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1.8.22

Fact Check. "Patriarca cigano de Beja" lamenta valor do Rendimento Social de Inserção: "3.500 euros não dá para a gente se governar"

João Gama,  in o Observador

"3.500 euros não dá para a gente se governar" lê-se na crónica "A Voz do Cigano", de uma associação de Castelo Branco. Nem artigo nem imagem nem valor — nada corresponde à verdade.

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A frase

"Patriarca cigano de Beja lamenta: 3500 euros de RSI para 4 pessoas já não dá para a gente se governar."

— Utilizador de Facebook, 05 julho 2022

Errado

Está a ser partilhada uma publicação no Facebook com uma imagem de uma crónica — “A Voz do Cigano” —, com uma fotografia de um alegado “patriarca cigano de Beja” a lamentar o atual valor do Rendimento Social de Inserção (RSI): “3500 euros de RSI para 4 pessoas já não dá para a gente se governar”.

A publicação é partilhada por um utilizador de Facebook que associa as críticas ao valor do RSI ao líder do Chega:

Como diz o dr André Ventura, quem tem direitos tem que ter deveres! Eu tenho que trabalhar, às vezes 24h por dia, desconto, pago as minhas contribuições e não tenho direito a nada. Deixo aqui a sucinta pergunta: O que devo fazer para ser cigano??”

Comecemos pela imagem, antes de irmos às declarações. Para averiguar a sua veracidade, o Observador recorreu à ferramenta TinEye, que, como o próprio site explica, com recurso a tecnologia de reconhecimento de elementos gráficos, permite pesquisar a origem de uma imagem que não esteja contextualizada ou seja manipulada.


Publicação no Facebook, a citar um suposto “patriarca cigano de Beja” a lamentar a ajuda do Rendimento Social de Inserção (RSI)


Como é calculada a inflação?


Esta ferramenta remete-nos para a verdadeira imagem do dito “patriarca cigano” como sendo Tiago Matos Gomes, numa fotografia publicada a 8 de março de 2021, no Jornal Público. A notícia apresentava o político como “mais um candidato à Câmara de Lisboa: chama-se Tiago Matos Gomes e é lider do Volt”. Pouco mais de um ano depois, Tiago Matos Gomes desfiliava-se do Volt Portugal e prepara-se para fundar outro partido, o Partido Democrata Europeu. Apesar das reviravoltas políticas, continua a não corresponder à designação com que é apresentado na publicação verificada, “patriarca cigano de Beja”.

As diferenças entre a imagem de Tiago Matos Gomes e a imagem manipulada do “patriarca cigano” mostram claras diferenças. A cara está alargada e o tom de pele está escurecido. Ao Observador, Tiago Matos Gomes admite que já tinha sido alertado por “familiares e amigos” a propósito do uso da sua fotografia. Confirma que se trata de uma fotografia sua, manipulada, desconhece o autor, mas acredita que não foi um ato “intencional” contra o próprio.

O presidente do Volt, Tiago Matos Gomes, durante uma entrevista à Agência Lusa no âmbito das eleições legislativas, em Lisboa, 28 de dezembro de 2021.

Quanto à citação, não há registo de um “patriarca cigano de Beja” a criticar o valor do Rendimento Social de Inserção: “3500 euros de RSI para 4 pessoas já não dá para a gente se governar”, nas crónicas publicadas pela Associação Amato Lusitano, uma associação sem fins lucrativos situada em Castelo Branco.

Num esclarecimento enviado ao Observador, o presidente da associação, Arnaldo Braz, explica que o objetivo da Amato Lusitano é promover o “emprego e formação” da região através de uma “integração adequada com espaços e entidades de âmbito regional, nacional e internacional”.

De facto, a associação publicava uma crónica mensal “A voz dos Ciganos” no semanário local A Reconquista, uma ação que fazia parte dos projetos desenvolvidos em conjunto com a “comunidade cigana albicastrense, com vista à sua integração na sociedade local”. A crónica terminou em 2021 e no que toca à publicação que corre nas redes sociais, o responsável é claro:


Nunca tivemos conhecimento de qualquer publicação desta natureza, nomeadamente desta que está em causa. Desconhecemos completamente este assunto e nunca partilhamos qualquer artigo a criticar o valor do RSI.”.

Não é a primeira publicação a circular nas redes sociais a associar o Rendimento Social de Inserção à comunidade cigana.

De acordo com os dados de novembro de 2020 do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS), o RSI era distribuído por 210.490 pessoas. Em média, “o valor processado de prestação de Rendimento Social de Inserção (RSI) por beneficiário é de 119,11 euros”. Num contexto mais alargado, o valor médio por família era de “262,26 euros” mensais.


Conclusão

Além de uma fotografia manipulada, de Tiago Matos Gomes, e de um artigo a criticar o valor do Rendimento Social de Inserção, que a Associação Amato-Lusitano garante nunca ter sido publicado na sua crónica “A Voz do Cigano”, também os números que são alegados: “3500 euros de RSI para 4 pessoas já não dá para a gente se governar”, não são verídicos. Cada família recebe em média pouco mais de 260 euros por mês.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:


ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook.

4.5.20

REGIÃOComunidades ciganas de Braga e Barcelos recebem ‘kits’ de higiene

in O Minho

A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) Portugal distribuiu 500 ‘kits’ de higiene angariados ao abrigo da campanha SOS comunidades ciganas, que visa apoiar famílias carenciadas no combate à pandemia da covid-19, foi hoje anunciado.

Braga e Barcelos fazem parte dos nove concelhos onde foram distribuídos os ‘kits’ compostos por máscaras, luvas, álcool, sabão, toalhitas desinfetantes e lixívia.

Elvas, Beja, Mourão, Guarda, Fundão, Viseu e Porto foram as restantes localidades abrangidas.

Durante a campanha, lançada em 09 de abril, foram, segundo a organização, “adquiridos 500 ‘kits’, abrangidas 126 famílias e angariados 9.500 euros”.

A ação vai prolongar-se até 31 de maio, prevendo a EAPN Portugal entregar na próxima semana “’kits’ de higiene a toda a população do Bairro das Pedreiras, em Beja, que conta com 800 pessoas, cerca de 150 famílias”.

A organização garante que o levantamento das necessidades está a ser feito pelos seus núcleos distritais e lembra que “algumas comunidades ciganas carecem não só de alimentos e de materiais de higiene, como de informação e, por isso, os ‘kits’ sãos acompanhados de um desdobrável informativo sobre a covid-19.

Em comunicado, o presidente da EAPN Portugal lembra que “as famílias que vivem em acampamentos e barracas, sem acesso a água, luz e a uma habitação digna, são as que mais necessitam de proteção face à pandemia”.

“São famílias que possuem apenas, como meio de subsistência, os rendimentos provenientes da realização das feiras e da venda ambulante e que enfrentam, além dos problemas de salubridade, a suspensão das suas atividades por período indeterminado”, refere Jardim Moreira.
Na sexta-feira, a campanha será relançada nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais, contando com o apoio do cantor Salvador Sobral, vencedor do festival Eurovisão em 2017.

De acordo com os números mais recentes, divulgados em 2014, existem em Portugal 24.210 portugueses ciganos em território nacional.
A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 224 mil mortos e infetou cerca de 3,2 milhões de pessoas em 193 países e territórios.

Em Portugal, morreram 973 pessoas das 24.505 confirmadas como infetadas, e há 1.470 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.




18.9.18

"Cigano, africano ou brasileiro?" Pais denunciam "inquérito racista" nas escolas

Paula Dias, in TSF

Alto Comissariado para as Migrações investiga inquérito entregue aos pais, acusado de conter perguntas discriminatórias, referentes à ascendência dos alunos. Investigadora garante que inquérito foi autorizado por DGE.

O Jornal de Notícias conta que um dos pais que fez queixa terá ido levar o filho à Escola Básica Estádio do Mar, em Matosinhos, esta segunda-feira, tendo-lhe sido entregue um envelope com uns papéis, indicando que fora selecionado para participar numa investigação. Mas no entender do pai do aluno, o questionário é "tolo" e contém "perguntas racistas".

Os pais podem recusar-se a responder ao inquérito, mas têm de justificar a decisão, esclarecer se costumam ir às reuniões da escola e responder qual consideram ser o papel da ciência na melhoria da qualidade de vida.
Diana Orghian, responsável pelo estudo organizado por uma empresa de consultadoria em economia comportamental, garantiu ao Jornal de Notícias que o objetivo é melhorar os métodos educativos nas escolas. A responsável assume, no entanto, que "algumas coisas não correram bem".

Os inquéritos foram entregues em várias escolas de Lisboa e do Porto antes do prazo estipulado (24 de setembro). Os investigadores afirmam que pretendiam, até à data de entrega do inquérito, retirar do documento a referência à palavra "cigana".

Incomodados com as perguntas, alguns pais denunciaram o estudo junto da Secretaria de Estado da Cidadania e Igualdade, da Comissão para a Igualdade e Discriminação Racial e ainda no Alto Comissariado para as Migrações.
O Alto-comissário Pedro Calado garante que vai investigar o caso de imediato, para averiguar se houve discriminação.
O inquérito foi autorizado pela Direção-Geral da Educação, mas uma fonte do organismo garantiu ao Jornal de Notícias que "nada tema ver com o estudo", que também recebeu luz verde da Comissão Nacional de Proteção de Dados.