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26.7.12

BCE disposto a fazer o que for preciso para salvar o euro

Por Público

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, admite uma nova intervenção da autoridade monetária devido às elevadas taxas de juro nos mercados da dívida.

Mario Draghi afirmou esta quinta-feira que a instituição está disposta a fazer o que for preciso para proteger a zona euro do colapso.

Durante uma conferência em Londres, Draghi garantiu que, no âmbito do seu mandato, o BCE “está pronto para fazer o que for necessário para preservar o euro”. “E acreditem que isso será suficiente”, declarou, citado pela Reuters.

Sem especificar que acções concretas irão ser tomadas, o presidente do BCE justificou uma nova intervenção da instituição com o facto de as elevadas taxas de juro dos mercados da dívida estarem a perturbar o normal funcionamento da política monetária.

Na medida em que a dimensão dos prémios de risco exigidos pelos mercados da dívida aos países periféricos do euro “afecta o funcionamento dos canais de transmissão da política monetária, faz parte do nosso mandato” resolver o problema, disse.

Foi com base neste tipo de argumentação que o BCE justificou as compras efectuadas, no passado, de Obrigações do Tesouro no mercado secundário de países do euro como a Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e França. Há já 19 semanas consecutivas que o BCE não efectua compras deste tipo.

7.7.12

Finlândia prefere abandonar o euro a pagar dívidas dos outros países

in Jornal de Notícias

A ministra das Finanças finlandesa disse, esta sexta-feira, que Helsínquia prefere preparar-se para sair do euro do que pagar as dívidas dos outros países.

Jutta Urpilainen disse, em entrevista ao jornal "Kauppalehti", de Helsínquia, que apesar de a Finlândia estar "empenhada em fazer parte da zona euro" e que o "euro é benéfico" para o país não está disposta a pagar um preço qualquer e que o país está preparado para enfrentar qualquer cenário, incluindo abandonar a moeda única europeia.

Helsínquia rejeita o Mecanismo Europeu de Estabilidade acordado durante a última cimeira europeia em Bruxelas destinado, sobretudo, a ajudar as economias de Espanha e de Itália.

Por outro lado, a ministra do governo social-democrata finlandês disse à estação de televisão pública da Finlândia que as "negociações com Madrid vão ser difíceis e prolongadas" referindo-se ao processo de ajuda financeira à banca espanhola.

"Nós representamos a linha dura. Temos condições muito rigorosas porque temos de garantir o risco dos contribuintes finlandeses", disse a ministra.

Na mesma entrevista, a ministra esclareceu que sublinhou "perante os países da União Europeia" que o país não vai participar no programa de ajudas ao sistema bancário espanhol se Madrid não apresentar garantias relacionadas com o pagamento sobre o primeiro empréstimo.

A ministra disse ainda desconhecer se outros países vão fazer a mesma exigência a Madrid e acrescentou que as conversações com o governo de Mariano Rajoy podem começar nas próximas semanas, altura em que se vai conhecer "em concreto" o valor da ajuda.

3.7.12

Probabilidade da Grécia e Portugal saírem do euro é de 85%, diz economista

in Sol

Uma economista próxima de Nouriel Roubini, tido como o primeiro a prever a crise financeira de 2008, disse hoje que há «uma probabilidade de 85 por cento» de a Grécia e Portugal saírem do euro.

Num colóquio anual organizado em Atenas pelo jornal britânico The Economist, que nunca escondeu as suas dúvidas sobre a manutenção da Grécia na Zona Euro, Megan Greene, directora de estudos europeus da empresa do analista Nouriel Roubini, afirmou que a Grécia deverá ser a primeira a abandonar a moeda única.

«Estimamos que há uma probabilidade de 85 por cento de ver a Grécia e Portugal saírem da Zona Euro. Na minha opinião, a Grécia vai ser o primeiro país a sair e isso vai acontecer no início do próximo ano», afirmou Greene.

Jörg Asmussen, membro do Banco Central Europeu (BCE), falou na abertura do debate em representação dos credores internacionais de Atenas - BCE, Comissão Europeia (CE) e Fundo Monetário Internacional (FMI).

O responsável foi peremptório: os gregos devem aceitar e acelerar os sacrifícios e as reformas estruturais se quiserem sair da crise e garantir a pertença à Zona Euro.

E, para isso, devem proceder à «desvalorização interna», ou seja, baixar fortemente os custos de produção do país, sobretudo os salários, para poderem entrar num caminho de competitividade e de crescimento, sem desvalorizar a moeda.

Convidado de honra para as conferências que hoje tiveram lugar em Atenas, Alexis Tsipras, líder da oposição e dirigente da esquerda radical grega, o Syriza, que se tornou o segundo partido mais votado do país depois das eleições legislativas de 17 de junho, foi um dos oradores.

Para Tsipras, o esquema de «desvalorização interna» preconizado pelos credores internacionais da Grécia é «doloroso para o povo grego» e «ineficaz», uma vez que conduz a um «desastre humanitário».

«A austeridade», disse, vai «agravar a situação» e «conduzir o país à saída da Zona Euro, que é a única via institucional possível para um Estado no interior da moeda única», acrescentou.

Referindo uma reforma fiscal e a luta contra a corrupção, Tsipras considera que estas alterações «necessárias» não podem ser realizadas de maneira duradoura num ambiente de «afundamento da economia». Entre as medidas que defende, o responsável do Syriza aponta «uma moratória» sobre o pagamento da dívida helénica.

Megan Greene, por seu lado, não acredita que «este governo tenha mais hipóteses do que o anterior de adotar reformas» e afirma que a Grécia «já não pode suportar mais austeridade».

A economista alerta ainda para que, «de qualquer forma, se conseguirem [implementar as reformas], isso vai colocar em risco o crescimento, o que vai ser muito duro para o povo».

«A 'troika' [BCE, CE e FMI] nunca vai permitir uma moratória sobre o pagamento da dívida e a Grécia vai ser obrigada a entrar em incumprimento e, por isso, a sair da Zona Euro», sentenciou a responsável.

29.6.12

Itália e Espanha bloqueiam pacto para o crescimento

por Daniel Rosário, in RR

Roma e Madrid apoiam o conteúdo do pacto, mas só aceitam a sua viabilização caso obtenham garantias de que serão tomadas medidas de curto prazo que forcem a descida dos juros da dívida.

Itália e Espanha trocaram as voltas aos planos da Alemanha e bloquearam esta quinta-feira a aprovação do pacto para o crescimento e emprego com que a Europa pretende complementar o Tratado Orçamental aprovado no início do ano.

No encontro dos líderes dos “27”, que decorre em Bruxelas, Roma e Madrid deixaram claro que apoiam o conteúdo do pacto, mas só aceitam a sua viabilização caso obtenham garantias de que serão tomadas medidas de curto prazo que forcem a descida das elevadas taxas de juro que os mercados lhes exigem.

Os presidentes do Conselho Europeu, da Comissão Europeia, a chanceler alemã e os responsáveis vários países tinham agendadas conferências de imprensa para as 19h30 onde contavam apresentar como uma vitória o acordo em relação ao pacto para o crescimento.
Mas o guião cuidadosamente preparado acabou por ser sabotado pela posição de Itália e Espanha.

Já passava das 22h00 em Bruxelas quando o presidente do Conselho Europeu Herman Van Rompuy e o presidente da Comissão Europeia Durão Barroso apareceram perante os jornalistas. Algo embaraçado, Van Rompuy reconheceu que a discussão ainda não estava fechada, mas não entrou em pormenores.

“Acontece que dois países fazem muita questão em que haja um acordo sobre as medidas a longo prazo e sobre as medidas a curto prazo. Mas a discussão não está de todo bloqueada, a discussão continua, continua. E é por isso que vos apresentamos este relatório nesta fase intermédia.”

A vontade destes dois países já era conhecida dos demais parceiros, que provavelmente subestimaram a sua determinação. Antes de partir para Bruxelas Mario Monti, o chefe do governo italiano, anunciou perante o parlamento do seu país que estava disposto a discutir até segunda-feira, antes da abertura dos mercados.

Hoje, ao chegar à capital belga, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, afirmou que não servia de nada falar em medida de longo prazo se o seu país se encontrava numa situação em que já não se conseguia financiar.

“Estamos a financiar-nos a preços demasiado elevados e há instituições públicas espanholas que nem se conseguem financiar. Nestes momentos o preço do crédito a Espanha é evidentemente muito caro, penso que a União Europeia e a União Económica e Monetária têm que ser conscientes desta situação e de que é preciso adoptar alguma decisão.”

A reunião prossegue nesta noite de quinta-feira agora e continua sexta-feira, sendo que para amanhã à tarde já estava prevista uma cimeira apenas entre os líderes dos 17 países da zona euro, provavelmente a ocasião mais adequada para prosseguir a discussão.

Entretanto, apesar de formalmente ainda não ter sido aprovado, o conteúdo do pacto para o crescimento e emprego é o esperado. O objectivo é mobilizar um total de 120 mil milhões de euros, através do reforço do capital do BEI, da reafectação dos fundos estruturais e da emissão de obrigações europeias para projectos específicos de infra-estruturas.

Alemanha cede a Espanha e Itália. Há novas regras para países em dificuldade

por Daniel Rosário, RR

Fundo de resgate da Zona Euro pode vir a comprar directamente dívida dos Estados em dificuldades.

A pressão de Itália e Espanha funcionou e a Zona Euro aceitou flexibilizar substancialmente o funcionamento dos seus mecanismos de resgate, de uma maneira que pode ser decisiva para acalmar as tensões nos mercados da dívida, que atiraram os juros espanhóis e italianos para níveis incomportáveis.

O fundo de resgate da Zona Euro pode, assim, vir a comprar directamente dívida dos Estados em dificuldades, medida que deve entrar em vigor no final do ano.

Os instrumentos financeiros do euro podem passar a intervir no mercado da dívida para apoiar países que cumpram todas as regras da disciplina orçamental, mas que por alguma razão se encontrem na mira dos mercados – precisamente o que acontece agora com Roma e Madrid.

Os países em causa vão ter de assinar um memorando de entendimento, mas não serão obrigados a cumprir novas condições macroeconómicas para beneficiar da ajuda. Uma modificação que deverá ser aprovada dia 9 de Julho pelo Eurogrupo.

A outra decisão saída do Conselho Europeu que terminou na última madrugada tem interesse particular para Espanha, que recorreu ao apoio europeu para recapitalizar o seu sector bancário: a recapitalização dos bancos vai passar a ser feita de forma directa, sem passar pelo Estado, evitando assim o agravamento do défice e da dívida do país em causa.

Esta novidade deve entrar em vigor dentro de alguns meses, o mais tardar até ao fim do ano, e está sujeita a uma condição: que até lá seja criado um mecanismo europeu de supervisão bancária, a partir do reforço das competências do Banco Central Europeu. Uma exigência de Berlim.

Este entendimento foi alcançado quando já passava das 4h30 (3h30 em Lisboa), depois de os primeiros-ministros de Espanha e Itália terem bloqueado a aprovação do novo Pacto para o Crescimento pelos 27 países da União, com o argumento de que não era possível separar as duas questões.

A reunião dos 17 líderes da Zona Euro, prevista para o almoço desta sexta-feira, foi assim antecipada de urgência para a 1h00, para encontrar uma resposta ao bloqueio italo-espanhol.

Resolvida a questão, o Conselho Europeu prossegue hoje de manhã, novamente a 27.


Barroso e Monti satisfeitos com compromissos alcançados
O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, diz que os resultados conseguidos no primeiro dia do Conselho Europeu de Bruxelas foram bons, “na medida em que temos compromissos substanciais em termos de supervisão bancária”.

“E também temos medidas que, com adequada condicionalidade, vão permitir uma acção mais rápida dos mercados para alguns países que possam vir a necessitar dessa acção. Isto que hoje em princípio ficou acordado tem mais a ver com Espanha, também com a possibilidade de intervenções em Itália e ficou referido também que, no caso do sistema financeiro, se vai reanalisar a situação da Irlanda e se aplicarão os mesmos tipos de mecanismos em situações similares”, adianta.

O primeiro-ministro italiano, Mario Monti, também considera os resultados “muito satisfatórios” e sublinha que são bons para todos os países do euro.

“Houve muita discussão, alguma tensão, mas foi objectivamente muito útil, porque avançámos, mesmo às 4h30 da manhã. Foram aprovadas medidas que considero serem satisfatórias para a estabilização da Zona Euro", afirmou aos jornalistas.

“O debate tem de passar de como resgatar o euro a como gerir a ruptura ordeira do euro”

Por Ana Rita Faria, in Público on-line

O Governo grego cairá em breve e a Grécia sai da moeda única até ao final do ano. Portugal que não se iluda: é o próximo da linha. Para o economista grego Costas Lapavitsas, só um plano Marshall pode salvar o euro.

Foi uma das vozes que se opôs, logo em 2010, ao acordo de resgate à Grécia e tem alimentado o debate europeu sobre a saída do país do euro e o colapso da moeda única. Costas Lapavitsas, professor de economia da SOAS (Escola de Estudos Africanos e Orientais da Universidade de Londres), acaba de publicar o livro Crisis in the eurozone (Crise na zona euro), em parceria com outros colegas do Research on Money and Finance (RMF) - um grupo de economistas, do qual faz parte o português Nuno Teles. Em entrevista por telefone ao PÚBLICO, o autor que tem influenciado as ideias do partido de esquerda radical, o Syriza, explica por que é que considera inevitável a desintegração da zona euro.

A Grécia formou um novo Governo. O pior já passou?

Não, de todo. Evitou-se o pior resultado, que seria uma saída caótica e violenta da Grécia da zona euro, no curto prazo. Mas este Governo, com o programa que tem de seguir, com as pessoas que o vão formar, não vai resolver a crise grega. Este Governo tem um período de vida curto.

Porquê?

Em primeiro lugar, porque o programa económico que vai seguir é basicamente o mesmo dos últimos dois anos e meio. É um programa com condições: austeridade, liberalização e privatização. Não correu bem até aqui e não vejo como pode resultar agora. Não vão conseguir nenhuma concessão significativa da União Europeia, no máximo um alargamento do prazo para as metas orçamentais. Se a Grécia continuar a aplicar este tipo de políticas, o caminho que se segue é de contracção e estagnação. Além disso, os políticos que formam este Governo são da velha escola. São os mesmos que colocaram o país nesta situação. Não estão habituados a trabalhar uns com os outros, a formar governos de coligação e a cooperar. Espero luta e fracções neste Governo.

O que vai acontecer então?

O Governo vai cair nos próximos meses e o partido de esquerda radical, o Syriza, será chamado a formar Governo e resgatar o país.

Mas o Syriza também diz querer manter o país no euro…

É verdade. Oficialmente, são muito defensores da ideia de manter a Grécia dentro da zona euro. Mas o Syriza também reconhece que há um limite até onde os gregos irão para manter o país dentro do euro. Se o que a zona euro lhes pedir para fazer for muito severo, vão recusar-se. Em última instância, isso irá significar a saída da Grécia do euro.

Isso acontecerá este ano?

Seria um milagre se a Grécia permanecer no euro no final do ano. Se a Grécia ficar e continuar a aplicar estas políticas, o futuro será muito mau para os gregos. A pobreza vai aumentar, o desemprego vai aumentar, não haverá futuro para os jovens. A economia vai estagnar durante anos. Será uma morte lenta. A Grécia tornar-se-á um país pobre, muito desigual, um país de velhos, pois os mais jovens sairão do país.

Se a Grécia sair, segue-se Portugal?

Sim. Não acho que Portugal tenha futuro dentro do euro. Sei que os portugueses acreditam que possa ser diferente com eles, mas estão a iludir-se. Portugal teve 10 a 15 anos de estagnação. A economia é fraca, não pode sobreviver facilmente dentro do euro. Portugal não pode sobreviver na união monetária com algum tipo de dinamismo. O que vale para a Grécia vale para Portugal. E o mesmo para Espanha. A Espanha não conseguirá recuperar facilmente nesta união monetária.

Mas, como diz no seu novo livro, a zona euro pode mudar…

Mas não pode mudar rapidamente. Seriam precisas mudanças estruturais dramáticas e profundas. As eurobonds, a intervenção do BCE, todas estas coisas que foram discutidas várias vezes são superficiais. Não podem resolver a crise e não podem ser introduzidas sem mudanças estruturais prévias. A Alemanha e a senhora Merkel estão certos em serem cépticos quanto a isso. O que a Europa precisa é de um plano Marshall.

Mas isso é precisamente o que a Alemanha não quer…

Exacto. Mas é o que a Grécia, Portugal e a Espanha precisam, para aumentar a produtividade do trabalho e tornarem-se mais competitivos. A Comissão Europeia e o FMI já entenderam que esse é o problema. Mas a maneira como o estão a tentar resolver é destruindo os custos laborais e os salários. Esta é a maneira mais brutal e menos efectiva de o fazer. Não vai funcionar, não só porque é violenta na destruição dos rendimentos das pessoas, mas também porque os salários da Alemanha permanecem muito baixos. Sem um plano Marshall, a periferia não tem hipótese.

O que seria esse plano?

Seria um investimento massivo proveniente de fundos do centro europeu, mas também know-how, profissionais qualificados, novos mecanismos institucionais. Um cenário diferente para criar capacidade produtiva na periferia e aumentar a produtividade do trabalho. Para isso, é preciso uma mudança de política económica e filosofia económica na Alemanha. A Alemanha criou uma economia que é internamente fraca. As pessoas não percebem isso, pensam que a economia germânica é muito forte. Mas não é. A procura doméstica está permanentemente deprimida, os salários são baixos, as pequenas empresas alemãs têm dificuldades em sobreviver. É uma economia que sobrevive contando dinheiro e gerindo-se de uma forma muito apertada. É muito bem-sucedida no que toca às exportações, porque mantém salários baixos. Este modelo pode resultar para os bancos e grandes empresas na Alemanha, mas não funciona para os cidadãos alemães e certamente não funciona para a união monetária.

Está a dizer que o euro não é apenas mau para a periferia, mas para a própria Alemanha?

Exactamente. O euro foi muito mau para os cidadãos alemães e eles sabem-no. É por isso que não querem fazer sacrifícios. Os alemães viveram durante 15 anos sob uma forte restrição salarial por causa do euro. Por isso, quando se diz que os alemães têm de pagar, eles zangam-se. A Alemanha tem de mudar o seu modelo económico, fortalecendo a procura interna, deixando de prestar tanta atenção às exportações e reequilibrando assim toda a união monetária. Ou seja, é preciso um plano Marshall para a periferia e um reequilíbrio da economia alemã.

Isso bastaria?

Há o primeiro passo essencial: o perdão da dívida. A dívida acumulada na união monetária é enorme, tanto pública como privada. É uma dívida nunca será paga e um enorme fardo sobre a economia. A Europa precisa de se livrar dessa dívida. Há duas maneiras de o fazer: uma é através de uma reestruturação, outra é através da inflação, que gradualmente iria diminuir esse fardo. Além disso, é preciso um sistema bancário unificado na Europa.

Vê os líderes europeus a chegarem a acordo para essas mudanças?

Não. Uma vez que se começa a ir tão fundo, percebe-se quão complicada e difícil seria essa transformação. Realisticamente, não vejo estas mudanças a serem implementadas.

Então o colapso do euro é inevitável?

Acho que alguma espécie de ruptura violenta é inevitável. Que forma irá assumir, não sei. Ninguém sabe, porque, até certo ponto, isso dependerá dos acontecimentos. De quem irá sair primeiro e como.

Mas não teme também as consequências que uma saída do euro teria na Grécia ou em Portugal?

Estou muito preocupado com isso e, de certa forma, também estou muito zangado com as pessoas que criaram este incrível mecanismo e puseram as nações europeias nele, sem pensarem no que significaria sair dele. Sair do euro será muito doloroso, para a Grécia, para Portugal, para Espanha, para quem quer que seja. Se o euro colapsar completamente, será uma catástrofe para a Europa. Por isso, se os líderes europeus têm algum bom senso ainda, devem pensar seriamente em como tornar a saída do euro o mais suave possível. O debate na Europa tem de passar de como resgatar o euro a como gerir uma ruptura ordeira do euro. A Grécia, por exemplo, irá enfrentar grandes problemas se sair: na circulação monetária, nos bancos, que terão de ser nacionalizados, e no comércio, porque não será capaz de comercializar internacionalmente. Irá precisar de ajuda para comprar petróleo, comida, medicamentos. Será um choque enorme. Será um contexto de guerra, mas também já o é neste momento. Se houver algum bom senso, os líderes gregos e europeus têm de começar a falar sobre como organizar essa saída. Mas, infelizmente, acredito que irá acontecer de uma forma violenta e caótica.

Em Portugal também?

Portugal é um pouco diferente. O sistema político é diferente, as pessoas são diferentes, a sociedade portuguesa é diferente. Não é tão de confronto, de oposição como a grega. Mas claro que o problema é fundamentalmente o mesmo. Por isso, se Portugal sair do euro, enfrentará os mesmos problemas. Irá precisar de ajuda. Mas é a única maneira que vejo de estas economias recuperarem. No médio prazo, é a única esperança. Claro que a saída do euro, por si só, não basta. É importante referir isso. A saída é um passo necessário, mas não é suficiente.

O que os países que saírem do euro precisarão?

Irão precisar, claro, de um default na dívida pública. Mas irão também precisar de um programa amplo de reorganização das suas sociedades, o equivalente de um plano Marshall interno. Terão de reorganizar os seus recursos, reequilibrar as suas economias, terão de controlar os bancos e de lançar uma política industrial. A periferia da Europa precisa de reorganizar o seu sector produtivo, apostar em algumas áreas, ligar a produção à educação, reorganizar o Estado social.

Líderes europeus acordam 120 mil milhões para crescimento

in Jornal de Notícias

Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, e Durão Barroso em conferência de imprensa

Os líderes europeus acordaram esta quinta-feira, em Bruxelas, mobilizar 120 mil milhões de euros em medidas que fomentem o crescimento, anunciou o presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy.

Van Rompuy, que falava numa conferência de imprensa intercalar, pois a cimeira prosseguirá ao longo da noite, precisou que 60 mil milhões serão mobilizados através da alavancagem possível com o aumento do capital do Banco Europeu de Investimento, 55 mil milhões através da realocação de fundos não utilizados e os restantes 5 mil milhões através do projeto-piloto de "project bonds" (obrigações de projetos).

O dinheiro do BEI será sobretudo destinado aos países mais vulneráveis e a realocação de fundos visará designadamente as pequenas e médias empresas, acrescentou.

Rompuy e o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, indicaram que as discussões prosseguirão ao jantar com uma discussão sobre a estabilidade financeira, por esta também estar ligada à agenda ao crescimento, acrescentando que também foi discutido o orçamento da União pós-2013 (2014-2020) enquanto um elemento fundamental para promover o crescimento no longo prazo.

As medidas para o crescimento a curto prazo -- tão reclamadas por Espanha e Itália, particularmente -- serão discutidas na cimeira de líderes da zona euro que terá lugar na sexta-feira à tarde, disseram.

28.6.12

A “odiada” Alemanha tem muito a perder com o colapso do euro, diz George Soros

Por Raquel Almeida Correia, in Público on-line

Numa entrevista ao Spiegel, o investidor e filantropo multimilionário norte-americano afirma que a Europa tem até amanhã, dia da reunião do Eurogrupo, para tomar decisões firmes.

Uma Alemanha “odiada”, vista como um “poder opressivo”. É assim que George Soros descreve a forma como a imagem do país está a sair da crise da dívida na Europa. O investidor-especulador norte-americano considera que o colapso da moeda teria consequências drásticas, sobretudo para os alemães.

“Não há dúvida de que o colapso do euro seria muito penalizador e sairia muito caro, tanto a nível financeiro, como político. E a maior perda seria assumida pela Alemanha”, refere Soros, alertando para o facto de, até agora, os alemães pouco terem sofrido com a actual instabilidade económica. “As ajudas têm sido dadas através de empréstimos e só se esse crédito não for pago é que pode haver impactos”, diz.

Questionado sobre o facto de, no país, a defesa pela saída do euro estar a ganhar terreno, o filantropo multimilionário responde que a Alemanha tem sobretudo de se preocupar com a imagem externa. “Ao fazer o mínimo está a perpetuar uma situação em que os países endividados têm de pagar taxas de juro elevadas para refinanciar a sua dívida”, refere.

Perante este cenário, o país é agora visto como um império poderoso que “não será amado, nem admirado pelo resto da Europa”. Mas sim “odiado porque é encarado como um poder opressivo”, sublinha Soros.

O investidor diz, ainda assim, que não há dúvidas de que a Alemanha está muito à frente na aplicação de medidas estruturais. “Os países que hoje têm grandes dívidas não introduziram as reformas que a Alemanha introduziu e, por isso, estão em desvantagem”.

Mas Soros atribui especial responsabilidade à Alemanha pelo que está a acontecer, até porque defende que o país faz parte do grupo “que esteve envolvido na introdução do euro, sem perceber bem quais eram as consequências. Foi uma criação franco-alemã de que nenhum país beneficiou mais do que a Alemanha, tanto politicamente, como economicamente”, frisa.

O norte-americano diz ainda que apesar de ainda não haver sinais de instabilidade económica no país, esse cenário mudará “se a crise do euro não for resolvida rapidamente”, o que faria com que a Alemanha “começasse a sentir rapidamente o declínio global da actividade económica”.

Para Soros, as decisões para resolver a crise da dívida têm de ser tomadas até à próxima reunião do Eurogrupo, que acontecerá já amanhã. “Os líderes europeus têm de tomar passos firmes”, defende.

Quanto a Merkel, Soros considera que a chanceler caiu numa armadilha. “Merkel percebeu que o euro não está a funcionar, mas não pode alterar a narrativa que criou porque foi essa narrativa que envolveu o público alemão. Está determinada a preservar o euro”, diz.