Diário on-line
Conclusões foram apresentadas num estudo promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que intitulam de "os três D da pobreza".
O desemprego, a doença e o divórcio são fatores que contribuem para a entrada numa situação de pobreza ou que impedem que se saia dessa condição, noticia a Record TV Europa, segundo o resultado do estudo “Pobreza em Portugal – Trajetos e Quotidianos”, documento promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que chama a esses três processos de produção, reprodução ou intensificação dessa situação “os três D da pobreza”.
“Se nos debruçamos sobre os fatores que levam as pessoas entrar na pobreza, são os mesmos que impedem que elas saiam”, disse, em declarações à agência Lusa, o coordenador do estudo, Fernando Diogo, professor de Sociologia na Universidade dos Açores.
O académico realçou que esses três motivos individuais que “afetam fortemente a vida” das pessoas “e constrangem as suas escolhas” devem ser entendidos também “a nível contextual”.
Fernando Diogo enfatizou a articulação com a organização do mercado de trabalho, “onde se incluem as questões da precariedade, da informalidade, dos baixos salários e da zona intermédia entre emprego e desemprego”; dos apoios estatais, como são os casos dos apoios na doença e no desemprego, e das questões mais conjunturais, como períodos de crise.
“Claro que há sempre casos que saem disto, mas a esmagadora maioria dos casos são explicáveis com a conjugação destes fatores, em geometria variável e no respeito pela singularidade de cada perfil e de cada percurso individual”, vincou.
O investigador, segundo a Record TV Europa, frisou terem sido identificados “quatro perfis de pobreza em Portugal”: os reformados (27,5%), os precários (26,6%), os desempregados (13%) e os trabalhadores (32,9%)”.
A equipa que desenvolveu o estudo, salientou o autor, ficou surpreendida “com o peso da doença”, mencionado por muitos dos 91 entrevistados, “para ajudar a explicar a situação de pobreza delas ao longo do seu trajeto”, especialmente entre os reformados, mas também os desempregados.
Fernando Diogo sublinhou referir-se a doenças crónicas ou incapacitantes, como deficiência.
“Os relatos vão no sentido de mostrar como a incidência da doença afetou as suas vidas ao longo de toda a sua vida. A doença ajuda a explicar porque é que estão na situação difícil em que estão”, salientou o coordenador, que se refere maioritariamente ao perfil dos reformados, mas também aos desempregados, em particular de longa duração.
Tal como a doença, dos próprios ou de familiares, é referida a morte de pessoas do agregado como fator que dificultou a trajetória dos entrevistados no âmbito do estudo ou que precipitou a entrada num contexto de pobreza.
A doença ou a morte, realçou o investigador, não é um problema individual, mas com impacto no círculo familiar, tal como acontece com o desemprego.
Também o divórcio, ou a separação dos casais, segundo o estudo, “em situações que já de si são de grande fragilidade, leva facilmente os indivíduos para a pobreza, considerando a redução de rendimentos causada pela separação e os seus efeitos em cascata, incluindo na atividade laboral”.
“Estes elementos estão presentes na trajetória de vida dos entrevistados, agravando situações já de si difíceis ou condicionando fortemente a vida dos indivíduos, reduzindo a sua margem de manobra e tornando as suas possibilidades de saírem da situação de pobreza mais remotas”, acentuou o estudo.
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15.4.21
A fronteira invisível da pobreza
Nuno Francisco, in Jornal do Fundão
O jornal Público deu-nos, na segunda-feira, um breve retrato da pobreza em Portugal, com base no estudo “A Pobreza em Portugal – Trajetos e Quotidianos” realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Uma das principais conclusões é a de que mais de um terço dos pobres em Portugal são trabalhadores, a maioria dos quais com vínculos estáveis e salários certos ao fim do mês. Ou seja, ter emprego não é garantia absoluta para fugir à pobreza na qual se entrava oficialmente, em 2019, (ano dos dados mais recentes) com rendimentos abaixo de 540 euros por mês. De resto, são mais que os reformados, que representavam 27,5 por cento do total de pobres, 26,6 por cento no caso dos trabalhadores precários e 13 por cento no que diz respeito a desempregados.
Globalmente, cerca de 16 por cento da população era considerada pobre. É muito fácil olhar para estes números e sentir que ainda muito há a fazer para atenuar a linha que nos separa de uma vida digna e confortável e a tragédia da pobreza, que não se revela apenas nas questões económicas e acesso a bens, mas também nas implicações psicológicas. Para quem trabalha, para quem está reformado e para quem está desempregado o risco está sempre presente, mesmo que momentaneamente nos consideremos a salvo de um dia cair abaixo dessa fronteira invisível. O ponto onde estamos hoje está longe de ser o ponto de onde partimos, naturalmente.
Não valerá a pena avançar aqui com os indicadores económicos e sociais com o que o país se confrontava no dia 24 de abril de 1974. Quem ainda tem a memória desses tempos será a melhor testemunha do que éramos e do caminho que foi sendo feito em democracia. E mesmo dentro da própria democracia: Se hoje, 16,2 por cento dos portugueses estão abaixo da linha da pobreza, em 2003 eram 20 por cento. É certo que a estatística não coloca pão na mesa de ninguém e aos muitos milhares que se encontram em profunda situação de fragilidade, tudo isto diz muito pouco, ainda para mais no atual contexto onde o abismo da pobreza já capturou muitas famílias e ameaça devorar muitas outras. Nestes casos, como em muitos outros, não se espere que seja apenas o mercado a tratar dos equilíbrios e a corrigir as barreiras estruturais cavadas entre os mais ricos e os mais pobres.
O funcionamento da economia de mercado é, até prova em contrário, aquela que mais contribuiu para elevar os padrões de vida das sociedades livres. Mas esses padrões não são apenas visíveis e sustentáveis pelo funcionamento da economia per si, mas quando acompanhados por uma eficaz modelação de um Estado determinado em atenuar as inevitáveis desigualdades que o funcionamento da economia origina. Não há harmonia nem sã convivência social sem se combaterem os declives sociais. Se a economia deve ser baseada na livre iniciativa, ela também deve ser responsável e responsabilizável; uma economia comprometida connosco e com o planeta.
E esse é um papel de responsabilidade social de quem investe e emprega, mas também a de um regulador: um estado decidido – e não autoritário -; interventivo – e não estatizante – , a quem cabe desenhar e aplicar os mecanismos, nomeadamente fiscais, de redistribuição e de apoio. Só há Estado a mais quando a sua presença apenas é notada pelo discutível uso dos fundos públicos e pelo peso desmesurado do qual apenas resulta ineficiência.
O jornal Público deu-nos, na segunda-feira, um breve retrato da pobreza em Portugal, com base no estudo “A Pobreza em Portugal – Trajetos e Quotidianos” realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Uma das principais conclusões é a de que mais de um terço dos pobres em Portugal são trabalhadores, a maioria dos quais com vínculos estáveis e salários certos ao fim do mês. Ou seja, ter emprego não é garantia absoluta para fugir à pobreza na qual se entrava oficialmente, em 2019, (ano dos dados mais recentes) com rendimentos abaixo de 540 euros por mês. De resto, são mais que os reformados, que representavam 27,5 por cento do total de pobres, 26,6 por cento no caso dos trabalhadores precários e 13 por cento no que diz respeito a desempregados.
Globalmente, cerca de 16 por cento da população era considerada pobre. É muito fácil olhar para estes números e sentir que ainda muito há a fazer para atenuar a linha que nos separa de uma vida digna e confortável e a tragédia da pobreza, que não se revela apenas nas questões económicas e acesso a bens, mas também nas implicações psicológicas. Para quem trabalha, para quem está reformado e para quem está desempregado o risco está sempre presente, mesmo que momentaneamente nos consideremos a salvo de um dia cair abaixo dessa fronteira invisível. O ponto onde estamos hoje está longe de ser o ponto de onde partimos, naturalmente.
Não valerá a pena avançar aqui com os indicadores económicos e sociais com o que o país se confrontava no dia 24 de abril de 1974. Quem ainda tem a memória desses tempos será a melhor testemunha do que éramos e do caminho que foi sendo feito em democracia. E mesmo dentro da própria democracia: Se hoje, 16,2 por cento dos portugueses estão abaixo da linha da pobreza, em 2003 eram 20 por cento. É certo que a estatística não coloca pão na mesa de ninguém e aos muitos milhares que se encontram em profunda situação de fragilidade, tudo isto diz muito pouco, ainda para mais no atual contexto onde o abismo da pobreza já capturou muitas famílias e ameaça devorar muitas outras. Nestes casos, como em muitos outros, não se espere que seja apenas o mercado a tratar dos equilíbrios e a corrigir as barreiras estruturais cavadas entre os mais ricos e os mais pobres.
O funcionamento da economia de mercado é, até prova em contrário, aquela que mais contribuiu para elevar os padrões de vida das sociedades livres. Mas esses padrões não são apenas visíveis e sustentáveis pelo funcionamento da economia per si, mas quando acompanhados por uma eficaz modelação de um Estado determinado em atenuar as inevitáveis desigualdades que o funcionamento da economia origina. Não há harmonia nem sã convivência social sem se combaterem os declives sociais. Se a economia deve ser baseada na livre iniciativa, ela também deve ser responsável e responsabilizável; uma economia comprometida connosco e com o planeta.
E esse é um papel de responsabilidade social de quem investe e emprega, mas também a de um regulador: um estado decidido – e não autoritário -; interventivo – e não estatizante – , a quem cabe desenhar e aplicar os mecanismos, nomeadamente fiscais, de redistribuição e de apoio. Só há Estado a mais quando a sua presença apenas é notada pelo discutível uso dos fundos públicos e pelo peso desmesurado do qual apenas resulta ineficiência.
14.4.21
CGTP responsabiliza política de baixos salários por pobreza dos trabalhadores
in o Observador
O estudo diz que um quinto da população portuguesa é pobre e a maior parte das pessoas em situação de pobreza trabalha. A CGTP culpa bloqueio da contratação coletiva e a política de baixos salários.
A CGTP responsabilizou esta segunda-feira o bloqueio da contratação coletiva e a política de baixos salários pelo facto de um número significativo de trabalhadores viver em situação de pobreza em Portugal.
Um estudo sobre pobreza surpreendeu os investigadores, mostrando que uma parte significativa dos trabalhadores, sobretudo trabalhadores efetivos, está em situação de pobreza. Isto não nos surpreende, pois há muito que alertámos para esta situação, que é resultado do boicote patronal à contratação coletiva, que dura há anos”, disse à agência Lusa, Andreia Araújo, da comissão Executiva da CGTP.
O estudo “Pobreza em Portugal — Trajetos e Quotidianos”, divulgado esta segunda-feira, indica que um quinto da população portuguesa é pobre e a maior parte das pessoas em situação de pobreza trabalha, sendo que a maioria dos trabalhadores nessa condição tem vínculos laborais sem termo.
Segundo a dirigente da CGTP, as entidades patronais aproveitam-se da possibilidade de poder fazer caducar os contratos coletivos de trabalho para bloquear a negociação, congelando salários e carreiras.
Aqui está o resultado: os trabalhadores não têm aumentos salariais, a não ser o do salário mínimo, que é obrigatório, e estão cada vez mais pobres porque os salários são em geral muito baixos”, disse.
Andreia Araújo salientou que esta política de baixos salários tem repercussões nas situações de doença e na velhice, contribuindo para aumentar a pobreza, nomeadamente dos reformados, que “têm pensões muito baixas, porque tiveram salários muito baixos”. “Mas isto não é uma inevitabilidade, estas pessoas não têm de ser pobres toda a vida. Se as reivindicações da CGTP tivessem resposta não teríamos esta situação”, disse.
A responsável da CGTP considerou que a valorização das carreiras e das profissões, o aumento de 90 euros para todos e um salário mínimo de 850 euros ajudariam a reduzir a pobreza.
Sabemos que 90 euros de aumento não fariam milagres, mas melhorariam a situação de muitos trabalhadores, assim como um salário mínimo de 850 euros, pois há um número muito elevado de trabalhadores com a remuneração mínima”, disse a sindicalista.
O estudo “Pobreza em Portugal — Trajetos e Quotidianos”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e coordenado por Fernando Diogo, professor de Sociologia na Universidade dos Açores, resulta da análise dos últimos dados disponíveis do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR), relativos a 2018, aliada a uma análise qualitativa de “91 entrevistas aprofundadas por todo o país“.
Em declarações à agência Lusa, Fernando Diogo salientou que o estudo identificou “quatro perfis de pobreza em Portugal, que são uma novidade: os reformados (27,5%), os precários (26,6%), os desempregados (13%) e os trabalhadores (32,9%)“. Tendo em conta que mais de metade das pessoas em situação de pobreza trabalha, a análise concluiu que “ter um emprego seguro não é suficiente para sair de uma situação de pobreza”.
O estudo diz que um quinto da população portuguesa é pobre e a maior parte das pessoas em situação de pobreza trabalha. A CGTP culpa bloqueio da contratação coletiva e a política de baixos salários.
A CGTP responsabilizou esta segunda-feira o bloqueio da contratação coletiva e a política de baixos salários pelo facto de um número significativo de trabalhadores viver em situação de pobreza em Portugal.
Um estudo sobre pobreza surpreendeu os investigadores, mostrando que uma parte significativa dos trabalhadores, sobretudo trabalhadores efetivos, está em situação de pobreza. Isto não nos surpreende, pois há muito que alertámos para esta situação, que é resultado do boicote patronal à contratação coletiva, que dura há anos”, disse à agência Lusa, Andreia Araújo, da comissão Executiva da CGTP.
O estudo “Pobreza em Portugal — Trajetos e Quotidianos”, divulgado esta segunda-feira, indica que um quinto da população portuguesa é pobre e a maior parte das pessoas em situação de pobreza trabalha, sendo que a maioria dos trabalhadores nessa condição tem vínculos laborais sem termo.
Segundo a dirigente da CGTP, as entidades patronais aproveitam-se da possibilidade de poder fazer caducar os contratos coletivos de trabalho para bloquear a negociação, congelando salários e carreiras.
Aqui está o resultado: os trabalhadores não têm aumentos salariais, a não ser o do salário mínimo, que é obrigatório, e estão cada vez mais pobres porque os salários são em geral muito baixos”, disse.
Andreia Araújo salientou que esta política de baixos salários tem repercussões nas situações de doença e na velhice, contribuindo para aumentar a pobreza, nomeadamente dos reformados, que “têm pensões muito baixas, porque tiveram salários muito baixos”. “Mas isto não é uma inevitabilidade, estas pessoas não têm de ser pobres toda a vida. Se as reivindicações da CGTP tivessem resposta não teríamos esta situação”, disse.
A responsável da CGTP considerou que a valorização das carreiras e das profissões, o aumento de 90 euros para todos e um salário mínimo de 850 euros ajudariam a reduzir a pobreza.
Sabemos que 90 euros de aumento não fariam milagres, mas melhorariam a situação de muitos trabalhadores, assim como um salário mínimo de 850 euros, pois há um número muito elevado de trabalhadores com a remuneração mínima”, disse a sindicalista.
O estudo “Pobreza em Portugal — Trajetos e Quotidianos”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e coordenado por Fernando Diogo, professor de Sociologia na Universidade dos Açores, resulta da análise dos últimos dados disponíveis do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR), relativos a 2018, aliada a uma análise qualitativa de “91 entrevistas aprofundadas por todo o país“.
Em declarações à agência Lusa, Fernando Diogo salientou que o estudo identificou “quatro perfis de pobreza em Portugal, que são uma novidade: os reformados (27,5%), os precários (26,6%), os desempregados (13%) e os trabalhadores (32,9%)“. Tendo em conta que mais de metade das pessoas em situação de pobreza trabalha, a análise concluiu que “ter um emprego seguro não é suficiente para sair de uma situação de pobreza”.
13.4.21
Eugénio da Fonseca: “É um escândalo" um terço dos pobres serem trabalhadores
Ana Carrilho , Marta Grosso , Beatriz Lopes, in RR
A Renascença ouviu reações ao estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre pobreza em Portugal. O padre Jardim Moreira aponta a iliteracia e as famílias monoparentais como problemas a resolver e a presidente da Confederação Nacional de Ação sobre o Trabalho Infantil lembra sublinha a importância dos salários dignos.
"Se queremos que as famílias tenham mais filhos, os pais têm de ganhar o suficiente", diz Fátima Pinto. Foto: EPA
Cerca de 20% da população portuguesa é pobre e a maior fatia é de pessoas que trabalham: cerca de um terço. Eugénio da Fonseca, presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado, manifesta-se surpreendido com uma taxa tão alta e considera um escândalo que tanta gente que trabalha não consiga um salário e um trabalho digno.
“É um escândalo nós termos 32,7% dos trabalhadores em condição de pobreza. Não é justo que se usem argumentos para estigmatizar os pobres e há muita gente a trabalhar e o resultado do seu trabalho, o valor dos salários não são suficientes. É uma injustiça redobrada, porque muitas vezes são trabalhos até em situações pouco dignas”, defende em declarações à Renascença.
Eugénio da Fonseca mostra-se muito preocupado com o facto de a pobreza não se prender apenas com o salário, mas também o acesso a bens e serviços essenciais como a habitação ou a saúde.
Ser pobre não pode ser uma fatalidade, afirma. “Há que criar condições alternativas em termos de pedagogia, em termos didáticos, em forma de currículos alternativos para tornar a escola mais atraente”, aponta, considerando que “há aqui uma discriminação que leva a insucesso escolar e o abandono precoce para satisfazer a falta de rendimentos que existe em muitas famílias é altamente preocupante”.
Estudo
Pobreza em Portugal. "Não basta ter um emprego seguro"
O presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado sublinha que o estudo foi feito antes da pandemia, o que significa que a realidade de hoje pode ser muito mais grave e dramática.
Eugénio da Fonseca lembra o problema das moratórias que estão a chegar ao fim e defende medidas que atenuem o impacto da necessidade de resolver as dívidas sem perda do essencial, como a habitação.
“É preciso ter uma atenção para a forma como se vai amortizar as dívidas que as pessoas contraíram para não perder eletricidade, água, gás e a habitação em que vivem. Que apoios é que as pessoas vão ter para não carregarem às costas uma dívida que vai aumentar e que pode levar efetivamente àquilo que não se desejou nestes últimos meses, que é a perda do acesso a estes bens básicos para uma subsistência digna?”, questiona.
Iliteracia e famílias monoparentais
À Renascença, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza diz que, neste momento, há dois problemas principais no que toca à pobreza em Portugal: as famílias monoparentais que não têm capacidade para pagar todas as despesas e a iliteracia digital que se traduz em baixos salários.
“Nós estamos com muita gente com bastante iliteracia escolar, mas temos agora também a iliteracia digital e se as pessoas não tiverem possibilidade de frequentar a escola e serem acompanhadas por uma formação e qualificação profissional, dificilmente poderão entrar depois na vida ativa do emprego”, aponta o padre Agostinho Jardim Moreira.
“Outro problema é das famílias monoparentais. A pobreza trata-se essencialmente no feminino. Fica a mulher com os filhos, não tem capacidade económica para pagar casa ou renda, não pode acompanhar os filhos, porque vai trabalhar e isto cria um problema muito grave ao nível familiar”.
“Não basta dar dinheiro”
O padre Jardim Moreira lembra que a pobreza coloca em causa a democracia e apela ao Governo que, juntamente com as Câmaras e Juntas de Freguesia, criem programas de formação e de acompanhamento de pessoas em situação de pobreza em Portugal. Até porque o problema, diz, não se resolve com subsídios.
“Temos de perceber que não basta dar dinheiro. Já sabemos, por um estudo que foi feito há cerca de dois anos, que em Portugal são precisas cinco gerações para sair da pobreza. Quer dizer que o dinheiro que se gasta não atinge as causas que geram a pobreza e, portanto, é necessária uma intervenção que vá a essas causas e que ajude as pessoas pela formação, pela informação, pela capacitação e pelo acompanhamento, para elas poderem participar e entrar na vida ativa e não ficarem toda a vida a viver do subsídio”, sustenta.
Na opinião do presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, “já se criou em Portugal uma certa mentalidade de que os pais vivem do RSI [Rendimento Social de Inserção], os filhos também vão viver do RSI e isto parece quase uma profissão”.
“Salários têm de ser mais justos”
A presidente da Confederação Nacional de Ação sobre o Trabalho Infantil (CNASTI ) não se mostra surpreendida com os números conhecidos nesta seguinda-feira sobre a pobreza em Portugal.
Na opinião de Fátima Pinto, tudo começa em salários justos para os pais e apoios suficientes e em tempo útil. Isto, para evitar também o abandono escolar das crianças.
“Os salários têm de ser mais justos e sejam suficientes para as famílias viverem com dignidade. Se queremos que as famílias tenham dois ou três filhos, os pais têm de ganhar o suficiente para que as crianças sejam mantidas, possam ir para a escola, possam vestir, possam habitar uma habitação digna e que haja apoios às famílias que caiam no desemprego, que caiam em situação de doença e que haja apoios rápidos. Que se resolvam os problemas”, defende, em declarações à Renascença.
A dirigente associativa chama ainda a atenção para a responsabilidade dos empresários nesta matéria. “Têm uma responsabilidade muito grande, porque quando se fala em aumentos de salários mínimos parece que se fala no diabo do inferno”, alega.
“É importante que as pessoas percebam que as famílias têm de ter os rendimentos para viver com dignidade. Enquanto isto não acontecer, correremos sempre o risco muito elevado de ter crianças a abandonar as escolas, crianças no mundo do trabalho, seja em que situação for”, argumenta.
Com a crise pandémica, Fátima Pinto diz que há muitas crianças, concretamente das famílias mais pobres, que não estão a voltar à escola porque muitas vezes até são marginalizados – algo que considera preocupante.
Segundo o estudo divulgado nesta segunda-feira, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, um em cada três portugueses pobres tem um emprego estável, mas os salários não são suficientes para dar resposta à família, que muitas vezes com filhos tem adultos desempregados.
Os investigadores sustentam que a razão da pobreza "reside na coexistência do trabalho com baixos salários" com o chamado "desemprego familiar", que caracteriza a combinação no mercado de trabalho dos membros do agregado familiar, sendo que o rendimento não constitui condição suficiente para a superação da pobreza.
A pobreza em Portugal é o tema do programa Da Capa à Contracapa, que vai para o ar na terça-feira, às 23h na Renascença e que poderá ouvir de novo em podcast, na app.
A Renascença ouviu reações ao estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre pobreza em Portugal. O padre Jardim Moreira aponta a iliteracia e as famílias monoparentais como problemas a resolver e a presidente da Confederação Nacional de Ação sobre o Trabalho Infantil lembra sublinha a importância dos salários dignos.
"Se queremos que as famílias tenham mais filhos, os pais têm de ganhar o suficiente", diz Fátima Pinto. Foto: EPA
Cerca de 20% da população portuguesa é pobre e a maior fatia é de pessoas que trabalham: cerca de um terço. Eugénio da Fonseca, presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado, manifesta-se surpreendido com uma taxa tão alta e considera um escândalo que tanta gente que trabalha não consiga um salário e um trabalho digno.
“É um escândalo nós termos 32,7% dos trabalhadores em condição de pobreza. Não é justo que se usem argumentos para estigmatizar os pobres e há muita gente a trabalhar e o resultado do seu trabalho, o valor dos salários não são suficientes. É uma injustiça redobrada, porque muitas vezes são trabalhos até em situações pouco dignas”, defende em declarações à Renascença.
Eugénio da Fonseca mostra-se muito preocupado com o facto de a pobreza não se prender apenas com o salário, mas também o acesso a bens e serviços essenciais como a habitação ou a saúde.
Ser pobre não pode ser uma fatalidade, afirma. “Há que criar condições alternativas em termos de pedagogia, em termos didáticos, em forma de currículos alternativos para tornar a escola mais atraente”, aponta, considerando que “há aqui uma discriminação que leva a insucesso escolar e o abandono precoce para satisfazer a falta de rendimentos que existe em muitas famílias é altamente preocupante”.
Estudo
Pobreza em Portugal. "Não basta ter um emprego seguro"
O presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado sublinha que o estudo foi feito antes da pandemia, o que significa que a realidade de hoje pode ser muito mais grave e dramática.
Eugénio da Fonseca lembra o problema das moratórias que estão a chegar ao fim e defende medidas que atenuem o impacto da necessidade de resolver as dívidas sem perda do essencial, como a habitação.
“É preciso ter uma atenção para a forma como se vai amortizar as dívidas que as pessoas contraíram para não perder eletricidade, água, gás e a habitação em que vivem. Que apoios é que as pessoas vão ter para não carregarem às costas uma dívida que vai aumentar e que pode levar efetivamente àquilo que não se desejou nestes últimos meses, que é a perda do acesso a estes bens básicos para uma subsistência digna?”, questiona.
Iliteracia e famílias monoparentais
À Renascença, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza diz que, neste momento, há dois problemas principais no que toca à pobreza em Portugal: as famílias monoparentais que não têm capacidade para pagar todas as despesas e a iliteracia digital que se traduz em baixos salários.
“Nós estamos com muita gente com bastante iliteracia escolar, mas temos agora também a iliteracia digital e se as pessoas não tiverem possibilidade de frequentar a escola e serem acompanhadas por uma formação e qualificação profissional, dificilmente poderão entrar depois na vida ativa do emprego”, aponta o padre Agostinho Jardim Moreira.
“Outro problema é das famílias monoparentais. A pobreza trata-se essencialmente no feminino. Fica a mulher com os filhos, não tem capacidade económica para pagar casa ou renda, não pode acompanhar os filhos, porque vai trabalhar e isto cria um problema muito grave ao nível familiar”.
“Não basta dar dinheiro”
O padre Jardim Moreira lembra que a pobreza coloca em causa a democracia e apela ao Governo que, juntamente com as Câmaras e Juntas de Freguesia, criem programas de formação e de acompanhamento de pessoas em situação de pobreza em Portugal. Até porque o problema, diz, não se resolve com subsídios.
“Temos de perceber que não basta dar dinheiro. Já sabemos, por um estudo que foi feito há cerca de dois anos, que em Portugal são precisas cinco gerações para sair da pobreza. Quer dizer que o dinheiro que se gasta não atinge as causas que geram a pobreza e, portanto, é necessária uma intervenção que vá a essas causas e que ajude as pessoas pela formação, pela informação, pela capacitação e pelo acompanhamento, para elas poderem participar e entrar na vida ativa e não ficarem toda a vida a viver do subsídio”, sustenta.
Na opinião do presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, “já se criou em Portugal uma certa mentalidade de que os pais vivem do RSI [Rendimento Social de Inserção], os filhos também vão viver do RSI e isto parece quase uma profissão”.
“Salários têm de ser mais justos”
A presidente da Confederação Nacional de Ação sobre o Trabalho Infantil (CNASTI ) não se mostra surpreendida com os números conhecidos nesta seguinda-feira sobre a pobreza em Portugal.
Na opinião de Fátima Pinto, tudo começa em salários justos para os pais e apoios suficientes e em tempo útil. Isto, para evitar também o abandono escolar das crianças.
“Os salários têm de ser mais justos e sejam suficientes para as famílias viverem com dignidade. Se queremos que as famílias tenham dois ou três filhos, os pais têm de ganhar o suficiente para que as crianças sejam mantidas, possam ir para a escola, possam vestir, possam habitar uma habitação digna e que haja apoios às famílias que caiam no desemprego, que caiam em situação de doença e que haja apoios rápidos. Que se resolvam os problemas”, defende, em declarações à Renascença.
A dirigente associativa chama ainda a atenção para a responsabilidade dos empresários nesta matéria. “Têm uma responsabilidade muito grande, porque quando se fala em aumentos de salários mínimos parece que se fala no diabo do inferno”, alega.
“É importante que as pessoas percebam que as famílias têm de ter os rendimentos para viver com dignidade. Enquanto isto não acontecer, correremos sempre o risco muito elevado de ter crianças a abandonar as escolas, crianças no mundo do trabalho, seja em que situação for”, argumenta.
Com a crise pandémica, Fátima Pinto diz que há muitas crianças, concretamente das famílias mais pobres, que não estão a voltar à escola porque muitas vezes até são marginalizados – algo que considera preocupante.
Segundo o estudo divulgado nesta segunda-feira, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, um em cada três portugueses pobres tem um emprego estável, mas os salários não são suficientes para dar resposta à família, que muitas vezes com filhos tem adultos desempregados.
Os investigadores sustentam que a razão da pobreza "reside na coexistência do trabalho com baixos salários" com o chamado "desemprego familiar", que caracteriza a combinação no mercado de trabalho dos membros do agregado familiar, sendo que o rendimento não constitui condição suficiente para a superação da pobreza.
A pobreza em Portugal é o tema do programa Da Capa à Contracapa, que vai para o ar na terça-feira, às 23h na Renascença e que poderá ouvir de novo em podcast, na app.
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