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4.3.21

“A nossa vida está encaixotada”. Primeiro foco de Covid-19 em Portugal foi aqui

Vítor Mesquita, in RR

As marcas da pandemia estão ainda bem vivas em Santo Estêvão de Barrosas, Lousada. Uma ida a Itália trouxe a Covid-19 e a propagação do vírus entre familiares e trabalhadores de uma fábrica de calçado. Um ano depois, nem todos quiseram recordar meses de críticas, estagnação, mas também de resistência.

Mal chegara a Portugal, o vírus logo deixava em sobressalto o outro lado da estrada. Filipe Soares, comercial numa empresa de componentes de calçado, vive em Santo Estêvão de Barrosas, Lousada, mesmo em frente à fábrica onde surgiu o primeiro foco de Covid-19 no país. Explica à Renascença que a notícia do primeiro caso acordou a região para a realidade da pandemia.

“Quando surgiu aqui o surto foi uma novidade. Na altura, foi complicado porque foi mesmo aqui ao pé. A partir daí, toda a gente teve noção da realidade. Até então, não tínhamos bem a noção do problema que estávamos a viver”, sublinha.

O primeiro caso daquele que se tornaria o primeiro foco de contágio era um trabalhador vindo de Itália. Chegou sem sintomas e logo surgiram outras infeções por Sars-Cov2. Muitas delas em elementos da mesma família.

O vírus avançou e apanhou o marido de Sílvia Cunha. A propagação, sabemos hoje, seria inevitável. “O contágio do meu marido foi, à partida, através do patrão, do dono da empresa, que é nosso cunhado. Para ter noção, a minha sogra juntava 30 pessoas à mesa, ao fim-de-semana, quinzenalmente. Portanto, este contágio, para além do trabalho foi também familiar, por assim dizer”, explica.

Sílvia Cunha é também comercial. Está ligada ao calçado – como, de resto, grande parte das pessoas, na região. Mora em Idães/Barrosas, a freguesia ao lado, já no concelho de Felgueiras. Foi a primeira doente confinada em casa. Com o marido no hospital dividiu os dois pisos com o filho mais novo. O apoio dos amigos foi fundamental.

“Foram momentos de muita tensão, com muitas perguntas, foi difícil”. Sílvia deixa ainda um elogio às autoridades de saúde locais, por todo o trabalho e apoio à população.
"Críticas em cima de críticas”

Em Santo Estêvão, há marcas de uma outra dificuldade. A de conviver com as redes sociais e os inúmeros ataques aos responsáveis e funcionários da fábrica.

As acusações estavam ali, à vista de todos, recorda o vizinho Francisco Martins. “Por causa da fábrica, de terem vindo de Itália, eles eram os culpados da chegada do vírus a Portugal. Eles iam aos telemóveis e viam críticas em cima de críticas. Estavam um pouco frustrados, naturalmente. E eles não tiveram culpa. Ninguém imaginava o que ia acontecer. Agora, está tudo normal.”

Com o tempo, as críticas desapareceram, mas a mágoa persiste. O dono da empresa continua a remeter-se ao silêncio. Outros familiares também recusaram falar à reportagem da Renascença.

Depois da paragem forçada devido à quarentena, o negócio acabou por resistir. As seis dezenas de trabalhadores continuam no ativo, embora num setor vital para a região nem todos sobrevivam. A incerteza é nota dominante.

Filipe Soares vai tendo trabalho, contudo, no último ano nem sempre aconteceu. Lembra, sem saudade, os primeiros meses de pandemia. “Em março e abril, houve muitas anulações de encomendas, outras ficaram à espera, devido às dúvidas sobre a evolução da Covid-19, e estamos a falar do mercado estrangeiro. Depois, em maio e junho, as coisas foram fluindo e trabalhou-se bem até ao final do ano. Há empresas que fecharam, as mais pequenas, que trabalhavam para outras de maior dimensão. A fase em que estamos a viver é que vai ser mais complicada”, antecipa. Há muitas incógnitas quanto à reabertura das lojas e as vendas refletem sempre uma qualquer estagnação, quer em Portugal, quer no estrangeiro.

Dependente da exportação e da evolução dos contágios, Sílvia Cunha não esconde que a atividade profissional estagnou. “A abertura para receber profissionais como eu deixou de existir. Não tenho conseguido novos clientes, porque não estou diariamente no mercado”.

“Neste momento, a prioridade é segurar aqueles que temos ou que angariámos durante uma temporada. E não posso estar preocupada com a angariação de outros. A vida está incerta. Não sabemos se as lojas vão abrir, aqui ou fora de Portugal, o que afeta quem, como eu, faz exportação”, refere. “Não sabemos”.

Parado ficou, também, o projeto familiar de uma vida. Depois da venda relâmpago da casa, no final de 2019, no início de 2020 Sílvia Cunha e a família tiveram de a abandonar. Com o país fechado a construção do novo lar foi sendo adiada.

“Íamos começar a trabalhar no nosso projeto e ficou tudo parado. Estou a viver na casa da minha mãe provisoriamente, porque durante o período de maior incidência de Covid-19 os vários serviços foram ficando fechados, mais lentos e não consegui começar nada do novo projeto de vida. A nossa vida está encaixotada, digamos”, conta.

Entretanto, o processo já dá os primeiros passos, com “todos os papéis metidos” na autarquia. Aguardam-se as decisões administrativas para que a família possa dar andamento ao projeto de uma vida. Para já, têm a vida em caixotes, à espera de que as vacinas contra a Covid-19 sejam os alicerces de um novo futuro.

3.3.21

Para artistas e escritores, foi tempo de registar ausências

Isabel Lucas, in Público on-line

Será sempre um diagnóstico incompleto, assustado, imediato da realidade. O de quem tentou o registo dos dias da pandemia como urgência artística, literária, sabendo-se a participar de um momento único. A qualidade estética do que fizeram, e nalguns casos ainda fazem, pode ser questionada, a sua utilidade histórica não.

A última imagem no Instagram é a de uma casa. Melhor, de um móvel numa casa, cheio de coisas, de fotografias. Entre elas há uma jarra com túlipas e frésias. As flores estão abertas. Sabemos que não são novas se tivermos seguido o seu percurso antes de chegarem à casa. Na jarra, confundem-se com o ambiente em volta, alteram-no à medida que envelhecem. São o único movimento que se antecipa. Noutra imagem, vislumbram-se as pernas e parte do tronco de alguém. Um rapaz? Segura um cigarro, o rosto encoberto pela copa da laranjeira. Vemo-lo por detrás do vidro da janela. Será um pátio de Lisboa onde sobressai o silêncio porque, por exemplo, já não passam aviões. É só outro vazio, o retrato de uma ausência, nada evidente. Tudo quieto, na inquietude da cidade onde há máscaras deixadas no chão, excrescência de outra falta, a de um rosto. “Não fotografo uma intimidade que revele muito, mas os vazios em que se transformou a maior parte dos sítios”, diz Luísa Ferreira, fotógrafa, que dia após dia capta imagens do que chama “um quotidiano de fechamento”. Porquê? “Por impulso. Porque nos silêncios, nas ausências, há quase um retrato deste tempo.”

Em imagens, em diários, nos traços de um cartoonista, nos filmes concretizados (ou falhados), em canções compostas no interior de uma casa. Como e porquê se tem registado, entre artistas e escritores portugueses, este tempo da pandemia, um tempo fora da ciência, das estatísticas, da política e da economia? Quase sempre por impulso, da forma que cada um encontra como mais natural. Esperando, ou não, chegar a uma linguagem próxima da arte.

Desde o princípio, há um ano. “Nessa altura estive sujeito a uma espécie de confinamento intermitente. Turnos de 12 horas no hospital alternando com dias fechado em casa, para funcionarmos em bolha, sempre na mesma equipa. Isso exigiu afastamento dos familiares e das pessoas externas ao trabalho. Escrever sob a forma de diário serviu uma função terapêutica, ou de organização mental, para os dias em que fiquei em casa, e respondeu à necessidade de registar um acontecimento de excepção, a cuja experiência não voltaria a ter acesso se não a fixasse exactamente enquanto a vivia. Nesse aspecto, houve também a noção de que era um material claramente literário e que poderia ser usado no futuro com esse intuito.”

Paulo Bugalho é neurologista, não estava na linha da frente do tratamento a doentes com covid-19. E é também autor de um romance, A Cabeça de Séneca (Gradiva, 2011). A 28 de Março, escreveu: “Não são só os tempos que transformam os nosso sítios em lugares de Hopper mas também a luz. Porque a Primavera prossegue, autónoma, na rua, e a luz entra do mesmo modo pelos vidros: só que agora apanha-nos em falso, a ocupar o sítio na parede onde o pintor desejara colocar apenas vácuo.”

O diário de uma incerteza

António, nome fictício, trabalha em cinema e tinha o projecto de adaptar os Diários de Kafka. Foi antes da pandemia. Depois o (seu) mundo ruiu. “Os registos são de uma relação que morreu lentamente com a pandemia”, conta. Ele é português, ela italiana e os dois dividiam o tempo entre Lisboa e Milão. “O confinamento, pelo azar de uma semana, apanhou-nos cada um em seu país e assim ficámos quatro meses. Eu fiquei sem trabalho e, claro, sem dinheiro. Ela continuou a trabalhar. Lidar com a incerteza do futuro repercutiu-se em mim numa ansiedade terrível.”

A relação acabou por terminar em Outubro de 2020, com António a somar cinco cadernos de registos desse tempo, mais os diálogos trocados no privado das redes sociais. Mais notas soltas, canções, pedaços de livros que iam dando sinais da fragilidade do tempo que vivia intimamente e tinha eco nos estilhaços do colectivo. Uma coisa e a outra estariam para sempre unidas. “O que tenho dá para argumento de uma telenovela”, diz, meio irónico, quando tenta juntar as peças num corpo de trabalho. “De repente, tudo e todos se tornaram ruído branco, como um transístor em dessintonia. E eu congelo, hipnotizado.” É uma nota sem uma data, entre muitas, em inglês, a língua em que ele e ela comunicavam, ou em português: “Estou farto de chegar ao Cais do Sodré sem chegar a conclusões. Pior, estou farto de nem me lembrar de sair de lá. Se hoje, ao menos, houvesse alguma coisa aberta no Cais do Sodré...” António resiste a chamar diário ao que tem escrito. “Não há a ideia de um diário em si, é apenas matéria, registo, mas que devidamente alinhavado e organizado pode sê-lo”, explica.

Por todo o mundo, em todos os textos, em todas as manifestações intencional ou potencialmente artísticas, há um traço comum que, um ano depois, se mantém: a incerteza. No meio da certeza absoluta de se viver um momento único. “Toda a gente sentia que estava a viver um momento histórico e, por causa disso, os escritores, os artistas em geral, começaram a registar os dias”, cumprindo uma velha tradição histórica, refere o historiador Rui Tavares, autor do podcast Agora, Agora e Mais Agora, que manteve no PÚBLICO entre Abril e Junho de 2020. “Fiz o podcast dentro dessa lógica. Era de História, mas a tentar registar o presente da pandemia.”

Por detrás de todos estes registos, uma espécie de urgência, um instinto primário. “Comecei a escrever o Diário da Peste a 20 de Março de 2020, com o aparecimento violento da pandemia”, conta Gonçalo M. Tavares sobre as crónicas diárias que assinou no Expresso durante três meses. Serão publicadas em livro em Abril. “Foi uma necessidade absoluta. Nesses dias estava completamente paralisado e obcecado. Percebi que diante dos acontecimentos fortíssimos a escrita teria de estar presente. Foi uma pura necessidade. Escrevi todos os dias, acompanhando o que ia acontecendo com a sensação de que era algo irrepetível, o aparecimento de uma espécie de catástrofe silenciosa que ninguém sabia como iria continuar. Ninguém sabia como reagir”, continua o escritor, admitindo que só terminou por exaustão física.

“Senti que era um documento que iria ficar; um documento de resposta instintiva de alguém que tenta perceber o que está a acontecer, tenta continuar a pensar, apesar de estar debaixo de uma espécie de bombardeamento silencioso e de choque. Aquele registo saltitante, rápido, tinha a ver com a velocidade de pensamento que estava na minha cabeça naqueles dias, uma velocidade louca.”

A 18 de Junho, escreveu: “Penso num fim do mundo que passa despercebido. Já chegou, dizem uns. Já chegou, mas já foi embora, dizem outros. O ballet de Nova Iorque cancela apresentações até 2021. Um ginásio da Califórnia cria cápsulas individuais. O esforço é solitário, e tal é mais do que justo. Em 2020, o fim do mundo é invisível. O fim do mundo aparece e não o vemos. E nada de essencial altera.” Pensa no que fez. “Se por acaso eu agora quisesse escrever uma espécie de memória desses dias, iria escrever de um ponto de vista completamente diferente, e, portanto, ali a grande vantagem foi essa, o diário obrigou a uma presença obsessiva”, comenta ao PÚBLICO.

A experiência ia sendo traduzida diariamente. O mundo percebia a realidade de que cada um, em qualquer parte do globo, falava, sentia. Havia reconhecimento, e alguns referentes históricos, artísticos, literários. “Mesmo que as pessoas não tivessem lido o Decameron, do Bocaccio, e as suas referências à peste negra, ou o Diário do Ano da Peste, do Defoe, sabiam que essas épocas geram esse tipo de registos. A pandemia de covid-19 vai ter gerado uma massa enorme de registos artísticos e documentos, e de obras de arte. Não só porque produzimos numa hora mais documentos do que outras eras inteiras têm para nos oferecer, mas porque mais gente tinha a noção de estar a viver um momento histórico e de que havia um papel geracional a cumprir”, justifica Rui Tavares, defendendo, diante da produção já existente, que “os arquivistas deviam já estar a entrar em campo”. Ou seja: “Como a massa documental é muito grande e é praticamente impossível de digerir, de absorver, a grande questão que se coloca é fazer já uma espécie de registo. Há muitas coisas em formato efémero. E que podem não fazer sentido se não estiverem reunidas num corpus documental.”

Entre a relevância e a utilidade

Entre os trabalhos literários já com relevância histórica inquestionável, Rui Tavares sublinha Wuhan Diary, livro da escritora chinesa Fang-Fang, que estava em Wuhan no início da pandemia e começou a escrever um diário online sobre o quotidiano da cidade. O historiador destaca também as imagens, a que chama retratos de ausências. Luísa Ferreira refere um sentimento semelhante no trabalho de colegas de profissão, como as máscaras retratadas por Augusto Brázio. Pensa na cidade onde vive, bem no centro, e fala do “peso surdo do silêncio” na estranheza dos primeiros dias de confinamento. Cada um procura a melhor expressão para o que Gonçalo M. Tavares designa de “diagnóstico meio assustado da realidade”. Como foi o seu.

O jornalista José Vegar fez um diário a que chamou O Registo do Tempo Contaminado. O Facebook foi a plataforma. Cada texto tinha uma ilustração de Filipe Homem Fonseca e uma música escolhida por Amadeu Vilaça. Começou a 18 de Março de 2020. “Todos os dias havia um texto onde queria registar a experiência colectiva. Tendo esse norte bem estabelecido, procurava os sinais dessa experiência, tanto na rua, observando, como na imprensa nacional e internacional, para tentar perceber o que estava a acontecer. O que me interessava mais não era a experiência imediata, mas o que estava a motivar os comportamentos, emoções, sentimentos. Queria também recuperar textos que tinham a ver com o medo e a pandemia e estavam esquecidos, desde J. G. Ballard a Ruy Duarte de Carvalho. E havia uma preocupação literária”, conta, notando que pela primeira vez usou o “nós” na escrita. Tratava-se de uma experiência colectiva de que não se punha de fora porque não era possível. “O ‘nós’ reforçava a noção de pertença a um colectivo.”

A primeira entrada desse diário reza assim: “Hoje será provavelmente o dia do fecho. Este que agora invade é um inimigo de natureza rara, de todos os que conhecemos ou nos contaram.” Parou nove meses depois, quando sentiu que esgotara os temas, que tudo parecia uma repetição de qualquer coisa. Os textos estão reunidos num livro à espera de editor.


Paulo Bugalho também pensa num hipotético livro. “Até lhe dei um título, O Teste”, diz. “A última entrada do diário, no final do primeiro confinamento, reflecte sobre a leitura das entradas anteriores e parece que a noção que fica é de um vasto pesadelo, que tenderemos a esquecer. Isso concluía eu, antes de vir a segunda a vaga e andarmos novamente nestes preparos. Se este tempo ficará como extraordinário – uma lacuna na normalidade – ou como o começo de um novo tempo – pior – ainda não é possível saber. O interesse do diário dependerá disso”, diz.

André Ruivo começou a desenhar os dias da pandemia nas redes sociais por se sentir sozinho. A razão é a mais simples e a mais complexa. Cada cartoon dava-lhe um feedback imediato que de outra forma não teria. E pela primeira fez juntou palavras aos desenhos. Um dia serão um livro. Ainda não. “São ilustrações do quotidiano. Há vários temas que são dos dias de hoje: o teletrabalho, a telescola, a máscara, os vizinhos, a família, pais e filhos, a loucura de estar em confinamento, doenças mentais, o take away, a casa”, vai elencando. E a espera. A relação com o tempo, “um tempo mais escuro, por não se saber também o que vem depois”, como sugerem ainda as imagens de Luísa Ferreira na relação com a casa e a redescoberta dos objectos de sempre. A tragédia de se ser despejado de uma Lisboa deserta porque a lei do mercado ainda é a da Lisboa cheia de turistas. Contradições fotografadas, como a luz dos fins de tarde na penumbra de uma sala da cidade.

É a cidade em que Sandra Nobre, jornalista, começou a olhar pela janela e escreveu “sobre a situação que nos apanhou de surpresa, o não sair de casa”, refere. “A reclusão fez-me observar os vizinhos do prédio em frente, quase ninguém tem cortinas, e comecei a criar quase um enredo, que servia para falar da dinâmica das famílias e das suas rotinas – cozinha, exercício físico, vestuário, etc. Quando fiquei dois dias sem publicar, comecei a receber mensagens a perguntarem-me o que acontecera ao vizinho. Fui apanhada de surpresa pelo interesse e fiz disso uma rotina, por perceber que fazia a diferença na vida de alguns que encontravam nas minhas palavras algum conforto ou se reviam no que escrevia. E a escrita era a minha companhia, como antes já o era.”

Gonçalo M. Tavares destaca justamente essa função quase utilitária que a escrita pode ter, e teve nos dias do confinamento, “uma sensação de uma comunidade qualquer, comunidade do pânico”. “Foi muito forte”, acrescenta, “porque também foi sensação de que havia uma espécie de utilidade no diário. Uma utilidade estranha, que não tinha a ver com animar nada.”


Prisioneiros da covid-19

Ana Cristina Pereira (Texto) e Rui Oliveira(Fotos), in Público on-line

Delfina, Maria e Daniel nunca puseram um pé fora do lar. Fernanda só no Natal. Marco saiu de casa apenas para ir ao barbeiro e ao otorrino. Maria José sai para fazer tratamentos e andar. Nelson ainda deu umas escapadelas no verão, mas vindo o frio não se atreveu a sair do condomínio. São uma espécie de prisioneiros da covid-19. O relato da sua experiência de reclusão é intermediado, a itálico, pelo comentário de António Fonseca, professor da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, especializado em Psicologia do Desenvolvimento.

Delfina Leal não sai do Lar António Barbosa, da Santa Casa da Misericórdia de Paços de Ferreira, desde o dia 8 de Março de 2020. Naquele domingo, o coronavírus insinuou-se na conversa da família. Os primeiros casos tinham sido confirmados na segunda-feira, dia 2.

Já não se demorou naquele almoço com o sobrinho, a mulher e os filhos. “Comi e vim.” Estava convencida de que tudo passaria depressa, mas nunca mais foi à família, ao banco, ao contabilista ou ao cemitério pôr verduras na campa do marido. “O meu sobrinho liga e é com ele que eu falo. Uma vez vi-o. O trânsito estava a passar e ele estava lá em baixo e eu aqui em cima.”

É como se o 78º ano da sua vida não contasse. Mesmo assim, está serena. “Trabalhei, estive na Alemanha 23 anos, mas dou-me em casa.” Participa no exercício físico, nos jogos cognitivos, na oração. Rega as plantas perto do seu quarto. Alimenta uma gata que anda por ali. Amiúde, a “Camila” segue-a, “como se fosse um cãozinho”.

O encarceramento não a impediu de ter covid-19. No Outono, houve surto no lar. Entre os 58 idosos residentes, só oito ficaram livres de contágio. “O maior problema foi os intestinos. Colites. Também tive dores de cabeça. A comida não tem sabor. Ainda agora almocei e fiquei com um mau gosto na boca. Um amargo. Parece fel.”

Quando as visitas recomeçaram, à semana, à hora marcada, com um vidro, o sobrinho não arranjou horário compatível. No Natal, alguns saíram, como a amiga Palmira Ribeiro, de 89 anos, que estava doida para ir a Santo Tirso ver a bisneta e lá foi, apesar de tal a forçar a quarentena. Ela não. “A gente até tem medo de ir para a rua.”

Às vezes, pergunta-se para quê tanto sacrifício. “Se a gente morrer, o que é que a gente está cá a fazer? A gente já não está a fazer nada. A gente está aqui à espera. O meu marido não foi?” Ao ouvi-la dizer isto, a animadora Glória Ribeiro pede-lhe que desvie esse pensamento. Levou as duas doses de vacina. Um dia destes, há-de ver o sobrinho e os sobrinhos netos e a campa do marido.

["A pandemia veio pôr a nu o funcionamento dos lares. São lugares de grande inquietação afectiva. As pessoas estão muito sozinhas. As instituições têm pouco pessoal disponível para as ouvir contar a mesma história pela enésima vez, para as ajudar nos processos de luto. Parte-se do princípio que todas recebem visitas e que a pandemia as impediu, mas… há pessoas que estão meses sem visitas. Algumas nunca as tiveram. Já antes, a ideia de que os familiares não os podiam visitar era só meia verdade. Muitos lares têm horários mais restritivos do que os hospitais. A existência de horário de visitas em lares é algo que sempre me provocou desconforto. Para quê?”, questiona António Fonseca, professor da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, especializado em Psicologia do Desenvolvimento]
Uma grande solidão

Maria Fernanda Macedo, de 85 anos, não recebeu visita alguma. Já antes recebia muitíssimo poucas. “É qualquer coisa muito íntima que me faz não querer. Mas saía, ia visitar amigos e familiares. Ia ao médico. Ia ao cafezinho, ia ver as montras. Agora, não. Para ir ao dentista tenho de estar 15 dias no quarto fechada!”

No Natal foi a Lisboa ver a família. Desde o primeiro estado de emergência, só daquela vez cruzou o portão. Essa espécie de saída precária aliviou-a. “Foi o que me valeu. Estava a sentir muita solidão. Estava a perder o controlo. A nossa cabeça quando está lúcida trabalha muito, não é?”

O gosto pelas pequenas coisas esmoreceu. Gostava de ler jornais. A leitura perdeu graça. “Eu leio, mas chego a metade e já não me lembro do princípio!” Gostava de fazer crochet. “Não tenho linhas. Está tudo fechado!” Veste-se, penteia-se, maquilha-se e junta-se à sua amiga, Rosário Coelho, de 93 anos. “Passamos muito tempo no quarto a ver televisão ou a ouvir notícias.”

Nada a liga a Paços de Ferreira. Há falta de vagas nos lares das cidades, os lares das zonas mais rurais importam idosos. A irmã estava ali. “Eu vinha cá muitas vezes visitá-la. A minha ideia era ir para um lar algum dia que ficasse sozinha. Não queria acabar os meus dias abandonada. Ela disse-me para vir e eu vim.”

A irmã já não está ali. Fernanda cruza-se com pessoas de estrato social diferente daquele a que se habituara lá fora e isola-se ali dentro. A pandemia só veio agravar esta sensação de pessoa mal situada. “Há um desconforto total. Acho que a solidão faz mal a todos, mas nos velhos é pior.

["Há uma acomodação aprendida. A pessoa acaba por se habituar, mas, quando falamos da importância de sair de casa ou dos lares, não é só para a pessoa estar no aniversário do neto ou do bisneto. A estimulação cognitiva faz-se através da diversidade de contactos. A pessoa é estimulada na medida em que é introduzida na vida social normal. Quando a tiramos daí, estamos a diminuir substancialmente as suas oportunidades de estimulação. A ausência de contactos também potencia sintomas de depressão, o que, por sua vez, leva a pior funcionamento cognitivo.”]
Um belo namoro

“Eu queria ver a minha mãe”, diz Maria da Costa Martins, de 59 anos. Está cega e um tanto surda em casa de um irmão. “Ao pé dela, falo-lhe ao ouvido. Pela voz, ela conhece-me. Ao telefone, ela pergunta: ‘É a minha Maria?’ E o meu irmão, a minha cunhada ou os meus sobrinhos dizem: ‘É.’” Nada lhe pode dizer sem intermediário.

Entrou debilitada no Lar António Barbosa há dois anos, na sequência de um processo de violência intrafamiliar. Daniel Moreira Fernandes, de 89 anos, deu-lhe muita força, emprestou-lhe uma bengala tripé e, com a ajuda dos técnicos e auxiliares, Maria recuperou. Agora corre tudo para cima e para baixo.

Enamoraram-se, Maria e Daniel. “Uma vez por semana, íamos a casa dele de táxi. Íamos de manhã e vínhamos à noite. Tem lá muita fruta. Íamos à fruta. Noutros dias, íamos a pé até à cidade. Íamos aos correios. Íamos à farmácia. Íamos ao parque. Íamos passear. Encontrava muita gente conhecida. Veio a pandemia, acabou tudo. A fronteira fechou. Não podemos sair.” Nem ao médico voltou. E não sabe o que é uma noite inteira de sono. Tantas vezes, ao passar a ronda, arregala os olhos e assim fica.

A companhia ajuda. “Não fazemos coisas feias”, brinca ele. Vão até à sala de convívio. “Ando a aprender a jogar dominó. Já lhe dou um jeito. Quero ser a parceira dele”, ri-se ela. “Damos uns passeios no recinto do lar.” Conversam. “Vou ao quarto dele. Tenho ordens da doutora. Posso ir lá. Até ao primeiro intervalo do Telejornal, estou lá.”

O surto de covid agravou tudo, embora se tivessem mantido assintomáticos. “Conforme estive aqui, conforme estive sempre”, assegura ele. “Tivemos um tempo dentro dos quartos”, torna ela. Só falavam por telefone. “Ele ia ao passadiço e eu, do quarto, via-o.” A ansiedade de Maria fustigava-a. “A pessoa desesperava. O que me valia era a Praça da Alegria. Dançava, cantava!”

Embora tenham tomado as duas doses de vacina, lá fora não há imunidade de grupo. “Gostava de ir por aí fora e de abraçar aquela gente toda”, diz ela. “Sei que agora não se pode abraçar ninguém, mas tenho muitas, muitas saudades de fazer isso! Tenho medo de nunca mais voltarmos ao tempo que tínhamos.”

["Não estamos a falar de pessoas com demência, afastadas da realidade, com dificuldade em situar-se no tempo e no espaço. Estamos a falar de pessoas conscientes, que estão a passar por uma situação desorganizadora das suas rotinas. É verdade que podem recorrer às tecnologias para falar com familiares e amigos, mas falta o estar com o outro, o tocar no outro, o dar um abraço ou um beijo sem que isso constitua um risco. Isso pode trazer trauma, mas a generalidade das pessoas ultrapassará este tempo. As pessoas são mais resilientes do que supomos. Nem todas sofrem da mesma forma. Algumas, com determinado tipo de personalidade, até estão felizes por estarem isoladas.”]
Uma dependência agravada

No último ano, o filho de Maria Amélia Dias só saiu de casa para ir ao barbeiro e ao otorrino. Ela teve um entupimento de canal lacrimal. O médico proibiu-a de andar ao frio e ela deixou de o levar ao Centro de Actividades Ocupacionais (CAO). Veio a pandemia e ficou a família reduzida àquele sexto andar de Matosinhos.

O CAO da APPCDM do Porto, como os outros, fechou em Março, reabriu em Maio, voltou a fechar no final de Janeiro, sem que Marco tornasse a frequentá-lo. Não é que a covid represente um risco acrescido para quem tem síndrome de Down, como ele. É que o pai sofreu uma traqueostomia. Usa uma cânula. “Não fala. Eu tenho de tratar de tudo. Tenho de proteger o pai e o filho.”

Amélia está exausta. A sua depressão, que já era crónica, “atingiu o auge”. Pouco sai. “Vou à padaria a correr.” Acompanha o marido às consultas. “Os vizinhos têm sido excepcionais. Vêm cá um casal ver se o Marco está bem. Ele tem noção de tudo, sabe o que pode ou não fazer.”

Sente que o filho está a regredir, sem as terapias do CAO. “Até a rotina de se levantar antes das 7h acabou. Não o vou levantar só para manter a rotina, porque também tenho de olhar pelo pai e tenho 75 anos.”

Marco dorme até às 10h30 ou 11h00. Senta-se na mesa de pequeno-almoço preparada de véspera. Come. E desenha, pinta, recorta, vê televisão. Gosta do canal infanto-juvenil Biggs. Adora a série de animação Dragon Ball. E entretém-se com programas de desporto. O wrestling fascina-o.

Pergunta-se-lhe se quer voltar ao CAO, que frequentou tantos dos seus 48 anos. “Está frio e chuva, trevada, não”, responde, apesar de não haver sinal de mau tempo. A mãe faz a pergunta de outra forma e ele volta a recusar. “Os meninos do Porto estão cheios de frio. Não há curso.”

Nunca gostou de sair de casa. “Saídas era para ir ao barbeiro. Se fosse a um restaurante, tínhamos de ir logo para casa. O mundo dele era a casa e o CAO.” Há um ano que o mundo dele é aquele apartamento. A semana passava, os monitores que lhe trouxeram desenhos quiseram levá-lo a dar uma volta e ele declinou. Esta sexta-feira, pela primeira vez, aceitou ir. “Gosta muito deles. É como se fossem família.”

A gestora do processo de Marco liga amiúde a Amélia a perguntar se precisa de ajuda. Podem levar Marco para um lar residencial uns dias para ela descansar. “Isso era matar o meu filho.” O regresso ao CAO terá de se fazer de forma gradual, como se fez com o infantário. “Ele nunca usufruiu tanta presença da mãe.”

["Desconfinar também significará reduzir o medo. Não seremos iguais. Somos resilientes, vamos conseguir ultrapassar a ferida que isto abriu, mas a história não nos abandona. Há pessoas que perderam familiares, amigos, vizinhos. São perdas irreparáveis. A imobilidade provoca perda de massa muscular que nos idosos pode ser irreversível. O desuso contribui para a perda de funcionalidade. Vamos ter mais pessoas com dificuldade em andar, com medo de se deslocar, de cair. Provavelmente, as pessoas vão adoptar comportamentos preventivos de disseminação de doenças, vão dar mais atenção à higienização das mãos, proteger-se com máscara, como na Ásia.”]
Um valente susto

Contra todas as possibilidades, Maria José Marrafa apanhou covid. Com uma recidiva de cancro de mama, metástases nos ossos, na coluna, nos pulmões, no fígado.

A professora de Português, de 54 anos, deixara de trabalhar em Janeiro de 2020. “Não conseguia corresponder. Sentia-me muito cansada.” Fechou-se em casa com o marido e a sogra. Desde que a pandemia começou, entra ali a empregada e pouco mais.

O marido, Manuel Pina, assumiu as compras. “Nunca mais entrei num supermercado.” O professor de Educação Visual e Tecnológica, de 62 anos, também está em casa, com baixa médica. Já teve um linfoma. Faz parte dos grupos de risco. “Tem sido o meu pilar. Ajuda-me em tudo.” A uns minutos de casa, em Oliveira de Azeméis, há uma área arborizada. O casal dá os seus passeios higiénicos com o cão, “Body”. “Faz-me bem tanto ao corpo como ao espírito.”

Maria José não se podia encerrar simplesmente. Não podia deixar de ir ao Instituto Português de Oncologia, ao Porto, fazer os tratamentos. No princípio, tudo lhe parecia estranho. “Controlo de entrada. Corredores vazios. Salas de espera vazias. Ver pessoas que estavam ali pela primeira vez sozinhas, sem apoio, causava-me impressão. Sentava-me sem tocar em nada. Tinha medo de tocar num puxado.”

No início do verão, um susto dos diabos. Um derrame pleural. “A situação evoluiu rapidamente”, conta. “Tive de ir para o hospital. A médica disse que havia suspeita de covid. E foi como se o mundo me tivesse caído. Estava com dificuldades respiratórias. Se tivesse covid, seria muito mau. Que aflição!” Enquanto esperava, isolada, viu o filme da sua vida. “Comecei a pensar nos momentos bons e nas pessoas que me traziam boas recordações. E foi assim que consegui suportar a aflição.” Se tivesse de listar os piores dias da sua vida, os daquele internamento estariam lá. Sozinha, com roupa do IPO, o olhar para o fim.

Depois de um susto tão grande, quando o vírus lhe entrou em casa, em Janeiro, até lhe pareceu que teve sorte. Dores musculares, um pouco de febre, um agravamento das dores nas costas, diarreia. “Não me posso queixar.” Nesta reclusão, ajuda ter hobbies. “Gosto de ler. Gosto de ouvir música. Gosto de ver filme e séries. Gosto de estar com o cão e com os gatos. Gosto de conversar ao telefone. Gosto de fazer palavras cruzadas.”

["Muitas vezes, as situações limite, como um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral, fazem-nos valorizar o que temos. Seria bom que com isto as pessoas aprendessem a valorizar mais a vida social, as relações sociais, as relações afectivas. Foi um ano muito pobre do ponto de vista relacional, sobretudo para as pessoas mais velhos, para as pessoas com deficiência, para as crianças e jovens que vivem em instituições. As pessoas podem querer compensar este ano perdido. Eu próprio olho para muitas coisas que não fiz e quero fazer em dobro. É o cliché do: éramos felizes e não sabíamos.”]
O “normal” de alguns

Há quem viva uma vida inteira assim, na incerteza. Nelson Morais tinha menos de um ano quando recebeu o diagnóstico de Atrofia Muscular Espinhal. Há uns anos, desenvolveu Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica. Precisa de ventilação não invasiva principalmente durante o sono.

Não se rendeu à doença, que o atirou para uma cadeira de rodas. Com o apoio dos pais, estudou Ciência de Computadores. Especializou-se em “data mining e processamento de dados”.

Quando tudo começou, de segunda a sexta o investigador de 32 anos ia trabalhar para o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC). O pai transportava-o numa viatura adaptada. Inscrevera-se no projecto-piloto de apoio à vida independente e tinha assistente pessoal quatro horas por dia.

Agora, está em teletrabalho. Dispensou o assistente social. Deixou de ir às sessões de fisioterapia. “Este tempo lembra-me o último semestre do mestrado”, diz. “Tal como agora, passava imenso tempo a trabalhar em casa no meu portátil. Era a minha janela para o mundo. Os contactos pessoais tinham sido drasticamente reduzidos. As saídas eram raras.”

No Verão, ainda foi “buscar inspiração ao pé do mar” e ainda passou uns dias “na terra”, uma aldeia de Montalegre. Desde que o frio chegou, fica-se pelo condomínio, em Vila Nova de Gaia. “A ironia foi ter passado a conseguir afastar-me um pouco mais de casa porque certos passeios se tornaram acessíveis, num ano em que a circulação esteve tão limitada para todos os cidadãos.”

De certo modo, é como se tivesse vivido sempre em confinamento. Nas suas palavras, “o confinamento é uma experiência do que é viver com mobilidade reduzida”. “Está quase tudo fechado. A pessoa está à porta, mas não pode entrar. Na incerteza, muitas ficam em casa.”

Que faz para se evadir? “Quem está em teletrabalho como eu, acaba por ter pouco tempo livre de segunda a sexta-feira”, diz. “O que sobra é aproveitado para ir ao cinema, ler, reflectir, escutar música, escrever. Quem se vê como um lobo solitário e aprendeu desde cedo a divertir-se sozinho não considera propriamente desafiante arranjar forma de se manter entretido.” Mas tem saudades de estar com as suas pessoas, de ir a festas, de trabalhar no INESC e de sair à hora do almoço para apanhar um pouco de sol no rosto, de estar com pessoas à volta de uma mesa a discutir, de falar com as pessoas na rua e, sobretudo, de não ter medo.


RUI OLIVEIRA

Delfina Leal não sai do Lar António Barbosa, da Santa Casa da Misericórdia de Paços de Ferreira, desde o dia 8 de Março de 2020. Naquele domingo, o coronavírus insinuou-se na conversa da família. Os primeiros casos tinham sido confirmados na segunda-feira, dia 2.

Já não se demorou naquele almoço com o sobrinho, a mulher e os filhos. “Comi e vim.” Estava convencida de que tudo passaria depressa, mas nunca mais foi à família, ao banco, ao contabilista ou ao cemitério pôr verduras na campa do marido. “O meu sobrinho liga e é com ele que eu falo. Uma vez vi-o. O trânsito estava a passar e ele estava lá em baixo e eu aqui em cima.”