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12.9.13

Solução europeia para sair da crise está a "varrer a população"

in Jornal de Notícias

O economista dominicano Miguel Ceara considera que a solução europeia para resolver a crise de dívida está a "varrer a população", considerando que "o que está a acontecer é uma deterioração das condições de vida das pessoas".

Miguel Ceara comentava, em declarações à agência Lusa, o relatório 'A cautionary tale: The true cost of austerity and inequality in Europe' ('Um conto moral: o verdadeiro custo da austeridade e da desigualdade na Europa'), hoje publicado pela Oxfam, em que a organização alerta para que, se prosseguirem as medidas de austeridade na Europa, podem cair em situações de pobreza mais de 15 a 25 milhões de pessoas até 2025.

Especialista nas crises económicas da América Latina nas décadas de 1980 e 1990, Miguel Ceara disse que "os programas de ajustamento estrutural condenam as populações a maiores níveis de pobreza e de precariedade e não se consegue uma reestruturação da economia".

"Pode-se sair da crise mantando os pobres, mas essa não é a ideia. O que está a ocorrer na Europa é deteriorar as condições de vida das pessoas, literalmente. É óbvio que, se a economia cai durante uma década ou duas, há uma recuperação depois, mas essa transição implica que muita gente perda recursos e criam-se desigualdades", explicou.

Reiterando que "o objetivo das economias é que as pessoas vivam bem e não que os bancos sejam mais ricos", o também antigo diretor do programa de desenvolvimento das Nações Unidas na República Dominicana reconheceu que há um problema de dívida para resolver, mas defendeu que a solução não pode condenar a qualidade de vida das pessoas.

"A solução [que a Europa encontrou] foi comprimir a economia até a um ponto em que se gere um excedente para pagar a dívida. Mas isso significa que se está a varrer a população e esse é o erro: condenar um país a 15 ou 20 anos de precariedade. Há que fazer uma negociação e conseguir que parte dessa dívida seja perdoada", considerou.

No entanto, alertou que tudo isto "depende das relações de força" política, uma vez que, "tecnicamente, está muito claro que a solução que alguns grupos de poder mais forte na Europa escolheram [para resolver a crise atual] condena a população".

Comparando a situação atual da Europa com a da América Latina na década de 1980, Miguel Ceara identificou duas diferenças fundamentais que fazem com que a situação europeia seja "mais difícil": a Europa "não pode desvalorizar a moeda" e, na altura [1980], os países latino-americanos tinham "um cenário internacional menos rígido".

Isto quer dizer que hoje, sem política cambial e com um cenário mundial que também está em crise, a Europa está numa situação "mais difícil" do que estava a América Latina nos anos 1980 e 1990, uma vez que tem de "fazer todo o ajustamento do lado do consumo e da procura interna".

No relatório hoje divulgado, a Oxfam refere que "a Europa devia aprender duas lições importantes com as crises de dívida anteriores noutras regiões: que uma dívida insustentável é uma dívida impagável, que exige um processo de arbitragem justo e transparente que possa incluir uma reestruturação alargada ou o cancelamento da dívida, e que quanto mais cedo a espiral de crescimento da dívida for atacada pelos Estados-membros e pela União Europeia melhor".

A organização fundada em 1995 faz ainda quatro recomendações aos governos europeus: investir nas pessoas e no crescimento económico, investir nos serviços públicos, reforçar a democracia institucional e construir sistemas fiscais justos.

18.3.13

Ulrich Beck. “Merkievel” e a Europa alemã à beira da catástrofe

Por Nuno Ramos de Almeida, in iOnline

Na Grécia, em Espanha e em Portugal, a geração do Facebook sustenta os protestos, apoiada pela maioria da população. “A Europa e a sua juventude estão unidas na raiva por causa de uma política que salva bancos com quantias de dinheiro inimagináveis, mas desperdiça o futuro da geração jovem”, escreve Ulrich Beck. Nuno Ramos Almeida mostra-lhe o que pode encontrar no livro ”

É um dos grandes nomes da sociologia contemporânea. O autor da “Sociedade do Risco” pronuncia-se sobre a crise da Europa, as suas estratégias de poder e o papel da liderança alemã de Angela Merkel. “A Europa Alemã - De Maquiavel a ‘Merkievel’: Estratégias de Poder na Crise do Euro” é um livro muito interessante.

O autor começa por citar o historiador britânico Timothy Garton Ash: “ No ano de 1953, Thomas Mann fez um discurso a estudantes em Hamburgo no qual os exortou a não aspirarem a uma ‘Europa alemã’, mas sim a uma ‘Alemanha europeia’. Esta fórmula foi repetida vezes sem conta no momento da reunificação. Porém, hoje, estamos a assistir a uma variação que poucos previam: uma Alemanha europeia numa Europa alemã.”

Estamos subjugados pelo discurso do “economês” que prega a inevitabilidade de determinadas escolhas alegadamente científicas ditadas pela economia, tentando fazer esquecer que a nossa crise está longe de ser apenas uma crise económica. “Estamos sobretudo perante uma crise da sociedade e do ‘político’ - assim como da compreensão predominante da sociedade e da política. Portanto, não sou eu que me movo no terreno estranho da economia. Foi a economia que se esqueceu da sociedade da qual trata”, alerta o autor no prefácio deste ensaio.

Ulrich Beck é professor emérito de Sociologia na Universidade de Munique e dá aulas na conceituada universidade de Harvard e na London School of Economics. É um autor reputado no mainstream sociológico. A sua obra mais conhecida é a “Sociedade do Risco”, onde o autor defende que, na Idade Moderna, os decisores políticos e económicos costumam tomar decisões complicadas com base no cálculo das probabilidades de as coisas correrem bem, mas tendem a ignorar um factor determinante no nosso actual estado de desenvolvimento, que é o risco. Uma central nuclear pode ser 99,9999% segura. Mas o facto de haver 0,0001% de possibilidades de tudo correr mal e destruir o planeta devia obrigar os decisores políticos a não a construir.

“O desconhecimento que se propaga constitui uma característica essencial de uma dinâmica à qual as sociedades ocidentais estão entregues actualmente. A sociedade do risco é, em certo sentido, sempre também uma sociedade de possibilidades. As centrais nucleares, cujo complexo funcionamento interno não entendemos, poderiam eventualmente ter uma avaria; os mercados financeiros, que mesmo os equilibristas da bolsa deixaram, ao que parece, de entender, poderiam eventualmente sofrer um colapso. O condicional enquanto estado permanente: hoje, antecipamos permanentemente catástrofes que poderiam acontecer amanhã. O condicional catastrófico irrompe no cerne das instituições e no quotidiano das pessoas - é imprevisível, não se preocupa com a Constituição e as regras da democracia, está carregado de um desconhecimento explosivo e faz desaparecer todos os pontos de referência”, nota o ensaísta.

No malogrado Walter Benjamim, o caminho da história não nos levava a um final feliz. O máximo a que os homens podiam ambicionar era interromper o curso da história. Recusar o caminho do precipício. O pensamento de Ulrich Beck é mais optimista, se de optimismo podemos falar. Para ele, a iminência da catástrofe é um convite a uma mudança necessária. Esta alteração de caminho não é inevitável, mas a catástrofe à vista deve fazer-nos pensar.

Resta saber que sinais do apocalipse precisam de ver os políticos e os economistas para quem o aumento contínuo do número de desempregados e o empobrecimento generalizado das sociedades é um triunfo da reforma económica da Europa.

Para o autor, o fim da União Soviética, os ataques do 11 de Setembro, as alterações climáticas, a catástrofe nuclear de Chernobyl e a crise financeira e do euro possuem duas características comuns: são inimagináveis antes de terem ocorrido e as suas consequências são globais.

“Observe-se, mais uma vez, que quando a expectativa de catástrofe determina a consciência pública, os fundamentos da sociedade e do ‘político’ alteram-se, as antigas instituições deixam de ser adequadas aos problemas, é possível ou até necessário alterar as regras”, diz Beck, que profetiza que, nestes tempos de catástrofe iminente, se abre espaço para “pequenas e grandes revoluções”. O autor mostra-se impotente para prever em que direcção serão feitas estas mudanças, mas traça duas ordens de cenários que baptiza de cenário hegeliano e cenário Carl Schmitt.

No primeiro haveria o triunfo da “astúcia da história”: os egoísmos nacionais determinariam as respostas à crise até o carro da Europa ficar pendurado no abismo; nessa altura, os actores reconheceriam no último minuto a necessidade de “cooperar ou morrer”. Ficariam por responder duas questões: como poderá a capacidade de acção política ser reconstruída na era de riscos globais? Como se pode concretizar democraticamente este cenário de cooperação a nível europeu?

No outro cenário temido por Ulrich Beck e a que chama Carl Schmitt, surgirão novas estratégias de poder e legitimação. Como escrevia Schmitt, “na excepção, a força da verdadeira vida quebra a crosta de um mecanismo cristalizado de repetição”. Estamos, portanto, entre reforma e revolução.

2.11.12

Não há “luz ao fundo do túnel”, diz Stiglitz

in Público on-line

Não é verdade que a Europa está próxima de superar a crise e sem mudanças na resposta não haverá “luz ao fundo do túnel”, adverte o economista norte-americano Joseph Stiglitz.

Para o prémio Nobel de Economia 2001, não há dúvida de que a Europa está pior “agora do que há cinco anos", da mesma forma que considera não haver “base para dizer que estamos mais perto do fim da crise”.

Numa entrevista à revista Capital, citada pela agência Europa Press, Stiglitz afirma que “se as actuais políticas continuarem a ser as mesmas, e não apenas em Espanha, mas na Europa em geral, não há luz ao fundo do túnel”. “E todos os túneis têm um fim”, sublinha, para reforçar que a Europa deve “mudar” a resposta à crise das dívidas soberanas na zona euro.

Stiglitz diz ver “pouca vontade política” dos líderes europeus e deixa uma crítica concreta à maior potência da moeda única em relação à situação espanhola. “Preocupa-me que a Europa e a Alemanha estejam a pôr em perigo o futuro de Espanha”.

Quanto mais tarde os líderes europeus responderem à crise, mais frágil fica o sistema financeiro espanhol. E, por arrasto, mais vulnerável a um resgate financeiro internacional fica o próprio Estado. Em Espanha, diz, o futuro é hoje “muito preocupante”.

30.7.12

Ventura Leite: Sistema misto escudo-euro permitiria promover a economia e as poupanças

Por Leonete Botelho, Luís Villalobos, in Público on-line

Ventura Leite, economista e ex-deputado do PS, lançou um livro intitulado Solução para a crise nacional e europeia onde defende várias medidas, algumas delas polémicas, com as quais pretende lançar o debate.

Defende que tem de haver uma reestruturação da dívida, com maturidades de pagamento mais longas e menos juros. Não conseguimos pagar a dívida pública nas condições actuais?
Não há qualquer hipótese de este país, ou de qualquer país numa situação semelhante, pagar a dívida pública nos prazos ou juros que foram estabelecidos pela troika. É absolutamente impossível.

Os juros já desceram...
Sim, mas no caso do FMI desceram para quase 5% e para 5% no caso do fundo de estabilização financeira (FEEF). Isto não são juros que permitam ao país retomar algum tipo de protagonismo económico. Só há uma solução, a reestruturação da dívida, mas não com um haircut [incumprimento parcial].

Como no caso grego...
Isso foi uma medida extrema para um país assumidamente falido. Portugal ainda tem condições para não enveredar por esse caminho. O que eu defendo é uma reestruturação confiável, que precisa do apoio da União Europeia, fundamentada em garantias que o Estado português tem de oferecer.

Quais?
Garantias políticas, através de um acordo de largo espectro, extensivo aos sindicatos, empresários, ao meio científico, à Igreja, porque estes são os agentes enquadradores da sociedade política.

Qual seria o prazo ideal de pagamento e o juro?
Diria que nunca menos de 15 anos para uma nova maturidade da dívida pública, e um juro que não seja mais de 50 pontos base acima do juro pago pelo país com melhor rating. É evidente que quando se propõe algo como isto, em que o Governo vai ao mercado dizer que quer substituir a próxima tranche de dívida por títulos a 15 ou 20 anos, e que não vai pagar mais do que um determinado juro, a reacção seria mandar-nos "dar uma volta ao bilhar grande".
Seria aí que entraria a Europa, que, através do BCE, ou do fundo de estabilização financeira, garantiria a liquidez. Nos juros, a questão seria mais complexa, mas exequível. O Estado precisa de taxas mais baixas, mas para isso precisa que alguém garanta segurança ao mercado. E qual a hipótese de Portugal conseguir que uma entidade europeia dê esta garantia aos mercados? É esse passo adicional que eu considero que falta a Europa dar.

Afirmou que era necessário ter como referência a taxa de juro do país com melhor rating... Isso não é algo impossível?
É lirismo puro pensar que o apoio financeiro aos países com maiores dificuldades se vai continuar a fazer através de um cabaz que vai ao mercado buscar dinheiro a juros altos, de que os outros são os responsáveis, e cada vez com maior relutância. O que defendo é um modelo novo que aproxima mais a UE daquilo que se verifica nos Estados Unidos. Desde que se crie um mecanismo de controlo e de confiança em relação ao que os países se comprometerem a fazer, a Alemanha já não terá dificuldades em transformar um dos dois mecanismos de resgate num banco.
Esse banco já não vai ao mercado obter capitais com um conjunto de garantias de países. Porque o número de países que vai precisar desse apoio é cada maior, logo, cada vez menor o número de países que têm de prestar garantias. Se o mercado oferecer juros a níveis incomportáveis, vai ter com o BCE. Agora, esse dinheiro não pode ser usado indiscriminadamente. Só pode ser utilizado para reestruturação da dívida desde que cada país se apresente com uma nova geração de acordos de compromisso.

O que quer dizer com uma nova geração?
Falo de algo pós-troika. Numa nova fase, não vamos precisar do FMI. Só precisámos do FMI porque a senhora Angela Merkel percebeu que se os acordos fossem meramente estabelecidos com as autoridades europeias nunca seriam cumpridos. Agora, a reestruturação das dívidas tem de ter condições, como a apresentação de um acordo político de consenso, num período largo, de pelo menos duas legislaturas, uma estratégia de reforma económica clara. Se não cumprir, assume a fatalidade que é sair do euro.
Perante isto, o país apresenta todos os anos, e antes de o fazer à Assembleia da República, um orçamento à entidade responsável, que irá dar um visto prévio. Esse visto não é condição para a Assembleia da República aprovar, porque a soberania não é posta em causa. Serve é para essa autoridade de Bruxelas dizer que o país tem um pré-orçamento que cumpre o que ficou acordado. E é essa entidade que vai ao BCE buscar dinheiro sempre que tal não for possível junto do mercado. Sendo que cada país terá o seu caderno de encargos, tendo que reflectir a sua estratégia económica.

Isso é uma espécie de pacto orçamental...
É um pacto orçamental com outro passo. E esse passo só ainda não foi dado porque nenhum país apresentou essa solução. Portugal, de forma leviana, está a pensar que cumpre o acordo com a troika, mesmo que seja dado mais um ano, vai ao mercado, retoma o financiamento da dívida pública e o caminho do crescimento. Isso não vai acontecer.


Porquê? Porque no mercado os juros serão da ordem dos 5%?
E isso é incomportável. O país está a fazer um ajustamento, à força. Daqui a dois ou três anos, haverá um milhão de desempregados e mais umas dezenas de milhares de empresas falidas. A retoma do crescimento não será feita pelas famílias nem pelas empresas, que estão altamente endividadas. Tal como disse Krugman, só há uma entidade cujos gastos podem fazer a economia retomar, isto é, o Estado. Mas não pode financiar projectos como rotundas, mas novos motores de crescimento económico, nomeadamente através da aposta na investigação científica, na inovação.

Defende o regresso do escudo coexistindo com o euro...
Como moeda instrumental, não convertível. A função dessa moeda não é como antes do euro, com desvalorizações para compensar os aumentos salariais da ordem dos 20%. A desvalorização seria apenas em duas circunstâncias: no caso de haver alguma pressão das importações, e voltar a haver um desequilíbrio comercial que tenha impacto no défice externo e endividamento, ou se Portugal tiver exportações para um determinado mercado que estejam a ser negativamente influenciadas por uma valorização do euro.

Qual é a finalidade da ideia?
É criar uma nova aplicação para as poupanças dos portugueses, que lhes garante a remuneração em euros e uma actualização do valor poupado, porque se quiserem converter em escudos podem converter à última cotação. E permitiria ao Estado português deter um stock de euros, que pode utilizar colocando uma parte junto do BCE como garante do processo de reestruturação da dívida. A moeda usada a nível interno seria o escudo, não convertível externamente, e em que um escudo seria igual a um euro, só para transacções internas.

E quem não consiga ter poupanças?
Essas pessoas têm de ser protegidas, e por isso é que falei da desvalorização. Porque se isso acontecer vai prejudicar ainda mais essas pessoas. Esta moeda não destina a mover um processo de desvalorização. Tem de haver um compromisso político em que, a ocorrer, só pode ser de forma extraordinária e de um modo cirúrgico. Não pode ser para agravar as condições de vida dos portugueses, como seria se voltássemos apenas ao escudo, com uma desvalorização, conforme dizem alguns economistas, da ordem dos 70%. A nossa reforma económica tem de se fazer pela via da produtividade, e do investimento na inovação, e não com competitividade artificial.

Então qual seria a vantagem?
Além da estimular a poupança, com tranquilidade, porque não iam ter a moeda desvalorizada, a principal finalidade desta ideia é dar ao Governo um instrumento através do qual pode ter défices para além dos assumidos nos compromissos com a UE.

Como assim?
Eu defendo que o país deve ter um orçamento com duas componentes: um orçamento em euros para cumprir com os critérios europeus, e outro para estimular a economia. Neste caso, pode precisar de lançar de empréstimos obrigacionistas que a banca compra, e que o Banco de Portugal, por sua vez, pode adquirir à banca, como faz a Reserva Federal norte-americana. Isso significa que o Estado pode estimular os sectores mais produtivos e competitivos. O Estado, que está impedido de investir enquanto estiver em exclusivo no euro, porque está limitado, com a possibilidade de gerir um orçamento em escudos já pode ter défices. A dívida pública já não será de 110%, mas irá evoluir até aos 150% ou 160%. Vai crescer, mas em escudos, para financiar os motores económicos.

E o que se faz a essa dívida?
Obviamente que essa dívida terá de ser controlada, porque um dia terá de ser paga a quem emprestou. Mas se este investimento for para auxiliar a economia a crescer, não estamos a criar um endividamento como o que foi originado nas últimas duas décadas.

Daqui a quanto tempo é que poderíamos voltar ao euro em exclusivo?
Precisamos de cinco anos para os políticos portugueses mostrarem o que valem. Precisamos de fazer reformas rapidamente que criem uma dinâmica irreversível. Para isso é necessário um compromisso entre os partidos, pelo menos para duas legislaturas e a confirmar com um referendo ao fim da primeira legislatura. Após cinco anos, deve ser feita uma avaliação pelo país e pela UE e então, ou prossegue o programa porque está no bom caminho, ou então abandona o euro de forma ordeira, porque nessa altura já está feita a transição para o escudo.

Acredita realmente que o que defende é exequível?
Tenho a profunda convicção de que esta é a única forma de o país não ser empurrado para fora do euro ou o euro acabar entretanto. O maior obstáculo não é a União Europeia, mas os políticos.

Por que é que diz que os políticos são o principal obstáculo?
Eu traço cenários no livro, e no cenário antes da catástrofe admito a possibilidade de os líderes dos dois principais partidos perceberem que vivemos não uma recessão, mas uma mudança de ciclo económico, político e cultural e algo tem de ser feito. Portanto, que se lixem os nossos partidos e vamos construir aqui uma solução de compromisso.

Então o que está a dizer é que se lixem as eleições?
Eu não digo que não se façam eleições, mas que, ao fim da primeira legislatura, se mantenha o acordo, independentemente de quem ganhar as eleições. Em vez de apresentarem programas eleitorais falsos, candidatam-se com esse programa comum e faça-se um referendo.

7.7.12

Finlândia prefere abandonar o euro a pagar dívidas dos outros países

in Jornal de Notícias

A ministra das Finanças finlandesa disse, esta sexta-feira, que Helsínquia prefere preparar-se para sair do euro do que pagar as dívidas dos outros países.

Jutta Urpilainen disse, em entrevista ao jornal "Kauppalehti", de Helsínquia, que apesar de a Finlândia estar "empenhada em fazer parte da zona euro" e que o "euro é benéfico" para o país não está disposta a pagar um preço qualquer e que o país está preparado para enfrentar qualquer cenário, incluindo abandonar a moeda única europeia.

Helsínquia rejeita o Mecanismo Europeu de Estabilidade acordado durante a última cimeira europeia em Bruxelas destinado, sobretudo, a ajudar as economias de Espanha e de Itália.

Por outro lado, a ministra do governo social-democrata finlandês disse à estação de televisão pública da Finlândia que as "negociações com Madrid vão ser difíceis e prolongadas" referindo-se ao processo de ajuda financeira à banca espanhola.

"Nós representamos a linha dura. Temos condições muito rigorosas porque temos de garantir o risco dos contribuintes finlandeses", disse a ministra.

Na mesma entrevista, a ministra esclareceu que sublinhou "perante os países da União Europeia" que o país não vai participar no programa de ajudas ao sistema bancário espanhol se Madrid não apresentar garantias relacionadas com o pagamento sobre o primeiro empréstimo.

A ministra disse ainda desconhecer se outros países vão fazer a mesma exigência a Madrid e acrescentou que as conversações com o governo de Mariano Rajoy podem começar nas próximas semanas, altura em que se vai conhecer "em concreto" o valor da ajuda.

19.6.12

G20 defende menos austeridade na Europa

in Público on-line

O G20, grupo que reúne as 19 economias mais poderosas e emergentes e a União Europeia aproveitou o primeiro dia da cimeira que está a decorrer no México para lançar um apelo à Europa: é preciso rever a política orçamental à luz da crise que tem vindo a deteriorar a conjuntura económica.

Empenhados na defesa da moeda única europeia contra o que apelidam como ataque dos mercados, os países da zona euro pretendem “romper a ligação entre risco soberano e risco bancário”, de acordo com o projecto do comunicado final da cimeira que termina nesta terça-feira em Los Cabos, no México.

Mas para a administração americana – e os países emergentes, que vão reforçar as suas contribuições no contexto do Fundo Monetário Internacional, desde que o FMI precise de mais verba e se reforme de modo a aumentar o poder de voto destes países de economias emergentes – é importante que a eurolândia reveja a política orçamental e faça um esforço maior nas políticas de crescimento económico e de criação de emprego , como defendem diferentes líderes europeus preocupados com as consequências da forte austeridade.

“Vemos uma mudança no discurso europeu quanto à importância crítica do apoio à procura e ao crescimento do emprego”, salientou a subsecretária de Estado do tesouro dos Estados Unidos, Lael Brainard, em declarações citadas pela Lusa. “Há um reconhecimento da necessidade de avaliar os planos da consolidação orçamental, de reconhecer a deterioração da conjuntura económica”, sublinhou a mesma responsável.

A ideia de avançar com uma união bancária na Europa está no projecto do comunicado final. O rascunho final deverá indicar que “esta união bancária está a ser assumida por todos os membros da zona euro”.

“Num contexto de tensões renovadas sobre os mercados, os países da zona euro membros do G20 vão tomar todas as medidas necessárias para salvaguardar a integridade e a estabilidade da zona [euro], melhorar o funcionamento dos mercados financeiros e romper a ligação entre risco soberano e risco bancário”, lê-se no documento a que a agência de notícias France Presse teve acesso na segunda-feira.

O projecto de resolução sublinha, no entanto, a necessidade de prosseguir a reforma da regulação financeira: “Bancos sãos, capazes de conceder crédito, são essenciais para a recuperação mundial.”

Os países do G20 reafirmam ainda a sua determinação de lutar contra o proteccionismo “sob todas as formas” e comprometem-se a favorecer a criação de emprego, através de uma acção coordenada, a que chamam “Plano de acção de Los Cabos para o crescimento e o emprego”.

“No caso de a situação económica se deteriorar ainda mais, os países que dispõem de margem de manobra orçamental suficiente estão preparados para coordenar e adotar medidas orçamentais apropriadas para apoiar a procura interna”, acrescenta o documento.

Líderes mundiais reunidos para tentar salvar crise da Europa

in Jornal de Notícias

Os líderes do G20 iniciam esta segunda-feira uma cimeira de dois dias em Los Cabos, na costa pacífica do México, que será dominada pela crise das dívidas soberanas na zona euro.

A agenda oficial do grupo das 20 principais economias do mundo (as potências industrializadas do G7, doze grandes nações emergentes e a União Europeia) é o crescimento a nível global. A situação europeia será, contudo, o tema principal.

As discussões serão particularmente influenciadas pelos resultados das eleições legislativas na Grécia, que se realizaram no domingo. A chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou que só partiria para Los Cabos depois de serem conhecidos os resultados em Atenas.

Já a última reunião do G20 (que se realizou em Cannes, em novembro) fora dominada pela crise do euro. Na altura, os membros do G20 comprometeram-se a reforçar o Fundo Monetário Internacional (FMI) em 340 mil milhões de dólares, para ajudar a combater a crise financeira. O Presidente mexicano, Felipe Calderon, afirmou ter a expetativa de que o G20 decida aumentar o seu contributo para o Fundo.

"Prevejo que haverá uma maior capitalização" do FMI, disse Calderon no sábado, citado pela agência RIA Novosti.

Os líderes europeus - sobretudo a chanceler alemã - serão pressionados pelo resto do mundo a tomar medidas mais resolutas para combater a crise da dívida.

Segundo a agência Associated Press, o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama tem dado sinais da sua impaciência perante a incapacidade da União de ultrapassar os seus problemas financeiros, e receia o impacto de uma Europa em recessão sobre a economia dos Estados Unidos.

Também a China e a Índia deverão pressionar os europeus, e sobretudo a Alemanha. "Ninguém pode escapar ileso quando o navio naufraga perante tempestades económicas. Os países dentro do navio devem ajudar-se uns aos outros", lia-se num comentário da agência oficial chinesa, Xinhua.

"Temos esperanças de que os líderes europeus atuem de forma decidida", afirmou por sua vez o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, em declarações citadas pela AP.

O Presidente francês, François Hollande, enviou uma proposta aos seus parceiros europeus para um "pacto sobre o crescimento".

Segundo o semanário francês "Journal du Dimanche", Hollande quer 120 mil milhões de euros para promover o crescimento económico e o emprego, que serão financiados sobretudo através de fundos estruturais europeus e do Banco Europeu de Investimentos. Hollande também quer propor um imposto sobre transações financeiras.

Embora a crise europeia seja o tema principal, os líderes do G20 também deverão debruçar-se sobre outras crises - nomeadamente a situação no Egito, onde se realizaram eleições neste fim-de-semana, e a guerra civil na Síria.

Com a escalada de violência na Síria, têm aumentado também as tensões entre países ocidentais e o Presidente russo, Vladimir Putin, devido à continuada oposição da Rússia a aprovar resoluções contra o regime de Bashar al-Assad no conselho de segurança das Nações Unidas.

5.6.12

Ministros do G7 reúnem-se de emergência com a crise espanhola ao rubro

Por Paulo Miguel Madeira, in Público on-line

Os ministros da Economia do Grupo dos Sete (G7) principais países industrializados vão ter esta terça-feira uma reunião de emergência, por videoconferência, sobre a crise da dívida na zona euro, num sinal do crescente alarme global devido à ameaça decorrente das tensões nos 17 países da moeda única europeia.

Com a Grécia, a Irlanda e Portugal já sob programas internacionais de resgate, os mercados financeiros estão ansiosos sobre os riscos da crise bancária em Espanha e atormentados com as eleições gregas de 17 de Junho, que poderão levar a uma saída do país do euro, precipitando uma ainda maior turbulência económica.

“Chegámos a um ponto em que precisamos de um entendimento comum sobre os problemas que estamos a enfrentar”, disse aos jornalistas o ministro das Finanças do Japão, Jun Azumi, citado pela Reuters, depois de o seu homólogo canadiano, Jim Flaherty, ter dito que os ministros e banqueiros centrais dos EUA, Canadá, Japão, Alemanha, França, Grã-Bretanha e Itália teriam esta terça-feira uma reunião especial por videoconferência, aumentando a pressão sobre os europeus para agiram.

Já hoje, o ministro espanhol das Finanças, Cristóbal Montoro, veio dizer que o seu país não será resgatado, porque “tecnicamente não pode ser objecto de um resgate”, aludindo à dimensão da sua economia, a quarta maior da zona euro. “A Espanha não precisa disso, precisa de mais Europa, de mecanismos permitindo a integração europeia”, disse numa entrevista à rádio Onda Cero, citada pela AFP.

Entretanto, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, abriu a porta à ideia da união bancária europeia, sugerindo que os 27 membros da UE poderiam pôr os seus maiores bancos sob supervisão directa europeia, mas não abriu a porta a outras das propostas avançadas pela Comissão na semana passada, como um seguro de depósitos pan-europeu.

“Vamos discutir em que medida precisamos de pôr os bancos sistemicamente relevantes sob uma autoridade de supervisão especificamente europeia, para que os interesses nacionais não tenham um papel tão forte”, disse aos jornalistas em Berlim, citada por The Wall Street Journal.

Entretanto, os EUA e o Canadá pediram mais acção. “Os mercados continuam cépticos quanto às medidas tomadas até agora serem suficientes para assegurar a recuperação da Europa e afastar o risco de que a crise se aprofunde”, disse um porta-voz da Casa Branca, citado pela Reuters.

Preocupado com a crise na zona euro, o banco central da Austrália anunciou que cortou em 0,25 pontos percentuais a sua principal taxa de juro directora, para 3,5%, ficando no seu nível mais baixo em dois anos