Mostrar mensagens com a etiqueta Crianças pobres. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crianças pobres. Mostrar todas as mensagens

24.10.22

Guerra e crise económica criam mais quatro milhões de crianças pobres

por Cristina Sambado, in RTP

A guerra na Ucrânia e a consequente desaceleração da economia atiraram para a pobreza mais quatro milhões de crianças, só na Europa de leste e Ásia central. No Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, a UNICEF adverte que situação pode levar a um acentuado aumento do abandono escolar e da mortalidade infantil.

Um estudo da UNICEF publicado esta segunda-feira, que analisa o impacto da guerra na Ucrânia e a subsequente recessão económica e pobreza infantil na Europa de leste e Ásia central – que representa 22 países nas regiões –, revela que as crianças estão a suportar o fardo mais pesado da crise económica provocada pela invasão russa da Ucrânia, a 24 de fevereiro."Embora as crianças representem 25 por cento da população (dessa região), representam também quase 40 por cento dos 10,4 milhões de pessoas que passaram este ano a viver na pobreza", acrescenta a análise.

A Federação Russa é responsável por quase três quartos do aumento total das crianças que vivem na pobreza devido à guerra na Ucrânia e ao crescimento do custo de vida em toda a região.

Na Rússia, mais de 2,8 milhões de crianças vivem agora em agregados familiares abaixo do limiar da pobreza.

A Ucrânia surge a seguir na lista, com mais meio milhão de crianças a viver na pobreza, à frente da Roménia, que tem agora mais 110 mil crianças pobres.

“Para além dos horrores óbvios da guerra - a morte e mutilação e a deslocação em massa – consequência do conflito militar na Ucrânia estão a ter um impacto devastador nas crianças em toda a Europa de leste e Ásia central”, afirmou o diretor regional da UNICEF, Afshan Khan.

Segundo Afshan Khan, “as crianças dessas regiões estão a ser prejudicadas pelos terríveis efeitos da guerra. Se não as apoiarmos e às famílias, o acentuado aumento da pobreza infantil resultará quase certamente em vidas e aprendizagem perdidas, assim como os futuros”.

O estudo da UNICEF revela ainda que as consequências da pobreza infantil vão muito além das famílias que vivem com dificuldades financeiras. O acentuado aumento poderá resultar na morte de mais de 4.500 crianças antes de celebrarem o seu primeiro aniversário. Já as perdas de aprendizagem podem equivaler ao abandono escolar de mais de 117 mil crianças, só este ano.

Quanto mais pobre for a família, maior será a proporção do seu rendimento comprometida com necessidades como a alimentação e o combustível.

Quando o custo dos bens básicos sobe, diminui o dinheiro disponível para satisfazer outras necessidades, tais como cuidados de saúde e educação.

O estudo frisa que “a subsequente crise do custo de vida significa que as crianças mais pobres têm ainda menos probabilidades de aceder a serviços essenciais e estão mais expostas ao risco de violência, exploração e abuso”.

Para muitos, a pobreza infantil dura uma vida inteira. Uma em cada três crianças nascidas e criadas na pobreza viverão a sua vida adulta nesta situação, o que leva a um ciclo intergeracional de dificuldades e privações.Apelo aos governos
Os desafios enfrentados pelas famílias que vivem na pobreza ou à beira da pobreza agravam-se quando os governos reduzem a dívida pública, aumentam os impostos sobre o consumo ou põem em prática medidas de austeridade num esforço para impulsionar as economias a curto prazo, uma vez que isso diminui o alcance e a qualidade de serviços de apoio dos quais as famílias dependem.

O estudo estabelece um quadro para ajudar a reduzir o número de crianças que vivem na pobreza e evitar que mais famílias caiam em dificuldades financeiras:
- Proporcionar benefícios monetários universais às crianças e garantir um rendimento mínimo de segurança;
- Expandir as prestações de assistência social a todas as famílias com crianças necessitadas, incluindo refugiados;
- Proteger as despesas sociais, especialmente para as crianças de famílias mais vulneráveis;
- Proteger e apoiar a prestação de serviços de saúde, nutrição e assistência a mães grávidas, bebés e crianças em idade pré-escolar;
- Introduzir regulamentos de preços sobre produtos alimentares básicos para as famílias.

A UNICEF estabeleceu recentemente uma parceria com a Comissão Europeia para a iniciativa UE Child Guarantee que visa mitigar o impacto da pobreza nas crianças e proporcionar-lhes oportunidades de prosperar na vida adulta.

Com mais crianças e famílias a serem empurradas para a pobreza, é necessária uma resposta robusta em toda a Europa.

A UNICEF apela, ainda, a um apoio contínuo e alargado para reforçar os sistemas de proteção social nos países de alto e médio rendimento da Europa Oriental e Ásia Central; e a priorização do financiamento de programas de proteção social, incluindo programas de assistência monetária para crianças e famílias vulneráveis.

“As medidas de austeridade irão prejudicar sobretudo as crianças – mergulhando ainda mais crianças na pobreza e dificultando as famílias que já estão a lutar”, acrescentou Khan.

“Temos de proteger e expandir o apoio social às famílias vulneráveis antes que a situação de agrave”, apelou.

28.4.22

Revolução digital está a deixar as crianças pobres ainda mais pobres

in Impala

As diferenças no acesso a Internet rápida e a computadores entre crianças de famílias de baixo e alto rendimento acentuaram-se. Os governos prometeram e falharam na chamada revolução digital.

Apesar de as empresas e os sistemas escolares terem tido de passar a mover-se online durante a pandemia, um novo relatório da Common Sense Media revela que a exclusão digital continua a persistir, principalmente nos EUA mas também em Portugal, um dos países mais ricos do mundo. Nos Estados da América, 33% das crianças que vivem em famílias de baixo rendimento não têm acesso a computador familiar – em comparação com apenas 6% das famílias de alto rendimento.

Falta de equipamento e internet priva alunos de aulas

O cenário é semelhante no acesso a tablets, em que 60% das crianças de famílias de baixo rendimento têm acesso a um, contra 81% das crianças de famílias mais ricas. De acordo com o Pew Research Center, as lacunas de banda larga também alimentam o problema e são particularmente prevalentes em famílias de baixos recursos. Com as crianças a precisarem de participar de aulas online durante a pandemia, bem como ligarem-se para realizarem os trabalhos de casa, o problema, além de uma questão de acesso à tecnologia, tornou-se também numa questão de acesso à Educação. A exclusão digital está por isso a contribuir para aprofundar as desigualdades entre comunidades, ameaçando deixar as crianças de famílias mais pobres para trás e dificultando a recuperação.

Em 2021, o governo Biden investiu 65 mil milhões de dólares (perto de 60 mil milhões de euros) para a implementação e reforço de infraestruturas de banda larga. O governo de Costa prometeu computadores para todas as crianças, mas o ano letivo já ia longo e a promessa continuava por cumprir. Embora este seja certamente um passo na direção certa, de acordo com a Harvard Business Review, ficou muito aquém do que era necessário para dar acesso à Internet de alta velocidade a todas as pessoas. De acordo com a Rollcall, espera-se entretanto a aprovação, nos EUA, de um projeto de lei ainda mais robusto para garantir essa missão.





11.12.15

Mulheres e crianças europeias: Um retrato da pobreza

In "EuroNews"

Um quarto da população europeia encontra-se em risco de pobreza ou exclusão social. Mais de 120 milhões de pessoas estão prestes a cruzar este limiar numa Europa que se afirma como um pilar de desenvolvimento no mundo. Mas será que os critérios que definem o conceito de pobreza são os mesmos doutros continentes?

Uma breve estória sobre diferentes situações de precariedade
Há cerca de mil milhões de pessoas no mundo na situação do André, que ganha menos de um dólar e noventa por dia (cerca de 90 cêntimos de euro). Garantir a alimentação, a água, o alojamento, os cuidados médicos é, nestas circunstâncias, uma luta pela sobrevivência num contexto de pobreza extrema.

Por sua vez, a Ana, o Luís e o Francisco não conseguem assegurar o necessário tendo em conta os custos médios de vida no local onde habitam. É a chamada pobreza relativa. O salário de Ana é 60% inferior à média no seu país. O Luís não ganha dinheiro suficiente para conjugar o pagamento da renda com a compra de alguns alimentos, como a carne. Já o Francisco não consegue arranjar emprego.

São casos que ilustram o risco concreto de exclusão social. A chamada estratégia Europa 2020 pretende resgatar, pelo menos, vinte milhões de pessoas deste quadro.

As mulheres são dos grupos mais afetados
O número de europeus em risco de pobreza e com dificuldades em arranjar emprego aumentou no ano passado. O contexto dos que já se encontravam em situações extremas registou ligeiras melhorias, sobretudo devido à intervenção do Fundo de Auxílio Europeu às Pessoas mais Carenciadas (FEAD). Há uma maior incidência das dificuldades sobre as mulheres na sequência da crise.


Um quarto das mulheres na União Europeia está na iminência de integrar as estatísticas de exclusão social ou de pobreza. Dominique vive nos arredores de Paris. Trabalhou durante alguns anos como diretora de um centro recreativo. Quando perdeu o emprego, teve de encontrar uma ocupação completamente diferente.

“Durante quatro anos, vivi com 500 euros por mês, do Rendimento Social de Inserção. Pago uma renda de 550 euros por mês por um estúdio de 16 metros quadrados. Recebo 300 euros de ajudas sociais. Depois de pagar as despesas, ficava com um euro por dia”, conta.

Dominique acabou então por arranjar um trabalho temporário como cozinheira numa cantina e supermercado social em Montreuil. O projeto nasceu em 2013 no âmbito da associação Aurore, que ajuda centenas de famílias a obter produtos alimentares a preços mais acessíveis. A responsável Valérie Normand explica que “entre as pessoas que recebemos – são cerca de mil – mais de metade são mulheres. Cerca de 20% são pessoas que trabalham e que têm dificuldades em chegar ao fim do mês. A crise agravou as vulnerabilidades e isso impede que as situações melhorem.”

Dominique ganha perto de 800 euros por mês, cerca de 60% abaixo do nível médio salarial em França. Oito milhões de franceses encontram-se em situação idêntica. Mais de metade são mulheres. Houve um agravamento de risco de pobreza de mais de 2% nos últimos 20 anos neste país. Em Portugal, o índice aumentou mais de 10% durante o mesmo período.

Os últimos dados mostram que 6,7% da população europeia ganha abaixo do denominado limiar da pobreza, que difere de país para país. Na Roménia, por exemplo, é de 103 euros por mês; na Itália, é de 786 e no Luxemburgo, situa-se nos 1600 euros.

A média das despesas públicas relativas à proteção social na União Europeia ronda os 20% do PIB. Bruxelas anuncia a ambição de reforçar essa fasquia para que o caminho da reintegração social, como no caso de Dominique, seja menos penoso.

A pobreza infantil agrava-se desde 2008
Muitas vezes, as crianças são as mais afetadas na espiral do desemprego ou do trabalho precário dos pais, o que pode degenerar em problemas de má nutrição, de abandono escolar, de depressão.

É através dos desenhos que Simon, de 13 anos, expressa algumas emoções que não costuma transmitir. “Nós costumávamos dormir todos no mesmo quarto. Era muito húmido e muito frio. Havia insetos por todo o lado. Fizemos bem em mudar. Agora as coisas estão melhores”, diz-nos.

A introspeção de Simon acentuou-se quando a família, de Sófia, na Bulgária, começou a ter graves problemas financeiros. Os pais pediram ajuda à SAPI, uma associação integrada numa rede de assistência social que os ajudou a mudar de casa, a manter Simon na escola e a lidar com as suas questões relacionais.

Na Bulgária, mais de metade das crianças correm o risco de exclusão social. É uma tendência que se tem agravado na União Europeia. Os fatores em questão: o emprego dos progenitores, a composição da família e as ajudas sociais.

Segundo Douhomir Minev, presidente da rede europeia Anti-Pobreza na Bulgária, “há duas razões fulcrais para a pobreza infantil: a primeira, uma disfunção a nível familiar; a outra, uma disfunção a nível societal, isto é, a ineficácia institucional. Mas, antes de mais, é preciso evitar que os pais caiam numa situação de pobreza.”

Estima-se que, na Europa, haja 26 milhões de crianças em risco de pobreza ou exclusão social. Para Dani Koleva, da Rede Nacional Búlgara para as Crianças, “a Europa corre o risco de perder cidadãos que poderiam vir a contribuir para a economia. A questão da pobreza é que afeta as gerações seguintes, ou seja, a situação na Europa está a piorar. São necessárias medidas reais, com projetos concretos, programas e financiamentos.”

A visão de Jana Hainsworth, secretária geral da Eurochild
euronews: As mulheres constituem uma parte mais vulnerável da sociedade em tempos de crise?

Jana Hainsworth: Há uma grande discriminação de género na Europa e não é apenas no acesso das mulheres ao mercado laboral, nem nas diferenças salariais que são flagrantes. A sociedade tem de entender o que significa o equilíbrio entre géneros. Ainda prevalece a discriminação laboral, porque há uma maior probabilidade de as mulheres interromperem a carreira durante um certo período, porque tradicionalmente se ocupam mais do núcleo familiar. Isso limita a disponibilidade.

euronews: Há realmente mudanças, tendo em conta os cerca de 20 por cento de fundos europeus destinados a esta problemática?

JH: A questão vai muito além dos financiamentos. Tem a ver com a mudança de mentalidades. É claro que a União Europeia tem, e tem tido, um papel muito importante não só na vertente financeira, mas também na implementação de alterações legislativas. Infelizmente, com todo este contexto de austeridade e crise económica, as prioridades dos decisores desviaram-se para outras áreas. Para obter crescimento económico a longo prazo, é necessário voltar a tornar a igualdade entre homens e mulheres numa questão prioritária. Por vezes, até surgem mitos urbanos que denunciam uma dependência de subsídios, por exemplo, que não refletem de todo a realidade. Há mulheres que não conseguem manter um emprego porque têm de cuidar de familiares idosos ou de crianças, ou ainda porque não conseguem apanhar os transportes a tempo porque têm de levar os filhos à escola. As nossas sociedades não estão preparadas para ajudar as pessoas a manter o emprego ao longo do tempo.

euronews: O que é que a pobreza infantil diz sobre a Europa de hoje em dia?

JH: Os números mais significativos dizem respeito aos núcleos familiares onde nenhum dos pais tem emprego. Mas também há muitos casos onde um dos progenitores tem trabalho. Em países como o Reino Unido, uma creche pode levar um terço do orçamento familiar. Sobram dois terços para o alojamento e as outras despesas. É um desafio gigantesco.

euronews: Este contexto está a comprometer uma ou várias gerações?

JH: É necessário investir. O resultado de um investimento agora só vai ser visível daqui a 20 anos. Os políticos são eleitos em mandatos que duram 4/5 anos. Os políticos têm de ter uma visão de longo prazo. Se não investirem agora, as consequências vão repercutir-se não apenas nesta, mas nas próximas gerações também.

euronews: Como fazê-lo, então?

JH: Porque não pensar numa estratégia que envolva os idosos, por exemplo? Há muitas famílias que, na verdade, dependem dos elementos mais velhos, até por questões financeiras. É preciso ter uma perspetiva geral da sociedade e da comunidade. Há muito que passa pelas políticas a nível nacional, mas há também muito que pode ser feito no interior das nossas comunidades.

euronews: Quais têm de ser os objetivos a curto, médio e longo prazos?

JH: Há 26 milhões de crianças a viverem na pobreza, na Europa – há algo que está muito errado. Reduzir os níveis de pobreza tem de ser uma prioridade. Vamos olhar para a questão como um todo e tentar perceber como é que podemos combater a pobreza não só na perspetiva dos rendimentos, mas melhorando também o acesso aos cuidados de saúde, ao alojamento, à educação, ao desporto, aos espaços em comum onde as crianças podem crescer.

23.7.15

Crianças pobres têm mais dificuldades de aprendizagem

Por Notícias Ao Minuto

Crescer num ambiente de carência pode influenciar o desenvolvimento do cérebro.

"A pobreza influencia o rendimento escolar". Esta é a conclusão de um estudo a que o El Pais teve acesso e em que se conclui que crescer num ambiente de carência pode influenciar o desenvolvimento do cérebro.

O trabalho mostra que as partes do cérebro responsáveis pelos processos essenciais para a aprendizagem são vulneráveis a circunstâncias de grande pobreza, como o stress, a escassa estimulação e a fraca nutrição. Estas questões, defendem, influenciam em 20% o baixo rendimento dos menores com poucos recursos.

As conclusões resultam de uma análise às ressonâncias magnéticas realizadas ao longo da infância de 400 crianças e em que se verificou que o cérebro destas se desenvolvia muito menos nos casos das crianças mais pobres. Esse desenvolvimento era mais evidente no lóbulo frontal, temporal e no hipocampo, considerada a principal sede da memória.

Estas conclusões devem, segundo os investigadores das universidades de Michigan, Duke e Wisconsin, levar à aplicação de mais políticas públicas para diminuir as desigualdades, havendo sempre a necessidade de lembrar os pais que, independentemente das suas posses, devem estimular os filhos para a educação.

Mas esta não é a primeira vez que a pobreza é associada às fracas capacidades cognitivas das crianças. Em 2013, uma investigação com o nome ‘Neurologia da Miséria’ (termo usado pelos investigadores) desvendou os principais impactos que uma infância pobre pode ter para uma criança. Segundo o estudo em questão, crescer num clima de miséria tem efeitos negativos no cérebro, sendo o hipocampo a zona mais afectada.