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19.5.23

Ameaças? Prevenir, para não “correr atrás do prejuízo”

Tiago Oliveira, in Expresso


Ciberataques: das maiores entidades ao mais comum dos cidadãos, todos estão sujeitos a intrusões tecnológicas que continuam a aumentar em dimensão e impacto. O caminho passa por reforçar a segurança tecnológica e mudar a legislação


Já recebeu um SMS de algum familiar próximo a pedir dinheiro ou um pedido de cobrança financeiro no telemóvel por parte de uma “entidade oficial” que se veio a revelar falso? Se sim, faz parte de um grupo cada vez maior de pessoas e organizações vítimas de tentativas de fraudes e ataques digitais, com tudo a indicar que estamos apenas no início.

Dados da PSP indicam que os casos de burlas digitais cresceram 20% em 2022, com a polícia a receber mais de 36.000 queixas nos últimos quatro anos. As perdas estimadas para os consumidores já ultrapassam os €2 milhões e o valor médio das burlas chegou a €515 em 2023, revela o Portal da Queixa. Não é de estranhar que segundo um estudo desenvolvido pela Marsh Portugal, os ataques cibernéticos são o risco que mais preocupa as empresas em 2023, como indicam 46% de líderes empresariais. De acordo com um inquérito recente da União Europeia, 28% das PME europeias foram alvo de cibercriminalidade em 2021, mas, por outro lado, um trabalho global da Accenture revela que mais de metade das grandes empresas (55%) não combate estes ciberataques de forma efetiva.

Na opinião do sócio da Morais Leitão, Rui Patrício, “a realidade em que as organizações se movimentam hoje é, do ponto de vista dos muitos e diferentes riscos, cada vez mais desafiante, e exige previsão, adaptação e gestão constantes” e, segundo um aforismo popular, “olho vivo e pé ligeiro”.

Impera muitas vezes a reatividade quando devia prevalecer a proatividade, com Nuno Serdoura dos Santos a indicar que não é possível estar “sempre a correr atrás do prejuízo”. O procurador na Procuradoria-Geral da República — DIAP Regional do Porto revela que em 2022 “a tipologia criminosa mais reportada ao Gabinete Cibercrime foi a do phishing [fraude que implica levar o lesado a partilhar informações confidenciais, como palavras-passe e números de cartões de crédito]. A generalidade dos bancos portugueses (ou melhor, os seus clientes) foram alvo deste tipo de iniciativas criminosas”. Verificou-se também “um grande número de denúncias de páginas falsas na internet para ludibriar”. “São precisos instrumentos”, reforça, sem deixar de criticar o impasse legislativo e judicial relativamente aos metadados (dados de tráfego e localização nas comunicações) — e do impacto que provocou: “[O chumbo da lei dos metadados por parte do Tribunal Constitucional] foi uma hecatombe que destruiu toda a investigação criminal em ambiente digital. Era um desastre à espera de acontecer.”

“Com a declaração de inconstitucio­nalidade da norma que determinava a obrigatoriedade de as operadoras de comunicações guardarem esses dados pelo período de um ano para investigação de crimes graves, a investigação criminal deixou, pelo menos em grande medida, de ter à sua disposição informação previamente armazenada que poderia ser útil para a identificação dos autores dos crimes e para a sua responsabilização”, explica o associado coordenador da Morais Leitão, David Silva Ramalho, para quem é essencial que “o legislador português se debruce sobre este tema com a maior brevidade possível”.

Cumprir as normas

Uma das formas mais eficazes de empresas e organizações se protegerem das ameaças digitais e de problemas legais é através do compliance, que significa garantir o cumprimento de todas as leis, regras e regulamentos aplicáveis. Apesar de muitas vezes “seguirmos o caminho mais fácil, que é adotar [as normas comunitárias] sem ter em conta as particularidades do nosso tecido empresarial”, importa perceber que o compliance é também uma oportunidade para “atrair investimento num formato em que os investidores se sentem confortáveis com o modelo de negócio”, explica a sócia da Morais Leitão, Magda Viçoso, enquanto a responsável pela área de Compliance na The Navigator Company, Ana Ribeiro Marques, define o objetivo: “Minimizar riscos em várias frentes e assegurar que a empresa vai continuar no mercado a operar e em integridade.” Para Duarte Santana Lopes, sócio da Morais Leitão, o grande desafio é as empresas “adaptarem-se a esta nova realidade legislativa e regulatória muito exigente” sem prejudicar o seu negócio. Um “equilíbrio difícil”.
AS RESPOSTAS JURÍDICAS À INSEGURANÇA

Entre ciberataques cada vez mais frequentes e sofisticados e a necessidade de dotar as empresas, dos mais variados tamanhos e sectores, de programas de cumprimento das normas para minimizar o risco (compliance), a quinta reunião do Conselho de Segurança focou-se nas principais ameaças a que a esfera jurídica procura dar resposta. À medida que a legislação nacional e comunitária se adapta, surgem regras para reforçar a cibersegurança e penalizar quem não cumpre os trâmites legais, como é o caso do Regime Jurídico da Segurança do Ciberespaço ou do Regime Geral de Prevenção da Corrupção. “As empresas estão mais cientes”, garante Duarte Santana Lopes, sócio da Morais Leitão. Perante ficar exposto ou investir em práticas que garantem estabilidade, a resposta parece clara.
CITAÇÕES

“Precisamos de equipamentos e programas que nos tornem mais eficazes a combater as novas ameaças”

Nuno Serdoura dos Santos
Procurador na Procuradoria-Geral da República — DIAP Regional do Porto

“Se envolvermos sempre as pessoas e o negócio na definição de políticas de compliance, temos a vida facilitada”

Ana Ribeiro Marques
Responsável pela área de Compliance na The Navigator Company

“A palavra-chave é risco: na nossa sociedade enfrentamos múltiplos riscos e ameaças”

Rui Patrício
Sócio da Morais Leitão

Conselho de Segurança

O mundo vive envolto num conjunto de ameaças que exigem uma resposta pronta. O Expresso, em conjunto com a Sonae, Galp, Altice, Allianz, Morais Leitão e ACIN, lança um projeto para avaliar a nossa segurança tecnológica, militar, jurídica, na saúde, no Estado e nas empresas. Ao longo de seis meses, queremos construir um Conselho de Segurança, lançando debates, promovendo temas, reunindo especialistas.

Textos originalmente publicados no Expresso de 12 de maio de 2023

19.10.20

10 carreiras tecnológicas que ganharam com a pandemia

 Cátia Mateus, in Expresso

Ao contrário do que aconteceu em grande parte dos sectores, a pandemia não travou o negócio das empresas tecnológicas. Pelo contrário, impulsio­nou-o. A imposição de confinamento, em março, e a transferência de uma parcela significativa da população ativa para o regime de teletrabalho obrigou as empresas a adotar soluções diferencia­das e a reforçar as suas equipas para acomodar uma nova realidade. Como resultado, a crise pandémica, que já foi fatal para milhares de empresas e profissionais, está a traduzir-se numa oportunidade para os profissionais das tecnologias. Numa área que já enfrentava dificuldades de contratação, por escassez de pessoas qualificadas disponíveis no mercado, identificar e reter talento tornou-se ainda mais crítico. Alguns profissionais registaram desde o início da pandemia um reforço da procura, como programadores de software ou até diretores tecnológicos. A concorrência entre as empresas para contratar estes profissionais está ao rubro, e os salários não tardarão, segundo as consultoras de recrutamento ouvidas pelo Expresso, a refletir este aumento da procura.

Vasco Teixeira, diretor da unidade de negócio de Tecnologias de Informação (TI) da Michael Page, não tem dúvidas: “O sector saiu praticamente ileso do cenário da pandemia.” E a justificação é simples: “As organizações necessitaram mais do que nunca das suas equipas de TI para garantir o bom funcionamento dos seus sistemas de informação, tendo ainda de assegurar que os seus sistemas estavam preparados e dimensionados para uma lógica de trabalho de home office [trabalho remoto]”, explica.

A pedido do Expresso, a Michael Page e a consultora de recrutamento Hays identificaram os 10 perfis tecnológicos mais procurados na era covid (ver infografia) e a remuneração praticada para níveis de experiência iniciais (até cinco anos de carreira) e seniores (acima de 10 anos).

Do ranking alcançado ressalta o aumento da procura de profissionais com competências ligadas às áreas de infraestruturas (redes e sistemas) e de segurança e cibersegurança. A acompanhar esta tendência há uma outra: as empresas têm procurado sobretudo perfis já com algum nível de experiência. De resto, José Miguel Leonardo, diretor-geral da Randstad, já o tinha admitido recentemente ao Expresso quando destacou uma subida média das remunerações (ainda que resi­dual) nos últimos meses, que decorreu, maioritariamente, de “um reforço da contratação de perfis tecnológicos por parte das empresas”, sobretudo mais experientes, explicava.

Uma realidade que Victor Pessanha, líder da Hays Experts, também reconhece. O especialista em recrutamento recorda que “o sector das Tecnologias de Informação é claramente liderado pelo candidato, uma vez que a procura por estes perfis é bastante elevada e o talento disponível para mudança de função é reduzido”.

O saldo deste desequilíbrio é um “alto poder de negociação” por parte dos profissionais do sector, admite Victor Pessanha. O especialista da Hays reconhece que o mercado de trabalho tecnológico está a ser caracterizado por uma “pressão salarial significativa, que pode influenciar o mercado também noutros segmentos de negócios”.

“Continuamos a assistir à abertura e crescimento de Centros de Tecnologia e Centros de Serviços Partilhados em Portugal, nomeadamente em Lisboa, Porto e Braga, o que tem vindo a aumentar a procura por profissionais de TI”, realça, acrescentando que, “apesar de toda a pressão salarial no sector, Portugal continua a ser atrativo e a ter salários competitivos para atrair grandes empresas internacionais”. Victor Pessanha recorda ainda que “o departamento de TI e o tema da transformação digital já eram relevantes para as organizações antes da covid e agora estão a tornar-se estratégicos até para sectores mais tradicionais, como entidades governamentais ou empresas familiares”.

O especialista da Hays relembra que, “com a tendência crescente de trabalho remoto, as infraestruturas e os desafios tecnológicos tornam-se cada vez mais complexos”. Uma nova realidade, que faz com que profissionais altamente qualificados nesta área se tornem, progressivamente, mais necessários e procurados no mercado de trabalho. Uma tendência que, acrescenta, deverá continuar a acentuar-se.

2.10.20

Especialistas defendem que tecnologias ajudam a potenciar o envelhecimento ativo

in Região de Leiria

Uso de tecnologias mostra que são benéficas para a população sénior e para ajudar os cuidadores, dizem especialistas.

Num país cada vez mais envelhecido e dominado pela crescente utilização das tecnologias, aliar os dois mundos por uma melhoria da qualidade de vida da população sénior pode ser uma solução eficaz.

Esta foi uma das ideias saídas do Ageing Congress, evento internacional realizado esta semana, em Leiria, e que juntou, em plataformas online, mais de 500 participantes de vários pontos do mundo.

Segundo alguns dos intervenientes no congresso, vários estudos e plataformas online existentes têm apresentado vários benefícios da aplicação dos meios tecnológicos em prol do envelhecimento ativo.

Entre eles, estão a estimulação cognitiva, a estimulação da função física, uma maior inclusão na sociedade e facilidade no acompanhamento à distância por parte dos cuidadores.

Um dos eixos em que as tecnologias podem ser usadas, por exemplo, dizem os especialistas, é na criação de aplicações de exercício físico.

À semelhança das app mais frequentes para jovens e adultos, também já existem, especificamente, algumas destinada para uma população mais idosa.

Ana Fátima Pereira, do Instituto Politécnico de Setúbal e oradora convidada do congresso, defende que “o exercício realizado virtualmente é um dos maiores benefícios, principalmente quando estamos perante o distanciamento social”, remetendo para o contexto de pandemia.

Segundo a docente de desporto, “quem trabalha com a população idosa deve ter em conta as tecnologias” e encontrar o “equilíbrio” entre as necessidades dos seniores e a melhor opção tecnológica.

Além disso, esclarece, é também fundamental a criação de um programa específico, porque torne o exercício “mais objetivo e diferente dos outros”, adaptando-se às necessidades de cada um.

A prática de exercício físico pelos idosos ajuda na “melhoria da memória, atenção, velocidade, no processamento de informação e na execução de movimentos”, concluiu na sua intervenção.
Tecnologia como auxílio dos cuidadores e técnicos

A 3ª edição do congresso teve como tema “Envelhecimento como um todo” e decorreu ao longo dos dias 21 e 22 de setembro, na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais, do Politécnico de Leiria, abordando várias áreas tendo o envelhecimento sempre como ponto central.

Educação, tecnologia, sociedade, saúde, artes, criatividade, lazer e turismo foram alguns dos temas abordados pelos mais de 20 especialistas, provenientes de universidades e instituições do país, bem como de Espanha, Cabo Verde, Brasil, Irlanda e Reino Unido.

Ainda no que respeita ao uso de meios tecnológicos, os oradores entendem que estes podem ser benéficos no acompanhamento à distância da população sénior.

Através de plataformas e serviços online, os cuidadores/técnicos podem monitorizar as atividades diárias dos cidadãos, configurar planos de treinos, avaliar indicadores de saúde, conhecer a localização dos utilizadores, registar cuidados e ocorrências, entre outros.

Na opinião de Vanessa Baeta, da Intellicare Portugal, as tecnologias são uma mais-valia e “o futuro da saúde passa pelo acompanhamento à distância”. “Mas é preciso apoiar os cuidadores para que eles consigam apoiar melhor os nossos seniores”, acrescentou.

Entre os exemplos de plataformas portuguesas criadas com este intuito, Vera Baeta destaca a Ankira e a OneCare. No caso da OneCare, desenvolvida pela Intellicare Portugal, os utilizadores podem fazer videochamadas, conversar por chat, jogar, ler as notícias e ficar a par de eventos.

Todos estes serviços contribuem, defende, além das vantagens mencionadas, para aumentar a literacia dos idosos, no que diz respeito ao meio digital e à saúde.
Envelhecimento ativo: uma preocupação além-fronteiras

Ainda dentro da temática das tecnologias, foi apresentada, no congresso, a EuroAGE, uma iniciativa criada no âmbito do Programa INTERREG VA Espanha-Portugal (2014-2020), que junta vários investigadores, dos dois países, no desenvolvimento de estudos científicos sobre o impacto das tecnologias no “envelhecimento”.

A partir destes contributos, são criadas ações inovadoras, baseadas nas tecnologias e no conhecimento, para melhorar a qualidade de vida da população sénior.

É nesse sentido que o projeto EuroAGE tem atuado, levando as tecnologias aos idosos e colocando-os em contacto com as mesmas. Um exemplo são os “jogos sérios”, que consistem em pequenos exercícios, como ordenar imagens e ler legendas, combinando “estimulação física, cognitiva e socioemocional”, explicou Pedro Núñez, investigador da EuroAGE, que o está a implementar em Castelo Branco.

27.7.20

É preciso voltar a pôr as crianças off do mundo virtual

Natália Faria, in Público on-line

Durante o confinamento, as crianças dependeram dos ecrãs para estudar, para jogar, para estar com os amigos e até para fazer actividades físicas. Mas, embora não se possa dizer que esteja criado um exército de pequenos adictos dos ecrãs, chegou a hora de os desconectar.

Durante os longos dias do confinamento, o quotidiano de toda a gente galgou para o mundo virtual. E os ecrãs, porque a escola começou a entrar em casa por essa via e porque foram instrumento incontornável de interacção com os amigos, além de se transmutarem em baby-sitter sempre que foi preciso responder a um telefonema de trabalho ou preparar uma refeição, tornaram-se omnipresentes, deitando por terra o esforço de anos que muitos pais vinham fazendo para manter os filhos ligados apenas em doses qb. E agora? “É fundamental que se aproveitem as férias para que as crianças voltem a ter vida fora dos ecrãs”, aponta Sara Pereira, professora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho (UM).

Naqueles meses, como precisa Beatriz Pereira, do Centro de Investigação em Estudos da Criança da UM, “o confinamento fez com que crianças sofressem perdas a todos os níveis: dos amigos, da escola, dos professores, dos avós e dos espaços ao ar livre que são essenciais para o seu desenvolvimento motor mas também cognitivo”. E, numa altura em que, apesar de mais presentes fisicamente, os pais estavam menos disponíveis para lhes dar atenção, o tríptico telemóveis-tablets-televisão tornou-se na companhia mais constante dos mais pequenos. Mais ainda se, como acrescenta Sara Pereira, “as próprias actividades ligadas à dança, ao desporto ou à música, saltaram elas próprias para os ecrãs, quando não foram canceladas”.

E, embora ainda sem números que o atestem, a convicção dos especialistas é que a transposição da vida das crianças para os ecrãs se há-de traduzir em problemas acrescidos de obesidade, de visão, irritabilidade e ansiedade. “Já há estudos que mostram que a população portuguesa em geral está mais obesa e as crianças acompanharam essa obesidade, que já era um problema sério em Portugal e que se agravou até porque o acesso a bolachas e a doces estava facilitado e a tendência é para as pessoas, adultos e crianças, comerem mais quando estão em frente a um ecrã”, reforça Beatriz Pereira. E há os casos em que a dependência dos ecrãs serviu de veículo a outras dependências, como sublinha Sara Pereira, que diz ter ouvido “testemunhos de crianças que não quiseram saber da escola porque ficaram vidradas nos videojogos e começaram a entrar em competições internacionais”.

“A escola, enquanto gigantesco contexto de socialização, foi a maior perda neste período. E isso traduziu-se numa carga muito pesada para os pais, nomeadamente para os que tiveram de ficar a trabalhar com as crianças num espaço fechado, em que o ambiente depressa começou a ficar insuportável e a tolerância diminuiu”, contemporiza, por seu turno, o psicólogo João Lopes, também da UM, para quem não deve haver tempo a perder com culpabilizações parentais inglórias. “Os pais culpabilizam-se por tudo, nomeadamente por os miúdos terem passado este tempo agarrados a esses instrumentos, mas não vale a pena: foi o que tinha que ser e os miúdos tinham que estar ocupados com qualquer coisa”, desdramatiza, para reforçar: “Não vejo que tenhamos criado um exército de pequenos adictos dos ecrãs para o resto da vida.”

Assente este ponto, não quer isto dizer que, nesta altura de desconfinamento controlado, não haja marchas-atrás a fazer. “É importantíssimo que os pais procurem agora fazer muitos programas no exterior: passear, ir à praia ou à montanha. Três meses para uma criança pequena são muito importantes, e elas estão efectivamente mais sedentárias e mais ligadas aos ecrãs, mas é possível recuperar o desenvolvimento social, cognitivo e motor perdido, desde que as crianças sejam puxadas agora para a brincadeira com outras crianças, em grupos pequenos e em espaços adequados”, aconselha Beatriz Pereira, dizendo-se convencida que “quando é colocada numa situação de ar livre, a criança preferirá sempre brincar com os amigos a ver um programa de televisão”.
Olhar sem a mediação de um ecrã

Apesar de a dependência dos ecrãs poder assumir contornos mais preocupantes entre os jovens, o psicólogo João Lopes assevera que nestes a lógica é muito similar à das crianças mais pequenas. “Se reparar, as dificuldades que as autoridades estão a ter relativamente aos adolescentes [e às festas em que aumenta o risco de contágio pelo coronavírus], elas resultam precisamente da necessidade que os miúdos têm de estar uns com os outros. E isso é incomensuravelmente mais atraente do que estar todo o dia agarrado a um computador, mesmo que no computador se tenham contactos sociais. A questão é que o contacto via Zoom ou Facebook é muito pouco para a espécie humana, que precisa de estar perto, de se olhar sem a mediação de um ecrã”.
“Os pais é que saberão a quantidade de telemóvel que estão dispostos a dar aos filhos, mas se acharam que, por hipótese, o limite é zero, têm simplesmente de lhes dizer ‘Não vais ter o telemóvel'”.João Lopes

Quanto aos mais pequenos, para este psicólogo, a estratégia a seguir para limitar a exposição aos ecrãs escreve-se com recurso a uma única palavra: não. “Os pais é que saberão a quantidade de telemóvel que estão dispostos a dar aos filhos, mas se acharam que, por hipótese, o limite é zero, têm simplesmente de lhes dizer ‘Não vais ter o telemóvel'”.

Não há que ter medo de birras, portanto. “Se os pais forem seguros, e não tem mal nenhum que a resposta ao porquê seja ‘porque não’, as crianças fazem birra e passam adiante”, assegura para concluir que “as crianças precisam de regras muito claras e apreciam-nas”. Logo, “há que as aplicar sem culpabilidade nem agitações desnecessárias”. De resto, o investigador mostra-se convencido de que, a confirmar-se o regresso presencial às aulas em Setembro, “os miúdos vão deixar de se importar tanto com os computadores e os telemóveis porque o que eles vão ganhar por estarem uns com os outros é tão melhor, que dispensa qualquer programa de desmame”.

A investigadora Sara Pereira acredita que facilmente as crianças pousarão os gadgets antes mesmo de regressarem à escola, desde que voltem a ser puxados para actividades off, seja fazer ginástica em casa com os pais seja jogar um jogo de tabuleiro.

A investigadora Sara Pereira também diz acreditar que facilmente as crianças pousarão os gadgets antes mesmo de regressarem à escola, desde que voltem a ser puxados para actividades off, seja fazer ginástica em casa com os pais seja jogar um jogo de tabuleiro. “Tem é que haver uma certa intencionalidade educativa da parte dos pais para que isso aconteça”, ressalva a docente. No caso dos mais velhos, e porque “retirar-lhes o telemóvel seria como tentar conter o rio com as mãos”, conforme ilustra João Lopes, a estratégia terá de passar, segundo Sara Pereira, por os pais se inteirarem do que andam a fazer nas redes sociais. “Muitas vezes os pais vêem os filhos nos ecrãs e não fazem ideia do que estão a fazer, que jogos jogam nem o que fazem nas redes sociais. Aqui o diálogo será fundamental, não como forma de intromissão, mas porque há alertas e indicações que os pais podem dar relativamente ao tanto que há para descobrir no mundo virtual, à forma como se pode aferir a veracidade da informação que lá se vai buscar…”, sugere.

E, consciente de que nem todos os pais estão igualmente preparados para isto, a investigadora reparte com a escola alguma da responsabilidade nesta mediação com o mundo virtual. “Sem querer estar a querer dar demasiados papéis à escola, penso que é fundamental que esta intervenha no sentido de promover um relacionamento crítico com os ecrãs”. Afinal, conclui, trata-se de garantir que “os ecrãs sejam algo positivo, numa altura em que a vida de todos está mediatizada por eles”.

5.2.18

Dos alertas para surdos às rádios, o projeto que "promove a cidadania"

Pedro Sousa Tavares, in Diário de Notícias

Escolas. Orçamento participativo regressa amanhã. Em 2017, as rádios foram a ideia mais popular e houve ainda projetos inclusivos e ecológicos

Rádios escolares ou alertas para surdos estão entre as ideias já concretizadas pelo Orçamento Participativo das Escolas (OPEscolas), cuja segunda edição será lançada amanhã. Ao DN, o ministro diz que a iniciativa, mais do que uma forma extra de financiamento, é semente de "uma verdadeira cidadania ativa" das novas gerações.

Para Tiago Brandão Rodrigues, esta iniciativa, que atribui a cada projeto vencedor um euro por aluno do 3.º ciclo e secundário, no valor mínimo de 500 euros, contribui para que os estudantes "compreendam como funcionam as instituições democráticas, os métodos de votação, como se elabora um orçamento, que se saibam como se podem envolver nos debates e discussões no espaço público".

No ano passado, o OPEscolas deu origem a inúmeros projetos vencedores, propostos e escolhidos pelos alunos. Entre as propostas mais populares, segundo o Ministério da Educação, destacaram-se as rádios escolares e a criação ou apetrechamento das salas de convívio e dos recreios com equipamentos que vão dos pufes às mesas de matraquilhos. Mas houve várias outras propostas inovadoras, incluindo várias com preocupações ambientais ou inclusivas.

Um "toque" luminoso para surdos
Da lista de propostas apresentadas e aprovadas pelos estudantes no ano passado consta, por exemplo, um sistema de sinais luminosos que complementam os habituais toques de entrada e saída nas aulas. Uma iniciativa de estudantes da Secundária João Araújo Correia, no Peso da Régua, onde o ministro esteve recentemente, concebida a pensar nos 20 alunos surdos que ali estudam. A montagem ficou a cargo das turmas do ensino profissional da escola.

Um sistema de poupança de água, um projeto editorial para publicar trabalhos dos alunos ou um programa para impulsionar o uso de bicicletas por parte da comunidade educativa são outros exemplos de projetos concebidos e aprovados pelos alunos do 3.º ciclo e do secundário das escolas públicas portuguesas.

Nem todos os projetos foram concretizados com as verbas atribuídas no ano passado. Nomeadamente no que respeita às zonas de lazer dos estudantes. Mas os alunos têm a opção de apresentarem novas propostas que os ajudem a complementar os projetos do ano passado.

Tiago Brandão Rodrigues sublinhou o caráter único desta iniciativa e elogiou a adesão, não só dos alunos, como dos restantes membros das comunidades educativas: "Foi a primeira vez que um governo lançou, a nível nacional, uma iniciativa desta natureza, tendo contado com o empenho de muitos diretores e professores, que consideram o OPEscolas um instrumento que enriquece a participação dos estudantes na vida das suas comunidades educativas", contou.

Na edição deste ano, a participação dos alunos começou logo pelos cartazes, logótipo e vídeo alusivos à iniciativa, que ajudaram a desenhar: "Sendo esta uma iniciativa dos alunos e para os alunos, quisemos este ano também envolvê-los na elaboração dos vários materiais da própria campanha de divulgação", explicou o ministro. "São estudantes de cursos profissionais que, com entusiasmo e criatividade, criaram materiais de notória qualidade", acrescentou.

No ano passado, de acordo com o Ministério, o projeto abrangeu mais de meio milhão de alunos, que apresentaram perto de cinco mil propostas, tendo envolvido 95% das escolas.

23.1.13

Portugal quer ser referência mundial em tecnológicas de educação

in RR

Governo assina acordo com um consórcio de empresas do sector, entre elas, a JP Sá Couto, dos computadores Magalhães, a Porto Editora e a Leya.

Vinte e seis empresas, todas da área das tecnologias de educação, decidiram formar a e.xample, um consórcio com vista à internacionalização das empresas. Esta quarta-feira, assinam um contrato com o Governo que, desta forma, dá apoio à iniciativa.

Uma das empresas que integra este consórcio é a JP Sá Couto, a mesma que constrói os computadores Magalhães e cuja parceria com o Governo de José Sócrates foi objecto de duras críticas.

O presidente do consórcio, José Graça Baú, considera que a empresa “tem um papel importante, porque conseguiu lançar-se em mercados internacionais porque tinha capacidade e tinha experiência”.

Além da JP Sá Couto, marcam também presença no consórcio, por exemplo, empresas de conteúdos, como a Leya e a Porto Editora. José Graça Baú considera que “esta união permite que as empresas ofereçam, em vez de produtos individuais, um ecossistema de ensino que é uma vantagem competitiva enorme”.

O acordo com o Governo pretende dar corpo a esta ambição, que Portugal passe a ser uma referência no sector. Na cerimónia, no Pavilhão do Conhecimento, estiveram presentes o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, e dois secretários de Estado, o do Ensino e do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação.

16.3.12

Sem-abrigo como pontos de acesso à Internet: projecto solidário ou experiência degradante?

Por Alexandre Martins, in Público on-line

“Chamo-me Clarence. Sou um ponto de acesso à Internet 4G.” A frase, estampada na t-shirt usada por Clarence e outros 12 sem-abrigo de Austin durante o festival de cinema, música e tecnologia South By Southwest, era um sinal para que todos os utilizadores de telemóveis, tablets e computadores portáteis que passeavam pelas ruas da cidade texana pudessem aceder à Web. A ideia começou por ter um objectivo solidário, mas explodiu na cara dos seus criadores. Afinal, usar pessoas sem-abrigo como pontos de acesso à Internet é um incentivo à integração, ou é pura e simples exploração?

O projecto da empresa de marketing BBH Labs terminou na passada segunda-feira e desde então tem ocupado um espaço considerável nos principais jornais norte-americanos, nas redes sociais, nos blogues e nas caixas de comentários um pouco por toda a Web.

Numa mensagem publicada a 6 de Março no site oficial, a empresa BBH Labs apresentava o projecto e não deixava margem para dúvidas sobre as suas intenções: “O festival SXSW é uma oportunidade de crescimento consistente para a nossa equipa. Mas este ano vamos também lançar uma inovação na área das acções de caridade”.

A descrição do projecto surgia logo abaixo: “Este ano, em Austin, enquanto andam de um lado para o outro a queixarem-se aos seus colegas sobre a fraca qualidade das vossas ligações e do facto de não conseguirem fazer downloads, transmissões em tempo real, usar o Instagram ou fazer ‘check-ins’, vão dar de caras com pessoas posicionadas estrategicamente e vestidas com uma t-shirt com a frase ‘Homeless Hotspots’. São pessoas sem-abrigo, que fazem parte do programa Case Management, da instituição Front Steps. Transportam aparelhos MiFi [routers que permitem acesso à Internet sem fios]. Apresentem-se a eles e liguem-se a uma rede 4G através dos vossos telefones ou tablets para conseguirem usar uma ligação rápida e de alta qualidade”.

As pessoas eram convidadas a pagar o que quisessem, “de preferência através do PayPal, para ser possível acompanhar as transacções”, sendo que todos os donativos iam directamente para os bolsos de Clarence e dos seus outros colegas ligados ao abrigo Front Steps. “Acreditamos que a prestação deste serviço digital vai dar mais dinheiro a ganhar a estas pessoas do que a venda de jornais e revistas em papel”, lê-se na mesma mensagem, numa referência a projectos semelhantes ao da revista CAIS em Portugal.

De ideia solidária a "demonstração grotesca de provocação inconsciente”

Apesar de o projecto ter sido apresentado no dia 6, a polémica só estalou no dia 11, num post no blogue de tecnologia ReadWriteWeb: “O South By Southwest de 2012 pode ser resumido desta forma: uma empresa de marketing com um nome impossível, chamada Bartle Boogle Hegarty, está a levar a cabo uma pequena experiência de ciências humanas denominada 'Homeless Hotspots'. Dão aparelhos de acesso à Internet a pessoas sem-abrigo, juntamente com uma t-shirt. Na t-shirt não está escrito ‘Eu tenho um ponto de acesso 4G’. Está escrito ‘Eu sou um ponto de acesso 4G’”.

A partir daqui, o jornalista Jon Mitchell, do ReadWrite Web, dá início à discussão que já chegou às páginas de jornais como o The New York Times: “Podem adivinhar o que acontece depois. Pagam o que quiserem a estes sem-abrigo, pontos de acesso humanos à Internet, e depois podem sentar-se ao lado deles a ver o email ou outras coisas do género. A exclusão digital nunca nos tinha atingido tão em cheio com uma demonstração tão grotesca de provocação inconsciente”.

Depois das críticas, a empresa de marketing BBH Labs veio lembrar que foi também por sua iniciativa que alguns sem-abrigo de Nova Iorque tiveram acesso a um telemóvel com ligação à Internet, no projecto Underheard in New York que, entre Janeiro de 2009 e Janeiro de 2010, permitiu, entre outras histórias, que um pai reencontrasse a filha que já não via há 11 anos, com a ajuda dos utilizadores do Twitter.

"Não há benefícios comerciais de qualquer espécie”Clarence, um dos sem-abrigo escolhidos para fazerem parte deste “programa solidário” ou “experiência de ciências humanas”, conforme os pontos de vista, congratula-se com a ideia – que considera ser uma ajuda para as pessoas que se encontram nas suas condições – e a empresa BBH Labs defende-se com alguns pontos que considera terem sido mal-interpretados pelos críticos: "Não estamos a vender nada. Não há marcas envolvidas. Não há benefícios comerciais de qualquer espécie” e “Cada gestor de ponto de acesso à Internet fica com todo o dinheiro que conseguir ganhar. Quanto mais acessos vender, mais dinheiro ganha (o dinheiro não vai para um fundo conjunto para ser dividido)”.

Na mais recente mensagem publicada no site da empresa lê-se ainda que os criadores do programa concordam com uma das críticas – a de que, ao contrário, de projectos semelhantes ao da revista CAIS, os sem-abrigo apenas vendem acesso à Internet e não podem criar e disponibilizar os seus próprios conteúdos. Apesar disso, os responsáveis pelo “Homeless Hotspots” dizem que essa era uma das intenções iniciais, mas explicam que isso não foi possível porque os aparelhos de acesso à Internet utilizados pertencem a uma empresa externa, que não participou no projecto. “Contudo, gostaríamos de ver evoluções deste programa em que os pontos de acesso sejam propriedade das organizações de sem-abrigo e possam ser usados como plataformas para que eles criem os seus próprios conteúdos”, frisa a BBH Labs.

Ficam a faltar as contas: segundo os criadores do projecto, cada sem-abrigo ganhou, no mínimo, 50 dólares por dia (38 euros), por seis horas de trabalho, para além dos 20 dólares diários (15 euros) pagos pela empresa pelo facto de terem participado no programa e de donativos que ainda não estão contabilizados. Ainda de acordo com a BBH Labs, este programa foi acompanhado pelos responsáveis do abrigo Front Steps, que irá gerir o dinheiro no âmbito de um projecto que tem como objectivo ajudar os sem-abrigo a pouparem 2/3 do que ganham para tentarem entrar no mercado de trabalho e pagar uma renda para habitação.