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28.4.23

Segurança Social vai distribuir 'tablets' a pessoas com apoio domiciliário

Por Lusa, in Expresso



O objetivo é garantir, através desta ligação, a autonomia de pessoas que estão em casa por motivo de doença ou outro tipo de dependência, explicou a ministra do Trabalho e Segurança Social.


A Segurança Social vai distribuir um tablet às pessoas que são acompanhadas pelo Serviço de Apoio Domiciliário para garantir, através desta ligação, a sua autonomia, anunciou a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

"Neste momento estamos a preparar avisos no âmbito do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] para apoio domiciliário 4.0 para garantir que todas as pessoas que estão a ser acompanhadas no âmbito do setor social relativamente a apoio domiciliário, tenham um tablet para garantir que estão sempre ligadas, permitindo que se mantenham nas suas casas completamente autónomos, mas com a segurança de estarem sempre conectadas", disse Ana Mendes Godinho, à margem da cerimónia, em Loulé, distrito de Faro, da cerimónia de inauguração e apresentação do Centro de Competências de Envelhecimento Ativo (CCEA).

A responsável governamental acrescentou que o tablet "terá naturalmente outros serviços, nomeadamente de monitorização e acompanhamento, até outro tipo de atividade para estimular, mais uma vez, que o envelhecimento ativo e saudável, ainda que muitas vezes à distância, mantém as pessoas ligadas, conectadas a pertencerem a uma comunidade".


Em resposta a uma pergunta dos jornalistas sobre se a Segurança Social iria "distribuir um tablet com um programa específico" para essas pessoas, Ana Mendes Godinho disse que "vai ser isso mesmo".

O Serviço de Apoio Domiciliário presta serviços no domicílio dos utentes, quando estes, por motivo de doença ou outro tipo de dependência, sejam incapazes de assegurar temporária ou permanentemente a satisfação das suas necessidades básicas e/ou realizar as suas atividades diárias.

O serviço permite a prestação de um serviço de proximidade com cuidados individualizados e personalizados, possibilitando assim preservar a família e a casa que constituem para o idoso uma referência importante.

21.3.23

Governo vai lançar dois novos avisos do PRR para apoio domiciliário

Mónica Silvares, in ECO

António Costa disse que “só na poesia basta Deus querer, o homem sonhar e a obra aparecer”. “Na vida real é um bocado mais difícil", reconheceu.

Este semestre serão lançados dois novos avisos no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para apoio domiciliário, anunciou esta terça-feira a ministra do Trabalho e da Segurança Social.

Numa vista às obras da Unidade Social integrada da Portela, um projeto financiado pelo PRR, mas também pela Cruz Vermelha Portuguesa e a autarquia de Loures, Ana Mendes Godinho anunciou que serão “lançados este semestre dois novos avisos para apoio domiciliário 4.0, qualificado e com acompanhamento tecnológico e teleassistência para que os idosos passem a estar ligados garantindo assim um acompanhamento personalizado”. E um outro para “permitir pequenas obras de adaptação das casas — uma banheira, um corrimão ou uma escada — para que as pessoas passam envelhecer nas suas casas de forma ativa, ainda que com acompanhamento domiciliário”, explicou a ministra.

A Unidade Social integrada da Portela, que representa um investimento de 7,6 milhões de euros, sendo que o PRR apenas financia 1,6 milhões, pretende promover dois tipos de resposta: residencial, para cerca de 160 utentes com cuidados continuados, e de apoio domiciliário para cerca de 300 idosos para promover assim um envelhecimento ativo. O objetivo é “aumentar respostas de qualidade que promovam a autonomia e a independência”, precisou a Ana Mendes Godinho.

O primeiro-ministro, que tem todas as semanas iniciativas para demonstrar a aplicação do PRR no terreno, explicou que este é “um bom exemplo” de com a bazuca europeia permite dar uma resposta mais significativa aos problemas estruturais do país, seja nas respostas sociais, seja na habitação.

“No programa PARES, financiado pelo orçamento da Segurança Social temos previstas 18 mil camas, mas temos mais 15 mil graças ao PRR”, sublinhou António Costa. “O PRR acrescenta ao que o país é capaz de fazer”, frisou. “Com o PRR aumentou 33% a capacidade do país em termos de respostas sociais”, acrescentou.

Mas num recado aos críticos da lenta execução do PRR, António Costa disse que “só na poesia basta Deus querer, o homem sonhar e a obra aparecer”. “Na vida real é um bocado mais difícil. É necessário que os arquitetos projetem, que as instituições contratem empreiteiros, que os empreiteiros montem estaleiro, comprem materiais e comecem a executar a obra”, frisou.

Sublinhando que esta obra tem “um prazo de execução”, António Costa justifica que o PRR apenas pagou ainda 20% do valor porque se trata do adiantamento. O restante será pago “à medida que a obra for avançando”. “Significa que o PRR está parado?”, questionou. “Não significa que o PRR está a andar”, respondeu.

De acordo com o mais recente relatório semanal de monitorização da aplicação do PRR, até 8 de março, foram pagos 1,55 mil milhões de euros aos beneficiários finais (9%). Um valor que pouco avançou face ao início do ano.

O Presidente da República aproveita todas as intervenções para alertar para a necessidade de acelerar a execução dos fundos europeus, lembrando que esta é uma oportunidade que Portugal não pode perder. António Costa também aproveita todas as intervenções para responder e esta terça-feira não foi exceção.

“O PRR está a ser executado a bom ritmo, para ser executado a tempo e horas”, concluiu.

28.10.22

EAPN: Aposta no apoio domiciliário pode ser um desafio futuro das IPSS

in a Reconquista

As IPSS têm falta de recursos humanos, pelo que o novo paradigma passa pela aposta reestruturada no apoio domiciliário.

Um dos encontros decorreu no Lar Major Rato em Alcains

O Núcleo Distrital de Castelo Branco da Rede Europeia Anti Pobreza (EAPN), no âmbito do Dia Internacional de Erradicação da Pobreza (celebrado a 17 de outubro), promoveu, dia 19 na Santa Casa da Misericórdia da Covilhã e dia 20 no Lar Major Rato em Alcains, em parceria com estas instituições anfitriãs, mas também com o Instituto Português do Desporto e Juventude, a delegação de Castelo Branco da Cruz Vermelha Portuguesa e a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Castelo Branco, um encontro de associados, onde analisaram o impacto da crise na vida das instituições.

O encontro de Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), associadas à EAPN, teve como foco um “debate de Reflexão da situação atual das instituições do Distrito de Castelo Branco”, na semana dedicada à “Erradicação da Pobreza”.

O Núcleo Distrital de Castelo Branco da EAPN, “tendo um olhar atento às questões das respostas sociais do distrito, associadas à Pobreza e Exclusão Social, que se agravam, debruçou-se neste debate sobre o modelo social atual, com o intuito de contribuir para a construção de um novo paradigma”. Desde logo, “a pandemia, trouxe novos desafios às entidades de cariz social e para os quais não estavam preparadas. Muitas dificuldades foram superadas, enquanto outras se mantêm, obrigando a outras soluções que passam pela formação, pelas respostas sociais e de grande apoio financeiro para manter as respostas que oferecem à comunidade”, avançam os promotores, acrescentando que “o decréscimo de utentes nas respostas socias de Centro de Dia, Apoio Domiciliário, e Centros de Convívio, levaram os utentes a procurarem resposta de ERPI (Estrutura Residencial Para Idosos - Lar) com o aumento da fragilidade das pessoas, devido à dependência e de muitos residirem isolados da comunidade”.

Por outro lado, “a média de idades muito altas, nas direções das IPSS, leva a repensar no rejuvenescimento das mesmas, mas a falta de recursos humanos é notório em todas a instituições, as quais têm que rever todos os seus quadros. O problema mais eminente de hoje e de futuro é o quadro de pessoal”. Além disso, “o envelhecimento populacional de algumas freguesias, leva ao acentuar da questão dos recursos humanos e que futuro, têm as organizações para manter as respostas à comunidade”.

Os associados da EAPN defendem assim que “o apoio domiciliário será o paradigma do futuro, nos próximos anos, numa aposta mais individualizada às necessidades das pessoas, envolvendo uma rede de parceiros locais de forma a envolver todos na reposta social, habitacional e saúde”.

17.5.22

Alimentação, obras em casa e na rua. Lisboa quer cuidar dos mais idosos

André Campos Ferrão, in DN

A autarquia pretende combater o isolamento da população mais envelhecida através da sinalização das situações mais preocupantes, disponibilizando de apoio domiciliário ao nível da alimentação ou até de obras nas habitações identificadas.

A Câmara Municipal de Lisboa assinou esta segunda-feira um protocolo com várias entidades para combater as situações de isolamento da população da cidade com mais de 65 anos, que representa "mais de um terço da população de Lisboa", e criar "condições para a atividade das pessoas" mais velhas, de acordo com o presidente da autarquia.

O documento - que integra o programa "Lisboa, cidade para todas as idades" - foi assinado entre o município da capital, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), o Instituto da Segurança Social, a Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, Policia de Segurança Pública (PSP) e as juntas de freguesia da cidade.

Segundo a informação disponibilizada, pretende "sinalizar a população da cidade com mais de 65 anos e identificar as suas necessidades, de modo a serem detetadas, precocemente, situações de risco, agilizando uma intervenção ajustada a cada situação".

O presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina (PS) referiu que o programa "RADAR" tem um "significado muito profundo", uma vez que vai ao encontro de "mais de um terço da população" da cidade. "Sintetiza bem aquilo que é um eixo da cidade, não há futuro em Lisboa se não houver uma sociedade coesa", vincou durante a cerimónia que decorreu no Convento de São Pedro de Alcântara, na freguesia da Misericórdia, em Lisboa.

No final da assinatura do protocolo, o autarca referiu aos jornalistas que a iniciativa "cuida de todos aqueles que têm maior idade" em Lisboa e reiterou "que são muitos".

Fernando Medina acrescentou que a autarquia tem a "obrigação" de criar espaços para que a população com mais de 65 anos possa manter a sua atividade voluntariamente e "não tenham de sair [de casa] para lares".

O socialista também disse que as habitações das pessoas sinalizadas pelo programa poderão sofrer reabilitações, como a "substituição de banheiras por polibãs, instalação de um pequeno corrimão, tratar do rebaixamento do acesso a uma casa como uma rampa em vez de um degrau".

Está ainda pensada a intervenção na via pública, como a "substituição de calçada [portuguesa] em zonas que não são históricas por pavimentos mais seguros" e que permitam que a população mais envelhecida se desloque com mais facilidade.

A autarquia da capital não deixou de lado as "pessoas que necessitem de acompanhamento médico" e, por isso, Fernando Medina referiu que "há dez centros de saúde envolvidos" no programa.

Projeto pretende identificar 30 mil pessoas com mais de 65 anos

13.5.20

Histórias de gente idosa que recebe apoio em casa mas vive feliz

in o Mirante

O apoio domiciliário continua no terreno e as cuidadoras são, em muitos casos, a única companhia diária de alguns que perderam a família ou são mais esquecidos do que deviam.
“Vale mais não ter pão do que não ter liberdade”

O MIRANTE foi à Chamusca para acompanhar duas funcionárias do Lar da Misericórdia que fazem apoio domiciliário. Luísa Lino e Mila Botas passaram parte da manhã a servir o pequeno-almoço em casa dos utentes e o repórter de O MIRANTE fez-lhes companhia para roubar conversa a alguns dos utentes e perceber como estão a lidar com o isolamento social.

A primeira paragem da manhã foi em casa de José Rafael, 84 anos, que esperava à janela. A presença do jornalista foi um bom pretexto para adiar a primeira refeição por alguns minutos enquanto contou entusiasmado um pouco da sua história. “Vivi sempre uma vida de paixões: pela minha mulher, que morreu há 10 anos, mas também pelo trabalho”. José Rafael foi fotógrafo profissional durante 30 anos na Força Aérea Portuguesa (FAP). “A fotografia era sempre uma forma de comunicar aos mais jovens o gosto por servir na FAP” diz, dando conta da alegria que percebia em alguns soldados quando exibiam a farda.

Apesar de se sentir realizado e feliz com o que a vida lhe proporcionou, recorda com mágoa que antes do 25 de Abril a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) deu-lhe algum trabalho durante uns dias em que o detiveram para interrogatórios. Ainda hoje não sabe do que era acusado.

Depois da reforma dedicou-se à agricultura para cuidar do físico e da mente. Para ele o isolamento social não é um bicho de sete cabeças: divide o tempo entre a leitura e alguns programas de televisão gosta de pensar na vida e tirar conclusões sobre o que fez e o que também poderia ter feito. A velhice não o assusta e considera que o mundo vai ficar melhor depois da pandemia.

Da Rua Mouzinho de Albuquerque, a carrinha da Misericórdia seguiu até à Rua da Fontinha onde moram Glória Lino e Joaquim Lino. Quando abriu a porta contou que estava sentada no quintal a reler o livro que escreveu sobre a sua vida, a que deu o título de ‘Histórias Arrebatadoras’. Questionada sobre a matéria da autobiografia disse ser “a história de uma mulher que trabalhou mais de 40 anos como camponesa e que não guarda uma única boa recordação desses tempos. “Por isso é que resolvi escrever o livro. Para deixar testemunho das minhas raízes aos meus 15 netos e para eles saberem de onde vieram e, quem sabe, para os ajudar a orientarem-se nos caminhos do futuro”, explicou.

O marido é bom cozinheiro mas Glória Lino diz que já não tem estômago para as caldeiradas que ele prepara. Optou pela comida da cozinha da Santa Casa porque assim cuida mais da saúde. Glória Lino sempre foi comunista e, nos tempos da revolução, era conhecida como a Catarina Eufémia da Chamusca, tempos que recorda com saudade. Não tem medo da velhice e muito menos de morrer. Para mostrar que estava em forma mandou um recado aos mais jovens. “Escreve no jornal que penso todos os dias que o valor mais alto da Humanidade é a liberdade e que vale mais não ter pão do que não ter liberdade”, conclui.

Na Rua Dr. Joaquim Duarte Imaginário mora Vitorino Palhais, um homem na casa dos oitenta anos com quem a conversa foi mais curta mas não menos emotiva. No dia da visita sentia-se frágil e com pouca vontade de conversar. Ainda assim houve tempo para recordar os longos anos em que liderou centenas de tipógrafos em “A Persistente”, na Chamusca; ou os tempos de militância no MDP/CDE, uma das mais importantes organizações políticas do período antes do 25 de Abril. “O preço duma vida dedicada ao trabalho e ao activismo político já o paguei: não vi crescer os meus filhos como gostava”, desabafou sem evitar as lágrimas e a voz embargada.

Não houve tempo para falarmos de pandemia nem sequer de isolamento social porque era a conversa mais dispensável na altura. Mas o jornalista levou para a redacção o recado mais importante desta visita: “Diga lá aos seus colegas que também faço parte da história de O MIRANTE. Estive presente e ajudei na impressão da primeira edição de O MIRANTE no dia 16 de Novembro de 1987”, ainda em lágrimas mas aparentemente com mais energia do que no início da conversa.

Cuidadoras profissionais e “familiares” por empréstimo
Mila Botas e Luísa Lino trabalham no lar da Misericórdia da Chamusca há mais de 30 anos. Contam a O MIRANTE que quando foram trabalhar para a instituição as pessoas acharam estranho pelo facto de serem tão jovens e quererem “cuidar de velhos”. Apesar dos receios iniciais adaptaram-se ao trabalho e reconhecem que todos os dias vão criando uma relação especial com os utentes ao ponto de ouvirem confissões como se fossem da família. “E é assim que nos sentimos”, desabafam em conversa com O MIRANTE entre visitas numa manhã de quinta-feira.

Andar no terreno em tempo de pandemia e contactar com um grupo de risco é um acto de coragem. “Não podemos abandoná-los, agora mais do que nunca”, explicam. Trabalhar com idosos aviva ainda mais a nossa realidade; um dia vamos todos envelhecer e ficar descartáveis como está a acontecer infelizmente por esse mundo fora”, desabafam mas sem tristeza e conscientes de que cumprem a sua missão.

Na Santa Casa da Misericórdia da Golegã os idosos estão entregues a Paula Calafate, Susana Duarte e Mónica Silva. O dia é passado entre fazer higienes, entregar roupa, refeições e limpezas. Apesar da dureza do trabalho não viram a cara às dificuldades nem às exigências de uma profissão que pede meças fisica e espiritualmente.

A morte de um idoso é sempre muito sentida e obriga a fazer um luto às vezes muito prolongado. Mónica Silva lembra-se todos os dias de uma senhora que a marcou de uma maneira muito especial. “A D. Maria transmitia-me paz e ensinava-me a lidar com os meus problemas. É um caso de uma pessoa que recebia mas também sabia dar porque tinha uma boa formação humana”, afirma com saudade.

Na Golegã a solidão combate-se com boa disposição
O lar da Misericórdia da Golegã tem cerca de 300 utentes. Em regime de apoio domiciliário são perto de meia centena apoiados por duas equipas de três funcionárias. Maria Irene e Joaquim Clara, 74 e 76 anos, respectivamente, estão casados há mais de 50 anos e aceitaram falar com o repórter de O MIRANTE à janela de sua casa na “Travessa Sem Gente”. Este tempo de pandemia tornou os dias ainda mais solitários. Para além das caminhadas diárias para “mexerem o esqueleto”, Maria Irene entretém-se a fazer rendas e bordados enquanto Joaquim Clara enfeita a tertúlia com peças em madeira feitas à mão.

O casal, natural da Golegã, foi ainda jovem para Lisboa à procura de uma vida melhor. Joaquim Clara fez parte da corporação dos Bombeiros Sapadores de Lisboa e Maria Irene trabalhou como auxiliar de cozinha na Emissora Nacional (EN). No dia 25 de Abril de 1974 estava a preparar um cozido à portuguesa que ainda é um dos seus pratos favoritos porque a faz recordar o dia em que começou a viver sem medo. O segredo para estarem casados há tanto tempo resulta de muito amor e de uma grande dose de paciência, afirmam em jeito de brincadeira.

O dia de trabalho estava perto do fim quando fomos levar o Jornal do Benfica a casa de José Cardina. Aceitou o convite para a conversa mesmo depois de saber do sportinguismo do jornalista. Tem 87 anos e um sentido de humor refinado. “Tenho o prazer de já ter vivido a tua idade e tu nem imaginas onde estarás quando tiveres a minha”, afirmou, com um sorriso. As muletas que usa são só para equilibrar as pernas já que o seu estado de espírito se mantém jovem e sem mazelas.

Foi emigrante em Angola durante 15 anos, onde trabalhou como condutor de máquinas de terraplanagem. No regresso à Golegã dedicou cerca de duas décadas a conduzir o autocarro escolar. Nunca foi um homem de sonhos e muito menos de sonhar em ficar rico, mas confessa que “o dinheiro nunca me chegou; assim que ganhava gastava”.

José Cardina diz que nunca tem dias tristes e só fica mais em baixo quando está muito tempo sem ver os filhos. Nem a morte recente da mulher lhe rouba a alegria de viver. Os dias são passados entre o desfiar das memórias e algumas conversas; reconhece que teve uma vida preenchida, que cometeu muitos erros mas que não está arrependido de nada. “Sei que sempre fui um homem e nunca tive pretensões de chegar a santo”, concluiu com o mesmo espírito brincalhão com que iniciou a conversa.

28.4.20

"Uma guerra que veio limpar pessoas”. Quando a solidão nos idosos também é um vírus, há ajuda que bate à porta

Beatriz Lopes (reportagem e fotos*), in RR

Não precisam só de ajuda para vestir, tomar banho, fazer camas e limpar e arejar a casa. Essa ajuda têm-na vinda de auxiliares de geriatria da Santa Casa da Misericórdia. Agora, mais encerrados ainda do que antes por causa da pandemia, estes idosos de Lisboa precisam de quem os ouça. “É o que quero: eu quero é falar. Falar do quê? Falar do medo. Vivemos um medo terrível. É muito difícil combater um inimigo invisível. É o pavor.”

Mete máscara, tira máscara. Mete bata, tira bata. Mete cobre-pés, tira cobre-pés. E o mesmo acontece com luvas, touca e viseira. A carrinha da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa marca 22ºC lá fora, mas os cuidados de proteção que as auxiliares de geriatria e apoio à comunidade (AGAC) têm de ter para apoiar os 210 utentes de três freguesias lisboetas, maioritariamente idosos, não podem ser vencidos pelo cansaço.

Ao toque da campainha, há quem lhes chame “Santas”, “uma bênção de Deus” ou “anjinhas” , como se ouve do auscultador de um quarto andar de um prédio nos Anjos, onde vive Jaquelina, com 90 anos. Sem filhos, e viúva há dois anos, diz ainda ter “uma cabeça nova”, mas estes têm sido dias difíceis para quem não gosta de “deixar a língua em casa” e se vê aflita com as “malditas cataratas”. Uns dias são mais difíceis do que outros, até porque em dias frios diz não conseguir mexer as pernas e não se habitua ao andarilho – a que, de forma repugnante, chama de “aquela coisa”.

“Tenho passado os meus dias muito contrariada. Ando agarrada às paredes. Estava habituada a trabalhar e a fazer a minha vida e de repente caí e parti logo o braço. Depois meti o pé na argola – que é como quem diz no tapete – e parti uma perna. E agora para me mexer tenho muita dificuldade. Por isso é que dou trabalho às minhas meninas", explica.

O apoio domiciliário da Santa Casa já é longo, desde os tempos em que o marido era auxiliado por estar acamado. Jaquelina recebe apoio na alimentação, na higiene e, sendo diabética, tem sempre ajuda na medição da taxa de açúcar no sangue e na toma da medicação. Mas há um som azucrinante que em tempos de pandemia ecoa nas paredes onde outrora chegavam a estar dois rádios ligados: chama-se solidão e é agora a única música que teima em fazer-se ouvir quando está sozinha.

“Os rádios? Eram do meu marido. Agora perderam o encanto. Ele gostava muito de música. Deixou-nos esses dois rádios e essas cassetes todas. Agora não quero ligar isso. Às vezes experimento ligar a televisão e fecho os olhos para não ver. Mas também só ouço desgraças. Agora querem abrir as escolas e as creches, estão com muita pressa, estão a ir com muita sede ao pote . Com tantos ainda a morrer e outros tantos internados."

As técnicas da Santa Casa vão fazendo esforços para que rebobine a cassete e se lembre de coisas boas, do tempo em que era operadora de caixa, o emprego com que sempre sonhou e desempenhou por mais de 30 anos. Mas a tarefa parece não ser fácil, porque “a vida foi dura”.

“Tinha 11 anos quando morreu o meu pai. A minha mãe era modista – e muito boa –, morreu já com 86. Nunca estive acostumada a estar sozinha. Há dois anos, morreu o meu marido. Olhe aí o retrato dele: tem mesmo carinha de bom, tinha 1.82m e pesava cento-e-tal quilos. Tenho saudades de tudo, até o que era mau seria bom agora" .

Agora diz estar a passar por “uma guerra que veio limpar pessoas , porque já estava cá gente a mais”. E não esconde o medo que tem de “Deus a levar”. “Medo, tenho de morrer. Até uma galinha tem medo de morrer. Veja lá se quando quer apanhar uma galinha ela não foge e nunca mais a apanha. Medo toda a gente tem."

A conversa faz-se também de silêncios. Mas há um cheiro a cozido à portuguesa que sai da cozinha e que a faz despertar. Jaquelina conta ainda com o apoio de Maria, empregada doméstica, há já oito anos. Mas o apoio doméstico não se faz apenas de aspirador na mão, até porque agora, diz, é como “uma bebé”.

“Antes quero que ela esteja ao pé de mim a conversar comigo do que limpe o pó. Digo sempre “oh Maria, limpa depois, anda para aqui um bocadinho”. Não me ralo que ela o faça depois. É a minha Maria, é muito séria, confio-lhe tudo, até o troco das compras. Quando ela sai é que vejo a diferença, já não tenho com quem falar."

É quando a porta fecha que só se ouve o relógio da sala. O telefone, esse, toca duas vezes ao dia, de manhã e à noite, quando um primo que não vive perto, de quem fala como o filho que Deus não lhe deu, lhe liga para saber como tem passado.

Do apoio da Misericórdia já não passa sem ele, mas insiste em recusar meter o pé fora de casa, mesmo depois da pandemia da Covid-19 passar. “A Santa Casa já me convidou para ir aos passeios. Mas olhe para mim: o trabalho que eu dou só para meter uma rampa na camioneta. Já tenho o coração muito cansado. Muito cansado.”

“Nos primeiros dias em que tive de ficar em casa tinha stresse, tinha neuras, uma coisa horrível”
Seguimos para o Areeiro, onde vive Maria Helena, 93 anos, solteira, não tem filhos nem outros familiares. A cozinha tornou-se agora um atelier de pintura, uma história e paixão já antiga que se escreve, ou traça, desde os seus 12 anos, altura em que tinha presente que seria pintora.

No entanto, não dispensa apresentações: “Maria Helena Leite. Este é o meu nome artístico. Mas sou Maria Helena Patrício Leite.”

Tem passado os últimos dias de pincel na mão, ao som de uma arara que tem no piso superior. A monotonia levou-a a mudar-se para a cozinha. Recusa a companhia da passarada – ou não fosse o silêncio também fonte de inspiração para os artistas.

“Levanto-me, lavo a cara – sabe Deus como – e depois venho tomar o pequeno-almoço. Vou pintar até às 11h00. Depois subo para dar comida aos passarinhos. Depois desço para almoçar. E volto a pintar até às 18h00. Sabe que isto depois passa a ser uma loucura. Nos primeiros dias em que tive de ficar em casa tinha stresse, tinha neuras, uma coisa horrível .”

Um rádio e uma televisão ligados, sublinha, não são suficientes para lhe encherem a casa. Nesta altura, Maria Helena recebe duas respostas sociais, da Santa Casa e do Centro de Dia Nossa Senhora da Pena, na freguesia de Arroios. Recebe refeições à segunda e quinta-feira, precisa de ter supervisão no banho e ajuda em tarefas pontuais, como “fazer as camas com lençóis bem esticadinhos”.

Não lidou bem com a decisão de ficar confinada a quatro paredes e ver “o resto da vida, já curto,” suspenso – até porque ensinava outros a pintar no centro de dia e participava num coro da Misericórdia. Depois de avaliado o nível de ansiedade e do medo, passou recentemente a usufruir de uma linha telefónica de apoio psicológico por se sentir “muito sozinha”.

“Tenho um psicólogo que se chama Ricardo. Muito gentil. E diz que agora vai falar comigo mais vezes. Isso é o que quero. Eu quero é falar.” E de que falam? “Do medo. Todos nós vivemos um medo terrível. É muito difícil combater um inimigo invisível . É o pavor.”

Maria Helena quer deixar bem presente que esta é uma pandemia que “não afeta apenas idosos do interior” e que o medo fez com que outras conquistas recentes se tornassem em derrotas antigas.

“O que mais me custa é não poder andar; eu caminhava muito, viajei muito. Já nos últimos tempos estava limitada, porque tinha de usar moletas com medo de cair. Eu só queria andar, esquecer-me que sofri muito como toda a minha geração. Sabe que só me libertei quando fui para o centro de dia, tornei-me noutra pessoa.”

O apoio social fez com que voltasse a pintar depois de 15 anos parada, período em que se tornou cuidadora do pai, depois do falecimento da mãe. Sentada no sofá da sala, que mais se assemelha a um museu, e com um retrato da mãe que pintou, na parede atrás de si, perde-se em recortes de jornais, onde foi notícia, e nos trabalhos que a fizeram percorrer o mundo.

“Fiz várias exposições, ganhei uma bolsa para estudar em Itália e lá fui, depois de tirar o curso na Escola Artística António Arroio. Viajei muito e o meu maior prazer era trazer coisas para casa. Continuo a ver as ruas, os caminhos, as galerias de Itália, Áustria, Alemanha, em França: sinto que faço os mesmos caminhos", recorda.

E prossegue em viagem: “Aqui pode ver o grupo de artistas portugueses onde eu participei, vários artistas da elite, como o João Mário, José Núncio. Olhe eu aqui: Maria Helena Leite. Olhe aqui: com este retrato a pastel consegui a primeira medalha!”.

Daqui a uma semana ficará pronto o quadro da costa alentejana a que se tem dedicado. Na tela ainda só se vê o azul e o branco, mas surgirá algo entre Vila Nova de Milfontes e a Zambujeira do Mar: é lá que se esconde “a esperança e a tranquilidade”. “Ah, e Almograve!”, suspira.

“Há uma diferença entre estar sozinho e viver em solidão”
Abre-se a porta de um segundo direito, na zona do Areeiro, onde os sorrisos acolhem primeiro do que as palavras. Do lado de lá, João, totalmente dependente, e a sua esposa e principal cuidadora, Margarida.

Vivem sozinhos e resguardados no casulo das memórias que guardam dos cinco filhos que estão em Angola. Falar de solidão dói, mas sempre que recebem alguém em casa, ainda que desconhecido, há uma espécie de metamorfose e esforço para que as histórias do passado batam asas.

“Quando era técnico oficial de contas, em Angola, tinha uma vida risonha. Aquilo que era o básico eu tinha: meio de transporte, uma casa minimamente confortável, relacionava-me com muita gente, muita gente mesmo! Imagine: quando o Presidente da República [Agostinho Neto] fazia anos, era convidado. E dávamos as mãos. Devido à minha profissão, às vezes era-me confiado determinadas missões, ir avaliar um projeto antes de recebermos os parceiros estrangeiros – ao ponto de, por exemplo, ser alugado um avião para ser transportado de Luanda para outra província. Um avião só para duas pessoas!”, exclama.

São memórias que, por mais que queira, aos 66 anos, não lhe preenchem o vazio. Nesta altura de isolamento social, a única coisa que João queria era “um abraço de um filho, que levantasse o ânimo” .

“Há uma diferença entre estar sozinho e viver em solidão. E há casas cheias de gente solitária . Este é um vírus que nos afeta a todos. Não importa de que raça somos, não importa a nacionalidade, se é rico ou pobre: todos nós seremos profundamente afetados.”

Há mais de 10 anos, João foi obrigado a ficar por Portugal. Contraiu uma bactéria que lhe comprometeu a coluna vertebral, ficando tetraplégico. Chegou a ter uma meningite, a ficar em coma e hoje depara-se com outros problemas associados, como os tratamentos de hemodiálise que tem de fazer três vezes por semana. É só nessas alturas que vê a luz do dia, talvez daí a insistência em pedir à “Guida” que abra todas as janelas de casa. “A partir de agora o mundo não será o mesmo”, murmura.

No Serviço de Nefrologia e Transplantação Renal, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde é seguido, também houve mudanças e medidas de mitigação do risco de contágio da Covid-19. “Na sala de espera os doentes de hemodiálise estão juntos, mas depois há um circuito paralelo de saída para não nos cruzarmos com outros doentes. O tratamento tinha a duração de quatro horas e 14 minutos; reduziram para três horas”.

Para que o tempo passe mais rápido, João leva a Bíblia, já gasta, para o tratamento. É também é à fé que se agarra nesta altura. É a única coisa a que se pode agarrar, depois de ter vendido tudo o que tinha em Angola para investir no apartamento, numa cama articulada e no elevador de transferência de que precisava.

O apoio monetário chega através dos filhos. Mas “chega tarde”, queixa-se Margarida, a mulher: “Os bancos em Angola são muito lentos, há muitos bancários em casa e o dinheiro demora muito a chegar. Esta dependência económica veio estragar-nos a vida. Primeiro têm de transformar o kwanza em dólar e, depois, em euro. Vai-se tudo! O que os meus filhos trabalham é para os pais."

À hora do pequeno-almoço, com uma pêra cortada, um pão e um chá de camomila, é também por aqueles que, neste momento, atravessam dificuldades financeiras que João reza.

"Senhor Jeová, queremos agradecer-lhe por este alimento físico que pôs diante de nós, abençoe o mesma, e também a “Guida” que o preparou. Peço que este privilégio não seja só para mim, mas para todos os que têm a necessidade do pão de cada dia. Continue também a alimentar-nos espiritualmente e às pessoas famintas: dê-lhes o mínimo para que se possam alimentar, para que possam ter as forças físicas para poderem fazer as suas tarefas."

O agradecimento diário vai também para a Santa Casa da Misericórdia. João recebe visitas das auxiliares de geriatria e apoio à comunidade de segunda a domingo, duas vezes por dia, para higiene pessoal, posicionamento e vestir.

“A Santa Casa, como eu digo à minha esposa e aos meus filhos, para nós é uma bênção. Veio para ajudar mesmo os necessitados. Porque eu pergunto-me: o que seria de nós se não fosse a Santa Casa? A Margarida também tem problemas de saúde. E eu aqui, a precisar de alguém que me vista, que limpe as fezes… Este é um serviço que tem de ser reconhecido.”

Margarida, visivelmente emocionada, acrescenta: “Se não houvesse este tipo de auxílio, não sei como seria para os idosos e para aqueles que são altamente debilitados. Morreriam antes do tempo. O meu homem está vivo graças a isto."

Famílias estão a dar mais apoio na pandemia
Em isolamento, e sendo um dos grupos que apresenta um maior risco de doença por Covid-19, cerca de 210 idosos, de três das 24 freguesias de Lisboa, estão a receber apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que tem verificado uma ligeira quebra no número de pedidos de ajuda. Porquê? Pela resposta familiar que tem surgido.

“Estamos a acompanhar, por dia, cerca de 210 pessoas. Costumamos acompanhar, por norma, cerca de 350, mas, neste momento, devido à pandemia e ao isolamento, houve pessoas e famílias que preferiram ficar em casa sem o nosso serviço, sendo este apoio garantido por familiares ou pessoas amigas”, explica Ana Nascimento, diretora do Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) da Unidade de Desenvolvimento e Intervenção de Proximidade da Alameda, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Com 54 auxiliares de geriatria, e apoio à comunidade no terreno, o serviço domiciliário presta apoio desde a higiene pessoal à entrega de refeições, do tratamento de roupa à organização das caixas da medicação. Ou até idas ao supermercado, cujos pedidos têm aumentado.

“Os pedidos são diversos. No entanto, os que mais se verificam durante a pandemia são o apoio para a realização de compras no exterior – como, por exemplo, compras no supermercado e farmácia –, o fornecimento de alimentação refrigerada e, também, o apoio na higiene pessoal para pessoas mais dependentes e que não apresentam rede de suporte durante a pandemia.”

No que respeita ao fornecimento de alimentação, o apoio pode ser adaptado a cada utente e toda a segurança é garantida.

“Depende das situações e das necessidades de cada pessoa. Há pessoas que têm almoço e jantar. Há outras que voltam a comer a sopa do almoço ao jantar. Há pessoas que só têm ao fim de semana, porque antes da pandemia já frequentavam o centro de dia. A segurança é garantida na medida em que a Santa Casa contratou a Nordigal para a distribuição das refeições. Mas os senhores ajudantes motoristas não podem entrar da porta para dentro; são os auxiliares da Santa Casa que o fazem”.

No âmbito da pandemia de Covid-19, o dever do cumprimento de isolamento social poderá tornar-se mais difícil para os mais velhos, mas o SAD Alameda garante estar atento, “transmitindo frequentemente as medidas de prevenção da Direção-Geral da Saúde” e “tentando substituir-se nas saídas à rua dos idosos, no que diz respeito às compras ou outras diligências necessárias”.

No apoio da Santa Casa da Misericórdia está ainda previsto o acompanhamento psicológico ou a chamada teleassistência.

Os idosos poderão contar com a ajuda de uma equipa de apoio psicológico, constituída pela Direção de Desenvolvimento e Intervenção de Proximidade da Santa Casa da Misericórdia. Ajuda destinada a utentes beneficiários das respostas de Serviço de Apoio Domiciliário, Centro de Dia e Equipas de Apoio a Idosos, no período de vigência do Plano de Contingência e que apresentem sentimentos associados à solidão, depressão, ansiedade, medo, tristeza e preocupação, entre outros. A ideia é garantir um apoio mais focado aos utentes que revelem uma maior necessidade de apoio psicológico nesta fase.

26.3.20

A covid-19 isolou ainda mais os idosos. Apoio domiciliário não pára

Patrícia Carvalho, in Público on-line

O apoio domiciliário continua no terreno e ganhou até uma nova dimensão. Reorganização das equipas e da forma de trabalhar ajudam a tentar conter a disseminação do vírus.

De um dia para o outro, as rotinas mudaram completamente. O centro de dia que a mãe de Cristina Faria frequentava, na Maia, fechou, e a mulher de 83 anos viu-se encerrada em casa, sem poder contactar fisicamente com os familiares e tendo apenas ao seu lado o companheiro de 91 anos. Ainda recebeu durante alguns dias alimentação, a cargo do apoio domiciliário da instituição, mas por opção própria deixou de o fazer e agora os dias são cada vez mais difíceis. A filha nota-o a cada telefonema, como o da manhã desta terça-feira. “Senti-a muito angustiada e perguntei-lhe o que era. Disse que estava com muito medo de morrer sem nos ver, sem nos ter ao lado dela, sem se despedir”, diz.

Na casa de A. (a terapeuta da fala prefere não se identificar) a angústia é outra. Há dois anos que a mãe da mulher, de 91 anos, está acamada, e até agora a família sempre conseguiu mantê-la em casa. Uma instituição prestava apoio ao nível da higiene e limpeza, uma mulher contratada particularmente passava os dias com a idosa e, à noite, A., as cinco irmãs e um irmão revezavam-se para lhe fazer companhia. A chegada da covid-19 mudou tudo.

Sozinhos em cidades paralisadas por uma pandemia
O receio de que alguém do núcleo familiar seja atingido pela doença e impeça o apoio contínuo que é necessário levou a família a procurar um lar que aceite a idosa. “Quando começamos esta procura, parecia a solução ideal. Neste momento, com as informações todas sobre os lares, não sabemos, embora pareça que vai ser mesmo o nosso recurso. Isto cria-nos muita ansiedade, não sabemos o que vai acontecer. É uma opção difícil numa situação normal e nesta situação é ainda muito mais difícil”, diz.

As mudanças abruptas que o novo coronavírus trouxe às famílias portuguesas estão a ser particularmente sentidas pelos mais velhos, que, enquanto grupo de risco, se viram afastados do contacto físico de filhos e netos. A mãe de Cristina Faria percebe que não deve sair de casa e prometeu que quando precisar de reabastecer a despensa vai fazer uma lista para que outros lhe tratem das compras. Mas continua a ter muita dificuldade em aceitar o isolamento dos que lhe são mais próximos. “Pediu-me para ir ter com ela, para passarmos a tarde a beber chá e a conversar. Chorou, chorou, chorou ao telefone. Diz que ontem já não ligou a televisão porque não consegue ver mais notícias. Ligou à minha prima para ir lá a casa e eu disse-lhe que tem de parar de pedir às pessoas para a irem visitar, que não pode ser, mas ela diz ‘é só a tua prima’”, diz Cristina Faria, de 44 anos, também ela uma pessoa de risco, por problemas de saúde associados.

Esta vertente emocional e psicológica, que foge ao habitual apoio domiciliário prestado pelas instituições, está na mira da Cruz Vermelha, diz ao PÚBLICO Joana Rodrigues, responsável pela área social da instituição. “Neste momento há uma série de alternativas de resposta que não existiam e que estão a ser oferecidas pela Cruz Vermelha e por outras instituições. E estamos a pensar em todos os quadros, estão a ser equacionadas todas as possibilidades. Criamos linhas de apoio psicossocial, para colaboradores e a comunidade e reforçamos os contactos por telefone aos idosos e famílias que já acompanhávamos, porque esta situação gerou mudanças, causa ansiedade, receios, estados mais depressivos e temos de olhar não só para a saúde física, mas também para a mental e emocional.”


Com uma voz algo cansada, Joana Rodrigues diz que, neste momento, em que a adequação a novas orientações e constrangimentos “é quase diária”, ainda se está a fazer “a recolha do diagnóstico” do impacto que o encerramento dos idosos em casa poderá estar a ter no apoio domiciliário, mas há coisas que já se tornaram evidentes. “Há uma maior procura, muitas vezes só pela entrega de refeições ou de bens alimentares e medicação. Se disser que esse aumento de procura anda entre os 15% e os 25% não andarei muito longe da verdade”, arrisca.

E esse apoio tem sido visível também em formas menos habituais, na mobilização de jovens e vizinhos ou de voluntários junto das autarquias locais que se oferecem para fazer compras aos que não podem e não devem sair de casa. O conceito de “apoio domiciliário” ganhou uma nova dimensão.

A dar resposta
Por enquanto, a Cruz Vermelha está a conseguir dar resposta às solicitações, e o pessoal já se adaptou às novas regras trazidas pelo vírus. Além do cumprimento das directivas sobre a protecção individual, houve uma reorganização das equipas, para que façam sempre a mesma rota, visitando as mesmas casas, e utilizando sempre o mesmo veículo. “Se houver algum caso positivo entre os nossos funcionários é uma forma de evitarmos focos de contágio mais diversificados e identificarmos mais rapidamente os contactos feitos”, explica Joana Rodrigues.


Até agora as medidas têm funcionado, mas, também aqui, diz a responsável da Cruz Vermelha, pode haver mudanças a qualquer momento. “Havendo alterações [da situação ou das directrizes] teremos de pensar em novas regras, que podem passar por as equipas trabalharem numa alternância semanal. Neste momento estamos a conseguir dar resposta, temos de continuar a acompanhar a evolução dia-a-dia”, diz.

As instituições ligadas à Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade também têm agora mais pedidos a que dar resposta, diz o seu presidente, Lino Maia: “Tem havido um aumento de pedidos, até porque a [o Ministério da] Saúde está a pedir às instituições para assumirem o apoio domiciliário de algumas pessoas que aparecem agora com o vírus e que têm de ir para casa, mas não têm retaguarda. Além disso, os nossos utentes dos centros de convívio estão a receber este apoio, ainda que parcial, com a entrega de refeições e cuidados de higiene. Mais não conseguimos garantir.”

Do lado da União da Misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos, admite que ainda está a tentar perceber como é que a covid-19 estará ou não a influenciar o apoio domiciliário prestado pelas instituições da rede. Mas mostra-se optimista. “Sou um reflector de queixas, quando as coisas se ajustam, ninguém me diz nada e isso é sempre bom sinal. Até agora não me chegou qualquer queixa, o que é bom”, diz. João Ferreira de Almeida, da Ali - Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso diz que também não recebeu qualquer indicação, por parte das instituições privadas da rede que prestam apoio domiciliário em simultâneo com a valência de lar, que exista qualquer constrangimento à prestação daqueles serviços. “95% dos nossos associados são lares de idosos e tanto quanto sei, os serviços que eram prestados antes desta crise mantêm-se. Não sei dizer se houve um acréscimo de procura”, afirma.

Na casa da mãe de A. os apoios domiciliário e familiar continuam enquanto a solução lar não se concretiza. As regras em vigor implicam que qualquer novo utente faça o teste à covid-19 e cumpra um período de quarentena antes de ser aceite. A família ainda não passou da primeira fase. “Liguei para a Saúde24, que atendeu muito rapidamente, e pediram-me para enviar um e-mail a expor o caso. Não sei se enviam alguém a casa para fazer o teste, estamos à espera”. Cristina Faria vai continuar a ligar diariamente para a mãe, mais do que uma vez. “Ela tem muitas saudades do centro de dia, do coro, das auxiliares... É muito complicado.”

12.3.15

240 idosos do Porto vão perder apoio domiciliário

Tiago Rodrigues Alves, in Jornal de Notícias

Daqui a três meses, 240 idosos do centro do Porto vão perder o apoio domiciliário da União de Freguesias. São pessoas sem família e com poucos recursos que vão ficar sem a única visita diária e ajuda que têm.

Fátima Carvalho mete a chave na fechadura e abre a porta da casa de Filomena Castro. "D. Filomena? Trago o almoço", anuncia a técnica social da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto enquanto sobe as escadas da casa na Rua da Escola Normal. Filomena mora sozinha na casa onde nasceu há 95 anos. A sua família já se foi. É viúva e não tem filhos. "Só tenho um afilhado que me traz umas coisitas quando pode."

As únicas visitas regulares que tem são as meninas do apoio domiciliário da freguesia que, de segunda a sexta, lhe trazem uma refeição, uma palavra amiga e mais coisas. Na passada terça-feira, o almoço era bolinhos de bacalhau com batatas, sopa, pão e fruta. "Mas isto não é só trazer a comida", diz Fátima. "Damos a medicação, limpamos a casa, vemos o correio, preparamos o leite... Elas dependem muito de nós. Algumas têm família, mas não querem saber delas".