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20.7.20

Nobel da Paz Muhammad Yunus diz que pandemia revelou a divisão do mundo

in DNotícias

Muhammad Yunus falou à agência Lusa a propósito do Dia Internacional Nelson Mandela, que se assinala hoje

O economista bengali Muhammad Yunus, considerado o "pai" do microcrédito e laureado em 2006 com o prémio Nobel da Paz, considera que a covid-19 mostrou a divisão da humanidade, precisamente o oposto do que defendia Nelson Mandela.

"Todos estão a tentar proteger-se a si próprios. O que acontece com os outros não é da sua conta, o que contrasta com o que pessoas como o Mandela faria, que mobilizava todos para a luta", disse Muhammad Yunus em entrevista à agência Lusa, a propósito do Dia Internacional Nelson Mandela, que se assinala hoje.

No dia de aniversário do líder sul-africano, que faleceu em 2013, a Academia de Líderes Ubuntu promove o Mandela Bridges World E-Summit, um evento que decorrerá online devido às condicionantes impostas pela covid-19 e que irá contar com a participação de Muhammad Yunus e mais dois laureados com o Nobel da Paz - Ramos Horta e Kaylash Satyarthi.

Yunus sublinhou a importância da lição de Nelson Mandela, que, comentou, "fez coisas impopulares e que ninguém esperava", mas que chamava todos -- brancos e negros -- para a luta.

"Infelizmente, hoje estamos mais divididos. Já não somos mais uma comunidade global e o coronavírus tornou isso claro. É um inimigo comum, que ataca todo o mundo, mas não temos uma frente comum para fazer face à pandemia", referiu.

E recordou que nesta guerra uns "optaram por atacar a Organização Mundial de Saúde [OMS], que é precisamente um organismo que deve representar todo o mundo numa pandemia como esta", numa referência aos Estados Unidos da América, que acabaram com o financiamento da organização.

Divisões que a busca por uma vacina tornou mais óbvias: "Novamente, o que vemos é os líderes, como os Estados Unidos e outros países na Europa, a tentarem garantir o máximo de vacinas".

Por isso, Muhammad Yunus não acredita que, quando forem descobertos, a vacina ou novos tratamentos estejam disponíveis de igual forma para ricos e pobres.

"Não vejo nenhum sinal disso. O que vejo é os países ricos a tentarem assegurar as vacinas para si. Quando os países pobres -- onde há muitas pessoas ricas -- precisarem, não vão ter, porque as companhias estão a produzir para os países ricos".

Por esta razão, o Nobel da Paz defende que, quando a vacina for descoberta, seja classificada como "um bem universal", disponível para todos da mesma forma e pela qual só pagará quem tiver dinheiro para isso.

Reconhecido mundialmente pelo sistema de microcrédito, que consiste na concessão de pequenos empréstimos a empreendedores demasiado pobres para obterem empréstimos de banco tradicionais, o qual ajudou milhões de pessoas a escapar à pobreza, Muhammad Yunus acredita que este sistema poderá ajudar as populações mais pobres a retomar a sua vida após a pandemia.

Uma situação que não é nova no Bangladesh, afectado frequentemente por outras doenças, como a gripe, que atinge populações que depois precisam de ajuda para retomar a sua economia, por mais pequena que seja.

"No Bangladesh, ainda não tínhamos coronavírus e já tínhamos a gripe. Hoje, temos o coronavírus e também a gripe. Sabemos como ajudar, como permitir que comecem ou recomecem as suas vidas. O microcrédito funciona como um banco para os pobres", disse.

A pandemia de covid-19 já provocou mais de 590 mil mortos e infectou mais de 13,83 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.


Muhammad Yunus: "A pobreza não é criada pelas pessoas pobres"

Rui Alexandre, in TSF

"Se redesenharmos o sistema, a pobreza desaparece". Segunda parte da entrevista à TSF com o Nobel da Paz 2006, que participa na conferência portuguesa da Academia Ubuntu que assinala o Dia Mandela.

Muhammad Yunus, o senhor ficou conhecido como "o banqueiro dos pobres", foi o criador da ideia do microcrédito que ofereceu uma saída da miséria a milhões de famílias no Bangladesh e não só. Mas as disparidades no mundo vão aumentando, os ricos estão cada vez mais ricos...

Poderíamos dizer que não houve pessoas, bancos e instituições suficientes a seguir ideias como a sua do microcrédito em 2006?

Sim. Mencionou 2006, o ano em que ganhámos o Prémio Nobel. Foi um longo caminho, porque desde que começámos no Bangladesh, com o banco Grameen e o microcrédito já passaram 44 anos. E toda a gente adora o projeto. Toda a gente diz que é uma ótima ideia, ajuda especialmente as pessoas pobres, as mulheres pobres. Ninguém prestou atenção às mulheres pobres antes disso. Este projeto ajusta-se tanto às necessidades delas, que elas não precisam mudar nada, apenas descobrir o seu próprio valor, a sua capacidade e criatividade. É verdade no entanto, que depois de todos os elogios e de todos os prémios que recebemos, o sistema financeiro não mudou.

Por isso eu digo: qual é a piada de dar prémios e não mudar nada? O microcrédito, nos bancos, ainda é uma nota de rodapé. Não é o mainstream. Você vai a qualquer banco tentar saber o que é o microcrédito. Eles não têm uma área ou programa para isso. Então, esse é o problema. Talvez Portugal não precise disso. Talvez isso não importe. Mas executamos programas em toda a parte. O Reino Unido tem programa de microcrédito, Portugal possui programa de microcrédito. Os EUA têm programas de microcrédito em todo o país, não apenas em alguns pontos, um programa chamado Grameen América. A necessidade está em toda a parte, mas o sistema financeiro ainda está muito fora disso.

Se queremos ir para o novo destino de que tenho estado a falar, um mundo que não terá aquecimento global, concentração de riqueza ou desemprego, um mundo que eu tenho classificado como um mundo de três zeros: zero de emissão líquida de carbono, zero concentração de riqueza, zero dívida de desemprego, temos de mudar o sistema financeiro. É a chave para tudo. Temos que redesenhar o sistema financeiro. O sistema hoje está feito para as pessoas que estão no topo, as pessoas que têm 99% da riqueza.

Cabe à próxima geração conseguir viver num mundo em que a pobreza e o desemprego são erradicados? Quero dizer, é algo que pode ser conseguido pela próxima geração de jovens?

Eu diria que a pobreza não é criada pelas pessoas pobres. É criada pelo sistema. Se redesenharmos o sistema a pobreza desaparece. As pessoas são tão boas quanto em qualquer lugar, a pessoa pobre que você vê na rua, a pessoa sem-teto que você conhece... Eles são tão bons seres humanos como qualquer outra pessoa. Mas o sistema não funciona para eles, são rejeitados em todos os serviços das instituições antigas que temos ao nosso redor. Precisamos abordar essa questão, é fundamental: porque é que isto acontece? Se fizermos isso... podemos mudar tudo em menos de uma geração, mas temos que mudar a estrutura básica da teoria económica.

Pôde certamente ver as imagens de milhões de trabalhadores migrantes na Índia a tentar ir para casa porque não há nada de bom para eles na cidade agora. Já não podem pagar o aluguer dos pequenos buracos em que vivem nessas cidades. Estão a sair desses buracos para que possam sobreviver, voltando para as suas próprias terras. Vimo-los a chegar às autoestradas para fazer a pé o caminho para casa. Mas a casa fica a milhares de quilómetros de distância. Não apenas a alguns quilômetros da cidade.

Eu digo: que tipo de economia nós queremos? Esta em que as pessoas precisam andar milhares de quilómetros para encontrar meios de subsistência para a sobrevivência? Isso não é forma de conceber a economia. A economia deve ser projetada de maneira a que você tenha a sua sobrevivência no local em que nasceu. Não a milhares de quilómetros, deixando a sua família e os seus filhos em casa com negócios incertos e incertezas para si também, constantemente. Por que não podemos fazer as coisas de outro modo?

Todo este setor dos trabalhadores migrantes e na rua é conhecido como setor informal... mas este não é um setor informal, essa designação é muito negativa, como se eles não valessem nada. Ou como se alguém só tenha valor quando chega ao setor considerado formal. Isso não é verdade. Deveríamos renomear o nome de setor de microempreendedores, que podem fazer as coisas à sua maneira mas que não têm instituições para os apoiar.

São vítimas deste sistema?

São vítimas dos agiotas, todos os agiotas lucram muito com essas pessoas, eles trabalham e os agiotas ficam com o dinheiro. Quem trabalha fica com uma parte muito pequena do dinheiro. Porquê? Porque é que não pegam em serviços financeiros, como o Grameen Bank, etc., que funcionam muito bem, e trazem a ideia de negócios sociais para os seus negócios, para ajudar as pessoas em vez de ganhar dinheiro para si mesmas. Por que não podemos criar bancos de negócios sociais dessas pessoas? Isso significaria uma verdadeira mudança. Foi isso o que aconteceu quando o microcrédito chegou ao Bangladesh, temos pelo menos 15 milhões de pessoas associadas ao microcrédito, particamente só mulheres, 97 ou 98% são mulheres, em todas as aldeias. Seriam pessoas desempregadas a cuidar das famílias? Não, a designação está errada, são microempreendedoras à espera por uma oportunidade.

Então, damos-lhes a oportunidade, trazendo o dinheiro e elas tornam-se empreendedoras. Portanto, mulheres analfabetas da aldeia, que não têm absolutamente nenhuma infraestrutura, podem tornar-se empreendedoras para cuidar da família. Ela não está a a fazê-lo porque é a base da família, mas porque tem acesso ao sistema de financiamento, traz dinheiro para a família, gera rendimento e assim por diante. Então, por que não podemos expandir isso, criando um sistema bancário global inteiro como um sistema bancário de negócios sociais?

Ou seja, as desigualdades de género estão - continuam a estar - no centro da prevalência da pobreza...


As desigualdades de género estão no centro de tudo, bem como as desigualdades rurais. Todo o sistema está muito focado no meio urbano. Como se tudo existisse em função daquilo que preocupa o centro e em que as pessoas rurais não têm nada com isso. As pessoas rurais tornam-se efetivas apenas em termos de mão-de-obra.

Formas as pessoas localmente, mas depois elas têm de ir para a cidade e procurar lá trabalho. Então, são os homens da família que geralmente vão, as mulheres são deixadas para trás. Portanto, este é o começo da discriminação de que as mulheres não têm hipótese de participar na economia. Os homens tiveram essa possibilidade e, com isso, agora os filhos precisam voltar à cidade novamente para a educação. As meninas é que ficam em casa, os meninos vão para a cidade. Há aqui uma culpa institucional. Por que não podemos fazer da economia rural uma economia básica, em vez de um tipo de apêndice da economia urbana? Assim, a reformulação do conceito é muito importante. Para que as coisas aconteçam, para que não haja distinção entre homens e mulheres, meninos e meninas, o sistema financeiro é a chave de tudo isto. O sistema financeiro pode compensar todas os erros que se fizeram ignorando as mulheres.

Ou seja, agora podemo-nos concentrar nas mulheres e começar a partir daí e seguir em frente, para que as possamos compensar e as raparigas comecem a trabalhar onde quer que morem. Com a tecnologia disponível hoje, isso pode ser feito. Não precisamos de coçar a cabeça durante anos a pensar no que fazer. Com a tecnologia e a infraestrutura disponíveis hoje, que nunca existiram assim antes na nossa história global, a eletricidade está hoje disponível em todas as aldeias, todos os tipos de comunicação estão disponíveis. A discussão que estamos a ter agora, qualquer pessoa numa aldeia a pode estar a ouvir sem qualquer problema e tão bem quanto em qualquer outro lugar do mundo. Essa é a situação global que mudou, mas os nossos conceitos não mudaram. Portanto, precisamos redesenhar o conceito e, como resultado do projeto, temos que construir novas instituições. As instituições não podem continuar com o antigo modo de vida a dirigir a economia. Precisamos de novas instituições, de acordo com o novo conceito e o novo objetivo que estabelecemos para nós mesmos.

É possível continuar otimista em relação ao nosso futuro comum?

Bastante. Esse é o único caminho possível. Se desistirmos, é o nosso fim. Não podemos simplesmente ficar sentados e nada fazer. Nada é impossível para um ser humano. Deva pensar e lembrar sempre isso. Se o ser humano decide algo e trabalha para isso, vai acontecer. É sempre assim que acontece. É uma questão de tempo e é uma questão de intensidade do desejo. Quanto mais o quisermos, mais rapidamente isso acontece.

19.7.18

Guterres lembra coragem e compaixão de Mandela

in Antena 1

Há 100 anos nascia na África do Sul Nelson Mandela. Na hora de recordar o homem e político ficam as palavras de António Guterres.

Ativista, advogado, político, Mandela foi o primeiro presidente negro da África do Sul.

Lutador contra o regime de “apartheid” no país, foi um dos líderes mais queridos de todo o mundo, venceu o nobel da paz em 1993 e ainda hoje inspira muita gente por este mundo fora.

A propósito dos 100 anos do nascimento de “Madiba” como também era chamado, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lembra a coragem e a compaixão de Nelson Mandela.

18 de julho 1918. Há 100 anos nascia em Mvezo, na África do Sul, Nelson Mandela.

6.12.13

Morreu Nelson Mandela (1918-2013): a liberdade como obra

Ana Dias Cordeiro, in Público on-line

O primeiro Presidente negro da África do Sul morreu nesta quinta-feira, anunciou Jacob Zuma, Presidente sul-africano. O líder da luta anti-apartheid tinha 95 anos.

Durante o discurso de tomada de posse do Presidente Jacob Zuma, em Pretória, em Maio de 2009 Nelson Mandela numa imagem com data desconhecida À saída de um hotel em Londres, onde comemorou o seu 90º aniversário, em Junho de 2008 Durante um encontro com o antigo primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, em Junho de 2008 Durante um encontro com o chefe da polícia de Joanesburgo Na Cidade do Cabo, em Agosto de 2008 Conferência de imprensa com o símbolo da luta contra a sida em frente à sua antiga cela na prisão de Robben Island, Cidade do Cabo, em Novembro de 2003 Antes de entrar no Parlamento sul-africano para um discurso marcando os dez anos da eleição do primeiro Presidente negro do país, em Maio de 2004.

Nelson Mandela foi um homem de gestos. Como este: apenas aceitou sair da prisão quando recebeu garantias de que todos os outros prisioneiros políticos seriam libertados como ele. O advogado e activista acreditou na luta pela libertação de todo um povo. Depois de 27 anos preso, foi eleito o primeiro Presidente negro na África do Sul. O seu legado vai muito além do seu país e do tempo em que viveu. Morreu nesta quinta-feira, com 95 anos, na sua casa em Joanesburgo.

Quando anunciou que deixava a política, Nelson Mandela fê-lo com a mesma naturalidade com que dizia: “Toda a gente morre.” Escolheu deixar a presidência da África do Sul no fim do primeiro mandato dois anos depois de decidir abandonar a liderança do Congresso Nacional Africano (ANC), que transformou num farol da luta de libertação do seu país. Na sombra, manteve uma actividade pública, por vezes próxima da política. Estávamos em 1999.

Cinco anos depois, com 86 anos, anunciou brincando que ia “reformar-se da reforma”. Era a sua maneira de dizer que desta vez era mesmo de verdade. “Não me telefonem, eu telefono-vos”, disse na altura num encontro com jornalistas. “Não lhe telefonámos”, escreveu o jornalista Ido Lekota em 2010 no jornal The Sowetan, “mas a sua figura ‘maior do que a vida’ continua a pairar sobre a nossa democracia e o panorama político [da África do Sul].”

Hoje, três anos depois, Ido Lekota continuaria provavelmente a escrever o mesmo do líder da luta anti-apartheid, preso durante 27 anos por lutar contra o regime segregacionista da África do Sul, que foi prémio Nobel da Paz (com Frederik de Klerk) em 1993 e primeiro Presidente negro da África do Sul eleito um ano depois. “O estadista mais amado” do mundo, como se lhe referiu em tempos o New York Times, esteve internado este ano, com uma infecção pulmonar, como o foi várias vezes nos últimos dois anos. Deixa uma obra completa: um país que imaginou e criou a partir de um ideal.

Advogado, líder da luta anti-apartheid, defensor do uso de armas em nome de uma luta igual com o opressor, Nelson Rolihlahla Mandela conseguiu ter do seu lado pacifistas como o arcebispo Desmond Tutu, que foi Nobel da Paz antes dele, em 1984, e que, quando Mandela esteve internado, rezou pelo “conforto e dignidade” daquele que considera ser “o ícone mundial da reconciliação”. Também foi o arcebispo Desmond Tutu quem disse, num dos últimos aniversários de Mandela, a 18 de Julho, que a melhor prenda que ele podia receber era que as pessoas fossem como ele, era saber que as pessoas seguiriam o seu exemplo.

De pessoa revoltada a magnânima
Tutu previu ser este um momento “traumático” para a África do Sul, o da perda de Mandela, figura que descreveu como “um ser humano fantástico”, numa entrevista em Junho de 2012 ao PÚBLICO, em Lisboa.

“Quando vai para a prisão, é uma pessoa zangada, revoltada, que acredita na violência como meio de conquistar a liberdade. E, quando sai, emerge como uma pessoa extraordinariamente magnânima. O sofrimento por que passou ajudou-o a suavizar a sua posição. (…) Ele acreditava convictamente que se é líder pelas pessoas que são lideradas e não em benefício próprio. Fomos incrivelmente abençoados por termos Madiba [Mandela] aos comandos, num momento histórico para o nosso país. (…).”

Pelo menos até ao fim de 2010, o ex-Presidente sul-africano continuava, todos os meses, a receber quatro mil mensagens do mundo inteiro. Algumas com uma homenagem, outras a desejarem-lhe uma reforma tranquila e feliz, segundo a Fundação Nelson Mandela, em Dezembro de 2010, que, na declaração também recebida pelo PÚBLICO, juntou um pedido a todos para se coibirem de pedir autógrafos, declarações, entrevistas ou aparições públicas em apoio a algum evento, de forma a “ajudar a tornar a reforma de Madiba um período de paz e tranquilidade”.

Seguiram-se meses e anos difíceis em que a sua saúde se deteriorou. E durante esta última permanência no hospital, à porta da sua casa em Joanesburgo e do hospital em Pretória, muitas flores foram deixadas com mensagens a desejar as melhoras ou a dizer: “Tata Madiba: Graças a ti, temos orgulho em ser sul-africanos.” Ou com promessas: “Prometemos viver em paz e harmonia.”

Descendente do rei thembu
O desejo de Mandela, expresso na autobiografia Longo Caminho para a Liberdade, era ser enterrado junto dos seus antepassados em Qunu, no Transkei, província do Cabo Oriental, onde nasceu em 1918, e foi educado para ser, como o pai falecido, conselheiro do rei thembu, Jongintaba Dalindyebo.

Era descendente de Ngubengcuka, que tinha antes sido o rei dos thembu, incluídos no mais vasto grupo linguístico dos xhosa. Mandela descreve o rei, que foi seu pai adoptivo e do qual teria sido conselheiro, se não tivesse partido para Joanesburgo, como “um homem tolerante e esclarecido que tinha alcançado o objectivo [que caracteriza] todos os grandes líderes: manter o seu povo unido”.

Este “grande líder” acolhera Mandela com nove anos, após a morte do pai que, anos antes, ficara desapossado de tudo por desafiar um representante da administração britânica. A mãe, sem condições para o criar, entregou-o ao rei. Mandela aprendeu a escutar os anciãos.

Os vários nomes de Mandela
Mandela é muitas vezes chamado, na África do Sul, por "Tata", que significa "pai", ou por "khulu" que é "grandioso" – ambos na língua xhosa. Mas Mandela é sobretudo referido, em sinal de respeito, por "Madiba" – nome de um chefe thembu que reinou no Transkei no século XVIII, o nome do clã de Mandela que é mais importante do que o apelido.

Na clandestinidade, a partir de 1961, vestiu a pele de um David Motsamayi; disfarçou-se várias vezes de motorista, cozinheiro, jardineiro.

Não foi conselheiro, nem rei, mas a sua educação de aristocrata, os estudos de advocacia, o carisma e dedicação à luta anti-apartheid fizeram dele o líder inquestionável do ANC e principal ícone da libertação da África do Sul. Não aceitou ser libertado da prisão, enquanto não fossem instituídos o fim do apartheid e o fim da proibição do ANC, o levantamento do estado de emergência e a libertação dos outros presos políticos.

“Eu prezo muito a minha liberdade, mas prezo ainda mais a vossa”, escreveu num discurso lido pela filha Zindzi, num comício no Soweto, em 1985, dirigido aos africanos e membros do ANC.

Recolhimento nacional
Também por isso, a morte de Mandela é “uma perda tremenda para o país”, disse Ray Hartley, director do jornal sul-africano The Times numa entrevista ao PÚBLICO. “A África do Sul perderá aquele sentimento reconfortante de que existia este grande unificador”, disse, embora prevendo que "os processos políticos não serão afectados pelo seu desaparecimento.”

Também em entrevista, Thierry Vircoulon, investigador associado do Institut Français des Relations Internationales e co-autor de L’Afrique du Sud de Jacob Zuma (L’Harmattan), considerou que “a África do Sul vai entrar num momento de recolhimento nacional”. E realçou: “A nova África do Sul não vai desaparecer com ele, precisamente porque ele fez um excelente trabalho enquanto pai fundador dessa nova África do Sul.”

Os seus actos são frequentemente lembrados como exemplo para outros. As suas palavras ressoarão durante muito tempo como lições de vida.

Frederik W. de Klerk, ex-líder do Partido Nacional, fala do líder que confrontou em duras negociações e com quem partilhou o Prémio Nobel da Paz 1993, numa entrevista a propósito do livro Conversations with Myself , também lançado em Portugal, em 2010, com o título Nelson Mandela – Arquivo Íntimo (Editora Objectiva), e que junta notas pessoais, cartas e diários de Mandela escritos antes e depois da saída da prisão: “Independentemente de qualquer crítica que possamos fazer, o homem que emerge de Conversations with Myself é uma eminente figura não só na história da África do Sul, mas na história do século XX. Ele foi Presidente para desempenhar um papel exemplar na unificação e reconciliação do povo profundamente dividido da África do Sul”, disse aquele que foi o último Presidente branco da África do Sul (1989-1994).

Muitas vezes, admite na autobiografia Um Longo Caminho para a Liberdade, Mandela se questionou sobre o sofrimento que infligira à família durante a clandestinidade e nos anos na prisão de onde só saiu com 72 anos.

Já em liberdade, numa entrevista à revista norte-americana Time em Fevereiro de 1990, disse acreditar no valor da dedicação quase exclusiva à luta: “Sim, valeu a pena. Ser preso por causa das nossas convicções e estar preparado para sofrer por aquilo em que se acredita vale a pena. É uma conquista para um homem cumprir o seu dever na terra independentemente das consequências.”

O difícil equilíbrio, nunca alcançado, entre a dedicação à família, por um lado, e à causa política da libertação, por outro, acompanhou-o durante a vida e é algo presente nas suas memórias do Arquivo Íntimo. Porém, aceitou-o da mesma forma que aceitou defender o recurso às armas como imprescindível para o sucesso da luta.

Em defesa das armas
“Nunca irei lamentar a decisão que tomei em 1961, mas gostaria que um dia a minha consciência estivesse tranquila”, disse referindo-se à decisão tomada nesse ano de passar à clandestinidade e formar o MK (Umkhonto we Sizwe – A lança da nação) de que foi primeiro comandante-chefe e que se tornou a ala militar do ANC. Viria a ser condenado a prisão perpétua em 1964 por sabotagem e conspiração.

Passou 18 anos na prisão de alta segurança de Robben Island. Esteve depois na prisão de Pollsmoor, e já no final foi transferido para a cadeia de Victor Verster perto da Cidade do Cabo.

Nos 23 anos que viveu depois de libertado, concluiu a missão, iniciada ainda na cadeia, de negociar o fim do apartheid com o Governo do Partido Nacionalista e foi eleito primeiro Presidente negro da África do Sul. Depois de terminado o mandato de cinco anos, retirou-se da política e passou a dedicar-se, através da fundação com o seu nome, a uma nova causa – o combate e a prevenção da sida – à qual se sentia especialmente ligado.

Em 2005, a morte do filho Makgatho, vítima de sida, levou Mandela a uma rara intervenção pública desde que deixara a vida política em 1999. Lançou um apelo ao fim do tabu, para que se falasse desta como de qualquer outra doença, por considerar que só assim a sida deixaria de ser fatal.

Já antes, quando estava preso, tinha perdido o filho mais velho Thembekile, num desastre de automóvel, em 1969, e uma filha pequena ainda bebé, Makawize, ambos do primeiro casamento com Evelyn Mase, de quem se divorciou em 1957.

Um ano depois conheceu e casou-se com Winnie Mandela, de quem teve duas filhas. Quando a viu pela primeira vez, “soube que a ia amar”, escreve na autobiografia. Durante os anos em que esteve preso, é a sua confidente e, durante muito tempo, quem melhor o compreende. A política, os métodos utilizados ou o rumo defendido para a luta acabam por separá-los. Mandela opta pelo divórcio em 1996.

Dos seis filhos que teve, acompanharam-no até ao fim as três filhas: Zindzi, Zenani e Makawize. E Graça Machel, com quem se casou dois anos depois do divórcio com Winnie, a 18 de Julho de 1998, no dia do 80.º aniversário.

Quando Mandela esteve esta última vez no hospital, Graça Machel agradeceu emocionada as muitas mensagens a desejar as melhoras do ex-Presidente vindas da África do Sul, do continente e do resto do mundo. Nessa mensagem pública e universal, Graça Machel dizia estar reconhecida a todos os que tinham, com isso, “feito uma diferença, na recuperação” de Mandela numa alusão às palavras do próprio: “O que conta na vida não é o facto de termos vivido. É a diferença que fizemos para a vida dos outros.”

Morreu Nelson Mandela, um exemplo de paz, coragem e união

por Patrícia Viegas, in Diário de Notícias

Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul, morreu hoje aos 95 anos de idade. O anúncio foi feito pelo Presidente Jacob Zuma, que disse que 'Madiba' terá funeral de Estado.

"Ele está agora a descansar. Ele está agora em paz. A nossa nação perdeu o seu maior filho. O nosso povo perdeu um pai", disse o Presidente sul-africano, Jacob Zuma, numa declaração televisiva.

'Madiba', nome carinhoso pelo qual era conhecido entre os sul-africanos, tinha sido hospitalizado por várias vezes ao longo dos últimos anos. Desde setembro que estava a receber tratamento em casa. Herói da luta contra o Apartheid, ex-líder do Congresso Nacional Africano (ANC) e Prémio Nobel da Paz, Mandela deixa um legado de paz, coragem e união à África do Sul e ao mundo.

Na página oficial de Nelson Mandela no Facebook foi colocada uma citação do ex-presidente, de 1996, em várias línguas, incluindo o português: "A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e é por isso, então, que dormirei pela eternidade."

Em 2006, num documentário da MSNBC, Mandela falou sobre a morte: "Gostaria que se dissesse, 'Aqui jaz um homem que fez o seu dever na Terra', é tudo". Não se sabe para já se esse seu desejo será cumprido com tal simplicidade, mas o ex-chefe do Estado sul-africano bem pode estar certo de que cumpriu o seu dever.

Após 27 anos passados na prisão, 18 dos quais passados na Robben Island, enfrentou um regime racista branco, tendo-se preparado em várias outras ocasiões para morrer (quando estava a ser julgado e se preparava para ouvir a sentença pensava que ela seria a pena de morte).

Sem desejo de vingança, sem rancor acumulado, conseguiu uma transição para a democracia sem lugar para vinganças, tendo lançado as bases daquilo a que arcebispo anglicano Desmond Tutu chamou uma Nação Arco-Íris. E sempre através do exemplo, dando aos outros o exemplo, ensinando a perdoar.

Venceu as primeiras eleições livres na África do Sul, em 1994, tendo-se tornado o primeiro presidente negro daquela que é hoje a maior economia africana. Cumpriu apenas um mandato, deixando o poder de livre vontade, na esperança de dar o exemplo a outros líderes africanos e mundiais. Teve pouca sorte, pois poucos lhe seguiram os passos, sendo Joaquim Chissano e Pedro Pires, ex-presidentes de Moçambique e de Cabo Verde, dos poucos líderes africanos que não se agarraram de forma egoísta ao poder.

Hoje, a África do Sul, liderada pelo Presidente Jacob Zuma (que sucedeu a Thabo Mbeki no meio de uma luta fratricida pelo poder e pela liderança do ANC), enfrenta inúmeros desafios: desemprego, criminalidade elevada, conflitos laborais no setor mineiro (massacre de Marikana é uma página negra na história atual do país), com índices de pobreza ainda significativos e com números alarmantes de infectados com o VIH/Sida.

Mandela lutou sempre contra esta doença, que lhe levou um dos seus filhos, Makgatho. Em 2003, o ex-líder do ANC ofereceu o seu antigo número de prisioneiro na cadeia da ilha de Robben Island, o 46664, para servir de mote a um concerto e a uma campanha de luta contra o VIH/Sida.

"Nelson Mandela talvez seja o último dos heróis puros do nosso planeta. É o símbolo sorridente do sacrifício e da rectidão, venerado por milhões de pessoas, como um santo vivo", escreveu Richard Stengel, no seu livro 'O Legado de Mandela'. Stengel, hoje em dia editor da 'Time', foi o jornalista escolhido para ajudar o ex-líder sul-africano a escrever a sua autobiografia, 'Um Longo Caminho para a Paz'.

Nascido a 18 de julho de 1918, no Mvezo, Mandela é de etnia xhosa e membro da tribo dos tembu, tendo estudado em Fort Hare, formando-se advogado. Ao longo da sua vida casou três vezes e teve seis filhos, dos quais apenas três estão hoje em dia ainda vivos.

Com Evelyn Ntoko Mase esteve casado entre 1944 e 1958 e teve Maki 1 (nasceu em 1947 e morreu nove meses depois), Maki 2 (nasceu em 1954), Thembi (1946-1969) e Makgatho (1951-2005). Com Winnie Madkizela-Mandela esteve casado entre 1957 e 1996 e teve Zenani (nascida em 1959) e Zindzi (nascida em 1960). Com Graça Machel, viúva do ex-líder moçambicano Samora Machel, casou em 1998, quando fez 80 anos.

Foi ela a sua companheira de velhice. Em 2009, numa entrevista à CNN, Graça Machel confessava ser "de partir o coração observar o espírito e a chama de Mandela a extinguirem-se" à medida que ele envelhece. "Tem sido doloroso vê-lo envelhecer", disse ainda Machel na referida entrevista. Um ano antes, também à CNN, a ex-primeira-dama de Moçambique admitia que a única coisa que Mandela lamenta na vida é não ter passado mais tempo com os seus filhos.