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15.11.22

Os novos pobres

Joana Petiz, editoria, in DN

O primeiro sinal que denuncia que a situação está a azedar é o aparecimento de balcões de compra de ouro. Quando começamos a reparar neles, tornam-se também evidentes os pedintes à porta dos supermercados. Já não é só o do costume - que até já sabemos que agradece um bolo de vez em quando, para desenjoar da sopa que os beneméritos repetem para lhe forrar o estômago; são quatro, cinco, seis, que se encolhem já contra as paredes mais próximas, esperando-se suficientemente óbvios para merecer a caridade alheia mas invisíveis na humilhação de terem de pedir para viver.

Mas há também outros agora, a quem nem se adivinham necessidades à primeira vista, mas que ao abrigo da noite marcham em busca da solidariedade de uma Igreja remota ou de organizações como a ReFood para levarem comida à mesa da família. Têm emprego, têm casa, têm uma família funcional e até tinham pequenos luxos como férias fora do país, mas veem-se de repente incapazes de pagar todas as despesas do mês e ainda ter fundos para levar do supermercado tudo aquilo de que precisam para alimentar os seus.

A Cáritas já sinalizou os "casos de pobreza" em Portugal, o "pavor" que sente às pessoas, de não conseguirem pagar a casa ou a renda. Ao Banco Alimentar Contra a Fome chegam pedidos de ajuda também das instituições cuja missão é apoiar quem precisa, porque esgotaram a capacidade de acorrer a todos os que as procuram.

Agora, é também Bruxelas que lança alertas num contexto de inflação que persiste em tempo e em força, deixando os países mais frágeis numa situação ainda mais debilitada. De acordo com a Comissão Europeia, um milhão de portugueses vive já no limite da pobreza energética e a "inflação e a debilidade da economia" podem somar-lhes mais 500 mil em breve. E os números do Pordata apontam que uma em cada quatro casas tem más condições de habitabilidade e quase metade da população precisa de apoios sociais para não ficar condenada a sobreviver com rendimentos abaixo do limiar da pobreza.

29.8.22

“Uma franja da população vai ficar pior do que os pobres”

Joana Ascensão e Marta Gonçalves, in Expresso

Especialistas alertam para as dificuldades das famílias de classes mais baixas, mas não incluídas nos apoios sociais

As famílias que se encontram imediatamente acima do limiar da pobreza e cujo rendimento dita que já não têm direito a apoios sociais são “das maiores preocupações” do Banco Alimentar Contra a Fome, num contexto de aumento do valor da fatura do gás. Em declarações ao Expresso, Isabel Jonet, presidente desta organização, deixa o alerta: “Há uma franja da população que vai ficar pior do que os pobres.”

A explicação, diz, passa por serem famílias que tipicamente têm créditos habitação e já vivem com uma série de despesas e carga fiscal fixa mensal que não podem deixar de pagar, apesar de tudo estar mais caro. “Estas famílias não têm os apoios sociais que as classes mais baixas já têm, falo das que estão logo a seguir ao limiar de pobreza. Foram as que arriscaram comprar casa, as que sofrem com o aumento da inflação, da taxa de juro e agora com o da energia.”

Deco admite que famílias possam entrar em incumprimento: “Têm o orçamento contado ao cêntimo”

É precisamente este o tipo de família que mais frequentemente chega ao atendimento da Deco: normalmente, composta por dois adultos com o ordenado mínimo e duas crianças. A perspetiva de poderem entrar em incumprimento nas despesas é uma preocupação e sente-se nos pedidos de ajuda “um peso significativo de encargos com crédito habitação”, refere a jurista Elisabete Policarpo, do gabinete de Apoio Financeiro. “As famílias têm o orçamento contado ao cêntimo. E nesta gestão apertada das despesas que mais parece uma manta de retalhos, se uma despesa aumenta, vão ter de ir buscar o dinheiro às outras.”

IMPACTO NA ALIMENTAÇÃO

O anúncio do aumento do gás natural é suficiente para desequilibrar a balança já de si instável. A inflação tem levado ao aumento dos bens essenciais, da eletricidade e também do crédito habitação para quem tem taxa variável indexada à Euribor. Se num primeiro momento a reação das famílias é reduzir no que é mais imediato, ou seja, no supermercado, é certo que, caso este “efeito travão” não seja suficiente, “há o risco de vermos serviços a serem cortados”, sublinha a jurista da Deco. Em situações de aperto, a jurista aconselha a renegociação dos pacotes com as empresas de energia e de telecomunicações.

A crise social estava anunciada. “Chegam sempre depois da crise económica, e é impossível não ver que está aí”, diz ao Expresso Rita Valadas, presidente da Cáritas Portuguesa. “As pessoas adaptam-se quando vão ao supermercado e preocupa-me quando começa a ter impacto na alimentação. Tem havido substituição de alimentos, sobretudo os frescos.” O aumento do custo de vida já trouxe à Cáritas pedidos de ajuda “que estavam fora do radar. A uma crise existente, em que as pessoas ainda não se tinham autonomizado, juntou-se outra. Estamos numa sucessão”, continua, alertando que com o arranque do ano escolar a perceção da realidade será muito mais clara.

30.6.21

“400 mil novos pobres são mais importantes do que mil infetados por dia”

Marta Grosso, in RR

Henrique Raposo responde ao ralhete de Merkel a Portugal sobre a permissão para a entrada de turistas ingleses e insiste: está na hora de mudar a matriz de risco.

Não é um ralhete justificado”, diz o comentador d’As Três da Manhã. “Porque recebemos turistas ingleses? Porque temos 400 mil novos pobres. São mais importantes do que mil infetados por dia”, responde.

“Dão quatro estádios da Luz antigo que eram da classe média e caíram na pobreza”, sublinha, lembrando que estes novos pobres são também “400 mil novas pessoas que vão desenvolver novas doenças”.

Henrique Raposo critica a narrativa que se mantém na comunicação social e entre os políticos.

“Temos de mudar a matriz de risco”, insiste. “As televisões parece que não mudaram a narrativa, quando temos três milhões de pessoas vacinadas. Isto é desrespeitar a ciência”, que não nega que, mesmo com vacinas, o vírus continuará a ser transmitido.

Na opinião do comentador das quartas-feiras, se o foco continuar a ser a Covid-19, “vamos ter mais doenças a crescer, como a psiquiatria, que está a rebentar pelas costuras”.

12.5.20

Há hoje uma "pobreza envergonhada que não estava habituada a pedir ajuda"

Por Notícias ao Minuto

A declaração é da presidente do Banco Alimentar contra a Fome, que esta segunda-feira, foi recebida no Palácio de Belém pelo Presidente da República. Antes, Marcelo reuniu-se com o presidente da Caritas Portuguesa, Eugénio Fonseca.

Os representantes da Federação dos Bancos Alimentares e da Caritas Portuguesa foram recebidos, esta segunda-feira, em audiência pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no Palácio de Belém.

À saída do encontro com o Presidente da República, a presidente do Banco Alimentar, Isabel Jonet, começou por dizer que aquilo que vê, neste momento em Portugal, com a presença da pandemia da Covid-19 no país, “é muito preocupante”, não só nas pessoas que já viviam numa situação de carência, mas também naquelas famílias "que tinham uma vida totalmente equilibrada a nível de rendimentos”.

“São pessoas que não estavam habituadas nem nunca imaginaram ficar nesta situação e que hoje, além de lidarem mal com ela, não veem o fim à vista (...). Há um transversalidade nesta pandemia que atinge profissões muito distintas, pessoas para quem recorrer ao apoio de uma instituição social é algo estranho e, portanto, há aqui uma pobreza envergonhada que nasceu hoje e que não estava habituada a pedir ajuda", começou por dizer, revelando que, desde o dia 25 de março, a rede de emergência, criada em parceria com as autarquias e instituições no terreno, o Banco Alimentar já recebeu 14.962 pedidos de ajuda, o que corresponde a cerca de 59 mil pessoas e "que acrescem às que já pediam ajuda".

“É incrível ver todos os dias mais mil pedidos novos, é muito constrangedor para nós. Um pedido não é uma família, podem vir 30 pessoas ou 150 pessoas, encaminhadas por uma instituição que envia várias pessoas carenciadas”, explicou.

As zonas mais afetadas são a Grande Lisboa e o Grande Porto, com Isabel Jonet a destacar também zonas como Setúbal, Braga ou todo o Algarve, “devido ao impacto na indústria do turismo”.
Já sobre a reação do chefe de Estado a este cenário preocupante, a responsável do Banco Alimentar revelou que "o Presidente da República mostrou sensibilidade social", tal como, lembrou Isabel Jonet, já costuma fazer: "[Marcelo Rebelo de Sousa] é muito próximo das pessoas que têm necessidades e está atento a como é que se pode ajudar nesta situação".

Antes foi ouvido Eugénio Fonseca, da Caritas, disse que nesta crise nota uma mudança no tipo de pedidos de ajuda que chegam aos centros diocesanos: se na crise de 2012 as pessoas pediam ajuda para procurar e encontrar emprego, agora a necessidade é mais funda e básica e pedem sobretudo alimentação.

Daí que defenda que deve existir um plano articulado de medidas de combate à pobreza, que envolva instituições e organismos oficiais, desde o Governo a autarquias, e que se promovam medidas que vão mais longe das tomadas até agora, propondo a revisão do Rendimento Social de Inserção (RSI), "em metodologia e em valor.

"Se as pessoas tiverem autonomia financeira já não precisam de recorrer a instituições como a Caritas", disse, criticando a burocracia que dificulta o acesso a este apoio social, sendo necessário fazer prova de três meses sem rendimentos e depois esperar 45 dias - prazo atual - para receber a primeira prestação.

Quanto a números, na Caritas há 48 mil novas pessoas a precisar de ajuda e Eugénio Fonseca reiterou que as linhas de financiamento de valor global de 130 mil euros criadas pela instituição não vão cumprir o objetivo de chegar até junho, "porque a procura é muita" e os números não revelam toda a realidade, até pela multiplicidade de instituições que estão a prestar apoio.

"Ninguém sabe dizer quanto tempo vai durar, o que ouvimos dizer é que vai durar muito tempo e há que equacionar recursos para darmos o mínimo de dignidade às pessoas", disse Eugénio Fonseca, que estima que a situação de desemprego se agrave no próximo outono e inverno e se revelou preocupado nos efeitos que a crise possa ter em termos de endividamento e sobre-endividamento das famílias, criando problemas que se podem "tornar insolúveis" para instituições e para o Estado.

Ao início da noite, numa curta nota publicada no site da Presidência da República, lê-se que "estes responsáveis, durante a análise que efetuaram ao Chefe de Estado, transmitiram as preocupações pela situação de carência das famílias portuguesas, sentidas no terreno pelas equipas que lideram".

7.5.20

Novos pobres. As outras vítimas da pandemia

Por Antena 1

Esta crise inesperada atirou para uma situação dramática muitas famílias da chamada classe média. Muitos profissionais, sobretudo liberais, perderam rendimentos. De repente, foram forçadas a recorrer à ajuda de instituições de ajuda alimentar.

O repórter Nuno Amaral foi conhecer o trabalho do grupo solidário Coração na Rua, que no Porto tem encontrado estratégias para lidar com esta nova pobreza envergonhada.

Os novos pobres vítimas desta pandemia que também afecta a saúde financeira das famílias.

5.2.15

Novos pobres penalizados pela vergonha

Sandra Henriques, in RTP

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza alerta que “alguns envergonhados devem ter fome”.

“Os pobres tradicionais batem à porta. Os novos pobres não batem”, refere o padre Jardim Moreira. Ouvido pela jornalista da Antena 1 Isabel Cunha, o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza deixa mesmo um exemplo que o deixa chocado.

Estas declarações surgem depois de o presidente da União das Misericórdias Portuguesas ter afirmado que “só passa fome quem quer”. Manuel Lemos argumentou que as cantinas sociais cobrem todo o território nacional.

11.6.13

Programa Social da Área Metropolitana do Porto doa até mil euros por família

Lusa (com Vânia Maia), in Visão solidária

Dois milhões de euros vão ser mobilizados para ajudar os novos pobres da área metropolitana do Porto

O Programa de Emergência Social (PMES) da Área Metropolitana do Porto, cujo regulamento foi aprovado em reunião da Junta Metropolitana, vai disponibilizar até mil euros por agregado familiar.

O PMES foi anunciado em março, depois de a JMP ter decidido doar dois milhões de euros, que representam dois terços das suas poupanças, aos "novos pobres" da área metropolitana que, devido à crise económica e social, atravessem difíceis situações económicas "que não se compadecem com tempos de espera por outras ajudas institucionais".

De acordo com o regulamento aprovado, o apoio financeiro "excecional e temporário", que terminará no fim do ano, destina-se a apoiar "agregados familiares carenciados, em situação de emergência social grave, nomeadamente no âmbito da habitação, da carência alimentar, de cuidados de saúde e do apoio à educação das crianças e jovens que residam num dos municípios da AMP".

27.5.13

Novos pobres "quase" excluídos de prestações sociais

in Diário de Notícias

O diretor do Observatório de Luta Contra a Pobreza em Lisboa considera que os novos pobres "têm muita dificuldade em aceder" a prestações sociais de combate à pobreza e à exclusão social, como o Rendimento Social de Inserção (RSI).

"Os chamados novos pobres têm muita dificuldade em aceder a este tipo de medidas. Mesmo estando endividados, estando a passar fome, tendo móveis ou imóveis em seu nome, estão quase automaticamente excluídos do acesso a este recurso", disse Sérgio Aires à agência Lusa.

De acordo com dados do Instituto da Segurança Social, entre 2006 e 2012, o número de famílias beneficiárias do RSI no distrito de Lisboa passou de 13 mil para 31 mil.

Contudo, entre 2010 e 2012 houve uma quebra no número de famílias beneficiárias desta prestação social: de quase 37 mil em 2010, desce-se para 33 mil em 2011 e para 31 mil em 2012. Esta evolução foi acompanhada da descida do valor médio da prestação por agregado: de 239 euros em 2006, desceu para 215 euros em 2012.

No total, o número de beneficiários do RSI no distrito de Lisboa passou de 35 mil em 2006 para 80 mil em 2012, e também aqui se registou uma redução do número de beneficiários entre 2010 e 2012: de 94 mil beneficiários do RSI em Lisboa em 2010, passou-se para 85 mil em 2011 e para 80 mil em 2012.

A descida do número de beneficiários em Lisboa foi acompanhada da descida do valor médio da prestação por indivíduo: de 88 euros em 2006 desceu para 86 euros em 2012.

Para o sociólogo, esta evolução pode ser também o resultado de uma maior fiscalização sobre os apoios, "mas, acima de tudo, é o resultado das alterações das regras de acesso". O direito a este recurso, diz, "foi de tal forma dificultado, quer do ponto de vista administrativo, quer pela forma de cálculo da medida, que houve muitas pessoas que, mesmo necessitando desta prestação, acabaram por ser excluídas".

"Estamos a falar de um apoio para pessoas que vivem muito abaixo do limiar da pobreza. Pessoas que, embora tendo um emprego, não ganham o suficiente para estarem acima do limiar que permite serem beneficiárias do RSI, afirmou, lamentando que "alguns decisores políticos, a diferentes níveis, não tenham nunca feito um esforço para dar visibilidade a isto, contribuindo, ao contrário, muitas vezes para alimentar os piores estereótipos sobre os beneficiários".

Sempre houve, e hoje haverá provavelmente ainda mais, diz, muitos trabalhadores pobres a solicitar o RSI. A medida, considera o responsável, "tem muitas virtualidades que não são concretizadas, e outras que têm sido muitas vezes escamoteadas por preconceito ideológico", nomeadamente, exemplificou, o impacto no combate à pobreza infantil e na formação de adultos.

"É bom não esquecer que antes desta crise Portugal já tinha uma taxa de risco de pobreza a rondar os dois milhões de pessoas", concluiu.

8.10.12

Crise trouxe novos pobres ao "velhinho" balneário de Alcântara

Paulo Lourenço, in Jornal de Notícias

Poupar na conta do gás ou da água, ou, simplesmente, já não dispor destes serviços em casa, porque foram cortados por falta de pagamento, ou apenas para ir buscar roupa, são razões que têm levado cada vez mais gente ao "velhinho" balneário público de Alcântara, em Lisboa.

João Pinto, 34 anos, pai de três filhos - e com o quarto a caminho - é o exemplo de um dos novos clientes, embora não para o banho diário. Ele e a mulher trabalhavam na indústria hoteleira, mas viram os seus contratos terminarem e foram atirados para o desemprego.

"Conheço muita gente nova que agora vem e que nunca cá vinha, porque as dificuldades são cada vez maiores. A mim, ajuda-me sobretudo em termos de roupa", conta ao JN.

O mesmo tipo de ajuda leva Nádia Fernandes, uma jovem surda muda que mora na Amadora mas é cliente habitual do balneário, a recorrer ao serviço. "Gosto muito, tratam-me muito bem, e é muito importante para arranjar roupa para os meus meninos", explica, entre gestos e escrita, ao JN esta mãe de três filhos, há muito no desemprego.

Numa freguesia de população muito idosa, a viver com muitas carências, abundam os pedidos de ajuda à Junta de Freguesia. E todos os serviços sociais são aproveitados, muitas vezes por gente que nunca imaginou a eles recorrer.

"Lidamos com novas formas de pobreza. Há casos de empresários em nome individual, cujo negócio faliu. Pessoas que não faziam descontos e agora nem têm direito a subsídio de desemprego", sublinha Isabel Leal de Faria, presidente da Junta de Freguesia de Alcântara.

É neste contexto que vão aparecendo novos utentes, muitos com qualificações e que não se conformam com ser ajudados sem dar nada em troca."São pessoas que quando recorrem à ajuda querem fazer algum tipo de serviço social. Não querem receber ajuda sem dar nada em troca", explica a autarca.

Entre estes casos aparecem aqueles que há meia dúzia de anos nunca pensaram recorrer ao balneário. "Há pessoas a quem a água foi cortada por falta de pagamento, ou mesmo quem ao vir aqui esteja a conseguir uma poupança de água e gás, o que é especialmente importante nos dias que correm", acrescenta Isabel Leal de Faria, que acentua os esforços que a própria Junta de Freguesia desenvolve todos os dias para manter este e outros serviços de apoio à população, quando há cada vez mais gente a pedir ajuda.

Amélia Caramelo, encarregada do espaço, não tem mãos a medir. "Há caras novas, gente mais jovem, que vem, sobretudo, à procura de roupa, muitas vezes de criança e bebé", destaca. E não faltam também casos de pobreza envergonhada.

"Há quem tenha vergonha de recorrer à ajuda. Vêm e dizem que estão a pedir para uma vizinha", observa, na convicção de que "as pessoas querem manter a sua dignidade"

Mas se as dificuldades trouxeram mais clientes, é justo realçar a maior solidariedade da população. "As pessoas oferecem mais roupa, muitas vezes nem esperam pela abertura do balneário, deixam-na em sacos á porta", descreve Amélia Caramelo.

4.7.12

Os pobres desta crise são diferentes

Marta Moitinho Oliveira, in Diário Económico

Licenciados desempregados, empregados que não recebem e idosos que acolhem de novo os filhos em casa são o


Quando o ‘rapper’ Boss AC lançou a música “Sexta-feira” queria transmitir a sua “visão dos factos”. “O retrato que faço da sociedade”. A letra da música,que conta a vida de um licenciado que ora está desempregado,ora tem um emprego de salário baixo, mostra como vivem os novos pobres, que “ainda omês vai ameio” e já estão aflitos.

A música saiu no início de 2012, cinco anos depois da bolha imobiliária do ‘subprime’
ter rebentado nos EUA. De lá para cá, a crise foi-se agravando, passou dos bancos para a economia, da economia para os Estados, que se viram obrigados a aplicar fortes medidas de austeridade. Até chegar aos bolsos dos portugueses foi um pequeno salto.

As consequências estão à vista. O Banco Alimentar apoiou, no ano passado, 329.176 pessoas,mais 96 mil desde que a crise começou. O número de famílias a decretar falência disparou. Dados do Ministério da Justiça mostram que, no ano passado,
5.711 famílias faliram, 11,7 vezes mais do que em 2007. No total, as falências decretadas pelos tribunais sobre empresas e famílias apontam para 10.303 insolvências,
em2011, quase quatro vezes mais do que quando a crise do ‘subprime’ teve início.

[Leia aqui o artigo na íntegra]

4.6.12

Reportagens sobre a classe média imaginada

Por:Eduardo Cintra Torres, in Correio da Manhã

Há um ano que TV e media em geral apresentam reportagens sobre os "novos pobres", uma herança da desgovernação económico-financeira do país e da evolução do capitalismo mundial.

É certo que nos media os pobres de sempre só são notícia por alguma particularidade em que se vêem envolvidos, não por serem pobres. Mas a atenção mediática à pobreza que atinge agora a classe média é justa, por ser um facto novo, sinal duma vasta alteração social.

No livro ‘A Classe Média: Ascensão e Declínio’ (FFMS, 2012), Elísio Estanque mostra como as pessoas em ascensão social pensam já com os modelos de referência da classe a que aspiram e que, quando não podem pagar os empréstimos que as colocavam na ilusão da classe no degrau acima, julgam que é passageiro e recorrem a "tácticas de dissimulação e disfarce" que roçam a "patologia social". Só quando falha a espiral de empréstimos pedem assistência envergonhadamente. Alguns, corajosos, dão a cara, mas a TV tem dado conta de vítimas da sua auto-ilusão, falando com voz disfarçada e cara escondida ou comendo na "sopa dos pobres" virados para a parede. Vêm do sector privado e dum sector público inflacionado pelo poder político. É uma classe média imaginada, que esconde a nova pobreza de familiares e vizinhos. Mas como chamar-lhe pobres, se tantos mantêm segunda casa, jipe ou ginásio?

A questão desestabiliza o conceito adquirido de pobreza. Os pobres fazem parte da paisagem social; nenhuma sociedade os apagou. Estão ao mesmo tempo dentro da sociedade e fora dela, como estrangeiros. Não são uma classe social, vivem, como se normalmente, no grupo com que se identificam. Os novos pobres vivem isolados, à margem da vida social, pois, tal como os pobres de sempre, humilham-se por pedir, não podem reivindicar e porque os Estados tratam a pobreza como abstracção e o pobre concreto como sujeito da assistência.

O primeiro a estudar a pobreza nesta perspectiva foi o sociólogo Georg Simmel. Em 1907, explicou que a pobreza não se define pelo dinheiro e bens à disposição. É relativa: "Pobre é aquele cujos meios não chegam para atingir os seus fins." E, como "cada classe social tem as suas necessidades concretas, a impossibilidade de as satisfazer significa pobreza". Há, pois, pobres em todas as classes, mas eles só se definem como tal no momento em que são ajudados: tornam-se então "membros dum grupo caracterizado pela pobreza". A TV contribui para conhecer a nova pobreza e, assim, integrá-la no corpo social e permitir, aos que sofrem e aos que ajudam, diminuir a "pobreza invisível" e o "sofrimento individual" dos novos pobres.

18.5.12

Ferreira Leite alerta para "nova classe de pobres"

in RR

Manuela Ferreira Leite alertou esta quinta-feira, no Porto, para o risco de surgir uma nova classe de pobres sem capacidade de recuperação.

A ex-ministra das Finanças apela à necessidade de máxima prudência na alteração das regras da Segurança Social.

Ferreira Leite lembra que o Estado assumiu um compromisso com os contribuintes: “O Estado arroga-se o direito a definir o montante a que as pessoas têm direito, arroga-se o direito de definir o que é alto e o que é baixo, o que é pouco e o que é muito quando cobrou as poupanças das pessoas que fizeram esses descontos. Poderemos estar no caminho de criamos uma nova classe de pobres, que são os pobres sem capacidade para recuperar. Incapacidade de recuperar é algo que pode fazer perder a confiança entre as pessoas”.

Numa conferência na Faculdade de Economia do Porto, Manuela Ferreira Leite considerou perigoso que o Estado não cumpra o contrato que assumiu com os cidadãos.

“Tudo o que seja alterar, violar ou não cumprir este contrato é algo que é extremamente delicado, direi que de alguma forma perigoso, quase, e que se tem de levar a que não haja uma quebra definitiva de confiança entre os cidadãos e o Estado quando não se cumpre um contrato tão definitivo e importante para a vida das pessoas”, disse a antiga ministra.

14.5.12

Novos pobres: mais 6359 num só mês

in Diário de Notícias

A Segurança Social já é obrigada a pagar subsídio a 329 274 pessoas. O distrito do Porto lidera a lista nacional, com mais de 99 mil inscritos no RSI.

O Jornal de Notícias de hoje faz manchete com estes dados, segundo os quais o mês de março regista a maior subida do último ano do RSI. Foram mais 6359 pessoas a pedir este subsídio.

Quase um terço (99 mil) desses "novos pobres" estão no Porto, enquanto que em Lisboa são 65 mil.


26.4.12

Denúncias de 'novos pobres' inundam correio de Cavaco

Sofia Rainho, in Sol


Na campanha para a sua reeleição, em Janeiro de 2011, Cavaco Silva já prometia que seria o 'provedor dos portugueses'. Os cidadãos levaram à letra esta condição e só no ano passado chegaram às mãos do Presidente 14344 cartas.

Os dados oficiais indicam um salto quantitativo face a 2010, sobretudo a partir do segundo semestre (quando a troika entrou em Portugal), e revelam que a tendência se mantém neste início de ano. Entre as situações mais dramáticas estão muitos casos dos chamados ‘novos pobres’.

Segundo dados a que o SOL teve acesso, os testemunhos de algum desespero nas missivas relativos a estas situações tendem a multiplicar-se, com muitos casos de pessoas que dispunham de um estilo de vida característico da classe média e agora se vêem confrontadas com a pobreza. «Estou desesperada são 3 horas da manhã e não consigo dormir (…) tenho 57 anos o meu marido 61. Trabalhámos toda a vida e pagámos sempre os impostos e agora não temos nada para comer. (…) Tínhamos um pequeno negócio de restauração, tivemos de fechar por causa da crise, deixei de pagar a loja ao banco (…). Desde Agosto do ano passado que não temos rendimentos (...) o meu marido já fala em pôr fim à vida», lê-se numa carta a que o SOL teve acesso. Outro caso, o de um cidadão com 57 anos e dois filhos na faculdade, que de um vencimento médio mensal de 1485 euros passou a desempregado. «O que devo fazer? Que argumentos deve um pai dar aos seus filhos para os fazer parar de estudar?», interpela ao Presidente.

As situações de desemprego, especialmente quando atingem os vários membros da família, motivam pedidos de auxílio continuados: «A minha família é constituída por quatro elementos e todos nós estamos desempregados, estou com o RSI de 280,19€, tenho 56 anos trabalhei durante 39 anos, (...) os meus filhos são dois jovens com muitos projectos de vida mas sem nada para os poder ajudar».

Mas o fenómeno crescente do endividamento das famílias também tem gerado situações dramáticas. Caso de um cidadão que pediu um empréstimo à Caixa Agrícola para uma casa mas já não consegue pagar porque está desempregado e a sua mulher também. «E agora querem que eu vá para a rua. Agradecia uma ajuda, tenho uma filha que é doente, tem uma paralisia do lado direito desde os 3 anos. Gastei muito com ela e ela agora tem 21 anos. Ela recebia um abonozinho, cortaram-lho...», escreve.

Através destas cartas – que denunciam muitas preocupações ligadas a atrasos no pagamento de pensões e prestações sociais – o Presidente consegue fazer um retrato da conjuntura social e da forma como as políticas e as medidas estão a ser aplicadas e quais as suas consequências.

É, por isso, certo que Cavaco vai dar voz às situações dramáticas que muitos portugueses vivem no seu discurso que assinala as comemorações do 25 de Abril, quarta-feira no Parlamento.

Das 14344 missivas que Cavaco recebeu, 7384 cartas foram enviadas por correio e 6960 mensagens por via electrónica. Na maior parte dos casos as situações denunciadas são encaminhadas para os diferentes ministérios através do gabinete do primeiro-ministro. Mas noutros casos, pela sua gravidade, há uma actuação directa de Belém junto de instituições particulares de solidariedade social, da Provedoria da Justiça ou de outras instituições autónomas face ao poder executivo.

9.3.12

Novos pobres. A classe média portuguesa passa fome

Por Nelson Pereira, in iOnline

É o desmoronamento da classe média.O drama da pobreza envergonhada

A classe média portuguesa conhece hoje o amargo da pobreza. Há fome não assumida e um índice preocupante de suicídios. São fruto do desemprego e do endividamento crescentes. O alarme vem das instituições de solidariedade social, como a Cáritas ou o Banco Alimentar, ouvidas pelo i.

À porta do Centro de Emprego do Conde de Redondo, em Lisboa, está Marta, de 43 anos, que veio inscrever-se no desemprego. Perdeu o trabalho que tinha numa editora e o marido está há 11 meses desempregado. Ambos são licenciados. Fala de uma situação aflitiva, pois perderam a casa por terem deixado de pagar o crédito e tiveram de ir com três filhos morar com os sogros. O marido está com uma depressão profunda. “Não dizemos aos amigos que em casa há dias em que se janta pouco mais que pão com manteiga”, diz, envergonhada.

Situações como esta são o pão nosso de cada dia para Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a Fome: “As pessoas da classe média não ousam reconhecer que necessitam de alimentos. Não pedem sequer auxílio alimentar. Procuram as instituições de solidariedade social para pedir orientação para renegociar os créditos.”

No final de Janeiro de 2012 estavam inscritos nos Centros de Emprego do Continente e Regiões Autónomas 637 662 de- sempregados. Porém, estes números não dão uma imagem completa do drama, na opinião de Isabel Jonet. “Nada dizem dos casos das famílias que ficam sem o segundo emprego, perdendo assim a fonte de rendimento que lhes permitia assegurar o acesso a bens essenciais”, sustenta.

Com os seus grupos de acção social em praticamente todas as paróquias do país, cerca de 4300, a Cáritas é outra das instituições que melhor conhecem a realidade da pobreza nos lares portugueses.

Em Novembro passado, por ocasião do encontro das Cáritas diocesanas, foram comunicados 516 novos casos de pobreza em todo o país, o que corresponde a um aumento de 40% relativamente ao ano passado. Segundo Eugénio da Fonseca, presidente da instituição, estes casos continuam a aumentar e são cada vez mais graves. “Temos informações das nossas estruturas diocesanas que revelam um índice preocupante de suicídios”, salienta, acrescentando que, “quando as pessoas se vêem obrigadas a cortar na despesa da farmácia, os primeiros sacrificados são os antidepressivos.”

Abundam os casos de ruína financeira de famílias que até aqui funcionavam normalmente e que deixaram de conseguir pagar empréstimos contraídos. Muitos já perderam as casas. “E procuram socorro, não só em termos de apoio financeiro, mas também aconselhamento jurídico. Foram-se endividando e quando batem à porta da Cáritas estão já esmagados por dívidas muito grandes. Nalguns casos superam os 10 mil euros.”

A Cáritas tem procurado, com a ajuda da Deco, aconselhar estas pessoas no sentido de renegociarem as dívidas com o banco, diz Eugénio da Fonseca. Outra situação a agravar-se é a dos empresários em nome individual, que durante anos tiveram um negócio a funcionar que a crise tornou inviável. Estas pessoas têm vindo a acumular dívidas às finanças, na ânsia de salvar o ganha-pão, estando agora submersos em dívidas e sem qualquer tipo de ajuda, quer por parte do Estado quer da Segurança Social. São também cada vez mais as famílias que se viram constrangidas a retirar os filhos das universidade, alguns já no final das licenciaturas, porque os pais perderam os empregos. As associações de solidariedade social andam a tentar apagar fogos que prometem alastrar drasticamente este ano.