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29.4.22

Notícias dos bairros pobres

 in Diário de Aveiro


https://www.diarioaveiro.pt/noticia/82081



Portugal é a quarta das economias mais pobres a crescer menos


As mais recentes projecções do Fundo Monetário Internacional (FMI) dão conta que, entre 2019 (no período pré-pandemia) e 2027, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita português “deverá crescer, a preços contantes, cerca de 12 por cento”, um valor semelhante à média da União Europeia. No entanto, e de acor­do com o Instituto + Liberdade, a média da região é “influencia­da sobretudo pelas maiores economias (como a alemã e a francesa, por exemplo), que são economias mais desenvolvidas, consolidadas e ricas, pelo que apresentam menor crescimen­to potencial” - as previsões indicam um crescimento de apenas oito por cento para a Alemanha, e para a Fran­ça perspectiva-se um crescimento de seis por cento.
Apesar de o crescimento do PIB per capita português estar dentro da média da União Europeia, o Instituto + Liberdade alerta para um cenário “bem mais pessimista” quando se analisa Portugal com outras e­conomias “mais comparáveis”. “Todos os países do Leste europeu irão crescer consideravelmente mais do que Portugal”, revela, especificando que, “entre as 17 economias que estão abaixo da média da União Europeia (todas do Sul e Leste europeu), Portugal é superado por 13 países, incluindo as sete economias que ultrapassaram Portugal nos últimos 20 anos”, enumerando Malta, República Checa, Eslovénia, Lituânia, Estónia, Polónia e Hungria.
Segundo os dados apresentados, prevê-se que a Bulgária seja o país que apresentará maior crescimento (na ordem dos 28 por cento) do PIB per capita entre 2019 e 2027 no âmbito das economias da União Europeia que são mais pobres, seguindo-se a Polónia, com um crescimento de 26 por cento, e a Hungria e Roménia, cada um com um crescimento de 25 por cento.
“Apenas três países desta lista terão um crescimento inferior a Portugal: Itália [prevê-se um crescimento de 10 por cento], Espanha e Chipre [com crescimentos na ordem dos sete e seis por cento, respectivamen­te]”, remata o Instituto + Liberdade.

24.4.20

Covid-19 na Cova da Moura. A vida do vírus num dos bairros mais pobres do país

João Carlos Malta, in RR

O novo coronavírus, apesar de ser “democrático” ao não escolher raça, sexo, ou idade, na altura da infeção, tem consequências bem díspares a longo prazo no rasto de destruição que deixa na economia e nas pessoas. Nessa altura, tudo indica que serão os mais pobres a sofrer mais. Na Cova da Moura, onde muito do trabalho é informal, composto por empregadas das limpezas e trabalhadores das obras, o impacto já se sente, mas o temor maior é, sobretudo, sobre o que aí vem.

Artemiza teria sempre uma vida difícil com ou sem vírus. A Covid-19 só acelerou e intensificou os problemas. É cabo-verdiana e está em Portugal há quatro anos. Veio porque o filho Amaro nasceu com um olho fechado. O pequeno tem cinco anos e está melhor, mas não recuperado. Há três meses soube que ia ficar sem apoios do Governo, mas não quis desistir de dar os melhores cuidados médicos ao mais novo de dois filhos. Ia procurar um trabalho, mas a pandemia pôs-lhe mais um obstáculo à frente.

“Tenho esperança de que vou conseguir trabalhar para me conseguir aguentar e o menino fazer os tratamentos. Mas isto está complicado”, diz, à Renascença, Artemiza Helena Baessa, que vive na Cova da Moura juntamente com Amaro e a outra filha Filene, de 12 anos, também ela com problemas de visão.

Aos 35 anos, esta mulher vive na ânsia de arranjar um emprego que permita continuar os tratamentos de Amaro, depois de o Governo de Cabo Verde lhe ter cortado o subsídio de 849 euros mensais com que vivia.

Em janeiro, uma junta médica daquele país veio a Lisboa e disse-lhe que o estado atual do menino já não exigia estar em Portugal. Voltou a África em janeiro, mas regressou porque os médicos portugueses ainda marcaram uma consulta para a criança em maio. Ela acredita que aqui ele terá melhores cuidados de saúde e Amaro, que sofre de ptose congénita do olho direito – vulgarmente conhecida por pálpebra caída − terá melhor qualidade de vida.

Juntou dinheiro, do pouco que a família tinha, e comprou a viagem de regresso no final de fevereiro com a vontade de dar a cara e o corpo à luta. Mas onde já via uma ida muito difícil, apareceu um vírus que tudo complica e está a fechar-lhe as portas. Também o marido que está em África, e sempre ajudava com algumas despesas, ficou sem emprego e sem dinheiro.

Sempre que Artemiza fala do filho, e dos problemas com o olho, percebe-se que a voz treme e fica sincopada.

Pedidos de RSI e desemprego a subir
O caso de Artemiza é um dos muitos no bairro da Cova da Moura − um dos mais pobres do país − em que os efeitos económicos e sociais da pandemia se fazem sentir de forma mais crua entre os mais frágeis.

Naquele bairro vivem entre seis a sete mil pessoas − a população é muito flutuante ­− em casas muitas delas inacabadas, em condições sanitárias rudimentares. Muitas das pessoas movem-se na economia informal, as mulheres em limpezas e os homens nas obras.

"Não lhes foi informado se estavam desempregados ou não. Há muita gente que não tem contratos."
Vanda Cruz, que dirige a Associação de Solidariedade Social do Alto da Cova da Moura (ASSACM), conhece bem esta realidade, e revela que as consequências do surto de coronavírus não demoraram a aparecer.

“Há mais pedidos de RSI porque as pessoas deixam de ter rendimentos. Temos tido muitos pedidos de apoio, nesse sentido”, revela, ao mesmo tempo que avança que todos as semanas há 40 famílias que ali vão receber um cabaz de alimentos.

A preocupação está a crescer, porque os mais vulneráveis estão mais expostos. Quando as empresas começaram a fechar, houve muitas pessoas que vieram para casa. Até aí tudo normal, mas o anormal foi que “não lhes foi informado se estavam desempregados ou não. Há muita gente que não tem contratos. Acaba por ser um vínculo laboral diferente. As pessoas chegam aqui e dizem: ‘A minha patroa disse para não ir trabalhar mais, mas que não me paga os dias que eu já trabalhei’”, relata.

O mesmo cenário é descrito pelo presidente da Junta de Freguesia da Buraca, Jaime Pereira Garcia. O autarca critica a informalidade e ilegalidade de muitas situações laborais que por ali pululam e aponta o dedo aos empregadores, mas também aos que aceitam trabalhar nesses moldes. Defende que sabe bem a quem o faz receber o dinheiro por inteiro, sem descontos para as Finanças e Segurança Social.

No entanto, quando enfrentamos uma situação de crise como a que vivemos, o problema adensa-se. “Para esses é muito pior, porque nem podem recorrer à possibilidade de pelo menos ter os vencimentos reduzidos a 66%”, explica.

Neste momento, Vanda não acredita que se possa falar de "bolsas de fome" no bairro, apesar de não excluir essa possibilidade. A responsável garante que há muitas instituições que fazem um trabalho sem preço na Cova da Moura, desde o Moinho da Juventude, passando pela Santa Casa da Misericórdia, até à paróquia da Buraca que dá apoio naquele aglomerado que se estende por uma área equivalente a 16 campos de futebol.

A economia do bairro e o mítico Coqueiro
A diretora da ASSACM explica à Renascença as caraterísticas próprias daquele local e da economia local.

“O nosso bairro acaba por ser um bocadinho atípico em relação a outros de génese ilegal, porque nós não precisamos de sair para fazer as nossas compras. Vivemos uma economia bastante especial com todo o tipo de comércio e todo o tipo de equipamentos a funcionarem”, começa por explicar.

Mas isso torna as consequências da paragem imediatas: “Como não estão a funcionar, vai levar a uma quebra dos rendimentos independentemente do resto. Os cabeleireiros, por exemplo, temos aqui imensos, não podem trabalhar, até porque a polícia tem feito essa fiscalização”, recorda.

Quem conhece bem esta realidade é a dona Patriarca, que há mais de 25 anos está no comando do icónico restaurante “O Coqueiro”. Quando fala com a Renascença – já a tarde vai longa – lamenta que só vendeu três cafés.

Decidiu manter a porta aberta. Não tem de sair de casa porque mora no primeiro andar do edifício em que está o restaurante. Criou todas as condições de segurança para deixar o vírus de fora do estabelecimento. Ninguém entra e a distância de segurança tem de ser respeitada. Mas se, no início, ainda vendia alguns almoços para fora, os que ali vão buscar comida são cada vez menos.

"Se calhar daqui para a frente vai ser pior, e não se sabe quando é que isto vai acabar"
“Se há gente que não vem por causa do dinheiro? Sim. Há muita gente que gostava de vir aqui comer, mas não pode”, responde. E se o presente não é animador, o futuro não se avizinha mais luminoso. “Se calhar daqui para a frente vai ser pior, e não se sabe quando é que isto vai acabar”, antevê.

No entanto, desistir não é verbo que se possa ali conjugar. Patriarca Silva diz que não há muitas alternativas senão continuar na luta apesar dos problemas. “Se não tiver trabalho, não tenho como sobreviver, não é? Não me dão nada para estar aqui. As domésticas aqui do bairro, ninguém as quer nas casas delas e todas os dias ouço as queixas. Dizem que se demorar mais tempo não sabem o que vão fazer”, conta.

Mas nem só de desempregados, domésticas e homens a trabalhar à jorna se faz a Cova da Moura. O bairro tem hoje uma composição mais heterogénea. Maria Abreu Soares, de 44 anos, é administrativa e o marido trabalha numa empresa que monta sistemas elétricos em portas e instala alarmes.

Tem três filhos, um de 20 meses, uma de sete anos e outro de 13. Está em teletrabalho. E os problemas que tem são os que outros poderão ter em muitas casas espalhadas pelo país.

“Estão em idades muito diferentes e fases diversas. É difícil de gerir com o trabalho que tenho de fazer. Vai-se fazendo, mas não a 100%”, explica, acrescentando que ainda assim tem de arranjar estratégias para contornar a nova realidade. “Trabalho ao fim de semana ou quando o mais pequenino vai dormir”, confessa.

A telescola, uma fonte de desigualdade
As crianças são a alegria do bairro, mas nesta altura em que a escola é no quarto ou na sala de casa, são uma fonte de preocupação. A diretora da Associação de Solidariedade Social do Alto da Cova da Moura, Vanda Cruz, explica que a necessidade de dispositivos eletrónicos exclui muitos meninos do bairro.

“Isto aconteceu de um dia para o outro e não é fácil arranjar soluções. Mesmo para quem tem um ordenado, e nível económico com uma situação saudável, não é fácil ter de comprar um telemóvel e um computador”, explica.

Na Cova da Moura, “as pessoas não têm essa facilidade e há aqui muitos pais que não têm essa relação com a escola”. “[Os meninos] até têm telemóvel, mas não têm computador”, ressalva. Há ainda muitas famílias que não têm como imprimir os documentos para os estudos.

A associação tem sido uma ponte entre as escolas e os mais carenciados. As instituições de ensino mandam para ali os documentos “e nós tiramos as fotocópias”. Depois, os pais vão buscá-los à associação.

Artemiza sabe bem o que é isso. Se Amaro ainda não está na escola, Filene já lá anda. “As aulas são complicadas, ainda mais agora que ela não tem computador, nem impressora. Exige um bocadinho”, lamenta.

Infetados? Que se saiba poucos ou nenhum
Num bairro em que a precaridade é grande, a salubridade das habitações não é muita, a verdade é que de todos com que a Renascença falou, a resposta foi unânime: não há conhecimento de casos de infetados. Apenas o autarca da Buraca falou de um homem de São Tomé e Príncipe que foi hospitalizado e, entretanto, já está em casa.

Não é paradoxal? A arquiteta e ex-deputada Helena Roseta que, de 2015 a 2019, foi coordenadora do Grupo de Trabalho para a Habitação na Assembleia da República, explica o fenómeno com um conjunto de hipóteses.

“Não há, porque se calhar, e em primeiro lugar, não estão testados. E porque por definição aquelas pessoas estão isoladas. Os que trabalhavam deixaram de trabalhar e não saem dali. E também ninguém lá vai. Comem do que têm, plantam umas couves, têm umas galinhas. É o outro lado da pobreza”, avança.

"As aulas são complicadas, ainda mais agora em que ela não tem computador, nem impressora "
As várias pessoas com quem a Renascença conversou relatam que no início do surto do novo coronavírus foi complicado manter as pessoas em casa. A administrativa Maria Soares fala da cultura africana, que tem dificuldade em habituar-se ao confinamento, por a vida ser normalmente toda feita na rua. A falta de conforto das casas não será um fator despiciendo para o entender.

“Culturalmente as pessoas estão habituadas a estar na rua, a brincar na rua e esta situação, inicialmente, não foi levada muito a sério. Víamos pessoas a brincar, sair e passear”, conta.

Vanda Cruz concorda que é “um bocadinho complicado para as pessoas alterar esses hábitos”. Ainda assim, “vê-se já uma alteração significativa”. “Via-se muita gente a vender comida na rua e agora já não se vê. Via-se muita gente às portas dos cafés, quatro ou cinco amigos, agora já não. As pessoas têm a consciência de que têm de mudar os seus hábitos apesar ainda se continuar a ver alguns na rua”, resume.

A ajuda chega? Depende da longevidade do surto
O presidente da Junta da Buraca, Jaime Pereira Garcia, recusa-se a falar da Cova da Moura isoladamente quando olha para os problemas que o Covid-19 trouxe. Fala da totalidade da freguesia e identifica a população idosa como a mais vulnerável. O político diz que tem tentado chegar a todo o lado e a todos os pedidos.

Para já tem sido possível, mas se a paragem do país se prolongar por muito mais tempo, não sabe até quando será exequível acorrer a todos ao mesmo tempo.

Aos idosos, juntaram-se os que estão em "lay-off" – para quem, em muitos casos, os 66% de salário não chegam para fazer face a empréstimos e a despesas correntes. Começam a ter de recorrer à ajuda das instituições locais para comer. A estes somam-se os que ficam desempregados, que têm aparecido em maior número.

“Nós não temos a possibilidade financeira para chegar a todos”, assume Pereira Garcia, queixando-se da falta de paridade de disponibilidade financeira quando se compara com as juntas de Lisboa que têm a mesma densidade populacional, mas recursos muito superiores para poder responder às necessidades dos fregueses.

O autarca compromete-se ainda a manter todos os empregos, sejam eles a contrato ou a recibo verde, que dependam da Junta. Estes últimos, defende, também são importantes, porque se os mandássemos para casa eram “outros que tinham dificuldade em conseguir sustentar as suas despesas”.

Apesar das nuvens do presente, Jaime Garcia Pereira quer ver um pouco de sol no futuro. Mantém a fé. “Estamos na esperança de que as coisas melhorem no próximo mês, o país não pode manter as portas fechadas durante muito tempo”, afirma.

Porque caso contrário “deixa de haver uma pandemia e passa a haver outra”.

25.7.16

“Neste chão chorei, neste chão dancei, neste chão ri”

Catarina Gomes (Texto) e Rui Gaudêncio (Fotografia), in Público on-line

Na nova casa, Faustina Cruz adormece com a falta de barulho. Não estava habituada. Depois das demolições no bairro 6 de Maio (Amadora) restou-lhe o chão da antiga casa. Em cima dos ladrilhos da sala reconstrói de memória.

Não chegámos a tempo. A casa já não está lá. Ainda esteve alguns dias de pé, sozinha, só com os dois guarda-fatos vazios. Era torturante imaginá-la lá, sem eles dentro dela, por isso fechou muito bem a porta à chave, como se estivesse lá gente e pudesse voltar a qualquer momento.

Faustina Cruz pediu aos vizinhos que teimam em continuar no bairro — ela bem lhes diz que vão todos ter de sair para serem realojados — para a avisarem quando a sua casa fosse abaixo. “Não queria vê-la de pé." Chegou o dia em que lhe mandaram um SMS com a fotografia, paredes esboroadas por terra. “Só consegui voltar quando a casa não existia, para não a ver abandonada. Encontrei o chão.” Custa-lhe vê-lo. “Evito passar por aqui. Este chão, para mim, é tudo.”

Das demolições feitas pela Câmara Municipal da Amadora restou da casa apenas aquele chão quadripartido que agora todos podem pisar como se fosse rua, embora há tão pouco o rectângulo de ladrilhos azuis e brancos fosse a sua sala. Pés em cima dos mosaicos, retira os óculos de hastes douradas antecipando as lágrimas que se seguem. “Neste chão chorei, neste chão dancei, neste chão ri.”

Das demolições feitas pela Câmara Municipal da Amadora restou da casa apenas aquele chão quadripartido que agora todos podem pisar como se fosse rua. Faz de conta que a casa ainda está de pé e que estamos a entrar pela porta principal. “Criei aqui três filhos. Foi neste chão que aprenderam a arrastar-se, a gatinhar, a andar, a falar”

Faz de conta que a casa ainda está de pé e que estamos a entrar pela porta principal: já não é preciso limpar os pés no tapete, como todos tinham de fazer, mas é preciso ter cuidado para não tropeçar. Tarde demais, quem não conhece a casa não sabe que o degrau para a rua foi alteado, como se fossem dois, para não deixar entrar a chuva que um dia destruiu tudo. “Fiquei sem nada. Comecei muitas vezes do zero nesta casa.”

De seguida, estamos já num corredor que era interior e que agora é só cimento pintado mas que, quando conseguiu dinheiro, forrou a oleado, porque não tinha de pagar a ninguém, podia colocá-lo ela e os miúdos: “É um a esticar e o outro a colar.”

Depois entramos para a sala de estar que era ampla mas que teve de ser dividida em quarto para os três filhos, ultimamente apenas o neto Jeovani lá vivia. “Criei aqui três filhos. Foi neste chão que aprenderam a arrastar-se, a gatinhar, a andar, a falar.”

Ao lado, ficava a casa de banho. A torneira da banheira avariou, teve de ser ela a repará-la. “Ai não sais”, lembra a conversa com a torneira, “parti a parede, o buraco ficou”. O remendo tem ainda um pedaço de azulejo de padrão diferente. Faustina media o chão que precisava de cobrir com um cordel e depois ia à loja. “Comprava sempre à conta. Quando arranjava dinheiro para ir comprar o resto dos azulejos já não havia igual.” Deu em mistura.

Faustina Cruz deixou a porta da casa fechada. Só quis voltar quando tivesse sido demolida
A metade da Rosa
A casa, paredes do piso térreo e tecto, já cá estavam quando Faustina Cruz chegou — “quando eu entrei aqui não era ninguém, 20 anos, uma miúda” —, em 1977. Três anos antes tinha saído de Carvoeiros, na ilha de São Nicolau, em Cabo Verde, onde só se vivia das hortas.

A sua casa tinha pertencido a um casal de cabo-verdianos desavindos. Quando o casamento acabou, dividiram-na ao meio com uma parede interior. Faustina comprou a metade da mulher, a Rosa, 80 contos. Chão de reboco.

Quem olha de fora chama-lhes bairros de barracas, Faustina chama-lhe bairros de casas — barraca era a de madeira de divisão única que teve antes desta.

Aqui, as casas funcionam como peças de lego que se juntam e separam à medida das vidas das pessoas, não são as pessoas que se adaptam às casas. São casas para sempre inacabadas, porque a qualquer altura do tecto se pode ter de fazer chão. Como aconteceu com a casa de Faustina.

A casa, paredes do piso térreo e tecto, já cá estavam quando Faustina Cruz chegou — “quando eu entrei aqui não era ninguém, 20 anos, uma miúda” —, em 1977. Três anos antes tinha saído de Carvoeiros, na ilha de São Nicolau, em Cabo Verde, onde só se vivia das hortas

Teve duas meninas e um menino, era importante separá-los por sexo, mas não havia espaço. Também lhe custava não ter onde receber quem vinha de Cabo Verde, quando ela lá conseguia ir tinha sempre onde ficar, e recebiam-na tão bem.

Então tiraram-se as telhas à casa para que do tecto se fizesse a placa onde assentaria um segundo andar. Para que aguentasse, Faustina teve de montar nove pilares no piso térreo. “Com a maceta, que é aquilo com que a gente bate, e com o ponteiro, que é o que a gente finca, abri as paredes para fincar os ferros, é muito fundo. E enchi de cascalho.” Tinha aprendido com o ex-marido trolha como é que se fazia, ele que era mais amigo de mandar fazer do que fazer ele mesmo, uma das razões para se ter tornado seu “ex”.

Bem sabe que o 6 de Maio — baptizado com a data da primeira reunião de moradores (em 1976) — era um bairro ilegal, mas Faustina fez questão de ir à Câmara Municipal da Amadora pedir autorização para “puxar as paredes para cima”, quis que fosse a preceito. Disseram-lhe que podia ir aos dois metros e meio. Assim foi.

“Esta casa começou de uma barraquinha e foi subindo, subindo.” No segundo andar, num dos quartos “cabiam três camas de casal alinhadas”, e ainda havia um sítio para arrumos de roupas de Inverno e cantinho para a costura.

Naquele segundo andar que Faustina reconstrói de memória pôs a dormir as duas filhas e pôde acomodar durante seis meses o primo João Cruz, que veio de Cabo Verde para ser operado ao coração. “Era um palacete no meio das barracas.”


Para a nova casa onde foi realojada trouxe as mobílias da casa antiga. Apenas deixou dois guarda-fatos vazios
Muito do contar de Faustina é interrompido para cumprimentar ou falar a quem passa no meio das ruínas, e que é quase sempre conhecido, como agora: “Bom dia, meninas.”

“Sei o que é construir uma casa. O trabalho é nosso, o chão não é nosso.” Até o número foi escrito por si. Quando para ali foi morar tinha ao lado o 205 e o 206 e Faustina pensou, “eu sou o 207”. A morada era igual para todo o bairro, “Rua das Fontainhas”, porque ali as vias não tinham nome. Era como se todo o bairro fosse uma enorme rua encaracolada sobre si, em forma de becos e ruelas. “Ciao, Rosa”, acena agora.

Hoje o 6 de Maio é um bairro de ex-casas, quase só chãos de paredes invisíveis que só podem ser vistas por ex-moradores. “Aquilo ali era uma taberna”, aponta. Na rua está um grupo de mulheres sentadas em cadeiras de plástico que parecem fora do contexto, no meio de um vazio de edifícios escalavrados onde um dia devia ficar um pátio interior. "Ainda não se convenceram que isto vai abaixo", diz.

Há tanto tempo que se falava na demolição. “O [bairro] Estrela de África foi todo abaixo. Por que é que o 6 de Maio não havia de ir abaixo? Não era mais uma ameaça.” Faustina percebeu.

Não esperou pela carta para sair. “Se tenho de sair amanhã, porque não hoje?” Assim dito, parece coisa que não custou, o sair dali, foram 38 anos.

Quem não é das redondezas, na zona da Amadora (arredores de Lisboa), talvez conheça o nome de o ver aparecer nas notícias, em jargão jornalístico chamam-lhe “bairro problemático”. Exemplos de títulos de jornais: “Jovem baleado nas pernas no bairro 6 de Maio na Amadora”, “PSP cercou 6 de Maio para identificar agressores de dois agentes”. Mas, para Faustina, “este bairro foi a minha pátria. Este bairro vou amar até morrer”

Quem olha de fora chama-lhes bairros de barracas, Faustina chama-lhe bairros de casas — barraca era a de madeira de divisão única que teve antes desta. Aqui, as casas funcionam como peças de lego que se juntam e separam à medida das vidas das pessoas, não são as pessoas que se adaptam às casas. São casas para sempre inacabadas, porque a qualquer altura do tecto se pode ter de fazer chão. Como aconteceu com a casa de Faustina

Faustina viveu num bairro que funcionava como se fosse uma enorme divisão. Tudo se ouvia dentro de casa, meninos a jogarem à bola todo o dia contra as paredes, garrafas a partirem, “incêndios, nunca estávamos sossegados”, eram ligações eléctricas de improviso que corriam mal, e balas. Faustina lembra bem-disposta o dia em que teve de deixar o pudim a arrefecer à janela: “Eu com o pudim na mão e veio uma bala. Baixámo-nos, que levassem o pudim.”

Viver no 6 de Maio era viver em sobressalto, conta, e volta a interromper-se: “Olha o Fábio, dá cá um beijinho”, e despede-se com um “estuda!”, seguido de um “força!”.

Sempre quis que os filhos dali saíssem educados, que dali saíssem “gente”. Num beco do bairro que ainda se mantém túnel vêem-se passar corpos emagrecidos por aquilo que ali vêm comprar e consumir, vestem roupa suja que lhes sobra. “Rapazes e raparigas destruídos”, “famílias que desistem dos filhos”. “Sinto-me feliz, orgulhosa, porque os meus filhos não estragaram aqui a vida.” “Vocês vão sair deste bairro, gente.” Sempre lhes disse.

Para que isso acontecesse, ao mais velho, o Matias, teve de o mandar embora para Inglaterra. Quando viu que a empresa onde trabalhava ia à falência pensou que não havia alternativa. “Baza daqui!” Só lá se salvaria e chora pensando no filho a queixar-se à mãe que aquilo era frio, que não falava a língua, e ela a dizer-lhe que tinha de ser. Foi há sete anos, a filha foi a seguir.

Agora saem do bairro eles os três, Faustina, a filha mais nova, de 31 anos, a Elizabete, e o neto, Jeovani, de dez anos, que chegou a ter a sua pequena mochila da escola revistada pela polícia em dia de rusga.

“Pensam que dentro do bairro são todos iguais. Aqui há de tudo, bom e mau, como em todo o lado” e, quando assim diz, há uma jovem conhecida que se abeira de Faustina e que a convida a sentir-lhe a pele da face: “Passa aqui”, e Faustina percorre-lhe o “T” que vai da linha do nariz até à testa. A rapariga trabalha num salão de beleza e a patroa ofereceu-lhe uma limpeza de pele “com máscara e esfoliante”, está habilitada a oferecer umas quantas a amigas. Não quer Faustina passar por lá para ficar tão sedosa como ela? Faustina aceita.

Faustina já não mora no bairro. Está reformada por invalidez do trabalho na cozinha, mas ajuda como voluntária no Centro Social 6 de Maio. Vem de camioneta da sua nova casa — um terceiro andar onde tem a luz e o silêncio que lhe faltavam na casa anterior.


A mobília de Faustina veio da antiga casa. Para trás só ficaram dois guarda-fatos vazios

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“Aqui no alto”
“Agora estou aqui no alto.” Faustina Cruz teve sorte, repete-se, mostrando-nos a casa para onde foi realojada pela câmara. “As pessoas não sabem dar valor”, fala dos moradores do bairro que se queixam das novas casas, dos que não querem sair. Faustina está num terceiro andar sem elevador, preferiu, assim não se habitua ao elevador, como se quisesse estar sempre preparada para a perda.

A mobília parece desambientada, demasiado à larga. “Lá estava tudo muito encaixadinho.” Às vezes espanta-se como cabia lá tudo.

Nesta casa, Faustina Cruz teve de comprar cortinados e tem de os ter corridos por ser tanta a luz, a barraca era escuridão. “Só a claridade... Aqui não gasto luz. Lá tinha de ter as luzes ligadas do amanhecer ao anoitecer.” E “de manhã é fresquíssimo”.

O neto Jeovani olha para a rua do alto com ar cobiçoso, um grupo de crianças brinca na rua. Está implícito que só pode ver, que a avó Faustina não o pode deixar à solta lá em baixo, é preciso estar sempre vigilante.

Faustina Cruz teve sorte, repete-se, mostrando-nos a casa para onde foi realojada pela câmara. “Pago renda, estou aqui sossegadinha. É um silêncio maravilhoso, até dá sono. Lá, levámos com o barulho.” Não se ouvem bolas, vozes, tiros. “Não há bagunça.” Mas sobram-lhe ainda as ruínas do 6 de Maio. “Se precisar de ver alguém, apanho uma camioneta para lá. Só deixo de lá ir quando deixar de haver bairro”

“Os filhos” — o que também se aplica aos netos — “são para ser educados assim”, e faz um gesto como se segurasse com força uma carteira com valor debaixo do braço, que não se pode perder de vista sob pena de ser levada por um malfeitor. Como se o mundo lá fora fosse todo hostil. Se ela conseguiu proteger os filhos no 6 de Maio, não será na nova urbanização que ainda conhece mal que vai correr riscos com o neto. “O nosso lugar é da porta para dentro. Se ele quer jogar à bola, eu vou com ele.”

Faustina repete muito “isto aqui é uma maravilha”, ou “isto é uma casa de sonho, é um paraíso”, mas não parece completamente convencida. “Pago renda, estou aqui sossegadinha. É um silêncio maravilhoso, até dá sono. Lá, levámos com o barulho.” Não se ouvem bolas, vozes, tiros. “Não há bagunça.”

“Quando me levanto abro a janela, olho para um lado e há estores fechados, olho para o outro lado e não está ninguém. Só passarinhos.” E surge, muito timidamente, um comentário que não chega a queixume: “A pessoa acaba por estar só. Faz-me falta falar com as pessoas, a conversa. Aqui, se eu quiser falar com as pessoas, tenho de lhes bater à porta.”

Sobram-lhe ainda as ruínas do 6 de Maio. “Se precisar de ver alguém, apanho uma camioneta para lá. Só deixo de lá ir quando deixar de haver bairro.”

Na casa feita de silêncio e luz, Faustina guardará para sempre a chave da porta da casa que já não se vai abrir a mais ninguém. O 207 permanecerá, “na lembrança”.

19.4.13

Banco Mundial: Crescimento urbano desordenado originará mais bairros pobres

in Banco Mundial

O crescimento urbano desordenado e sem limites levará nos próximos anos ao aparecimento de mais bairros pobres e aumentará a criminalidade, alertou na quarta-feira o Banco Mundial, a propósito do cumprimento dos Objectivos do Milénio.

No relatório semestral sobre o cumprimento dos oito Objectivos do milénio, o Banco Mundial alerta que até 2030 o aumento da população nos países em desenvolvimento acontecerá sobretudo em áreas urbanas.

A "urbanização sem limites não é uma cura para tudo. (...) Os pobres nas cidades precisam urgentemente de melhores serviços e de uma infra-estrutura que os mantenha ligados às escolas, aos postos de trabalho", afirmou o economista Kaushik Basu, vice-presidente do BM.

Ainda assim, o BM sublinha que alguns países do oriente e da América Latina com "elevados níveis de urbanização" tiveram um "papel importante na redução da pobreza extrema em todo o mundo".

Por oposição, as regiões menos urbanizadas do planeta, no sul da Ásia e na África subsaariana, apresentam taxas mais elevadas de pobreza.

Apesar de se ter registado numa diminuição, a nível global, da pobreza extrema, o BM estima que em 2015 haverá 970 milhões de pessoas a viver com 1,25 dólares por dia (95 cêntimos).

Das 828 milhões de pessoas que vivem em bairros degradados em centros urbanos, 61% estão localizadas na Ásia, 25,5% em África e 13,4% na América Latina.

Os países membros da ONU comprometeram-se a cumprir até 2015 vários objectivos de desenvolvimento - os Objectivos do Milénio -, nomeadamente a erradicação da pobreza extrema e da fome e a redução da taxa de mortalidade infantil.