1.12.08

Vera conhece pessoas que irão beneficiar dos pacotes de arroz que Nuno comprou

António Marujo, in Jornal Público

Campanha do Banco Alimentar estava ontem a caminho de bater um novo recorde no volume de bens recolhidos. O PÚBLICO acompanhou o percurso de um saco de arroz


No final, haverá pelo menos um rosto concreto que Vera Almeida conhece e que talvez beneficie destes três pacotes de arroz e outros tantos de massa. Mas, quando os comprou, Nuno Santos, 32 anos, tentou "não pensar que alguém estará dependente deles para comer". Mas sabe que é assim, apesar dessa "autodefesa". E sabe que há pessoas a quem irá chegar o seu "pequeno contributo".

"Esta é uma das poucas campanhas a que adiro, pela causa meritória e pela mensagem de credibilidade que ela passa", diz este técnico de marketing, que vive e trabalha em Lisboa. Ontem, ao fim da tarde, Nuno Santos foi às compras num hipermercado da zona de Telheiras e aproveitou para participar na campanha de recolha de alimentos do Banco Alimentar contra a Fome (BACF).

O seu pequeno contributo foi um dos que permitiram que se batesse um novo recorde - 1500 toneladas recolhidas até às 18 horas de ontem, apenas menos 100 toneladas que os dois dias de campanha do ano passado.

Rita Centeio, 23 anos, finalista de Arquitectura, acabou de receber os pacotes de arroz e massa entregues por Nuno Santos. Está pela primeira vez a participar, como voluntária, uma entre cerca de 20 mil pessoas que terão ajudado. "Se todos fizéssemos estas coisas pequenas, o mundo seria melhor. Um pequeno gesto de alguns cêntimos vai fazer sorrir alguém."

Apesar do pouco tempo - começou às cinco da tarde, leva pouco mais de uma hora a fazer o trabalho -, percebe que a maior parte das pessoas oferece por pura generosidade: "Houve um senhor a quem agradeci e ele disse que era com todo o gosto."
Os sacos de arroz seguem viagem com quatro rapazes da Casa do Gaiato do Tojal (Loures): Fábio Castro, 19 anos, estudante de Turismo; David Pereira, 20, em Audiovisuais; Márcio Morais, num curso de Pasteleiro; e André Tavares, 18, em Informática.

São eles que, desde as nove da manhã, fazem o transporte dos alimentos deste hipermercado para o armazém do BACF, em Alcântara. Já nem sabem bem quantas viagens fizeram, e ainda faltam mais duas ou três, até a loja fechar. André, que conduz a carrinha, veio por lhe terem pedido e por "curiosidade". Irão beneficiar também da recolha de alimentos deste fim-de-semana, pois a Casa do Gaiato é uma das instituições beneficiárias do BACF. Mas todos são unânimes. "Pensamos mais nos outros, há pessoas que têm menos que nós." Não têm dúvidas de que irão contar a experiência aos colegas de casa.

Quando chegam ao armazém do banco, em Alcântara, os sacos são colocados num grande cesto. Carolina Silva, 21 anos, estudante de Ciências Farmacêuticas, participa nas duas campanhas anuais desde há cinco anos. "Sinto que estou a ajudar e a divertir-me. Sinto-me útil a fazer voluntariado. E quando pego nos sacos de comida penso que ela será útil a alguém, que há uma quantidade de pessoas que a vai receber e que vai ficar feliz. Há crise, mas as pessoas são generosas."

Vera Almeida, 37 anos, gerente comercial, é uma das pessoas que, na passadeira rolante onde os sacos são colocados, estão encarregues de tirar apenas o arroz - incluindo aquele que Nuno Santos comprara, duas horas antes. O trabalho tem que ser rápido. "Moro aqui perto e sei de pessoas que são apoiadas. Se não fosse esta comida, essas pessoas não comeriam."

No armazém, está tudo previsto: um estúdio de rádio dos alunos da Universidade Autónoma anima os voluntários, empilhadores, comida para quem ajuda e seguros foram cedidos, a título gratuito, por muitas empresas. Tal como os transportes, mas aqui a maior parte é das instituições beneficiárias do BACF. Depois das nove da noite, continuavam a chegar voluntários. Muitos deles só sairiam de lá às quatro da manhã.