Mostrar mensagens com a etiqueta Líbia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Líbia. Mostrar todas as mensagens

12.5.22

Navio dos Médicos Sem Fronteiras resgata 400 pessoas no Mediterrâneo

Nuno Domingues com Cátia Carmo, in TSF

Um dos elementos da tripulação do navio ao serviço dos Médicos Sem Fronteiras explicou que grande parte dos sobreviventes retirados da água são menores.

O navio de resgate que os Médicos Sem Fronteiras têm a operar no Mar Mediterrâneo retirou da água 400 pessoas nas últimas horas. Só esta noite foram mais de cem, que estão a bordo do Geo Barents.

Juan Matias Gil, um dos elementos da tripulação do navio ao serviço dos Médicos Sem Fronteiras, explicou que grande parte dos sobreviventes retirados da água são menores.

"À noite, por volta da 1h da manhã, realizámos dois resgates de 111 pessoas, no total. Somadas às que já tínhamos a bordo estão no navio 384 pessoas sobreviventes, das quais 27 são mulheres. Quarenta e cinco por cento do total destas pessoas são menores de idade e, entre elas, estão dez crianças e dois bebés", explicou Juan Matias Gil.

22.7.21

Acordos europeus com a Líbia são “políticas de cosmética” que “não tem propósito algum”: deixar migrantes entrar “é benéfico” para a Europa

Marta Gonçalves, Pedro Nunes, in Expresso

A opção é quase sempre a mesma: a agricultura de subsistência. Continuar o mesmo trabalho e ter a mesma vida que tiveram os pais, os avós e todos os antepassados antes deles. A única alternativa que veem é a história de alguém que chegou à Europa e que agora vive melhor. São jovens e quase sempre homens. Arriscam mesmo sabendo os riscos. Não lhes basta ter informação, precisam mais do que isso. O Mar Mediterrâneo mata-os, mas mesmo assim vão. Em entrevista ao Expresso, Cátia Batista, investigadora da NOVAFRICA, defende a criação de rotas migratórias legais: “Os imigrantes não roubam empregos, ajudam a criar muito mais”

Estudam diferentes políticas de intervenção junto de jovens homens que querem migrar para a Europa. Melhor: de homens que não veem mais nenhuma alternativa do que cruzar o deserto do Sahara, chegar à Líbia e atravessar o Mar Mediterrâneo ilegalmente, aquela que é uma das rotas migratórias mais mortais do mundo. Olhando para os resultados e considerando aquilo que realmente influencia a decisão de alguém em emigrar, Cátia Batista defende que acordos como os que a Europa tem com a Líbia ou a Turquia - em que são transferidos vários milhões de euros para impedir que as pessoas passem para o continente europeu - não são eficazes e não trazem “qualquer benefício" quer económico, quer humanitário.

“O problema continua lá todo, as pessoas continuam a vir. Simplesmente ficam em condições dramáticas e à porta da Europa. De alguma forma é política mais cosmética do que outra coisa, não resolve problemas de fundo e também faz com que a Europa não colha qualquer benefício destas pessoas, que podem contribuir para o dinamismo de um continente que está em estagnação económica. De facto é uma política que não cumpre propósito algum”, diz em entrevista ao Expresso a investigadora e co-autora do “Information Gaps and Irregular Migration to Europe”.

Recentemente publicado, o estudo compara diferentes políticas e formas de intervenção num grupo de quatro mil jovens entre os 18 e os 25 anos, na Gâmbia, a região da África Ocidental com maior taxa de emigração. Os investigadores do NOVAFRICA, dividiram o grupo em grupos mais pequenos e analisaram como as decisões de entrar na Europa de forma irregular pode ser ou não afetada. Um dos grupos recebeu informação, outro recebeu formação profissional e, por fim, outro foi incentivado a migrar para o Senegal. A grande conclusão é que a informação só não chega e que é preciso fazer mais. “É preciso mostrar-lhes alternativas, abrir-lhes os horizontes”, diz Cátia Batista, uma das investigadoras responsáveis. “Há sempre pessoas conhecidas nestas aldeias que foram para a Europa e algumas delas tiveram sucesso. Muitas morreram e também toda a gente conhece estas histórias. Estes jovens veem a vida dos seus antepassados repetida sem quaisquer perspetivas de mudança, portanto qual é a única possibilidade de saída? As tais pessoas que vêm para a Europa e têm algum sucesso. São muito raras, mas é isso aquilo a que eles aspiram.”

Quais são os principais resultados deste estudo?
O objetivo era tentar entender como é que os migrantes ditos económicos em situação irregular de África para a Europa tomam decisões e quais os fatores que podem alterar o processo de decisão. A primeira hipótese: informação. Achávamos que não sabiam naquilo em que se estavam a meter e acabamos por aprender que até sabiam. Fizemos um mini-teste para perceber o quanto conheciam os riscos e os benefícios (a probabilidade de chegarem à Itália e pedirem asilo, por exemplo). De facto as pessoas tinham conhecimento que, não sendo perfeito, revelava que já sabiam muita coisa. Ou seja, quando tomavam a decisão de vir para a Europa de forma irregular, estavam conscientes dos riscos e estavam dispostos a corrê-los porque não tinham alternativas. A nossa intervenção de informação, não teve grandes resultados e não foi por causa desta informação que alterámos o conhecimento ou a decisão de vir para a Europa. A informação por si só não é capaz de mudar as decisões.

No entanto, grande parte do trabalho da União Europeia passa por campanhas de informação...
E isto é muito significativo precisamente por isso, que é o tipo de intervenção que muitas vezes é financiada. Em Bruxelas vimos que havia um conjunto de projetos de informação que estavam a ser financiados sem que ninguém avaliasse os resultados. E, no nosso caso, verificámos que não é isso que faz a diferença nas decisões das pessoas de migrarem.

Qual foi a segunda política que testaram?
A formação profissional e essa foi a que teve resultados mais expressivos. Oferecemos diferentes oportunidades de formação em profissões como eletricista, construtor, fazer reparação de telemóveis. Profissões que podiam ajudar a ter emprego tanto na Gâmbia, como no Senegal, como até na Europa. Claramente vimos que, comparado com os outros grupos, estas pessoas passaram a preparar-se muito menos para emigrar e disseram-nos que a sua intenção de ir para a Europa era muito mais baixa. Esta foi a única das intervenções que testámos em que isto aconteceu de forma forte e explícita em termos estatísticos. É um resultado muito forte. Aprendemos que nem é preciso que as pessoas façam o curso de formação profissional inteiro - até porque a investigação teve uma interrupção por causa da pandemia -, pois houve quem, mesmo sem concluir, alterou a sua forma mais comportamental. Ou seja, aquilo a que os economistas comportamentais chamam saliência. Estamos a falar de jovens em zonas rurais e que fazem a mesma vida que os avós e os antepassados - agricultura de subsistência, muito vulnerável às condições climatéricas e eventos extremos como temos observado bastante. Este é o único horizonte que têm. A única alternativa que as pessoas veem são os familiares que foram para a Europa, porque há sempre alguém conhecido que foi para a Europa e teve sucesso. Muitos morreram, e também toda a gente tem familiares ou amigos que morreram neste processo.

A agricultura de subsistência é muitas vezes o único caminho para os jovens da Gâmbia. A alternativa? Europa

Era sobretudo uma intervenção que lhes abria os horizontes, é isso?
Exatamente. É muito isso. Esta intervenção foi importante não só pela formação profissional em si, mas pelos efeitos em pessoas que estavam no grupo e que não completaram a formação, que também mudam as suas escolhas porque veem horizontes diferentes. E isto está muito de acordo com o que observamos na terceira intervenção que testamos: incentivar a migração regional. Ao contrário da migração para a Europa, a migração nesta região do mundo é totalmente legal e nem é preciso passaporte ou visto. Uma pessoa da Gâmbia pode ir para Dakar, no Senegal, onde tem muito mais oportunidades e é relativamente fácil encontrar trabalho.

Como é que isso foi feito?
Fizemos documentários com migrantes gambianos em Dakar, criámos uma parceria com a associação local de imigrantes gambianos e demos dinheiro às pessoas para cobrir despesas de transporte até Dakar...

Quanto?
Foram 1200 dalasis gambianos. Cerca de 20 dólares [perto de €20] para cobrir as despesas até Dakar e quando lá chegassem contactavam a tal associação, que lhes dava apoio e os aconselhava sobre sítios onde dormir e onde encontrar emprego. No fundo, alguém de apoio. Eram então 20 dólares para a viagem e depois mais 15 dólares [cerca de €13] para cobrir as despesas iniciais: dormida e comida nos primeiros dias enquanto não tivessem emprego. Fizemos a transferência do dinheiro sem qualquer condição. As pessoas sabiam que tinham o dinheiro, que podiam ir e que teriam apoio à chegada. O que verificámos neste grupo é que não levámos assim tantas pessoas para Dakar, mas houve um número significativo que acabou por ir para o Senegal de forma permanente. Houve alguns que experimentaram, foram e voltaram, mas esses números não foram muito significativos.

“As intenções de emigrar, mesmo com pandemia, continuam altíssimas”

Há pouco referiu a questão da pandemia. Que tipo de influência a covid-19 teve nas decisões de emigrar?
Paralelamente tentámos perceber o impacto da pandemia nestas decisões e o que percebemos é que de facto a migração foi afetada, claramente diminui. E isso aconteceu porque as pessoas simplesmente não têm forma de emigrar. Não só há mais barreiras à entrada na Europa, com todas restrições à mobilidade que foram impostas, como também houve menos remessas. Quando olhamos para estatísticas macro, as oficiais das balanças de pagamentos, o que parecia acontecer é que os migrantes estavam ótimos porque estavam a mandar muito mais dinheiro de volta. Só que não é verdade. E quando vamos ao terreno e entrevistamos as famílias percebemos isso mesmo. Passaram a receber muito menos porque antes a forma de transmitir remessas era informal: as pessoas iam lá levar o dinheiro ou amigos levavam. Nada disto aparece nas estatísticas oficiais. Além disso, em grande parte dos países da África Ocidental, o turismo é uma fonte de receitas muito importante e caiu totalmente.

A vontade de emigrar continua a existir, apenas não tinham forma de o fazer?
A intenção de vir para a Europa, de forma regular ou irregular, continua altíssima. Nesta fase em que há uma crise económica, as possibilidades de emigrar também são afetadas porque é muito caro, mesmo quando se paga a um traficante, e deixaram de ter recurso para o fazer. Muitas vezes fala-se em fazer promoção de desenvolvimento económico na origem, o que é válido por todos os motivos, mas o que é expectável à luz dos estudos mais recentes é que as pessoas queiram vir cada vez mais para a Europa. Neste momento, as condições são desesperadas, as pessoas estão desesperadas, estão dispostas a pôr as suas vidas em risco e só não o fazem porque não tem dinheiro para o fazer. É de esperar que, pelo menos numa fase inicial, se tiverem mais rendimentos, queiram vir. Aquilo que não há mesmo hoje em dia são caminhos que permitam a estas pessoas atravessar de forma legal e vamos reforçar este ponto que é muito importante. O nosso trabalho deixou-nos perceber que a falta de aspirações a poder vir para a Europa regularmente é o que impele estas pessoas a tomarem estes riscos de migração irregular.

A solução passa pela criação de rotas migratórias regulares?
Não seria assim tão difícil de fazer. Um consulado que recebia as candidaturas das pessoas e fazia um matching com as empresas que há na Europa que precisam de trabalhadores. Há oportunidades para estas pessoas e algumas delas têm alguma formação, não são cursos superiores mas têm muitas capacidades e em sectores variados. Poderia haver aqui um matching entre as necessidades das empresas em Portugal, por exemplo, e a vontade destes imigrantes virem trabalhar de forma regular. Se existisse pelo menos este caminho, poderia evitar-se muitas destas histórias dramáticas porque neste momento essa possibilidade não existe e as pessoas nem consideram essa via.

“Os imigrantes não roubam empregos, ajudam a criar muito mais”

Há vários estudos que mostram os efeitos positivos dos imigrantes nas economias. Ainda assim, não há risco de saturar o mercado da oferta de emprego?
Essa é uma pergunta que a maior parte das pessoas faz na Europa: então não é verdade que estes imigrantes vêm roubar os nossos empregos? De facto, temos vários estudos que mostram exatamente o contrário. A ideia de que os imigrantes que têm cursos superiores vêm, criam emprego e trazem diversidade é capaz de ser aquela na qual as pessoas acreditam com mais facilidade. Mas o que os estudos mostram - e há pelo menos um que é alargado a todos os estudos da OCDE, Portugal incluído - é que os imigrantes que chegam, mesmo quando têm menos qualificações, criam emprego. O que acontece é que há uma grande complementaridade. Ou seja, estas pessoas tipicamente vêm fazer os empregos que as pessoas portuguesas não estão muito interessadas em fazer, por valores que são mais baixos do que aqueles que um português precisaria de ser pago. Há aqui um conjunto de sectores que não seria rentável se não tivesse imigrantes. Quando temos mais empresas a funcionar, criamos mais riqueza, criamos mais empregos. Estas pessoas vão comprar bens e serviços ao resto da economia. O efeito combinado cria ainda mais emprego. Outro ponto relacionado é que um trabalhador português nunca é comparável a um trabalhador imigrante, que são menos considerados: umas vezes há barreiras de língua, outras é a cor da pele. Há sempre qualquer coisa que os torna mais diferentes e menos preferidos. Estes trabalhadores ganham muitas vezes menos de metade de um salário de um português nas mesmas funções. E mesmo que estejam 20 anos em Portugal nunca chegam a ganhar o mesmo porque são vistos como substitutos. Há outros desafios do ponto de vista económico e de integração, mas a questão do emprego é mesmo muito benéfica para a economia, que precisa de dinamismo. Os imigrantes não roubam empregos, ajudam a criar muito mais.

Além dos sectores como a agricultura, em que outros sectores estas pessoas trabalham?
Um sector que precisamos cada vez mais é o dos cuidados de saúde, nomeadamente a idosos. É um trabalho duro em que emocionalmente é preciso ter uma certa força. O que sabemos também das características psicológicas dos imigrantes é que tipicamente os que chegam à Europa são os mais empreendedores, mais resilientes. Este é um sector em franca expansão num país envelhecido como Portugal. Depois há os sectores mais tradicionais como a construção e os serviços domésticos.

O que é que a Europa continua a fazer mal neste processo para evitar as migrações de forma irregular?
Acho que aprendemos com o nosso estudo que não basta dar informação, que é preciso ser complementada. Estes jovens não têm quaisquer aspirações no sítio onde estão e se lhes formos dizer que é muito arriscado e perigoso mas ainda assim acham que há ali uma pequena probabilidade de terem sucesso, isso para eles é super valioso porque não veem outras alternativas. É crucial que estas campanhas de informação sejam complementadas com outras intervenções, com alternativas que podem ser a migração regional ou a formação profissional. Mostrar outras oportunidades de vida que são perfeitamente legais e que mudam a vida das pessoas para melhor. Agora há dificuldades e isso tem muito que ver com questões culturais.

Como assim? Pode exemplificar?
Uma das questões que me levantaram na Gâmbia foi: “mas uma mãe que tem um filho que foi para a Europa está muito melhor que uma mãe que tem o filho no Senegal”. Temos de enquadrar aqui no contexto local, em que estamos a falar de um país maioritariamente muçulmano, em que as famílias são muitas vezes de estrutura polígama e que há muitas vezes competições entre filhos de mães diferentes, embora com o mesmo pai. Em termos de prestígio social, emigrar para a Europa ou para o Senegal é muitíssimo diferente. E aqui entra a informação, em que é preciso dizer que essa mãe para ter um filho na Europa, provavelmente, já perdeu vários pelo caminho. Enquanto o que está no Senegal consegue contribuir tanto como aquele que está na Europa. E isso foi algo que verificámos também no terreno: as condições de um emigrante que vá para o Senegal, com emprego estável, são tão boas em termos financeiros como alguém que esteja na Europa em situação irregular e até mesmo que os que estão em situação regular. Esta questão do prestígio social tem um grande peso. Sabemos que há pessoas que tentam esta via, que ficam na Líbia em condições verdadeiramente dramáticas e que não voltam por causa do estigma social.

É considerado menos prestigiante tentar emigrar e regressar do que não tentar de todo?
Em termos de prestígio social no topo está alguém que esteja na Europa, depois vem quem emigrou para o Senegal - e é um prestígio muito mais baixo -, segue-se quem nunca saiu do país e só depois estão aqueles que tentaram chegar à Europa e falharam. O estigma de tentar emigrar e falhar é muito pesado.

“Economicamente há argumentos que fazem com que esta [acordo de Itália com a Líbia] seja uma má decisão e humanitariamente é também uma política que não cumpre qualquer benefício”

Na semana passada, o Parlamento italiano votou a favor da renovação do acordo com a Líbia para o financiamento e assistência no patrulhamento do Mediterrâneo. Estão documentadas atrocidades que a Líbia comete nos centros de detenção, que as Nações Unidas nem consideram um país seguro. Como vê estas políticas e acordos entre Estados-membros e também da própria União Europeia com a Líbia ou a Turquia?
Não é uma política eficaz. As circunstâncias na Líbia estão muito bem documentadas e sabemos o quão dramáticas são: as pessoas que não morrem na travessia morrem nestes países de trânsito. Mas continuam a querer vir, a arriscar. Percebo que não seja possível receber e integrar grandes números de imigrantes, mas é possível abrir caminhos legais que dão esperança a essas pessoas e já percebemos que o que falta são alternativas e esperança. É muito mais eficaz abrir estes caminhos nos países de origem ou de outra forma estas pessoas continuam a atravessar o deserto, a morrer no deserto, a ficar em circunstâncias dramáticas na Líbia. Tudo isto ainda antes de tentarem atravessar o Mediterrâneo. Economicamente há argumentos que fazem com que esta seja uma má decisão e humanitariamente é também uma política que não cumpre qualquer benefício.

A situação está a ser exclusivamente tratada como um problema de proteção de fronteiras?
O problema continua lá todo, as pessoas continuam a vir. Simplesmente ficam em condições dramáticas e à porta da Europa. De alguma forma é política mais cosmética do que outra coisa, não resolve problemas de fundo e também faz com que a Europa não colha qualquer benefício destas pessoas, que podem contribuir para o dinamismo de um continente que está em estagnação económica. De facto é uma política que não cumpre propósito algum.

Migrantes tentam atravessar o Mediterrâneo em embarcações sobrelotadas e sem condições

Logo no começo usou a expressão "migrantes ditos económicos". Porquê esta hesitação na expressão e porquê o "ditos económicos"?
Bom, desde logo porque acho que é bastante legítimo não querer passar fome no país de origem. Legalmente a definição de refugiado está lá e é distinta de uma pessoa que emigra para melhorar a sua vida. Agora quando fazemos estudos em que percebemos que as pessoas estão dispostas a vir para a Europa quando pensam que uma em cada duas vai morrer neste processo e quando vemos famílias inteiras a tentarem atravessar o Mediterrâneo para chegar a uma pontinha da Europa, isto quer dizer que estas pessoas estão num estado de desespero que se calhar não as torna assim tão diferentes de alguém que vem de um país em guerra. Portanto, acho que esta distinção para migrantes que vêm de contextos de pobreza extrema, em que as pessoas estão a passar fome, não é uma distinção assim tão clara. Por outro lado, e isto tem sido um pouco mais discutido, há a questão das mudanças climatéricas e se vamos falar de refugiados climáticos, se aqueles países-ilha são completamente alagados, convém as pessoas saírem de lá. Quando começamos a pensar nessas questões, temos de nos lembrar que muitos destes migrantes económicos estão a tentar também escapar da morte. Passam fome, mais ainda quando há secas combinadas com crise económica e remessas de migrantes que não chegam. Estas são circunstâncias francamente dramáticas e quando uma pessoa está disposta a arriscar a vida com 50% de hipótese de sobreviver, talvez a distinção não seja assim tão óbvia.

13.7.17

Leilões de escravos às portas da Europa

in El País

Licitações, chicotadas e correntes. EL PAÍS mostra casos reais, como os denunciados pela ONU: cada vez mais imigrantes estão sendo vendidos como escravos em mercados da Líbia


Na cidade de Sabha —situada ao sul da Líbia, 100.000 habitantes— existe um lugar conhecido como o gueto de Ali. É um nome que faz Abou Bacar Yaw –um jovem gambiano de 18 anos que passou dois meses ali dentro – abaixar a cabeça. O gueto de Ali é, provavelmente, e com base nas descrições de quem ali esteve, um antigo centro de detenção. Antes da guerra que culminou na queda de Muamar Gadafi, Sabha era um oásis imigratório da rota africana em direção à Europa. Muitos subsaarianos eram retidos nesse lugar e expulsos do país. Sabha era, também, um atraente destino turístico para aventureiros.

Conta Abou Bacar que hoje se trata de um prédio deteriorado, cheio de ratos e poeira, com várias celas e um pátio interno. Centenas de jovens subsaarianos se amontoam em espaços pequenos sem luz nem ventilação. O lugar é dirigido por um líbio da etnia tubu, conhecido como Ali. Ao redor, as ruas de Sabha são hoje o território de milícias, traficantes, mafiosos e moradores armados. Zona proibida para o visitante.

Abou Bacar chegou a este lugar depois de cinco dias de travessia ininterrupta pelo deserto. Partiu de Agadez, no desértico centro do Níger, onde meses depois está de regresso. Sentado em uma cadeira velha, com uma cicatriz ao lado de seu olho esquerdo –e a chamada para a reza em uma mesquita próxima–, relata suas lembranças. Conta que todo mundo em Sabha conhece o gueto de Ali. “Mas ninguém se importa porque a Líbia é o inferno. Todo mundo anda armado. Até as crianças carregam pistola. E ninguém se preocupa com o bem e o mal.” O gueto de Ali parece conduzir suas atividades sem muitos problemas.

“Eu já tinha pagado minha passagem até Trípoli. Paguei-a em Agadez antes de sair.” Abou desembolsou o equivalente a 1.450 reais, as economias de toda sua família. “Mas nunca cheguei a Trípoli.” Quando alcançaram Sabha, o motorista do veículo que os levou através do Saara os conduziu ao gueto. “Ali estavam alguns líbios, com uniformes militares e armas. Não sei se eram soldados, milicianos ou o que eram.” Abou e os demais foram levados para dentro do edifício. Disseram-lhes que não tinham pago a passagem –quando, na verdade, tinham– e os prenderam sem mais explicações.

"Sentávamos no chão e os líbios vinham nos escolher e nos comprar, como quem escolhe mangas num mercado de frutas. Depois, discutiam o preço"

Um copo de água e um pedaço de pão era o que lhe davam todos os dias nos dois meses em que Abou esteve no gueto. Ali se amontoavam, segundo estima Abou, umas 300 pessoas, todos homens. Aqueles que iam morrendo os demais tinham de retirar do local e queimar em um descampado contíguo ao centro. “Todos os dias chegavam homens árabes, às vezes com guarda-costas, e então nos levavam ao pátio. Ali tínhamos de nos sentar assim –Abou se senta no chão, com as pernas abertas–, em fila, cada um entre as pernas do que estava atrás. Era como um trem que formávamos no chão.” Abou retorna à sua cadeira e continua o relato: “O homem árabe passeava entre nós e escolhia alguns. Escolhia os fortes, os que não pareciam que iriam morrer em dois dias. Ele os escolhia como quando você escolhe manga no mercado de frutas. Depois pagava às pessoas do gueto e os levavam. Todo dia chegavam homens árabes para nos comprar”.

Abou foi vendido depois de dois meses. “Não sei quanto pagaram por mim. Diante de nós não falavam de dinheiro, iam negociar os preços num canto.” Abou fica em silêncio. Com o olhar perdido. Depois, diz: “O gueto de Ali é o lugar que você imagina quando te falam de um mercado de escravos”. Um mercado de escravos no século XXI, em uma cidade até há pouco tempo relativamente turística e em um país a 400 quilômetros da Europa.
O buraco líbio
Abou Bacar, nascido em Gambia, foi vendido em um mercado de escravos da cidade libia de Sabha. FOTOGALERÍA
Abou Bacar, nascido em Gambia, foi vendido em um mercado de escravos da cidade libia de Sabha. ALFONS RODRÍGUEZ

Antes da guerra —o conflito irrompeu no âmbito da Primavera Árabe, em 2011–, a Líbia era uma das várias rotas imigratórias em direção à Europa. As máfias optavam às vezes por transportar os imigrantes à Mauritânia e dali alcançar em caiaque as Ilhas Canárias; ou atravessar a Argélia para chegar a Marrocos e saltar a cerca de Melilla; ou cruzar a Líbia e tentar navegar em balsa até a ilha italiana de Lampedusa.

Hoje, a Líbia se perfila quase como a única rota: o caos ali é tamanho que as máfias e os traficantes de pessoas movimentam-se sem empecilhos, ao contrário das vigiadas fronteiras dos demais países. Cada vilarejo e cidade da Líbia pertence a uma milícia diferente. E nessa bagunça os imigrantes tentam se meter para cruzar o mar. Estima-se que, atualmente, cerca de 330.000 imigrantes estejam bloqueados na Líbia, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

O problema é que esta violenta anarquia tem reverso: milhares de homens e mulheres estão sendo sequestrados, aproveitando a falta de controle. Os sequestros, já há alguns meses, foram um passo além: cada vez é maior o número de escravos.
Leilões de escravos às portas da Europa

Em abril a OIM, agência vinculada às Nações Unidas, publicou um relatório no qual denunciava que na Líbia existem, há meses, mercados de escravos. Lugares em que os imigrantes são vendidos para serem usados como mão de obra, como criados ou escravos sexuais.

Giuseppe Loprete, chefe da missão da OIM no Níger, explica em seu escritório em Niamey que “os imigrantes que voltam da Líbia nos contam histórias terríveis. Falam de licitações, de leilões, de compra e venda de escravos”. Um macabro retrocesso no tempo do outro lado do Mediterrâneo. O gueto de Ali, onde Abou foi vendido, é um desses mercados.

Não se trata de sequestros em que se pede um resgate. Não se trata de condições de exploração. Não se trata de poder pagar pela sua liberdade. Trata-se de um tráfico de escravos em que moradores da Líbia compram subsaarianos para que trabalhem em suas casas, fazendas ou plantações sem salário de tipo algum –nada além de teto e comida– e sob um regime de violência.
Fotografias extraídas do telefone de um imigrante retido na Líbia e entregues pela OIM. A agência explica que se trata de escravos em um mercado da Líbia, à espera de serem vendidos. OIM

A OIM denunciou isso e agora começam a aparecer os depoimentos dos que escaparam de tal experiência. A comunidade internacional, porém, não parece estar fazendo muito na região para pôr fim a um pesadelo típico de outro século.
Vendido por 12.000 reais

“Quero explicar ao mundo o que está se passando.” Quem diz isso é Achaman Agahli, de 39 anos, robusto, morador da cidade nigerina de Agadez. Ele nos recebe em sua casa, uma construção básica de adobe na qual pessoas e cabras compartilham o espaço.

Achaman trabalhava transportando barris entre povos do deserto. Foi um amigo que aventou a possibilidade de tentar chegar à Europa para ganhar dinheiro. Consultou sua mulher e decidiu tentar. Partiu uma noite de junho do ano passado, às três da madrugada, subindo na parte traseira de um veículo caminhonete branco marca Toyota. Quando estavam a ponto de sair, escutou que o traficante a quem haviam pago pelo transporte falava por telefone: “Te mando um lote de 25”. Achaman não deu importância naquele momento. Dias depois, a frase faria sentido.

"Fui vendido em um lote de 12 e pagaram por mim uns 12.000 reais"

“A ideia era que nos levassem até Madama, na fronteira entre o Níger e a Líbia, mas passamos ao longe e nos deixaram em Al Qatrun, já na Líbia. Ali fomos recolhidos por uns tubus líbios [os membros de uma etnia local]. Usavam barba e andavam armados. Foi quando eu me disse: ‘Aqui há problemas, algo está errado’. Levaram-nos a Sabha e nos meteram todos em um quarto de um prédio vazio.”

Achaman esteve 26 dias trancado. “Davam-nos pão e leite. Um dia um dos homens que nos guardava, nos disse: ‘Não lhes damos mais para que vocês não tenham força e escapem’”. No 27º dia chegou um homem líbio e se pôs a discutir sobre dinheiro com o chefe dos sequestradores de Achaman. Desta vez, escutaram a negociação. “Eu falo árabe. Entendi o que diziam. Acertaram a venda de um lote de 12. Sim, disse desse jeito, um lote de 12. E por cada um do lote, por cada um de nós. Iria pagar 5.000 dinares líbios.” Naquele dia compraram Achaman por 12.000 reais.

“Nosso comprador nos levou para sua casa, uma casa muito grande, com um terreno muito grande, em Ubari, a poucos quilômetros de Sabha. Era um senhor rico. Eu estive dois meses recuperando-me porque estava muito doente. Quando fiquei bom, comecei a trabalhar.” Achaman tinha que alimentar os animais do proprietário, limpar os estábulos, cuidar da horta, arar... Em troca, o dono da casa lhe dava abrigo e comida. Como falava árabe, transformou-o em seu homem de confiança. “Desprezava os outros, mas me tratava bem. Não me batia nem gritava comigo. E depois de alguns meses tinha liberdade para entrar e sair da casa se necessitava executar tarefas.”

Foi em um desses serviços. Achaman disse que tinha de ir a Sabha em busca de remédios e, no caminho, cruzou com um motorista nigerino que o ajudou a atravessar a fronteira de volta.
Achaman Agahli, de 39 anos, foi escravizado na cidade líbia de Sabha durante um mês e meio. ampliar foto
Achaman Agahli, de 39 anos, foi escravizado na cidade líbia de Sabha durante um mês e meio. ALFONS RODRÍGUEZ

A mulher de Achaman morreu na semana passada, dando à luz. “Ela se foi sem saber o que me passou. Nunca lhe disse nada. Não queria vê-la triste.”
Cintos como chicotes

Adam Souleyman usa uma camiseta amarela com um desenho de Don Quixote. Tem 24 anos, é muito magro e coloca um turbante na cabeça para se proteger do sol e da areia. Embora esteja vivendo em Agadez, onde nos recebe no quintal de terra de uma casa familiar, nasceu e cresceu em uma aldeia perto de Zinder, a segunda cidade do Níger, no sul do país. Dali, há um ano e cinco meses, partiu rumo à Líbia em busca da Europa.

A recepção se deu em Madama, localidade fronteiriça, onde, conforme se lembra Adam, alguns milicianos o jogaram no chão, bem como aos demais imigrantes com os quais viajava. “Tiraram nossos documentos e o dinheiro.” Desde esse momento Adam se transformou em mercadoria.

Esteve três dias trancado até que um homem, que Adam recorda como “gordo, grande”, chegou, discutiu preço com os milicianos e levou três deles. “Um garoto do Mali, outro de Burkina Fasso e eu. Todos em uma furgoneta. O homem nos prendeu em um porão. As janelas eram muito pequenas e o chão era de areia. Havia alguns tapetes para que dormíssemos. O homem só nos disse uma coisa: ‘Sobreviver é o melhor que vocês podem conseguir a partir de agora’.”

Era o novo dono de Adam e dos outros dois rapazes. E os alugava. “Cada dia nos levava para trabalhar em uma casa diferente, de árabes ricos, casas muito grandes. Ele nos acordava jogando água fria em cima de nós e nos tirava do porão nos golpeando com o cinto, como se fosse um chicote.” Adam reproduz o gesto, com desânimo, levantando o braço. “Quando terminávamos de trabalhar, vinha nos buscar na casa e voltava a nos trancar no porão.” Assim Adam esteve durante um mês e dez dias.

“Cada dia nos levava para trabalhar em uma casa diferente, de árabes ricos, casas muito grandes. Ele nos acordava jogando água em cima de nós e nos tirava do porão batendo em nós com o cinto, como se fosse um chicote”

“Havia dias em que não tínhamos de trabalhar, que o homem não vinha nos buscar. E passávamos o dia sem comer, trancados. O garoto do Mali falava em acabar com tudo isso, em se suicidar, dizia que não aguentava.” E você? “Eu, não. Eu queria ver minha família.” Você se sentia como um escravo? “Não me sentia. Eu era um escravo.”

Adam passava as noites maldizendo o dia em que decidira ir para a Líbia. Viu a luz uma tarde em que o dono de uma casa o mandou sair até um poço de água para consertar um defeito. “Eu ia caminhando e cruzei com uma caminhonete em que estavam trabalhadores africanos. Um deles era hausa, como eu. Assim, gritei e lhe pedi ajuda."

Aquele homem acolheu Adam em sua casa e depois lhe conseguiu lugar em um caminhão para regressar a Agadez, onde agora trabalha para poder reunir dinheiro e voltar a Zinder. “Não sei o que se passou com os outros dois rapazes, o de Mali e o de Burkina Fasso”, diz Adam. “Talvez ainda continuem lá.” Depois, aperta as mãos contra os olhos, e chora.
Sete meses sem ver o céu

Marian cobre a cabeça com um véu vermelho. Saiu de Lagos, Nigéria, em julho do ano passado. Disseram a ela que depois de uma curta viagem de carro e de cruzar um rio, estaria na Itália.

Marian tem 23 anos e dorme no chão da rodoviária de Agadez, onde aguarda para poder voltar a sua cidade. Ali, ninguém sabe que Marian foi transformada, durante sete meses, em escrava sexual.

Foi em Trípoli, Líbia, depois de atravessar o deserto com mais dias de caminho do que o previsto, depois de um erro de orientação do condutor que os levou a ter de beber água de charcos que encontravam. “Quando chegamos a Trípoli nos colocaram em um sótão sem janelas. Perguntei quando chegaríamos à Itália e um homem me disse: nunca”. Para Marian, começou o suplício.
Marian, nigeriana de 23 anos, foi escrava sexual em Trípoli durante 7 meses. ampliar foto
Marian, nigeriana de 23 anos, foi escrava sexual em Trípoli durante 7 meses. ALFONS RODRIGUEZ

“Uma mulher explicou a situação ao nosso grupo de meninas que estava no sótão. Nos disse que, se quiséssemos voltar a ser livres, precisávamos pagar um valor (Marian não quer dizer quanto) e que a única maneira de conseguir era sendo prostitutas nesse sótão”.

Marian suspira: “Eu não parava de chorar. E me neguei. Chegou um senhor no primeiro dia e me disse ‘sente-se aqui’, apontando para as pernas, e eu disse que não. Então, o marido da mulher que nos explicou tudo me deu um tapa na cara. Disse: ‘Se não obedecer, te bato’. Falei para ele bater. E dei a cara”. Marian gira o rosto, oferecendo a bochecha. Depois acrescenta: “Mas chega uma hora em que você não quer mais apanhar”.

Se Marian ou qualquer das outras meninas se negava, a mulher rasgava a folha em que ia anotando o que era arrecadado por elas. “E tínhamos que começar de novo.” Marian demorou sete meses para recuperar sua liberdade. Durante esse período, nunca saiu do sótão. Nunca chegou a ver o céu.

“Agora quero voltar para Lagos. E recuperar minha vida de antes. E esperar que jamais alguém de minha família saiba o que aconteceu comigo.”
Amarrados pelos pulsos

Quando explica sua trágica experiência, Nasser Abdul Kader sorri. Como um mecanismo de defesa, como uma válvula de escape para não sucumbir . Ninguém comprou Nasser. O homem que o escravizou, o roubou.

Como quase todos os demais, chegou à Líbia com a promessa de chegar à Itália em quatro dias. Partiu de Agadez, onde nasceu e, depois do périplo, foi abandonado nas ruas de Sabha, sem dinheiro ou documentos, com seis outros imigrantes. “Chegamos a uma praça à qual vinham homens para pegar trabalhadores para trabalhos avulsos. Toda vez que aparecia algum, os rapazes se jogavam sobre eles para que os levassem”.

No terceiro dia, Nasser e outro rapaz foram com um homem que precisava de mão-de-obra. “Nos levou para uma granja, cheia de galinhas. Nos mostrou a granja e nos disse que nosso trabalho era alimentar as galinhas e mantê-las acordadas à noite”. Nasser faz um gesto de incompreensão e encolhe os ombros. “No dia seguinte nos apresentou a dois homens armados, muito fortes, e nos disse que eram encarregados da segurança da granja.”

Nasser ficou por um mês e dez dias descarregando sacos de ração, alimentando galinhas e mantendo-as acordadas à noite. Tudo mudou quando Nasser perguntou a um dos homens da segurança quando iam receber. “Me olhou, levantou o dedo assim —Nasser coloca o indicador reto, em gesto de advertência— e me disse: ‘Preste atenção: neste lugar não se pagam salários’. Me assustei, mas no dia seguinte, irritados, nos negamos a descarregar o caminhão”.

"Para trabalhar nos amarravam com uma corrente de dois metros, pelos pulsos. Só a tiravam para dormirmos”

A atitude de Nasser e seu amigo teve consequências quando os dois vigilantes viram os sacos de ração sem descarregar. “Vieram nos buscar no quarto e nos deram uma surra com um cabo grosso e também com um cinto. Depois nos mostraram um revólver e nos disseram: ‘Se não trabalharem, os matamos e vamos atrás de outros dois negros’.”

Desde esse dia, os dois rapazes tiveram de trabalhar amarrados um ao outro. “Com uma corrente de cerca de dois metros, amarrada com força aos pulsos. E a partir daí nos batiam com o cabo enquanto trabalhávamos. Aí me tornei escravo.”

Nasser e seu colega só eram desamarrados quando voltavam ao quarto para dormir. “Ninguém sabia onde estávamos, não tínhamos dinheiro, nem documentos, nem contato com o exterior. Era como se estivéssemos mortos.” A tragédia durou cinco meses, até que Nasser conseguiu escapar da granja em uma manhã na qual os dois homens de segurança ficaram dormindo bêbados. “Para os meninos que querem ir para a Europa, lhes digo: não faça isso. Não vá. Você vai morrer ou vai ser escravo. E conto a eles minha história”. E te escutam? “Não, nenhum deles. Sempre respondem a mesma coisa: não tenho escolha”.