidar mais da sua imagem. E “a estabilidade matrimonial começou a ceder à influência de novas correntes socioculturais, propensas à valorização dos enlaces efectivos eróticos e não apenas à dos vínculos patrimoniais”.

3.12.14

Misericórdia de Bragança espera acudir 300 famílias por mês com novo projecto

in Porto Canal

Bragança, 01 dez (Lusa) -- A Santa Casa da Misericórdia de Bragança espera atender cerca de 300 famílias carenciadas por mês num projeto único no Nordeste Transmontano de combate à pobreza e exclusão, divulgou hoje a instituição.

A Misericórdia de Bragança é a única nesta região a integrar uma rede de 12 projetos-piloto em todo o país, que consistem na criação de uma Rede Local de Intervenção Social (RLIS) para um intervenção articulada de entidades para acudir a casos de emergência social e, numa fase posterior, dar também apoio em prestações pecuniárias.

A RLIS de Bragança está a funcionar desde novembro com uma duração de oito meses, criou cinco postos de trabalho e as previsões da instituição gestora são de atender "até 300 famílias por mês e acompanhar cerca de 150 em todas as etapas necessárias até à inserção na comunidade com aquisição de novas competências e maior independência económica e social".

Os casos chegam à instituição "através da Segurança Social, detetados pela Santa Casa, ou então, serão as próprias pessoas a procurar ajuda diretamente", explicou Eleutério Alves, provedor da Misericórdia.

O atendimento é feito nas instalações da Santa Casa e, segundo o provedor, "um dos aspetos inovadores deste projeto é que está previsto, numa fase posterior, o apoio através de prestações pecuniárias para situações de emergência e uma aposta na qualificação das pessoas para que sejam integradas posteriormente no mercado de trabalho".

"O objetivo central ressalva é diminuir a pobreza para que haja cada vez mais igualdade, justiça e solidariedade na nossa comunidade", acrescentou.

Esta rede local "assenta numa lógica de intervenção articulada e integrada de entidades com responsabilidades no desenvolvimento da ação social que visa potenciar uma atuação concertada dos diversos organismos e entidades de modo a promover a implementação de novos mecanismos de atuação e diferentes estratégias de ação em resposta às necessidades sociais".

Além de Bragança, estão também em curso projetos-piloto nos Vila Real, Braga, Porto, Évora, Setúbal, Guarda, Aveiro e Coimbra.

Estes projetos têm como missão garantir o acolhimento social imediato em situações de emergência, disponibilizar apoios financeiros de carácter eventual a agregados familiares em situação de comprovada carência económica, assegurar a coordenação eficiente de todos os meios e recursos que integram a rede e reforçar a plataforma de cooperação estabelecida com as instituições que localmente desenvolvem respostas sociais no âmbito da ação social.

HFI // MSP

Lusa/fim

2.4.13

Pedidos de ajuda não dão tréguas à Cáritas de Bragança

por Olímpia Mairos, in RR

Às portas da instituição estão a chegar situações dramáticas de pessoas que perderam o emprego, que ficaram sem subsídios ou que foram alvo de cortes nos seus salários. Além de alimentos e vestuário, as ajudas mais solicitadas estão relacionadas com o pagamento de electricidade e gás.

A Cáritas Diocesana de Bragança regista um aumento do número de pedidos de ajuda. Nos últimos três meses do ano passado deu apoio a mais de três mil pessoas, e nos primeiros dois meses deste ano já foram mais de duas mil a receber apoio da instituição.

“Tem-se notado um grande acréscimo de procura”, refere à Renascença a presidente da Cáritas de Bragança, Beatriz Fernandes.

Às portas da instituição estão a chegar situações dramáticas de pessoas que perderam o emprego, que ficaram sem subsídios ou que foram alvo de cortes nos seus salários e que, por isso, “ficaram sem capacidade para fazerem face às suas despesas”.

Além de alimentos e vestuário, as ajudas mais solicitadas estão relacionadas com o pagamento de electricidade e gás.

Nestas situações, é a própria Cáritas de Bragança que, junto das instituições, procede ao pagamento das contribuições em falta, mas nem sempre tem resposta imediata para os casos que lhe batem à porta. “Nós temos pessoas a quem ainda não conseguimos resolver o problema e, por isso, não têm luz”, revela Beatriz Fernandes.

“Há uns meses atrás víamos as notícias e pensávamos que era só nos meios mais citadinos; hoje, a crise já está aqui, connosco; já estamos a sofrer as consequências”, nota a responsável, ao mesmo tempo que faz votos para que a situação se altere e que os pedidos de ajuda diminuam.

“Vamos esperando que parem de crescer, pois já são números que nos afligem e preocupam.”