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4.5.23

Portugueses estão entre os que trabalham mais horas por semana na UE

in Idealista



Mais de 7% dos trabalhadores na União Europeia (UE) trabalharam pelo menos 49 horas por semana em 2022. A conclusão é do Eurostat, que revela, a propósito do Dia do Trabalhador, que a percentagem de trabalhadores portugueses com horários de trabalho longos – de pelo menos 49 horas semanais – era das mais elevadas entre os Estados-membros da UE.

Segundo o gabinete de estatísticas europeu, Portugal surge na quinta posição entre os 27 Estados-membros, o que significa que, no ano passado, 9,4% dos portugueses empregados entre os 15 e os 64 anos trabalhavam pelo menos 49 horas semanais, mais nove horas que o estabelecido por lei. Serão, ao todo, cerca de 442 mil pessoas.

De referir que a taxa de pessoas com horários de trabalho mais longos que o normal é mais elevada entre quem trabalha por conta própria (33%). No caso dos trabalhadores por conta de outrem, a taxa desce para 4%.

3.5.23

Dia do Trabalhador: as profissões mais bem (e mal) pagas em Portugal

Ana Lemos, in SIC



No Dia do Trabalhador, a Pordata faz uma “radiografia à situação laboral dos portugueses”, revelando quais os setores com mais trabalhadores, mas também as profissões mais bem e mais mal pagas. E, se há setores com falta de mão-de-obra, outros há em que o nível de escolaridade ou o sexo podem fazer a diferença no salário.


No feriado do 1.º de Maio, que este ano saberá ainda melhor para muitos por calhar a uma segunda-feira, a base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos partilha um retrato sobre a evolução, na última década, da situação dos trabalhadores portugueses.

Quais são, atualmente, as profissões com mais trabalhadores e as que mais cresceram e diminuíram? Onde se verifica o maior fosso salarial entre homens e mulheres? Quais são os setores pagam melhor e os que pagam menos? E, as qualificações têm ou não impacto?

A “radiografia laboral” foi feita pela Pordata com base nos Censos de 2021, cuja recolha de dados decorreu ainda durante a pandemia, e em comparação com os de 2011. As conclusões são várias. Por exemplo, “os trabalhadores não qualificados da indústria e da construção foram os que mais cresceram na última década (mais 51 mil)”, mas não são os mais bem pagos.

Além disso, os setores económicos que mais riqueza geram são também aqueles que praticam salários abaixo da média nacional. E, se gestores, diretores e profissionais das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (CTEM) estão entre os mais bem pagos, os trabalhadores de limpeza e de cuidados pessoais são os que ganham menos.

Vendedores “lideram”

Em 2021, a população empregada era de 4,4 milhões de pessoas, ou seja, um aumento de 1,5% em relação a 2011. O “top3” das profissões com mais trabalhadores é liderado por vendedores (365 mil), seguem-se os empregados de escritório e secretários (280 mil) e os trabalhadores qualificados da construção, eletricidade e eletrónica (273 mil).

Mas se focarmos a análise nas profissões que viram o número de efetivos aumentar, os vendedores saem deste ranking, mantém-se os trabalhadores não qualificados da indústria e da construção (+51 mil), bem como os empregados de escritório e secretários (+23 mil), e entram os profissionais de saúde (que não médicos e enfermeiros, +21 mil).

Quanto às profissões que mais diminuíram o número de efetivos, o destaque, de acordo com os dados da Pordata, vai para diretores e gerentes, do comércio a retalho e por grosso (-42 mil), trabalhadores de limpeza em casas particulares, hotéis e escritórios (-39 mil), vendedores (-36 mil), trabalhadores qualificados da construção, eletricidade e eletrónica (-36 mil), e, professores (-29 mil).
Setores “mais ricos” pagam abaixo da média

Quase meio milhão de pessoas trabalhava, há dois anos, “no comércio a retalho (461 mil), 348 mil na administração pública, 328 mil na educação, e 277 mil nas atividades de saúde”. No conjunto, estes trabalhadores representavam um terço do total da mão-de-obra.

Já as maiores perdas, na última década, registaram-se no setor da construção (-68 mil na promoção imobiliária), comércio (-59 mil no retalho), educação (-48 mil), indústria transformadora (-42 mil no vestuário) e alojamento e restauração (-37 mil na restauração).

Há, porém, uma outra conclusão deste estudo da Pordata que importa salientar. Um determinado setor económico pode até ter perdido trabalhadores e praticar salários abaixo da média nacional, mas ser, ainda assim, dos que gerou mais riqueza (VAB – Valor acrescentado bruto).


“É o caso da indústria transformadora que gerou 13,8% do VAB, com destaque para as indústrias alimentar e têxtil, [e] onde os salários médios são 121 euros e 340 euros, [respetivamente], inferiores à média nacional". O mesmo sucede nas atividades imobiliárias e o comércio (13,4% e 13,1% do VAB), na administração pública e na saúde (7,4% e 7% do VAB).

Mas é no alojamento e restauração (VAB de 3,6%), na agricultura (VAB de 2,5%) e nas atividades administrativas e serviços de apoio (VAB de 3,8%) que se encontram as maiores diferenças a nível nacional. Os trabalhadores destes setores recebem, em média, menos 380 euros e menos 283 euros, respetivamente, face à média nacional.


Em sentido oposto, os setores económicos mais bem remunerados são o da eletricidade, gás e água - com salário médio 1.672 euros acima da média nacional, e, o das atividades financeiras e de seguros - com salário médio 1.080 euros acima da média nacional.

Ainda assim, “a produtividade do trabalho em Portugal é 35% inferior à média da União Europeia (UE)”. Entre os 27, Portugal é o quinto país com menor produtividade no trabalho, fixando-se apenas à frente de Letónia, Polónia, Grécia e Bulgária.
Diretores e gestores vs auxiliares e trabalhadores de limpeza

Tendo por base os dados de 2021 e o universo de trabalhadores por conta de outrem em empresas, o salário que auferiam era, em média, de 1.294 euros ilíquidos (antes da dedução de quaisquer descontos). Em comparação com 2011, este valor representa um aumento de 210 euros, mas que se “descontado o efeito da inflação” desce para 118 euros.

E que trabalhadores recebiam um salário acima da média nacional?representantes do poder legislativo e de órgãos executivos (+1.483 euros);
profissões intelectuais e científicas (+701 euros);
técnicos de nível intermédio (+314 euros), entre os quais se verifica uma exceção: os técnicos e profissionais de nível intermédio da saúde - como técnicos de equipamento de diagnóstico e terapêutico, técnicos de laboratório, auxiliares de enfermagem e pessoal de ambulâncias - que auferem menos 108 euros do que a média nacional.

Dentro deste grupo, encontramos as profissões mais bem pagas:a cargos de gestão ou direção: representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, dirigentes superiores da Administração Pública, diretores e gestores de empresas (ganhavam, em média, 3.577 euros);
os diretores de serviços administrativos e comerciais: financeiros, de recursos humanos, de vendas e marketing, publicidade e relações-públicas (3.091 euros);
os diretores de produção e de serviços especializados: produção da agricultura, indústrias, construção, diretores de compras, distribuição, transportes, diretores de serviços de saúde, de sucursais de bancos, serviços financeiros e seguro (2.826 euros); e,
os técnicos dos serviços jurídicos, sociais, desportivos e culturais: atletas e jogadores profissionais, árbitros, treinadores, fotógrafos e chefes de cozinha (2.331 euros).

Neste grupo, destacam-se ainda as profissões das áreas da ciência, tecnologia, engenharia e matemática (CTEM) com remunerações acima dos 1.850 euros, e das quais se destacam:especialistas em tecnologias de informação e comunicação (2.198 euros);
especialistas em finanças, contabilidade, organização administrativa, relações-públicas e comerciais (2.111 euros);
especialistas das ciências físicas, matemáticas, engenharias (2.019 euros);
profissionais de saúde (1.869 euros).

Quanto às profissões mais mal pagas são, sobretudo três as que a Pordata refere:assistente na preparação de refeições (761 euros);
trabalhador de limpeza (791 euros); e,
trabalhador dos cuidados pessoais: auxiliares de educadores de infância e de professores e auxiliares nos serviços de saúde e ajudantes familiares (818 euros).

Desigualdade entre sexos mantém-se

Se a nossa análise se centrar na diferença entre homens e mulheres, o cenário muda e sempre em prejuízo do sexo feminino, que ganha sempre menos. Mas vejamos aquele que a Pordata destaca como “o maior fosso”.

Os técnicos dos serviços jurídicos, sociais, desportivos e culturais: atletas e jogadores profissionais, árbitros, treinadores, fotógrafos e chefes de cozinha constam no grupo das profissões mais bem pagas. Acontece que se quem exercer essa profissão for uma mulher ganha 1.037 euros, se for um homem o salário ronda os 2.409 euros.

Neste caso, a diferença salarial é superior a 1.300 euros, mas há outros exemplos e em várias áreas:representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, dirigentes superiores da Administração Pública, diretores e gestores de empresas - os homens ganham, em média, mais 1.070 euros do que as mulheres;
diretores de produção - a diferença é de mais 585 euros para os homens;
diretores de serviços administrativos e comerciais - os homens ganham mais 577 euros;
especialistas em finanças, contabilidade, organização administrativa, relações-públicas e comerciais - a diferença é de 452 euros; e,
Profissionais de saúde - os homens ganham, em média, mais 442 euros.
Nível de escolarização (ainda) é baixo

Em 2021, “cerca de 6 em cada 10 trabalhadores da agricultura, construção e indústria tinham, no máximo, o ensino básico, evidenciando a ainda baixa escolarização de alguns setores económicos”. Este é também “o nível de ensino de metade dos trabalhadores das atividades administrativas e dos serviços de apoio, do alojamento e restauração”, conclui a Pordata.

Contudo, em setores como atividades de informação e comunicação (69%), atividades financeiras e de seguros (61%), de consultoria e científicas (59%) e da educação (58%), mais de metade dos trabalhadores têm o ensino superior.

4.5.22

"Ganho o ordenado mínimo e tenho 30 anos de casa"

in Jornal de Notícias

Trabalhadores, reformados e jovens participaram hoje nas celebrações do 1.º de Maio, em Lisboa, organizadas pela CGTP para reivindicarem mais direitos e melhores salários, numa altura em que o custo de vida aumenta.

Dalila Santos, 58 anos, operadora especializada de hipermercado, foi de Cascais, onde mora, a Lisboa, para participar no desfile que partiu do Martim Moniz cerca das 15.15 rumo à Alameda, para manifestar o seu desagrado "em relação a tudo, desde aos impostos, mas principalmente em relação aos ordenados".

"Ganho o ordenado mínimo e tenho 30 anos de casa", começou por contar a trabalhadora.

"Estamos no primeiro dia [do mês] e quase já não tenho dinheiro, é uma vergonha", acrescentou Dalila.

Já o estudante de 18 anos Salomão Parreira, de Odivelas, marcou presença no desfile por considerar que "esta é uma altura muito importante para defender os direitos dos trabalhadores" devido ao aumento do custo de vida que afeta também os mais jovens.

O mercado de trabalho para os jovens "está cada vez mais difícil, é cada vez mais complicado arranjar não só emprego, mas também algum emprego que permita condições de vida minimamente decentes para os jovens", disse Salomão.

De boina devidamente enfeitada para a ocasião, José Pulido, reformado de 70 anos, do Forte da Casa, concelho de Vila Franca de Xira, quis dar o exemplo às novas gerações ao participar no desfile da CGTP.

"Hoje é o Dia do Trabalhador e antes do 25 de Abril de 1974 não tínhamos este dia", sublinhou.

"Vejo muito mal o mundo do trabalho, os trabalhadores sem direitos nenhuns, é isso que eu vejo", acrescentou o reformado.

Milhares de pessoas concentraram-se no Martim Moniz, em Lisboa, cerca das 14:30 e partiram rumo à Alameda cerca das 15:15, no âmbito das celebrações do 1.º de Maio da CGTP.

O desfile partiu ao ritmo de bombos e de palavras de ordem, cerca das 15:15, pela avenida Almirante Reis, com a organização a dar a partida aos microfones: "Abril continua, Maio está na rua!"; "vamos levantar bem alto aquilo que são as reivindicações dos trabalhadores".

Os trabalhadores puderam este ano celebrar o Dia do Trabalhador sem restrições associadas à pandemia de covid-19, ao contrário do que aconteceu nos últimos dois anos, mas muitos optaram por usar máscara.

Entre as palavras de ordem ouviu-se "para o país progredir, é preciso investir" e "para o país avançar salários aumentar".

"Paz sim, guerra não", entoaram os manifestantes que também pediram "combate ao aumento do custo de vida e à especulação".

Alguns dos manifestantes usaram cravos vermelhos, numa alusão ao 25 de Abril de 1974.

Os trabalhadores portugueses puderam hoje comemorar o 1.º de Maio sem restrições, participando nas iniciativas de rua que a CGTP promove em mais de 30 localidades do país, ou no debate da UGT sobre os desafios do mundo laboral, em Lisboa.

Nos últimos dois anos, devido às restrições relativas à pandemia da covid-19, a Intersindical não desistiu de assinalar a data na Alameda, embora apenas com cerca de um milhar de manifestantes, devidamente distanciados.

Este ano a CGTP voltou a fazer o tradicional desfile na capital, a partir da praça do Martim Moniz até à Alameda, onde ocorreu o comício sindical, assim como a manifestação do Porto, na avenida dos Aliados.

O 1.º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador, teve origem nos acontecimentos de Chicago de há 136 anos, quando se realizou uma jornada de luta pela redução do horário de trabalho para as oito horas, que foi reprimida com violência pelas autoridades dos Estados Unidos da América, que mataram dezenas de trabalhadores e condenaram à forca quatro dirigentes sindicais.

4.5.20

1.º de Maio. O "antivírus" contra o desemprego, despedimentos e precariedade

Paula Sá, DN

A CGTP não cedeu à pandemia e a quem criticou as celebrações do Dia do Trabalhador na rua e comemorou o 1.ª de Maio na Alameda, apenas com sindicalistas e poucos curiosos. Sob o tradicional grito "a luta continua", a secretária-geral daquela central exigiu a proibição dos despedimentos e o fim dos cortes nos ordenados em regime de lay-off.

Acelebração foi rápida e milimetricamente programada, sem o habitual desfile, apenas com expressão na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa. Com passos largos, seis contados por todos, vários sindicalistas da CGTP colocavam bandeiras junto às faixas que delimitavam, de dois em dois metros, os sindicatos que ali estavam para celebrar o Dia do Trabalhador e os 50 anos da maior central sindical portuguesa. E assim se mantiveram, distanciados, de bandeiras vermelhas ao alto dispostos pelo relvado desde a Fonte Luminosa até ao topo, junto do Instituto Superior Técnico. O ex-secretário-geral da central sindical, Arménio Carlos, discreto a observar as movimentações foi enfático a defender a celebração na rua em tempo de pandemia. "Este é um momento de compromisso em relação ao futuro, De lançamento do antivírus contra o desemprego, os despedimentos e a precariedade!"

"Precariedade", cortada por um traço vermelho, foi mesmo uma das palavras escolhidas para a nova roupagem destes dias de sindicalismo, cravada nas máscaras que quase todos os representantes dos sindicatos afetos à central disciplinadamente usaram durante cerca de uma hora de celebração. "Hoje deem demonstração da nossa firmeza e disciplina para levar por diante a defesa dos trabalhadores", gritava o speaker da organização, pouco antes da líder da CGTP Isabel Camarinha apelar à proibição dos despedimentos.

"Há um milhão no limiar da pobreza, salários cortados, trabalhadores em lay-off. O antivírus tem de ser contra a pobreza e a desigualdade, com novas políticas e com o pressuposto dos trabalhadores serem o mais importante nas políticas económicas dos próximos tempos"

Arménio Carlos, que a antecedeu no cargo, também garantia aos jornalistas, com poucos curiosos à espreita e sem vislumbre de pessoas nas varandas dos prédios da Alameda., que aquela era uma demonstração de força, porque a "vida não pode parar". Frase que o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, que ali também deu ar de sua graça como sempre, voltou a repetir. "Há um milhão no limiar da pobreza, salários cortados, trabalhadores em lay-off. O antivírus tem de ser contra a pobreza e a desigualdade, com novas políticas e com o pressuposto dos trabalhadores serem o mais importante nas políticas económicas dos próximos tempos".

As exigências da CGTP
A nova secretária-geral da CGTP, Isabel Camarinha, começou a falar já passava das 15:00, depois de ter cumprimentado o antecessor com um toque de cotovelo. "O tempo que vivemos comprova a importância fundamental do trabalho e dos trabalhadores. Estamos na rua, por direito e por dever, para com aqueles que representamos e que enfrentam uma brutal ofensiva, que estão sujeitos ao aproveitamento que alguns fazem do vírus para acentuar a exploração", disse.

Isabel Camarinha lançou o mote dos próximos tempos de luta da maior central sindical. Exigir a proibição dos despedimentos e a reversão dos que já aconteceram - e que estimou em 350 mil, a maioria com vínculos precários -, acabar com os cortes de ordenados dos trabalhadores em regime de lay-off e que seja o Orçamento do Estado a assumir o seu pagamento para a Segurança Social não ser descapitalizada. "Os trabalhadores não querem caridade, exigimos seus postos de trabalho e as suas retribuições".


"Os trabalhadores não querem caridade, exigimos seus postos de trabalho e as suas retribuições"

A sindicalista frisou bem que, apesar da pandemia, a CGTP não irá alterar o caderno de encargos que já tinha para este ano, em particular a exigência de aumentos de salários e do salário mínimo nacional; a revogação das normas "gravosas" da legislação laboral em particular da contratação coletiva, a luta pelas 35 horas em todos os setores; e apelar a alterações na política fiscal, pondo "o capital a pagar impostos para aumentar a receita e desonerar os rendimentos do trabalho". E "agora, mais do que nunca, ficou demonstrada a importância e o papel do Estado".

Sem ataques diretos ao governo, Isabel Camarinha apontou baterias para Bruxelas. "Estamos de novo reféns de uma 'bazuca' vinda de Bruxelas, mas nós sabemos que dali, as 'bazucas' são sempre rápidas a atacar os direitos, deixar o país mais dependente".

A perseguição há 50 anos
O sol e o calor não trouxeram muitos populares à celebração na rua. A PSP manteve-se discreta a meio da Alameda, sem necessidade de qualquer intervenção para manter o distanciamento social. O vasto relvado esteve sempre pontuado apenas pelos sindicalistas e as ruas laterais com um movimento reduzido e até quase alheio ao que ali se passava.

Encostada ao muro que ladeia a Alameda junto à Fonte Luminosa, Teresa veio como sempre ao 1.º de Maio. "Não podemos ter medo e temos de ajudar quem se bate pelo direito dos trabalhadores". Eduardo é mas idoso e assume que que "qualquer pretexto é bom para sair de casa". São dos poucos que ali resistem, numa celebração que se queria mesmo com poucas pessoas e muito distanciamento social, num fim de semana sujeito a apertadas normas de circulação.


"É preciso não esquecer que neste momento dezenas de milhares de trabalhadores com vínculos precários perderam o seu trabalho, viram reduzida a sua proteção social e limitados os seus direitos"

O líder do PCP quis dar a este 1.º de Maio na rua uma roupagem de "esperança". Jerónimo de Sousa insistiu que "é preciso não esquecer que neste momento dezenas de milhares de trabalhadores com vínculos precários perderam o seu trabalho, viram reduzida a sua proteção social e limitados os seus direitos".

E para contrariar os que criticaram a decisão da CGTP, afeta ao PCP, de ir para a rua no Dia do Trabalhador apesar de todas as restrições, Jerónimo de Sousa lembrou que a data se celebra hà 50 anos, ainda em ditadura. ""Para quem comemorou há 50 anos, no Rossio, com perseguição, com prisão e nunca desistiu de fazer o 1.º de Maio... " Estava tudo dito.

2.5.12

“Parece o fim do mundo!”

Por Ana Henriques, in Público on-line

Em dia feriado gerou-se o pandemónio nos supermercados de maior dimensão da cadeia Pingo Doce, que foram varridos por multidões de compradores à procura de garantir um desconto de 50 por cento em compras superiores a 100 euros. Conflitos entre clientes a tentar passar à frente de outros nas filas para pagar obrigaram em Almada e na Quinta do Mocho, em Loures, mas também na Rua Carlos Mardel, em Lisboa, à intervenção da polícia.

Famílias inteiras enfiaram-se dentro dos estabelecimentos a encher os carrinhos. Quando foi anunciado o encerramento do supermercado de Telheiras, em Lisboa, ao final do dia, um funcionário temia o pior, perante algumas dezenas de pessoas que ainda tentavam entrar: “Em Odivelas, Benfica e na Belavista (Chelas) houve pancada e até facadas. Foi preciso chamar a polícia de choque”, contava. As autoridades não confirmaram a informação, mas foram vários os casos de vandalismo com laivos de saque e pilhagem, como no Monte Abraão. Em Sintra, o IC19 teve de ser temporariamente fechado, porque as pessoas que se deslocavam para o centro comercial Forum Sintra eram tantas que o trânsito não escoava. Em Queluz houve pessoas que foram para a porta do Pingo Doce logo às 4h da madrugada, para apanhar vez.

“Isto é desumano. Isto é fazer pouco das pessoas”, queixava-se uma porteira de 70 anos, Alzira Gama, os tornozelos num trambolho depois de sete horas em pé na fila do supermercado de Telheiras para pagar. Acabou por se sentar numa das muitas cadeiras espalhadas pelo recinto, que parecia ter sido saqueado em tempo de guerra, muitas das prateleiras já vazias e mantimentos espalhados pelo chão.

“F... agora só a gamar!”, dizia um rapaz de muletas perante a escassez de produtos nas prateleiras à medida que as horas avançavam. Uma assistente operacional da Câmara de Lisboa explicava que quando chegou a Telheiras, ainda de manhã, já se havia esgotado o açúcar. “Primeiro tentei ir ao Pingo Doce de Chelas, onde moro, mas a confusão era tal que não consegui lá entrar. Depois vim para aqui, estou há cinco horas na fila com o meu marido. Fomos tirando uns iogurtes da prateleira e comendo. Pagá-los? O que custam não paga as horas de espera”.

Comer e não pagar

Muitos foram perdendo a vergonha e agarrando o que encontraram nas prateleiras para entreter o estômago, apesar de o estabelecimento ter zona de refeições, contribuindo para o acumular de detritos nos corredores. Entre os boiões pagos e os comidos no momento, a devastação na zona dos iogurtes foi total. Na zona dos champôs a acumulação de nabos, presuntos e leite tornava impossível uma orientação lógica dentro da loja. “Parece o fim do mundo!”, comentava um desempregado, perante as dezenas de pessoas a vasculhar em caixotes de mercadorias como se fossem sem-abrigo. As zonas de bebidas foram das mais afectadas pelo tumulto, por causa das garrafas partidas, que iam sendo paulatinamente levadas pelos funcionários da limpeza.

Supermercados houve que encerraram temporariamente a meio do dia, numa tentativa de retomar a normalidade e repor os produtos levados em barda. Uma cliente da loja da Penha, em Faro, Otávia Brito, contou à Lusa que estava à espera que as portas reabrissem para ir fazer mais compras, depois de já ter gasto perto de 700 euros, valor que, sem o desconto, se cifraria em 1400.“A mim não me apanham cá noutra. Por amor de Deus!”, dizia uma desempregada em Telheiras, os congelados há muito derretidos dentro do carrinho de compras roubado no vizinho Continente. Quem não conseguiu carrinho improvisou. Alguns arrastaram pelo chão enormes pedaços de cartão com os produtos em cima.

O caos foi tal forma que a Jerónimo Martins se viu obrigada a antecipar a hora de fecho dos estabelecimentos, das 20h para as 18h, de forma a poder escoar “em segurança” os clientes.“ Para, até à hora de fecho da loja, as pessoas poderem fazer os seus pagamento e poderem sair”, referiu à agência Lusa fonte do grupo de distribuição.