in JN
O Governo vai prolongar por mais dois meses o apoio mensal de 30 euros a quem beneficia do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC), tendo em conta o contexto do mercado e a situação socioeconómica internacional.
A portaria foi esta segunda-feira publicada em Diário da República e prolonga por mais dois meses a atribuição do apoio financeiro criado em fevereiro, "de caráter complementar, excecional e temporário", para "compensar as famílias que beneficiam do programa", pelo agravamento dos custos de vida.
A necessidade de prolongamento tem a ver com o facto de se ter verificado que, "em resultado do contexto do mercado e da situação socioeconómica internacional, agravado pelos impactos causados pela situação de guerra na Europa, por vezes ficam desertos os concursos" no âmbito do POAPMC.
A situação "gera constrangimentos e atrasos nas entregas dos produtos que constituem o cabaz alimentar" e o Governo admite que esses constrangimentos se mantêm, apesar de estarem a ser "desenvolvidos os esforços para a sua resolução".
"Importa que no imediato se reforcem as medidas no sentido de garantir que todas as famílias disponham de condições para assegurar a sua alimentação", lê-se na portaria.
Este subsídio tem o valor de 30 euros e é pago mensalmente a cada um dos elementos que fazem parte do agregado familiar apoiado pelo POAPMC, estando dependente de diagnóstico e avaliação oficiosa, que são feitos automaticamente.
O pagamento é da responsabilidade do Instituto da Segurança Social e é feito por depósito em conta bancária ou por vale postal, diretamente ao beneficiário ou ao seu representante.
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15.5.23
17.2.22
Famílias pobres com cortes nos cabazes de alimentos: faltam leite, arroz e outros bens essenciais
Samuel Silva, in Público on-line
Leite, arroz, peixe e azeite estão fora dos pacotes alimentares há meses — ou aparecem em quantidades muito reduzidas. Impugnação de concursos públicos para a compra dos alimentos e demora de pareceres técnicos da ASAE explica a situação que afecta cerca de 120 mil beneficiários.
Arroz, peixe congelado, atum em conserva, azeite, bolachas e, sobretudo, leite. São produtos como estes que deviam constar dos cabazes alimentares recebidos pelas famílias beneficiárias do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas, mas que ou não têm sido entregues ou chegam em quantidades menores do que o habitual desde, pelo menos, o final do Verão passado. O Governo admite as falhas, mas garante a resolução de alguns destes problemas ainda este mês.
O Jornal de Notícias, que esta segunda-feira noticia a situação, cita Instituições Particulares de Solidariedade Social de todo o país que dão conta da falta de muitos destes alimentos desde Setembro. O leite é a principal carência, contam, já que muitas famílias têm crianças pequenas. Os cabazes devem ter 25 produtos alimentares. Segundo os assistentes sociais, não têm sido entregues cerca de um quarto dos alimentos que habitualmente são incluídos nos cabazes.
Fonte do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social admite “falhas na entrega de alguns produtos”. A tutela justifica a situação com três tipos de situações. Por um lado, houve “impugnações judiciais interpostas pelos concorrentes” nos concursos públicos para a compra dos produtos que devem constar dos cabazes alimentares, mas também “demora na análise da emissão dos pareceres técnicos da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE)” necessários sobre os alimentos entregues às famílias pobres.
Por último, também “a exigência da União Europeia na tramitação procedimental associada” a esses concursos de aquisição contribui para os atrasos verificados, admite a mesma fonte governamental. O ministério de Ana Mendes Godinho garante que “a situação está a ser gradualmente ultrapassada” e que “alguns produtos serão distribuídos este mês”.
O Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) foi criado para combater a pobreza e a exclusão social em Portugal e é co-financiado pela União Europeia. Há 120 mil beneficiários em todo o país. Para serem abrangidas, as pessoas devem estar em situação de grave carência económica. Nessa análise é considerado o rendimento líquido do agregado familiar, as despesas fixas e o número de elementos da família. Depois de deduzidas as despesas aos rendimentos, cada pessoa do agregado não pode dispor de mais 213,91 euros mensais para ser elegível.
Tópicos
Sociedade
Pobreza
Alimentação
Ministra do Trabalho e da Segurança Social
IPSS
Fome
Leite, arroz, peixe e azeite estão fora dos pacotes alimentares há meses — ou aparecem em quantidades muito reduzidas. Impugnação de concursos públicos para a compra dos alimentos e demora de pareceres técnicos da ASAE explica a situação que afecta cerca de 120 mil beneficiários.
Arroz, peixe congelado, atum em conserva, azeite, bolachas e, sobretudo, leite. São produtos como estes que deviam constar dos cabazes alimentares recebidos pelas famílias beneficiárias do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas, mas que ou não têm sido entregues ou chegam em quantidades menores do que o habitual desde, pelo menos, o final do Verão passado. O Governo admite as falhas, mas garante a resolução de alguns destes problemas ainda este mês.
O Jornal de Notícias, que esta segunda-feira noticia a situação, cita Instituições Particulares de Solidariedade Social de todo o país que dão conta da falta de muitos destes alimentos desde Setembro. O leite é a principal carência, contam, já que muitas famílias têm crianças pequenas. Os cabazes devem ter 25 produtos alimentares. Segundo os assistentes sociais, não têm sido entregues cerca de um quarto dos alimentos que habitualmente são incluídos nos cabazes.
Fonte do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social admite “falhas na entrega de alguns produtos”. A tutela justifica a situação com três tipos de situações. Por um lado, houve “impugnações judiciais interpostas pelos concorrentes” nos concursos públicos para a compra dos produtos que devem constar dos cabazes alimentares, mas também “demora na análise da emissão dos pareceres técnicos da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE)” necessários sobre os alimentos entregues às famílias pobres.
Por último, também “a exigência da União Europeia na tramitação procedimental associada” a esses concursos de aquisição contribui para os atrasos verificados, admite a mesma fonte governamental. O ministério de Ana Mendes Godinho garante que “a situação está a ser gradualmente ultrapassada” e que “alguns produtos serão distribuídos este mês”.
O Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC) foi criado para combater a pobreza e a exclusão social em Portugal e é co-financiado pela União Europeia. Há 120 mil beneficiários em todo o país. Para serem abrangidas, as pessoas devem estar em situação de grave carência económica. Nessa análise é considerado o rendimento líquido do agregado familiar, as despesas fixas e o número de elementos da família. Depois de deduzidas as despesas aos rendimentos, cada pessoa do agregado não pode dispor de mais 213,91 euros mensais para ser elegível.
Tópicos
Sociedade
Pobreza
Alimentação
Ministra do Trabalho e da Segurança Social
IPSS
Fome
15.2.21
Portugal prepara-se para atribuir ajuda alimentar em forma de cartões
Ana Cristina Pereira, in Público on-line
Alteração do regulamento do Fundo de Europeu de Auxílio às Pessoas Mais Carenciadas abriu possibilidade. Portugal, Roménia e França já manifestaram interesse. Ao cartão será atribuído um plafond. Verba só poderá ser usada para comprar bens de primeira necessidade
No corrupio da entrega de cabazes alimentares, já havia quem pedisse soluções mais ágeis e dignificantes. Portugal prepara um sistema de cartão electrónico recarregável para ajudar as famílias mais carenciadas a ir ao supermercado comprar bens alimentares.
Os cabazes não vão desaparecer, pelo menos de um momento para outro. Mas uma alternativa poderá ser oferecida a beneficiários do Programa Operacional de Apoio às Pessoas mais Carenciadas (POAPMC), co-financiado pelo Fundo Europeu de Auxílio às Pessoas Mais Carenciadas (FEAD).
O gabinete da ministra do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, escusa-se a adiantar qualquer data. Diz apenas que “ao cartão será atribuído um plafond, com periodicidade e regularidade de carregamento.” “Portugal tem procurado junto da Comissão Europeia esclarecer todos os detalhes para implementar este modelo de forma compatível com a segurança exigida pelas regras comunitárias”, esclarece, por escrito.
A mudança faz-se a reboque da pandemia, que por toda a União Europeia está a semear pobreza. Logo em Abril, a Comissão Europeia propôs uma alteração ao regulamento do FEAD. Entre outros aspectos, admitia a hipótese de se atribuir apoio através de vouchers/cartões electrónicos. Seria uma forma de chegar mais facilmente às pessoas no meio de uma crise sanitária, mas também um sinal de mudança de paradigma.
Portugal manifestou interesse em avançar, tal como a Roménia e a França (apenas para a região de Mayotte). Só no princípio deste ano, a Comissão Europeia adoptou o acto delegado (com indicadores, requisitos técnicos, rastreabilidade, pistas de auditoria e controlo) e ainda não o publicou. De acordo com essas orientações, o cartão será usado em exclusiva para bens de primeira necessidade.
Um alívio na logística
É uma ideia já várias vezes sugerida por organizações como a Rede Europeia Antipobreza/ EAPN-Portugal (e replicada no último relatório do Tribunal de Contas). “Achamos que devia ser uma solução, desde logo, por uma questão de soberania alimentar”, comenta Sandra Araújo, directora-executiva. “As pessoas poderão tomar decisões sobre o seu consumo.”
As vantagens sobressaem numa ronda por uma dezena de organizações mediadoras no POAPMC. Aventa-se poupança em transporte, armazenamento, conservação e distribuição de alimentos. “Esta seria a altura certa”, comenta Fernanda Martins, da Santa Casa da Misericórdia de Almada. A situação económica agrava-se à medida que o confinamento se prolonga. Mesmo que se queira continuar a aumentar o número de cabazes, a capacidade das organizações tem limites.
Há que descarregar toneladas de alimentos e que conservá-las, o que exige tempo, força física, espaço, mas também sistemas de refrigeração que consomem muita electricidade, aponta Claudina Costa, da Associação Nacional de Ajuda aos Pobres. E alguém tem de ficar horas e horas, fim-de-semana fora ou noite adentro, a introduzir os itens que chegam na plataforma informática e a atribuí-los um a um.
Não é só a sobrecarga de um programa intrincado que envolve centenas de organizações de todo o país. Claudina bem vê o embaraço no rosto de muitos dos que formam filas estigmatizantes. “É difícil, muito difícil.” Sandra Morais, da Santa Casa de Almada, não podia estar mais de acordo: “Temos imensas preocupações em que haja sigilo na prestação de apoio alimentar. Procuramos que haja desfasamento de horários, mas as pessoas acabam por se cruzar. Se a pessoa tivesse um cartão, ia a um supermercado e, de forma anónima, comprava o que lhe fazia falta.”
Mais dignidade
“Seria uma situação mais digna”, comenta, por sua vez, Natércia Pedro, coordenadora do Centro Paroquial de Bem Estar Social da Arrentela, no Seixal. “Teria de haver algum controlo, algum acompanhamento, mas sim, seria muito libertador.”
Patrícia Martins, do Centro Social da Paróquia de São Salvador de Grijó, em Vila Nova de Gaia, também sublinha a necessidade de manter algum controlo. "Nos supermercados vende-se de tudo. Tinha de se encontrar uma forma de o cartão só ser usado para comprar produtos essenciais, como alimentos e produtos de higiene.” Não seria, mesmo assim, uma solução para qualquer um. “Há muitas famílias que beneficiam deste programa que têm crianças e jovens em risco. Não fazem uma boa gestão da economia doméstica. Aí temos de acautelar os alimentos para as crianças.”
A nova presidente da Cáritas Portuguesa, Rita Valadas, também julga que não será uma resposta para todos. “Imagine-se pessoas com alguma idade que até têm dificuldade em gerir isso. Se calhar, estão habituadas a receber cabazes e a planear a sua vida com base nisso”, exemplifica. Para uns fará mais sentido uma cantina, para outros um cabaz, para outros um cartão.
Ninguém ouviu os beneficiários a reclamar essa mudança, mas todos já ouviram desabafos sobre o actual sistema. Há a distância, o peso, a falta de transporte, o suposto excesso de vegetais, a suposta escassez de carne e peixe. “A pessoa tem de vir buscar os alimentos, tem de vir alguém com ela porque não consegue levar tudo sozinha”, torna Natércia Pedro. E outras ficam de fora de um apoio que a tiraria de uma situação de privação material simplesmente por não terem um frigorífico com um congelador em casa.
“Acho que tem de ser bem estudado”, declara Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome. Tem estudado exemplos noutros países, no âmbito da Rede Dar e Receber, iniciativa da Entreajuda e da Cáritas Portuguesa. E há logo uma série de questões que se formam na sua cabeça. “A quem seriam atribuídos? Onde poderiam ser usados? Nas instituições ou no comércio a retalho? Quais os produtos que poderiam ser comprados? Seria possível comprar bebidas alcoólicas? Poderiam comprar outros bens essenciais, como produtos de higiene?” E fica sempre a pensar que tem de haver um acompanhamento, pelo menos durante um período. Estas famílias que a pandemia deixou sem rendimentos podem estar habituadas a gerir o orçamento familiar, ser capazes de fazer as suas compras, mas outras carecem de orientação.
Incentivar a autonomia
O programa prevê que a ajuda material seja complementada com acompanhamento técnico. “A utilização do cartão electrónico tem como objectivo reduzir a estigmatização muitas vezes associada às famílias carenciadas, através da implementação de um modelo de consumo e de acesso a bens alimentares em igualdade de circunstâncias com famílias não carenciadas”, refere o gabinete da ministra. Mas não só. Também “incentivar a autonomia, a autodeterminação e o desenvolvimento de competências sociais, através da possibilidade das famílias carenciadas poderem gerir o orçamento que lhes é atribuído, planear as suas refeições e seleccionar os alimentos de acordo com a sua preferência”.
É uma grande mudança do modelo lançado em 2017, seguindo as directrizes da Bruxelas: cabazes com um conjunto de produtos em variedade e quantidade suficiente para assegurar 50% das necessidades energéticas e nutricionais dos indivíduos, dando possibilidade de usar o rendimento disponível para outras despesas correntes, como renda, água, luz, gás. E este já era uma mudança de paradigma em relação à ajuda que havia antes, que era pontual e muito condicionada pelos excedentes da produção alimentar.
Experiência da Cáritas
Tem havido algumas experiências pontuais de ajuda alimentar em cartões electrónicos ou vales. A Cáritas Portuguesa tem-na.
Desde o início da pandemia de covid-19, aquela organização tem distribuído vales de alimentação. E a nova presidente, Rita Valadas, só tem elogios a fazer a esta modalidade.
“Estes vales alimentares foram distribuídos por muitas empresas como substituto do subsídio de alimentação”, salienta. “Não agridem. É como receber um cheque. É bom para as pessoas. Elas acabam por participar na solução.”
A reacção que lhe tem chegado não podia ser melhor. “É bastante mais serena a articulação com uma pessoa em situação de vulnerabilidade quando se lhe oferece isto.”
Reflectindo sobre o que tem travado o avanço de medidas desta natureza no sector social, Rita Valadas identifica vários obstáculos. “Há muitas pessoas que preferem dar em géneros. Têm aquela dúvida: para o que vai?” Nota, aí, uma desconfiança em quem é pobre, mas também uma matriz cultural.
Há séculos e séculos de experiência. “Levar o arroz, o feijão, o leite, o azeite está na cabeça das pessoas como forma de participar na estratégia de combate à pobreza. Era assim que se fazia a caridade. Havia em Lisboa pessoas que todos os dias facilitavam pão e café ao pequeno-almoço a alguém. As pessoas acreditam que é uma forma que acrescenta.”
Passar a dar dinheiro é todo um novo paradigma. "Este ano, foram cerca de dez mil as pessoas abrangidas por vouchers, isto ao nível das 20 dioceses", clarifica. "Nós centralizamos este programa, que se chama ‘Inverter a curva da pobreza’." Uma nova campanha está para ser lançada, entre 28 de Fevereiro e 5 de Março, a propósito dos 65 anos da Cáritas.
Alteração do regulamento do Fundo de Europeu de Auxílio às Pessoas Mais Carenciadas abriu possibilidade. Portugal, Roménia e França já manifestaram interesse. Ao cartão será atribuído um plafond. Verba só poderá ser usada para comprar bens de primeira necessidade
No corrupio da entrega de cabazes alimentares, já havia quem pedisse soluções mais ágeis e dignificantes. Portugal prepara um sistema de cartão electrónico recarregável para ajudar as famílias mais carenciadas a ir ao supermercado comprar bens alimentares.
Os cabazes não vão desaparecer, pelo menos de um momento para outro. Mas uma alternativa poderá ser oferecida a beneficiários do Programa Operacional de Apoio às Pessoas mais Carenciadas (POAPMC), co-financiado pelo Fundo Europeu de Auxílio às Pessoas Mais Carenciadas (FEAD).
O gabinete da ministra do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, escusa-se a adiantar qualquer data. Diz apenas que “ao cartão será atribuído um plafond, com periodicidade e regularidade de carregamento.” “Portugal tem procurado junto da Comissão Europeia esclarecer todos os detalhes para implementar este modelo de forma compatível com a segurança exigida pelas regras comunitárias”, esclarece, por escrito.
A mudança faz-se a reboque da pandemia, que por toda a União Europeia está a semear pobreza. Logo em Abril, a Comissão Europeia propôs uma alteração ao regulamento do FEAD. Entre outros aspectos, admitia a hipótese de se atribuir apoio através de vouchers/cartões electrónicos. Seria uma forma de chegar mais facilmente às pessoas no meio de uma crise sanitária, mas também um sinal de mudança de paradigma.
Portugal manifestou interesse em avançar, tal como a Roménia e a França (apenas para a região de Mayotte). Só no princípio deste ano, a Comissão Europeia adoptou o acto delegado (com indicadores, requisitos técnicos, rastreabilidade, pistas de auditoria e controlo) e ainda não o publicou. De acordo com essas orientações, o cartão será usado em exclusiva para bens de primeira necessidade.
Um alívio na logística
É uma ideia já várias vezes sugerida por organizações como a Rede Europeia Antipobreza/ EAPN-Portugal (e replicada no último relatório do Tribunal de Contas). “Achamos que devia ser uma solução, desde logo, por uma questão de soberania alimentar”, comenta Sandra Araújo, directora-executiva. “As pessoas poderão tomar decisões sobre o seu consumo.”
As vantagens sobressaem numa ronda por uma dezena de organizações mediadoras no POAPMC. Aventa-se poupança em transporte, armazenamento, conservação e distribuição de alimentos. “Esta seria a altura certa”, comenta Fernanda Martins, da Santa Casa da Misericórdia de Almada. A situação económica agrava-se à medida que o confinamento se prolonga. Mesmo que se queira continuar a aumentar o número de cabazes, a capacidade das organizações tem limites.
Há que descarregar toneladas de alimentos e que conservá-las, o que exige tempo, força física, espaço, mas também sistemas de refrigeração que consomem muita electricidade, aponta Claudina Costa, da Associação Nacional de Ajuda aos Pobres. E alguém tem de ficar horas e horas, fim-de-semana fora ou noite adentro, a introduzir os itens que chegam na plataforma informática e a atribuí-los um a um.
Não é só a sobrecarga de um programa intrincado que envolve centenas de organizações de todo o país. Claudina bem vê o embaraço no rosto de muitos dos que formam filas estigmatizantes. “É difícil, muito difícil.” Sandra Morais, da Santa Casa de Almada, não podia estar mais de acordo: “Temos imensas preocupações em que haja sigilo na prestação de apoio alimentar. Procuramos que haja desfasamento de horários, mas as pessoas acabam por se cruzar. Se a pessoa tivesse um cartão, ia a um supermercado e, de forma anónima, comprava o que lhe fazia falta.”
Mais dignidade
“Seria uma situação mais digna”, comenta, por sua vez, Natércia Pedro, coordenadora do Centro Paroquial de Bem Estar Social da Arrentela, no Seixal. “Teria de haver algum controlo, algum acompanhamento, mas sim, seria muito libertador.”
Patrícia Martins, do Centro Social da Paróquia de São Salvador de Grijó, em Vila Nova de Gaia, também sublinha a necessidade de manter algum controlo. "Nos supermercados vende-se de tudo. Tinha de se encontrar uma forma de o cartão só ser usado para comprar produtos essenciais, como alimentos e produtos de higiene.” Não seria, mesmo assim, uma solução para qualquer um. “Há muitas famílias que beneficiam deste programa que têm crianças e jovens em risco. Não fazem uma boa gestão da economia doméstica. Aí temos de acautelar os alimentos para as crianças.”
A nova presidente da Cáritas Portuguesa, Rita Valadas, também julga que não será uma resposta para todos. “Imagine-se pessoas com alguma idade que até têm dificuldade em gerir isso. Se calhar, estão habituadas a receber cabazes e a planear a sua vida com base nisso”, exemplifica. Para uns fará mais sentido uma cantina, para outros um cabaz, para outros um cartão.
Ninguém ouviu os beneficiários a reclamar essa mudança, mas todos já ouviram desabafos sobre o actual sistema. Há a distância, o peso, a falta de transporte, o suposto excesso de vegetais, a suposta escassez de carne e peixe. “A pessoa tem de vir buscar os alimentos, tem de vir alguém com ela porque não consegue levar tudo sozinha”, torna Natércia Pedro. E outras ficam de fora de um apoio que a tiraria de uma situação de privação material simplesmente por não terem um frigorífico com um congelador em casa.
“Acho que tem de ser bem estudado”, declara Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome. Tem estudado exemplos noutros países, no âmbito da Rede Dar e Receber, iniciativa da Entreajuda e da Cáritas Portuguesa. E há logo uma série de questões que se formam na sua cabeça. “A quem seriam atribuídos? Onde poderiam ser usados? Nas instituições ou no comércio a retalho? Quais os produtos que poderiam ser comprados? Seria possível comprar bebidas alcoólicas? Poderiam comprar outros bens essenciais, como produtos de higiene?” E fica sempre a pensar que tem de haver um acompanhamento, pelo menos durante um período. Estas famílias que a pandemia deixou sem rendimentos podem estar habituadas a gerir o orçamento familiar, ser capazes de fazer as suas compras, mas outras carecem de orientação.
Incentivar a autonomia
O programa prevê que a ajuda material seja complementada com acompanhamento técnico. “A utilização do cartão electrónico tem como objectivo reduzir a estigmatização muitas vezes associada às famílias carenciadas, através da implementação de um modelo de consumo e de acesso a bens alimentares em igualdade de circunstâncias com famílias não carenciadas”, refere o gabinete da ministra. Mas não só. Também “incentivar a autonomia, a autodeterminação e o desenvolvimento de competências sociais, através da possibilidade das famílias carenciadas poderem gerir o orçamento que lhes é atribuído, planear as suas refeições e seleccionar os alimentos de acordo com a sua preferência”.
É uma grande mudança do modelo lançado em 2017, seguindo as directrizes da Bruxelas: cabazes com um conjunto de produtos em variedade e quantidade suficiente para assegurar 50% das necessidades energéticas e nutricionais dos indivíduos, dando possibilidade de usar o rendimento disponível para outras despesas correntes, como renda, água, luz, gás. E este já era uma mudança de paradigma em relação à ajuda que havia antes, que era pontual e muito condicionada pelos excedentes da produção alimentar.
Experiência da Cáritas
Tem havido algumas experiências pontuais de ajuda alimentar em cartões electrónicos ou vales. A Cáritas Portuguesa tem-na.
Desde o início da pandemia de covid-19, aquela organização tem distribuído vales de alimentação. E a nova presidente, Rita Valadas, só tem elogios a fazer a esta modalidade.
“Estes vales alimentares foram distribuídos por muitas empresas como substituto do subsídio de alimentação”, salienta. “Não agridem. É como receber um cheque. É bom para as pessoas. Elas acabam por participar na solução.”
A reacção que lhe tem chegado não podia ser melhor. “É bastante mais serena a articulação com uma pessoa em situação de vulnerabilidade quando se lhe oferece isto.”
Reflectindo sobre o que tem travado o avanço de medidas desta natureza no sector social, Rita Valadas identifica vários obstáculos. “Há muitas pessoas que preferem dar em géneros. Têm aquela dúvida: para o que vai?” Nota, aí, uma desconfiança em quem é pobre, mas também uma matriz cultural.
Há séculos e séculos de experiência. “Levar o arroz, o feijão, o leite, o azeite está na cabeça das pessoas como forma de participar na estratégia de combate à pobreza. Era assim que se fazia a caridade. Havia em Lisboa pessoas que todos os dias facilitavam pão e café ao pequeno-almoço a alguém. As pessoas acreditam que é uma forma que acrescenta.”
Passar a dar dinheiro é todo um novo paradigma. "Este ano, foram cerca de dez mil as pessoas abrangidas por vouchers, isto ao nível das 20 dioceses", clarifica. "Nós centralizamos este programa, que se chama ‘Inverter a curva da pobreza’." Uma nova campanha está para ser lançada, entre 28 de Fevereiro e 5 de Março, a propósito dos 65 anos da Cáritas.
11.2.21
Os novos pobres: Gente jovem e que tinha emprego
Joana Faustino, in Sol
Em Portugal, foram milhares aqueles que perderam o emprego devido à covid-19. A pobreza não escolhe idade ou género e os pedidos de ajuda alimentar aumentam de dia para dia.
2021 será o ano em que a pobreza extrema mundial irá aumentar pela primeira vez no espaço de tempo de 22 anos. Se por um lado, a ONU prevê que 235 milhões de pessoas necessitem de ajuda humanitária, por outro o Banco Mundial alerta que o número de indivíduos a viver em pobreza extrema pode chegar aos 150 milhões. No relatório publicado em outubro do ano passado pode ler-se que «durante mais de duas décadas, a pobreza extrema estava a descer consistentemente. Agora, pela primeira vez, a luta para acabar com a pobreza sofreu o seu pior retrocesso». Além da Covid-19 como principal impulsionadora deste problema, aponta-se também para as alterações climáticas e para os conflitos presentes em várias partes do globo como fatores de risco.
Em Portugal, os dados são semelhantes. Contactada pelo Nascer do SOL, Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome (BA) avança que «entre abril e maio houve um pico de pedidos de ajuda», que começaram gradualmente a diminuir e voltaram a aumentar novamente no final do ano. Sobre quem procura ajuda, a presidente do BA explica que são «famílias que nunca tinham convivido com uma situação de pobreza» e que agora não sabem como lidar com a situação. Pessoas que sempre tiveram um emprego e maneira de sustentar a família, veem-se agora desamparados e em alguns casos envergonhados por terem de pedir ajuda. É esse o caso de milhares de trabalhadores do setor do turismo e da restauração por exemplo.
Os novos desempregados
Joana Aires e José Rodrigues trabalhavam num café na zona do LxFactory. Quando se instalou a pandemia e foi decretado o estado de emergência o casal entrou em layoff. Não foi preciso muito tempo para que o estabelecimento deixasse de ter dinheiro para lhes pagar e os despedisse. Os jovens, ambos na casa dos 20 anos, moram juntos e viram-se obrigados a pedir ajuda à mãe de José para que conseguissem garantir as suas necessidades. A busca por um novo emprego também não foi fácil. Joana continua à procura e a ter de viver com subsídio de desemprego. José conseguiu um posto de trabalho num call center passados três meses de busca.
É essa a situação em que cada vez mais portugueses vivem atualmente. De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística, em novembro do ano passado, a taxa de desemprego situava-se nos 7,2%. Se desde 2012 tinha vindo a descer, chegando em 2019 aos 6,4%, este ano a pandemia fez com que o que era observável há sete anos desse uma volta de 180 graus. O aumento do desemprego trouxe também um aumento da pobreza. Os números não escolhem setor, género ou idade. No entanto, de acordo com Isabel Jonet, os «novos pobres» são na sua maioria pessoas jovens que já tiveram um emprego e pertencentes à classe média.
Os novos apoios
Nuno Pacheco é padre em duas paróquias do distrito de Setúbal - Santo André e Alhos Vedros. Quando contactado pelo Nascer do SOl explicou que o número base de famílias ajudadas semanalmente pela paróquia em conjunto com o Banco Alimentar é de 48. Em Santo André contam ainda com a ajuda mensal do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC), 156 famílias, o que representa um universo de 500 pessoas ajudadas por mês. No entanto, em março o número de pedidos de ajuda evoluiu de tal maneira que o padre se viu obrigado a criar um outro programa de ajuda imediata. Por um lado, o protocolo de inscrição de famílias no programa da paróquia estava perto de atingir o limite; por outro era necessário recorrer a «burocracias» para as quais não havia tempo para pedir este tipo de apoio. Como solução, as paróquias criaram o programa de ajuda DECOR. «Muita gente perdeu o emprego em março e a partir daí. Alguns deles são pessoas de outras nacionalidades que nem sempre tinham tudo o que era necessário para se inscreverem na ajuda do BA. Por isso, criámos o projeto DECOR e desde março já ajudou mais de 500 famílias divididas entre estas duas paróquias», explicou o padre.
Telma é uma das pessoas que faz a distribuição da ajuda fornecida pelo programa DECOR e acredita que «por causa do novo confinamento, como as crianças vão voltar para casa e deixar de almoçar na escola, os pedidos voltem a aumentar». A voluntária explica ao Nascer do SOL que, para além de comida, é também distribuída roupa e ocasionalmente produtos de higiene.
Rita (nome fictício) foi uma das pessoas que necessitou de pedir ajuda para conseguir sobreviver. A jovem de 28 anos vê-se nesta situação pela primeira vez. Até março, tanto ela como o marido tinham emprego. A pandemia fez com que uma família estável necessitasse de recorrer a terceiros para conseguir sobreviver. Rita tem dois filhos, um deles com um ano e outro com nove. No início, através da DECOR, conseguiu receber algumas fraldas e produtos de higiene para as crianças mas assume que agora «as pessoas já não dão tanto, por isso é mais comida» que tem recebido ultimamente. Para o filho mais velho, Rita chegou a receber material escolar e livros de fichas que não estão incluídos nos vouchers de manuais escolares atribuídos pelo Governo. Com as escolas encerradas, Rita tem mais uma refeição para dar ao filho e conta que já pediu «à Telma para ver se consegue arranjar mais qualquer coisa, nem que seja uns enlatados».
Cada vez mais portugueses se veem obrigados a pedir ajuda para ter o que comer e o que vestir. Os números conhecidos não correspondem totalmente à verdade, visto que há quem não peça por não se sentir à vontade. Com um novo confinamento é de esperar um aumento semelhante àquele que se deu em março, sendo por isso importante que, quem pode, contribua para ajudar aqueles que sozinhos não conseguem.
2021 será o ano em que a pobreza extrema mundial irá aumentar pela primeira vez no espaço de tempo de 22 anos. Se por um lado, a ONU prevê que 235 milhões de pessoas necessitem de ajuda humanitária, por outro o Banco Mundial alerta que o número de indivíduos a viver em pobreza extrema pode chegar aos 150 milhões. No relatório publicado em outubro do ano passado pode ler-se que «durante mais de duas décadas, a pobreza extrema estava a descer consistentemente. Agora, pela primeira vez, a luta para acabar com a pobreza sofreu o seu pior retrocesso». Além da Covid-19 como principal impulsionadora deste problema, aponta-se também para as alterações climáticas e para os conflitos presentes em várias partes do globo como fatores de risco.
Em Portugal, os dados são semelhantes. Contactada pelo Nascer do SOL, Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome (BA) avança que «entre abril e maio houve um pico de pedidos de ajuda», que começaram gradualmente a diminuir e voltaram a aumentar novamente no final do ano. Sobre quem procura ajuda, a presidente do BA explica que são «famílias que nunca tinham convivido com uma situação de pobreza» e que agora não sabem como lidar com a situação. Pessoas que sempre tiveram um emprego e maneira de sustentar a família, veem-se agora desamparados e em alguns casos envergonhados por terem de pedir ajuda. É esse o caso de milhares de trabalhadores do setor do turismo e da restauração por exemplo.
Os novos desempregados
Joana Aires e José Rodrigues trabalhavam num café na zona do LxFactory. Quando se instalou a pandemia e foi decretado o estado de emergência o casal entrou em layoff. Não foi preciso muito tempo para que o estabelecimento deixasse de ter dinheiro para lhes pagar e os despedisse. Os jovens, ambos na casa dos 20 anos, moram juntos e viram-se obrigados a pedir ajuda à mãe de José para que conseguissem garantir as suas necessidades. A busca por um novo emprego também não foi fácil. Joana continua à procura e a ter de viver com subsídio de desemprego. José conseguiu um posto de trabalho num call center passados três meses de busca.
É essa a situação em que cada vez mais portugueses vivem atualmente. De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística, em novembro do ano passado, a taxa de desemprego situava-se nos 7,2%. Se desde 2012 tinha vindo a descer, chegando em 2019 aos 6,4%, este ano a pandemia fez com que o que era observável há sete anos desse uma volta de 180 graus. O aumento do desemprego trouxe também um aumento da pobreza. Os números não escolhem setor, género ou idade. No entanto, de acordo com Isabel Jonet, os «novos pobres» são na sua maioria pessoas jovens que já tiveram um emprego e pertencentes à classe média.
Os novos apoios
Nuno Pacheco é padre em duas paróquias do distrito de Setúbal - Santo André e Alhos Vedros. Quando contactado pelo Nascer do SOl explicou que o número base de famílias ajudadas semanalmente pela paróquia em conjunto com o Banco Alimentar é de 48. Em Santo André contam ainda com a ajuda mensal do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC), 156 famílias, o que representa um universo de 500 pessoas ajudadas por mês. No entanto, em março o número de pedidos de ajuda evoluiu de tal maneira que o padre se viu obrigado a criar um outro programa de ajuda imediata. Por um lado, o protocolo de inscrição de famílias no programa da paróquia estava perto de atingir o limite; por outro era necessário recorrer a «burocracias» para as quais não havia tempo para pedir este tipo de apoio. Como solução, as paróquias criaram o programa de ajuda DECOR. «Muita gente perdeu o emprego em março e a partir daí. Alguns deles são pessoas de outras nacionalidades que nem sempre tinham tudo o que era necessário para se inscreverem na ajuda do BA. Por isso, criámos o projeto DECOR e desde março já ajudou mais de 500 famílias divididas entre estas duas paróquias», explicou o padre.
Telma é uma das pessoas que faz a distribuição da ajuda fornecida pelo programa DECOR e acredita que «por causa do novo confinamento, como as crianças vão voltar para casa e deixar de almoçar na escola, os pedidos voltem a aumentar». A voluntária explica ao Nascer do SOL que, para além de comida, é também distribuída roupa e ocasionalmente produtos de higiene.
Rita (nome fictício) foi uma das pessoas que necessitou de pedir ajuda para conseguir sobreviver. A jovem de 28 anos vê-se nesta situação pela primeira vez. Até março, tanto ela como o marido tinham emprego. A pandemia fez com que uma família estável necessitasse de recorrer a terceiros para conseguir sobreviver. Rita tem dois filhos, um deles com um ano e outro com nove. No início, através da DECOR, conseguiu receber algumas fraldas e produtos de higiene para as crianças mas assume que agora «as pessoas já não dão tanto, por isso é mais comida» que tem recebido ultimamente. Para o filho mais velho, Rita chegou a receber material escolar e livros de fichas que não estão incluídos nos vouchers de manuais escolares atribuídos pelo Governo. Com as escolas encerradas, Rita tem mais uma refeição para dar ao filho e conta que já pediu «à Telma para ver se consegue arranjar mais qualquer coisa, nem que seja uns enlatados».
Cada vez mais portugueses se veem obrigados a pedir ajuda para ter o que comer e o que vestir. Os números conhecidos não correspondem totalmente à verdade, visto que há quem não peça por não se sentir à vontade. Com um novo confinamento é de esperar um aumento semelhante àquele que se deu em março, sendo por isso importante que, quem pode, contribua para ajudar aqueles que sozinhos não conseguem.
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