Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal 2030. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal 2030. Mostrar todas as mensagens

13.9.23

Portugal 2030: problema informático deve adiar anúncio dos primeiros apoios às PME para outubro

Joana Nunes Mateus jornalista, in Expresso


Novo quadro de fundos comunitários prometeu aprovar primeiras candidaturas às micro, pequenas e médias empresas até ao início de setembro. Mas prazo de 60 dias úteis saiu furado devido a problemas informáticos

Está atrasada a divulgação dos resultados da primeira fase de candidaturas das micro, pequenas e médias empresas (PME) para os apoios do novo quadro comunitário Portugal 2030 a investimentos produtivos em atividades inovadoras nas cinco regiões do continente: Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve.

O prazo para decisão dos primeiros incentivos ao investimento empresarial do Portugal 2030 terminou no início de setembro. Mas o Expresso confirmou que um problema informático deverá atrasar o anúncio destes apoios por mais algumas semanas.

Em causa está o concurso de 400 milhões de euros de fundos europeus para apoiar a inovação produtiva das PME. São 125 milhões de euros para territórios de baixa densidade e do interior e 275 milhões de euros para os restantes.

Lançado a 3 de maio, este primeiro concurso dirigido às PME divide-se em quatro fases de candidaturas até 15 de dezembro de 2023.

A primeira fase terminou a 2 de junho e a decisão fundamentada sobre essas candidaturas deveria ter sido proferida no prazo de 60 dias úteis.

A esta primeira fase do concurso puderam concorrer os candidatos que efetuaram até 30/11/2022 o chamado “registo de pedido de auxílio”. Em causa está um mecanismo lançado pelo Governo para desbloquear o investimento empresarial. Na prática, permitiu às PME darem início aos respetivos projetos de inovação produtiva sem terem de esperar pela abertura dos primeiros concursos do Portugal 2030.

Resta saber quem verá o investimento apoiado.

Ao abrigo deste primeiro concurso do Portugal 2030, os projetos empresariais de natureza inovadora, que se traduzam na produção de bens e serviços transacionáveis e internacionalizáveis e com elevado valor acrescentado e nível de incorporação nacional, podem obter um apoio até 40%.

9.5.23

Há quase três milhões de euros por dia para gastar no clima até 2030

Delfim Machado, in JN


Fundos do PRR e do Portugal 2030 vão acelerar as eólicas, descarbonizar a indústria e substituir o gás
pelo hidrogénio. O têxtil, o calçado e a resina vão trocar matérias fósseis por recursos biológicos.


Faltam exatamente 2400 dias para terminar a década e, por cada dia que passar até lá, Portugal terá dois milhões e 600 mil euros de fundos europeus para gastar no clima. Este é o valor médio diário das verbas destinadas à transição climática do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e do Portugal 2030, sendo que cada um destes programas disponibiliza 3,1 mil milhões de euros até 31 de dezembro de 2026 (no caso do PRR) ou 31 de dezembro de 2029 (Portugal 2030).

O elevado fluxo de fundos disponíveis permitiu que Portugal antecipasse, de 2030 para 2026, a meta de atingir os 80% de renováveis no total da energia consumida. Em 2021, essa proporção foi de 58%, muito graças à energia hídrica (essencialmente de barragens) e à eólica. Naquele ano, Portugal foi o quarto país da União Europeia com maior proporção de renováveis na energia que consome. Se a análise incidir apenas sobre a energia eólica, somos o terceiro melhor país entre os 27 estados-membros, com 26% do consumo com origem no vento. Só a Dinamarca e a Irlanda estão melhor.

Uma vez que os terrenos portugueses com mais vento já estão ocupados, o futuro passa por duas soluções: substituir as turbinas em fim de vida por outras mais potentes e criar novos parques eólicos em alto-mar. Para já, há apenas um marítimo, em Viana do Castelo, mas estão em curso investimentos para reforçar este parque e criar outros quatro: Matosinhos, Figueira da Foz, Cascais e Sines.

Portugal também está acelerar no hidrogénio verde e financiou recentemente 21 projetos que receberão quase 100 milhões de euros para substituir o gás natural e abastecer indústrias e veículos. Um dos mais valiosos será desenvolvido em Paços de Ferreira e Lousada pelos noruegueses da Nydalen e consiste em criar dois postos de abastecimento de veículos ligeiros e autocarros.


O desejo do ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, é criar capacidade produtiva suficiente para, até 2026, Portugal iniciar a exportação de hidrogénio verde: "Até ao final deste mandato, havemos de exportar alguma coisa para mostrar que realmente é por aqui que reside uma grande oportunidade em termos de futuro para o país".

Fazer roupa com bananas

A descarbonização da indústria, com 715 milhões de euros só do PRR, é uma das áreas com maior investimento. Na indústria da moda, a segunda mais poluente do Mundo a seguir à petrolífera, encontra-se um dos projetos mais curiosos: o "Be@t". Este programa envolve 54 empresas e é liderado pelo Centro Tecnológico do Têxtil e do Vestuário. Entre as várias iniciativas que o Be@t prevê para o setor está o desenvolvimento de matérias-primas de origem biológica. Assim, os restos de banana da Madeira, de ananás dos Açores, cânhamo do Centro, linho do Norte e palha de arroz do Alentejo servirão para "alimentar" a indústria da moda e vestuário. E este exemplo está a ser seguido por projetos semelhantes da fileira do calçado e da resina.

No que toca à transição climática, a indústria é o setor que dispõe de maior verba, mas estes apoios também podem chegar aos cidadãos. Por exemplo, quando comprar uma bicicleta ou um carro elétrico tem direito a um apoio, limitado à procura, que financia uma parte da compra. Ou se fizer o isolamento térmico de casa pode aproveitar os 300 milhões de euros destinados à eficiência energética em edifícios residenciais, que também pagam bombas de calor ou janelas eficientes.

Por outro lado, os fundos europeus são responsáveis pelas grandes obras de mobilidade sustentável que estão em curso ou estarão em breve, de norte a sul do país. São os casos dos metros de Lisboa e Porto ou dos autocarros rápidos da Boavista e Braga, mas também os carros elétricos que todas as instituições sociais vão ter para prestarem apoio domiciliário.

O Fórum da Sustentabilidade e Sociedade inclui uma grande conferência, a 11 e 12 de maio, no Salão Nobre da Câmara de Matosinhos. Pode inscrever-se para assistir ao vivo ou seguir em direto através dos sites do JN, DN, TSF e Dinheiro Vivo.

Mudança na energia

O primeiro painel, na manhã do dia 11, será dedicado às "Tendências globais na energia" e contará com a comissária europeia Kadri Simson (Energia) e Jos Delbeke, especialista em políticas climáticas, entre muitos outros especialistas. O encerramento terá Filipe Silva, CEO da Galp, e Duarte Cordeiro, ministro do Ambiente e Ação Climática.

Futuro sustentável

O segundo painel, dia 11 à tarde, tem como tema "Construir um futuro sustentável e inclusivo", contando com a presença de personalidades como a comissária europeia Elisa Ferreira (Coesão e Reformas) ou o arquiteto Gonçalo Byrne, presidente da Ordem dos Arquitetos.

Objetivos e políticas

O terceiro painel, na manhã do dia 12, debaterá os "Objetivos e políticas para uma Europa sustentável" e contará com o Prémio Nobel da Paz Muhammad Yunus. O arranque da sessão será marcado por uma intervenção do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o encerramento estará a cargo do secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário Campolargo.

1.3.23

Governo vai acelerar medidas previstas na Agenda do Trabalho Digno para responder a preocupações de patrões

Por Lusa, in CNN

A ministra do Trabalho disse esta terça-feira que as medidas previstas na Agenda do Trabalho Digno e no acordo de rendimentos são para cumprir, indicando que algumas serão aceleradas para responder a preocupações das confederações patronais.

Ana Mendes Godinho falava aos jornalistas na residência oficial do primeiro-ministro, António Costa, em Lisboa após terem recebido em audiência os representantes do Conselho Nacional das Confederações Patronais (CNCP), que manifestaram preocupações com as alterações laborais aprovadas no parlamento, no âmbito da Agenda do Trabalho Digno, e com a "lentidão" na concretização do acordo de rendimentos.

"O que nós garantimos e assumimos sempre é que estamos aqui para cumprir um acordo que é decisivo para o país nas suas várias dimensões", afirmou a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, quando questionada se estão previstas novas medidas para responder às críticas patronais.

Segundo acrescentou, o Governo está disponível para esclarecer dúvidas e "acelerar" a concretização de algumas medidas que estão previstas no acordo de rendimentos assinado em outubro na Concertação Social com as confederações patronais e a UGT.

Neste contexto, a ministra disse que "até ao final da semana" os ministérios do Trabalho e das Finanças vão "clarificar" a implementação dos incentivos fiscais para as empresas que aumentem os salários dos trabalhadores, medida aprovada no Orçamento do Estado para 2023 (OE2023), que estava prevista no acordo de rendimentos.

Ana Mendes Godinho referiu ainda que o fim dos descontos das empresas para o Fundo de Compensação do Trabalho (FCT) entrará em vigor em abril, com a Agenda do Trabalho Digno.

Já o porta-voz do CNCP, João Vieira Lopes, disse que as confederações patronais vão analisar o que foi dito na reunião com o primeiro-ministro e a ministra do Trabalho, bem como no encontro com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, há duas semanas, e depois o conselho "irá avançar com conjunto de propostas políticas e medidas", sem indicar em concreto o que estará em causa.

Questionado sobre se as confederações poderão decidir denunciar o acordo de rendimentos, João Vieira Lopes disse: "essa questão nunca esteve em cima da mesa".

"O diálogo foi importante, o primeiro-ministro deu garantias de que iríamos no futuro tentar articular melhor toda a atividade da Concertação Social com aquilo que o Governo apresenta publicamente e com as propostas que faria à Assembleia da República", disse João Vieira Lopes.

O CNCP integra a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), a Confederação empresarial de Portugal (CIP), a Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP).

Além das preocupações manifestadas com o "impacto negativo" das alterações laborais nas empresas, o CNCP manifestou ainda preocupação com a execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e o Portugal 2030.

Segundo João Vieira Lopes, na reunião o Governo deu garantias de que o Banco de Fomento está em condições de operar a 100%.

1.2.23

Regiões mais pobres voltam a depender de fundos europeus para pagar formação avançada

Vitor Ferreira, in Público online

Norte, Centro e Alentejo vão pagar bolsas através das verbas regionais, enquanto Lisboa e Algarve, que não têm apoio europeu por serem mais ricas em PIB per capita, receberão do OE.

O Governo vai pagar formação avançada através de fundos comunitários nas regiões mais pobres do país (Norte, Centro e Alentejo) e através do Orçamento do Estado nas regiões mais ricas (Lisboa e Vale do Tejo e Algarve). Esta orientação consta nos programas do Portugal 2030 (PT 2030), já aprovados, e que remetem esse financiamento para os programas operacionais regionais (POR). Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e Algarve, por terem um rendimento per capita já mais elevado, não podem receber fundos e receberão as verbas dos cofres do Estado.

A formação avançada é uma peça-chave no PT 2030, que deixa de fora o apoio a parques e estradas, mas diz apostar, por iniciativa do Governo, numa transformação da especialização da economia portuguesa, com a meta de criar nas empresas 25 mil novos empregos em Investigação e Desenvolvimento. E, com a meta de elevar o investimento em ciência dos actuais 1,69% para 3% do PIB (objectivo que não se cumpriu no PT 2020), a ministra da Ciência e Ensino Superior disse, em Novembro, que outra meta é atribuir metade das bolsas de doutoramento a investigadores que façam o seu trabalho em empresas até 2027.

Como vai essa factura ser repartida é a grande questão, e um tema delicado. No quadro comunitário anterior (PT 2020), parte da factura foi paga pelos fundos comunitários para as regiões mais pobres, como o Norte, que tem o PIB per capita mais baixo do continente, e o Centro, que compõe com o Norte a zona mais industrializada do país.

Em conjunto com o Alentejo, estas três regiões pagaram mais de 200 milhões de euros em bolsas de doutoramento, de pós-doutoramento e de cursos técnicos superiores profissionais (os chamados Ctesp). Mas quase ninguém fica satisfeito, nem mesmo o Algarve, cuja factura é paga pelo Estado central.

Como a orientação do passado é para manter, Norte, Centro e Alentejo continuarão dependentes dos fundos comunitários para apoiarem a recuperação do atraso, em termos de taxa de escolarização no ensino superior. Pelos dados da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Norte (40,4%) e Alentejo (28,3%) estavam, em 2021/22, abaixo da média nacional (41,4%). A excepção deste trio é o Centro, que já tinha uma taxa de 46%, ainda assim aquém do indicador da Área Metropolitana de Lisboa (49,9%).

Ao longo dos anos, muitas vozes questionaram o que poderia ter sido feito nas regiões se o dinheiro europeu que lhes foi destinado não substituísse o que, a nível regional, é visto como uma responsabilidade do Estado central, como a formação superior.

Na lógica do passado, que vai continuar no PT 2030, as verbas acrescidas que o Estado central diz estar a dar às regiões são para pagar os projectos "barrigas de aluguer", isto é, investimento público com impacto nacional que é transferido para os cofres das regiões.

Até a própria Comissão Europeia olha com insatisfação para este historial, que atravessa governos de diferentes cores – e que irá prolongar-se pelo menos durante o PT 2030 (negociado por um executivo do socialista António Costa e que arranca com outro executivo do mesmo António Costa). Ainda em Julho passado, a comissária Elisa Ferreira, que tutela os fundos de Coesão (e até é do mesmo partido do primeiro-ministro), foi à Guarda assinar o Acordo de Parceria do PT 2030 e dizer ao Governo português, olhos nos olhos, que as verbas da Europa “não devem substituir o investimento normal de um país”.

Dias depois, numa entrevista ao PÚBLICO, a mesma responsável europeia insistia na ideia de que o país tem de se libertar da dependência dos fundos europeus.

Mas este tema não se divide entre a opinião dos ricos e a dos pobres. Também o Algarve, que já não é uma região em desenvolvimento, fica descontente, porque não tem acesso a fundos europeus, apesar de ser a que tem a mais baixa taxa de escolarização no ensino superior (24,5%).

No quadro comunitário que termina este ano, "não havendo financiamento pelo Algarve 2020 para bolsas de doutoramento, de mestrado ou Ctesp, o financiamento foi assegurado pela Universidade do Algarve, através de contrapartida do Orçamento do Estado e das famílias", sublinha o presidente da CCDR-Algarve, José Apolinário, em declarações ao PÚBLICO.

Como o Algarve está arredado dos fundos de Coesão, depende totalmente do financiamento nacional, público ou privado. "Essa opção de programação revelou-se errada", porque "não permitiu um maior crescimento da resposta regional ao desafio de elevação dos níveis de qualificação dos jovens", sustenta o mesmo representante regional, que dirigiu a JS nos anos 80 e mais tarde seria deputado e membro do Governo pelo PS.

O PÚBLICO questionou o Ministério do Planeamento, que tutela fundos comunitários, o da Coesão e o do Ensino Superior, ainda no Verão de 2022, quando foram publicadas as primeiras versões dos programas operacionais regionais (POR). Nenhum quis responder às perguntas.

Meses mais tarde, no final de 2022, os documentos foram colocados em consulta pública sem alteração neste tema. Entretanto já estão aprovados.

Esta orientação acontece noutros domínios, destacam representantes regionais ouvidos pelo PÚBLICO ao longo das últimas semanas. Nesses casos, o argumento "centralista" é o de que não importa de onde vem o cheque. O importante é que haja dinheiro.

Porém, regiões mais necessitadas vêem isto com outros olhos: o Estado devia assumir a mesma despesa que paga às regiões mais desenvolvidas, porque as apostas nacionais (como a qualificação académica) devem ser pagas num esforço nacional que, na realidade actual, se centraliza em LVT e no Algarve. E os fundos europeus regionais deveriam ser deixados para investimentos regionais adicionais.

Este é, aliás, um princípio basilar dos fundos europeus, como bem lembrou a comissária Elisa Ferreira, em Julho, na Guarda, perante todos aqueles membros do Governo, quando pediu respeito pelo princípio da adicionalidade.

Neste cenário, só mesmo os executivos da última década não mostraram descontentamentos. O número de diplomados tem vindo a subir, mas parte da despesa foi "desviada" dos orçamentos do Estado para os POR (Norte 2020, Centro 2020 e Alentejo 2020). Os governos dizem que estão a dar mais dinheiro às regiões, e salientam que o país tem mais diplomados, mas os cofres nacionais só pagam a factura de LVT e Algarve.

A CCDR-Norte, por exemplo, destinou mais de 121 milhões de euros através do Norte 2020. Cerca de metade (57 milhões) foi para os Ctesp, mais 12 milhões foram para equipamentos usados nestes cursos mais curtos de dupla certificação, e o restante foi para doutoramentos e pós-doutoramentos (43 milhões) e para o programa +Superior (8,8 milhões), que paga bolsas a estudantes do ensino superior em zonas do país que tenham menos densidade populacional

Na CCDR-Centro, canalizaram-se 57 milhões de euros para bolsas de doutoramento, abrangendo 1518 programas de doutoramento, e 45 milhões de euros para 402 cursos Ctesp, abrangendo praticamente 9000 alunos.

Na CCDR-Alentejo, foram gastos 13,9 milhões com os Ctesp e 2,7 milhões com programas doutorais. No PT 2030, o orçamento para Ctesp é de 16,9 milhões nesta região.

Ciência mais dependente dos fundos europeus

O orçamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) tem ficado cada vez mais dependente de fundos comunitários. O peso das verbas do Fundo Social Europeu (FSE) no dinheiro destinado às bolsas de doutoramento atribuídas por aquele organismo público mais do que duplicou nos últimos sete anos.

Em 2015, quando ainda estava a ser implementado o anterior programa de financiamento europeu, o Orçamento do Estado era directamente responsável por 81% do dinheiro usado para pagar aos cientistas. Os restantes 19% vinham de fundos comunitários. A distribuição de verbas foi variando ao longo dos últimos anos, fruto da mudança de quadro comunitário e do andamento da sua implementação.

À medida que o PT 2020 foi concretizado, acentuou-se o peso do dinheiro de Bruxelas. Em 2021, o último ano para o qual a FCT forneceu dados ao PÚBLICO, o Estado só assumia directamente 56% das verbas para as bolsas de doutoramento, vindo o restante orçamento de fundos europeus.

Em 2019 e 2020 essa dependência foi ainda mais notória e, pela primeira vez, o Orçamento do Estado não garantiu a maioria das verbas para as bolsas científicas, tendo os fundos comunitário coberto, respectivamente, 56% e 52% dos pagamentos.

A FCT recebeu quase 230 milhões de euros de fundos comunitários, entre 2015 e 2022. A maior fatia, de mais de 141 milhões de euros, veio do FSE, através do Programa Operacional Capital Humano, aos quais acresce uma contribuição de 88 milhões de euros dos Programas Operacionais Regionais do Norte, Centro e Alentejo. Samuel Silva

3.8.22

Costa admite que Portugal 2030 pode ser o último acordo de parceria com Bruxelas

in Dinheiro Vivo

Novo alargamento europeu implica "nova arquitetura institucional da União Europeia e, sobretudo, uma nova arquitetura orçamental", referiu primeiro-ministro.



Porto 30/ 04/ 2022 - António Costa, primeiro ministro, na abertura do Congresso Nacional 2022 da EAPN Diálogos sobre a pobreza, que decorreu na Faculdade de Economia do Porto. ( Igor Martins / Global Imagens )

O primeiro-ministro advertiu esta quinta-feira para os efeitos do projetado alargamento europeu a leste e aos Balcãs em matéria de fundos de coesão e admitiu que o Portugal 2030 possa ser o último acordo de parceria com Bruxelas.

Para onde vão os 23 mil milhões de euros em fundos do Portugal 2030?

Associação Têxtil e Vestuário alerta para insuficiência dos apoios à internacionalização

Costa teve "conversa bastante agradável" com Montenegro e voltarão a falar sobre aeroporto

Esta nota sobre a provável evolução da União Europeia foi deixada por António Costa na parte final do seu discurso no Fundão, distrito de Castelo Branco, no encerramento da cerimónia de assinatura do acordo de parceria entre Portugal e a Comissão Europeia para a execução do Portugal 2030, programa comunitário que envolve cerca de 23 mil milhões de euros.

"Há muitos anos que ouvimos dizer que vai ser a última oportunidade [de acesso a fundos comunitários]. De tanto ouvirmos dizer que vai ser a última oportunidade, fomos deixando de acreditar que a última oportunidade poderia ser mesmo a última oportunidade", começou por referir o líder do executivo.

A seguir, o primeiro-ministro apontou uma recente alteração de circunstâncias na União Europeia, em consequência direta do pedido de adesão da Ucrânia à União Europeia e da pressão política e diplomática internacional exercida nesse sentido.

"Recentemente, a União Europeia aprovou um muito ambicioso programa de novo alargamento a leste e à região dos Balcãs. Admitindo que essa decisão foi tomada com seriedade, que as negociações vão ser desenvolvidas com seriedade e que esses países vão alcançar sucesso no seu processo de adesão, então, independentemente da nossa capacidade de desenvolvimento, o mero efeito estatístico dessa adesão pode ter transformado esta cerimónia na última cerimónia de assinatura de um acordo de parceria", admitiu António Costa.

A seguir, o primeiro-ministro disse esperar que, a médio prazo, haja "o bom senso não de travar as adesões" dos países candidatos à União Europeia, mas de "compreender que o processo de adesão para ter sucesso implica uma nova arquitetura institucional da União Europeia e, sobretudo, uma nova arquitetura orçamental".

"Temos de provar que o atual modelo de financiamento, com base na política de coesão, continua a ser um modelo de sucesso em Portugal, assim como temos de provar que somos excelentes a executar esse novo modelo de fundos europeus que constitui o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Quem sabe, poderá ser o modelo futuro da arquitetura do novo modelo orçamental da União Europeia a partir de 2027", acrescentou.

Na sua intervenção, António Costa fez várias referências ao processo de descentralização de competências em Portugal e à projetada regionalização do país, sustentando que o Portugal 2030 contempla um "significativo" crescimento de dotações para as regiões.

"Os programas regionais, desta vez, foram elaborados por regiões eleitas maioritariamente pelos autarcas e que respondem pelos autarcas. Este é um passo de gigante no nosso processo de descentralização", disse.

Depois, fez uma alusão à controvérsia em torno da criação de regiões administrativas em Portugal, mas sem mencionar a posição do PSD de recusar um referendo sobre esta matéria.

"Se haverá outros passos, espero que sim, mas, para já, este é o primeiro grande teste após o passo que demos na democratização ao nível da organização do Estado no escalão regional de Portugal continental", advogou.