in Público on-line
Esquiltuna, a oeste de Estocolmo, é a primeira cidade sueca a introduzir uma taxa para quem praticam a mendicidade. O objectivo confesso é “dificultar” a vida a quem vive de pedir dinheiro”.
As pessoas que forem descobertas a pedir dinheiro sem licença podem ter de pagar uma multa até 272 euros PP PAULO PIMENTA
A partir de 1 de Agosto, a cidade sueca de Esquiltuna exige aos mendigos que obtenham uma licença oficial de 23 euros, aproximadamente, antes de poderem exercer a mendicidade. A licença é válida por três meses e pode ser obtida através do preenchimento de um formulário numa esquadra. Para o efeito, será necessário mostrar um documento de identidade válido. Se alguém for apanhado a pedir sem licença pode ter de pagar uma multa até 272 euros.
Acorda, vem ver a Lua: a mensagem de esperança de um fotógrafo para um menino cigano
Jimmy Jansson, vereador social-democrata, assumiu que esta nova regra pretende diminuir a mendicidade. “Estamos a tornar o processo mais burocrático e difícil”, declarou a jornais suecos, citados pelo Guardian britânico. Críticos desta medida dizem, no entanto, que legitima a mendicidade, e deixa ainda mais vulneráveis as pessoas que já se vêem reduzidas a pedir nas ruas para sobreviver, muitas delas ciganos vindos de outros países, como a Roménia e a Bulgária.
“A pobreza, a desigualdade, a discriminação vão fazer explodir os paióis”
Grupos criminosos podem pagar pela licença e depois exigir pagamentos com juros exorbitantes, como acontece noutros casos de redes de prostituição e mendicidade, disse Tomas Lindroos, de um grupo de uma organização de apoio aos mais necessitados de Esquiltuna, citado pelo Guardian.
Jimmy Jansson defendeu, em declarações ao ao jornal Aftonbladet a abordagem da autarquia local. “Não se trata de importunar pessoas vulneráveis, mas de tentar resolver a questão maior: a mendicidade”, explicou. “Há muitas críticas às tentativas de regular a mendicidade, mas não ao facto de as pessoas serem forçadas a pedir dinheiro”, defendeu.
A introdução deste pagamento prévio surge alguns meses depois de várias cidades suecas terem proibido a mendicidade.
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7.8.19
24.1.18
Suécia. O estranho caso das crianças refugiadas que ficam em ‘coma’
in Jornal i
Para já as teorias vão aparecendo, mas ainda não há consenso.
As crianças refugiadas estão a entrar num estado de apatia profundo que se assemelha a um coma, depois de os seus pedidos de asilo serem rejeitados. Segundo noticiou o El País, os médicos não conseguem explicar estes casos estranhos que se têm registado na Suécia.
Os cientistas chamam a esta condição Síndrome de Resignação. Göran Bodegård, diretor da psiquiatria infantil no hospital universitário Karolinska, Estocolmo, escreveu um artigo onde afirma que os pacientes ficam “totalmente passivos, imóveis, sem reação, retraídos, mudos, incapazes de comer e de beber, incontinentes e sem reação perante os estímulos físicos ou de dor”.
Segundo o jornal espanhol, o primeiro caso de Síndrome de Resignação foi registado em 1998, mas só agora é que foi tornado público.
Normalmente quem sofre com esta patologia são crianças e adolescentes refugiados provenientes dos países soviéticos e que não sofrem de problemas físicos ou psicológicos. Os sintomas apenas surgem quando descobrem que o seu visto foi negado.
Só entre 2015 e 2016, na Suécia foram registados 169 casos.
Para já as teorias vão aparecendo, mas ainda não há consenso.
As crianças refugiadas estão a entrar num estado de apatia profundo que se assemelha a um coma, depois de os seus pedidos de asilo serem rejeitados. Segundo noticiou o El País, os médicos não conseguem explicar estes casos estranhos que se têm registado na Suécia.
Os cientistas chamam a esta condição Síndrome de Resignação. Göran Bodegård, diretor da psiquiatria infantil no hospital universitário Karolinska, Estocolmo, escreveu um artigo onde afirma que os pacientes ficam “totalmente passivos, imóveis, sem reação, retraídos, mudos, incapazes de comer e de beber, incontinentes e sem reação perante os estímulos físicos ou de dor”.
Segundo o jornal espanhol, o primeiro caso de Síndrome de Resignação foi registado em 1998, mas só agora é que foi tornado público.
Normalmente quem sofre com esta patologia são crianças e adolescentes refugiados provenientes dos países soviéticos e que não sofrem de problemas físicos ou psicológicos. Os sintomas apenas surgem quando descobrem que o seu visto foi negado.
Só entre 2015 e 2016, na Suécia foram registados 169 casos.
28.1.16
Suécia tenciona expulsar até 80 mil refugiados
in Jornal de Notícias
A Suécia tenciona expulsar entre 60 mil a 80 mil pessoas que em 2015 procuraram refúgio no país e que deverão ter o pedido de asilo rejeitado, anunciou, quarta-feira, o ministro do Interior, Anders Ygeman.
"Estamos a falar de 60 mil pessoas, mas poderão chegar às 80 mil", calculou o ministro em declarações à imprensa sueca, explicando que o governo já deu indicações à polícia e ao gabinete para as migrações para organizar a retirada das pessoas de forma gradual, com recurso a voos aéreos especiais.
Em 2015, 163 mil pessoas pediram asilo à Suécia, um país do norte da Europa com cerca de 9,5 milhões de habitantes. Dos 58800 casos analisados, as autoridades suecas aceitaram 55% dos pedidos, cerca de 30 mil solicitações.
A decisão da Suécia é anunciada um dia depois de na Dinamarca o parlamento ter aprovado uma reforma da lei do asilo que prevê, entre outras medidas, o confisco de valores a migrantes.
A Suécia tenciona expulsar entre 60 mil a 80 mil pessoas que em 2015 procuraram refúgio no país e que deverão ter o pedido de asilo rejeitado, anunciou, quarta-feira, o ministro do Interior, Anders Ygeman.
"Estamos a falar de 60 mil pessoas, mas poderão chegar às 80 mil", calculou o ministro em declarações à imprensa sueca, explicando que o governo já deu indicações à polícia e ao gabinete para as migrações para organizar a retirada das pessoas de forma gradual, com recurso a voos aéreos especiais.
Em 2015, 163 mil pessoas pediram asilo à Suécia, um país do norte da Europa com cerca de 9,5 milhões de habitantes. Dos 58800 casos analisados, as autoridades suecas aceitaram 55% dos pedidos, cerca de 30 mil solicitações.
A decisão da Suécia é anunciada um dia depois de na Dinamarca o parlamento ter aprovado uma reforma da lei do asilo que prevê, entre outras medidas, o confisco de valores a migrantes.
5.1.16
Suécia começa a recusar entrada a refugiados sem documentos
in Público on-line (P3)
País receia que vaga de refugiados e migrantes ameace a segurança nacional. Menos de metade dos requerentes de asilo viaja com documentação
A partir desta segunda-feira, a Suécia exige um documento de identificação com fotografia a quem cruza a sua fronteira vindo da Dinamarca, a grande rota de chegada de refugiados e migrantes. Quem não o fizer será impedido de entrar no país e a companhia de transportes onde viajou será multada.
Estocolmo espera com isto reduzir o número de pedidos de asilo, apesar de ter sido um dos países europeus que mais defendeu uma política comum de portas abertas em 2015. Esta não é a primeira vez que Estocolmo aplica controlos de fronteira para travar chegadas irregulares. Fê-lo também em Novembro, quando introduziu postos de identificação, que restringiam pouco as novas chegadas.
Os novos controlos suecos são drásticos e podem ter um efeito dominó. De acordo com o diário britânico "The Guardian", que cita dados do Governo sueco, só cerca de 40% dos refugiados que pedem asilo viajam com documentação válida. No pico do Outono, o país, que pertence ao espaço Schengen, chegou a receber perto de dez mil pessoas por dia.
Partem quase todos da Dinamarca, que se diz disposta a aceitar menos refugiados que a Suécia e que ameaça agora impor novos controlos na fronteira com a Alemanha, caso o número de pessoas em circulação pelo país aumente. Estocolmo recebeu 163 mil pedidos de asilo em 2015, o maior valor em qualquer país da Europa, caso se tenha em conta a população de menos de dez milhões de habitantes. Copenhaga, por sua vez, registou apenas 18,5 mil pedidos.
“O Governo considera agora que a situação actual, em que há um grande número de pessoas a entrar no país num período relativamente curto, representa uma ameaça séria à ordem pública e à segurança nacional”, anunciou o Executivo sueco ao apresentar a nova lei, que tem a validade de três anos.
A Suécia é governada por uma coligação dos sociais-democratas com o partido Verde, que em Novembro admitiu que a imposição de controlos de fronteira se tratava de “uma decisão terrível”, capaz de piorar as condições de vida dos refugiados.
A nova lei impõe-se às chegadas de barco, carro e comboio. A companhia de transportes ferroviários do Estado anunciou em Dezembro que deixaria de fazer viagens para e a partir da Dinamarca, pois diz não ter condições para verificar documentos e ficaria sujeita a multas. As ligações ferroviárias directas pela ponte Oresund acabam e existe agora uma paragem obrigatória na estação de entrada na Suécia, onde foi construída uma cerca entre as linhas de comboio e erguidos postos para a verificação obrigatória de documentos.
A Suécia — como a Alemanha e a Áustria — é um dos países de destino mais populares entre refugiados e migrantes que chegam à Europa. No entanto, o grande número de entradas ao longo de 2015 provocou alertas da polícia sobre o risco de perturbação da ordem pública — já se registaram vários ataques a centros de acolhimento de refugiados e as tensões sociais são palpáveis. O Governo sueco admite querer aceitar cerca de mil novas entradas por semana ao longo de 2016 — um décimo das que se contavam no Outono.
País receia que vaga de refugiados e migrantes ameace a segurança nacional. Menos de metade dos requerentes de asilo viaja com documentação
A partir desta segunda-feira, a Suécia exige um documento de identificação com fotografia a quem cruza a sua fronteira vindo da Dinamarca, a grande rota de chegada de refugiados e migrantes. Quem não o fizer será impedido de entrar no país e a companhia de transportes onde viajou será multada.
Estocolmo espera com isto reduzir o número de pedidos de asilo, apesar de ter sido um dos países europeus que mais defendeu uma política comum de portas abertas em 2015. Esta não é a primeira vez que Estocolmo aplica controlos de fronteira para travar chegadas irregulares. Fê-lo também em Novembro, quando introduziu postos de identificação, que restringiam pouco as novas chegadas.
Os novos controlos suecos são drásticos e podem ter um efeito dominó. De acordo com o diário britânico "The Guardian", que cita dados do Governo sueco, só cerca de 40% dos refugiados que pedem asilo viajam com documentação válida. No pico do Outono, o país, que pertence ao espaço Schengen, chegou a receber perto de dez mil pessoas por dia.
Partem quase todos da Dinamarca, que se diz disposta a aceitar menos refugiados que a Suécia e que ameaça agora impor novos controlos na fronteira com a Alemanha, caso o número de pessoas em circulação pelo país aumente. Estocolmo recebeu 163 mil pedidos de asilo em 2015, o maior valor em qualquer país da Europa, caso se tenha em conta a população de menos de dez milhões de habitantes. Copenhaga, por sua vez, registou apenas 18,5 mil pedidos.
“O Governo considera agora que a situação actual, em que há um grande número de pessoas a entrar no país num período relativamente curto, representa uma ameaça séria à ordem pública e à segurança nacional”, anunciou o Executivo sueco ao apresentar a nova lei, que tem a validade de três anos.
A Suécia é governada por uma coligação dos sociais-democratas com o partido Verde, que em Novembro admitiu que a imposição de controlos de fronteira se tratava de “uma decisão terrível”, capaz de piorar as condições de vida dos refugiados.
A nova lei impõe-se às chegadas de barco, carro e comboio. A companhia de transportes ferroviários do Estado anunciou em Dezembro que deixaria de fazer viagens para e a partir da Dinamarca, pois diz não ter condições para verificar documentos e ficaria sujeita a multas. As ligações ferroviárias directas pela ponte Oresund acabam e existe agora uma paragem obrigatória na estação de entrada na Suécia, onde foi construída uma cerca entre as linhas de comboio e erguidos postos para a verificação obrigatória de documentos.
A Suécia — como a Alemanha e a Áustria — é um dos países de destino mais populares entre refugiados e migrantes que chegam à Europa. No entanto, o grande número de entradas ao longo de 2015 provocou alertas da polícia sobre o risco de perturbação da ordem pública — já se registaram vários ataques a centros de acolhimento de refugiados e as tensões sociais são palpáveis. O Governo sueco admite querer aceitar cerca de mil novas entradas por semana ao longo de 2016 — um décimo das que se contavam no Outono.
28.10.15
Suécia encara tabu e abre primeira clínica para homens violados
Texto de Ana Maria Henriques, in Público on-line (P3)
Hospital de Estocolmo tem um novo centro especializado em acolher e tratar homens violados. Fará sentido em Portugal, onde 1% das participações de crimes sexuais são feitas por homens? Especialista em saúde pública olha para instalações do género como “geradoras de grandes iniquidades”
Em Estocolmo, na Suécia, os homens vítimas de violência sexual têm, desde meados de Outubro, um centro médico de apoio dedicado. Naquela que é considerada a primeira clínica do mundo com este tipo de especialização, rapazes e homens serão acolhidos e tratados por uma equipa preparada para os aconselhar, desde questões médicas a legais.
A clínica gratuita de Södersjukhuset faz parte da estratégia de garantia de igualdade de género nos serviços de emergência médica suecos, nomeadamente em casos de violação ou assédio sexual. É “inteiramente financiada pelos contribuintes”, assegura o jornal norte-americano “The Washington Post”, e o investimento inicial terá rondado os 182 mil euros. O projecto foi anunciado em Junho último e abriu as portas a 15 de Outubro. As vítimas do sexo masculino podem dar entrada na clínica a qualquer hora do dia (e a qualquer dia da semana).
A campanha para a criação do centro médico foi liderada pelo Partido Popular Liberal sueco. O porta-voz do partido, Rasmus Jonlund, acredita tratar-se “da primeira clínica [do género] no mundo”, uma vez que as pesquisas que realizaram não provaram a existência de instalações semelhantes, avançou ao site “The Local”. “Não sabemos quantas pessoas a vão usar (…), mas sabemos que há muitas que sofrem este tipo de ataques e não procuram cuidados”, explicou Jonlund. “A nossa esperança é que muitas mais destas vítimas escondidas possam, agora, ter ajuda.”
No mesmo hospital — um dos maiores da capital sueca — funciona, também, o maior centro de ajuda daquele país para apoiar mulheres vítimas de agressões sexuais. Entre 600 e 700 utentes são, em média, atendidas por ano na clínica. Segundo uma mega-sondagem divulgada no ano passado pela Agência Europeia para os Direitos Fundamentais, 46% das suecas inquiridas disseram já ter sido vítimas de violência, naquela que é uma das mais altas percentagens da União Europeia. No "ranking" do Fórum Económico Mundial que mede a igualdade de género, a Suécia ocupa o 4.º lugar (em 142).
Em 2014 foram reportados 370 casos de violência sexual contra homens ou rapazes na Suécia, de acordo com dados apresentados pela versão em inglês do “The Local”. Em Portugal, os números existentes são da Associação de Apoio à Vítima (APAV) e, tal como naquele país nórdico, escondem uma “cifra negra”. Daniel Cotrim, da APAV, revela que 1% das participações de crimes de violência sexual são de homens, com mais de 18 anos. Muitos outros ficarão por participar e o silêncio é motivado não só pelo medo mas também pela vergonha: falar em violação contra os homens “ainda é um tabu”, acredita. Mas as “questões de identidade sexual e de género colocam-se exactamente da mesma maneira e precisam da apoio”.
A percentagem relativa a Portugal é, para Cotrim, “positiva”: “Significa que 1% de pessoas já perceberam que podem e devem denunciar este tipo de situações.” “Temos que nos lembrar que existem violações dentro da relação conjugal, tanto em casais heterossexuais como homossexuais, e que esta violação não é referida ou denunciada pelas vítimas”, faz questão de salientar, dado que se trata de uma “relação de dependência com o próprio agressor”. “Muitas vezes não têm, sequer, a consciência de que aquilo que lhes aconteceu é uma violação.”
Apesar dos estudos recentes continuarem a apontar as mulheres como principais vítimas de violência — psicológica, física, financeira ou sexual —, “o facto é que cada vez há mais homens a queixarem-se de serem vítimas”. Quem o diz é o presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), Henrique Barros, que sugere “questões de natureza anatómica e de brutalidade da força” como a justificação mais vezes invocada para explicar o “menor impacto da violência sexual das mulheres contra os homens”. Estes argumentos, contudo, perdem relevância quando se trata de relações entre pessoas do mesmo sexo, em que “a violência sexual é parecida com a das heterossexuais de homem para mulher”.
Serviços de saúde “amigos das vítimas”
Pode um centro especializado como o de Estocolmo ser adaptado à realidade portuguesa? Henrique Barros considera necessário, primeiro, “ver como se organizam os serviços sociais e de saúde em cada país”. Ao contrário do que acontece, por exemplo, em Inglaterra e na Holanda (onde as vítimas são encaminhadas para clínicas especializadas em doenças de transmissão sexual), diz, Portugal apostou em não perpetuar instalações potencialmente estigmatizantes. “Houve uma intenção de normalizar estas situações e a forma de o fazer, de um ponto de vista médico, foi colocá-las nos médicos de família”, explica. O que também pode, admite, criar desconforto na hora de o utente falar com o profissional de saúde, “uma vez que o médico de família pode ser, por exemplo, o médico da mãe”.
“Tornar os serviços de saúde e sociais amigos das vítimas” é aquilo que o docente universitário vê como fundamental. Independentemente da área de residência, as vítimas “deveriam sentir que podem ir ao primeiro sítio que encontram e ser bem recebidas”. No “mundo ideal” de Henrique Barros, as condições seriam idênticas em qualquer zona do país, existindo ou não centros dedicados. “No fundo, são geradores de grandes iniquidades e podem ser um bocadinho mais teatrais do que funcionais” — ainda que sirvam como “unidades exemplificativas”, ressalva. Um modelo de “proximidade e de abertura”, defende, seria mais condizente com a cultura portuguesa.
Em Portugal não existe nenhum centro de apoio médico especializado a mulheres ou homens que foram vítimas de violação ou assédio sexual. Quando uma pessoa é vítima de violação, descreve Daniel Cotrim, é feita “uma consulta de perícia médico-legal”, numa delegação do Instituto de Medicina Médico-Legal, na qual é efectuado um “protocolo de verificação do que aconteceu”, para se recolherem os dados necessários ao avanço do processo de um ponto de vista legal. As vítimas são, depois, encaminhadas para uma consulta com o médico de família. O apoio psicológico ou social é, muitas vezes, conseguido através de organizações como a APAV.
Desconstruir mitos e estereótipos e trabalhar mentalidades é aquilo que Cotrim vê como prioritário, antes mesmo de se partir para a construção de unidades de apoio. “A mentalidade generalizada é a seguinte: quando uma violação acontece a um homem é porque ou não gosta de mulheres — e é associado a determinada orientação sexual — ou não foi realmente violado”, exemplifica.
É aqui que entram as escolas, o lugar por excelência para se incutir uma cultura mais tolerante. “A violência de género e nas relações íntimas é, por um lado, uma questão de educação sexual e, por outro, uma questão de educação para a civilidade”, reflecte Barros. Não pode é limitar-se à escolaridade obrigatória: “Há tópicos de sociedade e convivência que devem ser reforçados ao longo da vida.”
Hospital de Estocolmo tem um novo centro especializado em acolher e tratar homens violados. Fará sentido em Portugal, onde 1% das participações de crimes sexuais são feitas por homens? Especialista em saúde pública olha para instalações do género como “geradoras de grandes iniquidades”
Em Estocolmo, na Suécia, os homens vítimas de violência sexual têm, desde meados de Outubro, um centro médico de apoio dedicado. Naquela que é considerada a primeira clínica do mundo com este tipo de especialização, rapazes e homens serão acolhidos e tratados por uma equipa preparada para os aconselhar, desde questões médicas a legais.
A clínica gratuita de Södersjukhuset faz parte da estratégia de garantia de igualdade de género nos serviços de emergência médica suecos, nomeadamente em casos de violação ou assédio sexual. É “inteiramente financiada pelos contribuintes”, assegura o jornal norte-americano “The Washington Post”, e o investimento inicial terá rondado os 182 mil euros. O projecto foi anunciado em Junho último e abriu as portas a 15 de Outubro. As vítimas do sexo masculino podem dar entrada na clínica a qualquer hora do dia (e a qualquer dia da semana).
A campanha para a criação do centro médico foi liderada pelo Partido Popular Liberal sueco. O porta-voz do partido, Rasmus Jonlund, acredita tratar-se “da primeira clínica [do género] no mundo”, uma vez que as pesquisas que realizaram não provaram a existência de instalações semelhantes, avançou ao site “The Local”. “Não sabemos quantas pessoas a vão usar (…), mas sabemos que há muitas que sofrem este tipo de ataques e não procuram cuidados”, explicou Jonlund. “A nossa esperança é que muitas mais destas vítimas escondidas possam, agora, ter ajuda.”
No mesmo hospital — um dos maiores da capital sueca — funciona, também, o maior centro de ajuda daquele país para apoiar mulheres vítimas de agressões sexuais. Entre 600 e 700 utentes são, em média, atendidas por ano na clínica. Segundo uma mega-sondagem divulgada no ano passado pela Agência Europeia para os Direitos Fundamentais, 46% das suecas inquiridas disseram já ter sido vítimas de violência, naquela que é uma das mais altas percentagens da União Europeia. No "ranking" do Fórum Económico Mundial que mede a igualdade de género, a Suécia ocupa o 4.º lugar (em 142).
Em 2014 foram reportados 370 casos de violência sexual contra homens ou rapazes na Suécia, de acordo com dados apresentados pela versão em inglês do “The Local”. Em Portugal, os números existentes são da Associação de Apoio à Vítima (APAV) e, tal como naquele país nórdico, escondem uma “cifra negra”. Daniel Cotrim, da APAV, revela que 1% das participações de crimes de violência sexual são de homens, com mais de 18 anos. Muitos outros ficarão por participar e o silêncio é motivado não só pelo medo mas também pela vergonha: falar em violação contra os homens “ainda é um tabu”, acredita. Mas as “questões de identidade sexual e de género colocam-se exactamente da mesma maneira e precisam da apoio”.
A percentagem relativa a Portugal é, para Cotrim, “positiva”: “Significa que 1% de pessoas já perceberam que podem e devem denunciar este tipo de situações.” “Temos que nos lembrar que existem violações dentro da relação conjugal, tanto em casais heterossexuais como homossexuais, e que esta violação não é referida ou denunciada pelas vítimas”, faz questão de salientar, dado que se trata de uma “relação de dependência com o próprio agressor”. “Muitas vezes não têm, sequer, a consciência de que aquilo que lhes aconteceu é uma violação.”
Apesar dos estudos recentes continuarem a apontar as mulheres como principais vítimas de violência — psicológica, física, financeira ou sexual —, “o facto é que cada vez há mais homens a queixarem-se de serem vítimas”. Quem o diz é o presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), Henrique Barros, que sugere “questões de natureza anatómica e de brutalidade da força” como a justificação mais vezes invocada para explicar o “menor impacto da violência sexual das mulheres contra os homens”. Estes argumentos, contudo, perdem relevância quando se trata de relações entre pessoas do mesmo sexo, em que “a violência sexual é parecida com a das heterossexuais de homem para mulher”.
Serviços de saúde “amigos das vítimas”
Pode um centro especializado como o de Estocolmo ser adaptado à realidade portuguesa? Henrique Barros considera necessário, primeiro, “ver como se organizam os serviços sociais e de saúde em cada país”. Ao contrário do que acontece, por exemplo, em Inglaterra e na Holanda (onde as vítimas são encaminhadas para clínicas especializadas em doenças de transmissão sexual), diz, Portugal apostou em não perpetuar instalações potencialmente estigmatizantes. “Houve uma intenção de normalizar estas situações e a forma de o fazer, de um ponto de vista médico, foi colocá-las nos médicos de família”, explica. O que também pode, admite, criar desconforto na hora de o utente falar com o profissional de saúde, “uma vez que o médico de família pode ser, por exemplo, o médico da mãe”.
“Tornar os serviços de saúde e sociais amigos das vítimas” é aquilo que o docente universitário vê como fundamental. Independentemente da área de residência, as vítimas “deveriam sentir que podem ir ao primeiro sítio que encontram e ser bem recebidas”. No “mundo ideal” de Henrique Barros, as condições seriam idênticas em qualquer zona do país, existindo ou não centros dedicados. “No fundo, são geradores de grandes iniquidades e podem ser um bocadinho mais teatrais do que funcionais” — ainda que sirvam como “unidades exemplificativas”, ressalva. Um modelo de “proximidade e de abertura”, defende, seria mais condizente com a cultura portuguesa.
Em Portugal não existe nenhum centro de apoio médico especializado a mulheres ou homens que foram vítimas de violação ou assédio sexual. Quando uma pessoa é vítima de violação, descreve Daniel Cotrim, é feita “uma consulta de perícia médico-legal”, numa delegação do Instituto de Medicina Médico-Legal, na qual é efectuado um “protocolo de verificação do que aconteceu”, para se recolherem os dados necessários ao avanço do processo de um ponto de vista legal. As vítimas são, depois, encaminhadas para uma consulta com o médico de família. O apoio psicológico ou social é, muitas vezes, conseguido através de organizações como a APAV.
Desconstruir mitos e estereótipos e trabalhar mentalidades é aquilo que Cotrim vê como prioritário, antes mesmo de se partir para a construção de unidades de apoio. “A mentalidade generalizada é a seguinte: quando uma violação acontece a um homem é porque ou não gosta de mulheres — e é associado a determinada orientação sexual — ou não foi realmente violado”, exemplifica.
É aqui que entram as escolas, o lugar por excelência para se incutir uma cultura mais tolerante. “A violência de género e nas relações íntimas é, por um lado, uma questão de educação sexual e, por outro, uma questão de educação para a civilidade”, reflecte Barros. Não pode é limitar-se à escolaridade obrigatória: “Há tópicos de sociedade e convivência que devem ser reforçados ao longo da vida.”
29.5.14
Feministas suecas entram no Parlamento Europeu com deputada de etnia cigana
in JN mobile
As feministas suecas conseguiram um lugar no Parlamento Europeu, que será ocupado por uma deputada de etnia cigana.
O partido Iniciativa Feminista obteve 5% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu, onde se fará representar por Soraya Post, 57 anos, que considera "inaceitável" e "vergonhosa" a situação que os ciganos vivem hoje na Europa.
"Os 15 milhões de ciganos vivem em estado de guerra na pacífica Europa de 2014", disse a ativista de direitos humanos, de etnia cigana e mãe de quatro filhos.
Fundado há nove anos pela empresária Gudrun Schyman, famosa por ter queimado 100 mil coroas suecas (11 mil euros) em protesto contra a desigualdade salarial entre mulheres e homens, o partido Iniciativa Feminista conseguiu reunir o número de votos suficiente para dar entrada no Parlamento Europeu.
Para além do carisma da líder, o partido conta também com apoios externos relevantes, por exemplo da atriz nova-iorquina Jane Fonda e de Benny Anderson, elemento do grupo musical sueco Abba, que doou mais de um milhão de coroas (110 mil euros) para financiar as campanhas das feministas.
"Muitas pessoas veem a Suécia como uma espécie de paraíso para as mulheres na Europa. Mas isso é um mito. Temos desigualdades de género e violência contra as mulheres", destaca Gudrun Schyman, que, no passado, chegou a comparar a situação das mulheres suecas com a das afegãs e defendeu a criação de um "imposto masculino", para compensar os anos de violência machista contra as mulheres.
O Governo sueco de centro-direita, chefiado por Fredrik Reinfeldt, tem o mesmo número de mulheres e de homens, mas as estatísticas revelam que as mulheres suecas continuam a ganhar 14 por cento menos do que os homens para desempenhar a mesma função.
Num contexto de ascensão da extrema-direita por toda a Europa, Soraya Post e as suas camaradas de partido chamaram a atenção com a palavra de ordem "Fora os racistas, para a frente com as feministas!".
Os partidos ultranacionalistas registaram subidas acentuadas em todos os países escandinavos, incluindo, ainda que com menor expressão, a Suécia.
O Partido Social-Democrata (centro-esquerda), que lidera a oposição, venceu as eleições para o Parlamento Europeu na Suécia, onde 51 por cento dos eleitores votaram. Porém, foram os Democratas (extrema-direita) que registaram a maior subida, chegando à fasquia de dez por cento dos votos e conseguindo dois assentos em Bruxelas.
A Suécia regista níveis de bem-estar invejáveis no contexto europeu, com significativos apoios sociais, nomeadamente à parentalidade, sendo considerado um dos países mais generosos no acolhimento de imigrantes e requerentes de asilo. Porém, o país onde 15 por cento da população nasceu no estrangeiro tem uma face dupla, sendo agora mais frequentes as manifestações violentas contra os imigrantes.
As feministas suecas conseguiram um lugar no Parlamento Europeu, que será ocupado por uma deputada de etnia cigana.
O partido Iniciativa Feminista obteve 5% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu, onde se fará representar por Soraya Post, 57 anos, que considera "inaceitável" e "vergonhosa" a situação que os ciganos vivem hoje na Europa.
"Os 15 milhões de ciganos vivem em estado de guerra na pacífica Europa de 2014", disse a ativista de direitos humanos, de etnia cigana e mãe de quatro filhos.
Fundado há nove anos pela empresária Gudrun Schyman, famosa por ter queimado 100 mil coroas suecas (11 mil euros) em protesto contra a desigualdade salarial entre mulheres e homens, o partido Iniciativa Feminista conseguiu reunir o número de votos suficiente para dar entrada no Parlamento Europeu.
Para além do carisma da líder, o partido conta também com apoios externos relevantes, por exemplo da atriz nova-iorquina Jane Fonda e de Benny Anderson, elemento do grupo musical sueco Abba, que doou mais de um milhão de coroas (110 mil euros) para financiar as campanhas das feministas.
"Muitas pessoas veem a Suécia como uma espécie de paraíso para as mulheres na Europa. Mas isso é um mito. Temos desigualdades de género e violência contra as mulheres", destaca Gudrun Schyman, que, no passado, chegou a comparar a situação das mulheres suecas com a das afegãs e defendeu a criação de um "imposto masculino", para compensar os anos de violência machista contra as mulheres.
O Governo sueco de centro-direita, chefiado por Fredrik Reinfeldt, tem o mesmo número de mulheres e de homens, mas as estatísticas revelam que as mulheres suecas continuam a ganhar 14 por cento menos do que os homens para desempenhar a mesma função.
Num contexto de ascensão da extrema-direita por toda a Europa, Soraya Post e as suas camaradas de partido chamaram a atenção com a palavra de ordem "Fora os racistas, para a frente com as feministas!".
Os partidos ultranacionalistas registaram subidas acentuadas em todos os países escandinavos, incluindo, ainda que com menor expressão, a Suécia.
O Partido Social-Democrata (centro-esquerda), que lidera a oposição, venceu as eleições para o Parlamento Europeu na Suécia, onde 51 por cento dos eleitores votaram. Porém, foram os Democratas (extrema-direita) que registaram a maior subida, chegando à fasquia de dez por cento dos votos e conseguindo dois assentos em Bruxelas.
A Suécia regista níveis de bem-estar invejáveis no contexto europeu, com significativos apoios sociais, nomeadamente à parentalidade, sendo considerado um dos países mais generosos no acolhimento de imigrantes e requerentes de asilo. Porém, o país onde 15 por cento da população nasceu no estrangeiro tem uma face dupla, sendo agora mais frequentes as manifestações violentas contra os imigrantes.
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