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28.2.23

Um ano em Portugal. “Queremos ir para casa, para a nossa Ucrânia”

Ana Catarina André (texto) , Maria Costa Lopes (vídeo), in RR

Olexy e Natalya Sadokha fugiram da cidade de Lviv, poucos dias depois da invasão russa. Viajaram com a filha, o genro e os dois netos e instalaram-se na área metropolitana de Lisboa. Elogiam o modo como têm sido acolhidos por cá, mas não escondem que o que querem mesmo é voltar para casa.
Um ano em Portugal. “Queremos ir para casa, para a nossa Ucrânia”

A Ucrânia, sempre a Ucrânia. Todas as manhãs, assim que acorda, Natalya Sadokha, de 82 anos, senta-se ao computador para ler as notícias do seu país. Quer saber que cidades foram ocupadas pelos russos, se houve bombardeamentos massivos e se a região de Lviv, onde morava, foi afetada. Ao seu lado, o marido, Olexy Sadokha, de 86 anos, vai seguindo os relatos. Sente permanentemente saudades da Ucrânia. Em alguns dias, chega a dizer à família que vai regressar a casa, a pé.
Não deixa, contudo, de reconhecer o acolhimento que tem tido desde que, em março de 2022, poucos dias após o início da guerra, fugiu com a mulher, a filha Kateryna Ostrovka, de 56 anos, o genro, e os dois netos e procuraram abrigo em Portugal, onde vivia um dos filhos. “Sentimos a simpatia [dos portugueses], quando saímos de casa, ou entramos num supermercado, a compaixão que têm por nós nesta grande aflição”, diz, emocionado. “Mas queremos ir para casa, para a nossa Ucrânia, para a nossa Lviv.”

Desde que a guerra começou, há um ano, mais de 58 mil cidadãos pediram proteção temporária a Portugal. Como Olexy e a família, muitos acreditaram, na altura, que ficariam por cá apenas umas semanas. “Pensámos que não demoraríamos muito a voltar”, diz o ucraniano. “O mundo uniu-se, mas a agressão é tão grande que os países democráticos não querem entrar no conflito e começar a Terceira Guerra Mundial. Milhões de pessoas poderiam morrer.”

Um novo país depois dos 80 anos
Aos 86 anos, e depois de uma vida na Ucrânia, teve de se habituar a um novo país e a uma língua que continua a ter um som estranho. Valem-lhe, nos momentos mais difíceis, os passeios de fim de tarde com a mulher – vivem perto da praia, na Margem Sul, e o mar é, para eles, um bálsamo. Há poucas semanas, Natalya sofreu um enfarte, mas foi rapidamente socorrida. “Quando me levaram para o hospital, o médico disse-me: ‘Slava Ukraini’ [Glória à Ucrânia]. Fui muito bem atendida”, diz a ucraniana, contando que, aos poucos, foi recuperando.

A casa de duas assoalhadas, onde agora vive com o marido, foi cedida gratuitamente por um familiar, mas é pequena para esta família de seis. Além de Natalya e Olexy, moram ali Kateryna Ostrovka, a filha de ambos, e o marido Ilhor Ostrovski, juntamente com os dois filhos.

Um deles, Pavlo, de 36 anos, é portador de deficiência e, por isso, precisa de cuidados constantes por parte da família. “Graças a Deus, tomou sempre os medicamentos. Ainda não voltou a fazer reabilitação, mas entendemos perfeitamente que seja preciso tempo para que isso aconteça, e para que seja feito o diagnóstico em Portugal”, diz Kateryna Ostrovka, que é psicóloga e professora universitária.
Mais do que serem muitos numa casa exígua – Kateryna, o marido e o filho dormem na sala, é difícil contornar as condições de acessibilidade do espaço. O prédio não tem elevador, o que é um obstáculo para a cadeira de rodas de Pavlo. “O meu filho é muito grande. É muito difícil encontrar um apartamento que atenda às necessidades dele”, diz Kateryna Ostrovka. “Se houvesse algum programa de habitação social, poderíamos concorrer, mas não temos informação sobre o assunto.”


REPORTAGEM
Da Ucrânia para Portugal. Mudar de vida num par de horas


Kateryna e Ihor eram professores universitários. R(...)

As dificuldades de adaptação dos adolescentes
Maria, a filha mais nova de Kateryna Ostrovka e de Ilhor Ostrovski, tem tido dificuldade a adaptar-se a Portugal. Sente falta dos amigos e, apesar de ter sido matriculada numa escola, pouco depois de ter chegado, nem sempre é fácil convencê-la a ir às aulas.

Era uma excelente estudante na Ucrânia. A mãe, que enquanto psicóloga tem acompanhado, nos últimos meses, refugiados vindos do país, explica: “A faixa etária que mais tem sofrido com esta saída forçada é a dos adolescentes. Tiveram muita dificuldade em quebrar relações”.

Quem também tem sofrido com a adaptação são os idosos. “É-lhes complicado aprender o idioma, sair da terra onde sempre viveram e adaptar-se a um novo país. É uma grande tensão”, acrescenta, contando que esteve envolvida num projeto de apoio psicossocial dinamizado pela Associação de Ucranianos em Portugal.

Kateryna Ostrovka e o marido continuam a trabalhar à distância na universidade onde davam aulas, na cidade de Lviv. “Trabalho muito no computador, o que é bom para mim. Posso dedicar-me também à família”, afirma.

Enquanto responsável pelo departamento de educação especial, na instituição onde leciona, está, tal como o marido, a preparar-se para regressar ao país, assim que a guerra terminar. “Já estamos a pensar na Ucrânia depois da vitória. Sabemos que vamos ganhar e, enquanto cientistas, estamos a pensar em alguns passos, medidas, maneiras de desenvolver o sistema e o país.”

13.1.23

Eurobarómetro. Aumento do custo de vida e pobreza são as maiores preocupações dos portugueses


por Lusa, in RR


Com a guerra na Ucrânia a cumprir quase um ano e sem desfecho à vista continua a pairar o receio de uma escalada nuclear do conflito, que se refletiu na maioria dos mais de 1.000 cidadãos portugueses inquiridos no Eurobarómetro.

O aumento do custo de vida, como consequência da inflação exacerbada pela guerra na Ucrânia, assim como a pobreza e a exclusão social são as questões que mais preocupam os portugueses, de acordo com o último Eurobarómetro.

De acordo com o último relatório estatístico europeu, divulgado esta quinta-feira, que inquiriu 1.028 cidadãos portugueses de um total de 26.431 cidadãos pertencentes a Estados-membros da União Europeia (UE), 98% dos cidadãos nacionais identificou o aumento do custo de vida, por exemplo, através do aumento do preço de produtos alimentares e da energia como o assunto mais preocupante, uma percentagem que é em cinco pontos percentuais superior à média dos 27.

Apesar da preocupação, 47% dos inquiridos nacionais respondeu que até ao momento está a viver com algum conforto com os rendimentos de que dispõe, enquanto 40% revelou que enfrenta algumas dificuldades atualmente e 9% disse que enfrenta bastantes dificuldades com os rendimentos atuais. Em comparação com a média europeia, 46% responderam que vivem confortavelmente com os rendimentos que têm, enquanto 36% dizem passar por algumas dificuldades.

O tópico seguinte que mais preocupa a população nacional é a pobreza e a exclusão social (95%). Aqui há um hiato maior para a média europeia, já que 82% responderam que esta era uma preocupação maior.

Receio com a propagação de doenças infecciosas

Mas a maior disparidade surge quando a questão é sobre a possibilidade de propagação de doenças infecciosas como a Covid-19 ou a varíola dos macacos. Os portugueses são mais receosos do que a média europeia, uma vez que 83% responderam que estavam "preocupados" com essa hipótese, em oposição à média da UE, que é de 62%.

Com a guerra na Ucrânia a cumprir quase um ano e sem desfecho à vista continua a pairar o receio de uma escalada nuclear do conflito, que se refletiu na maioria dos mais de 1.000 cidadãos portugueses inquiridos. 89% respondeu que receia "incidentes nucleares" e apenas 9% respondeu que essa questão não levanta preocupações. Olhando para o conjunto dos países do bloco comunitário, 74% acredita que o risco é real, enquanto 25% descarta essa possibilidade.

Questionados também sobre o estado da generalidade do país, 43% dos portugueses inquiridos considerou que está a ir "na direção errada", mas aqui os portugueses estão abaixo da média europeia, que é de 62%. 30% dos cidadãos nacionais consideram que Portugal está no caminho certo, 16% não sabem e 11% consideraram que a situação do país continua igual.

Em relação ao estado da União Europeia, a percentagem portuguesa (35%) contrasta com a europeia (51%) quando a resposta é "as coisas estão a ir na direção errada. A mesma percentagem de portugueses considera que a União Europeia está no rumo correto.

Contudo, mais de metade dos portugueses (52%, no universo da amostra de 1.028) está otimista em relação ao futuro do bloco comunitário. Neste parâmetro, a população entre os 15 e os 24 anos e entre os 40 e os 54 anos é que apresenta uma fatia maior de otimismo em relação ao futuro da UE, 52% e 61%, respetivamente.

9.5.22

Mulheres, crianças e idosos retirados de siderurgia em Mariupol

José Volta e Pinto, in Público

Vice-primeira-ministra da Ucrânia, Iirina Bereshchuk, confirmou que todos os civis mais vulneráveis foram retirados da fábrica Azovstal, na cidade ucraniana.

A operação humanitária para o resgate de civis da fábrica Azovstal, em Mariupol, foi concluída este sábado, anunciou a vice-primeira-ministra da Ucrânia, Irina Vereshchuk.

“A ordem foi cumprida: todas as mulheres, crianças e idosos foram retirados de Azovstal”, avançou a vice-primeira-ministra ucraniana pelo Telegram.

A informação é avançada poucas horas depois de as forças pró-russas terem dito que mais 50 pessoas foram retiradas neste sábado da siderúrgica, onde centenas de civis estavam presos há várias semanas juntamente com combatentes ucranianos.

O resgate dos civis abrigados nos túneis da Azovstal foi iniciado no domingo, numa operação coordenada pela ONU e pela Cruz Vermelha Internacional.

Na sexta-feira, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que a cidade de Mariupolde Mariupol está “completamente destruída” e que à Rússia apenas resta apoderar-se do complexo siderúrgico.

Zelensky foi questionado no decurso de uma intervenção por videoconferência organizada pelo círculo de reflexão Chatham House, em Londres, sobre o que significaria a queda deste estratégico porto no sul da região do Donbass, onde apenas subsiste uma bolsa de resistência no complexo siderúrgico de Azovstal.

“É necessário entender que Mariupol nunca cairá […], já está devastada, não existe qualquer estrutura, está tudo completamente destruído”, respondeu. O que ainda permanece, prosseguiu, “é essa pequena estrutura, a siderurgia Azovstal, ou o que dela resta”.

Os civis resgatados nos últimos dias descrevem as semanas passadas nos túneis da Azovstal como um “terror", com bombardeamentos fortes que faziam o abrigo estremecer. “Tinha medo de sair, até para apanhar algum ar fresco”, contou Natalia Usmanova, uma das pessoas resgatadas.

Ainda assim, a ONU avançou esta semana que cerca de 30 pessoas retiradas da siderurgia decidiram permanecer em Mariupol. De acordo com Osnat Lubrani, os civis não esperavam um tão grande grau de destruição da cidade e antes de partirem rumo a Zaporizhzhia quiseram saber se os familiares ainda estão vivos.

A tomada do complexo Azovstal permitirá a Moscovo reivindicar o controlo total de Mariupol, com 500 mil habitantes antes da guerra, mas que foi devastada por dois meses de cerco e bombardeamentos.

As autoridades ucranianas noticiaram este sábado intensos combates em Donbass, enquanto se mantém o cerco do complexo, onde as tropas ucranianas de Mariupol ainda resistem.








3.5.22

Bibliotecas portuguesas ajudam a recolher e enviar 1400 livros para a Ucrânia

in Público

A campanha Livros pela paz recolheu “livros de imagens, ou texto, em inglês, ucraniano ou russo, pelas bibliotecas municipais”.

Sessenta bibliotecas ajudaram a recolher 1400 livros que serão enviados para a Ucrânia, no âmbito de uma campanha lançada pela cooperativa Arte-Via, que pretende aliviar o sofrimento dos que são afectados pela guerra.

Lançada a 21 de Março, a campanha Livros pela paz teve como objectivo recolher “livros de imagens, ou texto, em inglês, ucraniano ou russo, pelas bibliotecas municipais”, com o apoio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e a colaboração da Associação dos Ucranianos em Portugal.


“Numa época tão conturbada como a que estamos a viver, de futuro tão incerto, em que o corpo está mais frágil e sujeito a todas as ameaças, o espírito precisa de estar forte para o sustentar e ajudar a não sucumbir”, justifica a cooperativa artística e editorial da Lousã.

No seu entender, “os livros salvam vidas e aliviam o sofrimento” e, portanto, espera que “possam preencher os momentos de desespero e desalento e semear a esperança que dará força a toda a resistência”.

As 60 bibliotecas que participaram na campanha são públicas e privadas, do continente e das ilhas.

“Portugal tem estado na linha da frente no apoio, por todos os meios”, lembra a Arte-Via, acrescentando que é preciso continuar “a ajudar a desenhar um sorriso em todas as vítimas desta guerra infame”.

Na sexta-feira, os livros serão entregues num armazém no Cacém, cedido para recolha dos donativos das campanhas de solidariedade.

13.4.22

SEF comunicou ao MP situação de 360 crianças ucranianas que entraram no país sem os pais

in Público

Pedido de protecção temporária pode ser feito numa plataforma online do SEF. Desde o início da invasão russa, 10.353 menores receberam esta protecção em Portugal.

Os menores ucranianos representam 35% dos refugiados que chegaram a Portugal desde o início da guerra, tendo sido comunicado ao Ministério Público a situação de 360 crianças que entraram no país sem os pais ou representantes legais.

Numa nota de balanço sobre os pedidos de protecção temporária concedidos aos cidadãos que fugiram da guerra da Ucrânia que se iniciou em 24 de Fevereiro, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) avança que comunicou ao Ministério Público (MP) a situação de 360 menores ucranianos que chegaram a Portugal sem os pais ou representantes legais, casos em que se considera não haver “perigo actual ou iminente”.

O SEF comunicou também à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) a situação de nove menores que chegaram a Portugal não acompanhados, mas com outra pessoa que não os pais ou representante legal comprovado, representando estes casos “perigo actual ou iminente”