Por Notícias ao Minuto
Portugal tem níveis de bem-estar muito assimétricos, com os territórios de baixa densidade a apresentarem maior satisfação com a sua qualidade de vida, enquanto os seis concelhos mais ricos são também os mais desiguais, revela hoje um estudo.
O estudo 'Territórios de Bem-Estar: Assimetrias nos municípios portugueses', publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e coordenado por Rosário Mauritti, do ISCTE, identificou em que medida o conceito de bem-estar é influenciado por assimetrias nas condições de vida que caracterizam municípios de Portugal continental.
À Lusa, Rosário Mauritti explicou que a equipa analisou "a realidade das pessoas e a forma como elas percecionam e apreciam as suas experiências e sobre elas produzem algum sentimento de satisfação", a partir de dados do Instituto Nacional de Estatística e casos de estudo.
Até agora, Portugal tem sido considerado como um todo homogéneo, normalmente em comparação com os restantes países europeus, mas este estudo vem demonstrar que o território do continente português é muito diverso.
O estudo organizou os municípios do continente em função de características semelhantes, como densidade, estrutura de distribuição das idades das populações, perfil educativo, socioprofissional e de rendimentos, e chegou a cinco grupos: territórios industriais em transição, territórios intermédios, territórios urbanos em rede, territórios inovadores e territórios de baixa densidade.
A análise teve em conta dimensões associadas ao bem-estar, como os contactos sociais, o equilíbrio entre trabalho e a família, saúde, habitação, segurança, sociedade digital, participação cívica, educação e cultura, trabalho digno e qualidade ambiental.
"O que nós confirmámos é que o bem-estar não significa o mesmo em todos os lugares, nem para todas as pessoas, mas é possível perceber que os territórios onde vivemos influenciam a forma como nós apreciamos o nosso bem-estar. E percebemos também que não é possível dizer que há territórios que são totalmente bons e territórios que são totalmente maus", disse Rosário Mauritti.
Por exemplo, Lisboa, Porto, Coimbra, Alcochete, Oeiras e Cascais são os municípios classificados como territórios inovadores, por serem mais favorecidos e terem níveis económicos próximos da média europeia, onde em geral "as pessoas têm trabalhos muito qualificados e acesso a recursos que compõe aquilo que é a oferta do Estado social".
"Nesses territórios há um segmento de população muito específico que vive muito bem e que vive de acordo com padrões que nós podemos considerar, de facto, padrões de uma modernidade muito avançada. Mas esses territórios também são precisamente os mais desiguais, onde há uma maior clivagem nos rendimentos, onde encontramos bacias muito significativas de pobreza associada à diversidade étnica, à diversidade de perfis qualificacionais e, portanto, associados a padrões de rendimentos que também são muito assimétricos", afirmou, salientando que nestes seis concelhos "é muito difícil às populações conciliarem a sua vida profissional com a vida pessoal e familiar" e "existe maior precariedade".
No extremo oposto, estão os territórios de baixa densidade, dos quais fazem parte quase 40% dos municípios portugueses, com apenas 8% da população, caracterizados por níveis de despovoamento, envelhecimento e pelo empobrecimento estrutural.
No entanto, é nestes territórios que há índices maiores de bem-estar: "As pessoas mais velhas que vivem sozinhas estão mais protegidas" e um indicador objetivo demonstra que a esperança média de vida "tende a ser prolongada", porque "existem estruturas associativas que são dinamizadas pelas próprias comunidades e que asseguram um apoio de proximidade" que não se consegue obter nas cidades de média ou grande dimensão.
Rosário Mauritti salientou ainda que nos territórios industriais em transição, que envolvem zonas de operariado do Vale do Ave, Tâmega e Sousa, Cávado, onde "a população adulta continua a ter um perfil qualificacional baixo ou muito baixo", existe uma crescente "dinâmica de adesão e mobilização dos jovens à escolarização", motivada pela "implantação nessas regiões de uma nova indústria de ponta muito ligada às tecnologias" e centros universitários de inovação tecnológica, em Guimarães, Braga e Porto.
"Este potencial de inovação e de reconversão, que é extremamente interessante, é um fator muito preditor, por exemplo, do sentido de bem-estar que nós não encontramos nos territórios inovadores. O trabalho pode ter uma média de remuneração das mais baixas do continente de Portugal, mas o facto de as pessoas terem um trabalho estável permite-lhes construir horizontes de futuro e construir projetos que nos espaços mais dotados de capacidade económica, precisamente onde grassa a precariedade, não são tão fáceis", sublinhou.
A autora destacou que o estudo "confirma a importância da criação de instrumentos" que podem ser utilizados para que autarquias e regiões definam estratégias e políticas públicas focadas nas pessoas e nos seus contextos.
"Quando olhamos para os objetivos estratégicos que Portugal definiu para 20/30, aquilo refere-se à média de Portugal. O que acontece é que Portugal é muito assimétrico e, portanto, é importantíssimo termos instrumentos para descer ao nível das pessoas, se queremos construir políticas que sejam de facto impactantes e que tenham significado", concluiu.
O estudo revela ainda que a qualidade do ambiente "é um dos traços mais valorizados nas apreciações de bem-estar", assim como o equilíbrio entre trabalho e vida familiar.
Mais de metade da população vive em 30 dos 278 municípios no continente e em 96% destes há mais idosos do que crianças.
Em 28% dos municípios do continente de Portugal, mais de metade das famílias são pobres e foram os municípios onde os rendimentos são mais baixos os que mais perderam população jovem.
O estudo, que contou também com Daniela Craveiro, Luís Cabrita, Maria do Carmo Botelho, Nuno Nunes e Sara Franco da Silva, será apresentado hoje, às 09:00, num evento digital no 'site' da FFMS, em www.ffms.pt.
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1.8.22
3.5.22
“A história do populismo em Portugal é longa. Está entranhada, não pode ser desvalorizada”
Fábio Monteiro, in RR
Muito antes de André Ventura chegar ao Parlamento e o Chega ser fundado já havia populismo em Portugal. Em entrevista à Renascença, José Pedro Zúquete, autor do livro “Populismo – Lá fora e cá dentro”, lembra que Basílio Horta, do CDS, chegou a ser “denunciado como supremacista branco por Mário Soares. Foi apelidado de neonazi nas páginas da Ação Socialista”. Recorda também que os portugueses têm uma certa admiração por militares – o que ficou patente com Spínola no passado… e com Gouveia e Melo, enquanto esteve no leme da "task force" para a vacinação.Ainda em 2019, José Pedro Zúquete era um dos vários crentes no “excecionalismo português" relativamente ao populismo: tal fenómeno não existia em solo nacional. O investigador e professor universitário no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa chegou a dar uma entrevista tomando essa posição. Porém, após ser desafiado a escrever um livro sobre o tema, foi pesquisar. E o que encontrou fê-lo mudar de opinião.
No livro “Populismo – Lá fora e cá dentro”, publicado este mês pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), Zúquete emenda a posição. Em entrevista à Renascença, conta que “à medida que estudava o passado, mais me vinha à cabeça uma sensação de déjà-vu, de algo estranhamente familiar: narrativas, frases, slogans, denúncias de populismo e radicalismo, que tinham uma semelhança irresistível com o presente”.
O populismo em Portugal já existia antes de André Ventura. Por exemplo, no CDS de Basílio Horta e no de Manuel Monteiro foram utilizados argumentos semelhantes. “As pessoas que lerem o livro e a secção sobre Manuel Monteiro, se não lhes trouxer à cabeça comparações com a maneira como o André Ventura e o Chega falam sobre corrupção e dos partidos políticos, é porque falhei”, afirma.
Em pouco mais de 260 páginas, passa em revista a história do populismo lá fora, mas também desse fenómeno em Portugal. Já consegue ter certezas sobre o tema?
Aqui em Portugal, durante muito tempo, houve uma espécie de consenso que ainda permanece: diz-se que mais ou menos até à entrada em cena do Chega não havia populismo em Portugal, que não havia populistas ou partidos populistas. Chamava-se a isto o excecionalismo português, Portugal era uma exceção relativamente aos outros países [europeus]. E era como que uma ideia feita a que as pessoas aderiam, às vezes sem pensar muito nisso. Era assim e pronto.
Aliás, eu próprio fiz parte desse consenso. Lembro-me que cheguei a dar uma entrevista em 2019 a dizer isso. Mas estava errado.
Como é que se apercebeu?
A minha estrada de Damasco... quando fui desafiado a escrever um livro sobre populismo pelo António Araújo [responsável pelas publicações da FFMS], fui olhar para os bastidores desse consenso, pesquisar por todo o tipo de arquivos, jornais, vídeos, etc. E cheguei à conclusão de que o populismo sempre esteve presente em Portugal. À medida que estudava o passado, mais me vinha à cabeça uma sensação de déjà-vu, de algo estranhamente familiar: narrativas, frases, slogans, denúncias de populismo e radicalismo, que tinham uma semelhança irresistível com o presente.
Vivemos, conforme escreve, "encadeados pela obsessão do presente"?
Vamos lá ver: penso que todas as gerações têm a tendência para ver o seu próprio tempo como especial e único. Acho que nós não somos diferentes de outras gerações nisso. O que a nossa geração tem de mais especial, digamos assim, tem a ver com as próprias tecnologias de comunicação, com a internet, com as redes sociais, em que tudo aquilo que não é instantâneo é visto como lento. Acho que perdemos um bocadinho o passado.
Passado esse que seria útil para recordar factos como: D. Miguel I, ainda no século XIX, pode ser visto como um dos primeiros governadores de Portugal populistas. No livro, conta que o monarca percorria o país, visitava localidades “esquecidas pelo poder” e era recebido por multidões. A falta de proximidade dos governantes para com a população de certas zonas do país é uma queixa ainda contemporânea.
Sim, há ecos. Uma das características básicas do populismo é a noção de proximidade com o povo, com as pessoas. E essa questão com D. Miguel, os banhos de multidão, nisso ele era diferente de outros monarcas, que primavam mais pela distância. Nessa perspetiva, é que se pode também ver um traço populista ou protopopulista se quisermos.
O atual Presidente da República também se desloca regularmente a várias localidades do país…
Sim, é verdade. Mas, no livro, faço uma distinção entre o populismo corriqueiro - que serve única e exclusivamente para tirar a legitimidade às outras pessoas, aos outros políticos - e um mais analítico: o populismo como uma ideologia e uma prática de combate contra elites em nome de um povo uno e soberano – que é o que me interessa.
Obviamente, isso levou-me a caminhos que até podem ser polémicos. Como o caso de Sá Carneiro. Ou a questão de Humberto Delgado. Nós temos a tendência, atualmente, para ver o populismo apenas como um fenómeno negativo. E ao dizermos que alguém foi populista, as pessoas quase que ficam ofendidas. Mas o Humberto Delgado é alguém que fez tanto pelo país. Ou o Sá Carneiro.
Não escrevi o livro contra o populismo. Ou seja, não tenho contas a ajustar com o populismo. De certa forma, fui à procura de um fio condutor e descobri, digamos assim, que há assim três grandes tipos de populismo [em Portugal].
Fala do populismo militar, o regenerador e o local.
Exatamente. Primeiro, o populismo militar. É aquele que teve mais sucesso no século XX português. É o populismo fardado, o homem que está acima dos partidos e dos políticos. É o chefe militar como representante do povo, como filho do povo que ao povo regressará depois de cumprir a sua missão contra determinadas elites. Este é o populismo militar e está presente desde Sidónio Pais, Humberto Delgado, Otelo Saraiva de Carvalho e Spínola.
O populismo militar teve muito sucesso no século XX, mas depois esmoreceu. Penso que o populismo de maior sucesso agora é o que chamo de regenerador. E é regenerador porquê? É o populismo das vestes de pureza. É um populismo que se apresenta à parte dos partidos e dos políticos, muito movido pela moralização do espaço político. Tem diferentes níveis de intensidade e pode ter por fim quer a reforma, quer a refundação do sistema político. E pode tanto apresentar-se à esquerda como à direita, como para além da esquerda e direita.
Finalmente, há o populismo local: o das mangas arregaçadas. O populista local que cultiva muito a proximidade com o povo, faz obra para o povo local e assim se diferencia das elites distantes, ociosas, ou mesmo vistas como inimigas. Neste populismo, há muito um discurso contra as elites de Lisboa.
A única exceção neste caso é o Alberto João Jardim que está na fronteira entre o populismo local e o regenerador.
Por causa da dimensão da Madeira?
E o seu próprio discurso. A questão da quarta República, de refundar o país, que às vezes ouve-se que é uma novidade do Chega, não é: isso está muito presente no discurso de Alberto João Jardim e no populismo regenerador da Madeira.
Falemos mais um pouco do populismo militar antes do regenerador. No livro, conta que um dos tenentes da revolução defendeu Spínola para a posição de Presidente da República, no pós-25 de Abril, em detrimento de Costa Gomes, porque este era “uma figura ótima para falar às massas”.
Sendo um golpe militar que depois se transformou numa revolução, evidentemente que era preciso interagir com as massas. E orientar as massas numa determinada direção. Spínola foi a escolha prática. Até pela maneira que ele se vestia [sempre como uniforme militar], o porte, a autoridade, o prestígio que tinha.
Ocorre-me uma comparação de Spínola com o presente. Porventura, não fará sentido. Gouveia e Melo também andou sempre fardado enquanto liderou a task force da vacinação.
Aquilo que lhe passou pela cabeça, também passou a mim. O Gouveia e Melo, se se candidatasse a um cargo político e tivesse sucesso, se conseguisse mobilizar o povo português e ser eleito, ele poderia ser uma espécie de renascimento do populismo militar em Portugal. Seguramente que sim.
Ele tem esse perfil. E a história do populismo militar em Portugal é longa. Está entranhada, não pode ser desvalorizada. Acho que há possibilidade desse populismo militar renascer em Portugal. O facto de neste momento logo após o 25 de Abril o populismo militar ter esmorecido não significa que no presente e futuro não volte a ter um papel. É possível, é possível.
Então, seguindo na senda das comparações tenho outra. O Partido Renovador Democrático quando nasceu foi visto como a “partidarização do eanismo”. O Chega é a do “venturismo”?
Vamos lá ver: houve um núcleo fundador do Chega. O André Ventura não foi o único fundador do partido.
Entretanto, muitas das pessoas que estavam com Ventura saíram do partido. Muito poucos ficaram. Há sempre a pureza das origens, um romantismo quando se cria um partido político. E depois a prática política é extremamente cruel, porque pode ser extremamente pragmática. E aqueles que não se enquadram nessa política mais pragmática rapidamente podem ser excluídos ou excluírem-se a si próprios.
O Chega claramente é uma partidarização muito unipessoal. Embora, desde que foi para o Parlamento, tenha tentado alargar a representação a outras pessoas. Mas isso é um processo que neste momento ainda é muito embrionário. E não sabemos até que ponto vai ter sucesso.
Por falar em sucesso: o CDS é o partido como mais nomes referenciados como populistas no seu livro… e aquele que ainda há pouco deixou de ter representação parlamentar. Fala de Basílio Horta, Manuel Monteiro e Paulo Portas.
Em Portugal, a memória é muito curta. As pessoas esquecem-se que quando Basílio Horta apareceu foi visto - e da maneira como apareceu, um candidato da rutura, que atacava de alto a baixo a grande figura do regime que era Mário Soares - como a encarnação do mal. Não nos podemos esquecer que Basílio Horta foi denunciado como supremacista branco por Mário Soares. Foi denunciado como neonazi nas páginas da Ação Socialista. Mas esta história como que desapareceu. E agora é muito interessante, passados 30, 40 anos, ver Basílio Horta como um senador do regime. Faz lembrar um bocado Almeida Garret: “fez-se barão”. Mas isto é comum.
As pessoas que lerem o livro e a secção sobre Manuel Monteiro, se não lhes trouxer à cabeça comparações com a maneira como André Ventura e o Chega falam sobre corrupção e dos partidos políticos, é porque falhei. Acho que é por demais evidente que muita daquela narrativa monteirista facilmente encontramos hoje em André Ventura.
Em todo o caso, a reação que há contra o Chega é diferente daquela que houve com o CDS de Manuel Monteiro e Paulo Portas.
Porquê?
Uma das razões tem a ver com o facto de a sociedade portuguesa ter mudado. Houve mudanças demográficas, culturais. Somos uma sociedade muito mais multiétnica. Isso gerou novas sensibilidades, novos tabus. Há temas que não podem ser abordados como eram há 20, 30 anos. Há frases e comentários de líderes políticos que atualmente iriam gerar enormes convulsões mediáticas ou políticas.
Portanto, dizer que não há populismo em Portugal passou a ser uma posição populista?
Nesta última década falou-se tanto que Portugal não era populista. Era uma exceção. Já reparou como Portugal era sempre uma exceção? Portugal era uma exceção no populismo, não havia populismo em Portugal. Portugal era uma exceção no sucesso da direita radical, não havia direita radical em Portugal. Dizem que Portugal é um sucesso nas questões da emigração, do multiculturismo. E a questão que coloco no final do livro: e se essa exceção estiver errada? Quais as consequências?
Há um potencial para que um populismo mais identitário em Portugal comece a ter sucesso, à medida que há mudanças demográficas, culturais, sociais, na sociedade portuguesa. Podemos assistir à emergência de um populismo mais identitário e não tanto de protesto, como o Chega tem tido: políticos, corrupção, alguns comportamentos, minorias. Pode surgiu populismo em defesa do povo português como algo físico, enraizado, territorial, esse tipo de populismo ainda não levantou bem a cabeça em Portugal. Acho que se as atuais dinâmicas continuarem podemos assistir a isso e mais uma vez lá vai uma exceção portuguesa por água a baixo.
Muito antes de André Ventura chegar ao Parlamento e o Chega ser fundado já havia populismo em Portugal. Em entrevista à Renascença, José Pedro Zúquete, autor do livro “Populismo – Lá fora e cá dentro”, lembra que Basílio Horta, do CDS, chegou a ser “denunciado como supremacista branco por Mário Soares. Foi apelidado de neonazi nas páginas da Ação Socialista”. Recorda também que os portugueses têm uma certa admiração por militares – o que ficou patente com Spínola no passado… e com Gouveia e Melo, enquanto esteve no leme da "task force" para a vacinação.Ainda em 2019, José Pedro Zúquete era um dos vários crentes no “excecionalismo português" relativamente ao populismo: tal fenómeno não existia em solo nacional. O investigador e professor universitário no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa chegou a dar uma entrevista tomando essa posição. Porém, após ser desafiado a escrever um livro sobre o tema, foi pesquisar. E o que encontrou fê-lo mudar de opinião.
No livro “Populismo – Lá fora e cá dentro”, publicado este mês pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), Zúquete emenda a posição. Em entrevista à Renascença, conta que “à medida que estudava o passado, mais me vinha à cabeça uma sensação de déjà-vu, de algo estranhamente familiar: narrativas, frases, slogans, denúncias de populismo e radicalismo, que tinham uma semelhança irresistível com o presente”.
O populismo em Portugal já existia antes de André Ventura. Por exemplo, no CDS de Basílio Horta e no de Manuel Monteiro foram utilizados argumentos semelhantes. “As pessoas que lerem o livro e a secção sobre Manuel Monteiro, se não lhes trouxer à cabeça comparações com a maneira como o André Ventura e o Chega falam sobre corrupção e dos partidos políticos, é porque falhei”, afirma.
Em pouco mais de 260 páginas, passa em revista a história do populismo lá fora, mas também desse fenómeno em Portugal. Já consegue ter certezas sobre o tema?
Aqui em Portugal, durante muito tempo, houve uma espécie de consenso que ainda permanece: diz-se que mais ou menos até à entrada em cena do Chega não havia populismo em Portugal, que não havia populistas ou partidos populistas. Chamava-se a isto o excecionalismo português, Portugal era uma exceção relativamente aos outros países [europeus]. E era como que uma ideia feita a que as pessoas aderiam, às vezes sem pensar muito nisso. Era assim e pronto.
Aliás, eu próprio fiz parte desse consenso. Lembro-me que cheguei a dar uma entrevista em 2019 a dizer isso. Mas estava errado.
Como é que se apercebeu?
A minha estrada de Damasco... quando fui desafiado a escrever um livro sobre populismo pelo António Araújo [responsável pelas publicações da FFMS], fui olhar para os bastidores desse consenso, pesquisar por todo o tipo de arquivos, jornais, vídeos, etc. E cheguei à conclusão de que o populismo sempre esteve presente em Portugal. À medida que estudava o passado, mais me vinha à cabeça uma sensação de déjà-vu, de algo estranhamente familiar: narrativas, frases, slogans, denúncias de populismo e radicalismo, que tinham uma semelhança irresistível com o presente.
Vivemos, conforme escreve, "encadeados pela obsessão do presente"?
Vamos lá ver: penso que todas as gerações têm a tendência para ver o seu próprio tempo como especial e único. Acho que nós não somos diferentes de outras gerações nisso. O que a nossa geração tem de mais especial, digamos assim, tem a ver com as próprias tecnologias de comunicação, com a internet, com as redes sociais, em que tudo aquilo que não é instantâneo é visto como lento. Acho que perdemos um bocadinho o passado.
Passado esse que seria útil para recordar factos como: D. Miguel I, ainda no século XIX, pode ser visto como um dos primeiros governadores de Portugal populistas. No livro, conta que o monarca percorria o país, visitava localidades “esquecidas pelo poder” e era recebido por multidões. A falta de proximidade dos governantes para com a população de certas zonas do país é uma queixa ainda contemporânea.
Sim, há ecos. Uma das características básicas do populismo é a noção de proximidade com o povo, com as pessoas. E essa questão com D. Miguel, os banhos de multidão, nisso ele era diferente de outros monarcas, que primavam mais pela distância. Nessa perspetiva, é que se pode também ver um traço populista ou protopopulista se quisermos.
O atual Presidente da República também se desloca regularmente a várias localidades do país…
Sim, é verdade. Mas, no livro, faço uma distinção entre o populismo corriqueiro - que serve única e exclusivamente para tirar a legitimidade às outras pessoas, aos outros políticos - e um mais analítico: o populismo como uma ideologia e uma prática de combate contra elites em nome de um povo uno e soberano – que é o que me interessa.
Obviamente, isso levou-me a caminhos que até podem ser polémicos. Como o caso de Sá Carneiro. Ou a questão de Humberto Delgado. Nós temos a tendência, atualmente, para ver o populismo apenas como um fenómeno negativo. E ao dizermos que alguém foi populista, as pessoas quase que ficam ofendidas. Mas o Humberto Delgado é alguém que fez tanto pelo país. Ou o Sá Carneiro.
Não escrevi o livro contra o populismo. Ou seja, não tenho contas a ajustar com o populismo. De certa forma, fui à procura de um fio condutor e descobri, digamos assim, que há assim três grandes tipos de populismo [em Portugal].
Fala do populismo militar, o regenerador e o local.
Exatamente. Primeiro, o populismo militar. É aquele que teve mais sucesso no século XX português. É o populismo fardado, o homem que está acima dos partidos e dos políticos. É o chefe militar como representante do povo, como filho do povo que ao povo regressará depois de cumprir a sua missão contra determinadas elites. Este é o populismo militar e está presente desde Sidónio Pais, Humberto Delgado, Otelo Saraiva de Carvalho e Spínola.
O populismo militar teve muito sucesso no século XX, mas depois esmoreceu. Penso que o populismo de maior sucesso agora é o que chamo de regenerador. E é regenerador porquê? É o populismo das vestes de pureza. É um populismo que se apresenta à parte dos partidos e dos políticos, muito movido pela moralização do espaço político. Tem diferentes níveis de intensidade e pode ter por fim quer a reforma, quer a refundação do sistema político. E pode tanto apresentar-se à esquerda como à direita, como para além da esquerda e direita.
Finalmente, há o populismo local: o das mangas arregaçadas. O populista local que cultiva muito a proximidade com o povo, faz obra para o povo local e assim se diferencia das elites distantes, ociosas, ou mesmo vistas como inimigas. Neste populismo, há muito um discurso contra as elites de Lisboa.
A única exceção neste caso é o Alberto João Jardim que está na fronteira entre o populismo local e o regenerador.
Por causa da dimensão da Madeira?
E o seu próprio discurso. A questão da quarta República, de refundar o país, que às vezes ouve-se que é uma novidade do Chega, não é: isso está muito presente no discurso de Alberto João Jardim e no populismo regenerador da Madeira.
Falemos mais um pouco do populismo militar antes do regenerador. No livro, conta que um dos tenentes da revolução defendeu Spínola para a posição de Presidente da República, no pós-25 de Abril, em detrimento de Costa Gomes, porque este era “uma figura ótima para falar às massas”.
Sendo um golpe militar que depois se transformou numa revolução, evidentemente que era preciso interagir com as massas. E orientar as massas numa determinada direção. Spínola foi a escolha prática. Até pela maneira que ele se vestia [sempre como uniforme militar], o porte, a autoridade, o prestígio que tinha.
Ocorre-me uma comparação de Spínola com o presente. Porventura, não fará sentido. Gouveia e Melo também andou sempre fardado enquanto liderou a task force da vacinação.
Aquilo que lhe passou pela cabeça, também passou a mim. O Gouveia e Melo, se se candidatasse a um cargo político e tivesse sucesso, se conseguisse mobilizar o povo português e ser eleito, ele poderia ser uma espécie de renascimento do populismo militar em Portugal. Seguramente que sim.
Ele tem esse perfil. E a história do populismo militar em Portugal é longa. Está entranhada, não pode ser desvalorizada. Acho que há possibilidade desse populismo militar renascer em Portugal. O facto de neste momento logo após o 25 de Abril o populismo militar ter esmorecido não significa que no presente e futuro não volte a ter um papel. É possível, é possível.
Então, seguindo na senda das comparações tenho outra. O Partido Renovador Democrático quando nasceu foi visto como a “partidarização do eanismo”. O Chega é a do “venturismo”?
Vamos lá ver: houve um núcleo fundador do Chega. O André Ventura não foi o único fundador do partido.
Entretanto, muitas das pessoas que estavam com Ventura saíram do partido. Muito poucos ficaram. Há sempre a pureza das origens, um romantismo quando se cria um partido político. E depois a prática política é extremamente cruel, porque pode ser extremamente pragmática. E aqueles que não se enquadram nessa política mais pragmática rapidamente podem ser excluídos ou excluírem-se a si próprios.
O Chega claramente é uma partidarização muito unipessoal. Embora, desde que foi para o Parlamento, tenha tentado alargar a representação a outras pessoas. Mas isso é um processo que neste momento ainda é muito embrionário. E não sabemos até que ponto vai ter sucesso.
Por falar em sucesso: o CDS é o partido como mais nomes referenciados como populistas no seu livro… e aquele que ainda há pouco deixou de ter representação parlamentar. Fala de Basílio Horta, Manuel Monteiro e Paulo Portas.
Em Portugal, a memória é muito curta. As pessoas esquecem-se que quando Basílio Horta apareceu foi visto - e da maneira como apareceu, um candidato da rutura, que atacava de alto a baixo a grande figura do regime que era Mário Soares - como a encarnação do mal. Não nos podemos esquecer que Basílio Horta foi denunciado como supremacista branco por Mário Soares. Foi denunciado como neonazi nas páginas da Ação Socialista. Mas esta história como que desapareceu. E agora é muito interessante, passados 30, 40 anos, ver Basílio Horta como um senador do regime. Faz lembrar um bocado Almeida Garret: “fez-se barão”. Mas isto é comum.
As pessoas que lerem o livro e a secção sobre Manuel Monteiro, se não lhes trouxer à cabeça comparações com a maneira como André Ventura e o Chega falam sobre corrupção e dos partidos políticos, é porque falhei. Acho que é por demais evidente que muita daquela narrativa monteirista facilmente encontramos hoje em André Ventura.
Em todo o caso, a reação que há contra o Chega é diferente daquela que houve com o CDS de Manuel Monteiro e Paulo Portas.
Porquê?
Uma das razões tem a ver com o facto de a sociedade portuguesa ter mudado. Houve mudanças demográficas, culturais. Somos uma sociedade muito mais multiétnica. Isso gerou novas sensibilidades, novos tabus. Há temas que não podem ser abordados como eram há 20, 30 anos. Há frases e comentários de líderes políticos que atualmente iriam gerar enormes convulsões mediáticas ou políticas.
Portanto, dizer que não há populismo em Portugal passou a ser uma posição populista?
Nesta última década falou-se tanto que Portugal não era populista. Era uma exceção. Já reparou como Portugal era sempre uma exceção? Portugal era uma exceção no populismo, não havia populismo em Portugal. Portugal era uma exceção no sucesso da direita radical, não havia direita radical em Portugal. Dizem que Portugal é um sucesso nas questões da emigração, do multiculturismo. E a questão que coloco no final do livro: e se essa exceção estiver errada? Quais as consequências?
Há um potencial para que um populismo mais identitário em Portugal comece a ter sucesso, à medida que há mudanças demográficas, culturais, sociais, na sociedade portuguesa. Podemos assistir à emergência de um populismo mais identitário e não tanto de protesto, como o Chega tem tido: políticos, corrupção, alguns comportamentos, minorias. Pode surgiu populismo em defesa do povo português como algo físico, enraizado, territorial, esse tipo de populismo ainda não levantou bem a cabeça em Portugal. Acho que se as atuais dinâmicas continuarem podemos assistir a isso e mais uma vez lá vai uma exceção portuguesa por água a baixo.
14.4.21
Quem são os pobres em Portugal?
Conclusões do novo estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos em debate no programa desta semana.
A pobreza em Portugal é o tema do programa da Capa à Contracapa desta semana, os convidados são o sociólogo Fernando Diogo e a presidente da Cáritas, Rita Valadas.
A partir de um novo estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos lançado esta semana - A Pobreza em Portugal, Trajetos e Quotidianos -, realizado por uma equipa de 11 investigadores em diferentes áreas das ciências sociais e da economia, vamos tentar conhecer o perfil da pobreza no país.
Através de entrevistas, foi possível traçar os percursos de vida da população com mais dificuldades socioeconómicas. Mais de 1,7 milhões de pessoas no país estão em risco de pobreza. Mas que realidades diversas esconde este número? Que tipos de pobreza existem no país? O que têm em comum? E o que os separa?
Para saber tudo isso e debater o tema contamos com a ajuda do coordenador do estudo, o sociólogo Fernando Diogo, e a Presidente da Cáritas, Rita Valadas, num debate moderado pelo jornalista José Pedro Frazão.
O programa Da Capa à Contracapa é uma parceria da Renascença com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
A pobreza em Portugal é o tema do programa da Capa à Contracapa desta semana, os convidados são o sociólogo Fernando Diogo e a presidente da Cáritas, Rita Valadas.
A partir de um novo estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos lançado esta semana - A Pobreza em Portugal, Trajetos e Quotidianos -, realizado por uma equipa de 11 investigadores em diferentes áreas das ciências sociais e da economia, vamos tentar conhecer o perfil da pobreza no país.
Através de entrevistas, foi possível traçar os percursos de vida da população com mais dificuldades socioeconómicas. Mais de 1,7 milhões de pessoas no país estão em risco de pobreza. Mas que realidades diversas esconde este número? Que tipos de pobreza existem no país? O que têm em comum? E o que os separa?
Para saber tudo isso e debater o tema contamos com a ajuda do coordenador do estudo, o sociólogo Fernando Diogo, e a Presidente da Cáritas, Rita Valadas, num debate moderado pelo jornalista José Pedro Frazão.
O programa Da Capa à Contracapa é uma parceria da Renascença com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Os três D's que agravam a pobreza: desemprego, doença e divórcio
in SicNoticias
Entrevista a Gonçalo Matias, Diretor de Estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
O desemprego, a doença e o divórcio são fatores que contribuem para a entrada numa situação de pobreza ou que impedem que se saia dessa condição, segundo o estudo "Pobreza em Portugal - Trajetos e Quotidianos".
O documento hoje divulgado, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, chama a esses três processos de produção, reprodução ou intensificação dessa situação "os três D da pobreza".
Gonçalo Matias, Diretor de Estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, explica que o estudo serviu para fazer um "diagnóstico" da pobreza em Portugal e destaca a grande surpresa neste trabalho: um conjunto significativo de pessoas que trabalham estão em situação de pobreza.
Entrevista a Gonçalo Matias, Diretor de Estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
O desemprego, a doença e o divórcio são fatores que contribuem para a entrada numa situação de pobreza ou que impedem que se saia dessa condição, segundo o estudo "Pobreza em Portugal - Trajetos e Quotidianos".
O documento hoje divulgado, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, chama a esses três processos de produção, reprodução ou intensificação dessa situação "os três D da pobreza".
Gonçalo Matias, Diretor de Estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, explica que o estudo serviu para fazer um "diagnóstico" da pobreza em Portugal e destaca a grande surpresa neste trabalho: um conjunto significativo de pessoas que trabalham estão em situação de pobreza.
3.11.16
Trabalhadores mais jovens perderam um terço dos salários
Raquel Albuquerque, Ana Serra, in Expresso
Quanto se ganha em Portugal? É a terceira pergunta a que o estudo “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: 2009-2014” vem dar resposta. Os trabalhadores mais jovens registaram a maior quebra no seu ganho salarial durante o período de crise. E há 29% de portugueses a ganharem menos de 700 euros por mês
Os trabalhadores mais jovens (com menos de 25 anois) viram-se perante uma perda de quase um terço (31%) dos seus salários mensais entre 2009 e 2014, a maior descida entre os restantes escalões etários e que está ligada ao mercado de trabalho. Essa quebra poderia ser “expectável” por serem trabalhadores em início de carreira, mas também pode refletir a “precariedade e vulnerabilidade” dos mais jovens em relação ao emprego, conclui o estudo “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: 2009-2014”.
Estes números são apresentados num estudo coordenado por Carlos Farinha Rodrigues, economista e especialista em matéria de desigualdades e pobreza, e apoiado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS). As conclusões principais são apresentadas no site “Portugal Desigual” (AQUI), feito numa parceria com o Expresso e com a SIC (que fez quatro reportagens, uma sobre cada pergunta, a passar durante esta semana).
Os dados mostram que a redução de 31% do ganho médio dos trabalhadores com menos de 25 anos foi quase cinco vezes maior do que a queda do que em média os portugueses ganham (-6,3%). Em causa estão todos os rendimentos obtidos através do trabalho, que inclui não só a remuneração de base, mas também horas extra, subsídio de férias ou prémios. “A forte queda do ganho dos trabalhadores mais jovens revela-se, assim, como a característica mais marcada das alterações ocorridas no mercado de trabalho em termos da idade dos seus participantes”, explica o estudo.
Porém, os autores acrescentam que essa queda também poderia ser “expectável”, tendo em conta que é neste escalão mais baixo que estão os trabalhadores em início da carreira e, por isso, com menos experiência profissional. “Pode igualmente corresponder à predominância de situações de precariedade e de vulnerabilidade no seio deste grupo quando comparado com os mais idosos.”
Se os trabalhadores com menos de 25 anos perderam 31% do seu ganho médio, os trabalhadores com 65 anos ou mais perderam 7,3%. Uma perda que, em termos relativos, fica próxima daquilo que os jovens entre os 25 e os 34 anos perderam (7,5%).
A desigualdade salarial não se fez sentir de maneira diferente apenas entre gerações. O espaço que separa os salários das mulheres e dos homens aumentou neste período, entre 2009 e 2014. Se em 2009 o ganho das mulheres correspondia a 84% dos homens, a proporção desceu para 77% para 2014.
E que peso teve a crise? “É sempre difícil essa avaliação, uma vez que os efeitos da crise são bastante complexos. O que sabemos é que em termos de remunerações de base e de remunerações em geral (incluindo os ganhos), tem havido oscilações de difícil interprestação, em sentidos diferentes no decurso dos últimos anos, que podem remeter para alterações meramente conjunturais”, responde Sara Falcão Casaca, professora no ISEG e ex-presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade, sublinhando que o valor se mantém “elevado”.
Quase um terço ganha menos de €700 por mês
Este estudo faz ainda uma avaliação detalhada à desigualdade salarial em Portugal. E os números mostram que em 2009 um em cada cinco (20%) portugueses ganhava mensalmente menos de 700 euros pelo seu trabalho - mas a proporção aumentou. Quase um terço dos trabalhadores (29%) recebia menos de 700 euros por mês em 2014.
A sublinhar ainda o facto de haver uma maior proporção de trabalhadores pobres e de 8% de todos os trabalhadores por conta de outrem viverem abaixo do limiar de pobreza em 2014. Sem esquecer, no entanto, que fora do universo dos trabalhadores por conta de outrem ficam outras situações precárias no mercado de trabalho, como a falsa prestação de serviços, que não são contabilizados nestes números.
Quanto se ganha em Portugal? É a terceira pergunta a que o estudo “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: 2009-2014” vem dar resposta. Os trabalhadores mais jovens registaram a maior quebra no seu ganho salarial durante o período de crise. E há 29% de portugueses a ganharem menos de 700 euros por mês
Os trabalhadores mais jovens (com menos de 25 anois) viram-se perante uma perda de quase um terço (31%) dos seus salários mensais entre 2009 e 2014, a maior descida entre os restantes escalões etários e que está ligada ao mercado de trabalho. Essa quebra poderia ser “expectável” por serem trabalhadores em início de carreira, mas também pode refletir a “precariedade e vulnerabilidade” dos mais jovens em relação ao emprego, conclui o estudo “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: 2009-2014”.
Estes números são apresentados num estudo coordenado por Carlos Farinha Rodrigues, economista e especialista em matéria de desigualdades e pobreza, e apoiado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS). As conclusões principais são apresentadas no site “Portugal Desigual” (AQUI), feito numa parceria com o Expresso e com a SIC (que fez quatro reportagens, uma sobre cada pergunta, a passar durante esta semana).
Os dados mostram que a redução de 31% do ganho médio dos trabalhadores com menos de 25 anos foi quase cinco vezes maior do que a queda do que em média os portugueses ganham (-6,3%). Em causa estão todos os rendimentos obtidos através do trabalho, que inclui não só a remuneração de base, mas também horas extra, subsídio de férias ou prémios. “A forte queda do ganho dos trabalhadores mais jovens revela-se, assim, como a característica mais marcada das alterações ocorridas no mercado de trabalho em termos da idade dos seus participantes”, explica o estudo.
Porém, os autores acrescentam que essa queda também poderia ser “expectável”, tendo em conta que é neste escalão mais baixo que estão os trabalhadores em início da carreira e, por isso, com menos experiência profissional. “Pode igualmente corresponder à predominância de situações de precariedade e de vulnerabilidade no seio deste grupo quando comparado com os mais idosos.”
Se os trabalhadores com menos de 25 anos perderam 31% do seu ganho médio, os trabalhadores com 65 anos ou mais perderam 7,3%. Uma perda que, em termos relativos, fica próxima daquilo que os jovens entre os 25 e os 34 anos perderam (7,5%).
A desigualdade salarial não se fez sentir de maneira diferente apenas entre gerações. O espaço que separa os salários das mulheres e dos homens aumentou neste período, entre 2009 e 2014. Se em 2009 o ganho das mulheres correspondia a 84% dos homens, a proporção desceu para 77% para 2014.
E que peso teve a crise? “É sempre difícil essa avaliação, uma vez que os efeitos da crise são bastante complexos. O que sabemos é que em termos de remunerações de base e de remunerações em geral (incluindo os ganhos), tem havido oscilações de difícil interprestação, em sentidos diferentes no decurso dos últimos anos, que podem remeter para alterações meramente conjunturais”, responde Sara Falcão Casaca, professora no ISEG e ex-presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade, sublinhando que o valor se mantém “elevado”.
Quase um terço ganha menos de €700 por mês
Este estudo faz ainda uma avaliação detalhada à desigualdade salarial em Portugal. E os números mostram que em 2009 um em cada cinco (20%) portugueses ganhava mensalmente menos de 700 euros pelo seu trabalho - mas a proporção aumentou. Quase um terço dos trabalhadores (29%) recebia menos de 700 euros por mês em 2014.
A sublinhar ainda o facto de haver uma maior proporção de trabalhadores pobres e de 8% de todos os trabalhadores por conta de outrem viverem abaixo do limiar de pobreza em 2014. Sem esquecer, no entanto, que fora do universo dos trabalhadores por conta de outrem ficam outras situações precárias no mercado de trabalho, como a falsa prestação de serviços, que não são contabilizados nestes números.
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