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31.5.23

Dia Mundial sem Tabaco: por que razão é tão difícil deixar de fumar?

Cláudia Machado, in SIC


Os primeiros efeitos de uma vida livre de fumo sentem-se logo aos primeiros 20 minutos, com a diminuição da pressão arterial e dos batimentos cardíacos, e os tratamentos são cada vez mais eficazes.


Na luta contra o impacto que o tabagismo tem na saúde, cada minuto conta. E esta afirmação é tão literal que os primeiros efeitos de uma vida livre de fumo sentem-se logo 20 minutos depois de deixar os cigarros para trás, com a diminuição da pressão arterial e dos batimentos cardíacos.

Os dados são da Organização Mundial de Saúde (OMS), que descreve como, por exemplo, ao fim de 12 horas os níveis de monóxido de carbono no sangue caem para valores considerados normais.

Na marca entre duas a 12 semanas, há uma melhoria significativa da circulação sanguínea e da função pulmonar.

Tudo isto pode ser atingido por qualquer fumador, até porque “não há idade para deixar de fumar”, sublinha Sofia Ravara, médica pneumologista.

“Existe tratamento, que é eficaz, e muitos utentes conseguem deixar de fumar para sempre. Mesmo que já tenham tido recaídas, com o devido acompanhamento e tratamento, é possível”, afirma à SIC Notícias a responsável pela Unidade de Cessação Tabágica do Centro Hospitalar Universitário Cova da Beira.

Alguns entre um e nove meses sem o vício do tabaco, as dificuldades respiratórias e a tosse diminuem. Um ano depois, altura em que se atinge em termos médicos o estatuto de ex-fumador, o risco de doença cardíaca é metade daquele a que os fumadores estão sujeitos.

A partir da meta dos cinco anos livre de tabaco, há menos risco de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) e de desenvolver vários tipos de cancro.

Por que razão é tão difícil deixar de fumar?

Não faltando motivos para largar o tabaco, lembrando que esta quarta-feira se assinala o Dia Mundial sem Tabaco, levanta-se a questão: por que razão é tão difícil deixar de fumar? A resposta canaliza-se em dois tipos de dependência: a física e a comportamental.


“Fumar é um comportamento aditivo que ainda tem aceitação social e está profundamente enraizado no quotidiano dos fumadores. Quando o deixam sentem ansiedade, irritabilidade, não se conseguem concentrar nem controlar o desejo de fumar, notam um aumento do apetite. Tudo isto leva a que, muitas vezes e depois de estar dias sem fumar, acabe por haver uma recaída”, explica Sofia Ravara, que também coordena a comissão de tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

O fumador desenvolve “uma dependência física da nicotina, para a qual existem tratamentos farmacológicos” e uma “dependência comportamental, levando a que seja necessário tirar o cigarro do seu dia a dia”.

Muitas vezes, um cigarro é “um ritual”. Uma pausa para um café, um escape para um momento de maior stress ou tristeza. Daí que, além da medicação específica, seja necessário “um acompanhamento e aconselhamento comportamental ao logo de, pelo menos três meses, mas o ideal seria um ano”, acrescenta a especialista.

Desta forma, com consultas presenciais - todas as semanas durante um mês - e depois, de forma mais espaçada, com acompanhamento que pode até passar por uma simples chamada telefónica, é possível "combater e prevenir recaídas".


“Ao fim de um ano sem fumar, chega-se ao estatuto de ex-fumador, o que não quer dizer que não possa haver uma recaída. Aqui destaca-se a importância das políticas sobre o tabaco. Quanto mais difícil for deixar de fumar em espaços públicos e menos visível for o tabagismo, menos vontade vão sentir de voltar a fumar”, apela Sofia Ravara.

A ilusão dos cigarros eletrónicos para cortar o vício

Muitos fumadores fizeram já a transição do tabaco convencional para cigarros eletrónicos, alguns com a justificação de que seria menos aditivo e um meio de transição para, finalmente, deixarem de fumar.

Certo é que “os cigarros eletrónicos não são dispositivos médicos, mas sim produtos de consumo" que permitem “inalar mais profundamente e até em doses maiores a nicotina”, destaca a médica pneumologista, sublinhando que “viciam muito” os consumidores.

Além da presença de nicotina, há “outros componentes, como os que permitem a adição de sabores, que os tornam mais atrativos”, mas que lhe dão um potencial “tóxico e irritante para o sistema respiratório”.


“Não nos podemos esquecer que o pulmão é uma porta aberta para todo o organismo”, acrescenta Sofia Ravara.

“É muito gratificante conseguir qualidade de vida a alguém”

O acompanhamento médico e a ligação entre o profissional de saúde e o utente que procura deixar de fumar é “muito importante” e mais um fator que ajuda a prevenir recaídas. Para quem acompanha fumadores e ex-fumadores durante anos, “é muito gratificante conseguir dar qualidade de vida a alguém” e não faltam histórias para o ilustrar.

“Estava num restaurante quando comecei a ouvir gritos. Olhei e vi uma senhora que não parava de repetir que lhe tinha salvado a vida. Não a reconheci ao início, mas ela aproximou-se e explicou-me que a tinha ajudado a deixar de fumar há dez anos e que, se não tivesse deixado o tabaco, já não estaria cá”, recorda a médica pneumologista, referindo que a utente “deixou de fumar aos 40 anos, numa altura que fumava dois maços por dia”.

Por isso, repete, “não há idade para deixar de fumar”.

Impacto da lei do tabaco sem avaliação aprofundada há mais de uma década

Alexandra Campos, in Público


Direcção-Geral da Saúde lançou concurso para novo estudo em Abril de 2022, mas este acabou por não ser adjudicado. Últimos dados detalhados sobre prevalência do consumo de tabaco são de 2019.

Epidemia do tabagismo continua “descontrolada”, avisa o ex-director-geral da Saúde Francisco George
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Há mais de uma década que não é feita uma avaliação aprofundada do impacto da lei do tabaco em Portugal, apesar de a própria legislação estipular que a Direcção-Geral da Saúde (DGS) e o Observatório Nacional de Saúde devem realizar este tipo de estudos de cinco em cinco anos e que cabe ao Ministério da Saúde enviar um relatório com os resultados deste trabalho para a Assembleia da República. Há uma avaliação detalhada que foi divulgada em 2011, e outra, básica, foi feita três anos depois, mas desde então não há notícia de mais estudos deste género — e a lei do tabaco foi entretanto sujeita a duas relevantes alterações consecutivas, em 2015 e 2017.

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26.5.23

Governo mexe na lei: bombas de gasolina vão poder vender tabaco

Alexandra Campos, in Público


A proposta de lei do Governo já chegou ao Parlamento. Mantém-se a proibição de fumar em esplanadas que tenham alguma área coberta ou delimitada por paredes ou outra estrutura.

As bombas de gasolina vão, afinal, continuar a poder vender tabaco, ao contrário do que tinha sido anunciado pelo Governo. Prevista na versão inicial da proposta de lei do tabaco, esta interdição de venda nas estações de serviço dos postos de abastecimento de combustíveis acabou por ser retirada da versão final do documento que esta quinta-feira foi enviado para a Assembleia da República e a que o PÚBLICO teve acesso.

Na proposta de lei que foi apresentada pela secretária de Estado da Promoção da Saúde, Margarida Tavares, na véspera da sua aprovação em Conselho de Ministros, em 11 de Maio, a redução dos locais de venda de tabaco, nomeadamente nos postos de combustíveis, era um dos pontos mais polémicos, a par da interdição do fumo à porta de restaurantes e cafés e em esplanadas cobertas.

Os fumadores vão, assim, poder continuar a comprar tabaco nas bombas de gasolina e também, como já tinha sido avançado pelo Ministério da Saúde ao Dinheiro Vivo, nas chamadas lojas de conveniência, pequenos estabelecimentos comerciais que estão abertos até tarde e que actualmente estão autorizados a comercializar tabaco.

“Havia alguns pontos que tinham ficado em aberto e essa questão [dos postos de combustíveis] foi levantada na reunião do Conselho de Ministros. Continuamos a dizer que não está aqui em causa uma perseguição aos fumadores. Não negamos que queremos diminuir o acesso genericamente, no entanto não queremos proibir as pessoas de ter acesso ao tabaco. E reconheceu-se que, geograficamente, poderia haver iniquidades [no acesso] com a questão das bombas de gasolina”, explicou Margarida Tavares, inquirida pelo PÚBLICO a propósito desta alteração.

Quando a proposta foi apresentada em traços gerais pela governante, levantou-se de imediato um enorme coro de críticas, nomeadamente dos revendedores de combustíveis, que se consideraram discriminados, mas também de muitos comentadores para quem o extenso rol de restrições constitui uma autêntica perseguição aos fumadores. Ainda antes de ser conhecida a versão final do diploma, aliás, vários deputados do PS assumiram que se preparam para reduzir algumas das restrições propostas, à semelhança do que aconteceu em 2016, durante a anterior alteração à lei do tabaco, que acabou por ser suavizada no Parlamento.

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11.5.23

Concessionários vão poder proibir que se fume nas praias

Alexandra Campos, in Público



Governo quer proibir o consumo de tabaco à porta de restaurantes e até nas esplanadas cobertas. Tabaco aquecido passa a ter as mesmas regras que o tabaco convencional.


O cerco ao consumo de tabaco vai apertar-se em Portugal. À boleia da transposição de uma directiva europeia que obriga Portugal a equiparar os produtos de tabaco aquecido ao tabaco convencional já a partir de Outubro, o Governo decidiu ir mais longe e avançar com uma série de novas restrições que passam pelo alargamento dos locais onde é proibido fumar - à porta de restaurantes, hospitais, escolas e até esplanadas cobertas - e pela interdição da venda de tabaco na maior parte dos estabelecimentos onde actualmente isso é possível, deixando estes de ter máquinas de venda automática.

A proposta de lei é a quarta alteração à Lei do Tabaco e deve ser aprovada esta quinta-feira em Conselho de Ministros, mas terá que passar ainda pelo crivo da Assembleia da República. Se for aprovada sem alterações, a venda de tabaco, directa ou em máquinas de venda automática, passa a estar interdita na maior parte dos estabelecimentos, como cafés, restaurantes e até bombas de gasolina.

Também os estabelecimentos que se investiram em equipamentos para se adaptarem às regras para terem espaços reservados a fumadores em áreas fechadas, ao abrigo da portaria que entrou em vigor em Janeiro passado, vão ter de os encerrar em 2030.

Mas o Governo quis ainda dar mais passos no sentido de complicar a vida aos fumadores, ainda que um destes de forma indirecta. Sem querer avançar para a interdição absoluta de fumar nas praias, como já acontece noutros países, optou por deixar na proposta de lei essa possibilidade, que fica, porém, ao critério dos concessionários. “Os concessionários poderão definir que é proibido fumar nas suas praias”, adiantou ao PÚBLICO a secretária de Estado da Promoção da Saúde, Margarida Tavares, sublinhando que, neste sentido, “pode haver praias livres de fumo”. “Isso seria excelente.”

Em síntese, a partir de 23 de Outubro deste ano, se a proposta for aprovada, passará a ser proibido fumar ao ar livre dentro do perímetro de estabelecimentos de saúde e de ensino, recintos desportivos, estações, paragens e apeadeiros dos transportes públicos. Isso inclui ainda, exemplifica Margarida Tavares, as áreas ao ar livre de piscinas e parques aquáticos.

Apenas os aeroportos, as estações ferroviárias e rodoviárias de passageiros e as gares marítimas e fluviais continuam a poder ter espaços fechados reservados a fumadores. O mesmo acontecerá nas prisões e nos hospitais psiquiátricos. E serão redefinidos os espaços onde é permitida a instalação de máquinas de venda automática, que terão que se localizar a mais de 300 metros dos estabelecimentos de ensino.

Na prática, explica Margarida Tavares, estas máquinas de venda automática vão "deixar de fazer sentido" em locais como cafés, restaurantes, bares, bingos, salas de jogos e de espectáculos, uma vez que estes vão deixar, a partir de Janeiro de 2025, de poder vender tabaco - que passará a ser comercializado apenas nas tabacarias e similares e nos locais com espaços reservados a fumadores.
Tabaco aquecido com imagens de choque

Ao mesmo tempo, as embalagens de tabaco aquecido vão passar a ter que exibir advertências de saúde combinadas, também com imagens, à semelhança do que acontece com os maços de tabaco convencionais. Esta é a primeira medida, destaca a governante, lembrando que decorre da necessidade de transpor para a legislação nacional, até 23 de Outubro, a directiva europeia que equipara os produtos de tabaco aquecido ao tabaco convencional no que se refere a odores e sabores e advertências de saúde.

É uma alteração "muito importante porque o objectivo central é tentar dissuadir" os jovens de iniciar o consumo de tabaco, numa altura em que se sabe que estão a aumentar as “formas cool de fumar”, como o tabaco aquecido e os cigarros electrónicos, destaca. “São dispositivos atractivos e que poderiam comprometer o objectivo que é o de ter uma geração livre de tabaco em 2040”. Neste contexto, acrescenta, passará também a ser proibida a venda, a publicidade e campanhas de experimentação de tabaco em festivais de música e outros espaços públicos.

“Tínhamos que transpor a directiva europeia. E, a propósito disto, como já era nosso objectivo alterar a lei do tabaco, propusemos outras medidas basicamente focadas na proibição do fumo ao ar livre e na redução dos locais de venda de tabaco”, sintetiza Margarida Tavares.

Questionada sobre o aumento dos impostos e do preço do tabaco – que é considerada a medida mais eficaz para convencer os fumadores a deixar o tabaco -, a governante nota que esta é uma medida que "não se insere no âmbito desta lei”. “É óptimo que se lance essa discussão, mas não podemos fazer tudo de uma vez”.

Ao contrário da secretária de Estado - que está convencida de que as alterações serão aprovadas na Assembleia da República -, a coordenadora da Comissão de Tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, Sofia Ravara, mostra-se menos optimista: “Acho que vai haver imensa resistência.”

Apesar de considerar que se “podia ter ido mais longe”, Sofia Ravara considera que as alterações propostas são “um grande avanço”, mas teme que sejam "desvirtuadas na Assembleia da República”. E deixa um aviso: “Vai ser preciso combater a interferência da indústria”.

Sofia Ravara nota ainda que Portugal é um dos países em que diminuiu menos o consumo do tabaco nos últimos anos. A Lei do Tabaco data de 2007. “Estamos a diminuir mas muito devagarinho”.


Em 2005/2006, a prevalência de fumadores estava nos 20,9% (mais de 30% nos homens e cerca de 12% nas mulheres). Esse valor baixou para 20% em 2014 (28% nos homens, 13% nas mulheres) e para 17% em 2019 (24% nos homens e 11% nas mulheres), de acordo com o Inquérito Nacional de Saúde.

O último Estudo sobre o Consumo de Álcool, Tabaco, Drogas e outros Comportamentos Adictivos e Dependências em meio estudantil data de 2019. Dos alunos inquiridos nas escolas públicas, com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos, 38% tinham experimentado tabaco. Em termos de experimentação, destacava-se o tabaco de combustão (29%), seguindo-se os cigarros electrónicos (22%). Eram mais raras outras formas, como a shisha e o tabaco aquecido (“15% e 5% ao longo da vida, respectivamente”). Com Ana Cristina Pereira


14.6.18

O tabagismo tem de ser eliminado. Mesmo o das mulheres

Fernando Leal da Costa, in o Observador

Portugal, a exemplo de outros países, deve estipular uma meta ambiciosa de tabagismo zero e definir um prazo para a atingir. Não, não é ficção, nem é impossível.

Existe um novo tipo de feminismo que está a prejudicar as mulheres muito mais do que a ajudá-las. Há umas supostas feministas que, em vez de procurarem enaltecer e aprofundar o que as mulheres, só elas, podem ter de melhor e diferente, tenta ativamente transformá-las em homens. Nada de mais errado. No dia em que as mulheres se “transformarem” em homens, aquilo que perderão é muito mais do que os possíveis ganhos. Só as mulheres têm a capacidade serem mães e a maternidade é muito mais do que a gestação e o parto. Só elas possuem uma insuperável delicadeza de modos, um inimitável bom senso e uma inesgotável capacidade de trabalho e sacrifício, para só referir algumas das magníficas características que o sexo feminino tem normalmente associadas e que devem ser valorizadas e reconhecidas por homens e mulheres igualmente. É certo que existem padrões culturais muitas vezes nefastos, frequentemente associados a religiões, que castigam as mulheres e lhes impede o direito de se realizarem plenamente. Há burkas, há inenarráveis violências como as vendas de filhas e os casamentos forçados, o horror da mutilação genital e há abusos e abusadores que nenhum nível de testosterona pode desculpar. Sejamos firmes na repulsa de todos os sistemas sociais em que haja exploração de seres humanos, independentemente do sexo, e muito mais empenhadamente no que concerne as práticas de humilhação e maus tratos dirigidos a mulheres. Mas não deixemos que obriguem as mulheres a serem homens ou, ainda pior, militantes assexuadas. Deixem-nas ser o que elas quiserem, para sua satisfação e realização.

Até nas sociedades pós-sufragistas, emergidas da revolução industrial, e mesmo nas civilizações denominadas de “ocidentais”, as democracias pós II Guerra Mundial, ainda há um longo caminho a percorrer quando se fala de salários para trabalho igual. Em boa verdade o trabalho das mulheres nunca é exatamente igual ao dos homens se ao que corresponde uma jornada normal de trabalho juntarmos as tarefas domésticas, quase sempre mal repartidas, e o desempenho da maternidade, área em que o sexo feminino é insubstituível por razões, antes de tudo, biológicas. Mas as mulheres também são mais vulneráveis a noxas ambientais e de formas diferentes das dos homens. Por mais que as novas feministas não queiram há uma condição biológica que é insuperável e condiciona riscos epidemiologicamente diferentes consoante os sexos. Por isso, apesar de linguisticamente estulto, é aceitável aquela repetição de género, senhoras e senhores, deputados e deputadas, portugueses e portuguesas. Antes isso que camaradas, apesar de dar para todos.

O excelente artigo de Alexandre Homem Cristo, “Princesas da Superficialidade” é um texto tão bom, em termos de saúde pública, que nada mais haveria a acrescentar sobre mulheres e tabaco. Ficou claro. As mulheres estão a fumar mais, de forma crescente em comparação com os homens, mais precocemente e, consequentemente, já houve anos suficientes sobre o início desta tendência, que se acelerou a partir dos anos 90 do século passado, para a mortalidade feminina por cancro não parar de aumentar, inclusivamente em cancros que matavam muitos mais homens do que mulheres. Para juntar à excelente coleção com que o Alexandre nos brindou cá vai mais uma referência bibliográfica que reforça a necessidade de montar campanhas específicas dirigidas a mulheres e a jovens mulheres.

Acresce que as mulheres fumadoras têm riscos específicos; maior probabilidade de AVC ou enfarte do miocárdio quando se associa o tabaco à pílula, maior probabilidade de menopausa precoce, maior risco de infertilidade, maior taxa de complicações na gravidez, maior incidência de problemas fetais, maior taxa de complicações vasculares em mulheres fumadoras que façam terapêutica de substituição hormonal, aumento de cancros como o da vulva. Além dos adoráveis dentes amarelos e das rugas que teimosamente aparecem mais cedo nas fumadoras.

Usem os estereótipos porque eles não existem por acaso e ainda bem que existem. É boa técnica em marketing, em especial em marketing social e é um dos pilares das campanhas de promoção da saúde e de prevenção das doenças. No caso do tabaco, como em outros vícios – termo que não deve ser escondido quando falamos de adições – o importante é impedir que se instale. No caso das mulheres até existem razões, como o medo de engordar, que tornam mais difícil a cessação e há diferenças entre os dois sexos na probabilidade de resposta aos medicamentos usados para facilitar a cessação. Logo, faça-se de tudo para as afastar do tabaco e, sobretudo, não facilitem o começo do hábito.

Conclusão: o Ministério da Saúde fez muito bem em ter autorizado esta campanha e a DGS foi, como em outras ocasiões, sábia na forma de procurar atingir o alvo neste tipo de campanhas na TV. Há uns anos, com outro anúncio excelente, procurou sensibilizar para os riscos da exposição ao tabaco fumado em veículos, com enfoque nas crianças que não têm como se proteger das baforadas dos pais. Quantos viram essa campanha? Quantos já viram este vídeo sobre os efeitos do tabaco em mulheres? Infelizmente, não os suficientes.

O que deveríamos estar a discutir, em vez dos comentários pindéricos sobre igualdade, neste caso igualdade no direito a deixarem-se matar, seria a falta de visibilidade de campanhas deste tipo que deveriam ser emitidas em horário nobre, antes dos telejornais e no meio das telenovelas ou do futebol, sem custos adicionais para o Estado, em todos os canais nacionais de televisão e, por maioria de razões, na RTP que é paga pelos portugueses. Esta seria uma iniciativa legislativa de grande impacto e que tarda em ser tomada. As televisões deveriam ter a obrigação contratual, para terem licença de emissão, de passar mensagens de promoção da saúde e de prevenção das doenças, sem custos adicionais para o governo.

Mas ainda há mais para fazer no que à eliminação do tabagismo diz respeito. Em primeiro lugar, Portugal, a exemplo de outros países, deve estipular uma meta ambiciosa de tabagismo zero e definir um prazo para a atingir. Não, não é ficção, nem é impossível.

Para isso, deve progressivamente aumentar os impostos sobre o tabaco, ainda demasiado baixos, abandonando a ideia de que eles sejam encarados como uma fonte de financiamento do Estado. Devem ser dissuasores e não financiadores. As empresas de manufatura de produtos de tabaco deveriam pagar um imposto de licenciamento de atividade que revertesse inteiramente para o SNS, independente dos impostos especiais a pagar pelos consumidores. Estes últimos devem ter um valor específico muito superior ao ad valorem.

O contrabando de tabaco tem de continuar a ser alvo de uma atenção especial, já que, havendo fronteiras abertas e enquanto não existir uma política de preço mínimo europeu, a fiscalidade elevada convida à candonga. A política fiscal não poderá permitir a substituição de tabaco queimado por produtos sem combustão ou vaporizadores, cujos riscos, desde que contenham nicotina, não são desprezíveis. Todavia, esta é uma área onde há investigação por fazer.

A venda de tabaco deveria ser limitada a máquinas de dispensa automática com controlo por chip do cartão de cidadão. Ao mesmo tempo que se deveria instituir um número máximo de unidades vendíveis/dia a cada cliente. O consumo de produtos com tabaco tem de ser proibido em todos os espaços de ensino, incluindo os de nível superior, mesmo nas áreas exteriores. As áreas de fumadores devem ser progressivamente eliminadas, começando por gares ferroviárias, centrais de camionagem, aeroportos, restaurantes, bares, casinos e estabelecimentos de diversão noturna. Em todos os perímetros de equipamentos de saúde, onde isso for possível estabelecer, não pode ser permitido fumar, aceitando que a ideia da distância mínima às janelas é muito mais difícil de impor e fiscalizar do que um conceito de proibição para dentro da “cerca” do hospital ou do centros de saúde.
Deve ser proibido fumar em veículos automóveis, como já acontece noutros países, porque a impregnação dos plásticos interiores é inevitável e conduz à libertação continuada de produtos tóxicos que serão respirados por quem lá seja transportado. Acresce que o risco de acidentes também é maior para condutores que estão a fumar, tal como se estivessem a falar ao telemóvel. E, como a fiscalização ao uso de telemóveis por condutores demonstrou, não é preciso multar todos os prevaricadores para que a medida de proibição tenha sucesso.

A exposição de produtos com tabaco ficará limitada ao que puder ser publicitado nas máquinas de dispensa automática. Com a tendência que já se desenha no mundo civilizado é expectável que os maços descaracterizados de marca e publicidade – plain packaging – venham a ser a regra. Ainda me lembro de quando apresentei o primeiro conjunto de alterações à Lei do Tabaco e ouvi alguns deputados da esquerda que nos governa a queixarem-se de que as imagens sobre os malefícios do tabaco, agora já exibidas em todos os maços de cigarros, eram demasiado “violentas”. Longos são os tentáculos da indústria tabaqueira e, pelos vistos, das feministas.
Seja como tiver de ser, preferivelmente mais depressa do que mais devagar, há que reduzir drasticamente o número de mortos, muitos deles antes dos 70 anos, devidos à exposição ao fumo do tabaco. O país não poderá ter o SNS de que precisamos com a carga de mortalidade precoce e incapacidade que o tabaco nos tem imposto. Por tudo isto, é fundamental que os partidos políticos tenham uma atitude construtiva, longe da direita vs esquerda, ambiciosa e consequente, para a eliminação do tabagismo. Deixem-se de demagogias e cálculos eleitorais de popularidade e defendam quem cá vive. Este é um assunto de pacto de regime. Não venham mais com teorias sobre a liberdade individual e os tradicionais sound bytes que só servem para tapar a cobardia de quem não se atreve, nem deixa que haja quem se atreva, a tomar decisões. Já chega da política para agradar a todos e que não agrada a ninguém.

Em qualquer caso, há uma coisa, entre tantas outras, que nunca se deve perder quando lidamos com pessoas, sejam elas mulheres ou homens; o respeito. O respeito por quem não fuma e não quer fumar o tabaco dos outros e pelos fumadores que, acima de tudo, devem ser ajudados a terminar a sua adição. Infelizmente não terão tido quem os ajudasse a não começar. Aí, o Estado falhou mas não pode continuar a falhar.

2.3.16

Tabaco mata mais de 12 mil portugueses por ano

in TSF

O estudo revela que o tabaco mata quase o dobro do que o álcool, o sal e a atividade física


"Entre os fatores de risco comportamental, fumar foi a primeira causa de morte em Portugal, em ambos os sexos". A conclusão está no estudo "Portugal - Prevenção e Controlo do Tabagismo em Números 2015" que foi esta terça-feira apresentado pela Direção-Geral de Saúde (DGS).
Institute for Health Metrics and Evaluation

Ao todo, segundo as contas apresentadas no documento e feitas por um instituto internacional (Institute for Health Metrics and Evaluation), 10,8% dos mortos em Portugal durante 2013 atribuem-se ao consumo de tabaco, sendo que o fumo passivo esteve na origem de 0,4% dos óbitos.

Destes mais de 12 mil mortos, cerca de 5.500 foram por cancro, 4.000 por doenças respiratórias e 3.000 por doenças do aparelho circulatório.

O relatório da DGS, feito pelo Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo, acrescenta que se focarmos a análise na população com idades entre os 45 e os 64 anos, uma em cada cinco mortes é atribuível ao consumo de tabaco. E fumar também é um dos principais fatores a contribuir para os anos de vida que os portugueses vivem sem saúde.

Contudo, o documento tem algumas boas notícias. Por exemplo, a "mortalidade devida à exposição ao fumo ambiental do tabaco registou uma descida assinalável nos últimos anos" e há cada vez menos não-fumadores expostos ao fumo.

O país teve ainda uma quebra nos últimos 9 anos no consumo de tabaco que passou de 20,9% da população em 2005/2006 para 20% em 2014. Já os consumidores diários tiveram uma redução superior de quase 2 pontos percentuais para 16,8%. Do outro lado, os ex-fumadores subiram de 16,1% para 21,7%.

Portugal atualmente mais 10% de locais de consulta para apoio à cessação tabágica, além de um crescimento das consultas. Contudo, apenas 3,6% dizem ter recorrido a apoio médico ou tomado medicamentos para deixar de fumar, enquanto que 92% dos ex-fumadores não tiveram qualquer apoio.