Mostrar mensagens com a etiqueta editorial. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta editorial. Mostrar todas as mensagens

15.11.22

Os novos pobres

Joana Petiz, editoria, in DN

O primeiro sinal que denuncia que a situação está a azedar é o aparecimento de balcões de compra de ouro. Quando começamos a reparar neles, tornam-se também evidentes os pedintes à porta dos supermercados. Já não é só o do costume - que até já sabemos que agradece um bolo de vez em quando, para desenjoar da sopa que os beneméritos repetem para lhe forrar o estômago; são quatro, cinco, seis, que se encolhem já contra as paredes mais próximas, esperando-se suficientemente óbvios para merecer a caridade alheia mas invisíveis na humilhação de terem de pedir para viver.

Mas há também outros agora, a quem nem se adivinham necessidades à primeira vista, mas que ao abrigo da noite marcham em busca da solidariedade de uma Igreja remota ou de organizações como a ReFood para levarem comida à mesa da família. Têm emprego, têm casa, têm uma família funcional e até tinham pequenos luxos como férias fora do país, mas veem-se de repente incapazes de pagar todas as despesas do mês e ainda ter fundos para levar do supermercado tudo aquilo de que precisam para alimentar os seus.

A Cáritas já sinalizou os "casos de pobreza" em Portugal, o "pavor" que sente às pessoas, de não conseguirem pagar a casa ou a renda. Ao Banco Alimentar Contra a Fome chegam pedidos de ajuda também das instituições cuja missão é apoiar quem precisa, porque esgotaram a capacidade de acorrer a todos os que as procuram.

Agora, é também Bruxelas que lança alertas num contexto de inflação que persiste em tempo e em força, deixando os países mais frágeis numa situação ainda mais debilitada. De acordo com a Comissão Europeia, um milhão de portugueses vive já no limite da pobreza energética e a "inflação e a debilidade da economia" podem somar-lhes mais 500 mil em breve. E os números do Pordata apontam que uma em cada quatro casas tem más condições de habitabilidade e quase metade da população precisa de apoios sociais para não ficar condenada a sobreviver com rendimentos abaixo do limiar da pobreza.

12.8.22

A dádiva da imigração

Manuel Carvalho, editorial, in Público on-line

A esmagadora maioria dos imigrantes quer o que inúmeras gerações de portugueses quiseram quando tiveram de partir: uma nova oportunidade para uma vida digna

O relatório da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial (CICDR) de 2021 vale mais pelo que insinua do que pelo que revela em relação a agressões por motivos étnico-raciais. As 408 queixas apresentadas só podem representar uma pequena amostra da violência que todos os dias se comete contra negros, ciganos ou imigrantes. E, entre estes, o relatório confirma um disparo acentuado das queixas apresentadas por brasileiros. Depois da série de episódios de agressões contra esta comunidade, está na hora de os levar muito a sério e exigir não apenas respostas das autoridades, mas também a indignação e o protesto de toda a comunidade.

O Presidente da República pode ter razão quando reage a agressões xenófobas ou racistas contra brasileiros dizendo que “não se deve generalizar” a autoria destes abusos à sociedade portuguesa. Mas, mesmo que defenda a punição dos prevaricadores, a sua mensagem contempla, ainda que de forma involuntária, uma condescendência e um relativismo potencialmente funestos. Mesmo que os crimes sejam praticados por uma minoria, subtraí-los à responsabilidade geral da sociedade tende a gerar indiferença ou demissão. Ora, o racismo e a xenofobia é um problema que nos ofende a todos. É um horror que não se combate apenas com a lei, mas também com a criação de uma pressão social capaz de tornar esses crimes mais intoleráveis.

E para que isso seja possível, há muito mais do que valores humanistas, a decência, a ética ou a lei a considerar. Há também um lado utilitário, ou egoísta. Os brasileiros, como os nepaleses ou franceses, fazem imensa falta ao país. Para suprir necessidades no mercado de trabalho, para garantir a sustentabilidade da Segurança Social, para reanimar o vazio das nossas escolas. Como fazem falta para reavivar a língua, para enriquecer a cultura ou para acentuar o cosmopolitismo. Como disse o presidente da Assembleia da República, “Portugal deve muito, mas mesmo muito, aos muitos milhares de imigrantes que aqui trabalham”.

Há riscos neste processo? Claro que os bolsonaristas, os criminosos, os que querem reconstruir nas nossas cidades as fortalezas dos condomínios fechados ou fazer quartos interiores indignos para as suas “babás” não são bem-vindos. Mas esses não são a regra que a extrema-direita agita como um fantasma. A esmagadora maioria quer o que inúmeras gerações de portugueses quiseram quando tiveram de emigrar: uma nova oportunidade para uma vida digna. Esses devem ser recebidos como uma benesse para um país que necessita de novas energias. A maioria dos portugueses há-de ser tolerante e aberta, mas, na defesa dos seus valores (e até dos seus interesses), tem de fazer mais prova desses valores e atitudes.

11.10.21

Sem aposta na saúde mental não se combate a pobreza

Andreia Sanches, editorial, in Público on-line

Aproveite-se o Dia Mundial da Saúde Mental para sublinhar o erro estratégico de ignorar o papel que ela tem no combate à pobreza e na recuperação do país.

A “saúde mental” é referida oito vezes na Estratégia Nacional de Luta contra a Pobreza que está em discussão pública. É-o, por exemplo, quando se fala em melhorar os sistemas de detecção precoce com mais psicólogos nas escolas. Ou quando se defendem protocolos com as autarquias para garantir espaços onde equipas comunitárias de saúde mental possam trabalhar. Não sabemos se oito vezes é muito ou pouco para atestar o empenho do Governo nesta área. Mas aproveite-se o Dia Mundial da Saúde Mental, que hoje se assinala, para sublinhar que não há combate à pobreza sem aposta na saúde mental.

Ela é um factor-chave quando se olha quer para as causas, quer para as consequências da pobreza. Não ter trabalho, não ter uma casa com condições dignas, não conseguir garantir uma alimentação equilibrada aos filhos ou o pagamento das dívidas no final do mês é uma realidade para muitos dos que vivem em situação de pobreza, com impacto na saúde mental. E sem respostas na saúde mental, muitos não conseguirão furar este ciclo, que se reproduz tantas vezes de geração em geração.

“Distribuir dinheiro” não chega, “a saúde mental tem de ser chamada”, afirmou recentemente Rita Valadas, presidente da direcção da Cáritas.

Em Junho, a OCDE publicou um relatório no qual defendia que investir na saúde mental é essencial na recuperação pós-covid: os custos das doenças mentais representam 4,2% do PIB europeu, incluindo tratamentos, impactos na produtividade e no emprego. Uma em cada duas pessoas tem em algum momento da vida um problema de saúde mental. “Quem não pensar agora que a saúde mental vai ser fundamental para recuperar o país está a cometer um erro estratégico”, como alertou o psiquiatra Vítor Cotovio, membro do Conselho Nacional de Saúde Mental.

O Plano de Recuperação e Resiliência contempla mais de 85 milhões de euros para “apoiar a concretização da reforma da saúde mental”. Ajudará a “alavancar algumas coisas que estão penduradas há dez anos”, explicou aqui, no PÚBLICO, Miguel Xavier, director do Programa Nacional de Saúde Mental.

A frase deixa transparecer o papel secundário que o sector tem tido. A existência de menos de mil psicólogos no SNS é só um número, neste caso de 2019, entre muitos, que ilustra isso mesmo.

Reconheça-se, por isso, que não basta “alavancar coisas penduradas há dez anos”. É de uma reforma “brutal”, para usar a expressão que Miguel Xavier usou nessa entrevista, que precisamos.

O sucesso de muitas das grandes estratégias que se anunciam, do combate à pobreza a uma recuperação económica que não deixe de fora os mais frágeis, também passa por aqui.

11.8.21

O egoísmo dos humanos contra a crise climática

Manuel Carvalho, editorial, in Público on-line

Tão dramática como a ameaça do aquecimento global é a constatação de que a solução para o mitigar vai exigir uma daquelas revoluções que raramente acontecem sem conflito.

Fome no Sul de Madagáscar; aquecimento brutal na costa da América do Norte voltada para o oceano Pacífico, onde os mexilhões cozeram com o calor; cheias para lá do registo da memória na Alemanha; incêndios descontrolados na tundra siberiana. Um breve elenco dos fenómenos da crise climática das últimas semanas basta para duas constatações terríveis: os impactes do aquecimento global não são um augúrio vago do futuro; apesar destas evidências, a humanidade continua sem ser capaz de reagir à maior ameaça à sua sobrevivência pelo menos depois da invenção da escrita. O último relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) dá-nos conta dessa impotência e dos seus custos.

A crise climática está nos discursos políticos e entrou nas decisões das empresas mais responsáveis. Nenhuma projecção inteligente do futuro próximo omite as suas consequências. Só governos liderados por lunáticos negacionistas e irresponsáveis, como Jair Bolsonaro, recusam olhar o problema de frente e procurar caminhos para chegar depressa à neutralidade carbónica que nos separa da catástrofe. Mas, ainda assim, apesar de tantas palavras, de tanta urgência, de tanta certeza, a humanidade continua inconscientemente à espera que algo de milagroso aconteça – que o problema se resolva por si; que tudo não passe de um momento; que o planeta se regenere como em outras idades geológicas.

A paralisia, porém, não radica apenas numa espécie de fé. O que a justifica é também a noção de que a resposta necessária contra a catástrofe exige dos políticos, dos gestores e de todos nós uma mudança de hábitos que pode estar para lá do que é possível. É preciso falar sem meias-palavras: o recuo nas emissões de CO2 ou de metano implica um recuo civilizacional. Implica que se consuma menos carne, que se viaje menos, que se comprem menos televisões ou computadores. Implica uma travagem no modelo de economia e de sociedade voltado para a riqueza e o crescimento contínuo. Ou, por outras palavras, requer a austeridade e a frugalidade que as sociedades ocidentais apenas aceitaram na sequência de pandemias, guerras ou cataclismos naturais.

Tão dramática como a ameaça do aquecimento global é, por isso, a constatação de que a solução para o mitigar vai exigir uma daquelas revoluções que raramente acontecem sem conflito. Deixe-se o romantismo dos que acreditam que o desafio depende de um acto de vontade e comece-se a encarar a realidade crua. Nada no futuro será fácil – mesmo que a escolha seja óbvia. Ou a humanidade é capaz de temperar o egoísmo inerente à sua condição, que serviu de mola ao progresso, e assume o desafio de gerir a crise, ou terá de enfrentar os seus custos num caos que se adivinha aterrador.