«Não me via em casa, completamente fechada, sem ter com quem falar» – Maria Joaquina
Santarém, 22 jul 2022 (Ecclesia) – O projeto ‘Semear Afetos’, do Centro Social Paroquial de Santa Margarida de Abrã (Santarém), promove o “envelhecimento ativo e feliz” das ‘Avós de Afetos’, através de ateliês variados, passeio e contacto intergeracional.
“Como estou sozinha em casa, tenho um filho mas trabalha e só vem à noite, é um convívio com elas todas para passar melhor o tempo, porque em casa fechada, quem esteve sempre habituada a sair e a ter uma atividade, é difícil, é muito difícil”, disse Maria Joaquina, professora reformada, em declarações à Agência ECCLESIA.
O projeto de empreendedorismo social ‘Semear Afetos’ promove o envelhecimento ativo e feliz, capacitando os idosos a partir das suas “artes, histórias de vida e sabedoria”, precisa o centro.
“Eu gosto, ando aqui há mais de sete anos”, relata Maria Armanda, uma das utentes “mais velhas” deste projeto, destacando a importância do “convívio”, porque conversam “todas umas com as outras”.
“Fazemos de conta que somos todas irmãs, não há o mínimo de nada que se chateie, nada. E, às vezes, quando uma está uns dias sem vir depois é uma festa. São logo aquelas saudades”, indica a antiga comerciante de sapatos que estava a “fazer um saco para as compras”, em tecido, porque não fazem “nada de plástico”.
Telma Martins, animadora sociocultural, contextualiza que o projeto nasceu para “combater” o problema do isolamento social na região, e criaram este grupo que tem “diversas atividades ao longo da semana, todos os dias”.
“Partilham os seus saberes uns com os outros, mas também as vivências, as memórias, as atividades e brincadeiras que tinham, as marotices. É muito engraçado. Nós rimos e aprendemos muito com o nosso grupo de ‘Avós de Afetos’”, acrescenta.
A educadora social Inês Lopes apresenta o ateliê de estimulação cognitiva, com “alguns exercícios e jogos”; o ateliê de ginástica e o de informática; o ateliê de costura e bordados, onde as utentes “aplicam muitos conhecimentos” que possuem no croché e na costura.
“Eles dizem que antigamente aprendiam muito novas, e muito do que fazem somos nós que aprendemos”, realça, indicando que também dinamizam passeios e atividades intergeracionais com as crianças da creche e do ATL.
Há ainda uma parceria para o “cabeleireiro, pedicure e estética”, para além da ida com os idosos “ao Posto Médico, à farmácia, e à vacinação em Santarém”.
No dia da reportagem da Agência ECCLESIA, as ‘Avós de Afetos’ estavam no ateliê de costura e bordados.
“Ao mesmo tempo é uma distração. Fazemos e temos orgulho em ver todas estas coisas que foram feitas por nós. Isto desaparece, é vendido, procuramos fazer os que são mais vendidos, e temos encomendas. É gratificante”, salientou Maria Joaquina.
Segundo a professora reformada, a “gente nova, que gosta de ter mas não sabe fazer, dá muito valor a estas coisas”, por isso, precisam ter “continuadoras para que não pare”.
A entrevistada explica que no centro social paroquial não tem antigos alunos, “mas em Abrã a maior parte foram todos” seus alunos, e teve “netos, os filhos dos alunos”.
A reportagem no Centro Social Paroquial de Santa Margarida de Abrã integra o programa ‘70X7’ deste domingo, que vai ser transmitido pelas 07h30, na RTP2.
A Igreja Católica assinala a 24 de julho o II Dia Mundial dos Avós e Idosos, celebração promovida pela Santa Sé, por iniciativa do Papa Francisco, no quarto domingo de julho, junto à festa litúrgica de São Joaquim e Santa Ana (26 de julho), os avós de Jesus.
O Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida lançou um “kit pastoral” para a celebração do II Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, em todas as comunidades católicas, com propostas para a Missa dominical e o convite a visitar quem se encontra sozinho.
HM/CB/OC
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3.8.22
26.7.21
Apoio a idosos em Lisboa. “Queremos chegar onde mais ninguém chega”
Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia), in RR
Há sete anos que a associação Amigos Improváveis ajuda a combater a solidão dos mais velhos que vivem sozinhos. Marta Antunes, da direção, explica que o principal objetivo é “conversar” e “fazer companhia”. Em setembro, reabrem as inscrições para o projeto que, antes da pandemia, contava com 149 voluntários no apoio a 56 idosos em 11 bairros de Lisboa e Oeiras.
Ouça aqui a entrevista a Marta Antunes, da associação Amigos Improváveis
No primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, instituído pelo Papa Francisco - e que se celebra este domingo, junto à festa litúrgica de São Joaquim e Santa Ana - a Renascença e a Ecclesia conversam com Marta Antunes, da direção dos Amigos Improváveis.
Esta associação nasceu em Lisboa, em 2014, por iniciativa de jovens universitários acabados de regressar da “Missão País”, e que queriam “mudar o paradigma do envelhecimento”. Marta, de 31 anos, começou por ser voluntária. Explica que “o foco são as visitas” semanais a casa dos idosos, e que tudo funciona “como uma amizade” que junta duas gerações, mas chega a envolver o resto da família.
Nesta entrevista fala do que a cativou no projeto – que se desenvolve em colaboração com paróquias e juntas de freguesia -, das dificuldades que a pandemia trouxe, e da esperança que tem em alargar o que fazem. “Idealmente, veríamos os Amigos Improváveis em todo o país”, diz. Para já, estão a “arrumar a casa” para abrir novas inscrições depois do verão.
Está na direção dos Amigos Improváveis, onde começou por ser voluntária. Foi fácil deixar-se cativar por este projeto?
Sim, foi muito fácil. Eu conheci os Amigos Improváveis em 2019, andava à procura de voluntariado nesta área do envelhecimento e do combate ao isolamento e à solidão desta fatia da população, que é cada vez maior nesta cidade grande. As inscrições estavam abertas, tive uma formação para voluntários para saber como relacionar, como estar, fui integrada numa equipa com duas pessoas que não conhecia - a Mariana e a Inês-, mas que correu muito bem.
Numa primeira visita fomos acompanhados pelo responsável de zona, porque cada freguesia tem responsáveis que cuidam e acompanham os voluntários que vão visitar os idosos. Tive o primeiro contacto com a Cilinha, uma menina de quase 90 anos, incrível, que nos recebeu de uma forma muito calorosa na sua casa, onde vive sozinha. E a partir daí correu tudo muito bem, muito descontraído, as conversas aconteceram de forma muito natural, como uma amizade.
"Chegámos a ir aos caracóis. Funciona mesmo como uma amizade, que junta duas gerações diferentes, os idosos e os jovens. Também podem ser famílias"
E continua a acompanhá-la?
Sim, ainda mantenho contacto. A Cilinha fez anos agora, há dias. Eu já não estou a visitá-la semanalmente. Habitualmente as nossas visitas aconteciam todas as semanas, é o ritmo para se começar a ganhar uma relação. O facto de trabalharmos em equipa permite que, no caso de alguma não estar tão disponível, possa ir outra e haver aqui esta regularidade, complementada sempre com telefonemas.
É mesmo como uma amizade, esta espontaneidade de uma relação que vai crescendo, vamos conhecendo a pessoa, vamos percebendo o que gosta. Chegámos a ir aos caracóis, numa tarde quente de verão, porque a Cilinha tinha imensas saudades de comer caracóis! Funciona mesmo como uma amizade, que junta duas gerações diferentes, os idosos e os jovens. Também podem ser famílias, não têm de ser necessariamente jovens universitários, e começa-se a criar aqui esta esta dinâmica.
Disse que procurou especificamente esta área de voluntariado. O que é que a cativou? Estamos também, de certa forma, a falar de uma pandemia silenciosa, que é a da solidão...
Completamente. O alerta começou a chegar quando houve uma fase em que nos noticiários se ouvia muito notícias de idosos que eram encontrados em casa já sem vida, e que ninguém tinha dado conta. Esta é a grande motivação da associação: queremos mesmo chegar onde mais ninguém chega, e temos parcerias com as juntas de freguesia, com as paróquias, muito para chegar mesmo... e às vezes a solidão está tão perto de nós. Às vezes há um vizinho no prédio ao lado do nosso que se calhar está a passar por esta situação. E também dar aqui uma missão...
Eu não sou de Lisboa, há muitos jovens que vêm estudar para Lisboa, e cada vez mais as cidades do litoral e a capital é procurada, porque não tentar também aproveitar isso para esta missão?
E criar até relações de vizinhança, porque no fundo o projeto também se baseia nisso, em criar relações de vizinhança?
Sim, e o objetivo de haver estas zonas de freguesias tão estruturadas é também para tentar ligar a área onde o voluntário passa a maior parte do tempo - seja por que vive, trabalha ou estuda naquela freguesia - com a zona onde vive o idoso, para o processo ser o mais facilitado possível.
Porque às vezes temos um dia mau, difícil de trabalho, se calhar não nos apetecia ir para o outro lado da cidade para ir ter com o nosso idoso, por maior que seja o carinho e saber que depois de lá estar vai valer a pena. Tentamos descomplicar e aproximar também nesse sentido.
Que feedback recebem da parte de quem é acompanhado?
Da minha experiência com a Cilinha, é uma gratidão enorme, mas que é recíproca, porque acabamos por lidar com uma pessoa que tem um legado, tem histórias e memórias incríveis, e eu acho que é muito bonito e muito generoso aquela pessoa abrir-nos a porta da sua casa. É onde ela vive, onde está, é o espaço dela, e abre a porta e o coração a receber aquela equipa de voluntários, que estão ali para conversar, para combinar programas, para ouvir.
Há uma sede muito grande de partilha da pessoa que está do outro lado, porque muitas vezes a companhia que tem é a televisão. No caso da Cilinha não tem família com quem possa fazer aquele telefonema que às vezes apetece fazer, vive muito do prédio, da rua, da paróquia, e acho que foi ali um balão de oxigénio, mas para ambas as partes, porque às vezes eu saía de casa da Cilinha e ia a pé até ao metro e pensava: 'valeu tanto a pena! Ainda bem que vim!". E espero que seja recíproco, naturalmente.
Já existem outras instituições que prestam apoio domiciliário quando é necessário e possível. O vosso objetivo é, sobretudo, fazer companhia, conversar? Também fazem pequenos recados?
Sim, o nosso principal foco são as visitas, é o estar, é o ouvir, é o acompanhar. E por sabermos que felizmente no nosso país há muitas entidades que depois, quando é preciso sinalizar, ou acompanhar, estão preparadas e equipadas para tal quando é necessário, temos sempre esse cuidado, e até na formação com os voluntários vamos dando essa indicação, para estarem atentos ao estado da casa, à própria evolução da pessoa nas conversas.
Mas, o nosso foco é este: é estar com regularidade. Pedimos aos voluntários para terem um compromisso mínimo de um ano, porque estas pessoas nesta idade se calhar já perderam algumas pessoas, entrar uma pessoa nova, ganhar esta confiança, criar esta relação, tem de ser construída e ganhar profundidade. Pedimos sempre aos voluntários o compromisso mínimo de um ano, que tentem ir com regularidade e, se não puderem, que avisem. Como numa amizade normal.
As visitas são semanais?
Tentamos que sejam. Claro que se houver uma semana em que não se pode ir... Isso aconteceu connosco: uma de nós não podia ir, depois durante o fim de semana ia dar um beijinho à Cilinha, ou telefonava. Tentávamos que houvesse sempre um acompanhamento regular.
"Houve uma fase em que se ouvia muito notícias de idosos que eram encontrados em casa já sem vida, e que ninguém tinha dado conta. Queremos mesmo chegar onde mais ninguém chega. Esta é a nossa grande motivação"
Esta entrevista é emitida no primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, instituído pelo Papa Francisco. Esta relação quer, de certa forma, replicar a relação mais tradicional de avós e netos, um espaço de familiaridade, carinho e partilha?
Pela parte dos afetos e do estar aberto, disponível para ouvir, para conhecer, sim. Agora com a pandemia, claro que teve de haver aqui uma pausa, mas eu digo muitas vezes: até com a nossa família, com os nossos amigos, com quantos, ou com quais é que nós estamos todas as semanas presencialmente? Portanto, acaba por se criar aqui um vínculo também muito do dia-a-dia: lembrar a consulta que ia ter, ou chegar depois de um dia que foi mais difícil e desabafar sobre alguma coisa.
Eu sinto que em determinadas alturas aquele núcleo de quatro pessoas, três voluntárias e a Cilinha, criávamos ali um momento que extrapolava, porque às vezes o contacto com a família é mais abrangente, e ali era muito específico. Eu sentia mesmo como uma amizade, vou ser sincera.
A identificação dos idosos que vão apoiar é feita com a ajuda e colaboração das paróquias e juntas de freguesia. Estas entidades depois também vos acompanham no trabalho que fazem?
Sim. Também recebemos contactos individuais de pessoas, que têm uma mãe, uma avó ou avô que gostavam que tivesse esse tipo de acompanhamento, e nós também damos resposta. Depois vamos acompanhando, vamos fazendo pontos de situação com os parceiros.
Normalmente, existem dois momentos do ano em que recebemos novos voluntários e novos idosos, corresponde mais ou menos aos semestres, em setembro/outubro e depois em fevereiro/março, e vai havendo esse acompanhamento com as parcerias. Se for necessário dar alguma informação mais específica sobre algum idoso, essa ponte é feita com os nossos responsáveis de zona, com os voluntários. Se for preciso, até, numa primeira visita estará alguém presente da família, para não haver uma estranheza tão grande.
Antes do primeiro confinamento, o projeto contava com 149 voluntários ativos, que apoiavam 56 idosos em 11 bairros de Lisboa e Oeiras. A pandemia teve algum efeito no número de voluntários e na dinâmica do trabalho?
Sim, infelizmente teve. Fomos fazendo pontos de situação para garantir que, mesmo não estando presencialmente, houvesse um acompanhamento por telefone, o que também aconteceu. Por exemplo, no caso das Universidades, em que já não havia aulas presenciais, muitos jovens tiveram de regressar à sua cidade de origem. Essa alteração da rotina, da dinâmica diária, afetou, naturalmente, a Associação.
Agora estamos num processo de arrumar a casa, perceber exatamente quem quer continuar, porque em setembro esperamos voltar a abrir inscrições, receber novas pessoas, reforçar equipas, com substituições, se for preciso. Tentámos ao máximo que não se sentisse uma quebra muito grande…
Os idosos continuaram a ser acompanhados?
Sim. Houve voluntários que passaram à janela, com o carro, para dizer “estou aqui, um beijinho!”
Reforçaram os contactos telefónicos?
Sim. Foi o possível. Sempre tentando seguir as recomendações da DGS e no contacto com as famílias, para respeitar as suas indicações e ver até onde é que cada intervenção poderia ir.
Está há pouco tempo na direção dos Amigos Improváveis, e a ideia é relançar o projeto depois do verão. Quem quiser ser voluntário, o que é que tem de fazer?
É possível ser voluntário para visitar diretamente os idosos. Podem inscrever-se individualmente ou já ter uma equipa. Depois, em setembro, vamos disponibilizar no site e nas páginas da Associação nas redes sociais o formulário de inscrição. É feita uma entrevista, uma formação e juntam-se aos Amigos Improváveis.
Fazemos sempre a correspondência entre o número de idosos que precisam de acompanhamento e o número de vagas por freguesia, fazendo uma gestão real de expectativas. Tentamos que os timings correspondam e haja respostas.
Há uma informalidade no relacionamento, o que é natural, mas também há uma exigência de compromisso e de dedicação para quem entra nesta aventura?
Tem de ser. Tipicamente, a população mais idosa que vive em Lisboa, uma grande cidade, pode sentir-se um bocadinho mais desconfiada, com dificuldade em abrir-se. É importante que os idosos sintam que podem confiar naquelas pessoas, que podem abrir a porta de casa e alimentar uma relação, que depois vai ter continuidade. Que vai haver reciprocidade.
Muitos idosos também já perderam muitas pessoas, têm aqui uma barreira maior, defesas construídas. É muito importante que, quem diz que sim, esteja presente. Vai haver dias em que não apetece ir: está a chover, queremos ir para casa, estamos com fome, o dia correu mal no trabalho, há um exame da faculdade… É aqui que se testa o verdadeiro estar, e é por isso que também há um trabalho de equipa, para se motivarem uns aos outros, para o caso de assegurar que está alguém, quando um deles não pode, de todo. Isso é muito importante.
"Estamos num processo de arrumar a casa, perceber exatamente quem quer continuar, porque em setembro esperamos voltar a abrir inscrições, receber novas pessoas, reforçar equipas, com substituições, se for preciso"
A expectativa é que o projeto cresça, no próximo ano? Mesmo em termos de área de atuação?
Sim. Idealmente, veríamos os Amigos Improváveis em todo o país, a longo prazo, quem sabe…
Neste momento estamos a reforçar as áreas que precisam e já recebemos alguns contactos para novas zonas. Estamos a avaliar o potencial de crescimento, a correspondência entre idosos e jovens, para podermos, com cuidado e garantias, alargar e continuar a crescer.
E um idoso que sinta vontade de entrar neste projeto, o que deve fazer?
Temos um email - amigosimprovaveis.voluntariado@gmail.com - e um contacto telefónico – 916577656. Pode também perguntar na sua paróquia, na Junta de Freguesia, nos parceiros. É a forma mais imediata.
A iniciativa do Papa Francisco em criar este Dia Mundial dos Avós e dos Idosos pode ajudar a recentrar atenções nos mais velhos?
Espero que sim, é uma iniciativa louvável, que obriga as pessoas a refletir. Este contacto, estas visitas e a troca de experiências obrigam-nos a refletir. A refletir no nosso envelhecimento, numa vida que acabamos por conhecer e queremos tornar melhor. Espero que esta celebração ajude a criar essa reflexão e a vontade de fazer alguma coisa, de atuar.
Foi assim que os Amigos Improváveis surgiram, num contexto de estudantes universitários, que estiveram uma semana em voluntariado na “Missão País” e que pensaram: “uma semana não chega, queremos fazer mais”. A Maria Almeida e Brito, que foi aqui o cérebro da operação, teve esta ideia, juntou um conjunto de amigos e conhecidos em casa, em 2014, começaram a distribuir-se por zonas, e o puzzle montou-se. É possível e é importante. É muito importante.
Uma das grandes preocupações tem sido encontrar alternativas a uma resposta institucional, que se massificou na sociedade, procurando apoios para recriar um ambiente familiar. Os voluntários são essenciais, para esta resposta na comunidade?
Penso que sim. Toda a gente na minha comunidade, no meu trabalho, na minha família, os meus amigos, sabiam que eu estava a fazer este voluntariado, que estava a visitar a Cilinha, partilhava o entusiasmo, o sentir.
Quem está apaixonado por este projeto vai divulgá-lo, vai querer partilhar, vai querer que o máximo de pessoas se junte a esta causa. Os voluntários acabam por ser os embaixadores e o rosto do projeto. Partilham, influenciam, trazem mais pessoas e é assim que tudo cresce, que tudo se transforma, que se inova. É com esta partilha e com esta generosidade de todos. Por isso, sem dúvida: voluntários, seja em que causa e dimensão for, são muito importantes.
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Há sete anos que a associação Amigos Improváveis ajuda a combater a solidão dos mais velhos que vivem sozinhos. Marta Antunes, da direção, explica que o principal objetivo é “conversar” e “fazer companhia”. Em setembro, reabrem as inscrições para o projeto que, antes da pandemia, contava com 149 voluntários no apoio a 56 idosos em 11 bairros de Lisboa e Oeiras.
Ouça aqui a entrevista a Marta Antunes, da associação Amigos Improváveis
No primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, instituído pelo Papa Francisco - e que se celebra este domingo, junto à festa litúrgica de São Joaquim e Santa Ana - a Renascença e a Ecclesia conversam com Marta Antunes, da direção dos Amigos Improváveis.
Esta associação nasceu em Lisboa, em 2014, por iniciativa de jovens universitários acabados de regressar da “Missão País”, e que queriam “mudar o paradigma do envelhecimento”. Marta, de 31 anos, começou por ser voluntária. Explica que “o foco são as visitas” semanais a casa dos idosos, e que tudo funciona “como uma amizade” que junta duas gerações, mas chega a envolver o resto da família.
Nesta entrevista fala do que a cativou no projeto – que se desenvolve em colaboração com paróquias e juntas de freguesia -, das dificuldades que a pandemia trouxe, e da esperança que tem em alargar o que fazem. “Idealmente, veríamos os Amigos Improváveis em todo o país”, diz. Para já, estão a “arrumar a casa” para abrir novas inscrições depois do verão.
Está na direção dos Amigos Improváveis, onde começou por ser voluntária. Foi fácil deixar-se cativar por este projeto?
Sim, foi muito fácil. Eu conheci os Amigos Improváveis em 2019, andava à procura de voluntariado nesta área do envelhecimento e do combate ao isolamento e à solidão desta fatia da população, que é cada vez maior nesta cidade grande. As inscrições estavam abertas, tive uma formação para voluntários para saber como relacionar, como estar, fui integrada numa equipa com duas pessoas que não conhecia - a Mariana e a Inês-, mas que correu muito bem.
Numa primeira visita fomos acompanhados pelo responsável de zona, porque cada freguesia tem responsáveis que cuidam e acompanham os voluntários que vão visitar os idosos. Tive o primeiro contacto com a Cilinha, uma menina de quase 90 anos, incrível, que nos recebeu de uma forma muito calorosa na sua casa, onde vive sozinha. E a partir daí correu tudo muito bem, muito descontraído, as conversas aconteceram de forma muito natural, como uma amizade.
"Chegámos a ir aos caracóis. Funciona mesmo como uma amizade, que junta duas gerações diferentes, os idosos e os jovens. Também podem ser famílias"
E continua a acompanhá-la?
Sim, ainda mantenho contacto. A Cilinha fez anos agora, há dias. Eu já não estou a visitá-la semanalmente. Habitualmente as nossas visitas aconteciam todas as semanas, é o ritmo para se começar a ganhar uma relação. O facto de trabalharmos em equipa permite que, no caso de alguma não estar tão disponível, possa ir outra e haver aqui esta regularidade, complementada sempre com telefonemas.
É mesmo como uma amizade, esta espontaneidade de uma relação que vai crescendo, vamos conhecendo a pessoa, vamos percebendo o que gosta. Chegámos a ir aos caracóis, numa tarde quente de verão, porque a Cilinha tinha imensas saudades de comer caracóis! Funciona mesmo como uma amizade, que junta duas gerações diferentes, os idosos e os jovens. Também podem ser famílias, não têm de ser necessariamente jovens universitários, e começa-se a criar aqui esta esta dinâmica.
Disse que procurou especificamente esta área de voluntariado. O que é que a cativou? Estamos também, de certa forma, a falar de uma pandemia silenciosa, que é a da solidão...
Completamente. O alerta começou a chegar quando houve uma fase em que nos noticiários se ouvia muito notícias de idosos que eram encontrados em casa já sem vida, e que ninguém tinha dado conta. Esta é a grande motivação da associação: queremos mesmo chegar onde mais ninguém chega, e temos parcerias com as juntas de freguesia, com as paróquias, muito para chegar mesmo... e às vezes a solidão está tão perto de nós. Às vezes há um vizinho no prédio ao lado do nosso que se calhar está a passar por esta situação. E também dar aqui uma missão...
Eu não sou de Lisboa, há muitos jovens que vêm estudar para Lisboa, e cada vez mais as cidades do litoral e a capital é procurada, porque não tentar também aproveitar isso para esta missão?
E criar até relações de vizinhança, porque no fundo o projeto também se baseia nisso, em criar relações de vizinhança?
Sim, e o objetivo de haver estas zonas de freguesias tão estruturadas é também para tentar ligar a área onde o voluntário passa a maior parte do tempo - seja por que vive, trabalha ou estuda naquela freguesia - com a zona onde vive o idoso, para o processo ser o mais facilitado possível.
Porque às vezes temos um dia mau, difícil de trabalho, se calhar não nos apetecia ir para o outro lado da cidade para ir ter com o nosso idoso, por maior que seja o carinho e saber que depois de lá estar vai valer a pena. Tentamos descomplicar e aproximar também nesse sentido.
Que feedback recebem da parte de quem é acompanhado?
Da minha experiência com a Cilinha, é uma gratidão enorme, mas que é recíproca, porque acabamos por lidar com uma pessoa que tem um legado, tem histórias e memórias incríveis, e eu acho que é muito bonito e muito generoso aquela pessoa abrir-nos a porta da sua casa. É onde ela vive, onde está, é o espaço dela, e abre a porta e o coração a receber aquela equipa de voluntários, que estão ali para conversar, para combinar programas, para ouvir.
Há uma sede muito grande de partilha da pessoa que está do outro lado, porque muitas vezes a companhia que tem é a televisão. No caso da Cilinha não tem família com quem possa fazer aquele telefonema que às vezes apetece fazer, vive muito do prédio, da rua, da paróquia, e acho que foi ali um balão de oxigénio, mas para ambas as partes, porque às vezes eu saía de casa da Cilinha e ia a pé até ao metro e pensava: 'valeu tanto a pena! Ainda bem que vim!". E espero que seja recíproco, naturalmente.
Já existem outras instituições que prestam apoio domiciliário quando é necessário e possível. O vosso objetivo é, sobretudo, fazer companhia, conversar? Também fazem pequenos recados?
Sim, o nosso principal foco são as visitas, é o estar, é o ouvir, é o acompanhar. E por sabermos que felizmente no nosso país há muitas entidades que depois, quando é preciso sinalizar, ou acompanhar, estão preparadas e equipadas para tal quando é necessário, temos sempre esse cuidado, e até na formação com os voluntários vamos dando essa indicação, para estarem atentos ao estado da casa, à própria evolução da pessoa nas conversas.
Mas, o nosso foco é este: é estar com regularidade. Pedimos aos voluntários para terem um compromisso mínimo de um ano, porque estas pessoas nesta idade se calhar já perderam algumas pessoas, entrar uma pessoa nova, ganhar esta confiança, criar esta relação, tem de ser construída e ganhar profundidade. Pedimos sempre aos voluntários o compromisso mínimo de um ano, que tentem ir com regularidade e, se não puderem, que avisem. Como numa amizade normal.
As visitas são semanais?
Tentamos que sejam. Claro que se houver uma semana em que não se pode ir... Isso aconteceu connosco: uma de nós não podia ir, depois durante o fim de semana ia dar um beijinho à Cilinha, ou telefonava. Tentávamos que houvesse sempre um acompanhamento regular.
"Houve uma fase em que se ouvia muito notícias de idosos que eram encontrados em casa já sem vida, e que ninguém tinha dado conta. Queremos mesmo chegar onde mais ninguém chega. Esta é a nossa grande motivação"
Esta entrevista é emitida no primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, instituído pelo Papa Francisco. Esta relação quer, de certa forma, replicar a relação mais tradicional de avós e netos, um espaço de familiaridade, carinho e partilha?
Pela parte dos afetos e do estar aberto, disponível para ouvir, para conhecer, sim. Agora com a pandemia, claro que teve de haver aqui uma pausa, mas eu digo muitas vezes: até com a nossa família, com os nossos amigos, com quantos, ou com quais é que nós estamos todas as semanas presencialmente? Portanto, acaba por se criar aqui um vínculo também muito do dia-a-dia: lembrar a consulta que ia ter, ou chegar depois de um dia que foi mais difícil e desabafar sobre alguma coisa.
Eu sinto que em determinadas alturas aquele núcleo de quatro pessoas, três voluntárias e a Cilinha, criávamos ali um momento que extrapolava, porque às vezes o contacto com a família é mais abrangente, e ali era muito específico. Eu sentia mesmo como uma amizade, vou ser sincera.
A identificação dos idosos que vão apoiar é feita com a ajuda e colaboração das paróquias e juntas de freguesia. Estas entidades depois também vos acompanham no trabalho que fazem?
Sim. Também recebemos contactos individuais de pessoas, que têm uma mãe, uma avó ou avô que gostavam que tivesse esse tipo de acompanhamento, e nós também damos resposta. Depois vamos acompanhando, vamos fazendo pontos de situação com os parceiros.
Normalmente, existem dois momentos do ano em que recebemos novos voluntários e novos idosos, corresponde mais ou menos aos semestres, em setembro/outubro e depois em fevereiro/março, e vai havendo esse acompanhamento com as parcerias. Se for necessário dar alguma informação mais específica sobre algum idoso, essa ponte é feita com os nossos responsáveis de zona, com os voluntários. Se for preciso, até, numa primeira visita estará alguém presente da família, para não haver uma estranheza tão grande.
Antes do primeiro confinamento, o projeto contava com 149 voluntários ativos, que apoiavam 56 idosos em 11 bairros de Lisboa e Oeiras. A pandemia teve algum efeito no número de voluntários e na dinâmica do trabalho?
Sim, infelizmente teve. Fomos fazendo pontos de situação para garantir que, mesmo não estando presencialmente, houvesse um acompanhamento por telefone, o que também aconteceu. Por exemplo, no caso das Universidades, em que já não havia aulas presenciais, muitos jovens tiveram de regressar à sua cidade de origem. Essa alteração da rotina, da dinâmica diária, afetou, naturalmente, a Associação.
Agora estamos num processo de arrumar a casa, perceber exatamente quem quer continuar, porque em setembro esperamos voltar a abrir inscrições, receber novas pessoas, reforçar equipas, com substituições, se for preciso. Tentámos ao máximo que não se sentisse uma quebra muito grande…
Os idosos continuaram a ser acompanhados?
Sim. Houve voluntários que passaram à janela, com o carro, para dizer “estou aqui, um beijinho!”
Reforçaram os contactos telefónicos?
Sim. Foi o possível. Sempre tentando seguir as recomendações da DGS e no contacto com as famílias, para respeitar as suas indicações e ver até onde é que cada intervenção poderia ir.
Está há pouco tempo na direção dos Amigos Improváveis, e a ideia é relançar o projeto depois do verão. Quem quiser ser voluntário, o que é que tem de fazer?
É possível ser voluntário para visitar diretamente os idosos. Podem inscrever-se individualmente ou já ter uma equipa. Depois, em setembro, vamos disponibilizar no site e nas páginas da Associação nas redes sociais o formulário de inscrição. É feita uma entrevista, uma formação e juntam-se aos Amigos Improváveis.
Fazemos sempre a correspondência entre o número de idosos que precisam de acompanhamento e o número de vagas por freguesia, fazendo uma gestão real de expectativas. Tentamos que os timings correspondam e haja respostas.
Há uma informalidade no relacionamento, o que é natural, mas também há uma exigência de compromisso e de dedicação para quem entra nesta aventura?
Tem de ser. Tipicamente, a população mais idosa que vive em Lisboa, uma grande cidade, pode sentir-se um bocadinho mais desconfiada, com dificuldade em abrir-se. É importante que os idosos sintam que podem confiar naquelas pessoas, que podem abrir a porta de casa e alimentar uma relação, que depois vai ter continuidade. Que vai haver reciprocidade.
Muitos idosos também já perderam muitas pessoas, têm aqui uma barreira maior, defesas construídas. É muito importante que, quem diz que sim, esteja presente. Vai haver dias em que não apetece ir: está a chover, queremos ir para casa, estamos com fome, o dia correu mal no trabalho, há um exame da faculdade… É aqui que se testa o verdadeiro estar, e é por isso que também há um trabalho de equipa, para se motivarem uns aos outros, para o caso de assegurar que está alguém, quando um deles não pode, de todo. Isso é muito importante.
"Estamos num processo de arrumar a casa, perceber exatamente quem quer continuar, porque em setembro esperamos voltar a abrir inscrições, receber novas pessoas, reforçar equipas, com substituições, se for preciso"
A expectativa é que o projeto cresça, no próximo ano? Mesmo em termos de área de atuação?
Sim. Idealmente, veríamos os Amigos Improváveis em todo o país, a longo prazo, quem sabe…
Neste momento estamos a reforçar as áreas que precisam e já recebemos alguns contactos para novas zonas. Estamos a avaliar o potencial de crescimento, a correspondência entre idosos e jovens, para podermos, com cuidado e garantias, alargar e continuar a crescer.
E um idoso que sinta vontade de entrar neste projeto, o que deve fazer?
Temos um email - amigosimprovaveis.voluntariado@gmail.com - e um contacto telefónico – 916577656. Pode também perguntar na sua paróquia, na Junta de Freguesia, nos parceiros. É a forma mais imediata.
A iniciativa do Papa Francisco em criar este Dia Mundial dos Avós e dos Idosos pode ajudar a recentrar atenções nos mais velhos?
Espero que sim, é uma iniciativa louvável, que obriga as pessoas a refletir. Este contacto, estas visitas e a troca de experiências obrigam-nos a refletir. A refletir no nosso envelhecimento, numa vida que acabamos por conhecer e queremos tornar melhor. Espero que esta celebração ajude a criar essa reflexão e a vontade de fazer alguma coisa, de atuar.
Foi assim que os Amigos Improváveis surgiram, num contexto de estudantes universitários, que estiveram uma semana em voluntariado na “Missão País” e que pensaram: “uma semana não chega, queremos fazer mais”. A Maria Almeida e Brito, que foi aqui o cérebro da operação, teve esta ideia, juntou um conjunto de amigos e conhecidos em casa, em 2014, começaram a distribuir-se por zonas, e o puzzle montou-se. É possível e é importante. É muito importante.
Uma das grandes preocupações tem sido encontrar alternativas a uma resposta institucional, que se massificou na sociedade, procurando apoios para recriar um ambiente familiar. Os voluntários são essenciais, para esta resposta na comunidade?
Penso que sim. Toda a gente na minha comunidade, no meu trabalho, na minha família, os meus amigos, sabiam que eu estava a fazer este voluntariado, que estava a visitar a Cilinha, partilhava o entusiasmo, o sentir.
Quem está apaixonado por este projeto vai divulgá-lo, vai querer partilhar, vai querer que o máximo de pessoas se junte a esta causa. Os voluntários acabam por ser os embaixadores e o rosto do projeto. Partilham, influenciam, trazem mais pessoas e é assim que tudo cresce, que tudo se transforma, que se inova. É com esta partilha e com esta generosidade de todos. Por isso, sem dúvida: voluntários, seja em que causa e dimensão for, são muito importantes.
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No voluntariado de proximidade, muitas vezes cria-se uma ligação particular entre o voluntário e o idoso que é acompanhado. O objectivo destes projectos é combater a solidão. Hoje é Dia Mundial dos Avós.
Relações fortes não existem apenas entre as pessoas que partilham os mesmos genes. Que o diga Celso, que escuta de Gracinda as “histórias de avó” que ouve quando visita a sua verdadeira avó. Ou Inês e Joaquina, que partilham segredos. De Norte a Sul do país há associações que ajudam os mais velhos a não estar sós. Celso e Inês são voluntários, assim como Aline que, aos 80 anos, acompanha Ana Rosa, de 82. Hoje é o Dia dos Avós e o PÚBLICO foi conhecer a Associação de Voluntariado Universitário (VO.U.), no Porto, o Projecto de Voluntariado de Proximidade da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, e a Associação Coração Amarelo, em Lisboa.
O projecto mais antigo é o da Associação Coração Amarelo, fundado há 20 anos. Actualmente, conta com sete delegações, sendo a de Oeiras a segunda mais velha. Os utentes (140, de momento) chegam “através da acção social da câmara, dos hospitais, de algum vizinho/amigo”, explica Paula Sobral, presidente da Delegação de Oeiras. A maior parte dos utentes são mulheres.
Noutros casos, como o da VO.U., o acompanhamento faz-se com dois ou três voluntários, se possível, também para ser mais fácil conciliar com os horários dos estudantes universitários, que têm disponibilidade limitada. Já o Projecto de Voluntariado de Proximidade da Fundação Eugénio de Almeida, além dos mais velhos, também acompanha famílias monoparentais, ex-reclusos e vítimas de violência doméstica. Cada uma à sua maneira, as instituições mantêm o objectivo de combater a solidão.
"Histórias de avó"
Celso Moura entrou na VO.U. há um ano e meio. Em tempo de aulas, o estudante de assessoria e tradução passava duas a três horas por semana com a “Dona Gracinda”, umas vezes com outra voluntária, outras sozinho. “Estamos lá para ela não se sentir triste, para não se sentir sozinha e acontece o mesmo connosco. Ficamos mais felizes”, diz Celso, que vê semelhanças entre as visitas a Gracinda e as idas à casa da avó, de onde sai “bem da cabeça e bem da barriga”.
Sem filhos ou netos, Gracinda conta com a companhia de sobrinhos, do cão da vizinha e, desde há dois anos, dos voluntários. As visitas eram muitas vezes passadas à conversa, com o barulho de fundo da televisão. Quando “queria muito sair” por estar “farta de estar em casa”, Celso conta que iam “dar uma volta até aos cafés” para Gracinda, de 95 anos, também não “perder a pouca mobilidade que ainda tem”. “Outras vezes não passeio porque não me apetece, mas gosto da companhia deles”, salienta Gracinda que vê os voluntários como os netos que nunca teve. “São umas jóias.”
Apesar de ter uma ligação “muito mais forte” com a sua avó, Celso reconhece que “as histórias de avó estão todas lá”. “Ela ri-se de tudo o que conta, fala do falecido marido, da vida que tinha antes, sejam coisas boas ou más. É uma pessoa fantástica que está contente com o que fez da vida”, diz o voluntário de 21 anos com carinho na voz.
“Veio esta porcaria desta pandemia e [os voluntários] nunca mais vieram porque não podem”, diz Gracinda, triste. “Agora é que não posso sair”, queixa-se. Impossibilitado de fazer as visitas, Celso vai mantendo o contacto por telefone. “Todo o cuidado é pouco, e apesar de tudo, mesmo se formos bem protegidos, nunca se sabe. Pode correr bem, pode correr mal”, reconhece o voluntário sobre a covid-19.
Joaquina Ribeiro vive num lar, em Évora, desde que caiu e partiu a anca. Quando ainda vivia sozinha, a mulher de 90 anos contou com o apoio de Inês Nabais, durante dois anos. A voluntária da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, estudava perto de Joaquina, o que aliado à cumplicidade logo sentida aumentou a frequência das supostas visitas semanais. “Às vezes, ela ligava-me a dizer que tinha feito um bolinho ou que estava com saudades e eu passava por lá; às vezes ligava eu, porque precisava de falar”, conta a jovem de 20 anos, que actualmente estuda Psicologia em Lisboa.
Muito independente, Joaquina não queria ajuda para ir às compras ou à farmácia. “Às vezes dói-me a perna, mas ainda estou capaz de trabalhar”, conta a mulher que gosta de fazer “trabalhinhos com conchas do mar”. Também partilha com a voluntária o amor pelo oceano e tentou ensiná-la a fazer as pecinhas de que tanto gosta. “Eu nunca consegui porque é necessária uma precisão e uma minúcia incrível”, confessa Inês que tem diversas conchas, estrelas-do-mar e até um cavalo-marinho que Joaquina lhe deu. “Quando estou mais em baixo, vou sempre ver as peças, parece que me dão uma energia especial”, partilha a voluntária que tem um dos búzios de Joaquina preso numa rasta.
“Já não tenho nenhuma das minhas avós, mas lembro-me muito bem de quando as ia visitar, daquelas coisas das avós: dos bolinhos, de nunca acharem que nos alimentamos bem”, explica Inês que vê o mesmo carinho nos avisos de Joaquina para “não ir [visitá-la] à noite, para vestir um casaquinho”. A afeição de avó não se reserva apenas para o “netinho que vai fazer cinco anos” – chega também para Inês. “É muito boa e gosto muito dela”, conta Joaquina.
Apesar da significativa diferença de idades, Inês aponta a parecença entre ambas como curiosa. “A Dona Joaquina tem uma alma muito juvenil”, salienta a voluntária que também considera a idosa uma amiga. “Falávamos de encontros amorosos como se estivéssemos as duas a viver a nossa adolescência plena”, confessa entre risos.
A idade é só um número
Mas a juventude, e o bem que ela faz aos utentes beneficiários, não se vê só pela idade – vê-se pela vontade. É o caso particular de Ana Rosa Fernandes e Aline Bettencourt, utente e voluntária, respectivamente, que têm apenas dois anos de diferença. Ana Rosa, de 82 anos, está em Lisboa desde os 28 e mudou de residência várias vezes. “Pareço uma pomba”, diz com um sorriso nos olhos. Ana Rosa já conhecia Aline antes de entrar na Delegação de Oeiras da Associação Coração Amarelo. Foi a voluntária de 80 anos que lhe deu a conhecer o projecto. Aline, também uma das fundadoras da delegação, conta que Ana Rosa está inscrita em várias associações e que “aproveita todas as excursões e passeios”, não sendo um caso difícil de acompanhar.
Para evitar entrar na casa de Ana Rosa, as duas amigas encontram-se numa esplanada para conversarem, estando bem presente o afecto, carinho e atenção referido pela presidente da delegação, Paula Sobral. “Autónoma” e bastante “interessada”, Ana Rosa faz bijuteria e costura, actividades encorajadas pela voluntária. “A minha casa está cheia de quadros todos feitos pela minha mão”, diz orgulhosamente, embora lamente que às vezes “os dedos já não fechem como deve ser” — a voluntária, que actualmente acompanha mais 14 utentes, massaja as mãos da amiga pois fez um workshop de massagens.
Durante o confinamento, Ana Rosa acabou de fazer umas almofadas e outros trabalhos em “ponto de Arraiolos, ponto de cruz, meio ponto”. Depois de pedir uns minutos, volta com um saco cheio de coisas que fez enquanto esteve em casa — dá especial atenção ao vestido com bandolete a condizer que fez para a bisneta, que Aline gaba com um sorriso.
No voluntariado de proximidade, muitas vezes cria-se uma ligação particular entre o voluntário e o idoso que é acompanhado. O objectivo destes projectos é combater a solidão. Hoje é Dia Mundial dos Avós.
Relações fortes não existem apenas entre as pessoas que partilham os mesmos genes. Que o diga Celso, que escuta de Gracinda as “histórias de avó” que ouve quando visita a sua verdadeira avó. Ou Inês e Joaquina, que partilham segredos. De Norte a Sul do país há associações que ajudam os mais velhos a não estar sós. Celso e Inês são voluntários, assim como Aline que, aos 80 anos, acompanha Ana Rosa, de 82. Hoje é o Dia dos Avós e o PÚBLICO foi conhecer a Associação de Voluntariado Universitário (VO.U.), no Porto, o Projecto de Voluntariado de Proximidade da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, e a Associação Coração Amarelo, em Lisboa.
O projecto mais antigo é o da Associação Coração Amarelo, fundado há 20 anos. Actualmente, conta com sete delegações, sendo a de Oeiras a segunda mais velha. Os utentes (140, de momento) chegam “através da acção social da câmara, dos hospitais, de algum vizinho/amigo”, explica Paula Sobral, presidente da Delegação de Oeiras. A maior parte dos utentes são mulheres.
“Vamos ter com a pessoa no sentido de lhe dar apoio. Não fazemos higiene, nem alimentação. Damos o tal afecto, o tal carinho, a tal atenção. Mas se há outras necessidades, articulamos com outras instituições que estão connosco em rede”, explica. Os 60 voluntários acompanham muitas vezes mais do que um utente
"Histórias de avó"
Celso Moura entrou na VO.U. há um ano e meio. Em tempo de aulas, o estudante de assessoria e tradução passava duas a três horas por semana com a “Dona Gracinda”, umas vezes com outra voluntária, outras sozinho. “Estamos lá para ela não se sentir triste, para não se sentir sozinha e acontece o mesmo connosco. Ficamos mais felizes”, diz Celso, que vê semelhanças entre as visitas a Gracinda e as idas à casa da avó, de onde sai “bem da cabeça e bem da barriga”.
Sem filhos ou netos, Gracinda conta com a companhia de sobrinhos, do cão da vizinha e, desde há dois anos, dos voluntários. As visitas eram muitas vezes passadas à conversa, com o barulho de fundo da televisão. Quando “queria muito sair” por estar “farta de estar em casa”, Celso conta que iam “dar uma volta até aos cafés” para Gracinda, de 95 anos, também não “perder a pouca mobilidade que ainda tem”. “Outras vezes não passeio porque não me apetece, mas gosto da companhia deles”, salienta Gracinda que vê os voluntários como os netos que nunca teve. “São umas jóias.”
Apesar de ter uma ligação “muito mais forte” com a sua avó, Celso reconhece que “as histórias de avó estão todas lá”. “Ela ri-se de tudo o que conta, fala do falecido marido, da vida que tinha antes, sejam coisas boas ou más. É uma pessoa fantástica que está contente com o que fez da vida”, diz o voluntário de 21 anos com carinho na voz.
“Veio esta porcaria desta pandemia e [os voluntários] nunca mais vieram porque não podem”, diz Gracinda, triste. “Agora é que não posso sair”, queixa-se. Impossibilitado de fazer as visitas, Celso vai mantendo o contacto por telefone. “Todo o cuidado é pouco, e apesar de tudo, mesmo se formos bem protegidos, nunca se sabe. Pode correr bem, pode correr mal”, reconhece o voluntário sobre a covid-19.
Joaquina Ribeiro vive num lar, em Évora, desde que caiu e partiu a anca. Quando ainda vivia sozinha, a mulher de 90 anos contou com o apoio de Inês Nabais, durante dois anos. A voluntária da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, estudava perto de Joaquina, o que aliado à cumplicidade logo sentida aumentou a frequência das supostas visitas semanais. “Às vezes, ela ligava-me a dizer que tinha feito um bolinho ou que estava com saudades e eu passava por lá; às vezes ligava eu, porque precisava de falar”, conta a jovem de 20 anos, que actualmente estuda Psicologia em Lisboa.
Muito independente, Joaquina não queria ajuda para ir às compras ou à farmácia. “Às vezes dói-me a perna, mas ainda estou capaz de trabalhar”, conta a mulher que gosta de fazer “trabalhinhos com conchas do mar”. Também partilha com a voluntária o amor pelo oceano e tentou ensiná-la a fazer as pecinhas de que tanto gosta. “Eu nunca consegui porque é necessária uma precisão e uma minúcia incrível”, confessa Inês que tem diversas conchas, estrelas-do-mar e até um cavalo-marinho que Joaquina lhe deu. “Quando estou mais em baixo, vou sempre ver as peças, parece que me dão uma energia especial”, partilha a voluntária que tem um dos búzios de Joaquina preso numa rasta.
“Já não tenho nenhuma das minhas avós, mas lembro-me muito bem de quando as ia visitar, daquelas coisas das avós: dos bolinhos, de nunca acharem que nos alimentamos bem”, explica Inês que vê o mesmo carinho nos avisos de Joaquina para “não ir [visitá-la] à noite, para vestir um casaquinho”. A afeição de avó não se reserva apenas para o “netinho que vai fazer cinco anos” – chega também para Inês. “É muito boa e gosto muito dela”, conta Joaquina.
Apesar da significativa diferença de idades, Inês aponta a parecença entre ambas como curiosa. “A Dona Joaquina tem uma alma muito juvenil”, salienta a voluntária que também considera a idosa uma amiga. “Falávamos de encontros amorosos como se estivéssemos as duas a viver a nossa adolescência plena”, confessa entre risos.
A idade é só um número
Mas a juventude, e o bem que ela faz aos utentes beneficiários, não se vê só pela idade – vê-se pela vontade. É o caso particular de Ana Rosa Fernandes e Aline Bettencourt, utente e voluntária, respectivamente, que têm apenas dois anos de diferença. Ana Rosa, de 82 anos, está em Lisboa desde os 28 e mudou de residência várias vezes. “Pareço uma pomba”, diz com um sorriso nos olhos. Ana Rosa já conhecia Aline antes de entrar na Delegação de Oeiras da Associação Coração Amarelo. Foi a voluntária de 80 anos que lhe deu a conhecer o projecto. Aline, também uma das fundadoras da delegação, conta que Ana Rosa está inscrita em várias associações e que “aproveita todas as excursões e passeios”, não sendo um caso difícil de acompanhar.
Para evitar entrar na casa de Ana Rosa, as duas amigas encontram-se numa esplanada para conversarem, estando bem presente o afecto, carinho e atenção referido pela presidente da delegação, Paula Sobral. “Autónoma” e bastante “interessada”, Ana Rosa faz bijuteria e costura, actividades encorajadas pela voluntária. “A minha casa está cheia de quadros todos feitos pela minha mão”, diz orgulhosamente, embora lamente que às vezes “os dedos já não fechem como deve ser” — a voluntária, que actualmente acompanha mais 14 utentes, massaja as mãos da amiga pois fez um workshop de massagens.
Durante o confinamento, Ana Rosa acabou de fazer umas almofadas e outros trabalhos em “ponto de Arraiolos, ponto de cruz, meio ponto”. Depois de pedir uns minutos, volta com um saco cheio de coisas que fez enquanto esteve em casa — dá especial atenção ao vestido com bandolete a condizer que fez para a bisneta, que Aline gaba com um sorriso.
Retratos Contados. É tempo de falar de avós e netos
in DN
O projeto Retratos Contados, que faz cinco anos este domingo, Dia dos Avós, nasceu da vontade de valorizar os mais velhos e a importância que têm no resgate da memória e na vida dos mais novos. Pelo caminho, a escritora Alice Vieira ganhou um "neto" e o impulsionador da iniciativa, Nélson Mateus, ganhou uma "avó".
Nem a máscara consegue esconder o sorriso generoso da Alice, que é feitio e se torna cumprimento a cada amigo com quem se cruza no pequeno caminho entre a porta lateral dos jardins da Gulbenkian, ponto de encontro, e a esplanada onde nos sentamos a conversar.
Nélson Mateus parece habituado a partilhar a "avó" e a sua boa disposição com o mundo todo de quem é amiga. Afinal, foi essa generosidade, e a impossibilidade de parar quieta, que a fez passar de entrevistada a "sócia" no projeto Retratos Contados, uma iniciativa de Nélson, que nasceu há cinco anos da vontade de falar da importância dos avós na vida dos netos e vice-versa, de promover o reencontro de passado, presente e futuro através desta relação fundamental e pelo caminho combater a solidão, incentivar o envelhecimento ativo e dar a conhecer gente mais velha extraordinária, que através das suas recordações e experiências de vida nos conte em discurso direto a história recente do país, não deixando que as memórias se apaguem.
Nélson Mateus é o autor e responsável do projeto Retratos Contados, está a escrever dois livros, organiza exposições, está a preparar um grande evento para o Dia do Idoso (1 de outubro) e é mentor do projeto encontroavosenetos.pt.
Alice Vieira foi uma das primeiras entrevistadas de Nélson Mateus para os Retratos Contados, numa conversa, em setembro de 2015, em que partilhou o seu testemunho como a neta que foi e a avó que é.
"É engraçado que eu nunca tinha lido nenhum livro da Alice até a conhecer", diz Nélson, logo interrompido pela escritora: "Agora já leu todos, está descansada." Ele ri e continua. "Mas eu sou de admirar as pessoas pelo que são mais do que pelo fazem e foi essa mulher que me conquistou, a mulher, a mãe e a avó. No fim da entrevista, a Alice deu-me o número de telemóvel para voltarmos a falar e eu que, na altura, tinha uma loja de roupa de criança perto da casa dela, de vez em quando passava lá para falarmos um bocadinho, e fomos ficando amigos. Nunca mais nos largámos. A Alice é uma mulher de afetos e o Retratos Contados é um projeto que trata de afetos. Eu já não tenho avós há muitos anos, mas os meus quatro avós foram importantíssimos para a minha formação, aprendi imenso com eles, e apesar de não ter idade para ser neto da Alice, fazia-me muita falta o colo de uma avó."
O colo de Alice é enorme e foi de braços abertos - "agora tem que ser com distanciamento social", diz ela a rir - que acolheu mais este "neto". Tardou pouco a que a escritora passasse a ter um papel mais ativo no Retratos Contados, que hoje é um projeto a dois.
Alice Vieira, que foi durante anos jornalista do Diário de Notícias, é escritora e poeta. Neste momento, entre mil outros afazeres colabora com Nélson Mateus no projeto Retratos Contados.
"Já sabes como eu sou, quando me apresentam propostas de trabalho, digo logo que sim e este projeto é sobre avós e netos e o papel que têm na vida uns dos outros e eu acho que é preciso contrariar a ideia de que os mais novos não ligam muito aos avós e que os mais velhos não têm paciência para os miúdos. Temos o projeto de entrevistar avós e netos e dessas entrevistas nascerá um livro. É um projeto de que gosto muito e a que agora acrescentei outro, graças à covid, obrigada covid, com a Manuela Niza, que também escreve. Estamos a fazer a meias para o Retratos Contados um romance sobre estes tempos que vivemos e que vai sendo publicado no site e que o meu patrão da Leya já disse que edita em livro. Chama-se Pó de Arroz e Janelinha e passa-se num prédio, onde todas as pessoas que lá vivem estão em confinamento, agora já começaram a desconfinar um bocadinho, mas no início não podiam sair e passavam o tempo à janela a falar das suas coisas e das suas vidas. Está a dar-nos um prazer enorme e tem-me animado muito nestes tempos metida em casa, sem poder sair", diz Alice, para quem a pandemia tem sido uma contrariedade, da qual como lhe é próprio tenta retirar o que pode ter de positivo.
Uma das relações que a covid-19 mais afetou foi entre avós e netos, a quem foi aconselhado afastamento para proteger os mais velhos, que se encontram no grupo mais vulnerável à doença. Tanto Nélson como Alice o sentiram, mas deram a volta. Ele explica.
"Durante o confinamento, eu vinha frequentemente ao El Corte Inglés às compras e passava sempre em casa da Alice para ver se era preciso alguma coisa e, sabendo eu que ela é viciada no Facebook, ensinei-a a usar a câmara do Messenger e a fazer videochamadas e quando dei por ela já estava a dar entrevistas para a televisão no meio da pandemia pelo Zoom e a falar com os netos, que vivem em Inglaterra, por videochamada. É esta troca e esta comunicação entre as gerações que este projeto quer estimular. Nós damos-lhes o presente e o futuro, eles dão-nos o passado. Adoro as histórias que a Alice me conta da Lisboa de antigamente e de todas as personagens e personalidades que conheceu", diz.
"Há uma frase da Isabel Stilwell de que nunca me esqueço: ela disse que eu estou a construir uma biblioteca de avós. E estou, porque é através das histórias deles que conhecemos a nossa história e a história do país."
Alice concorda e acha mesmo que em certa medida a pandemia acabou por aproximar as pessoas. "Não podemos tocar e beijocar, que é uma coisa que me faz muita impressão, mas tinha sempre gente a ligar-me e com os meus netos, tanto os que estão fora como os que estão cá, passei a falar por videochamada. Também é giro, não é?"
É e Nélson Mateus pensa que os últimos meses podem ter ajudado a aprender a olhar o tempo, e a geri-lo, de uma forma diferente, a perceber o que é importante e o que não é, e a priorizar-
"Trazendo isto para o projeto que estamos a desenvolver, se não valorizamos os avós, quando olharmos podem já não estar lá. E é fundamental perceber que aprendemos imenso com eles. O Retratos Contados é sobre isso. Há uma frase da Isabel Stilwell de que nunca me esqueço: ela disse que eu estou a construir uma biblioteca de avós. E estou, porque é através das histórias deles que conhecemos a nossa história e a história do país."
Para a escritora, a relação entre avós e netos é, no entanto, mais do que transmissão de memórias e conhecimento. É uma cumplicidade que raras vezes se tem com os filhos.
"Sim, é preciso utilizá-los, para nos contarem como foram os tempos da guerra, da ditadura. Podemos ter um testemunho direto, por quem viveu aqueles tempos. Isso tem um valor inestimável. E faz falta a tantos mais novos que não fazem ideia de como foi", diz Alice Vieira, que lembra o pedagogo João dos Santos, que dizia que "nenhuma criança pode passar sem ter uma aldeia e sem ter uma avó e se não tem, tem de as inventar. Foi o meu caso. Quando nasci, já tinham todos morrido, por isso as minhas avós foram uma prima e a Maria Lamas, que também era minha prima e estava em Paris, e com quem me correspondia e que evitou que eu fizesse muita asneira".
Para a escritora, a relação entre avós e netos é, no entanto, mais do que transmissão de memórias e conhecimento. É uma cumplicidade que raras vezes se tem com os filhos. "É outro tipo de afetos e de linguagem. Havendo uma geração de permeio, é tudo diferente, eu não conto aos meus filhos coisas que conto à minha neta. Ela é sempre a primeira a saber tudo e eu também. Fazem-me muita falta, os meus netos."
Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recebeu há duas semanas Alice Vieira e Nélson Mateus. Já conhecia o projeto, além da Alice, claro, mas queria saber que mais tinham em mãos e em mente.
Para Nelson Mateus, é no cruzamento das duas dimensões, tempo e afetos, que está o coração do seu projeto. "Há 15 anos não sabíamos o que eram redes sociais e hoje o Facebook é a rede social dos avós. Andamos à velocidade da luz e é por isso é tão importante manter vivas as memórias, de forma a não as perdermos. É um bocadinho como na escola, aprendíamos muito mais quando tínhamos professores interessantes, de quem gostávamos mais. Mas este encontro de avós e netos não é só para os avós partilharem histórias de como era o tempo deles, também é para os netos partilhar o seu tempo: as vantagens das novas tecnologias e como podem usá-las. Durante a pandemia, foi interessante perceber como através do computador podemos viajar pelo mundo todo e visitar museus, por exemplo, e essa é uma coisa ótima que os netos podem partilhar com os avós."
Para se inteirar disto tudo, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recebeu há duas semanas Alice Vieira e Nélson Mateus. Já conhecia o projeto, além da Alice, claro, com quem partilha a boa disposição e a "hiperatividade", mas queria saber que mais tinham em mãos e em mente. Nós também.
Além das entrevistas a avós e netos e das exposições retrospetivas, como já fez sobre Alice Vieira e Ruy de Carvalho [que também o trata por neto], Nélson vai lançar uma nova iniciativa no Retratos Contados, uma espécie de diálogo entre várias personagens, em que há sempre um mais novo, ele, o neto, que faz perguntas a uma mais velha, a avó, a Alice, e a partir destas debatem questões atuais ou históricas. "Vai ser sobre tudo menos velhice, porque os velhos não querem ler sobre velhice, velhos já eles estão", conclui Alice, com uma gargalhada.
O projeto Retratos Contados, que faz cinco anos este domingo, Dia dos Avós, nasceu da vontade de valorizar os mais velhos e a importância que têm no resgate da memória e na vida dos mais novos. Pelo caminho, a escritora Alice Vieira ganhou um "neto" e o impulsionador da iniciativa, Nélson Mateus, ganhou uma "avó".
Nem a máscara consegue esconder o sorriso generoso da Alice, que é feitio e se torna cumprimento a cada amigo com quem se cruza no pequeno caminho entre a porta lateral dos jardins da Gulbenkian, ponto de encontro, e a esplanada onde nos sentamos a conversar.
Nélson Mateus parece habituado a partilhar a "avó" e a sua boa disposição com o mundo todo de quem é amiga. Afinal, foi essa generosidade, e a impossibilidade de parar quieta, que a fez passar de entrevistada a "sócia" no projeto Retratos Contados, uma iniciativa de Nélson, que nasceu há cinco anos da vontade de falar da importância dos avós na vida dos netos e vice-versa, de promover o reencontro de passado, presente e futuro através desta relação fundamental e pelo caminho combater a solidão, incentivar o envelhecimento ativo e dar a conhecer gente mais velha extraordinária, que através das suas recordações e experiências de vida nos conte em discurso direto a história recente do país, não deixando que as memórias se apaguem.
Nélson Mateus é o autor e responsável do projeto Retratos Contados, está a escrever dois livros, organiza exposições, está a preparar um grande evento para o Dia do Idoso (1 de outubro) e é mentor do projeto encontroavosenetos.pt.
Alice Vieira foi uma das primeiras entrevistadas de Nélson Mateus para os Retratos Contados, numa conversa, em setembro de 2015, em que partilhou o seu testemunho como a neta que foi e a avó que é.
"É engraçado que eu nunca tinha lido nenhum livro da Alice até a conhecer", diz Nélson, logo interrompido pela escritora: "Agora já leu todos, está descansada." Ele ri e continua. "Mas eu sou de admirar as pessoas pelo que são mais do que pelo fazem e foi essa mulher que me conquistou, a mulher, a mãe e a avó. No fim da entrevista, a Alice deu-me o número de telemóvel para voltarmos a falar e eu que, na altura, tinha uma loja de roupa de criança perto da casa dela, de vez em quando passava lá para falarmos um bocadinho, e fomos ficando amigos. Nunca mais nos largámos. A Alice é uma mulher de afetos e o Retratos Contados é um projeto que trata de afetos. Eu já não tenho avós há muitos anos, mas os meus quatro avós foram importantíssimos para a minha formação, aprendi imenso com eles, e apesar de não ter idade para ser neto da Alice, fazia-me muita falta o colo de uma avó."
O colo de Alice é enorme e foi de braços abertos - "agora tem que ser com distanciamento social", diz ela a rir - que acolheu mais este "neto". Tardou pouco a que a escritora passasse a ter um papel mais ativo no Retratos Contados, que hoje é um projeto a dois.
Alice Vieira, que foi durante anos jornalista do Diário de Notícias, é escritora e poeta. Neste momento, entre mil outros afazeres colabora com Nélson Mateus no projeto Retratos Contados.
"Já sabes como eu sou, quando me apresentam propostas de trabalho, digo logo que sim e este projeto é sobre avós e netos e o papel que têm na vida uns dos outros e eu acho que é preciso contrariar a ideia de que os mais novos não ligam muito aos avós e que os mais velhos não têm paciência para os miúdos. Temos o projeto de entrevistar avós e netos e dessas entrevistas nascerá um livro. É um projeto de que gosto muito e a que agora acrescentei outro, graças à covid, obrigada covid, com a Manuela Niza, que também escreve. Estamos a fazer a meias para o Retratos Contados um romance sobre estes tempos que vivemos e que vai sendo publicado no site e que o meu patrão da Leya já disse que edita em livro. Chama-se Pó de Arroz e Janelinha e passa-se num prédio, onde todas as pessoas que lá vivem estão em confinamento, agora já começaram a desconfinar um bocadinho, mas no início não podiam sair e passavam o tempo à janela a falar das suas coisas e das suas vidas. Está a dar-nos um prazer enorme e tem-me animado muito nestes tempos metida em casa, sem poder sair", diz Alice, para quem a pandemia tem sido uma contrariedade, da qual como lhe é próprio tenta retirar o que pode ter de positivo.
Uma das relações que a covid-19 mais afetou foi entre avós e netos, a quem foi aconselhado afastamento para proteger os mais velhos, que se encontram no grupo mais vulnerável à doença. Tanto Nélson como Alice o sentiram, mas deram a volta. Ele explica.
"Durante o confinamento, eu vinha frequentemente ao El Corte Inglés às compras e passava sempre em casa da Alice para ver se era preciso alguma coisa e, sabendo eu que ela é viciada no Facebook, ensinei-a a usar a câmara do Messenger e a fazer videochamadas e quando dei por ela já estava a dar entrevistas para a televisão no meio da pandemia pelo Zoom e a falar com os netos, que vivem em Inglaterra, por videochamada. É esta troca e esta comunicação entre as gerações que este projeto quer estimular. Nós damos-lhes o presente e o futuro, eles dão-nos o passado. Adoro as histórias que a Alice me conta da Lisboa de antigamente e de todas as personagens e personalidades que conheceu", diz.
"Há uma frase da Isabel Stilwell de que nunca me esqueço: ela disse que eu estou a construir uma biblioteca de avós. E estou, porque é através das histórias deles que conhecemos a nossa história e a história do país."
Alice concorda e acha mesmo que em certa medida a pandemia acabou por aproximar as pessoas. "Não podemos tocar e beijocar, que é uma coisa que me faz muita impressão, mas tinha sempre gente a ligar-me e com os meus netos, tanto os que estão fora como os que estão cá, passei a falar por videochamada. Também é giro, não é?"
É e Nélson Mateus pensa que os últimos meses podem ter ajudado a aprender a olhar o tempo, e a geri-lo, de uma forma diferente, a perceber o que é importante e o que não é, e a priorizar-
"Trazendo isto para o projeto que estamos a desenvolver, se não valorizamos os avós, quando olharmos podem já não estar lá. E é fundamental perceber que aprendemos imenso com eles. O Retratos Contados é sobre isso. Há uma frase da Isabel Stilwell de que nunca me esqueço: ela disse que eu estou a construir uma biblioteca de avós. E estou, porque é através das histórias deles que conhecemos a nossa história e a história do país."
Para a escritora, a relação entre avós e netos é, no entanto, mais do que transmissão de memórias e conhecimento. É uma cumplicidade que raras vezes se tem com os filhos.
"Sim, é preciso utilizá-los, para nos contarem como foram os tempos da guerra, da ditadura. Podemos ter um testemunho direto, por quem viveu aqueles tempos. Isso tem um valor inestimável. E faz falta a tantos mais novos que não fazem ideia de como foi", diz Alice Vieira, que lembra o pedagogo João dos Santos, que dizia que "nenhuma criança pode passar sem ter uma aldeia e sem ter uma avó e se não tem, tem de as inventar. Foi o meu caso. Quando nasci, já tinham todos morrido, por isso as minhas avós foram uma prima e a Maria Lamas, que também era minha prima e estava em Paris, e com quem me correspondia e que evitou que eu fizesse muita asneira".
Para a escritora, a relação entre avós e netos é, no entanto, mais do que transmissão de memórias e conhecimento. É uma cumplicidade que raras vezes se tem com os filhos. "É outro tipo de afetos e de linguagem. Havendo uma geração de permeio, é tudo diferente, eu não conto aos meus filhos coisas que conto à minha neta. Ela é sempre a primeira a saber tudo e eu também. Fazem-me muita falta, os meus netos."
Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recebeu há duas semanas Alice Vieira e Nélson Mateus. Já conhecia o projeto, além da Alice, claro, mas queria saber que mais tinham em mãos e em mente.
Para Nelson Mateus, é no cruzamento das duas dimensões, tempo e afetos, que está o coração do seu projeto. "Há 15 anos não sabíamos o que eram redes sociais e hoje o Facebook é a rede social dos avós. Andamos à velocidade da luz e é por isso é tão importante manter vivas as memórias, de forma a não as perdermos. É um bocadinho como na escola, aprendíamos muito mais quando tínhamos professores interessantes, de quem gostávamos mais. Mas este encontro de avós e netos não é só para os avós partilharem histórias de como era o tempo deles, também é para os netos partilhar o seu tempo: as vantagens das novas tecnologias e como podem usá-las. Durante a pandemia, foi interessante perceber como através do computador podemos viajar pelo mundo todo e visitar museus, por exemplo, e essa é uma coisa ótima que os netos podem partilhar com os avós."
Para se inteirar disto tudo, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recebeu há duas semanas Alice Vieira e Nélson Mateus. Já conhecia o projeto, além da Alice, claro, com quem partilha a boa disposição e a "hiperatividade", mas queria saber que mais tinham em mãos e em mente. Nós também.
Além das entrevistas a avós e netos e das exposições retrospetivas, como já fez sobre Alice Vieira e Ruy de Carvalho [que também o trata por neto], Nélson vai lançar uma nova iniciativa no Retratos Contados, uma espécie de diálogo entre várias personagens, em que há sempre um mais novo, ele, o neto, que faz perguntas a uma mais velha, a avó, a Alice, e a partir destas debatem questões atuais ou históricas. "Vai ser sobre tudo menos velhice, porque os velhos não querem ler sobre velhice, velhos já eles estão", conclui Alice, com uma gargalhada.
26.7.19
Famalicão comemora Dia dos Avós
in Jornal do Ave
A Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão vai juntar avós, filhos e netos na próxima sexta-feira, 26 de julho, no recinto do Santuário de Nossa Senhora do Carmo, em Lemenhe, para comemorar o Dia Mundial dos Avós. A iniciativa que já é uma tradição no concelho, realiza-se a partir das 15h00 e conta com a presença do presidente da Câmara Municipal, Paulo Cunha.
Boa disposição, convívio intergeracional, e momentos de lazer e brincadeira são as características mais marcantes deste dia. Do programa definido destaca-se ainda eucaristia pelas 14h30, seguindo-se a oferta de lanches e a animação musical.
A iniciativa é promovida pelo municipio, através dos pelouros da Família, Solidariedade Social e Desporto.
Programa:
Local: Santuário da Nossa Senhora do Carmo – Lemenhe
Data: 26 de julho de 2019
14h30: Abertura
15h00: Eucaristia
15h45: Após Eucaristia terminar prevista intervenção do Sr. Presidente
16h00: Distribuição de lanches e animação musical
17h00: Encerramento
A Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão vai juntar avós, filhos e netos na próxima sexta-feira, 26 de julho, no recinto do Santuário de Nossa Senhora do Carmo, em Lemenhe, para comemorar o Dia Mundial dos Avós. A iniciativa que já é uma tradição no concelho, realiza-se a partir das 15h00 e conta com a presença do presidente da Câmara Municipal, Paulo Cunha.
Boa disposição, convívio intergeracional, e momentos de lazer e brincadeira são as características mais marcantes deste dia. Do programa definido destaca-se ainda eucaristia pelas 14h30, seguindo-se a oferta de lanches e a animação musical.
A iniciativa é promovida pelo municipio, através dos pelouros da Família, Solidariedade Social e Desporto.
Programa:
Local: Santuário da Nossa Senhora do Carmo – Lemenhe
Data: 26 de julho de 2019
14h30: Abertura
15h00: Eucaristia
15h45: Após Eucaristia terminar prevista intervenção do Sr. Presidente
16h00: Distribuição de lanches e animação musical
17h00: Encerramento
2.8.17
Seniores de Esposende assinalaram Dia dos Avós
in Correio do Minho
Assinalando o Dia dos Avós, a Rede Social de Esposende prosseguiu com o programa de Envelhecimento Ativo planeado para este ano, desta feita em Forjães, onde se realizaram diversas atividades que envolveram a comunidade sénior.
O Município de Esposende tem potenciado uma intervenção junto da comunidade sénior, através da promoção de vários projetos e atividades, tendo como parceiros privilegiados alguns dos Parceiros desta Rede Social local, nomeadamente as Instituições Particulares de Solidariedade Social com valência para a terceira idade, as Juntas de Freguesia, as empresas municipais, entre outros.
A singularidade do Programa de Envelhecimento Ativo reside na articulação e complementaridade entre as diversas entidades intervenientes na promoção das atividades, constituindo um programa integrado interinstitucional muito mais rico e diversificado à disposição dos mais velhos do concelho.
Com efeito, cada entidade organizadora assume o papel de anfitriã, tratando do evento, contando com todo o apoio logístico por parte do Município e de outras entidades, recebendo nas suas instalações ou em locais por si selecionados os utentes das outras instituições e da própria comunidade. Este programa tem vindo a fortalecer as parcerias locais, permitindo concertar esforços, otimizar recursos, integrar contributos, e complementar a intervenção, com o intuito de fomentar a participação ativa das pessoas na promoção da sua saúde, autonomia e independência, bem como na vida da sociedade em geral e das várias comunidades em particular.
Ao longo de todo o mês de julho, o Programa de Envelhecimento Ativo 2017 promoveu workshops corais e instrumentais junto dos participantes do Coro Sénior de Esposende, no
âmbito da candidatura BPI Sénior aprovada, que visaram enriquecer os seus participantes com mais uma experiência nas explorações da expressão musical, que no conjunto contribuirá para o fortalecimento do projeto.
Depois de ter sido organizado, no Monte de S. Lourenço, freguesia de Vila Chã, o XIV Torneio de Malha Sénior, promovido pela Santa Casa da Misericórdia de Esposende e integrado nas comemorações dos 438 anos da sua fundação, foi a vez do Centro Social da Juventude de Belinho promover um convívio interinstitucional para a assinalar o Dia do Amigo, e hoje, a Acarf-Associação Sócio Cultural, Artística e Recreativa de Forjães foi a anfitriã nas comemorações do Dia dos Avós, no Souto de S. Roque, em Forjães, contando com a participação de todas as IPSS com respostas sociais na área do envelhecimento.
Em simultâneo, e Indo de encontro a este eixo de intervenção junto desta faixa etária da população, a UCC Convidasaúde do Agrupamento de Centros de Saúde Cávado III - Barcelos/Esposende, está a realizar um conjunto de ações de formação sob a temática “Preservar a autonomia no idoso”, dirigida numa primeira abordagem, aos cuidadores formais das várias instituições, com o objetivo de desenvolver e atualizar as suas competências.
O Programa “Envelhecimento Ativo” tem contribuído assim, de forma efetiva, para a qualidade de vida desta franja da população, promovendo o seu bem-estar, a inclusão social e o seu reconhecimento na comunidade. A comunidade sénior tem, deste modo, a oportunidade de participar, ao longo de todo o ano e de forma gratuita, num conjunto muito diversificado de atividades de vária índole, sendo notória a sua satisfação.
Assinalando o Dia dos Avós, a Rede Social de Esposende prosseguiu com o programa de Envelhecimento Ativo planeado para este ano, desta feita em Forjães, onde se realizaram diversas atividades que envolveram a comunidade sénior.
O Município de Esposende tem potenciado uma intervenção junto da comunidade sénior, através da promoção de vários projetos e atividades, tendo como parceiros privilegiados alguns dos Parceiros desta Rede Social local, nomeadamente as Instituições Particulares de Solidariedade Social com valência para a terceira idade, as Juntas de Freguesia, as empresas municipais, entre outros.
A singularidade do Programa de Envelhecimento Ativo reside na articulação e complementaridade entre as diversas entidades intervenientes na promoção das atividades, constituindo um programa integrado interinstitucional muito mais rico e diversificado à disposição dos mais velhos do concelho.
Com efeito, cada entidade organizadora assume o papel de anfitriã, tratando do evento, contando com todo o apoio logístico por parte do Município e de outras entidades, recebendo nas suas instalações ou em locais por si selecionados os utentes das outras instituições e da própria comunidade. Este programa tem vindo a fortalecer as parcerias locais, permitindo concertar esforços, otimizar recursos, integrar contributos, e complementar a intervenção, com o intuito de fomentar a participação ativa das pessoas na promoção da sua saúde, autonomia e independência, bem como na vida da sociedade em geral e das várias comunidades em particular.
Ao longo de todo o mês de julho, o Programa de Envelhecimento Ativo 2017 promoveu workshops corais e instrumentais junto dos participantes do Coro Sénior de Esposende, no
âmbito da candidatura BPI Sénior aprovada, que visaram enriquecer os seus participantes com mais uma experiência nas explorações da expressão musical, que no conjunto contribuirá para o fortalecimento do projeto.
Depois de ter sido organizado, no Monte de S. Lourenço, freguesia de Vila Chã, o XIV Torneio de Malha Sénior, promovido pela Santa Casa da Misericórdia de Esposende e integrado nas comemorações dos 438 anos da sua fundação, foi a vez do Centro Social da Juventude de Belinho promover um convívio interinstitucional para a assinalar o Dia do Amigo, e hoje, a Acarf-Associação Sócio Cultural, Artística e Recreativa de Forjães foi a anfitriã nas comemorações do Dia dos Avós, no Souto de S. Roque, em Forjães, contando com a participação de todas as IPSS com respostas sociais na área do envelhecimento.
Em simultâneo, e Indo de encontro a este eixo de intervenção junto desta faixa etária da população, a UCC Convidasaúde do Agrupamento de Centros de Saúde Cávado III - Barcelos/Esposende, está a realizar um conjunto de ações de formação sob a temática “Preservar a autonomia no idoso”, dirigida numa primeira abordagem, aos cuidadores formais das várias instituições, com o objetivo de desenvolver e atualizar as suas competências.
O Programa “Envelhecimento Ativo” tem contribuído assim, de forma efetiva, para a qualidade de vida desta franja da população, promovendo o seu bem-estar, a inclusão social e o seu reconhecimento na comunidade. A comunidade sénior tem, deste modo, a oportunidade de participar, ao longo de todo o ano e de forma gratuita, num conjunto muito diversificado de atividades de vária índole, sendo notória a sua satisfação.
26.7.13
Os avós do futuro vão ser outros
Por Inês Raposo, Público on-line (life&style)
Em tempo de crise, os avós podem ser uma âncora para a família e os netos um apoio importante para eles. Nesta convivência o tempo é medida de todas as coisas, mas no futuro pode não ser bem assim.
Joaquim e Bernardo vão todas as manhãs ver os crocodilos e os macacos ao Jardim Zoológico de Lisboa. Passeiam um pouco pela zona de acesso livre do zoo e, quando estão cansados, sentam-se à conversa num banco com vista para os cisnes. “Já são horas para comer um gelado?”, pergunta Bernardo, com o entusiamo de uma criança de 7 anos. Joaquim, 67 anos, responde que não, que “a avó está em casa a fazer um almoço melhor”.
É assim desde o início das férias de Verão. Antes de ir para o escritório, por volta das 9h, a mãe de Bernardo deixa-o em casa dos avós e volta ao final do dia para o levar. “Passamos o tempo como podemos, só que o Bernardo é difícil de contentar. Aqui na entrada do zoo entretém-se a ver os animais que há, mas está sempre de pedir para irmos lá dentro ver os animais a sério”, afirma o avô Joaquim Sousa, que só não leva o neto a ver os “animais a sério”, porque para esses é preciso pagar entrada.
De facto, foram as dificuldades económicas que levaram os avós da família Sousa a sugerir à filha, mãe de Bernardo, que, em vez de o inscrever em Actividades de Tempos Livres (ATL), o deixasse com eles durante o Verão. “Acredita que ela até quis dar-nos dinheiro por tomarmos conta do nosso neto? Eu disse logo que nem pensar. Nós quisemos ajudá-la a poupar no ATL, tinha algum jeito ela pagar-nos?”.
Os pais educam, os avós ajudam
A propósito do Dia dos Avós, celebrado a 26 de Julho, falamos com Stella António, autora da obra Avós e Netos: Relações Intergeracionais. A Matriliniaridade dos Afectos (ed. ISCSP-UTL, 2010). Para a autora é natural que os avós sejam uma “âncora” nas famílias, papel que ganha novos contornos em tempos de crise económica. “O apoio instrumental do avós - como ir levar ou buscar os netos à escola - sempre existiu, mas com a crise muitos avós acabam também por se tornar num suporte em termos financeiros, perante o desemprego dos filhos, por exemplo”, afirma a docente e investigadora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa (ISCSP-UTL).
Apesar de muitos avós desempenharem este papel, em Portugal ainda não existem estudos que permitam avaliar o impacto financeiro deste tipo de ajuda. “Seria importante perceber qual o impacto que a ajuda dos avós tem na economia familiar”, defende Stella António. A investigadora tem conhecimento de avós que abandonaram a Universidade Sénior para ajudar mais os filhos e netos e relembra que “os avós devem ter direito ao seu tempo livre e a responsabilidade que têm para com os netos não deve ser igual à de um pai ou de uma mãe.”
Joaquim Almeida nunca fez as contas ao que filha pode estar a poupar ao deixar Bernardo com os avós. Diz nem querer pensar nisso, mas acaba por arriscar um valor: 150 euros por mês, pelo menos durante o Verão. “Nas férias até lhe damos quase todas as refeições, até o jantar, às vezes. Eu não sei bem quanto custa o ATL, mas também poupa nisso e, se vamos dar uma volta, pagamos-lhe o bilhete de autocarro. A gente nem gosta de fazer estas contas, também ganhamos muito a conviver com o rapaz”, afirma o reformado da função pública.
Uma questão de tempo
À entrada do Centro de Saúde de Sete Rios, perto do Jardim Zoológico onde Bernardo e o avô esperam pela hora de almoço, encontramos Maria do Céu e Rita Barbosa, avó e neta que aguardam pela hora da consulta. Como os filhos de Maria do Céu estão a trabalhar, pediram a Rita que acompanhasse a avó. “A minha neta está de férias da universidade e ajuda-me nos recados. Hoje calhou ser o médico, mas ontem limpou-me a cozinha toda, que eu já não tenho força para isso”, afirma a avó de 72 anos.
É por situações como esta que a investigadora Stella António acredita que “os netos também são um apoio fantástico para os avós”. Para a investigadora, “a convivência geracional aumenta a qualidade de vida dos avós e cria neles um forte sentimento de natureza afectiva, por exemplo ao sentirem que estão a acompanhar a continuidade da família”.
“O convívio é essencial e convém não esquecer que os netos também são uma mais-valia para os avós. Além disso, está provado que os adultos que tiveram relações próximas com os avós tendem a ter mais respeito pela população idosa e a ter relações mais próximas com os próprios netos”, afirma com Stella António.
A investigação na área revela ainda que é comum os netos terem uma relação especial com a avó materna, em detrimento dos restantes avós, que se pode explicar pelo facto de as mulheres da mesma família terem mais proximidade ou porque, regra geral, as avós maternas são mais novas e acabam por ter mais tempo com os netos.
O futuro já não é o que era
O aumento da esperança de vida veio permitir aos avós passar mais tempo com os netos, mas a investigadora Stella António afirma que, “apesar de a convivência ter tendência a ser maior, no futuro não será assim.” Com o aumento da idade da reforma, a diminuição do número de filhos por mulher e o facto de serem mães mais tarde, assiste-se a uma “verticalização da família”. Assim, existem menos membros de cada geração por família, mas mais gerações em convivência.
“No futuro, os avós terão menos tempo com os netos, até porque – com o aumento da idade de reforma – muitos deles ainda estarão a trabalhar quando forem avós”, explica a investigadora. Este “alongar do ciclo de vida” implicará mudanças na relação entre avós e netos. “Antes, nos anos 1920, 30 e 40, os avós tinham um papel de transmissão de conhecimentos. Hoje trata-se mais de transmissão de valores e experiência. Ao mesmo tempo, muitos avós também estão a aprender com os netos, veja-se o exemplo da tecnologia e das redes sociais: muitos idosos entraram nesse mundo com a ajuda dos netos”, diz Stella António. Avós e netos acabam assim por ter em comum, mais do que o tempo, a partilha.
Em tempo de crise, os avós podem ser uma âncora para a família e os netos um apoio importante para eles. Nesta convivência o tempo é medida de todas as coisas, mas no futuro pode não ser bem assim.
Joaquim e Bernardo vão todas as manhãs ver os crocodilos e os macacos ao Jardim Zoológico de Lisboa. Passeiam um pouco pela zona de acesso livre do zoo e, quando estão cansados, sentam-se à conversa num banco com vista para os cisnes. “Já são horas para comer um gelado?”, pergunta Bernardo, com o entusiamo de uma criança de 7 anos. Joaquim, 67 anos, responde que não, que “a avó está em casa a fazer um almoço melhor”.
É assim desde o início das férias de Verão. Antes de ir para o escritório, por volta das 9h, a mãe de Bernardo deixa-o em casa dos avós e volta ao final do dia para o levar. “Passamos o tempo como podemos, só que o Bernardo é difícil de contentar. Aqui na entrada do zoo entretém-se a ver os animais que há, mas está sempre de pedir para irmos lá dentro ver os animais a sério”, afirma o avô Joaquim Sousa, que só não leva o neto a ver os “animais a sério”, porque para esses é preciso pagar entrada.
De facto, foram as dificuldades económicas que levaram os avós da família Sousa a sugerir à filha, mãe de Bernardo, que, em vez de o inscrever em Actividades de Tempos Livres (ATL), o deixasse com eles durante o Verão. “Acredita que ela até quis dar-nos dinheiro por tomarmos conta do nosso neto? Eu disse logo que nem pensar. Nós quisemos ajudá-la a poupar no ATL, tinha algum jeito ela pagar-nos?”.
Os pais educam, os avós ajudam
A propósito do Dia dos Avós, celebrado a 26 de Julho, falamos com Stella António, autora da obra Avós e Netos: Relações Intergeracionais. A Matriliniaridade dos Afectos (ed. ISCSP-UTL, 2010). Para a autora é natural que os avós sejam uma “âncora” nas famílias, papel que ganha novos contornos em tempos de crise económica. “O apoio instrumental do avós - como ir levar ou buscar os netos à escola - sempre existiu, mas com a crise muitos avós acabam também por se tornar num suporte em termos financeiros, perante o desemprego dos filhos, por exemplo”, afirma a docente e investigadora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa (ISCSP-UTL).
Apesar de muitos avós desempenharem este papel, em Portugal ainda não existem estudos que permitam avaliar o impacto financeiro deste tipo de ajuda. “Seria importante perceber qual o impacto que a ajuda dos avós tem na economia familiar”, defende Stella António. A investigadora tem conhecimento de avós que abandonaram a Universidade Sénior para ajudar mais os filhos e netos e relembra que “os avós devem ter direito ao seu tempo livre e a responsabilidade que têm para com os netos não deve ser igual à de um pai ou de uma mãe.”
Joaquim Almeida nunca fez as contas ao que filha pode estar a poupar ao deixar Bernardo com os avós. Diz nem querer pensar nisso, mas acaba por arriscar um valor: 150 euros por mês, pelo menos durante o Verão. “Nas férias até lhe damos quase todas as refeições, até o jantar, às vezes. Eu não sei bem quanto custa o ATL, mas também poupa nisso e, se vamos dar uma volta, pagamos-lhe o bilhete de autocarro. A gente nem gosta de fazer estas contas, também ganhamos muito a conviver com o rapaz”, afirma o reformado da função pública.
Uma questão de tempo
À entrada do Centro de Saúde de Sete Rios, perto do Jardim Zoológico onde Bernardo e o avô esperam pela hora de almoço, encontramos Maria do Céu e Rita Barbosa, avó e neta que aguardam pela hora da consulta. Como os filhos de Maria do Céu estão a trabalhar, pediram a Rita que acompanhasse a avó. “A minha neta está de férias da universidade e ajuda-me nos recados. Hoje calhou ser o médico, mas ontem limpou-me a cozinha toda, que eu já não tenho força para isso”, afirma a avó de 72 anos.
É por situações como esta que a investigadora Stella António acredita que “os netos também são um apoio fantástico para os avós”. Para a investigadora, “a convivência geracional aumenta a qualidade de vida dos avós e cria neles um forte sentimento de natureza afectiva, por exemplo ao sentirem que estão a acompanhar a continuidade da família”.
“O convívio é essencial e convém não esquecer que os netos também são uma mais-valia para os avós. Além disso, está provado que os adultos que tiveram relações próximas com os avós tendem a ter mais respeito pela população idosa e a ter relações mais próximas com os próprios netos”, afirma com Stella António.
A investigação na área revela ainda que é comum os netos terem uma relação especial com a avó materna, em detrimento dos restantes avós, que se pode explicar pelo facto de as mulheres da mesma família terem mais proximidade ou porque, regra geral, as avós maternas são mais novas e acabam por ter mais tempo com os netos.
O futuro já não é o que era
O aumento da esperança de vida veio permitir aos avós passar mais tempo com os netos, mas a investigadora Stella António afirma que, “apesar de a convivência ter tendência a ser maior, no futuro não será assim.” Com o aumento da idade da reforma, a diminuição do número de filhos por mulher e o facto de serem mães mais tarde, assiste-se a uma “verticalização da família”. Assim, existem menos membros de cada geração por família, mas mais gerações em convivência.
“No futuro, os avós terão menos tempo com os netos, até porque – com o aumento da idade de reforma – muitos deles ainda estarão a trabalhar quando forem avós”, explica a investigadora. Este “alongar do ciclo de vida” implicará mudanças na relação entre avós e netos. “Antes, nos anos 1920, 30 e 40, os avós tinham um papel de transmissão de conhecimentos. Hoje trata-se mais de transmissão de valores e experiência. Ao mesmo tempo, muitos avós também estão a aprender com os netos, veja-se o exemplo da tecnologia e das redes sociais: muitos idosos entraram nesse mundo com a ajuda dos netos”, diz Stella António. Avós e netos acabam assim por ter em comum, mais do que o tempo, a partilha.
26.7.12
"Precisamos de avós activos"
por Ricardo Vieira, in RR
Há hábitos saudáveis que permitem retardar a acção do tempo
Dia Mundial dos Avós assinala-se esta quinta-feira. 2012 é o Ano do Envelhecimento Activo.
"Precisamos de avós activos" e de encarar a questão do envelhecimento de outra maneira, defende o médico Rui Nogueira, especialista em clínica geral e familiar.
O aumento da esperança de vida da população é uma boa notícia, mas também representa um desafio para uma sociedade em que a média de idades vai ser cada vez mais elevada.
O médico Rui Nogueira, em declarações à Renascença, considera que “é preciso investir e dedicar mais tempo ao envelhecimento" e a encontrar actividades em que as pessoas com mais de 65 anos possam continuar a dar o seu contributo.
“Vamos precisar da actividade dessas pessoas, essas pessoas têm de contar para a sociedade, têm de contar com actividade válida e útil para a sociedade.”
Para Rui Nogueira, o segredo de um envelhecimento activo e com maior qualidade de vida começa ainda antes de aparecerem os cabelos brancos.
"A Organização Mundial de Saúde elegeu este ano como o Ano do Envelhecimento Activo. Eu admito mesmo que o envelhecimento é tanto mais activo quanto mais conseguirmos dinamizar actividades antes do próprio envelhecimento. As pessoas mais activas tendem a manter actividade mesmo com o seu envelhecimento normal, as pessoas menos activas tendem a manter ou a agravar a sua inactividade à medida que vão envelhecendo", salienta.
Dicas simples para envelhecer com mais saúde
Com a terceira idade vêm as doenças, no entanto, é possível retardar a acção do tempo seguindo hábitos de vida saudáveis e tendo acompanhamento clínico.
Desde logo, o médico Rui Nogueira recomenda “actividade física diária moderada, mas que deve começar tão cedo quanto possível”.
Por outro lado, a alimentação deve ser cuidada e, sobretudo nesta altura do Verão, a ingestão de água fundamental para o bom funcionamento do organismo.
“As bebidas alcoólicas, de facto, são prejudiciais”, sublinha Rui Nogueira, e, em alternativa, pode optar por chá ou café, “bebidas estimulantes que previnem o envelhecimento e as demências”.
“O café sofre de muitos mitos”, porém, ingerido com moderação e com pouco açúcar “é perfeitamente aceitável”, diz o especialista em clínica geral e familiar.
“O café em si mesmo não é nefasto para a saúde e é benéfico nalgumas circunstâncias, quer em relação às demências próprias do envelhecimento, quer em relação à pele, mesmo ao estado de vigília que as pessoas precisam de ter, de acção, de actividade. Tem mesmo sido estudado em relação a doenças como Alzheimer, Parkinson, doenças que são degenerativas, são problemas neurológicos e que beneficiam ou são prevenidos com a ingestão de café, em doses moderadas, duas a quatro bicas por dia.”
Neste Dia Mundial dos Avós, outro conselho para envelhecer com saúde e qualidade de vida é tentar prevenir quedas e acidentes, nomeadamente através da eliminação dentro de casa de barreiras arquitectónicas, como degraus ou outros obscáculos difíceis de ultrapassar.
Há hábitos saudáveis que permitem retardar a acção do tempo
Dia Mundial dos Avós assinala-se esta quinta-feira. 2012 é o Ano do Envelhecimento Activo.
"Precisamos de avós activos" e de encarar a questão do envelhecimento de outra maneira, defende o médico Rui Nogueira, especialista em clínica geral e familiar.
O aumento da esperança de vida da população é uma boa notícia, mas também representa um desafio para uma sociedade em que a média de idades vai ser cada vez mais elevada.
O médico Rui Nogueira, em declarações à Renascença, considera que “é preciso investir e dedicar mais tempo ao envelhecimento" e a encontrar actividades em que as pessoas com mais de 65 anos possam continuar a dar o seu contributo.
“Vamos precisar da actividade dessas pessoas, essas pessoas têm de contar para a sociedade, têm de contar com actividade válida e útil para a sociedade.”
Para Rui Nogueira, o segredo de um envelhecimento activo e com maior qualidade de vida começa ainda antes de aparecerem os cabelos brancos.
"A Organização Mundial de Saúde elegeu este ano como o Ano do Envelhecimento Activo. Eu admito mesmo que o envelhecimento é tanto mais activo quanto mais conseguirmos dinamizar actividades antes do próprio envelhecimento. As pessoas mais activas tendem a manter actividade mesmo com o seu envelhecimento normal, as pessoas menos activas tendem a manter ou a agravar a sua inactividade à medida que vão envelhecendo", salienta.
Dicas simples para envelhecer com mais saúde
Com a terceira idade vêm as doenças, no entanto, é possível retardar a acção do tempo seguindo hábitos de vida saudáveis e tendo acompanhamento clínico.
Desde logo, o médico Rui Nogueira recomenda “actividade física diária moderada, mas que deve começar tão cedo quanto possível”.
Por outro lado, a alimentação deve ser cuidada e, sobretudo nesta altura do Verão, a ingestão de água fundamental para o bom funcionamento do organismo.
“As bebidas alcoólicas, de facto, são prejudiciais”, sublinha Rui Nogueira, e, em alternativa, pode optar por chá ou café, “bebidas estimulantes que previnem o envelhecimento e as demências”.
“O café sofre de muitos mitos”, porém, ingerido com moderação e com pouco açúcar “é perfeitamente aceitável”, diz o especialista em clínica geral e familiar.
“O café em si mesmo não é nefasto para a saúde e é benéfico nalgumas circunstâncias, quer em relação às demências próprias do envelhecimento, quer em relação à pele, mesmo ao estado de vigília que as pessoas precisam de ter, de acção, de actividade. Tem mesmo sido estudado em relação a doenças como Alzheimer, Parkinson, doenças que são degenerativas, são problemas neurológicos e que beneficiam ou são prevenidos com a ingestão de café, em doses moderadas, duas a quatro bicas por dia.”
Neste Dia Mundial dos Avós, outro conselho para envelhecer com saúde e qualidade de vida é tentar prevenir quedas e acidentes, nomeadamente através da eliminação dentro de casa de barreiras arquitectónicas, como degraus ou outros obscáculos difíceis de ultrapassar.
Quanto vale um avô para a família?
in Jornal de Notícias
Há famílias que garantem poupar um salário com a ajuda dos avós na educação dos netos, um cálculo que está a ser feito por investigadores nacionais que querem saber quanto vale um idoso. Um estudo pertinente, neste dia dos avós.
No Centro de Administração e Políticas Públicas, uma equipa de investigadores está a tentar descobrir o valor económico dos mais velhos e espera conseguir ter resposta à questão dentro de dois anos.
Nestas contas entram "desde o trabalho doméstico, a ficar com os netos ou o trabalho desenvolvido pela população da província que nunca deixa de trabalhar", explicou Fausto Amaro, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).
"Quando um avô toma conta de um neto, a família economiza um salário. Além do bem-estar e segurança que um idoso representa, há uma vantagem económica", sublinhou o investigador.
Em 2010, cerca de 274 mil crianças frequentavam o pré-escolar. De fora, estavam quase 454 mil. Nos infantários das Instituições de Solidariedade Social, as mensalidades rondam os 300 euros, sendo gratuitas para as famílias carenciadas. No privado, os valores podem ultrapassar os 400 euros mensais.
Muitas famílias encontram nos avós uma solução para os filhos. Joana Fonseca, 42 anos, tinha comprado casa há pouco tempo quando o Salvador nasceu.
"Na altura, se tivesse de colocar o Salvador numa creche teria de fazer uma mudança radical na minha vida. Um berçário em condições custa em média 400 euros. Como ficou em casa dos avós, poupámos essa mensalidade", recorda a mãe, sublinhando que a opção foi vantajosa para o desenvolvimento emocional da criança.
"Os idosos não podem ser vistos como um encargo, mas como uma oportunidade", defendeu o investigador, lembrando que "os mais velhos podem ser muito úteis e produtivos. Não são descartáveis".
Para as famílias que têm crianças na escola pública, o problema coloca-se todos os anos, quando as férias se aproximam: os trabalhadores têm 22 dias de descanso e as crianças do 1º ciclo têm 102 dias.
"Os avós são o meu suporte. Quanto tenho de ficar a trabalhar até mais tarde, vão buscar as miúdas à escola. E nas férias também conto com eles. Todos os obrigados do mundo nunca serão suficientes para lhes agradecer", admite Helena Marques, mãe de duas meninas.
Segundo dados do Eurostat relativos a 2010, uma em cada quatro mulheres com mais de 50 anos deixa de trabalhar, alegando responsabilidades pessoais e familiares. Uma em cada quatro crianças diz que os avós os vão buscar à escola, revela a investigação "Relações Intergeracionais: Um estudo na área de Lisboa", realizado no ano passado num jardim de infância de Alenquer.
Quem não tem um "avô" por perto pode ter de recorrer às atividades de tempos livres. As escolas e autarquias têm programas mas, na maioria dos casos, não ocupam todo o período de férias. Em Lisboa, por exemplo, o município ofereceu dez dias de praia a cinco mil crianças entre os seis e os 12 anos. Terminado o programa municipal, muitas famílias tiveram de procurar atividades em instituições privadas, que rondam em média os 100 euros semanais.
Atualmente, "perante as dificuldades dos jovens, muitos pais e avós acabam por ajudar financeiramente os filhos", sublinha o investigador do ISCSP.
É o caso de Isabel Ribeiro, 26 anos, que vive no Algarve com a sua filha. Mariana vê os avós poucas vezes, mas conta com a sua ajuda para pagar o colégio.
Para o presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, Fernando Castro, o valor do apoio dos avós "não é traduzível em euros, porque as coisas mais valiosas não tem preço".
Há famílias que garantem poupar um salário com a ajuda dos avós na educação dos netos, um cálculo que está a ser feito por investigadores nacionais que querem saber quanto vale um idoso. Um estudo pertinente, neste dia dos avós.
No Centro de Administração e Políticas Públicas, uma equipa de investigadores está a tentar descobrir o valor económico dos mais velhos e espera conseguir ter resposta à questão dentro de dois anos.
Nestas contas entram "desde o trabalho doméstico, a ficar com os netos ou o trabalho desenvolvido pela população da província que nunca deixa de trabalhar", explicou Fausto Amaro, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).
"Quando um avô toma conta de um neto, a família economiza um salário. Além do bem-estar e segurança que um idoso representa, há uma vantagem económica", sublinhou o investigador.
Em 2010, cerca de 274 mil crianças frequentavam o pré-escolar. De fora, estavam quase 454 mil. Nos infantários das Instituições de Solidariedade Social, as mensalidades rondam os 300 euros, sendo gratuitas para as famílias carenciadas. No privado, os valores podem ultrapassar os 400 euros mensais.
Muitas famílias encontram nos avós uma solução para os filhos. Joana Fonseca, 42 anos, tinha comprado casa há pouco tempo quando o Salvador nasceu.
"Na altura, se tivesse de colocar o Salvador numa creche teria de fazer uma mudança radical na minha vida. Um berçário em condições custa em média 400 euros. Como ficou em casa dos avós, poupámos essa mensalidade", recorda a mãe, sublinhando que a opção foi vantajosa para o desenvolvimento emocional da criança.
"Os idosos não podem ser vistos como um encargo, mas como uma oportunidade", defendeu o investigador, lembrando que "os mais velhos podem ser muito úteis e produtivos. Não são descartáveis".
Para as famílias que têm crianças na escola pública, o problema coloca-se todos os anos, quando as férias se aproximam: os trabalhadores têm 22 dias de descanso e as crianças do 1º ciclo têm 102 dias.
"Os avós são o meu suporte. Quanto tenho de ficar a trabalhar até mais tarde, vão buscar as miúdas à escola. E nas férias também conto com eles. Todos os obrigados do mundo nunca serão suficientes para lhes agradecer", admite Helena Marques, mãe de duas meninas.
Segundo dados do Eurostat relativos a 2010, uma em cada quatro mulheres com mais de 50 anos deixa de trabalhar, alegando responsabilidades pessoais e familiares. Uma em cada quatro crianças diz que os avós os vão buscar à escola, revela a investigação "Relações Intergeracionais: Um estudo na área de Lisboa", realizado no ano passado num jardim de infância de Alenquer.
Quem não tem um "avô" por perto pode ter de recorrer às atividades de tempos livres. As escolas e autarquias têm programas mas, na maioria dos casos, não ocupam todo o período de férias. Em Lisboa, por exemplo, o município ofereceu dez dias de praia a cinco mil crianças entre os seis e os 12 anos. Terminado o programa municipal, muitas famílias tiveram de procurar atividades em instituições privadas, que rondam em média os 100 euros semanais.
Atualmente, "perante as dificuldades dos jovens, muitos pais e avós acabam por ajudar financeiramente os filhos", sublinha o investigador do ISCSP.
É o caso de Isabel Ribeiro, 26 anos, que vive no Algarve com a sua filha. Mariana vê os avós poucas vezes, mas conta com a sua ajuda para pagar o colégio.
Para o presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, Fernando Castro, o valor do apoio dos avós "não é traduzível em euros, porque as coisas mais valiosas não tem preço".
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