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3.5.23

Para ser pobre é preciso ser-se elegível

Ana Sofia Branco, o Observador

Os que resistem à pobreza extrema ficam inelegíveis da generalidade dos apoios sociais, sufocando numa vida de constante ansiedade para tentar resolver os seus compromissos.

Em 1980, seis anos antes da entrada de Portugal na União Europeia, o sistema de proteção social português era ainda caracterizado por ser bastante subdesenvolvido quando comparado com os restantes países europeus. Naturalmente, a realidade europeia em matéria de proteção social é bastante díspar e resulta não só dos diferentes modelos de Estado Social como também do desenvolvimento económico de cada Estado-membro. A despesa pública portuguesa em proteção social era em 1980 de 9,7% do PIB (Produto Interno Bruto). Em Portugal, as estimativas apontam que no ano de 2022 as despesas com benefícios sociais terão representado 27,5% do PIB, sendo o 14º país que mais gasta com estas despesas em comparação com todos Estado-membros europeus. No Orçamento para 2023 o governo indica que a despesa prevista com o Estado Social irá atingir 113,2 mil milhões de euros. Os gastos mais relevantes são as prestações sociais, que valem quase 40% do total, de onde se destacam as pensões de reforma. Também os gastos com pessoal pesam, devendo atingir 27 mil milhões de euros, o equivalente a 24% do total.

Portugal distribui pelos mais empobrecidos a riqueza que cada vez é menos produzida pelo país, num exercício que a continuar a este ritmo poderá levar-nos a uma realidade em que cada vez são menos os que produzem riqueza para assegurar a sobrevivência da restante população. Em 2022, de facto, nós tivemos um crescimento de 6,7% do PIB, mas é preciso não ignorar na análise deste indicador o efeito base. Ou seja, vínhamos de valores muito baixos e, por isso, tivemos o segundo melhor indicador do PIB ao nível da União Europeia em 26 Estados. É mais fácil crescer quando se está no fundo.

Os gastos com os mais pobres têm, efetivamente, um peso significativo na despesa em Portugal. Seria legítimo e desejável tal peso se, por um lado, essa fosse a estratégia para a saída dos mais pobres dessa teia de empobrecimento (um apoio de transição ou impulsionador), e por outro lado, se essa despesa promovesse a equidade e a justiça social. Ora, aquilo a que assistimos é que Portugal tem uma taxa de pobreza que aumentou em 2021 de 16,2% para 18,4%, segundo dados do Eurostat. Acresce ainda, se retirarmos os apoios sociais, que o número de pessoas que vive abaixo ou no limiar da pobreza sobe para quatro milhões, isto é, quase metade da população portuguesa.

Salienta-se ainda, que apesar do número de pessoas empregadas ter aumentado, resultando numa diminuição da taxa de desemprego, cerca de 2 milhões de pessoas ainda viviam em 2021 com cerca de 554 euros por mês. Em 2022 os portugueses perderam 3,5% de poder de compra. Portugal é o nono país da OCDE onde se pagam mais impostos, tendo a carga fiscal atingido um novo máximo.

Mas se os dados apresentados nos levam a constatar que a estratégia de transferência de verbas para o combate à pobreza não tem tido o efeito desejado, por outro lado verificamos que a fronteira entre o pobre merecedor de prestações sociais e o pobre excluído desses apoios financeiros tem como critério contornos vagos e muitas vezes ténues que separam a acessibilidade ou não ao recebimento das prestações sociais.

Veja-se o exemplo da nova medida de apoio extraordinário para as famílias mais vulneráveis. São elegíveis de acordo com o Decreto-Lei n.º 21-A/2023, de 28 de março, artigo nº 2 para esse apoio as famílias beneficiárias da tarifa social de energia elétrica (TSEE) por referência ao mês anterior ao pagamento, e as famílias que não sejam beneficiárias da TSEE, mas em que pelo menos um dos membros do agregado familiar seja beneficiário (por referência ao mês anterior ao pagamento) de uma das seguintes prestações sociais mínimas:

O complemento solidário para idosos;
O rendimento social de inserção;
A pensão social de invalidez do regime especial de proteção na invalidez;
O complemento da prestação social para a inclusão;
A pensão social de velhice;
O subsídio social de desemprego;
Abono de família do 1.º ou 2.º escalão.

Ora, um beneficiário de uma pensão de sobrevivência (independentemente do valor que a mesma possa ter) fica excluído desta medida. Salienta-se que são cada vez mais aqueles que vivem em quartos arrendados ou subarrendados sem, por isso, possuírem em seu nome contratos com as empresas prestadoras do fornecimento de energia. Da leitura atenta do Decreto Lei acima referido resulta uma dúvida legítima sobre a elegibilidade dos beneficiários da prestação social para a inclusão que apenas recebem a componente base e não têm direito ao complemento para essa prestação (alínea d). Trata-se de um ato voluntário do legislador de excluir os beneficiários que apenas recebem a componente base da prestação para a inclusão ou tratar-se-á de um erro grosseiro de redação ao apenas considerar explicitamente os que recebem a base e também o complemento? (ver texto do artigo nº 2, alínea d), do número 4 do Decreto-Lei n.º 21-A/2023, de 28 de março)

Importa, destes meros exemplos de falta de elegibilidade de uma pessoa pobre para uma medida política, refletir que estas medidas são apenas avulsas e reativas, não sendo, por isso, parte da solução mas sim placebos para problemas persistentes e estruturais.

Estas medidas, ao não preverem toda a realidade, vão deixando pessoas para trás, talvez seja mesmo impossível prever todas as variáveis e contextos singulares. Ora, o combate à pobreza não pode ficar essencialmente dependente das transferências dos apoios sociais, mas deve depender, isso sim, do efetivo crescimento económico do país e da inclusão de um maior número de pessoas “marginalizadas” no sistema produtivo e participativo.

Reverter as divergências entre os cidadãos passa por proporcionar aos menos instruídos melhores níveis de acesso à educação, este é sem dúvida um dos caminhos, que morre se apenas ele for percorrido, isto é, se não for acompanhado por outras formas de participação social.

A generalidade da população fica presa a um emprego de baixa produtividade e isso é, muitas vezes, o resultado de uma vida de soma de desvantagens que começaram na infância. As alternativas são escassas: ou as famílias e os indivíduos sobrevivem através das diversas prestações sociais, ou procuram a integração no mercado de trabalho, ou seja, com salários demasiado baixos para assegurar os compromissos mensais (alimentação, habitação, saúde, educação, etc.). Os que resistem à pobreza extrema ficam inelegíveis da generalidade dos apoios sociais, sufocando numa vida de constante ansiedade para tentar resolver os seus compromissos. Os que caíram numa situação de pobreza não veem nem incentivos, nem mecanismos que potenciem a sua integração na economia das sociedades, desistindo, muitas vezes, de o tentar.

A pobreza vai contagiando cada vez mais pessoas, que, já fragilizadas pelas inúmeras dificuldades, vão enfraquecendo a sua capacidade de serem agentes produtivos e de ter controlo das suas próprias vidas, relembro que, conforme disse acima, cerca de 40% da população portuguesa ou é efetivamente miserável, ou, se não recebesse as prestações sociais, também o era de facto. Urge uma identidade partilhada, um sentido de reciprocidade nas sociedades. Um governo que potencie e invista no setor produtivo e numa economia inclusiva. Uma política ética que reforce o sentimento de pertença comum e o propósito partilhado e não apenas numa política distributiva de apoios sociais que não resolvem os problemas, mas apenas adiam as suas consequências e potenciam o aumento da pobreza transgeracional.

As políticas de combate à pobreza deviam refletir a estratégia de um país em promover a integração social das pessoas na comunidade, na vida económica, no tecido social e no acesso ao Estado Social. Em vez disso o nosso sistema político tornou-se disfuncional e já não é capaz de pensar de forma pragmática em soluções para os problemas.

Estamos assim perante um enorme falhanço das políticas económicas e sociais das últimas duas décadas, que condenaram Portugal a uma quase estagnação e a recuar para os últimos lugares das economias europeias. Presentemente não parece que estejamos perante uma “janela de oportunidade” para repensar radicalmente a proteção às populações através de mecanismos que promovam a sua real participação e integração no tecido social e económico do país.

19.6.15

Economia social recorre às políticas de emprego para suprimir falta de trabalhadores

in o Observador

Quase 10% dos colaboradores das organizações da economia social são recrutados com recurso às políticas ativas de emprego.

As organizações da economia social (OES) recorrem às políticas ativas de emprego (PAE) como forma de dar resposta à falta de recursos humanos, havendo quase 10% dos colaboradores a serem recrutados desta forma, revela um estudo nacional.

O estudo, “Empregabilidade na Economia Social – O papel das políticas ativas de emprego”, é da responsabilidade da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) Portugal, que realizou inquéritos a 315 entidades, tendo também efetuado 19 entrevistas a “interlocutores privilegiados”, entre investigadores ou entidades estratégicas.

Para a realização do estudo, e para a caracterização das OES enquanto agentes empregadores e o uso que fazem das medidas ativas de emprego, foram analisadas sobretudo “as mais utilizadas” por aquelas organizações: Estágios Emprego, CEI, CEI+ (Contratos Emprego-Inserção) e Estímulo 2013/Emprego.

Segundo a EAPN Portugal, o recurso a medidas ativas de emprego tem sido “uma das estratégias para a manutenção e possível alargamento dos quadros de colaboradores”, revelando que as 315 OES inquiridas empregam 16.873 pessoas, 1.505 das quais (9%) através de PAE. Metade das organizações inquiridas afirmou que recorre às políticas ativas de emprego como forma de dar resposta “a carências em matéria de recursos humanos para a concretização das atividades regulares da organização”. Já 32% disse recorrer a estas políticas com vista à contratação para novas atividades, enquanto 22% afirmou que usa estas medidas para colmatar necessidades pontuais.

“Entre as organizações inquiridas, são as de menor dimensão aquelas que mais recorrem às PAE, indiciando que tais formas de contratualização permitem soluções que de outro modo não estariam ao seu alcance”, adianta o estudo.

Este estudo permitiu também apurar que, desde janeiro de 2012, as 315 organizações da economia social inquiridas integraram 2.833 colaboradores através de PAE, sendo que destes, 845 (30%) viu prolongado o seu vínculo de trabalho com as respetivas organizações. “Apenas em 14% a solução significou o prolongamento da colaboração através de outra medida de PAE, em 25% dos casos o vínculo transformou-se em efetivo, 57% celebraram um contrato a prazo e 4% acordaram num contrato de avença”, revela o estudo.

Na sequência destes dados, a EAPN aponta quatro estratégias, nomeadamente que as organizações “continuem vocacionadas para favorecer a empregabilidade das categorias sociais mais fragilizadas perante o mercado de trabalho, proporcionando-lhes as oportunidades que as empresas privadas lucrativas já não disponibilizam, tendo em conta a crescente disponibilidade de mão-de-obra mais bem qualificada e a baixos custos”. Por outro lado, sugere que as organizações facultem aos colaboradores oportunidades de formação, facilitem o acesso a cursos de educação e formação de adultos ou disponibilizem conhecimentos ou instrumentos para a posterior criação de autoemprego ou acesso ao microcrédito.

Propõe também a “adoção de boas práticas de gestão de recursos humanos consentâneos com os valores coletivos de cooperação, compromisso e de utilidade social. Por fim, aconselha uma maior articulação entre as várias OES e o aproveitamento das sinergias decorrentes das parcerias estabelecidas.

Estes e outros dados vão ser apresentados na quinta-feira, dia 18, num seminário no Centro de Formação Profissional do Porto.

9.4.15

Estado Islâmico afugenta voluntários: «É ser puramente louco»

in TVI24

Atuação dos grupos radicais está a condicionar a participação de pessoas em missões humanitárias internacionais, segundo o presidente da AMI, Fernando Nobre

Os «atos de barbaridade» do Estado Islâmico estão a afugentar os voluntários da Assistência Médica Internacional. O presidente da AMI deixa essa advertência, alertando que há menos pessoas a integrar missões humanitárias internacionais por causa disso. Fernando Nobre defende «novas estratégias» para ultrapassar o problema, uma vez que entrar agora em países como a Síria é ser «suicidário» e «puramente louco».

«Só há uma maneira de intervir para que as agências humanitárias possam fazer o seu trabalho de forma eficaz, coerente e com equidade junto das populações: é que seja imposto um ciclo de segurança», o que pressupõe a «adoção de novas estratégias» para permitir que as mesmas operem em zonas de conflito.

Fernando Nobre falava à Lusa a propósito do anúncio quarta-feira da Organização Mundial da Saúde (OMS) da criação de um novo organismo que irá integrar equipas médicas devidamente qualificadas em todo o mundo, prontas para intervir em caso de emergências graves, tais como epidemias, terremotos e tsunamis.

«Hoje, para uma agência humanitária como a AMI entrar pela Síria adentro para tentar atuar em território sob controlo do (grupo) Estado Islâmico é ser puramente suicidário, já não é ser temerário»

«A questão da segurança dos agentes humanitários está no primeiro nível das prioridades para todas as instituições».

«Hoje, o que tolhe completamente a nossa intervenção não são as epidemias e a questão dos desastres ligados às alterações climáticas que vai acontecendo cada vez mais frequentemente e com maior violência. O que está a coartar a nossa intervenção são exatamente os conflitos ditos atípicos com entidades completamente fora do controlo”, situações que, de resto, “só podem ser ultrapassadas com o controlo destes grupos».

No caso da Síria, ainda esta semana a Organização das Nações Unidas advertiu que há «mais desespero do que nunca» entre os refugiados que ali vivem em campos controlados pelos radicais, e que precisam de ajuda humanitária urgentemente.

De acordo com o presidente da AMI, «os movimentos humanitários estão totalmente impedidos de intervir porque, ao interceder em países como o Quénia, Somália, no Mali, onde os próprios grupos humanitários são alvos preferenciais, já não é ser temerário, é ser puramente louco».

«Essas instituições são vistas como parte integrante de um mundo que esses movimentos de pura barbaridade e sem o mínimo respeito pela vida humana, não aceitam», por isso, «é suicidário tentar atuar lá, porque vão ser imediatamente mortos a tiro ou degolados»

Daí que Fernando Nobre defenda que «é preciso que nestas situações a comunidade internacional, sob mandato das Nações Unidas, tenha coragem, vontade, determinação e ousadia para pôr termo a estas situações, para que não aconteça o mesmo que se passou há 20 anos no Ruanda», onde houve um genocídio, em 1994, alertou.

Questionado pela Lusa se a atuação de grupos armados de cariz religioso, e não só, como o Estado Islâmico, no Médio, Oriente, bem como o Boko Haram e al-Shebab, em África, está a retrair os voluntários para as agências humanitárias, Fernando Nobre respondeu: «Absolutamente, sim».

«Está a retrair, porque somos temerários. Ninguém avança para uma intervenção se sabe que tem 100% de hipóteses de ser degolado, só sendo mesmo louco. Eles (grupos armados) veem-nos como parte de uma sociedade que as odeiam, as hostilizam e que as querem destruir. E nós somos apenas uma parte desta sociedade que eles não toleram»

De acordo com o assistente humanitário, atualmente há zonas em que as intervenções diretas das agências são «complementadas vedadas», por isso, a sua intervenção deve ser feita clandestinamente, por intermédio de instituições locais, como, de resto, já aconteceu no passado.

«Eu sou daqueles que na minha vida humanitária já entrou clandestinamente para desenvolver missões humanitárias – no Chade, em 1981, em Beirute (1982), no fim da guerra do Irão-Iraque (1981), mas nós não éramos procurados para sermos assassinados. Hoje, somos alvo preferenciais para sermos capturados e executados, e ai há que ter a máxima prudência, evidentemente», concluiu Fernando Nobre.

Menos voluntários devido barbárie de grupos como Estado Islâmico, diz presidente da AMI

in o Observador

O presidente da AMI, Fernando Nobre, admitiu que "os atos de barbaridade" praticados por grupos como o Estado Islâmico estão a condicionar os voluntários que desejam trabalhar em missões humanitárias

O responsável da Assistência Médica Internacional (AMI) falava à Lusa a propósito do anúncio quarta-feira da Organização Mundial da Saúde (OMS) da criação de um novo organismo que irá integrar equipas médicas devidamente qualificadas em todo o mundo prontas para intervir em caso de emergências graves, tais como epidemias, terremotos e tsunamis.

Em declarações à Lusa, Fernando Nobre considerou que “só há uma maneira de intervir para que as agências humanitárias possam fazer o seu trabalho de forma eficaz, coerente e com equidade junto das populações: é que seja imposto um ciclo de segurança”, o que pressupõe a “adoção de novas estratégias” para permitir que as mesmas operem em zonas de conflito.

“Hoje, para uma agência humanitária como a AMI entrar pela Síria adentro para tentar atuar em território sob controlo do (grupo) Estado Islâmico é ser puramente suicidário, já não é ser temerário”, afirmou o médico, assinalando que atualmente “a questão da segurança dos agentes humanitários está no primeiro nível das prioridades para todas as instituições”.

“Hoje, o que tolhe completamente a nossa intervenção não são as epidemias e a questão dos desastres ligados às alterações climáticas que vai acontecendo cada vez mais frequentemente e com maior violência. O que está a coartar a nossa intervenção são exatamente os conflitos ditos atípicos com entidades completamente fora do controlo”, situações que, de resto, “só podem ser ultrapassadas com o controlo destes grupos”, acrescentou.

De acordo com o presidente da AMI, “os movimentos humanitários estão totalmente impedidos de intervir porque, ao interceder em países como o Quénia, Somália, no Mali, onde os próprios grupos humanitários são alvos preferenciais, já não é ser temerário, é ser puramente louco”.

“Essas instituições são vistas como parte integrante de um mundo que esses movimentos de pura barbaridade e sem o mínimo respeito pela vida humana, não aceitam”, por isso, “é suicidário tentar atuar lá, porque vão ser imediatamente mortos a tiro ou degolados”, disse.

“É preciso que nestas situações a comunidade internacional, sob mandato das Nações Unidas, tenha coragem, vontade, determinação e ousadia para pôr termo a estas situações, para que não aconteça o mesmo que se passou há 20 anos no Ruanda”, onde houve um genocídio, em 1994, alertou.

Questionado pela Lusa se a atuação de grupos armados de cariz religioso, e não só, como o Estado Islâmico, no Médio, Oriente, bem como o Boko Haram e al-Shebab, em África, está a retrair os voluntários para as agências humanitárias, Fernando Nobre respondeu: “absolutamente, sim”.

“Está a retrair, porque somos temerários. Ninguém avança para uma intervenção se sabe que tem 100% de hipóteses de ser degolado, só sendo mesmo louco. Eles (grupos armados) veem-nos como parte de uma sociedade que as odeiam, as hostilizam e que as querem destruir. E nós somos apenas uma parte desta sociedade que eles não toleram”, frisou.

De acordo com o assistente humanitário, atualmente há zonas em que as intervenções diretas das agências são “complementadas vedadas”, por isso, a sua intervenção deve ser feita clandestinamente, por intermédio de instituições locais, como, de resto, já aconteceu no passado.

“Eu sou daqueles que na minha vida humanitária já entrou clandestinamente para desenvolver missões humanitárias — no Chade, em 1981, em Beirute (1982), no fim da guerra do Irão-Iraque (1981), mas nós não éramos procurados para sermos assassinados. Hoje, somos alvo preferenciais para sermos capturados e executados, e ai há que ter a máxima prudência, evidentemente”, concluiu Fernando Nobre.

4.3.15

Cáritas registou 21.549 novos casos de pessoas em situação de pobreza em 2014

in o Observador

A Cáritas Portuguesa registou, no ano passado, 21.549 novos casos de pessoas em situação de pobreza, um aumento de 15,4% face a 2013, segundo dados da instituição divulgados hoje à agência Lusa.

A Cáritas Portuguesa registou, no ano passado, 21.549 novos casos de pessoas em situação de pobreza, um aumento de 15,4% face a 2013, segundo dados da instituição divulgados hoje à agência Lusa.

No total, a Cáritas apoiou 160.608 pessoas carenciadas, o ano passado, o que representou uma média de 440 por mês, adiantam os dados do Núcleo de Observação Social, um instrumento que permite à instituição conhecer o número de atendimentos que as vinte Cáritas diocesanas prestam às comunidades.

O número de famílias apoiadas também aumentou, passando de 52.967 em 2013, para 63.059 em 2014, o que significou uma subida de 19% (mais 10.092 famílias).

Segundo os dados, avançados à Lusa a propósito da Semana Nacional da Cáritas, que decorre até domingo, os baixos rendimentos e as questões relacionadas com o trabalho são os principais motivos que levaram as pessoas e as famílias a pedirem ajuda à instituição.

Os dados especificam que os baixos rendimentos, as dívidas com água, gás e alimentação representaram 35% dos atendimentos prestados pelas 20 Cáritas diocesanas em 2014, um valor igual do ano passado.

Já o desemprego, o emprego clandestino, o trabalho precário, os salários baixos ou em atraso totalizaram 23% dos apoios dados, um número que se manteve face a 2013.

Os problemas relacionados com a família, como mães adolescente, família monoparental, orfandade, criança em risco, disfuncionalidade familiar, violência ou conflitos entre familiares, motivaram 9% dos atendimentos da organização.

Nove por cento dos atendimentos destinaram-se a ajudar a resolver problemas com a habitação (casa degradada, sobrelotação, custo excessivo da habitação, rendas amortizações em atraso, sem abrigo) e 8% para apoiar problemas ligados à escola (analfabetismo, baixa escolaridade, abandono ou insucesso escolar).

Os dados adiantam que 7% dos atendimentos foram para apoiar questões de saúde (doença, deficiência, alcoolismo, toxicodependência) e 4% para ajudar pessoas com problemas de autoestima, dificuldades de relacionamento, entre outros problemas, a adquirirem competências pessoais.

Os dados do Núcleo de Observação Social dão indicações sobre o atendimento que é feito e sobre as áreas sociais que requerem intervenção das Cáritas Diocesanas, permitindo “desenhar não apenas o rosto das carências sociais” em Portugal, “mas também perceber a melhor forma de agir para melhorar a condição de vida dos portugueses”, adianta a Cáritas.

2.3.15

Lojas sociais ajudam a minimizar necessidades em Lisboa

in O Observador

Vinte e seis lojas sociais estão envolvidas no esforço de dar resposta às necessidades das famílias mais carenciadas na zona de Lisboa, com a partilha e troca produtos a registar tendência para aumentar.

Vinte e seis lojas sociais estão envolvidas no esforço de dar resposta às necessidades das famílias mais carenciadas na zona de Lisboa, com a partilha e troca produtos, essencialmente vestuário e calçado, a registar tendência para aumentar.

A procura das lojas sociais “é um fenómeno que surge, talvez, associado à crise ou toma visibilidade associada à crise”, disse à agência Lusa o vereador dos Direitos Sociais na Câmara de Lisboa, João Afonso.

“As pessoas começam a ter consciência de que aquilo de que já não precisam pode ter utilidade para outras pessoas, mas também há muitas pessoas que começam a pensar que talvez não valha a pena comprar, talvez seja melhor trocar e ir buscar bens que ainda estão em bom estado”, admitiu o autarca.

A funcionar há quatro anos, a Loja Comunitária do Bairro da Boavista, na freguesia de Benfica, “já ajudou mais de 200 famílias” e a tendência é a de que o número cresça, disse a responsável pelo espaço e presidente da Associação de Moradores e Amigos do Bairro da Boavista, Gilda Caldeira.

O apoio que esta loja social presta às pessoas mais carenciadas, através da partilha de peças de roupa e calçado, “é uma gota de água num oceano” de necessidades, pois continua a não ser suficiente para responder à procura, considerou a responsável.

“Esta loja precisava de ter mais espaço e muito mais coisas para satisfazer as necessidades reais das pessoas, que vivem, de facto, para lá da pobreza”, disse Gilda Caldeira, frisando que, além da roupa, a alimentação é “um bem precioso” necessário “para não haver meninos que vão para a escola em jejum”, como se verifica naquele bairro.

Margarida Proença, moradora no Bairro da Boavista, “quase todos os dias” vai à loja social à procura de roupa e calçado para toda a família.

Entre “agasalhos, comida, produtos alimentares, tudo faz falta”, disse a utente da Loja Comunitária, considerando que o que recebe “é uma ajuda preciosa”.

Na freguesia de Belém, desde 2008 que a loja social “Não Custa Nada” faz “a ligação entre as pessoas que querem dar um bem e quem precisa de receber”, essencialmente na área do vestuário, mas também quando surgem pessoas que querem doar eletrodomésticos ou móveis de que já não precisam, explicou o responsável pelo pelouro de Ação Social da Junta de Freguesia de Belém, João Carvalhosa.

“A maior parte são bens usados, mas são bens em bom estado”, disse João Carvalhosa.

Com mais de 400 pessoas inscritas, a entrada na loja “Não Custa Nada” requer a contribuição simbólica de cinquenta cêntimos, mas quando são pessoas muito carenciadas “nem pagam, têm é um limite de peças que podem levar”, sublinhou.

Segundo João Carvalhosa, existe “muita pobreza escondida, que é a chamada pobreza envergonhada”.

“Tivemos a consciência e a noção de que a crise afetou não só os mais carenciados, mas também algumas pessoas de classe média”, afirmou o responsável pela Ação Social na freguesia de Belém.

Luísa Rosa, Teresa Mina e Leonor Ferreira são voluntárias a tempo inteiro nesta loja social em Belém, aproveitando a disponibilidade que a reforma lhes proporciona para ajudarem os que mais precisam.

“O principal é fazer a triagem e entregar roupa a quem precisa, depois há outro trabalho que é muito giro, que é falar com as pessoas e poder encaminhá-las”, contou Luísa Rosa.

O vereador João Afonso lembrou que “Lisboa vai ser capital europeia do voluntariado e isso também é um reconhecimento do que foi o trabalho [da Câmara de Lisboa] nos últimos anos e dos lisboetas em termos de voluntariado”.

“Esta prática das lojas sociais também tem a ver com essa disponibilidade e essa vontade de partilhar”, frisou.

Através da plataforma online de lojas sociais da Câmara de Lisboa, as pessoas interessadas na partilha de produtos e serviços têm a informação sobre onde podem doar ou receber.

16.12.14

Protocolo de cooperação entre Governo e setor social atribui 50 milhões à segurança social

in O Observador

Governo vai atribuir 50 milhões de euros à área da Segurança Social, no âmbito do Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário.

Verbas estão previstas no âmbito do Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário, que é assinado nesta terça-feira

O Governo vai atribuir 50 milhões de euros à área da Segurança Social, no âmbito do Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário, que é assinado terça-feira, segundo a União das Mutualidades Portuguesas (UMP). A cerimónia de assinatura do terceiro Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário é presidida pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e conta com a presença dos ministros da Educação e Ciência, Saúde e da Solidariedade, Emprego e Segurança Social.

Da parte do setor solidário, vão estar presentes os presidentes da União das Mutualidades, a União das Misericórdias Portuguesas e a Confederação das Instituições de Solidariedade Social (CNIS). Segundo nota da União das Mutualidades Portuguesas (UMP), o protocolo para 2015-2016 prevê a atribuição de 50 milhões de euros à área da Segurança Social, “de forma a dar prioridade à contratualização de um conjunto de equipamentos sociais que têm vindo a ser construídos”.

“Também o Fundo de Reestruturação do Setor Social (FRSS) vai contar com uma verba de 30 milhões de euros para apoiar a reestruturação e a sustentabilidade financeira das IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social] e equiparadas”, diz a União das Mutualidades.

Neste compromisso de cooperação o apoio é alargado, pela primeira vez, aos setores da saúde e da educação, estando previsto, no âmbito dos cuidados de saúde, a “abertura de mais unidades de Cuidados Continuados Integrados pertencentes ao setor social e solidário”, para além da transferência de mais três hospitais para a gestão das Misericórdias.

Por outro lado, segundo a União das Mutualidades, vai ser reforçada a oferta pública de cuidados de saúde primários e vão ser realizadas experiências piloto na área da saúde mental com vista à implementação de respostas de cuidados continuados integrados específicos. De acordo com a UMP vão ser criadas “regras que permitam igual acesso ao serviço de transporte de doentes aos diferentes operadores” e a alteração legislativa relativa às farmácias sociais será prosseguida.

No que diz respeito à educação, a UMP adianta que o protocolo de cooperação prevê, para a educação pré-escolar e para o ensino básico, “continuar a pautar-se pelo princípio da igualdade de oportunidades no acesso e frequência dos estabelecimentos”. Significa isso que “serão redefinidos os mecanismos e critérios de prioridades de seleção, bem como dos apoios financeiros para os acordos de cooperação, tanto para a componente letiva como familiar”.

Em relação às crianças com necessidades educativas especiais, o acordo de cooperação define a “salvaguarda do processo de transição dos jovens com idade igual ou superior a 18 anos, que terminem o percurso escolar obrigatório e que tenham necessidades educativas especiais de caráter permanente, para preparar o seu futuro para soluções ajustadas ao seu perfil e aptidões”.