Patrícia Carvalho, in Público on-line
O apoio domiciliário continua no terreno e ganhou até uma nova dimensão. Reorganização das equipas e da forma de trabalhar ajudam a tentar conter a disseminação do vírus.
De um dia para o outro, as rotinas mudaram completamente. O centro de dia que a mãe de Cristina Faria frequentava, na Maia, fechou, e a mulher de 83 anos viu-se encerrada em casa, sem poder contactar fisicamente com os familiares e tendo apenas ao seu lado o companheiro de 91 anos. Ainda recebeu durante alguns dias alimentação, a cargo do apoio domiciliário da instituição, mas por opção própria deixou de o fazer e agora os dias são cada vez mais difíceis. A filha nota-o a cada telefonema, como o da manhã desta terça-feira. “Senti-a muito angustiada e perguntei-lhe o que era. Disse que estava com muito medo de morrer sem nos ver, sem nos ter ao lado dela, sem se despedir”, diz.
Na casa de A. (a terapeuta da fala prefere não se identificar) a angústia é outra. Há dois anos que a mãe da mulher, de 91 anos, está acamada, e até agora a família sempre conseguiu mantê-la em casa. Uma instituição prestava apoio ao nível da higiene e limpeza, uma mulher contratada particularmente passava os dias com a idosa e, à noite, A., as cinco irmãs e um irmão revezavam-se para lhe fazer companhia. A chegada da covid-19 mudou tudo.
Sozinhos em cidades paralisadas por uma pandemia
O receio de que alguém do núcleo familiar seja atingido pela doença e impeça o apoio contínuo que é necessário levou a família a procurar um lar que aceite a idosa. “Quando começamos esta procura, parecia a solução ideal. Neste momento, com as informações todas sobre os lares, não sabemos, embora pareça que vai ser mesmo o nosso recurso. Isto cria-nos muita ansiedade, não sabemos o que vai acontecer. É uma opção difícil numa situação normal e nesta situação é ainda muito mais difícil”, diz.
As mudanças abruptas que o novo coronavírus trouxe às famílias portuguesas estão a ser particularmente sentidas pelos mais velhos, que, enquanto grupo de risco, se viram afastados do contacto físico de filhos e netos. A mãe de Cristina Faria percebe que não deve sair de casa e prometeu que quando precisar de reabastecer a despensa vai fazer uma lista para que outros lhe tratem das compras. Mas continua a ter muita dificuldade em aceitar o isolamento dos que lhe são mais próximos. “Pediu-me para ir ter com ela, para passarmos a tarde a beber chá e a conversar. Chorou, chorou, chorou ao telefone. Diz que ontem já não ligou a televisão porque não consegue ver mais notícias. Ligou à minha prima para ir lá a casa e eu disse-lhe que tem de parar de pedir às pessoas para a irem visitar, que não pode ser, mas ela diz ‘é só a tua prima’”, diz Cristina Faria, de 44 anos, também ela uma pessoa de risco, por problemas de saúde associados.
Esta vertente emocional e psicológica, que foge ao habitual apoio domiciliário prestado pelas instituições, está na mira da Cruz Vermelha, diz ao PÚBLICO Joana Rodrigues, responsável pela área social da instituição. “Neste momento há uma série de alternativas de resposta que não existiam e que estão a ser oferecidas pela Cruz Vermelha e por outras instituições. E estamos a pensar em todos os quadros, estão a ser equacionadas todas as possibilidades. Criamos linhas de apoio psicossocial, para colaboradores e a comunidade e reforçamos os contactos por telefone aos idosos e famílias que já acompanhávamos, porque esta situação gerou mudanças, causa ansiedade, receios, estados mais depressivos e temos de olhar não só para a saúde física, mas também para a mental e emocional.”
Com uma voz algo cansada, Joana Rodrigues diz que, neste momento, em que a adequação a novas orientações e constrangimentos “é quase diária”, ainda se está a fazer “a recolha do diagnóstico” do impacto que o encerramento dos idosos em casa poderá estar a ter no apoio domiciliário, mas há coisas que já se tornaram evidentes. “Há uma maior procura, muitas vezes só pela entrega de refeições ou de bens alimentares e medicação. Se disser que esse aumento de procura anda entre os 15% e os 25% não andarei muito longe da verdade”, arrisca.
E esse apoio tem sido visível também em formas menos habituais, na mobilização de jovens e vizinhos ou de voluntários junto das autarquias locais que se oferecem para fazer compras aos que não podem e não devem sair de casa. O conceito de “apoio domiciliário” ganhou uma nova dimensão.
A dar resposta
Por enquanto, a Cruz Vermelha está a conseguir dar resposta às solicitações, e o pessoal já se adaptou às novas regras trazidas pelo vírus. Além do cumprimento das directivas sobre a protecção individual, houve uma reorganização das equipas, para que façam sempre a mesma rota, visitando as mesmas casas, e utilizando sempre o mesmo veículo. “Se houver algum caso positivo entre os nossos funcionários é uma forma de evitarmos focos de contágio mais diversificados e identificarmos mais rapidamente os contactos feitos”, explica Joana Rodrigues.
Até agora as medidas têm funcionado, mas, também aqui, diz a responsável da Cruz Vermelha, pode haver mudanças a qualquer momento. “Havendo alterações [da situação ou das directrizes] teremos de pensar em novas regras, que podem passar por as equipas trabalharem numa alternância semanal. Neste momento estamos a conseguir dar resposta, temos de continuar a acompanhar a evolução dia-a-dia”, diz.
As instituições ligadas à Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade também têm agora mais pedidos a que dar resposta, diz o seu presidente, Lino Maia: “Tem havido um aumento de pedidos, até porque a [o Ministério da] Saúde está a pedir às instituições para assumirem o apoio domiciliário de algumas pessoas que aparecem agora com o vírus e que têm de ir para casa, mas não têm retaguarda. Além disso, os nossos utentes dos centros de convívio estão a receber este apoio, ainda que parcial, com a entrega de refeições e cuidados de higiene. Mais não conseguimos garantir.”
Do lado da União da Misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos, admite que ainda está a tentar perceber como é que a covid-19 estará ou não a influenciar o apoio domiciliário prestado pelas instituições da rede. Mas mostra-se optimista. “Sou um reflector de queixas, quando as coisas se ajustam, ninguém me diz nada e isso é sempre bom sinal. Até agora não me chegou qualquer queixa, o que é bom”, diz. João Ferreira de Almeida, da Ali - Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso diz que também não recebeu qualquer indicação, por parte das instituições privadas da rede que prestam apoio domiciliário em simultâneo com a valência de lar, que exista qualquer constrangimento à prestação daqueles serviços. “95% dos nossos associados são lares de idosos e tanto quanto sei, os serviços que eram prestados antes desta crise mantêm-se. Não sei dizer se houve um acréscimo de procura”, afirma.
Na casa da mãe de A. os apoios domiciliário e familiar continuam enquanto a solução lar não se concretiza. As regras em vigor implicam que qualquer novo utente faça o teste à covid-19 e cumpra um período de quarentena antes de ser aceite. A família ainda não passou da primeira fase. “Liguei para a Saúde24, que atendeu muito rapidamente, e pediram-me para enviar um e-mail a expor o caso. Não sei se enviam alguém a casa para fazer o teste, estamos à espera”. Cristina Faria vai continuar a ligar diariamente para a mãe, mais do que uma vez. “Ela tem muitas saudades do centro de dia, do coro, das auxiliares... É muito complicado.”
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26.3.20
4.7.19
Prescrição social: idosos isolados beneficiam de projeto da USF Almirante
in JustNews
Ir a casa de idosos isolados e apoiá-los nas suas atividades ou indicar aos imigrantes onde podem ter aulas de Português são apenas dois dos planos de intervenção que podem ser sugeridos no âmbito do projeto de prescrição social da USF Almirante, no Intendente, em Lisboa.
A dar os primeiros passos desde 1 de abril, após seguir a experiência da USF da Baixa, no Martim Moniz, o objetivo é estar mais atento e dar resposta às necessidades sociais que "podem ser a causa ou o efeito de uma doença".
“Alguns problemas de saúde são despoletados ou agravados por causa do isolamento, da dificuldade de integração na sociedade, do desemprego, da falta de apoio familiar, do valor das rendas e do medo de se perder a casa, entre outros”, indica Mariana Oliveira, médica de família que integra a equipa dinamizadora do projeto.
"Um plano de intervenção personalizado"
No seu entender, a prescrição social vai trazer enormes mais-valias aos utentes da USF Almirante, conforme explica: “Nesta zona de Lisboa vive-se o drama dos idosos que vivem sozinhos, sem apoio. Por outro lado, temos utentes de 70 nacionalidades diferentes, muitos vindos de países asiáticos e que não falam ou falam muito mal o Português."
Médicos, enfermeiros e a psicóloga da Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados (URAP) do ACES Lisboa Central, localizada no edifício da USF, podem fazer a referenciação para a prescrição social.
“Quando é detetada uma situação que possa beneficiar deste apoio, o utente é encaminhado para a consulta com a assistente social, que procurará compreender melhor as suas necessidades sociais, fazendo o diagnóstico social e acordando com o mesmo um plano de intervenção personalizado, que poderá passar por uma resposta interna ou externa, recorrendo aos parceiros sociais do projeto”, explica.
Mariana Oliveira realça que não se trata apenas de dar aconselhamento em termos de benefícios sociais ou de apoio domiciliário: “Isso já acontece há muito tempo, o que pretendemos é apoiar também situações mais específicas. Por exemplo, quem vive isolado tende a sentir-se mais deprimido e a solução pode estar simplesmente em fazer voluntariado, inscrever-se num grupo de teatro, etc.”
Como acrescenta, “são coisas muito simples e que fazem toda a diferença. Muitas vezes, quem nos procura não sabe que há uma instituição ou organização onde pode, por exemplo, desenvolver atividades de grupo, praticar exercício físico a preços mais acessíveis...”
No caso dos imigrantes, mais do que atividades que promovam a integração social, é preciso ajudar na procura de emprego e no Português: “Temos casos de pessoas licenciadas que não conseguem arranjar emprego na sua área por não dominarem a nossa língua, por isso, há que lhes indicar cursos que podem fazer, se assim o desejarem.” Esta componente informativa é essencial. “Muitos deles, sejam imigrantes ou portugueses, não sabem que apoios podem ter na comunidade”, sublinha Mariana Oliveira.
Questões sociais com "impacto na saúde a vários níveis"
Para Paula Massano, 50 anos, assistente social da URAP do ACES Lisboa Central, esta consulta é um reforço do trabalho que já faz parte das suas funções. “Estarmos atentos às questões sociais é fundamental, porque têm repercussões na saúde. Por vezes, o utente vai ao médico por problemas de saúde que sabemos serem causados ou agravados por fatores sociais”, afirma.
Mas continua, “a prescrição social procura facilitar a resposta aos problemas e necessidades sociais dos utentes, com o objetivo de melhorar a sua saúde e o seu bem- estar, pretendendo potenciar a atuação do Serviço Social nos cuidados de saúde primários, alargando assim o leque de respostas e criando parcerias com o setor comunitário”.
Mariana Oliveira reconhece que é uma mais-valia poder contar com a presença física da assistente social no edifício da USF. “É sempre melhor estabelecer um contacto pessoal, é mais fácil esclarecer determinados casos”, frisa. Para esta especialista em Medicina Geral e Familiar, a prescrição social vem finalmente dar resposta ao que a OMS considera ser saúde, desde 1948:
“Saúde é um completo bem-estar físico, mental e social, não consistindo apenas na ausência de doença ou de enfermidade... Sendo assim, não nos podemos esquecer das questões sociais, com todo o impacto que têm na saúde a vários níveis.”
E sublinha que, “nos arredores de Londres, num bairro desfavorecido, já se implantou este tipo de apoio em 1997 e os resultados têm sido os melhores”.
Acabaram as longas filas para consulta, mantém-se o prédio de 5 andares
A prescrição social é o projeto mais recente da USF Almirante, que abriu apenas em 16 de novembro de 2018. “Ainda nem fomos inaugurados”, refere Fabrizio Cossutta, o coordenador. Situada na Rua Luís Pinto Moitinho, junto à Igreja dos Anjos, dá resposta a 12.600 utentes de sete dezenas de nacionalidades. “É um enorme desafio”, reconhece o responsável.
Fabrizio Cossutta integrou a equipa ainda como UCSP Penha de França, em novembro de 2017, no atual prédio de 5 andares. E recorda: “Quando cheguei, havia cerca de 6 mil utentes sem médico de família e de 101 nacionalidades, muitos deles sem falarem Português ou Inglês.”
Eram comuns as longas filas na rua, desde madrugada, para se conseguir consulta. “Demos sempre resposta, mesmo não sendo fácil, porque todos têm direito a cuidados de saúde, mesmo quem se encontre em situação irregular”, observa.
O modelo USF acabou por ser visto como a possível solução para se conseguir cuidados de maior qualidade, já que a enorme procura estava a prejudicar a qualidade da prestação de cuidados e a sobrecarregar a equipa. “Atualmente, somos 8 médicos, 8 enfermeiros e 5 secretários clínicos, a trabalhar em microequipas”, refere.
Apesar de a USF ter sido criada há tão pouco tempo, Fabrizio Cossutta diz que já se nota uma melhoria na qualidade de cuidados prestados. “Já não temos filas na rua para se conseguir consulta do dia, o atendimento administrativo é rápido, o ambiente está muito mais calmo e o número de reclamações baixou drasticamente”, garante.
Continuam, no entanto, a manter-se as limitações físicas: “É um prédio antigo, com 5 andares, com escadas que é preciso ultrapassar para se chegar ao elevador, não se consegue ter uma sala de espera única e por isso tivemos que dividir as tarefas administrativas por dois balcões, cada um num andar diferente.”
Fabrizio Cossutta: "Os elementos da equipa não se conheciam, mas tivemos muita sorte, porque é fantástica!"
“Temos de aceitar a diferença e colocar de lado o preconceito”
Com uma equipa muito jovem – os médicos que integraram a USF eram todos recém-especialistas –, Fabrizio Cossuta vê a questão das 70 nacionalidades como um desafio e não tanto como um problema:
“Exige muito mais de cada um de nós, mas consegue-se comunicar usando o Inglês, embora alguns utentes não falem este idioma da forma mais correta e tenhamos que recorrer ao tradutor do Google, a gestos, a imagens... Mas temos conseguido!”
O coordenador da unidade faz questão de salientar que todos estão alinhados com a cultura que tem vindo a ser implantada e é com evidente alegria que afirma: “Os elementos da equipa não se conheciam, mas tivemos muita sorte, porque é fantástica!".
A própria sinalética da USF está em Português e Inglês e, no caso da Saúde Materna e Infantil, os folhetos da introdução de alimentos estão traduzidos para espanhol, inglês, francês, italiano, nepali, bengali, hindi, chinês e russo e os do Planeamento Familiar incluem imagens e tradução para bengali, nepali, urdu, chinês e inglês.
“É uma forma de chegar às pessoas, porque não podemos, obviamente, falar todos os idiomas. Repare-se que só na Índia – de onde temos muitos imigrantes – há 20 dialetos...”, salienta Fabrizio Cossuta.
Futuro: apoio na comunidade e interligação com as farmácias
Olhando para o futuro, Fabrizio Cossutta gostaria que, uma vez implementada a prescrição social na USF Almirante, a prestação de cuidados saísse dos consultórios para a comunidade:
“Nesta zona de Lisboa, há muitos casos de sem-abrigo, alcoolismo, prostituição, toxicodependência, ou seja, há muitas pessoas que não recorrem a nós para pedir ajuda, daí
ser importante ir ao seu encontro. Nos casos que já são acompanhados por outras instituições, é importante estabelecer um contacto de maior proximidade com elas, em vez de duplicar cuidados.”
Fica ainda a faltar a proximidade com as farmácias: “O objetivo é poder criar um contacto mais direto com os estabelecimentos da nossa zona de abrangência, de forma a facilitar a comunicação entre todos, permitindo, por exemplo, que o farmacêutico nos alerte em caso de abusos de benzodiazepinas sem receitas médicas, ou até que possamos colaborar quando um utente necessita de esclarecer dúvidas sobre determinada terapêutica ou no acompanhamento de doenças crónicas.”
Ir a casa de idosos isolados e apoiá-los nas suas atividades ou indicar aos imigrantes onde podem ter aulas de Português são apenas dois dos planos de intervenção que podem ser sugeridos no âmbito do projeto de prescrição social da USF Almirante, no Intendente, em Lisboa.
A dar os primeiros passos desde 1 de abril, após seguir a experiência da USF da Baixa, no Martim Moniz, o objetivo é estar mais atento e dar resposta às necessidades sociais que "podem ser a causa ou o efeito de uma doença".
“Alguns problemas de saúde são despoletados ou agravados por causa do isolamento, da dificuldade de integração na sociedade, do desemprego, da falta de apoio familiar, do valor das rendas e do medo de se perder a casa, entre outros”, indica Mariana Oliveira, médica de família que integra a equipa dinamizadora do projeto.
"Um plano de intervenção personalizado"
No seu entender, a prescrição social vai trazer enormes mais-valias aos utentes da USF Almirante, conforme explica: “Nesta zona de Lisboa vive-se o drama dos idosos que vivem sozinhos, sem apoio. Por outro lado, temos utentes de 70 nacionalidades diferentes, muitos vindos de países asiáticos e que não falam ou falam muito mal o Português."
Médicos, enfermeiros e a psicóloga da Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados (URAP) do ACES Lisboa Central, localizada no edifício da USF, podem fazer a referenciação para a prescrição social.
“Quando é detetada uma situação que possa beneficiar deste apoio, o utente é encaminhado para a consulta com a assistente social, que procurará compreender melhor as suas necessidades sociais, fazendo o diagnóstico social e acordando com o mesmo um plano de intervenção personalizado, que poderá passar por uma resposta interna ou externa, recorrendo aos parceiros sociais do projeto”, explica.
Mariana Oliveira realça que não se trata apenas de dar aconselhamento em termos de benefícios sociais ou de apoio domiciliário: “Isso já acontece há muito tempo, o que pretendemos é apoiar também situações mais específicas. Por exemplo, quem vive isolado tende a sentir-se mais deprimido e a solução pode estar simplesmente em fazer voluntariado, inscrever-se num grupo de teatro, etc.”
Como acrescenta, “são coisas muito simples e que fazem toda a diferença. Muitas vezes, quem nos procura não sabe que há uma instituição ou organização onde pode, por exemplo, desenvolver atividades de grupo, praticar exercício físico a preços mais acessíveis...”
No caso dos imigrantes, mais do que atividades que promovam a integração social, é preciso ajudar na procura de emprego e no Português: “Temos casos de pessoas licenciadas que não conseguem arranjar emprego na sua área por não dominarem a nossa língua, por isso, há que lhes indicar cursos que podem fazer, se assim o desejarem.” Esta componente informativa é essencial. “Muitos deles, sejam imigrantes ou portugueses, não sabem que apoios podem ter na comunidade”, sublinha Mariana Oliveira.
Questões sociais com "impacto na saúde a vários níveis"
Para Paula Massano, 50 anos, assistente social da URAP do ACES Lisboa Central, esta consulta é um reforço do trabalho que já faz parte das suas funções. “Estarmos atentos às questões sociais é fundamental, porque têm repercussões na saúde. Por vezes, o utente vai ao médico por problemas de saúde que sabemos serem causados ou agravados por fatores sociais”, afirma.
Mas continua, “a prescrição social procura facilitar a resposta aos problemas e necessidades sociais dos utentes, com o objetivo de melhorar a sua saúde e o seu bem- estar, pretendendo potenciar a atuação do Serviço Social nos cuidados de saúde primários, alargando assim o leque de respostas e criando parcerias com o setor comunitário”.
Mariana Oliveira reconhece que é uma mais-valia poder contar com a presença física da assistente social no edifício da USF. “É sempre melhor estabelecer um contacto pessoal, é mais fácil esclarecer determinados casos”, frisa. Para esta especialista em Medicina Geral e Familiar, a prescrição social vem finalmente dar resposta ao que a OMS considera ser saúde, desde 1948:
“Saúde é um completo bem-estar físico, mental e social, não consistindo apenas na ausência de doença ou de enfermidade... Sendo assim, não nos podemos esquecer das questões sociais, com todo o impacto que têm na saúde a vários níveis.”
E sublinha que, “nos arredores de Londres, num bairro desfavorecido, já se implantou este tipo de apoio em 1997 e os resultados têm sido os melhores”.
Acabaram as longas filas para consulta, mantém-se o prédio de 5 andares
A prescrição social é o projeto mais recente da USF Almirante, que abriu apenas em 16 de novembro de 2018. “Ainda nem fomos inaugurados”, refere Fabrizio Cossutta, o coordenador. Situada na Rua Luís Pinto Moitinho, junto à Igreja dos Anjos, dá resposta a 12.600 utentes de sete dezenas de nacionalidades. “É um enorme desafio”, reconhece o responsável.
Fabrizio Cossutta integrou a equipa ainda como UCSP Penha de França, em novembro de 2017, no atual prédio de 5 andares. E recorda: “Quando cheguei, havia cerca de 6 mil utentes sem médico de família e de 101 nacionalidades, muitos deles sem falarem Português ou Inglês.”
Eram comuns as longas filas na rua, desde madrugada, para se conseguir consulta. “Demos sempre resposta, mesmo não sendo fácil, porque todos têm direito a cuidados de saúde, mesmo quem se encontre em situação irregular”, observa.
O modelo USF acabou por ser visto como a possível solução para se conseguir cuidados de maior qualidade, já que a enorme procura estava a prejudicar a qualidade da prestação de cuidados e a sobrecarregar a equipa. “Atualmente, somos 8 médicos, 8 enfermeiros e 5 secretários clínicos, a trabalhar em microequipas”, refere.
Apesar de a USF ter sido criada há tão pouco tempo, Fabrizio Cossutta diz que já se nota uma melhoria na qualidade de cuidados prestados. “Já não temos filas na rua para se conseguir consulta do dia, o atendimento administrativo é rápido, o ambiente está muito mais calmo e o número de reclamações baixou drasticamente”, garante.
Continuam, no entanto, a manter-se as limitações físicas: “É um prédio antigo, com 5 andares, com escadas que é preciso ultrapassar para se chegar ao elevador, não se consegue ter uma sala de espera única e por isso tivemos que dividir as tarefas administrativas por dois balcões, cada um num andar diferente.”
Fabrizio Cossutta: "Os elementos da equipa não se conheciam, mas tivemos muita sorte, porque é fantástica!"
“Temos de aceitar a diferença e colocar de lado o preconceito”
Com uma equipa muito jovem – os médicos que integraram a USF eram todos recém-especialistas –, Fabrizio Cossuta vê a questão das 70 nacionalidades como um desafio e não tanto como um problema:
“Exige muito mais de cada um de nós, mas consegue-se comunicar usando o Inglês, embora alguns utentes não falem este idioma da forma mais correta e tenhamos que recorrer ao tradutor do Google, a gestos, a imagens... Mas temos conseguido!”
O coordenador da unidade faz questão de salientar que todos estão alinhados com a cultura que tem vindo a ser implantada e é com evidente alegria que afirma: “Os elementos da equipa não se conheciam, mas tivemos muita sorte, porque é fantástica!".
A própria sinalética da USF está em Português e Inglês e, no caso da Saúde Materna e Infantil, os folhetos da introdução de alimentos estão traduzidos para espanhol, inglês, francês, italiano, nepali, bengali, hindi, chinês e russo e os do Planeamento Familiar incluem imagens e tradução para bengali, nepali, urdu, chinês e inglês.
“É uma forma de chegar às pessoas, porque não podemos, obviamente, falar todos os idiomas. Repare-se que só na Índia – de onde temos muitos imigrantes – há 20 dialetos...”, salienta Fabrizio Cossuta.
Futuro: apoio na comunidade e interligação com as farmácias
Olhando para o futuro, Fabrizio Cossutta gostaria que, uma vez implementada a prescrição social na USF Almirante, a prestação de cuidados saísse dos consultórios para a comunidade:
“Nesta zona de Lisboa, há muitos casos de sem-abrigo, alcoolismo, prostituição, toxicodependência, ou seja, há muitas pessoas que não recorrem a nós para pedir ajuda, daí
ser importante ir ao seu encontro. Nos casos que já são acompanhados por outras instituições, é importante estabelecer um contacto de maior proximidade com elas, em vez de duplicar cuidados.”
Fica ainda a faltar a proximidade com as farmácias: “O objetivo é poder criar um contacto mais direto com os estabelecimentos da nossa zona de abrangência, de forma a facilitar a comunicação entre todos, permitindo, por exemplo, que o farmacêutico nos alerte em caso de abusos de benzodiazepinas sem receitas médicas, ou até que possamos colaborar quando um utente necessita de esclarecer dúvidas sobre determinada terapêutica ou no acompanhamento de doenças crónicas.”
29.6.18
Velhice e isolamento
António Bagão Félix, in Público on-line
Este é um desafio civilizacional. Não se compadece com a omissão e o silêncio.
Nos últimos anos, tem havido uma maior consciência das questões demográficas, ainda que parcamente reflectidas em fugazes notícias, logo trucidadas por uma qualquer evanescência do dia. Governos e partidos têm apresentado propostas relacionadas com o défice de nascimentos, embora quase sempre “engavetadas”, tem-se falado mais do rápido envelhecimento da nossa população e seu impacto nos sistemas de saúde e social, têm vindo a ser conhecidas projecções que antevêem sérios desafios no futuro já ao virar da esquina.
PUB
Há um ponto que tem tido menos atenção. Refiro-me à estrutura demográfica por família.
Os quadros seguintes (fontes: INE e Pordata) revelam a alteração profunda relacionada com a menor taxa de natalidade, a nuclearização da família e, sobretudo, o brutal aumento de pessoas a viver isoladamente.
A percentagem de famílias unipessoais mais do que duplicou entre os Censos de 1960 e de 2011. Em valores absolutos, passou de 253.848 para 866.827, constituindo 21,4% das famílias, quando há 50 anos eram 10,8%. Ao contrário, as famílias mais numerosas (com seis ou mais pessoas, de diferentes gerações) diminuiu drasticamente de 17,1% para 2% do conjunto das famílias.
A nuclearização da família tornou mais visível a debilidade com que a sociedade enfrenta o futuro dos mais velhos. O segundo quadro deixa percepcionar muito claramente as questões associadas a esta tendência. Atingimos praticamente o limiar de 500.000 pessoas idosas a viver sozinhas. Para dar uma diferente ordem de grandeza, só neste século (2001-2017), por cada dia que passou, 30 pessoas com mais de 65 anos passaram familiarmente a viver isoladas (em muitos casos com múltiplo isolamento: familiar, relacional, territorial, pobreza).
Isto não significa que a velhice deva ser encarada como um problema. O notável aumento da esperança de vida deve ser olhado como um grande avanço humano e social, diria mesmo civilizacional.
Todavia, não estamos a dar resposta às novas questões daí decorrentes, seja no plano dos cuidados de saúde, seja no âmbito do apoio humano e social. Muita coisa mudou, no campo das instituições sociais, na menor segurança de bens e pessoas, nas tecnologias de comunicação, na formação de profissionais ou na organização do voluntariado.
A tendência para a massificação tem sido evidente e a supremacia da quantidade sobre a qualidade tem sido preponderante. Têm-se vindo a diluir formas de solidariedades capilares e de proximidade. Ou a sobrepor o poder da tecnocracia e burocracia sociais à imperativa humanização dos cuidados com os mais velhos.
Deixou de se centrar na família e na comunidade de vizinhança a coesão geracional inerente às solidariedades naturais, isto é, resultantes da natureza gregária das pessoas e não produzidas pela ordem jurídica. Nada tenho contra os lares institucionais. Mas sou contrário à tendência, por inércia, para a betonização da velhice. O lar é o último e muitas vezes inevitável recurso, sobretudo como modo de contrariar o total isolamento. Mas jamais poderá ser uma via de facilitação, não raro egoísta, que conduza perigosamente ao enfraquecimento e à fragmentação da família, à ruptura do diálogo intergeracional e à indignidade da omissão perante os mais velhos.
As respostas clássicas são cada vez menos suficientes e mais desenraizadas, e têm dificuldade em destrinçar os velhos dos mais velhos entre os velhos. A organização da nossa estrutura sanitária e hospitalar não favorece (pelo contrário) os cuidados a prestar a esta parte da população e há uma tendência larvar ou explícita para o “racionamento” dos cuidados em nome do utilitarismo predominante da ideia danosa de “que já não vale a pena!”. Tem havido, contudo, um aumento muito positivo da oferta social de cuidados domiciliários, de cuidadores informais (a este propósito, saúdo as iniciativas legislativas do CDS, PCP e BE) e de formas de combater a exiguidade relacional.
É também imperioso haver uma melhor articulação entre os sistemas de saúde e de segurança social, cuja separação ministerial tem tido efeitos negativos nas políticas públicas associadas às doenças geriátricas, aos cuidados continuados, aos idosos acamados e dependentes e à assistência pós-hospitalar, entre outras. E o IRS deveria consagrar a possibilidade de se incluírem os ascendentes que vivam em comunhão de habitação com o sujeito passivo na divisão do rendimento colectável (actualmente, apenas há a dedução à colecta de 525 euros desde que o ascendente não tenha rendimento superior à pensão mínima). Afinal não são pessoas como as outras, cuja permanência nos seus lares naturais deveria ser incentivada, sendo que o Estado até pouparia?
Este é um desafio civilizacional. Não se compadece com a omissão e o silêncio, com visões de curto-prazo, ilusoriamente mediáticas, mas sim com políticas largas, transversais e de amplo consenso. Este é um problema para o qual temos o dever de evitar fracturas sociais e geracionais, e não de “oferecer” fracturantemente eutanásias legais, sociais ou relacionais.
Este é um desafio civilizacional. Não se compadece com a omissão e o silêncio.
Nos últimos anos, tem havido uma maior consciência das questões demográficas, ainda que parcamente reflectidas em fugazes notícias, logo trucidadas por uma qualquer evanescência do dia. Governos e partidos têm apresentado propostas relacionadas com o défice de nascimentos, embora quase sempre “engavetadas”, tem-se falado mais do rápido envelhecimento da nossa população e seu impacto nos sistemas de saúde e social, têm vindo a ser conhecidas projecções que antevêem sérios desafios no futuro já ao virar da esquina.
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Há um ponto que tem tido menos atenção. Refiro-me à estrutura demográfica por família.
Os quadros seguintes (fontes: INE e Pordata) revelam a alteração profunda relacionada com a menor taxa de natalidade, a nuclearização da família e, sobretudo, o brutal aumento de pessoas a viver isoladamente.
A percentagem de famílias unipessoais mais do que duplicou entre os Censos de 1960 e de 2011. Em valores absolutos, passou de 253.848 para 866.827, constituindo 21,4% das famílias, quando há 50 anos eram 10,8%. Ao contrário, as famílias mais numerosas (com seis ou mais pessoas, de diferentes gerações) diminuiu drasticamente de 17,1% para 2% do conjunto das famílias.
A nuclearização da família tornou mais visível a debilidade com que a sociedade enfrenta o futuro dos mais velhos. O segundo quadro deixa percepcionar muito claramente as questões associadas a esta tendência. Atingimos praticamente o limiar de 500.000 pessoas idosas a viver sozinhas. Para dar uma diferente ordem de grandeza, só neste século (2001-2017), por cada dia que passou, 30 pessoas com mais de 65 anos passaram familiarmente a viver isoladas (em muitos casos com múltiplo isolamento: familiar, relacional, territorial, pobreza).
Isto não significa que a velhice deva ser encarada como um problema. O notável aumento da esperança de vida deve ser olhado como um grande avanço humano e social, diria mesmo civilizacional.
Todavia, não estamos a dar resposta às novas questões daí decorrentes, seja no plano dos cuidados de saúde, seja no âmbito do apoio humano e social. Muita coisa mudou, no campo das instituições sociais, na menor segurança de bens e pessoas, nas tecnologias de comunicação, na formação de profissionais ou na organização do voluntariado.
A tendência para a massificação tem sido evidente e a supremacia da quantidade sobre a qualidade tem sido preponderante. Têm-se vindo a diluir formas de solidariedades capilares e de proximidade. Ou a sobrepor o poder da tecnocracia e burocracia sociais à imperativa humanização dos cuidados com os mais velhos.
Deixou de se centrar na família e na comunidade de vizinhança a coesão geracional inerente às solidariedades naturais, isto é, resultantes da natureza gregária das pessoas e não produzidas pela ordem jurídica. Nada tenho contra os lares institucionais. Mas sou contrário à tendência, por inércia, para a betonização da velhice. O lar é o último e muitas vezes inevitável recurso, sobretudo como modo de contrariar o total isolamento. Mas jamais poderá ser uma via de facilitação, não raro egoísta, que conduza perigosamente ao enfraquecimento e à fragmentação da família, à ruptura do diálogo intergeracional e à indignidade da omissão perante os mais velhos.
As respostas clássicas são cada vez menos suficientes e mais desenraizadas, e têm dificuldade em destrinçar os velhos dos mais velhos entre os velhos. A organização da nossa estrutura sanitária e hospitalar não favorece (pelo contrário) os cuidados a prestar a esta parte da população e há uma tendência larvar ou explícita para o “racionamento” dos cuidados em nome do utilitarismo predominante da ideia danosa de “que já não vale a pena!”. Tem havido, contudo, um aumento muito positivo da oferta social de cuidados domiciliários, de cuidadores informais (a este propósito, saúdo as iniciativas legislativas do CDS, PCP e BE) e de formas de combater a exiguidade relacional.
É também imperioso haver uma melhor articulação entre os sistemas de saúde e de segurança social, cuja separação ministerial tem tido efeitos negativos nas políticas públicas associadas às doenças geriátricas, aos cuidados continuados, aos idosos acamados e dependentes e à assistência pós-hospitalar, entre outras. E o IRS deveria consagrar a possibilidade de se incluírem os ascendentes que vivam em comunhão de habitação com o sujeito passivo na divisão do rendimento colectável (actualmente, apenas há a dedução à colecta de 525 euros desde que o ascendente não tenha rendimento superior à pensão mínima). Afinal não são pessoas como as outras, cuja permanência nos seus lares naturais deveria ser incentivada, sendo que o Estado até pouparia?
Este é um desafio civilizacional. Não se compadece com a omissão e o silêncio, com visões de curto-prazo, ilusoriamente mediáticas, mas sim com políticas largas, transversais e de amplo consenso. Este é um problema para o qual temos o dever de evitar fracturas sociais e geracionais, e não de “oferecer” fracturantemente eutanásias legais, sociais ou relacionais.
16.6.16
Número de idosos a morar sozinhos triplicou desde 2011
Fábio Monteiro, in "Expresso"
Existem, neste momento, 43.322 idosos a viver sozinhos em Portugal. De 2015 para 2016, registou-se um aumento de mais de 4100 pessoas nessas circunstâncias
Entre 2011 e 2016, triplicou em Portugal o número de idosos a viver sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade. Segundo a operação “Censos Sénior 2016” da Guarda Nacional Republicana (GNR), existem, neste momento, 43.322 idosos a viver nessas condições.
Destes 43 mil idosos sinalizados, 26.000 vivem sozinhos, 4626 moram em locais isolados e 3085 vivem sozinhos e isolados. Existem ainda 9611 idosos em situação de vulnerabilidade, devido a limitações físicas ou psicológicas.
De 2015 para 2016, registou-se um aumento de 4106 idosos a viver sozinhos.
Estiveram envolvidos nesta operação, que decorreu entre 1 e 30 de abril em todo o país, cerca de 300 militares da GNR. Foi feito também, pela primeira vez, o levantamento das pessoas portadoras de deficiência, tendo sido sinalizados 600 casos.
Das 600 pessoas sinalizadas, 166 vivem sozinhas, 38 residem em locais isolados, 33 vivem sozinhas e isoladas. As restantes 363 situações não se enquadram nestas situações, adianta a GNR.
Existem, neste momento, 43.322 idosos a viver sozinhos em Portugal. De 2015 para 2016, registou-se um aumento de mais de 4100 pessoas nessas circunstâncias
Entre 2011 e 2016, triplicou em Portugal o número de idosos a viver sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade. Segundo a operação “Censos Sénior 2016” da Guarda Nacional Republicana (GNR), existem, neste momento, 43.322 idosos a viver nessas condições.
Destes 43 mil idosos sinalizados, 26.000 vivem sozinhos, 4626 moram em locais isolados e 3085 vivem sozinhos e isolados. Existem ainda 9611 idosos em situação de vulnerabilidade, devido a limitações físicas ou psicológicas.
De 2015 para 2016, registou-se um aumento de 4106 idosos a viver sozinhos.
Estiveram envolvidos nesta operação, que decorreu entre 1 e 30 de abril em todo o país, cerca de 300 militares da GNR. Foi feito também, pela primeira vez, o levantamento das pessoas portadoras de deficiência, tendo sido sinalizados 600 casos.
Das 600 pessoas sinalizadas, 166 vivem sozinhas, 38 residem em locais isolados, 33 vivem sozinhas e isoladas. As restantes 363 situações não se enquadram nestas situações, adianta a GNR.
Viseu e Guarda são os distritos com mais idosos a viver sozinhos
In "Diário de Notícias"
Os cerca de 300 militares da GNR envolvidos na operação "Censos Sénior 2016" sinalizaram 43 322 idosos em todo o país que vivem sozinhos ou isolados
Quase oito mil idosos moram sozinhos ou isolados em Viseu e na Guarda, os distritos do país com mais pessoas nestas condições, segundo dados da operação "Censos Sénior 2016" hoje divulgados.
Tal como em 2015, Viseu é o distrito com o maior número de casos, onde foram sinalizados pelos militares da GNR 4.113 idosos a viverem nestas condições, mais 358 do que no ano anterior.
Já no distrito da Guarda foram sinalizados 3.870 idosos que vivem sozinhos ou isolados, mais 634 do que em 2015, referem os dados da operação, que decorreu entre 01 e 30 de abril em todo o país.
Em terceiro lugar surge o distrito de Vila Real, com 3.455 idosos sinalizados, seguindo-se Beja (3.352), Portalegre (3.052), Bragança (3.125), Faro (3.048) e Braga (3.022).
No distrito de Évora foram sinalizados 2.837 idosos, em Castelo Branco 2.362, em Santarém 2.119, em Setúbal 1.610, em Aveiro 1.507, em Leiria 1.380, em Coimbra 1.290 e em Viana do Castelo 1.074.
Segundo os dados, os distritos do Porto e de Lisboa foram os que registaram menos pessoas que vivem sozinhas ou isoladas, com 1.134 e 972 idosos sinalizados, respetivamente.
Os distritos que registaram o maior aumento de idosos a viver nestas condições foram Braga, que passou de 1.647 em 2015 para 3.022 em 2016 (45%), Leiria, que subiu de 882 para 1.380 (40%) e Faro, que aumentou de 1.977 para 3.048 (35%).
Os cerca de 300 militares da GNR envolvidos na operação "Censos Sénior 2016" sinalizaram 43.322 idosos em todo o país que vivem sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade, mais 4.106 em relação ao ano anterior (9,4%).
Dos 43.322 idosos sinalizados, 26.000 vivem sozinhos (mais 2.004 relativamente a 2015), 4.626 moram em locais isolados (menos 579) e 3.085 vivem sozinhos e isolados (menos 203).
Os restantes idosos sinalizados (9.611) encontravam-se em "situação de vulnerabilidade fruto de limitações físicas e/ou psicológicas", mais 2.884 relativamente ao ano anterior, refere a GNR.
Realizada anualmente pela GNR, a operação "Censos Sénior" tem como objetivo atualizar os registos dos idosos que vivem sozinhos e isolados, identificar novas situações e informar as entidades competentes das situações de potencial perigo.
Durante a operação foram ainda realizadas ações de sensibilização para que "esta população adote comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco de se tornarem vítimas de crimes", refere a GNR.
A GNR adianta que continuará, ao longo ano, a acompanhar os idosos sinalizados, realizando visitas regulares às suas residências, no sentido de promover mais ações de sensibilização e fazer uma avaliação da sua segurança.
Os cerca de 300 militares da GNR envolvidos na operação "Censos Sénior 2016" sinalizaram 43 322 idosos em todo o país que vivem sozinhos ou isolados
Quase oito mil idosos moram sozinhos ou isolados em Viseu e na Guarda, os distritos do país com mais pessoas nestas condições, segundo dados da operação "Censos Sénior 2016" hoje divulgados.
Tal como em 2015, Viseu é o distrito com o maior número de casos, onde foram sinalizados pelos militares da GNR 4.113 idosos a viverem nestas condições, mais 358 do que no ano anterior.
Já no distrito da Guarda foram sinalizados 3.870 idosos que vivem sozinhos ou isolados, mais 634 do que em 2015, referem os dados da operação, que decorreu entre 01 e 30 de abril em todo o país.
Em terceiro lugar surge o distrito de Vila Real, com 3.455 idosos sinalizados, seguindo-se Beja (3.352), Portalegre (3.052), Bragança (3.125), Faro (3.048) e Braga (3.022).
No distrito de Évora foram sinalizados 2.837 idosos, em Castelo Branco 2.362, em Santarém 2.119, em Setúbal 1.610, em Aveiro 1.507, em Leiria 1.380, em Coimbra 1.290 e em Viana do Castelo 1.074.
Segundo os dados, os distritos do Porto e de Lisboa foram os que registaram menos pessoas que vivem sozinhas ou isoladas, com 1.134 e 972 idosos sinalizados, respetivamente.
Os distritos que registaram o maior aumento de idosos a viver nestas condições foram Braga, que passou de 1.647 em 2015 para 3.022 em 2016 (45%), Leiria, que subiu de 882 para 1.380 (40%) e Faro, que aumentou de 1.977 para 3.048 (35%).
Os cerca de 300 militares da GNR envolvidos na operação "Censos Sénior 2016" sinalizaram 43.322 idosos em todo o país que vivem sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade, mais 4.106 em relação ao ano anterior (9,4%).
Dos 43.322 idosos sinalizados, 26.000 vivem sozinhos (mais 2.004 relativamente a 2015), 4.626 moram em locais isolados (menos 579) e 3.085 vivem sozinhos e isolados (menos 203).
Os restantes idosos sinalizados (9.611) encontravam-se em "situação de vulnerabilidade fruto de limitações físicas e/ou psicológicas", mais 2.884 relativamente ao ano anterior, refere a GNR.
Realizada anualmente pela GNR, a operação "Censos Sénior" tem como objetivo atualizar os registos dos idosos que vivem sozinhos e isolados, identificar novas situações e informar as entidades competentes das situações de potencial perigo.
Durante a operação foram ainda realizadas ações de sensibilização para que "esta população adote comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco de se tornarem vítimas de crimes", refere a GNR.
A GNR adianta que continuará, ao longo ano, a acompanhar os idosos sinalizados, realizando visitas regulares às suas residências, no sentido de promover mais ações de sensibilização e fazer uma avaliação da sua segurança.
Mais de 40 mil idosos vivem sós, isolados ou vulneráveis
Margarida David Cardoso, in Público on-line
Número quase quadruplicou em cinco anos. GNR identificou 166 pessoas com deficiência a viver sozinhas.
O número de idosos a viver sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade em Portugal quase triplicou nos últimos cinco anos, segundo os dados dos Censos Sénior recolhidos pela GNR. O estudo, realizado no mês de Abril de 2016 em todo o território nacional, apurou que o número de idosos sinalizados nestas condições aumentou de 15.596, em 2011, para 43.322 este ano.
A maioria destes idosos são mulheres (28.691). Segundo os dados da GNR, 60% dos idosos sinalizados vivem sozinhos e 11% habitam isolados da comunidade. Ou seja, ao todo foram sinalizados 26 mil seniores a viver sozinhos, 4626 em situação de isolamento e 3085 que vivem sozinhos e isolados. A GNR identificou que mais de 20% está em situação de vulnerabilidade fruto de limitações físicas e/ou psicológicas. São mais de 9600 pessoas. Estes valores aumentaram quase 10% em relação a 2015, quando havia menos 4106 idosos sinalizados.
A edição deste ano dos Censos Sénior fez, pela primeira vez, o levantamento das pessoas portadoras de deficiência, tendo sinalizado 600 pessoas, 166 das quais a viver sozinhas. Os cerca de 300 militares da GNR envolvidos na operação sinalizaram ainda 38 pessoas com deficiência a viver isoladas e 33 que habitam sozinhas e isoladas da comunidade.
Viseu e Guarda lideram
Viseu encabeça a lista de distritos com mais idosos sinalizados a viver em situação de isolamento ou solidão. O distrito tem 4113 pessoas identificadas pela GNR, seguindo-se a Guarda, com 3870, e Vila Real, com 3455 idosos sinalizados. É nos distritos do interior e do sul do país que se nota um registo maior de idosos neste tipo de situações.
O maior aumento foi registado no distrito de Faro, que aumentou quase 65% em relação a 2015, tendo agora 3048 idosos sinalizados pela GNR. Segue-se Leiria, em menor escala, com um aumento considerável de cerca de 60%, de 822 para 1380 idosos identificados em 2016.
O distrito de Lisboa destaca-se pela diminuição de cerca de 20% do número de idosos sinalizados, em relação aos dados do ano passado.
Durante a operação Censos Sénior 2016, a GNR realizou acções de sensibilização para a adopção de comportamentos de segurança por parte da população de idosos, com vista a reduzir o risco de serem vítimas de crimes.
Número quase quadruplicou em cinco anos. GNR identificou 166 pessoas com deficiência a viver sozinhas.
O número de idosos a viver sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade em Portugal quase triplicou nos últimos cinco anos, segundo os dados dos Censos Sénior recolhidos pela GNR. O estudo, realizado no mês de Abril de 2016 em todo o território nacional, apurou que o número de idosos sinalizados nestas condições aumentou de 15.596, em 2011, para 43.322 este ano.
A maioria destes idosos são mulheres (28.691). Segundo os dados da GNR, 60% dos idosos sinalizados vivem sozinhos e 11% habitam isolados da comunidade. Ou seja, ao todo foram sinalizados 26 mil seniores a viver sozinhos, 4626 em situação de isolamento e 3085 que vivem sozinhos e isolados. A GNR identificou que mais de 20% está em situação de vulnerabilidade fruto de limitações físicas e/ou psicológicas. São mais de 9600 pessoas. Estes valores aumentaram quase 10% em relação a 2015, quando havia menos 4106 idosos sinalizados.
A edição deste ano dos Censos Sénior fez, pela primeira vez, o levantamento das pessoas portadoras de deficiência, tendo sinalizado 600 pessoas, 166 das quais a viver sozinhas. Os cerca de 300 militares da GNR envolvidos na operação sinalizaram ainda 38 pessoas com deficiência a viver isoladas e 33 que habitam sozinhas e isoladas da comunidade.
Viseu e Guarda lideram
Viseu encabeça a lista de distritos com mais idosos sinalizados a viver em situação de isolamento ou solidão. O distrito tem 4113 pessoas identificadas pela GNR, seguindo-se a Guarda, com 3870, e Vila Real, com 3455 idosos sinalizados. É nos distritos do interior e do sul do país que se nota um registo maior de idosos neste tipo de situações.
O maior aumento foi registado no distrito de Faro, que aumentou quase 65% em relação a 2015, tendo agora 3048 idosos sinalizados pela GNR. Segue-se Leiria, em menor escala, com um aumento considerável de cerca de 60%, de 822 para 1380 idosos identificados em 2016.
O distrito de Lisboa destaca-se pela diminuição de cerca de 20% do número de idosos sinalizados, em relação aos dados do ano passado.
Durante a operação Censos Sénior 2016, a GNR realizou acções de sensibilização para a adopção de comportamentos de segurança por parte da população de idosos, com vista a reduzir o risco de serem vítimas de crimes.
14.6.16
“Dá estímulo uma pessoa velha estar a ensinar outra pessoa velha”
Ana Cristina Pereira, in Público on-line
Projecto Aldeia Pedagógica de Portela foi alargado de forma a alcançar idosos residentes em lares de Bragança.
Infância da Ressurreição Gonçalves arranja-se toda. Cabelo preso num ó, brincos de ouro a pender das orelhas, a camisola cinzenta como as calças, o casaco preto abotoado até meio. Daqui a pouco, um grupo de idosos há-de chegar à aldeia de Portela, a dez minutos da cidade de Bragança, já no Parque Natural de Montesinho. E ela há-de juntar-se a umas vizinhas para lhes ensinar serigrafia.
“Puseram-me [o nome] da Ressurreição por ter nascido no domingo de Páscoa”, explica, para início de conversa. Conta 85 anos, um pouco menos que o marido, João António Pires. Duas vidas de trabalho. “Era pequeno, mal podia andar, já andava com as vacas”, diz ele. “Agora, não. Agora, a gente é fidalga. Se tivesse a saúde que tinha dantes e a vida que tenho agora”, suspira a mulher.
Já não criam vaca mirandesa nem porco bísaro, mas ainda têm galinhas e horta. Num terreno próximo de casa, cresce milho, batata, feijão, abóbora, couve, alho, cebola, tomate, pimento. Ele não se dá parado e ela arranja sempre que fazer. Infância da Ressurreição é mestre de compotas, licores e chás na Aldeia Pedagógica de Portela.
Vale a pena recuar no tempo para perceber por que está Infância da Ressurreição naqueles preparos e o que é isso de ser mestre de compotas, licores e chás. Foi tudo ideia da Azimute, que nasceu há 14 anos como associação juvenil virada para a preservação ambiental, o desporto de aventura e a cultura.
“Muitos concelhos têm quinta pedagógica, não é?”, pergunta João Cameira, da Associação Azimute. “Por que não ter uma aldeia pedagógica? Os visitantes poderiam ver como se faz pão, compotas ou licores, conhecer o ciclo do ferro, visitar a horta e a capoeira, aprender a reconhecer ervas. Fala-se tanto em envelhecimento activo e em promover as relações entre gerações”
A Azimute começou por propor à Câmara de Bragança que lhe cedesse uma das suas muitas escolas primárias desactivadas para usar como sede e centro interpretativo da natureza. Recorreu a fundos comunitários para recuperar a aldeia de Portela, na freguesia de Gondesende, vazia havia pelo menos meia dúzia de anos.
Primeiro, explorou apenas a ideia original. Depois, recorda o presidente, João Cameira, quis ir mais longe. Começaram por fazer uma acção de limpeza da floresta, que ali contém carvalhais, bosques de azinheira, soutos de castanheiros e matos diversos, incluindo urze, esteva e giesta. Livraram-na de frigoríficos e outros monos abandonados ao deus dará. A certa altura, puseram-se a pensar em formas de fazer dos residentes aliados. Eram pouco mais de 30 pessoas, quase todas em idade avançada. Muitas artes e muitos saberes tinham para ensinar. Experimentaram fazer licores e compotas com Infância da Ressurreição e as vizinhas. E se elas pudessem ensinar outras pessoas?
Idosos que são mestres
A Portela não é uma aldeia qualquer. Predominam pequenas casas construídas com pedras de xisto sobrepostas — um andar para curral, celeiro ou adega e outro para habitação. Entre as moradias, resistem estruturas de utilização comunitária, como a forja, o lagar, o forno de cozer pão. Era aproveitar o cenário e o saber.
“Muitos concelhos têm quinta pedagógica, não é?”, pergunta, de forma retórica, João Cameira. “Por que não ter uma aldeia pedagógica?" Os visitantes poderiam ver como se faz pão, compotas ou licores, conhecer o ciclo do ferro, visitar a horta e a capoeira, aprender a reconhecer ervas.
Foi há cinco anos. Com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, envolveram os idosos na preparação das visitas, na definição das actividades, na execução dos materiais de suporte ao projecto — como, por exemplo, o merchandising que vendem na sede da associação. Chamaram-lhes mestres. Há mestre da horta, mestre do galinheiro, mestre do pão, mestre de compotas, licores e chás, mestre da forja, mestre dos cogumelos, mestre das ervas aromáticas e todos eles têm recebido, sobretudo, miúdos trazidos por escolas, associações ou mesmo famílias.
Tinham objectivos bem claros: "Lutar contra a discriminação e os preconceitos relacionados com a idade; incentivar as relações interrelacionais; disseminar os conhecimentos sobre o mundo rural e as tradições junto da comunidade escolar; ocupar os idosos, tornando-os membros activos da comunidade; promover a participação na sociedade; quebrar o seu isolamento e a sua solidão.” E, no ano passado, a Aldeia Pedagógica de Portela foi distinguida pelo Instituto de Empreendedorismo Social como iniciativa de elevado potencial de inovação e empreendedorismo.
Decidiram alargar o projecto aos idosos das instituições particulares de solidariedade social do concelho de Bragança. Ganharam o prémio BPI Sénior para pôr essa ideia em prática. Os idosos integrados em centros de dia ou unidades residenciais iriam aprender ou recordar artes e saberes com os idosos de Portela.
“Há pessoas que nos lares chegam ali e parece que calçam as pantufas e nunca mais as descalçam. Não lhes apetece fazer nada. Temos de ter vontade. Tem de haver vontade de viver. E vontade de ser útil. Isto também faz parte da vida. Fazer alguma coisa contribui para um envelhecimento mais suave”
José Lopes Augusto, 83 anos
Vontade de viver
Já está a acontecer. A equipa da aldeia pedagógica já foi aos mais concorridos lares do concelho fazer oficinas de velas e cosmética natural. E os idosos das instituições estão a ir à aldeia fazer oficinas de serigrafia. Até ao final do ano, hão-de aqui vir fazer também oficinas de fotografia digital e reciclagem.
Segunda-feira depois do almoço, dia 30 de Maio, uma dúzia de idosos do centro de dia e do lar residencial da Obra Social Padre Miguel viaja em duas carrinhas brancas até à aldeia. E quatro mestres e dois formadores recebem-nos na sede da associação, onde guardam utensílios rurais.
“Vamos usar uma técnica de impressão que se chama serigrafia. Temos nestas telas imagens que vamos passar, com tinta, para papel ou para pano”, explica Mónica Silva, a coordenadora do projecto, no centro da sala. “Vamos fazer isso com a ajuda das nossas mestres. Temos aqui a Infância, a Imperatriz, a dona Maria Idalina e a dona Maria Assunção. Vocês vão ver que começando é fácil. Vou pedir a uma das nossas mestres para começar a exemplificar. Quem quer exemplificar?”
Infância da Ressurreição voluntaria-se. A impressão pode fazer-se em materiais como papel, plástico, madeira, vidro, tecido. O primeiro exercício fez-se com papel de tamanho A4. “Metemos um papelzinho por baixo”, vai dizendo Mónica. Os idosos estão sentados em cadeiras encostadas às paredes, atentos ao que vai sendo dito e mostrado. “Pomos a tinta. Assim. Agora, vejam como a nossa mestre vai fazer. Pega numa espátula e vai puxando a tinta até cá abaixo. Puxa novamente. E vamos ver.” Mostra a folha de papel branco na qual se lê: “Sou como o Vinho do Porto.”
O primeiro a arriscar-se é José Lopes Augusto, de 83 anos. “Já foram ao lar duas vezes. Fizemos trabalho em conjunto nas duas vezes que lá foram. Aprendi a fazer moldes em gesso. E o outro já não me lembro. Ai, velas com óleo alimentar. Foi bonita a decoração que fizemos. Um coração de gesso. É engraçado.”
Maria Idalina é mestre do galinheiro. Mostra o galo, as galinhas e os pintainhos aos visitantes. Há quem fique espantado ao perceber que os ovos saem do rabo das galinhas e não de uma máquina qualquer. Ovos com alguns excrementos agarrados é coisa que nunca sequer tinham imaginado
O exercício corre-lhe bem. “Eu estou há seis anos no lar. Em princípio, não tinha necessidade de lá estar, mas tenho a minha mulher com uma doença muito grave, que é Alzheimer. Eu fui para a ajudar. Não estava a fazer nada sozinho em casa. Não tenho mais família. Tenho a filha mas está em França. Fui para ali para a ajudar.”
Fez carreira na guarda prisional. “Lá estive 30 e tal anos. Lá fiz a minha obrigação. Agora, estou a gozar a reformazita”, conta. Arranja com que se entreter. “Faço parte de um grupo de cantares. Ensaio uma vez por semana. Vou à piscina duas vezes por semana. Nos outros dias, vou à ginástica."
Não falta quem tenha atitude distinta da de José. "Há pessoas que nos lares chegam ali e parece que calçam as pantufas e nunca mais as descalçam. Não lhes apetece fazer nada. Temos de ter vontade. Tem de haver vontade de viver. E vontade de ser útil. Se a gente se dá boa paz de estar sentadinho e traçar a perna, envelhece mais depressa. Interessa ter mais um bocadinho de saúde.”
Um a um, com maior ou menor dificuldade, os idosos vão experimentando a técnica, primeiro em papel, depois em sacos de pano, que fazem parte do merchandising da aldeia. José está contente. Gosta desta ideia de pôr idosos a lidar com idosos. “Dá estímulo uma pessoa velha estar a ensinar outra pessoa velha. Mostra que ainda consegue fazer. A partir daí, a outra vê que ainda é capaz, que nada é impossível.”
Impossível é negar a possibilidade das oficinas como momento de alegria e de partilha. É suposto servirem também para desenvolver a motricidade, a precisão manual, a criatividade, a atenção, o raciocínio, mas isso caberá a uma equipa da Universidade Católica avaliar. Se tudo correr bem, adianta João Cameira, para o ano o projecto poderá chegar a outros idosos institucionalizados, porventura, noutros concelhos.
A vida tal como ela é
“Isto para nós é um distraimento”, resume Maria Idalina, de 80 anos. Não se limitam a ensinar. Já ali aprenderam coisas novas. Foi ali, na sede da Azimute, que aprenderam a serigrafia que agora ensinam a outros idosos. E a fotografar com uma câmara digital muito simples. Viram as fotografias delas expostas na biblioteca municipal. “Passa-se o tempo mais depressa. É muito bom.”
Maria Idalina é mestre do galinheiro. Mostra o galo, as galinhas e os pintainhos aos visitantes. Há miúdos que ficam espantados ao perceber que os ovos saem do rabo das galinhas e não de uma máquina qualquer. Ovos com alguns excrementos agarrados é coisa que nunca sequer tinham imaginado.
Maria Idalina e o marido, Hermínio, não limpam o galinheiro antes de cada visita. A ideia é mostrar a vida tal como ela é. E há quem fique acanhado por causa do cheiro. “Uns têm medo de serem atacados. Outros querem pegar nas galinhas ao colo e fazer-lhe festinhas”, diz ela.
Os homens envolvem-se menos. João António, por exemplo, nunca teve paciência para andar a mostrar a horta ou o galinheiro, nem para ensinar a reconhecer cogumelos silvestres e ervas aromáticas, mas a mulher, Infância da Ressurreição, está sempre pronta para receber quem aparece e mostrar como é que se faz, por exemplo, licor “de muita coisa — licor de ananás, de casca de nós, de hortelã-pimenta, de cidreira”.
Projecto Aldeia Pedagógica de Portela foi alargado de forma a alcançar idosos residentes em lares de Bragança.
Infância da Ressurreição Gonçalves arranja-se toda. Cabelo preso num ó, brincos de ouro a pender das orelhas, a camisola cinzenta como as calças, o casaco preto abotoado até meio. Daqui a pouco, um grupo de idosos há-de chegar à aldeia de Portela, a dez minutos da cidade de Bragança, já no Parque Natural de Montesinho. E ela há-de juntar-se a umas vizinhas para lhes ensinar serigrafia.
“Puseram-me [o nome] da Ressurreição por ter nascido no domingo de Páscoa”, explica, para início de conversa. Conta 85 anos, um pouco menos que o marido, João António Pires. Duas vidas de trabalho. “Era pequeno, mal podia andar, já andava com as vacas”, diz ele. “Agora, não. Agora, a gente é fidalga. Se tivesse a saúde que tinha dantes e a vida que tenho agora”, suspira a mulher.
Já não criam vaca mirandesa nem porco bísaro, mas ainda têm galinhas e horta. Num terreno próximo de casa, cresce milho, batata, feijão, abóbora, couve, alho, cebola, tomate, pimento. Ele não se dá parado e ela arranja sempre que fazer. Infância da Ressurreição é mestre de compotas, licores e chás na Aldeia Pedagógica de Portela.
Vale a pena recuar no tempo para perceber por que está Infância da Ressurreição naqueles preparos e o que é isso de ser mestre de compotas, licores e chás. Foi tudo ideia da Azimute, que nasceu há 14 anos como associação juvenil virada para a preservação ambiental, o desporto de aventura e a cultura.
“Muitos concelhos têm quinta pedagógica, não é?”, pergunta João Cameira, da Associação Azimute. “Por que não ter uma aldeia pedagógica? Os visitantes poderiam ver como se faz pão, compotas ou licores, conhecer o ciclo do ferro, visitar a horta e a capoeira, aprender a reconhecer ervas. Fala-se tanto em envelhecimento activo e em promover as relações entre gerações”
A Azimute começou por propor à Câmara de Bragança que lhe cedesse uma das suas muitas escolas primárias desactivadas para usar como sede e centro interpretativo da natureza. Recorreu a fundos comunitários para recuperar a aldeia de Portela, na freguesia de Gondesende, vazia havia pelo menos meia dúzia de anos.
Primeiro, explorou apenas a ideia original. Depois, recorda o presidente, João Cameira, quis ir mais longe. Começaram por fazer uma acção de limpeza da floresta, que ali contém carvalhais, bosques de azinheira, soutos de castanheiros e matos diversos, incluindo urze, esteva e giesta. Livraram-na de frigoríficos e outros monos abandonados ao deus dará. A certa altura, puseram-se a pensar em formas de fazer dos residentes aliados. Eram pouco mais de 30 pessoas, quase todas em idade avançada. Muitas artes e muitos saberes tinham para ensinar. Experimentaram fazer licores e compotas com Infância da Ressurreição e as vizinhas. E se elas pudessem ensinar outras pessoas?
Idosos que são mestres
A Portela não é uma aldeia qualquer. Predominam pequenas casas construídas com pedras de xisto sobrepostas — um andar para curral, celeiro ou adega e outro para habitação. Entre as moradias, resistem estruturas de utilização comunitária, como a forja, o lagar, o forno de cozer pão. Era aproveitar o cenário e o saber.
“Muitos concelhos têm quinta pedagógica, não é?”, pergunta, de forma retórica, João Cameira. “Por que não ter uma aldeia pedagógica?" Os visitantes poderiam ver como se faz pão, compotas ou licores, conhecer o ciclo do ferro, visitar a horta e a capoeira, aprender a reconhecer ervas.
Foi há cinco anos. Com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, envolveram os idosos na preparação das visitas, na definição das actividades, na execução dos materiais de suporte ao projecto — como, por exemplo, o merchandising que vendem na sede da associação. Chamaram-lhes mestres. Há mestre da horta, mestre do galinheiro, mestre do pão, mestre de compotas, licores e chás, mestre da forja, mestre dos cogumelos, mestre das ervas aromáticas e todos eles têm recebido, sobretudo, miúdos trazidos por escolas, associações ou mesmo famílias.
Tinham objectivos bem claros: "Lutar contra a discriminação e os preconceitos relacionados com a idade; incentivar as relações interrelacionais; disseminar os conhecimentos sobre o mundo rural e as tradições junto da comunidade escolar; ocupar os idosos, tornando-os membros activos da comunidade; promover a participação na sociedade; quebrar o seu isolamento e a sua solidão.” E, no ano passado, a Aldeia Pedagógica de Portela foi distinguida pelo Instituto de Empreendedorismo Social como iniciativa de elevado potencial de inovação e empreendedorismo.
Decidiram alargar o projecto aos idosos das instituições particulares de solidariedade social do concelho de Bragança. Ganharam o prémio BPI Sénior para pôr essa ideia em prática. Os idosos integrados em centros de dia ou unidades residenciais iriam aprender ou recordar artes e saberes com os idosos de Portela.
“Há pessoas que nos lares chegam ali e parece que calçam as pantufas e nunca mais as descalçam. Não lhes apetece fazer nada. Temos de ter vontade. Tem de haver vontade de viver. E vontade de ser útil. Isto também faz parte da vida. Fazer alguma coisa contribui para um envelhecimento mais suave”
José Lopes Augusto, 83 anos
Vontade de viver
Já está a acontecer. A equipa da aldeia pedagógica já foi aos mais concorridos lares do concelho fazer oficinas de velas e cosmética natural. E os idosos das instituições estão a ir à aldeia fazer oficinas de serigrafia. Até ao final do ano, hão-de aqui vir fazer também oficinas de fotografia digital e reciclagem.
Segunda-feira depois do almoço, dia 30 de Maio, uma dúzia de idosos do centro de dia e do lar residencial da Obra Social Padre Miguel viaja em duas carrinhas brancas até à aldeia. E quatro mestres e dois formadores recebem-nos na sede da associação, onde guardam utensílios rurais.
“Vamos usar uma técnica de impressão que se chama serigrafia. Temos nestas telas imagens que vamos passar, com tinta, para papel ou para pano”, explica Mónica Silva, a coordenadora do projecto, no centro da sala. “Vamos fazer isso com a ajuda das nossas mestres. Temos aqui a Infância, a Imperatriz, a dona Maria Idalina e a dona Maria Assunção. Vocês vão ver que começando é fácil. Vou pedir a uma das nossas mestres para começar a exemplificar. Quem quer exemplificar?”
Infância da Ressurreição voluntaria-se. A impressão pode fazer-se em materiais como papel, plástico, madeira, vidro, tecido. O primeiro exercício fez-se com papel de tamanho A4. “Metemos um papelzinho por baixo”, vai dizendo Mónica. Os idosos estão sentados em cadeiras encostadas às paredes, atentos ao que vai sendo dito e mostrado. “Pomos a tinta. Assim. Agora, vejam como a nossa mestre vai fazer. Pega numa espátula e vai puxando a tinta até cá abaixo. Puxa novamente. E vamos ver.” Mostra a folha de papel branco na qual se lê: “Sou como o Vinho do Porto.”
O primeiro a arriscar-se é José Lopes Augusto, de 83 anos. “Já foram ao lar duas vezes. Fizemos trabalho em conjunto nas duas vezes que lá foram. Aprendi a fazer moldes em gesso. E o outro já não me lembro. Ai, velas com óleo alimentar. Foi bonita a decoração que fizemos. Um coração de gesso. É engraçado.”
Maria Idalina é mestre do galinheiro. Mostra o galo, as galinhas e os pintainhos aos visitantes. Há quem fique espantado ao perceber que os ovos saem do rabo das galinhas e não de uma máquina qualquer. Ovos com alguns excrementos agarrados é coisa que nunca sequer tinham imaginado
O exercício corre-lhe bem. “Eu estou há seis anos no lar. Em princípio, não tinha necessidade de lá estar, mas tenho a minha mulher com uma doença muito grave, que é Alzheimer. Eu fui para a ajudar. Não estava a fazer nada sozinho em casa. Não tenho mais família. Tenho a filha mas está em França. Fui para ali para a ajudar.”
Fez carreira na guarda prisional. “Lá estive 30 e tal anos. Lá fiz a minha obrigação. Agora, estou a gozar a reformazita”, conta. Arranja com que se entreter. “Faço parte de um grupo de cantares. Ensaio uma vez por semana. Vou à piscina duas vezes por semana. Nos outros dias, vou à ginástica."
Não falta quem tenha atitude distinta da de José. "Há pessoas que nos lares chegam ali e parece que calçam as pantufas e nunca mais as descalçam. Não lhes apetece fazer nada. Temos de ter vontade. Tem de haver vontade de viver. E vontade de ser útil. Se a gente se dá boa paz de estar sentadinho e traçar a perna, envelhece mais depressa. Interessa ter mais um bocadinho de saúde.”
Um a um, com maior ou menor dificuldade, os idosos vão experimentando a técnica, primeiro em papel, depois em sacos de pano, que fazem parte do merchandising da aldeia. José está contente. Gosta desta ideia de pôr idosos a lidar com idosos. “Dá estímulo uma pessoa velha estar a ensinar outra pessoa velha. Mostra que ainda consegue fazer. A partir daí, a outra vê que ainda é capaz, que nada é impossível.”
Impossível é negar a possibilidade das oficinas como momento de alegria e de partilha. É suposto servirem também para desenvolver a motricidade, a precisão manual, a criatividade, a atenção, o raciocínio, mas isso caberá a uma equipa da Universidade Católica avaliar. Se tudo correr bem, adianta João Cameira, para o ano o projecto poderá chegar a outros idosos institucionalizados, porventura, noutros concelhos.
A vida tal como ela é
“Isto para nós é um distraimento”, resume Maria Idalina, de 80 anos. Não se limitam a ensinar. Já ali aprenderam coisas novas. Foi ali, na sede da Azimute, que aprenderam a serigrafia que agora ensinam a outros idosos. E a fotografar com uma câmara digital muito simples. Viram as fotografias delas expostas na biblioteca municipal. “Passa-se o tempo mais depressa. É muito bom.”
Maria Idalina é mestre do galinheiro. Mostra o galo, as galinhas e os pintainhos aos visitantes. Há miúdos que ficam espantados ao perceber que os ovos saem do rabo das galinhas e não de uma máquina qualquer. Ovos com alguns excrementos agarrados é coisa que nunca sequer tinham imaginado.
Maria Idalina e o marido, Hermínio, não limpam o galinheiro antes de cada visita. A ideia é mostrar a vida tal como ela é. E há quem fique acanhado por causa do cheiro. “Uns têm medo de serem atacados. Outros querem pegar nas galinhas ao colo e fazer-lhe festinhas”, diz ela.
Os homens envolvem-se menos. João António, por exemplo, nunca teve paciência para andar a mostrar a horta ou o galinheiro, nem para ensinar a reconhecer cogumelos silvestres e ervas aromáticas, mas a mulher, Infância da Ressurreição, está sempre pronta para receber quem aparece e mostrar como é que se faz, por exemplo, licor “de muita coisa — licor de ananás, de casca de nós, de hortelã-pimenta, de cidreira”.
15.2.16
“Faz-me um grande favor passar por aqui. Sou retirada do povo”
Ana Cristina Pereira (Texto) e Paulo Pimenta (Fotos), in Públio on-line
A GNR tem uma lista de 426 pessoas com deficiência que vivem sozinhas e/ou isoladas e tenta prestar-lhes um serviço de maior proximidade.
Acentua cada palavra com o som “nh”. Não é fácil compreender o que diz José da Silva, a menos que se tenha o ouvido treinado, como o cabo Figueiredo, da GNR de Mangualde. De vez em quando, passa por aquela casa fria, de granito, a perguntar se José tem visto estranhos, a alertá-lo para alguma burla, a tentar perceber como está.
Há pouco mais de um ano, a GNR lançou um programa especial de apoio a pessoas com deficiência. Neste momento, tem uma lista de 426 que vivem sozinhas e/ou isoladas e, por isso, estão mais vulneráveis a negligência, maus tratos, furtos, burlas e outros crimes. Os militares visitam-nas, aconselham-nas a tomar algumas medidas de segurança, entregam-lhes um número para o qual podem ligar em caso de dúvida ou aflição.
O Comando Territorial de Viseu está a aplicar-se. Há dois anos, fez folhetos do programa “escola segura” em braille e distribuiu-os pelos alunos referenciados. No ano passado, fez o mesmo com o dos “idosos em segurança”. Agora, quer adaptar a linguagem desse para que melhor seja compreendido por pessoas com problemas de saúde mental.
- Bom dia – saúdam o alferes Duarte e o cabo Figueiredo, mal se deparam com o homem, de 63 anos, em frente a casa.
- Bom dia – responde.
- Bem-disposto? - pergunta o alferes.
- Até ver.
- Já trabalhou muito hoje?
- Já podei algumas videiras.
- Ainda trabalha terras?
- Ainda.
- Trabalha muito?
- Devagar.
O cabo Figueiredo repete as primeiras respostas, como se fosse um intérprete. Decorridos uns minutos, já não precisa. O ouvido do alferes, novo no comando da equipa de programas especiais de Mangualde, habitua-se àquele modo de falar e ele próprio vai repetindo as respostas de José, para se certificar de que percebeu bem, que nada lhe escapou.
José não para, apesar de arrastar os pés. A casa tem dois pisos: em cima, habitação; em baixo, produtos e alfaias agrícolas. E ele quer mostrar provas da sua labuta: sacas de milho, garrafões de vinho, maçãs amontoadas. Oferece um punhado de castanhas, que guarda num balde de areia. “Quem diria que as castanhas se conservam assim?”, admira-se o cabo.
Não é uma oferta inusitada. A ordem é para estes militares actuarem de forma próxima, humana, inclusiva. Acontece de vez em quando quem está integrado no programa de idosos ou no de deficientes desfazer-se em gentilezas. Brindam os militares com uma bebida ou uma fatia de bolo ou umas peças de fruta. “Fazem questão”, diz o alferes. “Sentem-se muito sozinhos. Quando apanham alguém, têm todo o gosto em partilhar.”
Acontece-lhes depararem-se com situações críticas. Ainda há pouco, o cabo Figueiredo percebeu perda de peso num idoso e avisou a acção social da câmara. No serviço, fizeram uma recolha de bens para situações de emergência, mas não se iludem. “Um saco de arroz não resolve o problema, o que interessa é que a pessoa diariamente seja acompanhada por alguém que vai lá entregar as refeições, daí a importância do trabalho em rede”, comenta o alferes. Há uma instituição particular de solidariedade social que lá vai agora.
Nem sempre falta dinheiro. Por vezes, falta orientação. Saindo dali, a equipa passará por um irmão e uma irmã residentes numa quinta. Para chegar a casa de Laurinda e Joaquim Almeida é preciso seguir por um caminho de terra. E as pernas dela pouco se aguentam. Ele é que a transporta num carrinho de mão. Já tentaram levá-la num lar, mas ele foi lá buscá-la. É difícil desviar-lhes o pensamento. Trabalhar a terra, para eles, “é um distrai”, mas nem a cavar se esquecem do vizinho, que chamam de “malvado”. Para Joaquim, todos os males, mesmo os de saúde dele e da irmã, resultam de bruxaria.
Laurinda e Joaquim Almeida vivem sozinhos Paulo Pimenta
A lista é dinâmica. Uma pessoa que vivia acompanhada num instante pode ficar sozinha e uma pessoa que vivia sozinha de um momento para o outro pode ganhar companhia. Neste programa, como no destinado a idosos, no decurso do trabalho os guardas vão somando e subtraindo nomes, como se percebe mesmo ali, naquela aldeia de Sátão.
A vizinha da frente está à espreita, de olhar torto, vassoura na mão. Não resiste a perguntar o que andam os militares a fazer em casa de José da Silva.
- Eu gosto de "isolar" a vida dele – afiança ela. Isolar, na boca dela, é proteger.
- A senhora pode vir cá e ver o que estamos a fazer – responde-lhe o cabo Figueiredo.
- Estão a ver o que ele tem. Umas batatas pequenitas!
- Estamos a conversar com ele.
- A gente fica desconfiada.
- Mas está desconfiada porquê?
- A gente hoje em dia vê tanta coisa na televisão.
- A senhora tem razão para desconfiar, mas nós estamos mais do que identificados.
Não era a primeira vez que via a GNR por ali. De todas as vezes se inquietara, mas era a primeira que saía da sombra, que metia conversa.
- Muita gente está sozinha.
- A senhora está sozinha também?
- Eu? Eu estou com a vassoura na mão.
- Não tem familiares?
- Tenho no estrangeiro. E ele ainda tem aqui uma irmã e um cunhado.
- Costumamos visitar algumas das suas vizinhas. Ninguém nos disse que estava sozinha.
- Tenho uma gata!
Eneias, de 53 anos, com o guarda principal Duarte Paulo Pimenta
Parece tudo ligado no interior do país despovoado e envelhecido. Às vezes, pessoas idosas e pessoas com deficiência fundem-se. Com a idade, tende a aumentar a dificuldade que cada um experimenta a andar, subir degraus, levantar e transportar qualquer coisa, ver, mesmo com óculos, concentrar-se, dobrar-se, segurar algo, ouvir, mesmo com prótese auditiva, sentar-se ou levantar-se, compreender ou fazer-se compreender. Nas acções de sensibilização que a GNR vai fazendo, sobretudo nas escolas que lhe compete proteger, explica que com a idade todas as pessoas perdem habilidades e chama a atenção para pormenores da vida em comunidade, como o respeito por todos, a relevância das caixas de atendimento prioritárias e dos estacionamentos reservados.
“É um trabalho de prevenção”, resume o guarda principal Duarte, do destacamento de Viseu. “Tentamos aliviar o trabalho dos colegas mais tarde.” Na tarde desta sexta-feira, programou passar por casa de um deficiente, de 53 anos, que vive com a mãe, de 83. A mãe, Maria de Lurdes Fernandes, está frágil, debilitada. Preocupa-se com o que o futuro reserva ao filho, a que deu o nome de Eneias, como a personagem da literatura greco-romana.
- Por aqui tem andado alguém estranho? - pergunta ele.
- De dia, não sei. De dia, tenho estado no centro. Sabe que me pode passar algo e estou aqui sozinha. Ele não ouve. Ele não fala. Se me passa algo, que é que eu vou fazer? Se me passa algo sempre estou ao pé delas e coiso.
- Mas de noite está em casa. Alguma coisa já sabe. Pode ligar para nós. Já lhe tinha deixado o número de telefone. Vou pôr aqui neste calendário que lhe trouxe.
- Se me acontece alguma aqui, tenho de ir de arrastos ao quarto dele chamá-lo. Não vale a pena gritar, que ele não ouve. Se lhe toco, ele vai chamar alguém. De noite não vai que tem medo!
- Tem aqui o número do posto. Também tem aqui o número do serviço da emergência. É pequenino: 112. Às vezes, numa atrapalhação, para não estar a marcar tantos números, é melhor ligar 112, que quem estiver do outro lado ajuda.
- Está bem.
- De resto é o que temos falado. Cuidado com a portinha. Sempre fechada.
- Sim, tem estado.
- Espreite pela janela antes de abrir a porta.
- Tenho aí um cachorrito que dá conta de tudo.
- Como é que se chama?
- Chama-se Leão, mas é pequenino.
- Também já sabe que as notas de 20 euros mudaram, mas ninguém vem trocá-las.
- Já! Tudo trafulhice.
- As notas que tiver não passam de validade.
- Eu não deixo juntar nem novas, nem velhas. A reforma é pequena. Tem de chegar para luz, telefone, vestir e coisa. O dinheiro vai.
Falam sobre a viuvez, que já dura há 16 anos, sobre o outro filho, que está na Suíça, sobre a filha, que vive em Águeda, e sobre aquele filho, Eneias, tão parecido com o pai. E tão incapaz de lidar com as derrotas do Benfica. “Faz bem em vir”, diz Lurdes. “Faz-me um grande favor passar por aqui. Sou retirada do povo. Pode haver para aí algum maluco. Sinto-me muito mais segura por passarem aqui de vez em quando. Só que vejam, já dizem: pronto! Não vale a pena ir lá, porque aparecem de repente.”
Os burlões tendem a ser gente simpática, de voz meiga, convincente. Alguns fazem-se passar por funcionários da empresa da electricidade, do gás ou da água para entrar em casa. Outros vestem a pele de funcionários da segurança social. Podem, por exemplo, pedir dinheiro adiantada para ajudar a antecipar reformas. Também há os que se fazem passar por funcionários dos correios, com uma encomenda de uma familiar. E os que batem à porta a anunciar que a pessoa ganhou um prémio qualquer e para o receber tem de pagar uma certa quantia.
O militar sai satisfeito. “É bom ver que as pessoas gostam da nossa presença. É muito gratificante perceber isso. Este é um trabalho que não apresenta números. Ainda há pouco estive duas horas com uma senhora. O marido morreu, tem a filha fora. Chorou, riu-se. Quando vim embora, estava radiante. ‘Passe cá outra vez’. E eu disse: ‘passo, só não posso prometer quando’”.
Tal como faz com os idosos, a GNR convida os deficientes em situação de vulnerabilidade a aderirem ao programa "Residência Segura". Até agora, aderiram 113. Os militares recolheram os seus dados e inseriram-nos em mapas por região, convencida de que tal lhe permite direccionar melhor os meios e aumentar o sentimento de segurança.
“Isto é um projecto bastante embrionário, mas tem pernas para andar”, acredita o guarda principal Mourão, da GNR de Lamego. Está a sair, com o guarda principal Santos, para casa de Domingos, um homem que se desloca numa cadeira de rodas e arrasta as palavras, como se não as quisesse deixar. Encontram-no no largo da aldeia, sozinho. O centro de convívio está vazio e na rua é raro aparecer vivalma. “Aqui, nada, nada. Não há, não há, não há união. Muito pouco”, queixa-se. Conversam longamente com ele. E ele não os quer deixar partir.
A GNR tem uma lista de 426 pessoas com deficiência que vivem sozinhas e/ou isoladas e tenta prestar-lhes um serviço de maior proximidade.
Acentua cada palavra com o som “nh”. Não é fácil compreender o que diz José da Silva, a menos que se tenha o ouvido treinado, como o cabo Figueiredo, da GNR de Mangualde. De vez em quando, passa por aquela casa fria, de granito, a perguntar se José tem visto estranhos, a alertá-lo para alguma burla, a tentar perceber como está.
Há pouco mais de um ano, a GNR lançou um programa especial de apoio a pessoas com deficiência. Neste momento, tem uma lista de 426 que vivem sozinhas e/ou isoladas e, por isso, estão mais vulneráveis a negligência, maus tratos, furtos, burlas e outros crimes. Os militares visitam-nas, aconselham-nas a tomar algumas medidas de segurança, entregam-lhes um número para o qual podem ligar em caso de dúvida ou aflição.
O Comando Territorial de Viseu está a aplicar-se. Há dois anos, fez folhetos do programa “escola segura” em braille e distribuiu-os pelos alunos referenciados. No ano passado, fez o mesmo com o dos “idosos em segurança”. Agora, quer adaptar a linguagem desse para que melhor seja compreendido por pessoas com problemas de saúde mental.
- Bom dia – saúdam o alferes Duarte e o cabo Figueiredo, mal se deparam com o homem, de 63 anos, em frente a casa.
- Bom dia – responde.
- Bem-disposto? - pergunta o alferes.
- Até ver.
- Já trabalhou muito hoje?
- Já podei algumas videiras.
- Ainda trabalha terras?
- Ainda.
- Trabalha muito?
- Devagar.
O cabo Figueiredo repete as primeiras respostas, como se fosse um intérprete. Decorridos uns minutos, já não precisa. O ouvido do alferes, novo no comando da equipa de programas especiais de Mangualde, habitua-se àquele modo de falar e ele próprio vai repetindo as respostas de José, para se certificar de que percebeu bem, que nada lhe escapou.
José não para, apesar de arrastar os pés. A casa tem dois pisos: em cima, habitação; em baixo, produtos e alfaias agrícolas. E ele quer mostrar provas da sua labuta: sacas de milho, garrafões de vinho, maçãs amontoadas. Oferece um punhado de castanhas, que guarda num balde de areia. “Quem diria que as castanhas se conservam assim?”, admira-se o cabo.
Não é uma oferta inusitada. A ordem é para estes militares actuarem de forma próxima, humana, inclusiva. Acontece de vez em quando quem está integrado no programa de idosos ou no de deficientes desfazer-se em gentilezas. Brindam os militares com uma bebida ou uma fatia de bolo ou umas peças de fruta. “Fazem questão”, diz o alferes. “Sentem-se muito sozinhos. Quando apanham alguém, têm todo o gosto em partilhar.”
Acontece-lhes depararem-se com situações críticas. Ainda há pouco, o cabo Figueiredo percebeu perda de peso num idoso e avisou a acção social da câmara. No serviço, fizeram uma recolha de bens para situações de emergência, mas não se iludem. “Um saco de arroz não resolve o problema, o que interessa é que a pessoa diariamente seja acompanhada por alguém que vai lá entregar as refeições, daí a importância do trabalho em rede”, comenta o alferes. Há uma instituição particular de solidariedade social que lá vai agora.
Nem sempre falta dinheiro. Por vezes, falta orientação. Saindo dali, a equipa passará por um irmão e uma irmã residentes numa quinta. Para chegar a casa de Laurinda e Joaquim Almeida é preciso seguir por um caminho de terra. E as pernas dela pouco se aguentam. Ele é que a transporta num carrinho de mão. Já tentaram levá-la num lar, mas ele foi lá buscá-la. É difícil desviar-lhes o pensamento. Trabalhar a terra, para eles, “é um distrai”, mas nem a cavar se esquecem do vizinho, que chamam de “malvado”. Para Joaquim, todos os males, mesmo os de saúde dele e da irmã, resultam de bruxaria.
Laurinda e Joaquim Almeida vivem sozinhos Paulo Pimenta
A lista é dinâmica. Uma pessoa que vivia acompanhada num instante pode ficar sozinha e uma pessoa que vivia sozinha de um momento para o outro pode ganhar companhia. Neste programa, como no destinado a idosos, no decurso do trabalho os guardas vão somando e subtraindo nomes, como se percebe mesmo ali, naquela aldeia de Sátão.
A vizinha da frente está à espreita, de olhar torto, vassoura na mão. Não resiste a perguntar o que andam os militares a fazer em casa de José da Silva.
- Eu gosto de "isolar" a vida dele – afiança ela. Isolar, na boca dela, é proteger.
- A senhora pode vir cá e ver o que estamos a fazer – responde-lhe o cabo Figueiredo.
- Estão a ver o que ele tem. Umas batatas pequenitas!
- Estamos a conversar com ele.
- A gente fica desconfiada.
- Mas está desconfiada porquê?
- A gente hoje em dia vê tanta coisa na televisão.
- A senhora tem razão para desconfiar, mas nós estamos mais do que identificados.
Não era a primeira vez que via a GNR por ali. De todas as vezes se inquietara, mas era a primeira que saía da sombra, que metia conversa.
- Muita gente está sozinha.
- A senhora está sozinha também?
- Eu? Eu estou com a vassoura na mão.
- Não tem familiares?
- Tenho no estrangeiro. E ele ainda tem aqui uma irmã e um cunhado.
- Costumamos visitar algumas das suas vizinhas. Ninguém nos disse que estava sozinha.
- Tenho uma gata!
Eneias, de 53 anos, com o guarda principal Duarte Paulo Pimenta
Parece tudo ligado no interior do país despovoado e envelhecido. Às vezes, pessoas idosas e pessoas com deficiência fundem-se. Com a idade, tende a aumentar a dificuldade que cada um experimenta a andar, subir degraus, levantar e transportar qualquer coisa, ver, mesmo com óculos, concentrar-se, dobrar-se, segurar algo, ouvir, mesmo com prótese auditiva, sentar-se ou levantar-se, compreender ou fazer-se compreender. Nas acções de sensibilização que a GNR vai fazendo, sobretudo nas escolas que lhe compete proteger, explica que com a idade todas as pessoas perdem habilidades e chama a atenção para pormenores da vida em comunidade, como o respeito por todos, a relevância das caixas de atendimento prioritárias e dos estacionamentos reservados.
“É um trabalho de prevenção”, resume o guarda principal Duarte, do destacamento de Viseu. “Tentamos aliviar o trabalho dos colegas mais tarde.” Na tarde desta sexta-feira, programou passar por casa de um deficiente, de 53 anos, que vive com a mãe, de 83. A mãe, Maria de Lurdes Fernandes, está frágil, debilitada. Preocupa-se com o que o futuro reserva ao filho, a que deu o nome de Eneias, como a personagem da literatura greco-romana.
- Por aqui tem andado alguém estranho? - pergunta ele.
- De dia, não sei. De dia, tenho estado no centro. Sabe que me pode passar algo e estou aqui sozinha. Ele não ouve. Ele não fala. Se me passa algo, que é que eu vou fazer? Se me passa algo sempre estou ao pé delas e coiso.
- Mas de noite está em casa. Alguma coisa já sabe. Pode ligar para nós. Já lhe tinha deixado o número de telefone. Vou pôr aqui neste calendário que lhe trouxe.
- Se me acontece alguma aqui, tenho de ir de arrastos ao quarto dele chamá-lo. Não vale a pena gritar, que ele não ouve. Se lhe toco, ele vai chamar alguém. De noite não vai que tem medo!
- Tem aqui o número do posto. Também tem aqui o número do serviço da emergência. É pequenino: 112. Às vezes, numa atrapalhação, para não estar a marcar tantos números, é melhor ligar 112, que quem estiver do outro lado ajuda.
- Está bem.
- De resto é o que temos falado. Cuidado com a portinha. Sempre fechada.
- Sim, tem estado.
- Espreite pela janela antes de abrir a porta.
- Tenho aí um cachorrito que dá conta de tudo.
- Como é que se chama?
- Chama-se Leão, mas é pequenino.
- Também já sabe que as notas de 20 euros mudaram, mas ninguém vem trocá-las.
- Já! Tudo trafulhice.
- As notas que tiver não passam de validade.
- Eu não deixo juntar nem novas, nem velhas. A reforma é pequena. Tem de chegar para luz, telefone, vestir e coisa. O dinheiro vai.
Falam sobre a viuvez, que já dura há 16 anos, sobre o outro filho, que está na Suíça, sobre a filha, que vive em Águeda, e sobre aquele filho, Eneias, tão parecido com o pai. E tão incapaz de lidar com as derrotas do Benfica. “Faz bem em vir”, diz Lurdes. “Faz-me um grande favor passar por aqui. Sou retirada do povo. Pode haver para aí algum maluco. Sinto-me muito mais segura por passarem aqui de vez em quando. Só que vejam, já dizem: pronto! Não vale a pena ir lá, porque aparecem de repente.”
Os burlões tendem a ser gente simpática, de voz meiga, convincente. Alguns fazem-se passar por funcionários da empresa da electricidade, do gás ou da água para entrar em casa. Outros vestem a pele de funcionários da segurança social. Podem, por exemplo, pedir dinheiro adiantada para ajudar a antecipar reformas. Também há os que se fazem passar por funcionários dos correios, com uma encomenda de uma familiar. E os que batem à porta a anunciar que a pessoa ganhou um prémio qualquer e para o receber tem de pagar uma certa quantia.
O militar sai satisfeito. “É bom ver que as pessoas gostam da nossa presença. É muito gratificante perceber isso. Este é um trabalho que não apresenta números. Ainda há pouco estive duas horas com uma senhora. O marido morreu, tem a filha fora. Chorou, riu-se. Quando vim embora, estava radiante. ‘Passe cá outra vez’. E eu disse: ‘passo, só não posso prometer quando’”.
Tal como faz com os idosos, a GNR convida os deficientes em situação de vulnerabilidade a aderirem ao programa "Residência Segura". Até agora, aderiram 113. Os militares recolheram os seus dados e inseriram-nos em mapas por região, convencida de que tal lhe permite direccionar melhor os meios e aumentar o sentimento de segurança.
“Isto é um projecto bastante embrionário, mas tem pernas para andar”, acredita o guarda principal Mourão, da GNR de Lamego. Está a sair, com o guarda principal Santos, para casa de Domingos, um homem que se desloca numa cadeira de rodas e arrasta as palavras, como se não as quisesse deixar. Encontram-no no largo da aldeia, sozinho. O centro de convívio está vazio e na rua é raro aparecer vivalma. “Aqui, nada, nada. Não há, não há, não há união. Muito pouco”, queixa-se. Conversam longamente com ele. E ele não os quer deixar partir.
29.12.15
Semear alegria de viver pelos montes
Ana Cristina Pereira (texto) e Adriano Miranda (fotos, in Público on-line
Projecto de apoio psicológico ao domicílio da associação Odemira+ foi criado para combater a solidão e o isolamento social e territorial dos idosos.
Ti Francília está em casa. Uma casa térrea, de paredes grossas, caiada de branco, no topo de um monte. “Posso dizer que vivo sozinha. Está para aí um velho …. É um homenzito que também não tem ninguém e eu … para não estar aqui sozinha… Olhe, faz de conta que o ajustei, faz de conta que é meu empregado. É para ir à água, para ir à lenha, e mais nada, a bem dizer.”
Nem era preciso o psicólogo Fábio Medina explicar que sentir solidão não é estar desacompanhado. Bastaria ouvir ti Francília falar no companheiro. “Passa-se dias sem me dizer nadinha!” Mas o isolamento social e territorial é um caso sério no mais extenso (1 720 km²) e menos povoado município do país (22 mil). Os habitantes de Odemira estão mal distribuídos – 70% moram nas freguesias na faixa litoral, que faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano, enfatiza o técnico d’ A Vida Vale, um projecto destinado a combater a solidão e o isolamento social e territorial. E não dispõem de uma rede de transportes públicos capaz de atenuar tanta distância.
É grande o apego ao lugar. “Fui nascida e criada nesta ramadinha”, diz ti Francília. “Era casa de meus pais, casa de meus avós. O meu marido morreu há 30 anos. Duas filhas já eram casadas. Uma ainda era solteira. Ela casou-se e eu fiquei sozinha. Tinha aí uma remessa de reses. E regadio. E sozinha não dava conta. Aquele homenzito até tinha fama de ser bom trabalhador. Estava sempre se oferecendo para vir pôr adubo, semear batatas, carregar lenha, ainda a minha filha aí estava. Eu pensava que ele estava livre de todo o interesse, mas ele já andava era pensando: ‘vou ver se agarro aquilo!’”
Fábio Medina ouve-a, atento, empático. Está experimentado. O projecto, da associação Odemira +, começou na freguesia de Sabóia e avançou para outras três: Luzianes-Gare, São Martinho das Amoreiras e Santa Clara-a-Velha. “Visito uma média de seis pessoas por dia”, revela. Articula-se com a Guarda Nacional Republicana (GNR) e com a unidade móvel, projecto do Centro de Saúde, da Câmara Municipal de Odemira e da Santa Casa da Misericórdia, para acompanhar 240 idosos isolados. Quando trabalhavam de costas voltadas, acontecia as três equipas passarem na mesma semana pela mesma casa. Agora, partilham informação, para que todas saibam quando cada pessoa foi visitada e actuem de acordo com um sistema de prioridades. Uns idosos têm prioridade alta (devem ser vistos todas as semanas); outros, média (a cada duas ou três semanas) ou baixa.
Muito gosta Ti Francília destas visitas. “Com o senhor Fábio estou à vontade”, diz ela, convidando a entrar na sala de jantar. “Faz de conta que ele é uma pessoa da minha família.” Confiança é tudo. Ele não se atreve a ir sozinho pela primeira vez a casa de alguém. Já lhe aconteceu ser recebido de espingarda na mão por idosos fartos de ouvir falar nas manhas de burlões e de assaltantes. Prefere ser apresentado por um familiar, um vizinho, um elemento da GNR.
Irmão da cunhada da ti Francília, o ti José, tem uma espingarda guardada dentro de casa, não vá o diabo tecê-las. Mora sozinho desde que os pais morreram, já lá vão 28 anos. Sozinho, sozinho não. Tem o cão “Joly”, a gata “Chica” e umas quantas galinhas sem nome, que se empoleiram numa pereira e numa oliveira em frente à casa. Nunca teve companheira. “Não tem calhado. Vai passando tempo, vai passando tempo. Agora, tenho 76 anos. Já não vale a pena criar mulher.”
Não convida a entrar. “Não quis arranjar isto antes e agora está a cair”, justifica-se. Não tem cada-de-banho, nem água canalizada. Vai buscar água ao poço para tomar banho e cozinhar. “Ainda hoje fiz uma couvita com um bocadito de carne que a minha irmã me deu ontem. Bebe-se um copo de vinho. Está a bucha feita. Do meio-dia ficou para a noite. É só aquecer e baldear.”
Quando a noite cai, o crepitar da lareira faz-lhe companhia. “Estou ali, ao fogo, aquecendo os pés. Tenho aí lenha. Acendo.” Não tem televisor, nem rádio. “Tinha ali um. Avariou [já lá vão seis anos].Também ouço mal…” Se passar alguém pela estrada estreitinha, o “Joly” dá logo sinal. De dia, anda entretido. “Sento-me aqui, como uma bucha e vejo passar o trânsito. Tem ocasiões que passavam aí sete ou oito jipes.” Há familiares por perto. E ainda trabalha no campo. “Agora, andei 15 dias a apanhar azeitonas com um sobrinho meu. Apuramos 60 litros de azeite.”
Se pudesse, ti José ia até Vale Touriz, à escola primária que o projecto transformou em centro comunitário. A associação Odemira + não tem transporte, depende da boa-vontade da Escola Profissional de Odemira, que empresta uma carrinha. “Tinha uma bicicleta a motor. Antes de cair, dei ao meu sobrinho para vender. Há quatro anos deu-me um AVC. Fui apanhado num braço e numa perna…”
O companheiro de ti Francília, o Ti António, costuma estar no centro comunitário. Serve-se do seu microcarro, um quadriciclo mais conhecido por "mata-velhos" ou "papa-reformas". “Vai jogar às cartas de segunda a sexta. É um belo trabalho”, ri-se a mulher. Ela pouco vai. “Comecei a não ter saúde. Ando toda coxa. Tenho uma dor nesta perna. Tenho pena de estar assim e de não poder ir para lado nenhum.”
As horas podem ser animadas em Vale Touriz. Ali, recolhem-se histórias de vida, organizam-se passeios pelo concelho, actividades, a começar pelas rendas. Nada atrai tanta gente como os churrascos quinzenais. Está tudo mais parado desde que a animadora socio cultural, Tânia Mestre, entrou de licença de parto.
Tratam o psicólogo por “senhor Fábio”. Ele dispensaria o “senhor”, como dispensou o “doutor”. Andar de casa em casa é diferente de trabalhar num gabinete ou num consultório. “Aqui não podemos ter a mesma distância”, explica, estrada fora. Tem de quebrar as barreiras tradicionais, de ir para lá das suas funções. Um exemplo? “Uma vez fui ver um senhor. Fazia quatro dias que comia comida fria. O gás tinha acabado. A marca da garrafa tinha mudado. Ele já não sabia como mudar a garrafa.” Outro exemplo? “Um senhor ligou, chorando. ‘O meu pai, o meu pai. Não sei o que fazer.’ Eu disse: ‘Daqui a 20 minutos estou aí. Pensava que o pai dele tinha falecido, mas não. Tinha tido alta. Estava em casa dele. Tinha uma algália. E ele estava desesperado. Nunca tinha lidado com uma coisa daquelas. Tinha de trocar a fralda. Ensinei-o. Voltei no dia seguinte com uma enfermeira [da unidade móvel] para o ensinar melhor.” Faz tudo com sentido profissional. “São estes pormenores que fazem a diferença, que ajudam a ganhar a confiança.”
Num mundo cada vez mais rendido à tecnologia, fala-se muito na teleassistência, mas todo esse discurso esvazia-se no interior de um concelho com grandes falhas na cobertura de rede. Ti Francília não tem teleassistência, mas ti Odete tem. O telefone, com um visor e umas teclas enormes, está num cantinho da sala, coberto com um pano bordado. O marido passa os dias sentado mesmo ao lado, com uma manta colorida sobre as pernas. É ele quem usa a pulseira, dotada de um botão de emergência. Se o premir, disparará um alarme numa central de atendimento.
O cuidado de Fábio é mais contínuo. Quer saber como está ti Odete, como está o marido, como está o cunhado, que foi hospitalizado. “Olhe, eu nem sequer lhe sei dizer”, diz ela. “Contratei o táxi que era para a gente ir levantar a reforma. Esta manhã, estava-me com diarreia. ‘Não posso ir.’ Dei-lhe pequeno-almoço. Dei-lhe medicamentos. Ele ficou na cama. E eu fui. Não demorei muito. Quando cheguei, estava sentadinho ali no sofá, muito sossegadinho. Eu disse-lhe: agora vou fazer o almoço. ‘Não faças que eu não tenho fome.’ Não tens fome? O que comeste? ‘O que tinhas em cima da mesa.’ Tudo que faz mal! Alheira, bolo, torresmo. Tudo a eito!”
Fábio Medina não se atreve a dizer que com isto se está a reduzir o número de suicídios em Odemira, cenário de uma das taxas mais elevadas do país. Nem lhe parece que esse deva ser o mote. “As pessoas ligam-nos em caso de necessidade. Estão cada vez mais envolvidas. Já dinamizam actividades” – por exemplo, festas de santos populares. E isso ajuda a criar alegria de viver.
Projecto de apoio psicológico ao domicílio da associação Odemira+ foi criado para combater a solidão e o isolamento social e territorial dos idosos.
Ti Francília está em casa. Uma casa térrea, de paredes grossas, caiada de branco, no topo de um monte. “Posso dizer que vivo sozinha. Está para aí um velho …. É um homenzito que também não tem ninguém e eu … para não estar aqui sozinha… Olhe, faz de conta que o ajustei, faz de conta que é meu empregado. É para ir à água, para ir à lenha, e mais nada, a bem dizer.”
Nem era preciso o psicólogo Fábio Medina explicar que sentir solidão não é estar desacompanhado. Bastaria ouvir ti Francília falar no companheiro. “Passa-se dias sem me dizer nadinha!” Mas o isolamento social e territorial é um caso sério no mais extenso (1 720 km²) e menos povoado município do país (22 mil). Os habitantes de Odemira estão mal distribuídos – 70% moram nas freguesias na faixa litoral, que faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano, enfatiza o técnico d’ A Vida Vale, um projecto destinado a combater a solidão e o isolamento social e territorial. E não dispõem de uma rede de transportes públicos capaz de atenuar tanta distância.
É grande o apego ao lugar. “Fui nascida e criada nesta ramadinha”, diz ti Francília. “Era casa de meus pais, casa de meus avós. O meu marido morreu há 30 anos. Duas filhas já eram casadas. Uma ainda era solteira. Ela casou-se e eu fiquei sozinha. Tinha aí uma remessa de reses. E regadio. E sozinha não dava conta. Aquele homenzito até tinha fama de ser bom trabalhador. Estava sempre se oferecendo para vir pôr adubo, semear batatas, carregar lenha, ainda a minha filha aí estava. Eu pensava que ele estava livre de todo o interesse, mas ele já andava era pensando: ‘vou ver se agarro aquilo!’”
Fábio Medina ouve-a, atento, empático. Está experimentado. O projecto, da associação Odemira +, começou na freguesia de Sabóia e avançou para outras três: Luzianes-Gare, São Martinho das Amoreiras e Santa Clara-a-Velha. “Visito uma média de seis pessoas por dia”, revela. Articula-se com a Guarda Nacional Republicana (GNR) e com a unidade móvel, projecto do Centro de Saúde, da Câmara Municipal de Odemira e da Santa Casa da Misericórdia, para acompanhar 240 idosos isolados. Quando trabalhavam de costas voltadas, acontecia as três equipas passarem na mesma semana pela mesma casa. Agora, partilham informação, para que todas saibam quando cada pessoa foi visitada e actuem de acordo com um sistema de prioridades. Uns idosos têm prioridade alta (devem ser vistos todas as semanas); outros, média (a cada duas ou três semanas) ou baixa.
Muito gosta Ti Francília destas visitas. “Com o senhor Fábio estou à vontade”, diz ela, convidando a entrar na sala de jantar. “Faz de conta que ele é uma pessoa da minha família.” Confiança é tudo. Ele não se atreve a ir sozinho pela primeira vez a casa de alguém. Já lhe aconteceu ser recebido de espingarda na mão por idosos fartos de ouvir falar nas manhas de burlões e de assaltantes. Prefere ser apresentado por um familiar, um vizinho, um elemento da GNR.
Irmão da cunhada da ti Francília, o ti José, tem uma espingarda guardada dentro de casa, não vá o diabo tecê-las. Mora sozinho desde que os pais morreram, já lá vão 28 anos. Sozinho, sozinho não. Tem o cão “Joly”, a gata “Chica” e umas quantas galinhas sem nome, que se empoleiram numa pereira e numa oliveira em frente à casa. Nunca teve companheira. “Não tem calhado. Vai passando tempo, vai passando tempo. Agora, tenho 76 anos. Já não vale a pena criar mulher.”
Não convida a entrar. “Não quis arranjar isto antes e agora está a cair”, justifica-se. Não tem cada-de-banho, nem água canalizada. Vai buscar água ao poço para tomar banho e cozinhar. “Ainda hoje fiz uma couvita com um bocadito de carne que a minha irmã me deu ontem. Bebe-se um copo de vinho. Está a bucha feita. Do meio-dia ficou para a noite. É só aquecer e baldear.”
Quando a noite cai, o crepitar da lareira faz-lhe companhia. “Estou ali, ao fogo, aquecendo os pés. Tenho aí lenha. Acendo.” Não tem televisor, nem rádio. “Tinha ali um. Avariou [já lá vão seis anos].Também ouço mal…” Se passar alguém pela estrada estreitinha, o “Joly” dá logo sinal. De dia, anda entretido. “Sento-me aqui, como uma bucha e vejo passar o trânsito. Tem ocasiões que passavam aí sete ou oito jipes.” Há familiares por perto. E ainda trabalha no campo. “Agora, andei 15 dias a apanhar azeitonas com um sobrinho meu. Apuramos 60 litros de azeite.”
Se pudesse, ti José ia até Vale Touriz, à escola primária que o projecto transformou em centro comunitário. A associação Odemira + não tem transporte, depende da boa-vontade da Escola Profissional de Odemira, que empresta uma carrinha. “Tinha uma bicicleta a motor. Antes de cair, dei ao meu sobrinho para vender. Há quatro anos deu-me um AVC. Fui apanhado num braço e numa perna…”
O companheiro de ti Francília, o Ti António, costuma estar no centro comunitário. Serve-se do seu microcarro, um quadriciclo mais conhecido por "mata-velhos" ou "papa-reformas". “Vai jogar às cartas de segunda a sexta. É um belo trabalho”, ri-se a mulher. Ela pouco vai. “Comecei a não ter saúde. Ando toda coxa. Tenho uma dor nesta perna. Tenho pena de estar assim e de não poder ir para lado nenhum.”
As horas podem ser animadas em Vale Touriz. Ali, recolhem-se histórias de vida, organizam-se passeios pelo concelho, actividades, a começar pelas rendas. Nada atrai tanta gente como os churrascos quinzenais. Está tudo mais parado desde que a animadora socio cultural, Tânia Mestre, entrou de licença de parto.
Tratam o psicólogo por “senhor Fábio”. Ele dispensaria o “senhor”, como dispensou o “doutor”. Andar de casa em casa é diferente de trabalhar num gabinete ou num consultório. “Aqui não podemos ter a mesma distância”, explica, estrada fora. Tem de quebrar as barreiras tradicionais, de ir para lá das suas funções. Um exemplo? “Uma vez fui ver um senhor. Fazia quatro dias que comia comida fria. O gás tinha acabado. A marca da garrafa tinha mudado. Ele já não sabia como mudar a garrafa.” Outro exemplo? “Um senhor ligou, chorando. ‘O meu pai, o meu pai. Não sei o que fazer.’ Eu disse: ‘Daqui a 20 minutos estou aí. Pensava que o pai dele tinha falecido, mas não. Tinha tido alta. Estava em casa dele. Tinha uma algália. E ele estava desesperado. Nunca tinha lidado com uma coisa daquelas. Tinha de trocar a fralda. Ensinei-o. Voltei no dia seguinte com uma enfermeira [da unidade móvel] para o ensinar melhor.” Faz tudo com sentido profissional. “São estes pormenores que fazem a diferença, que ajudam a ganhar a confiança.”
Num mundo cada vez mais rendido à tecnologia, fala-se muito na teleassistência, mas todo esse discurso esvazia-se no interior de um concelho com grandes falhas na cobertura de rede. Ti Francília não tem teleassistência, mas ti Odete tem. O telefone, com um visor e umas teclas enormes, está num cantinho da sala, coberto com um pano bordado. O marido passa os dias sentado mesmo ao lado, com uma manta colorida sobre as pernas. É ele quem usa a pulseira, dotada de um botão de emergência. Se o premir, disparará um alarme numa central de atendimento.
O cuidado de Fábio é mais contínuo. Quer saber como está ti Odete, como está o marido, como está o cunhado, que foi hospitalizado. “Olhe, eu nem sequer lhe sei dizer”, diz ela. “Contratei o táxi que era para a gente ir levantar a reforma. Esta manhã, estava-me com diarreia. ‘Não posso ir.’ Dei-lhe pequeno-almoço. Dei-lhe medicamentos. Ele ficou na cama. E eu fui. Não demorei muito. Quando cheguei, estava sentadinho ali no sofá, muito sossegadinho. Eu disse-lhe: agora vou fazer o almoço. ‘Não faças que eu não tenho fome.’ Não tens fome? O que comeste? ‘O que tinhas em cima da mesa.’ Tudo que faz mal! Alheira, bolo, torresmo. Tudo a eito!”
Fábio Medina não se atreve a dizer que com isto se está a reduzir o número de suicídios em Odemira, cenário de uma das taxas mais elevadas do país. Nem lhe parece que esse deva ser o mote. “As pessoas ligam-nos em caso de necessidade. Estão cada vez mais envolvidas. Já dinamizam actividades” – por exemplo, festas de santos populares. E isso ajuda a criar alegria de viver.
11.12.15
Associação de Lisboa acompanha 140 idosos vítimas de isolamento
In "Sic Notícias"
A Associação Mais Proximidade Melhor Vida acompanha 140 idosos, em Lisboa, no bairro da Mouraria e na Baixa. Tem sete funcionárias e surgiu para dar ajuda gratuita nos casos de maior isolamento e fazer a ponte com outras associações.
A Associação Mais Proximidade Melhor Vida acompanha 140 idosos, em Lisboa, no bairro da Mouraria e na Baixa. Tem sete funcionárias e surgiu para dar ajuda gratuita nos casos de maior isolamento e fazer a ponte com outras associações.
7.12.15
Reformados idosos fecham-se mais em casa
In "Jornal de Notícias"
Os reformados idosos de hoje fecham-se mais em casa, veem mais televisão e as diferenças de comportamento e ocupação de tempos livres são cada vez mais semelhantes entre quem vive na cidade ou no campo, revela um estudo.
Realizado pela socióloga Maria João Valente Rosa, a pedido da Fundação Inatel, o estudo "Os reformados e os tempos livres" tem por base dois inquéritos realizados à população reformada (um no final de 2014 e outro em 1998) sobre atividades de lazer.
Segundo a socióloga, o inquérito, representativo da população idosa reformada do Continente, visou conhecer as atividades de lazer dos reformados e perceber os sinais de mudança dos seus comportamentos em 16 anos.
Em declarações à agência Lusa, Maria João Valente Rosa destacou algumas conclusões do estudo sobre os idosos de hoje: "Fecham-se mais em casa do que no passado", as atividades de lazer relacionais são menos diversificadas e a televisão ganhou um "protagonismo especial".
Em 2014, apenas 10% declararam ocupar os tempos livre em atividades de lazer fora de casa, contra 17% em 1998.
Por outro lado, aumentou de 53% em 1998 para 64% em 2014 a percentagem de pessoas que declararam passar o tempo de lazer exclusivamente em casa, refere o estudo, publicado em livro, que é lançado na quarta-feira em Lisboa.
"À semelhança do que já acontecia em 1998, as mulheres continuam claramente a dominar esse privilégio do espaço doméstico", adianta.
Contudo, excetuando as atividades religiosas em que as mulheres continuam muito mais participantes, as diferenças entre sexos tendem a esbater-se em relação ao passado
O estudo aponta que a televisão é a atividade de lazer dominante (90%), com os reformados a dedicarem-lhe em média 21 horas por semana em 2014, contra 16 em 1998.
Há atividades que diminuíram de "forma significativa", como frequentar jardins públicos, sociedades recreativas, ir ao café, viajar, ver desporto ao vivo, ir a mercados ou centros comerciais, jogar às cartas, ouvir rádio, ir a bailes ou visitar museus e exposições.
Entre as atividades que aumentaram, embora pouco, encontram-se ler jornais ou revistas e ler livros, o que pode ligar-se ao aumento da escolaridade dos idosos.
O estudo aponta, por outro lado, que "viver em meio urbano ou rural faz cada vez menos diferença em relação aos comportamentos e às opções de tempos de livres".
"O que marca cada vez mais a diferença é a posição socioeconómica, em especial a instrução das pessoas. É aqui que as diferenças se podem jogar em termos de opções", disse Maria João Valente Rosa.
Para a socióloga, "as conclusões são surpreendentes", abrem pistas em relação ao futuro e apontam que a "era de reformados tecnológicos, audiovisuais e curiosos pelo saber está em curso".
"A casa abriu as portas em relação ao mundo e aos outros e o isolamento e a solidão são cada vez menos sinónimos. E por isso é necessário lidar com estes conceitos de forma diferente com que lidávamos nos anos passados", sublinhou.
Hoje os idosos estão mais próximos das novas tecnologias: em 2002, apenas 3% utilizavam o computador, hoje são 23%.
"As pessoas podem estar isoladas, mas não estar sós". Através da televisão, da internet ou do telemóvel pode estar em contacto com os outros e "chegar a mundos que outrora não conseguiam chegar".
"O que importa e que vai fazendo cada vez mais a diferença é a questão do acesso à informação e a questão do conhecimento. São estes dois pilares que vão estruturar as grandes opções no futuro", defendeu a socióloga.
Para o presidente da Fundação Inatel, Fernando Ribeiro Mendes, o estudo mostra que existe "um défice de ofertas de lazer mais ativas e de convívio por parte de todas as entidades, setor público e setor privado, para combater a solidão e a exclusão" de alguns idosos.
Os reformados idosos de hoje fecham-se mais em casa, veem mais televisão e as diferenças de comportamento e ocupação de tempos livres são cada vez mais semelhantes entre quem vive na cidade ou no campo, revela um estudo.
Realizado pela socióloga Maria João Valente Rosa, a pedido da Fundação Inatel, o estudo "Os reformados e os tempos livres" tem por base dois inquéritos realizados à população reformada (um no final de 2014 e outro em 1998) sobre atividades de lazer.
Segundo a socióloga, o inquérito, representativo da população idosa reformada do Continente, visou conhecer as atividades de lazer dos reformados e perceber os sinais de mudança dos seus comportamentos em 16 anos.
Em declarações à agência Lusa, Maria João Valente Rosa destacou algumas conclusões do estudo sobre os idosos de hoje: "Fecham-se mais em casa do que no passado", as atividades de lazer relacionais são menos diversificadas e a televisão ganhou um "protagonismo especial".
Em 2014, apenas 10% declararam ocupar os tempos livre em atividades de lazer fora de casa, contra 17% em 1998.
Por outro lado, aumentou de 53% em 1998 para 64% em 2014 a percentagem de pessoas que declararam passar o tempo de lazer exclusivamente em casa, refere o estudo, publicado em livro, que é lançado na quarta-feira em Lisboa.
"À semelhança do que já acontecia em 1998, as mulheres continuam claramente a dominar esse privilégio do espaço doméstico", adianta.
Contudo, excetuando as atividades religiosas em que as mulheres continuam muito mais participantes, as diferenças entre sexos tendem a esbater-se em relação ao passado
O estudo aponta que a televisão é a atividade de lazer dominante (90%), com os reformados a dedicarem-lhe em média 21 horas por semana em 2014, contra 16 em 1998.
Há atividades que diminuíram de "forma significativa", como frequentar jardins públicos, sociedades recreativas, ir ao café, viajar, ver desporto ao vivo, ir a mercados ou centros comerciais, jogar às cartas, ouvir rádio, ir a bailes ou visitar museus e exposições.
Entre as atividades que aumentaram, embora pouco, encontram-se ler jornais ou revistas e ler livros, o que pode ligar-se ao aumento da escolaridade dos idosos.
O estudo aponta, por outro lado, que "viver em meio urbano ou rural faz cada vez menos diferença em relação aos comportamentos e às opções de tempos de livres".
"O que marca cada vez mais a diferença é a posição socioeconómica, em especial a instrução das pessoas. É aqui que as diferenças se podem jogar em termos de opções", disse Maria João Valente Rosa.
Para a socióloga, "as conclusões são surpreendentes", abrem pistas em relação ao futuro e apontam que a "era de reformados tecnológicos, audiovisuais e curiosos pelo saber está em curso".
"A casa abriu as portas em relação ao mundo e aos outros e o isolamento e a solidão são cada vez menos sinónimos. E por isso é necessário lidar com estes conceitos de forma diferente com que lidávamos nos anos passados", sublinhou.
Hoje os idosos estão mais próximos das novas tecnologias: em 2002, apenas 3% utilizavam o computador, hoje são 23%.
"As pessoas podem estar isoladas, mas não estar sós". Através da televisão, da internet ou do telemóvel pode estar em contacto com os outros e "chegar a mundos que outrora não conseguiam chegar".
"O que importa e que vai fazendo cada vez mais a diferença é a questão do acesso à informação e a questão do conhecimento. São estes dois pilares que vão estruturar as grandes opções no futuro", defendeu a socióloga.
Para o presidente da Fundação Inatel, Fernando Ribeiro Mendes, o estudo mostra que existe "um défice de ofertas de lazer mais ativas e de convívio por parte de todas as entidades, setor público e setor privado, para combater a solidão e a exclusão" de alguns idosos.
9.1.15
GNR reforça vigilância a idosos sós e isolados por causa do frio
in Jornal de Notícias
O Comando Territorial da GNR da Guarda anunciou, esta quinta-feira, que procedeu ao reforço da vigilância dos idosos do distrito que vivem sós e isolados, devido às baixas temperaturas registadas na região.
"Desde segunda-feira que os núcleos de idosos em segurança e as patrulhas dos postos territoriais estão a visitar os idosos que vivem sós e isolados, que foram por nós sinalizados durante a operação 'Censos Sénior 2014' como os mais vulneráveis", disse à agência Lusa o tenente-coronel Cunha Rasteiro.
Segundo o oficial de relações públicas do Comando Territorial da GNR da Guarda, o contacto dos militares com os idosos que vivem sozinhos "é regular", mas, devido ao frio, nos últimos dias, "tem sido sistemático".
"Os militares estão a visitar diariamente os casos [de idosos] mais vulneráveis, para se inteirarem do seu estado de saúde e também para transmitirem conselhos e alertas para não correrem perigos no interior das habitações, nomeadamente com o uso de lareiras, braseiras e aquecedores", referiu Cunha Rasteiro.
Na operação "Censos Sénior 2014", campanha de segurança direcionada aos idosos que vivem sozinhos e isolados, realizada entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro de 2014, foram referenciados 2713 idosos nos 14 concelhos do distrito da Guarda.
Segundo a GNR, dos 2713 idosos sinalizados, 1993 viviam sozinhos, 528 isolados e 192 sozinhos e isolados.
A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) emitiu um aviso à população devido à previsão de tempo frio, com "temperaturas abaixo de normal para a época", alertando para as medidas preventivas a adotar.
Em comunicado, a ANPC refere que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê, para os próximos dias, tempo frio e seco, com temperaturas "mínimas abaixo do normal para a época", e condições para persistência de nevoeiros, que poderão ser gelados em especial nas regiões do interior.
Face às previsões meteorológicas, a ANPC alerta para a possibilidade de piso escorregadio devido à formação de geada, em especial nas regiões do interior, e visibilidade reduzida em zonas de nevoeiro, intoxicações por inalação de gases e incêndios em habitações.
Entre as medidas preventivas a adotar pela população devido ao tempo frio, a ANPC refere ainda que se deve ter "atenção à condução em locais onde se forme gelo na estrada, adotando uma condução defensiva".
O Comando Territorial da GNR da Guarda anunciou, esta quinta-feira, que procedeu ao reforço da vigilância dos idosos do distrito que vivem sós e isolados, devido às baixas temperaturas registadas na região.
"Desde segunda-feira que os núcleos de idosos em segurança e as patrulhas dos postos territoriais estão a visitar os idosos que vivem sós e isolados, que foram por nós sinalizados durante a operação 'Censos Sénior 2014' como os mais vulneráveis", disse à agência Lusa o tenente-coronel Cunha Rasteiro.
Segundo o oficial de relações públicas do Comando Territorial da GNR da Guarda, o contacto dos militares com os idosos que vivem sozinhos "é regular", mas, devido ao frio, nos últimos dias, "tem sido sistemático".
"Os militares estão a visitar diariamente os casos [de idosos] mais vulneráveis, para se inteirarem do seu estado de saúde e também para transmitirem conselhos e alertas para não correrem perigos no interior das habitações, nomeadamente com o uso de lareiras, braseiras e aquecedores", referiu Cunha Rasteiro.
Na operação "Censos Sénior 2014", campanha de segurança direcionada aos idosos que vivem sozinhos e isolados, realizada entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro de 2014, foram referenciados 2713 idosos nos 14 concelhos do distrito da Guarda.
Segundo a GNR, dos 2713 idosos sinalizados, 1993 viviam sozinhos, 528 isolados e 192 sozinhos e isolados.
A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) emitiu um aviso à população devido à previsão de tempo frio, com "temperaturas abaixo de normal para a época", alertando para as medidas preventivas a adotar.
Em comunicado, a ANPC refere que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê, para os próximos dias, tempo frio e seco, com temperaturas "mínimas abaixo do normal para a época", e condições para persistência de nevoeiros, que poderão ser gelados em especial nas regiões do interior.
Face às previsões meteorológicas, a ANPC alerta para a possibilidade de piso escorregadio devido à formação de geada, em especial nas regiões do interior, e visibilidade reduzida em zonas de nevoeiro, intoxicações por inalação de gases e incêndios em habitações.
Entre as medidas preventivas a adotar pela população devido ao tempo frio, a ANPC refere ainda que se deve ter "atenção à condução em locais onde se forme gelo na estrada, adotando uma condução defensiva".
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