in Jornal Público
Se partisse, Maria teria de pagar uma renda a um senhorio e parte da prestação da habitação que comprara com o marido
Ele começou a agredi-la quando ela tomou "consciência de que [a relação] tinha acabado". A esperança de dias melhores desfizera-se, como um vaso que se parte em mil peças, minúsculas, irreconciliáveis. O que aconteceu? Ela não estava, "ele pôs o filho fora de casa e disse que o matava se o encontrasse ali ao voltar. O filho passou a noite na rua e, de manhã, o pai foi jogar futebol como se nada fosse". Ela não podia calar aquela dor. Aquela não.
Tinham 14 anos quando começaram o namoro, têm 43. "Uma vida inteira" dentro de uma "relação conflituosa", alimentada pela combustão do "amor-ódio". A violência psicológica podia estalar a qualquer instante. E tantas vezes tantas Maria fugiu de casa com os dois filhos, impelida por um pavor indizível.
Procurava auxílio junto dos seus familiares. Procurava auxílio como quem não pode avançar nem recuar. Não se sentia livre para inspirar, expirar e fechar aquela porta para sempre. Procurava auxílio por um ou dois dias e tornava a casa.
Convencido de que descobrira "o amor da sua vida", em 2003, o marido quis levar os filhos de férias para o Algarve com "uma amiga". Maria sentiu-se traída. Surpreendeu-se, apesar de tantas zangas, tantas intempéries. Opôs--se - para evitar guerrilha futura solicitou a regulação do poder paternal.
O tal amor esgotou-se num instante e nem Maria nem o marido saíram. Viveram dentro da mesma casa até Abril de 2007. Dividiam despesas, tarefas. Por um tempo, tornaram a iludir-se com uma bem--aventurança que haveria de vir, a ter saudade da paz que nunca tiveram.
Como é que se aguenta um casamento destes? "Há muitas condicionantes". Neste caso, como em tantos outros, a maior delas "era a casa".
A casa era "o espaço" de Maria. A casa era a sua "liberdade" e, ao mesmo tempo, a sua prisão. Se saísse, teria de "continuar a pagar metade da prestação" ao banco que lhes concedera o empréstimo. Como, se teria ainda de suportar o aluguer de uma outra habitação? Como, se não aufere mais de 700 euros por mês?
Sentia-se encurralada. De repente, aconteceu aquilo. Maria tomou "consciência de que conseguia". "Quando ele concordou em vender a casa", fez as malas. Partia e era como se voasse.
Já a agredira duas vezes. Há cerca de um ano, no calor de uma discussão, deu-lhe um empurrão, ela caiu na cozinha. Nem se lembra do que desencadeou tal briga - algo relacionado com o modo como protege o filho: "Ele sempre foi um inferno para o filho, sempre teve ciúmes da nossa relação". Os agentes da PSP mandaram-no sair. Ele saiu, ela e os miúdos também. Voltaram "dois dias mais tarde", na "certeza de que ele estava calmo".
Da segunda vez, Maria tinha ido jantar a casa de um amigo comum com a filha. O marido depressa converteu o amigo em amante. "Ele telefonava para a filha a dizer que me ia matar na auto-estrada. Liguei para o 112, disseram-me para sair na saída mais próxima e para desligar o telemóvel. Quando o tornei a ligar, ele continuava com aquela conversa - a polícia a ouvir".
Da terceira vez, Maria já morava apenas com os filhos, na casa alugada. Ele apanhou-a ao chegar a casa com um amigo que o seu raciocínio converteu noutro amante. Ela tirara a segunda queixa havia oito dias: "Ele disse que estava na psicóloga, que se estava a tratar". Agora não pretende retirar a queixa, a menos que "ele se trate". Agora, pretende ir até ao fim. Com o processo de divórcio litigioso em curso, avançou também com um pedido de penhora de salário para pagar as pensões de alimentos em falta.