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14.6.23

Fed prepara pausa nas subidas de juros, BCE ainda não

Sérgio Aníbal, in Público


BCE e Fed decidem, esta semana, como chegar ao fim do ciclo de subidas das taxas de juro. E o endurecimento da política monetária na zona euro pode ser mais prolongado.

Com a inflação a recuar já há vários meses e os receios de uma travagem na economia a concretizarem-se, os bancos centrais começam a preparar-se para pôr um ponto final no processo de subida, a mais acentuada das últimas décadas, das taxas de juro. Ainda assim, esta semana, pelo menos na zona euro, a expectativa é a de que as taxas de juro voltem a subir mais uma vez.

Esta é mais uma semana de decisões importantes para o rumo da política monetária nos Estados Unidos da América (EUA) e na zona euro. Esta quarta-feira, a Reserva Federal norte-americana (Fed) conclui a sua reunião de dois dias em que irá decidir o que fazer às suas taxas de juro de referência. E na quinta-feira, em Frankfurt, os responsáveis do Banco Central Europeu (BCE) fazem o mesmo.

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19.5.23

Euribor sobe a 3 e a 6 meses para novos máximos desde novembro de 2008

Por Lusa, in Notícias ao Minuto


A taxa Euribor subiu hoje a três, a seis e a 12 meses face a quinta-feira, nos dois prazos mais curtos para novos máximos desde novembro de 2008.


A taxa Euribor a 12 meses, que atualmente é a mais utilizada em Portugal nos créditos à habitação com taxa variável, avançou hoje, ao ser fixada em 3,878%, mais 0,020 pontos, mas abaixo do máximo desde novembro de 2008, de 3,978%, verificado em 09 de março.

Segundo dados de março de 2023 do Banco de Portugal, a Euribor a 12 meses representa 41% do 'stock' de empréstimos para habitação própria permanente com taxa variável. Os mesmos dados indicam que a Euribor a seis e três meses representam 33,7% e 22,9%, respetivamente.

A média da taxa Euribor a 12 meses avançou de 3,647% em março para 3,757% em abril, mais 0,110 pontos.

No prazo de seis meses, a taxa Euribor, que entrou em terreno positivo em 06 de junho de 2022, subiu hoje, para 3,707%, mais 0,020 pontos que na quinta-feira e um novo máximo desde novembro de 2008.

A média da Euribor a seis meses subiu de 3,267% em março para 3,516% em abril, mais 0,249 pontos.


No mesmo sentido, a Euribor a três meses, que entrou em 14 de julho em terreno positivo pela primeira vez desde abril de 2015, avançou hoje, para 3,415%, mais 0,032 pontos e um novo máximo desde novembro de 2008.

A média da Euribor a três meses subiu de 2,911% em março para 3,179% em abril, ou seja, um acréscimo de 0,268 pontos percentuais.

As Euribor começaram a subir mais significativamente a partir de 04 de fevereiro de 2022, depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter admitido que poderia subir as taxas de juro diretoras devido ao aumento da inflação na zona euro e a tendência foi reforçada com o início da invasão da Ucrânia pela Rússia em 24 de fevereiro de 2022.

Na mais recente reunião de política monetária, em 04 de maio, o BCE voltou a subir, pela sétima vez consecutiva, mas apenas em 25 pontos base, as taxas de juro diretoras, acréscimo inferior ao efetuado em 16 de março, em 02 de fevereiro e em 15 de dezembro, quando começou a desacelerar o ritmo das subidas em relação às duas registadas anteriormente, que foram de 75 pontos base, respetivamente em 27 de outubro e em 08 de setembro.

Em 21 de julho de 2022, o BCE aumentou, pela primeira vez em 11 anos, em 50 pontos base, as três taxas de juro diretoras.

As taxas Euribor a três, a seis e a 12 meses registaram mínimos de sempre, respetivamente, de -0,605% em 14 de dezembro de 2021, de -0,554% e de -0,518% em 20 de dezembro de 2021.

As Euribor são fixadas pela média das taxas às quais um conjunto de 57 bancos da zona euro está disposto a emprestar dinheiro entre si no mercado interbancário.

9.5.23

“Instabilidade na banca europeia é um risco que devemos levar muito a sério”

António Larguesa, in ECO


“será na segunda metade deste ano que realmente vamos sentir os efeitos do aperto da política monetária” iniciada no verão passado pelo Banco Central Europeu (BCE), aconselhando a instituição liderada por Christine Lagarde a desacelerar o ritmo de subida das taxas de juro. “Acho que o BCE devia parar, ver os dados que chegam e, se vir que a inflação continua teimosamente alta, três meses depois pode retomar” as restrições.


Depois de assistir ao colapso recente do Silicon Valley Bank (SVB) e aos problemas no Credit Suisse, que acabou por ser absorvido nas últimas semanas pelo UBS, o economista-chefe do EFG Bank, sediado em Zurique, teme o surgimento de novos episódios de turbulência no setor financeiro. “Preocupa-me que, continuando a aumentar as taxas de juros, em algum lugar e de alguma forma veremos outras instituições financeiras” colapsar.

Teríamos evitado a maior pressão inflacionista sentida nos últimos meses se o BCE tivesse começado mais cedo uma subida moderada das taxas de juro?

Havia duas opiniões na maioria dos bancos centrais. Uma visão era que isso era em grande parte induzido pelos preços da energia e dos alimentos, por causa da guerra na Ucrânia, e que afetaria apenas temporariamente a inflação. Depois percebeu-se que poderia ser mais do que temporário e o equilíbrio de pontos de vista dentro dos bancos centrais começou a mudar para o daqueles que achavam que seria permanente. Se pensarmos em qualquer situação económica que um banco central enfrenta, haverá sempre divergências de pontos de vista. Com o tempo, dependendo do que os dados aparentam ser, as visões mudam.

Alguns números já estavam em cima da mesa.

Vimos esses preços da energia e dos alimentos a começar a subir e a grande questão era até que ponto começariam a impactar nos outros preços da economia. Um grupo de pessoas dizia que a passagem provavelmente seria pequena e não era preciso preocuparmo-nos com isso. Outro grupo dizia que provavelmente seria grande e que era preciso evitar efeitos de segunda ordem na inflação, aumentando logo as taxas de juros. O que aconteceu em certos bancos foi que esse primeiro grupo, no início, era dominante.

Se tivesse sido iniciada mais cedo uma série moderada de aumentos das taxas de juro, teriam sido evitadas algumas das pressões inflacionárias?

Sim. Mas também é importante lembrar que a inflação começou a subir há cerca de dois anos, na primavera de 2021. E como medimos a inflação como a variação de preços em 12 meses, se temos um grande aumento [nesse período], a inflação ficará alta por 12 meses. Se passados 12 meses houver outro aumento nos preços, a inflação vai ser alta por mais 12 meses, a menos que, por graça de Deus, aconteça algo que cancele a primeira. É um evento muito improvável. Na verdade, não sabemos se foram apenas dois anos de choques temporários ou um choque mais persistente na inflação. Ao olharmos para todo o registo, não está claro o que aconteceu.

Qual o seu entendimento e o que espera que aconteça durante este ano?

O que suspeito que aconteceu é que, em grande medida, a aceleração da inflação nesses dois anos foi temporária, mas houve alguma transmissão dos alimentos e da energia para outros preços. Portanto, há parcialmente um elemento mais persistente. E [nesse cenário] provavelmente teremos uma taxa de inflação de 3% ou 4%: muito acima da meta de 2% que os bancos centrais têm, mas muito abaixo das taxas de inflação atuais de 6%, 7%, 8% ou 9%.

No caso do BCE, acha que a subida dos juros está a ser demasiado rápida e a ir demasiado longe?

Provavelmente estão bem agora, mas estou preocupado com aqueles que dizem que precisamos ter outra subida de 75 pontos base ou algo do género. Se olhar para as previsões anunciadas em março pelo BCE, apontam para uma queda da inflação para 2,8% no final deste ano e para 2,7% no final do ano que vem. Com uma meta de inflação de 2%, isso é muito bom.


Um novo aumento de 25 pontos base parece-me bem [como acabou por acontecer na semana passada], mas se continuarem a aumentar nas reuniões seguintes, como alguns acham que deve ser feito, será um aperto muito dramático da política monetária. Acho que o BCE deveria parar e olhar em volta para ver o que acontece.

É, então, apologista de uma desaceleração do ritmo de subidas nos juros por parte do BCE.

Sim. Isto é como a caça de submarinos na Segunda Guerra Mundial. Enviavam um sinal acústico sob o oceano e descobriam que havia ali um. E então começavam a avançar a toda velocidade sobre o local. Mas ao fazer isso, deixavam de ouvi-lo e ficavam “cegos” durante algum tempo. Até que paravam, o barulho do motor desaparecia e então começavam a ouvir novamente o submarino. Com a política monetária é a mesma coisa. Acho que deviam parar, ver os dados que chegam e, se virem que a inflação continua teimosamente alta, três meses depois podem retomar. Não devem continuar a subir reunião após reunião. É preciso parar e ouvir.

Sendo que há um efeito retardado nas mudanças de política monetária. Quando espera que o maior aperto será realmente sentido pelas pessoas?

O pico de impacto será sentido cerca de quatro trimestres depois. Esta é a minha leitura das evidências empíricas e da investigação feita. O BCE começou a fazê-lo em julho do ano passado, por isso suspeito que será na segunda metade deste ano que realmente vamos sentir os efeitos do aperto da política monetária. Por agora é muito cedo para esperarmos ver muito [desse impacto]. A inflação tende a reagir muito lentamente, como o mercado de trabalho, que tende a ajustar-se muito lentamente e a ficar para trás num ciclo mais amplo. Onde se espera que esse aperto se reflita mais rapidamente é nos empréstimos à habitação ou nos preços de imóveis.

E quando é que assistiremos ao impacto no desempenho das economias europeias?

A economia vai começar a desacelerar no segundo semestre deste ano, algo impulsionado pelo mercado e pelo investimento imobiliário. É com isso que estou preocupado. E não acontecerá só na Europa, claro, mas em vários outros países [noutras geografias]. Acredito que a segunda metade do ano será muito diferente: certamente teremos uma recessão nos EUA no segundo semestre de 2023 e isso vai-se espalhar para a Zona Euro.

O Goldman Sachs antecipou numa nota recente que a Zona Euro não vai cair este ano numa recessão.

Pode acontecer no ano que vem. Se continuarmos a apertar a política monetária, a aumentar as taxas de juros em mais 75 pontos base, a probabilidade de uma recessão em algumas partes da zona euro é muito grande.

Quais são os principais riscos para as economias europeias?

O primeiro grande risco é termos alguns problemas com os bancos. No Titanic tudo parecia bem, até que atingiu o iceberg. Avançava a toda a velocidade através do nevoeiro e tudo parecia ótimo, até ao embate. Estou preocupado. Veja o caso do Silicon Valley Bank, em que ninguém previu o que ia acontecer. E depois todos disseram: “Ops!”. Podemos ter mais problemas desses; se calhar outras instituições financeiras terão o mesmo posicionamento azarado. Preocupa-me que, continuando a aumentar as taxas de juros, em algum lugar e de alguma forma veremos outras instituições financeiras [colapsar]. E pode não ser um banco. Pode ser outro tipo de investidor de grande escala, como um hedge fund.

Ao colapso do SVB seguiram-se os problemas no Credit Suisse, que acabou por ser absorvido em tempo recorde pelo UBS. Prevê novos períodos de turbulência envolvendo a banca europeia?

É um risco que devemos levar muito a sério. Não vemos o risco agora, mas a instabilidade financeira é um risco que às vezes se concretiza. Não é materializado todos os dias. É como o Titanic: podia ter corrido muito bem, mas aconteceu de embater no iceberg. Tiveram azar. Provavelmente, outros navios passaram por ali naquela noite, sem problemas. É a mesma questão quanto à estabilidade financeira: as coisas parecem bem até que, de repente, deixam de estar.

Quais são os sinais a que o sistema financeiro deve estar mais atento?

Devemos ficar muito preocupados com os empréstimos às famílias e relacionados com o setor imobiliário. Quando as taxas de juros mexem tanto no espaço de um ano, é uma mudança muito grande. As pessoas que conseguem pagar os empréstimos quando as taxas de juros estão baixas, quando eles sobem de repente podem deixar de conseguir pagar os custos com os juros. Além disso, leva a que as famílias cortem noutros gastos. Se isso se prolonga no tempo e se a situação acaba por não melhorar, o stress torna-se tão grande que começam a cortar drasticamente nos gastos.

Se não calhar de ficarem sem emprego.

Na economia é como na vida real: as coisas dão errado porque uma combinação de coisas más acontece ao mesmo tempo. Outro exemplo: quase fiz um risco no meu carro à saída da garagem do prédio porque a pessoa do lado encostou demasiado o carro dela e fiquei com menos espaço do que é habitual; e além disso estava com pressa por causa da minha filha. O mesmo é válido para a economia. Há alguns fatores que estão a aumentar um pouco o risco e que, quando combinados de forma inesperada, levam a que aconteçam coisas erradas. A subida das taxas de juro está a causar tensões no sistema financeiro e na economia, e, se algo mais acontece — a combinação, por exemplo, de altas taxas de juros e de uma recessão que leva a mais desemprego –, pode ter um impacto muito grande na viabilidade do mercado imobiliário.

Antecipa, por isso, um aumento das tensões sociais na Europa?

Claro. As famílias estão numa situação muito difícil agora mesmo porque a inflação tem sido muito alta, as contas que pagam pela comida e outras coisas. Por agora, a taxa de juro do empréstimo à habitação até pode ainda não ter sido redefinida, mas no outono enfrentarão taxas mais altas. Essa combinação de fatores pode gerar mais instabilidade [social] e devemos ter cuidado e estar atentos a isso.

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20.4.23

Euribor sobe nos principais prazos e a 6 meses para um novo máximo desde novembro de 2008

Marta Contreras, in Lusa



Lisboa, 20 abr 2023 (Lusa) - A taxa Euribor subiu hoje a três, a seis e a 12 meses, no prazo intermédio, pela segunda sessão consecutiva, para um novo máximo desde novembro de 2008.


A taxa Euribor a 12 meses, que atualmente é a mais utilizada em Portugal nos créditos à habitação com taxa variável, avançou hoje, ao ser fixada em 3,855%, mais 0,030 pontos e contra o máximo desde novembro de 2008, de 3,978%, verificado em 09 de março.

Segundo o Banco de Portugal, a Euribor a 12 meses já representa 43% do ‘stock’ de empréstimos para habitação própria permanente com taxa variável, enquanto a Euribor a seis meses representa 32%.

Após ter disparado em 12 de abril de 2022 para 0,005%, pela primeira vez positiva desde 05 de fevereiro de 2016, a Euribor a 12 meses está em terreno positivo desde 21 de abril de 2022.

A média da Euribor a 12 meses avançou de 3,534% em fevereiro para 3,647% em março, mais 0,113 pontos.

No mesmo sentido, no prazo de seis meses, a taxa Euribor, que entrou em terreno positivo em 06 de junho, avançou hoje, para 3,612%, mais 0,025 pontos e um segundo novo máximo desde novembro de 2008.

A Euribor a seis meses esteve negativa durante seis anos e sete meses (entre 06 de novembro de 2015 e 03 de junho de 2022).


A média da Euribor a seis meses subiu de 3,135% em fevereiro para 3,267% em março, mais 0,132 pontos.

A Euribor a três meses, que entrou em 14 de julho em terreno positivo pela primeira vez desde abril de 2015, também subiu hoje, para 3,211%, mais 0,006 pontos e contra 3,219% em 17 de abril, um novo máximo desde novembro de 2008.

A taxa Euribor a três meses esteve negativa entre 21 de abril de 2015 e 13 de julho último (sete anos e dois meses).

A média da Euribor a três meses subiu de 2,640% em fevereiro para 2,911% em março, ou seja, um acréscimo de 0,271 pontos percentuais.

As Euribor começaram a subir mais significativamente desde 04 de fevereiro de 2022, depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter admitido que poderia subir as taxas de juro diretoras este ano devido ao aumento da inflação na zona euro e a tendência foi reforçada com o início da invasão da Ucrânia pela Rússia em 24 de fevereiro de 2022.

Na última reunião de política monetária, em 16 de março, o BCE voltou a subir em 50 pontos base as taxas de juro diretoras, acréscimo igual ao efetuado em 02 de fevereiro e em 15 de dezembro, quando começou a desacelerar o ritmo das subidas em relação às duas registadas anteriormente, que foram de 75 pontos base, respetivamente em 27 de outubro e em 08 de setembro.

Em 21 de julho de 2022, o BCE aumentou, pela primeira vez em 11 anos, em 50 pontos base, as três taxas de juro diretoras.

As taxas Euribor a três, a seis e a 12 meses registaram mínimos de sempre, respetivamente, de -0,605% em 14 de dezembro de 2021, de -0,554% e de -0,518% em 20 de dezembro de 2021.

As Euribor são fixadas pela média das taxas às quais um conjunto de 57 bancos da zona euro está disposto a emprestar dinheiro entre si no mercado interbancário.

MC // MSF

Lusa/Fim

6.4.23

Concorda com subida de juros pelo Banco Central Europeu?

Paula Carvalho e Filipe Garcia, opinião, in Expresso

A atuação do Banco Central Europeu e de Christine Lagarde tem sido questionada, perante os abalos no sistema financeiro

O momento da tomada de decisão do BCE no âmbito da política monetária, na reunião de março de 2023, foi particularmente complexo atendendo aos acontecimentos muito recentes no sector financeiro nos EUA e Europa (SVB e Credit Suisse), e aos sinais de alguma instabilidade nos mercados financeiros internacionais. Todavia, a decisão terá sido a mais acertada embora, tal como o comunicado da autoridade refere bem como as declarações da presidente Lagarde, a postura do BCE no futuro próximo tenha de se alterar face ao que se antecipava antes destes acontecimentos.

De facto, se olharmos para o lado real da economia, os sinais justificam movimentos adicionais de aumento dos juros na zona euro. Os indicadores de atividade sugerem uma dinâmica melhor que o esperado há alguns meses atrás, por exemplo os índices PMI da região e das principais economias europeias regressaram acima da fasquia 50 (apontando para expansão) de forma mais firme em fevereiro. Os indicadores de sentimento refletem também reforço da confiança, ainda que moderado, transversal a consumidores e empresas dos diversos sectores, depois dos mínimos recentes registados em outubro/novembro. Tudo ponderado, e com a informação disponível até agora, tudo sugere que a economia da UEM registe expansão ligeira da atividade económica nos primeiros três meses do ano, ao contrário do que se temia. Nesta linha, as previsões dos diversos analistas têm vindo a ser melhoradas.

Atividade resiliente e inflação persistente justificam taxas de juro mais elevadas

Acresce que os sinais relativos à inflação apontam no mesmo sentido, ou seja, aconselham a que se seja prudente no abandono do aperto da política monetária. Efetivamente, os preços no consumidor estão a aumentar menos que há uns meses atrás, mas sobretudo graças aos preços da energia, que recuaram significativamente face aos níveis que atingiram no verão de 2022 (a componente energética passou de um crescimento anual de 40% no outono para 14% em fevereiro). Todavia, a inflação subjacente, que exclui as componentes mais voláteis de alimentação e energia, atingiu novo máximo em fevereiro: 5,6%. Entre as componentes menos voláteis os preços industriais aceleraram (5,6% para 5,7%) bem como os preços dos serviços (de 4,4% para 4,8%). O aumento da inflação subjacente em termos mensais (0,8% face a um histórico de fevereiro de 0,4%) espelha bem a persistência de tensões inflacionistas num contexto de resiliência da confiança e da atividade, assim como do mercado de trabalho (a taxa de desemprego na zona euro mantém-se em 6,7% há alguns meses, um mínimo histórico).

Em suma, a atividade resiliente e inflação persistente, sobretudo nas componentes mais estáveis, justificam taxas de juro mais elevadas e em campo moderadamente restritivo. Todavia, os recentes acontecimentos no sector financeiro aconselham cautela e moderação nos próximos passos, em linha com a postura assumida pelo BCE nesta reunião. De facto, ainda é cedo para julgar se os recentes acontecimentos terão consequências no sector real. Esperemos que não.

Economista-chefe do BPI

27.3.23

BCE anuncia nova subida da taxa de juro

in SIC

Alguns analistas chegaram a admitir que o BCE travasse esta subida da taxa de juro de referência, devido à falência do Silicon Valley Bank e à turbulência no Credit Suisse, mas a decisão da instituição foi outra.

O Banco Central Europeu (BCE) acaba de anunciar uma subida da taxa de juro de referência em 50 pontos base, passando assim dos atuais 3% para 3,5%.

“O Conselho do BCE decidiu aumentar as três taxas de juro diretoras do BCE em 50 pontos base”, lê-se no comunicado divulgado esta quinta-feira. Assim sendo, “a taxa de juro aplicável às operações principais de refinanciamento e as taxas de juro aplicáveis à facilidade permanente de cedência de liquidez e à facilidade permanente de depósito serão aumentadas para, respetivamente, 3,50%, 3,75% e 3,00%, com efeitos a partir de 22 de março de 2023”.

Esta era de resto uma decisão esperada, apesar de no início da semana alguns observadores terem admitido que devido à turbulência bancária, com a falência nos Estados Unidos do Silicon Valley Bank (SVB) e as suas repercussões, bem como devido à situação de incerteza criada pela crise no Credit Suisse, pudessem levar o BCE a travar esta nova subida. O que não aconteceu.

“Projeta‑se que a inflação permaneça demasiado elevada durante demasiado tempo. Por conseguinte, o Conselho do BCE decidiu hoje aumentar as três taxas de juro diretoras do BCE em 50 pontos base, em conformidade com a sua determinação em assegurar um retorno atempado da inflação ao objetivo de 2% a médio prazo”, justifica a instituição liderada por Chrtistine Lagarde.

A taxa de inflação na zona euro recuou em fevereiro pelo quarto mês consecutivo e passou para 8,5%, quando tinha ficado em 8,6% em janeiro, segundo o Eurostat, mas a inflação subjacente, que exclui os preços da energia e dos alimentos e é considerada mais representativa das tendências a longo prazo, atingiu um nível recorde de 5,6% em fevereiro.

Sobre a inflação, os especialistas do BCE consideram agora que “se situe, em média, em 5,3% em 2023, 2,9% em 2024 e 2,1% em 2025”. No que diz respeito a fevereiro, e “excluindo preços dos produtos energéticos e dos produtos alimentares”, a inflação continuou a subir" e a previsão é “seja, em média, de 4,6% em 2023, valor que é mais elevado do que o avançado nas projeções de dezembro”.

Qual o estado da banca?

Nos últimos dias, o setor bancário tem atravessado um período de turbulência, primeiro com o colapso do SVB, e depois com a forte queda em bolsa na quarta-feira do Credit Suisse. Já hoje, o banco suíço anunciou que irá receber um empréstimo até 50 mil milhões de francos suíços (50,7 mil milhões de euros) do banco central da Suíça.

Sobre esta turbulência na banca, o Conselho do BCE refere que ”está a acompanhar de perto as atuais tensões no mercado e está preparado para responder conforme necessário, no sentido de preservar a estabilidade de preços e a estabilidade financeira na área do euro".

"O setor bancário da zona euro é resiliente, apresentando posições de capital e liquidez fortes. Em todo o caso, o conjunto de instrumentos de política monetária do BCE permite inteiramente proporcionar, se necessário, apoio em termos de liquidez ao sistema financeiro da área do euro e preservar a transmissão regular da política monetária", concluiu o BCE.

[Notícia atualizada às 14:47]

1.3.23

Portugueses nunca resgataram tantos depósitos como em janeiro (e só depois é que os bancos começaram a subir juros)

Diogo Cavaleiro, in Expresso

Portugueses correm para certificados de aforro e abandonam depósitos. Crédito à habitação abranda, mas já há mesmo uma quebra no crédito a empresas. São efeitos das mexidas no juro do BCE, que vai repetir-se em março. Enquanto isso, as Euribor continuam a bater recordes

Os portugueses tiraram 2,5 mil milhões de euros em depósitos entre dezembro e janeiro. Nunca se verificou uma retirada de depósitos desta magnitude, pelo menos desde 1979, ano em que se iniciou a contagem estatística.

O dado permite perceber que foi só após verificarem uma retirada recorde de depósitos por parte dos seus clientes que os bancos portugueses começaram a subir os juros com que remuneram estas aplicações – ainda que apenas com campanhas promocionais e abaixo daquele que tem sido o agravamento dos custos dos créditos. Até a presidente do Banco Central Europeu veio alertar os bancos da zona euro que têm de subir os juros nos depósitos - e já se sabe que Portugal é o país que pior remunera estas aplicações.

Saída inédita de depósitos

“Em janeiro de 2023, o stock de depósitos de particulares nos bancos residentes reduziu 2,5 mil milhões de euros, totalizando 179,9 mil milhões de euros no final do mês”, indica o destaque divulgado pelo Banco de Portugal esta segunda-feira, 27 de fevereiro.

Desde maio de 2022 que a carteira de depósitos de cidadãos não estava tão baixa, invertendo-se a tendência dos anos da pandemia, em que os portugueses estacionaram as suas poupanças neste tipo de produto, com garantia e proteção estatal. O recorde foi alcançado em julho do ano passado, com 182,7 mil milhões de euros colocados nos bancos nacionais em depósitos. Desde aí, e enquadrando-se num período em que a inflação acumulava meses de agravamento significativo, tem havido subidas e descidas ligeiras até esta evolução de janeiro.

A nível de comparação homóloga, os depósitos cresceram 3,7% em janeiro face a janeiro de 2022, o que representa o terceiro mês consecutivo em que há um abrandamento desta taxa que evolui a taxas inferiores a 5% desde novembro - entre 2020 e novembro de 2022, o incremento na aplicação de depósitos foi sempre superior a 6%.

Fuga para os certificados, que atingem máximo

Porém, ainda que subindo face a janeiro do ano anterior, a queda de 2,5 mil milhões em janeiro em relação a dezembro “trata-se da maior redução de depósitos de particulares desde o início da série estatística, em 1979, e ocorre num mês em que as subscrições líquidas de certificados de aforro aumentaram 2,9 mil milhões de euros”.

A carteira de certificados era de 22,5 mil milhões de euros em janeiro, o que quer dizer que cresceu 10 mil milhões de euros desde janeiro de 2022 – sendo que desde julho é que foi o grosso (o crescimento foi desde aí de 9 mil milhões de euros).

A remuneração dos certificados de aforro, produto de dívida do Estado português, evolui à boleia das Euribor que, com a subida abrupta determinada pela taxa de juro do Banco Central Europeu, tem estado a aumentar e, daí, tem estado a registar uma procura inédita. A partir de março, os certificados de aforro darão uma taxa de juro de 3,5% às novas subscrições, segundo confirmam os cálculos feitos pelo Ecocomo o Expresso já antecipara.

Este é o teto máximo para as novas subscrições, que agora é atingido, e onde ficará estacionado – de qualquer modo, como os certificados de aforro asseguram prémios de permanência, os juros serão mais altos com a passagem do tempo. O IGCP, agência que gere a dívida pública, já garantiu que não vai promover mexidas nas condições destes produtos, pelo menos enquanto houver incerteza sobre a política de subida de juros do Banco Central Europeu (BCE) e a evolução da inflação.

Os juros dos depósitos que sobem, mas pouco

Por outro lado, os depósitos remuneram muito abaixo disso, e até há poucas semanas mantinham-se próximos de zero (em dezembro, a média era de 0,35%), com os bancos a sublinhar que têm liquidez suficiente de outras fontes, e justificando que são as famílias com altos rendimentos que têm depósitos, pelo que não iria beneficiar os mais pobres com subidas - será, defendem os banqueiros, a movimentação da concorrência a levar à mexida na remuneração.

Só após esta retirada de depósitos de janeiro agora tornada evidente pelos dados do Banco de Portugal é que os bancos começaram a subir os juros a eles associados, com recentes campanhas promocionais, até aos 2,75%, que mesmo assim não são extensíveis a todos os produtos deste género – e Portugal tem mesmo a taxa média mais baixa na zona euro. De recordar que os bancos são remunerados em 2,5% quando aplicam depósitos no Banco Central Europeu.

Na união monetária também tem havido uma descida em cadeia da carteira de depósitos, com taxas de crescimento homólogas mais baixas que em Portugal (2,7% em janeiro).

A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, ainda esta segunda-feira deu uma entrevista ao The Economic Times (India) em que declarou a sua “esperança” em relação aos depósitos na zona euro: “A minha esperança é que – dado que queremos que a transmissão monetária seja canalizada para a economia – os bancos também reflitam estas subidas recorde da taxa de juro na remuneração dos depósitos. Porque tal deve mesmo acontecer”.

Não é muito diferente do que o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, já defendeu no Parlamento, e que também o ministro das Finanças, Fernando Medina, já pediu - esta terça-feira, dia 28, vai a uma audição parlamentar sobre vários temas, em que os depósitos não deverão escapar. No Parlamento, a comissão de orçamento e finanças já aprovou a realização de audições para explicarem a política seguida pelos bancos (a calendarização dos trabalhos está agendada para amanhã, dia 28), e os deputados até admitiram mexidas na lei para que houvesse reflexo da subida de juros nos depósitos.

Seis meses com crédito à habitação a desacelerar

Se o efeito dos juros nos depósitos ainda é pouco visível, o mesmo não é verdade no que diz respeito aos créditos, em que os bancos refletem a evolução logo na revisão do indexante contratado no empréstimo (normalmente, taxas a três, seis e 12 meses em Portugal). É essa revisão que tem levado as prestações dos créditos à habitação a subir inclusive centenas de euros mensalmente, e tem conduzido a um abrandamento na procura por novos créditos, já que começam logo com juros elevados – seja os créditos com taxas variáveis ou fixas.

“No final de janeiro de 2023, o montante total de empréstimos para habitação era de 100,0 mil milhões de euros, menos 0,2 mil milhões de euros do que no final de dezembro. A concessão destes empréstimos continuou a desacelerar pelo sexto mês consecutivo: a taxa de variação anual passou de 4,8% em julho de 2022 para 3,1% em janeiro de 2023”, segundo o comunicado divulgado hoje.

Na zona euro, a tendência também se verifica: a taxa anual de crescimento dos créditos para a casa abrandou de 3,8%, em dezembro, para 3,6%, em janeiro, segundo os dados que o BCE também divulgou. A subida dos juros que está a conduzir a custos mais altos nos créditos e a uma deterioração do ambiente económico é justificada por Frankfurt com a necessidade de combater a inflação, e conduzi-la aos 2%, quando estava em 8,6% em janeiro.

Créditos a empresas caem

O impacto ocorre não só no crédito à habitação, mas também nos empréstimos a empresas, onde é mais evidente, também porque as decisões de investimento empresarial são mais contidas em períodos de incerteza, como o atual.

“No final de janeiro de 2023, o montante de empréstimos concedidos pelos bancos às empresas era de 74,8 mil milhões de euros, menos 0,5 mil milhões de euros do que no final de dezembro de 2022. Desde o início de 2021 que o crescimento dos empréstimos às empresas tem vindo a desacelerar. Em janeiro de 2023, a taxa de crescimento foi de -0,1%, a primeira taxa negativa desde abril de 2019”, sublinha o comunicado do Banco de Portugal.

Anteriormente, a evolução esteve influenciada pelo período da pandemia, já que houve apoios públicos concedidos por via de empréstimos com garantia estatal, mas agora há mesmo, e ao contrário do que ocorre na zona euro, uma contração nos novos empréstimos.

“A redução dos empréstimos foi mais expressiva nas grandes e médias empresas e nos setores da eletricidade, gás e água e do alojamento e restauração. Pelo contrário, aceleraram os empréstimos concedidos às empresas das atividades imobiliárias”, diz a autoridade bancária.

E mais recordes nas Euribor

A tendência de agravamento dos juros, com reflexo na evolução da carteira de depósitos e créditos, deverá continuar. Esta segunda-feira as Euribor voltaram a ser fixadas pelo painel de bancos - de que faz parte a portuguesa Caixa Geral de Depósitos - em novos máximos. Além da CGD, integram esse painel outros 18 bancos, entre os quais os espanhóis Santander e CaixaBank, com forte presença em Portugal.

De acordo com os dados divulgados pela Lusa, a Euribor a 12 meses está em 3,68%, mais 0,018 pontos face a sexta-feira (e face ao terreno negativo em que estava até abril de 2022), o que é um valor inédito desde dezembro de 2008. Também num recorde desde essa data está a taxa a seis meses, que cresceu 0,009 pontos base para 3,242%. A Euribor a três meses está em 2,716%, mais 0,018 pontos e, neste caso, um novo máximo desde janeiro de 2009.

São subidas que continuam a refletir o atual estado dos juros determinados pelo BCE, em que a principal taxa ficou em 3%, e as expetativas quanto ao futuro – em que Lagarde já anunciou e confirmou que deverá voltar a subir mais 0,50 pontos na reunião de março, que vai decorrer a 16 de março.