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5.5.23

Entrar no 1.º ciclo aos 5 anos ou ficar no pré-escolar?

Inês Ferraz, opinião, in Público

A idade de entrada no 1.º ciclo deveria servir como uma reflexão para os pais, uma vez que são eles que decidem se aceitam a proposta dos educadores de infância de adiamento de matrícula da criança.



Todos os anos, por esta altura, os pais deparam-se com esta ambiguidade: fazer com que o seu filho ingresse no 1.º ciclo do ensino básico apesar de ainda ter 5 anos ou aceitar a proposta dos educadores de infância e deixá-lo no pré-escolar mais um ano?


De acordo com a minha prática profissional e com a literatura existente acerca do desenvolvimento e da aprendizagem, a maioria das crianças que entra no 1.º ciclo do ensino básico com 5 anos ainda não está preparada para o desafio que irá enfrentar. Contudo, como é óbvio cada criança é única, por isso é fundamental analisarmos caso a caso e assegurar que a criança tem “maturidade” suficiente.

Em Portugal existe obrigatoriedade da matrícula no 1.º ano de escolaridade para todas as crianças que nascem até dia 16 de setembro do ano civil em que completam 6 anos de idade (Diário da República, 2.ª série - N.º 75 - 17 de abril de 2017, através do Despacho normativo n.º 1-B/2017). As crianças que nasçam entre 16 de setembro e 31 de dezembro são consideradas “condicionais” e a sua admissão fica sujeita à existência de vagas e à vontade dos pais/encarregados de educação.

A entrada no ensino obrigatório em alguns países da Europa pode ser adiada quando se justifique que uma criança não está “preparada” para ingressar no 1.º ano de escolaridade. Os órgãos envolvidos na decisão de adiamento da entrada na escolaridade obrigatória variam de país para país. Há países em que a lei delega nos órgãos de supervisão internos da escola esta decisão, outros países exigem um atestado de “maturidade” que deve abranger as dimensões: físicas, mentais, psicológicas e sociais. Em Portugal, as crianças consideradas “condicionais” podem ser admitidas no 1.º ciclo se os pais apresentarem um pedido não sendo requerido qualquer documento que comprove que a criança está preparada.

Fiz uma análise da idade legal de entrada no 1.º ciclo do ensino básico em diversos países da Europa e constatei que nos países que apresentam melhores resultados são aqueles em que as crianças ingressam na escola aos 7 anos, nomeadamente Finlândia, Lituânia, Letónia, Estónia, Bulgária, Dinamarca e Suécia.

Na minha opinião, a idade de entrada no 1.º ciclo deveria servir como uma reflexão para os pais, uma vez que de acordo com a legislação portuguesa são eles que decidem se aceitam a proposta dos educadores de infância de adiamento de matrícula de uma criança.

Uma questão simples que os professores colocam e que denuncia uma certa “imaturidade cognitiva” é por exemplo “Num aquário estão dez peixes, seis são vermelhos, quantos são azuis?” Por norma, as crianças mais novas apresentam muita dificuldade em resolver esta situação problemática, não porque não sabem fazer o cálculo subjacente, mas porque não conseguem atender à parte e ao todo em simultâneo. Estas crianças dão respostas que denunciam um desenvolvimento cognitivo “incompleto” em certas áreas de conhecimento.

Aos pais queria deixar um apelo: quando um educador sugere o adiamento de matrícula de um aluno, já refletiu e ponderou sobre as vantagens e as desvantagens desta decisão, por isso sugiro que oiçam e escolham o melhor para os vossos filhos, pensando a longo prazo, já que depois de entrar no 1.º ano não há como voltar atrás.

Para concluir, quero deixar uma reflexão: Será que as dificuldades experimentadas por muitas crianças não resultam de uma entrada “precoce” no 1.º ciclo do ensino básico? Para quê a pressa?

A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

2.3.21

Relações que alimentam a vida

por Catarina Silva, in Notícias Magazine

Alfredo ainda tem ciúmes de Ermelinda, aos 97 anos, depois de quase oito décadas de casamento. Nuno e Carlos não querem largar o médico que lhes mudou a vida, mesmo que Rui Vaz se reforme. O padre Valério é família para Ana, que viu a fé ser baleada. São uniões que acumulam dias infinitos no calendário, que não contam o fim, e que são o oxigénio que corre nas veias.

Os ouvidos não são os de outros tempos, mas ainda permitem a Alfredo Milhazes abrir o peito para cantar, com a força de uma voz grave, a entoar pelos corredores do lar da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim, pelo amor da vida inteira. “Ermelinda, meu amor. Vem que o meu peito palpita só por ti.” É a serenata que lhe cantou em miúdos, ainda a sabe de cor. Foi assim que conquistou a sua morena de olhos claros. Canta-a hoje, já de rugas cravadas na cara e cabelos brancos penteados para o lado, como há oito décadas. Nas contas da vida, um e outro somam 97 anos. Feitos a 29 de janeiro, os dois.

“Nascemos no mesmo dia e fazemos a mesma idade. As festas eram grandes, com pouca coisa, mas com a família toda. Não era preciso muito para a gente ser feliz.” É Ermelinda Milhazes quem lembra, sentada de manta rosa sobre as pernas, a combinar com o laçarote grande que traz ao pescoço. De mão agarrada a Alfredo. A coincidência da vida não seria o que os haveria de juntar. Casaram contra tudo e contra todos, numa juventude inquieta em que o dinheiro não venceu, afinal, o amor. Com os cabelos branquinhos, lisos, a bater nos ombros e uma bandolete preta, a matriarca arregala os olhos para contar, com a voz marcada por rouquidão doce, que ainda não tinham 14 anos quando se apaixonaram. Ela era de boas famílias, ele de uma família falida, filho de pai divorciado, acabada de se mudar para a rua onde Ermelinda vivia desde sempre, na Póvoa. “Foi aí que nos conhecemos, foi amor à primeira vista”, conta ela a rir que nem catraia. “Nunca mais nos largamos. Os meus pais não achavam graça. Toda a gente era contra. Cheguei a levar bofetadas. Mas gostava dele. Era meigo, simpático, com um cabelo bonito todo ondulado.”

Alfredo chama-lhe pequenina, ainda. Diz que tem que a procurar para a encontrar na cama. Sentado na cadeira de rodas, a idade não lhe põe travão no sentido de humor. “A madame que está aqui é que andava atrás de mim”, atira em brincadeira. Casaram com 19 anos, eram menores à época, já depois do primeiro filho nascer. Nem a vergonha de ter um filho nos braços sem a aliança no dedo quebrava os pais. Acabaria por acontecer. “O meu pai acreditava que mais valia criar o filho solteira do que ser infeliz. Disse-lhe que gostava mesmo dele. E ele lá deu o consentimento”, recorda a “pequenina”. 26 de abril de 1943, plena Guerra Mundial. As alianças eram emprestadas, não tinham dinheiro para as comprar nem ninguém lhas ofereceu. “Fui com um fato bordeaux clarinho, que a minha madrinha de casamento me fez. Era saia e casaco. Ficava-me bem. E um véu.” A memória, quase 78 anos depois, é tão clara que chega a surpreender.

Os quatro meses que Alfredo passou a fazer a instrução na tropa, logo depois de casarem, antes de o padrinho o livrar do serviço militar, bateram o recorde de tempo que passaram separados. Um tempo carregado de saudades. Nas empreitadas da vida, criaram três filhos. Alberto, Manuel e Dores. Tiveram cinco, só que dois faleceram em bebés. Apenas uma rapariga, a mais nova, que Alfredo só confiou ser menina depois de ver com os próprios olhos, numa alegria que ainda hoje o consome ao vê-la, “estudada”, farmacêutica, uma raridade naqueles tempos, sobretudo para uma mulher. Ele, vaidoso, preferia dar-lhe um diploma, “que ela fosse doutora”, a uma casa.

Mas a pele engelhada e os olhos emocionados de Ermelinda, que era o pulso firme na gestão da casa a contrastar com um Alfredo dado às meiguices e de espírito aberto, contam muito de uma história que atravessou guerras, ditadura, pandemia. Desdobra-se em relatos. “Durante a Segunda Guerra e a ditadura faltava comida. Tínhamos que ir com senhas para a porta da Legião Portuguesa buscar açúcar, arroz, pão. Era tudo racionado.” Ainda agora Ermelinda poupa os fósforos. Ele ganhava pouco e ela “fazia malhas para fora para ajudar”. Alfredo trabalhava na indústria têxtil antes de se dedicar às antiguidades e acabar a negociar por contra própria para a vida dar um salto e sorrir a um amor que resistiu a tanto, e que até sobreviveu aos ciúmes dele. Ainda é ciumento. Mas estica o tronco para negar convicto, alto e bom som: “Depois de velho vou ter ciúmes?”.

Diz ter lutado “até à última” pela família, ter feito uma “fortuna”, todos os filhos estudaram para lá da 4.ª classe. E levou Ermelinda pela Europa fora. Canárias, Londres, Ibiza, Benidorm, Açores, Palma de Maiorca. O passaporte da vida está carregado. Ela abre-lhe o sorriso. “Isso foi depois, quando tínhamos dinheiro.” Eram os novos-ricos e nem isso os fez largar a terra da vida toda, a Póvoa de Varzim. Já contam tantas bodas, de prata, ouro, diamante, que é de perder a conta. Foram sempre à igreja. E depois a festa estendia-se, quase como quando eram pequenos e ela rodopiava pelas danças de roda na rua, à volta de fogueiras, com ele a vigiar.

Só largaram a casa dos dois em 2020, em plena pandemia, para irem morar no lar onde adoram estar. No final do ano foram apanhados pela covid, no meio de um surto. Ganharam aos confinamentos forçados e ao vírus que não foi capaz de lhes roubar o tempo que resta. Já foram vacinados, juntos, como sempre. São unha com carne. “Nós vivemos um para o outro. Não passamos um sem o outro. Primeiro ele, depois eu. Pode haver muitos defeitos, mas o amor suporta tudo”, frisa ela. Alfredo ouve-a, vira a cara para a olhar, estende a mão à procura da sua Ermelinda: “Foi uma grande companheira, uma grande mãe. Só tem um defeito, que é ser pequenina. Com ela é até ao fim da vida. Daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

É hora de almoço no lar, para felicidade de um guloso que aos 97 ainda preocupa Ermelinda. “Pois é, rapariga, vamos comer?”, pergunta ele. “Vamos, senhor doutor.”

O médico que mudou a vida dos gémeos

No meio do felizes para sempre, há relações que se cimentam em cima da confiança e que são o fio que nos agarra à vida. Onde nem sempre entram alianças, mas onde também cabe amor. O neurocirurgião Rui Vaz está sentado num pequeno consultório, no Porto, a falar para o computador. Ou melhor, a falar com os dois gémeos que lhe agradecem a vida. Já lá iremos. O ecrã divide-se em dois. “Como é que vai isso em Nova Iorque, Nuno? Está bom tempo aí?” Do outro lado do Mundo, Nuno Moreira é rápido: “Está a nevar”. É consultor na McKinsey, prevê ficar nos Estados Unidos pelo menos até 2022. O irmão gémeo, Carlos Moreira, é diretor na EDP, está em Lisboa. Distinguem-se pela barba e cabelo, Carlos tem-nos compridos. “A maior piada é que estes miúdos tiveram uma grande carreira profissional.”

Rui Vaz ainda os trata por miúdos, como quando os conheceu tinham eles cinco anos. Já têm 30. Piada, diz ele, porque os gémeos nasceram com uma malformação congénita, na articulação entre a cabeça e a coluna. Carlos nunca teve sintomas, Nuno sim. Esteve ligado a um ventilador não invasivo e a uma máquina para monitorizar a respiração. Tinha apneias, deixava de respirar. Dores de cabeça agoniantes. Vómito em jato. Alguns médicos contaram-lhe os dias de vida. A mãe, Gabriela Magalhães, ouviu que o filho ia morrer. E virou o Mundo do avesso. Londres, Marselha, Nova Iorque. Correu médicos de topo. Operar trazia a reboque altos riscos e deixava mazelas para sempre na mobilidade. Descobriram o “professor” Rui, como os gémeos lhe chamam, há 25 anos, ao pé de casa. “Foi a tábua de salvação da minha família. É uma relação única, deu-lhes alta aos 18 anos, mas foi um marco tão importante que continuamos a recorrer a ele”, sublinha a mãe, que, segundo o professor, “estudou tudo o que havia para estudar, sabia mais da doença do que muitos médicos. É uma patologia muito rara”.

Gabriela sempre teve o telemóvel pessoal do neurocirurgião. Perderam meses demorados em discussões. A mãe ligava-lhe sempre que tinha que recorrer à urgência. Os dois, lado a lado, decidiram não operar Nuno. Combinaram, como diz Gabriela. Era mais fácil atirar a decisão para o colo da mãe, o médico não o fez. E a ligação resistiu ao tempo e à lonjura. “Há cinco anos tive crises de enxaquecas e o professor foi a primeira pessoa a quem recorri. Ainda recentemente comecei a praticar surf e partilhámos isso com ele. Ficou logo preocupado e mandou-me fazer exames. Qualquer coisa que aconteça, o professor é a primeira pessoa com quem falamos. Acima de tudo, porque há uma relação de carinho”, assinala Nuno, que ajustou o fuso horário só para abraçar virtualmente o médico que lhe mudou o rumo da vida. Carlos também se lembra, e bem. “Faz parte da nossa vida há tanto tempo. Esteve sempre disponível, qualquer que fosse o momento. Sempre nos fez sentir muito normais. E sei que ele vai arranjar sempre tempo para nós.”Nuno Moreira está em Nova Iorque e Carlos Moreira em Lisboa. São gémeos. O neurocirurgião Rui Vaz conheceu-os tinham eles 5 anos, devido a uma malformação congénita rara. Ainda hoje, aos 30 anos e mesmo longe, mantêm o contacto

Por baixo dos óculos, os olhos azuis do neurocirurgião com décadas de experiência brilham a olhar para o ecrã. A ouvir os gémeos. Nas cambalhotas da vida, eles mandam-lhe mensagens quando o veem na televisão. E o médico a eles, pelas conquistas, como quando os viu na capa de um jornal, num “orgulho” que não lhe cabe nas palavras. “Eles também são um bocadinho meus.” Na verdade, a idade camuflou muita coisa, por obra da mãe e do especialista, mas Nuno sabe que “o professor tinha a postura oposta a muitos médicos”. “Respondia às dúvidas, chegou a partilhar autênticos calhamaços com a minha mãe. Há 25 anos, encontrar um médico assim foi libertador. Ele é gigante. Há uma relação de família.” Uma relação que se cumpre religiosamente todos os anos com uma visita, um ritual pelo Natal, mesmo os dois estando longe. Oferecem-lhe sempre uma imagem de família, da Vista Alegre. Rui Vaz já quase não tem espaço na prateleira.

E, aqui, não há prazo. A quilómetros de distância, os gémeos avisam que nem depois da reforma o médico se há de livrar deles. Rui Vaz, que já vai nos 67, sorri, também ele foi crescendo com os “miúdos”. E põe os olhos numa mãe embargada, de ritmo acelerado, ali mesmo ao seu lado, sem ecrãs pelo meio. Ela, de cabelos loiros, estica o dedo indicador na direção dele. “A nossa energia motora foi o professor. Tratou-nos como seres humanos. Viu para além da doença, viu a dor, o terrível sentimento da perda. Foi capaz de sair do seu ego de médico e nunca se impôs. Deu-nos a mão, caminhou ao nosso lado. Os meus filhos são o que são porque têm um alicerce chamado Rui Vaz. Devo-lhe tudo.” Se a palavra confiança falasse, talvez fosse isto que diria.

Reencontrar o caminho para a fé

No dicionário, é a “fé que se deposita em alguém”, “esperança firme”, “familiaridade”. Uma fé que Ana Costa continua a ter, graças ao padre jesuíta António Valério, mesmo depois de ser atropelada pela vida, numa luta ingrata contra um neuroblastoma, um cancro agressivo e invasivo, do pequeno Tomás, de sete anos. Descobriu dias depois de a filha mais nova nascer, em setembro de 2019. É o auge da felicidade a bater de frente com o Mundo a desmoronar. São 6.45 horas, domingo. O sol ainda não nasceu. Ana está a enfiar tudo na mala do carro, à porta de casa, em Braga. Vai arrancar para Barcelona com o filho, tentar mais um tratamento ao “bicharoco”. Não sabe quando regressa. O padre Valério está lá. Para abençoar a viagem e abraçar, com a distância pelo meio, uma Ana que não se rende à desesperança. Ela já conta 36 anos. Tinha 17 quando se conheceram, ainda ele não era padre, estava em formação.

“Eu e o Valério fazíamos parte do mesmo coro da Basílica dos Congregados. Como estava prestes a entrar para a faculdade, ele convidou-me para ir para o Centro Académico de Braga”, um centro pastoral universitário. Foi animadora lá. Antes de ser guia espiritual, orientador, o padre Valério tornou-se amigo, num grupo que vai para lá da oração e se faz de fins de semana cheios. “Havia uma relação de amizade já antes, em que era indiferente ser ou não ser padre. Era o António Valério com amigos com quem partilha a vida”, explica o clérigo.

Na verdade, a fé sempre andou de mãos dadas com Ana. A família era muito católica, frequentou colégios religiosos. A vida empurrou-a para a “espiritualidade inaciana”, numa “igreja mais próxima, que não é tão desfasada dos desafios atuais”. “É por isso que os jovens se ligam tanto aos jesuítas.” Mesmo com os tempos que Valério passou fora, nomeadamente em Roma, nunca desligaram um do outro. Ela esteve no momento em que ele foi ordenado padre, em 2009, conheceu-lhe a família, os pais, os irmãos. Ele acompanhou-a na preparação para o casamento, batizou-lhe o filho.

Na vida que foram partilhando, foi a doença de Tomás que adensou uma relação na hora de “questionar tudo, as crenças, as fragilidades, as forças”. Num sentimento devastador, no medo que se agiganta, na angústia, nos porquês. Ana segura o fôlego para falar. Pediu provas a Deus de que ele estava ali. Foi quando bateu no fundo que Valério a segurou, a ela e a Ricardo, o marido. Chamou-os para uma conversa, era fim de semana. “Tivemos a felicidade de o padre Valério ser um amigo e isso ajudou-nos muito. A perceber que Deus está nesta luta connosco, que a minha missão é fazer caminho com o meu filho. Na vida, há turning points. E num caso destes é algo muito visceral, percorre-nos em todas as dimensões”, relata Ana, que aguenta a emoção debaixo da capa de supermãe e dos óculos embaciados. “O Valério foi uma luz no meio do Inferno.”

Quando a fé foi abalada pelo cancro do filho, foi o padre jesuíta António Valério que ajudou Ana Costa. Conhece-a desde os 17 anos. Ele é seu guia espiritual e, mais do que isso, um amigo que se faz presente em todos os momentos

Ele, num sorriso meigo rodeado de barba, diz sentir-se “pequeno” ao vê-la remar contra a doença “injusta”. Sente-lhes o sofrimento. “São família. Ela sabe que basta dar uma ordem e eu estou presente.” O padre ajudou a divulgar a angariação de fundos para Tomás ser tratado por um dos maiores especialistas mundiais em neuroblastomas, dinamiza uma oração todas as quartas-feiras entre amigos. Ana confidencia-lhe a vida, porque Valério se fez próximo, não se fez um padre de púlpito, fechado na igreja, de reverência. A covid impede-os de estar, verdadeiramente estar. Colmatam com zooms, mensagens, telefonemas.

Até uma supermulher não está estanque e forte a todo o momento. Longe disso. Mas é “determinada, não desiste, tem ideias claras, não há coisas grandes ou pequenas para ela”. É Valério quem o afirma, o padre que “tem o coração no lugar certo, que abraça o pior lado de cada um sem julgamentos”. O pequeno Tomás interrompe Ana, entre brincadeiras. Trata Valério por tu. É família. “A relação com o Valério é para o resto da vida.”

Já dizia Saint Exupéry que nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Aquilo ou aqueles. Seja marido ou mulher, médico ou doente, padre ou fiel. Em uniões que nem as enfermidades quebram, que acumulam décadas no calendário, e que dão oxigénio à vida.

8.2.21

Pare, escute e olhe: uma pandemia pode esconder outra

Paulo Jorge Pereira, in Público on-line

Como será o come-e-cala, o insulto a toda a hora, a submissão para que os filhos não sofram, dormir sem dormir, a asfixia psicológica, a angústia, o medo, a repugnância, o asco, a coragem de resistir uma e muitas vezes?

Haverá sempre quem chame exagero à classificação de terrorismo em casa para designar parte do que acontece em casos de violência doméstica. Eu não. A galeria de horrores a que muitas mulheres são submetidas, muitas delas durante anos – e refiro-me a mulheres porque são as vítimas na esmagadora maioria dos casos, em Portugal como por esse mundo fora –, é qualquer coisa de inimaginável para muitos de nós que nem damos por isso, tão ocupados estamos com as questões que nos dizem respeito. E aqui está outro erro: se há algo que, mais do que tudo, nos diz respeito, é precisamente essa situação de desamparo, abandono, isolamento, marginalização, esquecimento e desprezo em que vive quem sofre as consequências da violência doméstica.

Se isso era assim quando a vida decorria sob a normal anormalidade, pensem bem como será agora. Como será passar dias, semanas, meses, não tarda um ano, em que as liberdades estão reféns de um inimigo tão invisível quanto devastador e em que até os livros, as livrarias, a cultura, a essência de todos, sofrem a tortura dos ignorantes que cortam a eito se fingem decidir por nós? Como será sofrer em silêncio, passar o tempo amordaçada, ameaçada, sob o peso esmagador da contradição que é querer gritar para tudo contar e mal se poder mover os lábios a expressar uma única ideia? Como será o come-e-cala, o insulto a toda a hora, a submissão para que os filhos não sofram, dormir sem dormir, a asfixia psicológica, a angústia, o medo, a repugnância, o asco, a coragem de resistir uma e muitas vezes? Tantas que, de repente, tudo se perde e dizem que foi por amor quando é de ódio, escrevem que foi a paixão quando é crueldade, mostram que foi irracional quando é metódico?

Por tudo isto, porque a pandemia em que vivemos pode, afinal, esconder outra pandemia, a da violência doméstica, é importante recuperar uma frase emblemática que nos avisava para o perigo de cruzar a linha do comboio: “pare, escute e olhe”. É em grande parte disso que se trata, de exigirmos mais a cada um de nós e aos legisladores. De sermos uma sociedade adulta e não entregue a vendedores de banha da cobra que abusam da palavra vergonha sem verem no espelho a vergonhosa imagem que este lhes devolve todos os dias. De não nos limitarmos à indiferença e ao comodismo de todos os dias, mas de mostrarmos que ninguém nos fica invisível. De acabar com um sistema em que as vítimas não conseguem ter atendimento e apoio imediato e, tantas vezes, são olhadas como suspeitas. Ou então com o inqualificável “tenho pena, mas nada posso fazer”. De pôr fim à impunidade nos (poucos) casos que chegam a tribunal e (muitos) são, antes disso, arquivados sem provas. Ou, então, terminam com a mentira da pena suspensa. De não resvalar para o extremismo do bota-abaixo simplista e populista do agravamento de penas, mas também de não escolher a reintegração como mero recurso mecânico e sim num quadro de escrupuloso respeito por programas que, de facto, regenerem os agressores e não os devolvam à sociedade sequiosos de vingança.

Não sou um especialista e, por isso, não escrevo nessa qualidade. Escrevo num esforço de cidadania como contributo para que a realidade mude de forma drástica; escrevo, porque me envergonha que homens como eu sejam capazes de actos atrozes contra mulheres, crianças e idosos, que muitas vezes só ficamos a conhecer demasiado tarde, quando as histórias já se transformaram em tragédias e são relatadas como tal pelos meios de comunicação; escrevo, porque, também como jornalista, considero meu dever agir para que a realidade mude.

Quando escrevi Murro no Estômago, livro que conta histórias de vítimas/sobreviventes de violência doméstica em discurso directo e experiências de profissionais que combatem todos os dias o flagelo em diferentes papéis, disse às mulheres que confiaram em mim e contaram as suas histórias de sobrevivência: “Este livro é vosso, eu sou apenas um porta-voz. Do vosso sofrimento, das vossas lágrimas, da vossa coragem, da vossa luta, da vossa vontade de vencer, da vossa esperança.”

Neste confinamento que tudo esconde, condena a ternura, mata o amor, nos aprisiona até os livros e ameaça desumanizar-nos, saibamos ser solidários e seguir a epígrafe do Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”






28.1.21

A pandemia está a mostrar-nos quais são as amizades que vale a pena manter

Lisa Bonos/The Washington Post

“A amizade é uma filigrana de encontros”, escreveu o sociólogo italiano Francesco Alberoni no seu ensaio A Amizade. E quando os encontros são adiados ou impossibilitados por causa de uma pandemia?

Antes da pandemia, a família de Sherilyn Carlton estava tão habituada a que os seus amigos aparecessem em casa que o seu filho mais novo perguntava: “Mamã, quem vem cá hoje?

Só por isso é de esperar que Sherilyn Carlton, de 47 anos e a trabalhar em coaching empresarial, em Battle Ground, no estado norte-americano de Washington, seja o tipo de pessoa que esteja a passar um mau bocado com o distanciamento social. Na era pré-covid, Sherilyn voava de uma corrida com um amigo para um almoço com outro, sendo que ainda tinha combinado um café para o início da tarde com um terceiro. Depois, levava os filhos e os colegas de e para o treino de basquetebol e, à noite, ainda era capaz de receber um grupo de escritores em sua casa.

De certa forma, manter um círculo de contactos mais restrito durante a pandemia tem sido difícil, admite a mulher. Quando o confinamento começou, em Março do ano passado, ela passou por uma espécie de ressaca social. Mas, depois, a vida mais calma acabou por permitir que se restabelecesse. “Fiz uma desintoxicação de todas as ligações sociais que mantinha”, diz agora. “Ansiava por ter tempo só para mim, e estou muito mais consciente de quando preciso dele.”

Para além dos seus familiares directos, Sherilyn vê regularmente dois amigos – para fazer algum exercício ao ar livre e para uns encontros para café – e, conclui, isso tem sido suficiente. “Há um grupo de famílias que costumava reunir-se regularmente... Tenho saudades disso”, diz. “Mas não de muito mais do que isso.”

Por um lado, a mulher sente-se abençoada por ter tantos amigos. Mas, assim que a sua família for vacinada e a vida começar a acelerar novamente, Sherilyn pretende continuar a concentrar-se principalmente nos seus melhores amigos, em vez de se desmultiplicar para ver toda a gente e mais alguma. Ou seja, a sua cápsula social pode sobreviver à pandemia.

Restringir amizades

E Sherilyn não é a única pessoa que encontra consolo numa vida social reduzida. Tal como o teletrabalho revelou que não é necessário deslocar-se para um escritório cinco dias por semana para se ser eficiente, alguns que antes mantinham dezenas de amizades estão a aperceber-se de que se sentem mais realizados ao se manterem em contacto apenas com quem lhes é mais próximo e querido. É que, após quase um ano a viver um prolongado estado de emergência, torna-se claro a quem se pode telefonar para um passeio ou para uma conversa. E, para muitos, esses círculos são mais apertados do que nunca.

Este tempo não deixa muito espaço para aqueles amigos ou conhecidos casuais que se encontrava para beber um copo ou para almoçar de seis em seis meses. As redes sociais enganam os seus utilizadores, fazendo-os pensar que têm centenas ou milhares de “amigos”, mas a maioria não entra no grupo de gente em quem se confia. Trata-se apenas de um quadrado no Instagram, uma actualização de Facebook que se poderá “gostar” de alguém que se conheceu um dia. Juntamente com as muitas lições da era do coronavírus, há uma que vem com a idade e as obrigações crescentes: não temos de pôr toda a gente a par da nossa vida. Por isso, algumas amizades não vão sobreviver – e não há problema.

Shasta Nelson, uma especialista no tema que escreveu vários livros sobre como manter relações saudáveis, concluiu que as pessoas que dão prioridade a menos amigos, e que se envolvem mais profundamente com eles, sentem-se mais ligadas. “A pandemia deu-nos esta permissão colectiva para falar sobre as coisas difíceis que se passam nas nossas vidas sem vergonha”, diz a autora.

No entanto, Shasta Nelson ressalva que aqueles com amizades que não fizeram a transição para as chamadas telefónicas ou para as videochamadas “são as pessoas que estão extremamente sozinhas neste momento”.

Tam Sackman, uma assistente de 26 anos numa empresa de comunicações em Nova Iorque, aproximou-se dos seus melhores amigos durante o último ano – e teve mesmo aquela rara alegria de apresentar amigos de diferentes cantos da sua vida uns aos outros. Durante o Verão, Tam escolheu um pequeno grupo, todos fizeram testes à covid-19 e isolaram-se numa casa na floresta da Pensilvânia durante dois meses. Dividiram as contas e as tarefas do espaço. Todas as noites, viam um filme ou alinhavam num jogo de tabuleiro.

Em busca da autenticidade

Apesar de cada um dos amigos de Tam ter começado a experiência como desconhecido, acreditaram nela quando disse que todos se iriam dar bem. “Eles deram um grande passo ao confiarem em mim”, declara, acrescentando que tiveram uma “experiência realmente especial”.

De facto, foi um momento tão maravilhoso que Tam Sackman acrescenta que já não tem espaço para “interacções inautênticas”, ou seja, ligações que parecem mais como o trabalho em rede. Na sua maioria, não tem paciência para “a conversa fiada” com conhecidos ou amigos de ocasião. O ano passado fê-la sentir-se afortunada por ter “uma abundância de pessoas” com quem pode falar “sobre temas difíceis ou mais profundos”. Agora, já não quer outra coisa.

Supriya Gujral, de 48 anos, levou essa busca pela profundidade um passo mais longe. Durante a pandemia, a executiva tecnológica em Silicon Valley sentou-se com o marido para tentarem perceber em quem poderiam confiar se ambos adoecessem. Perguntaram-se a si próprios: “A quem pedimos para nos ligar a verificar se estamos bem? E se adoecermos, a quem pedimos para gerir as nossas coisas ou para tomar conta do nosso filho?”

Depois de pensarem, acabaram por se concentrar apenas na família mais próxima, num punhado de amigos e na babysitter do filho. O ano passado mostrou-lhe que “o tempo é muito limitado”, e Supriya ​quer que o tempo que lhe resta “seja significativo”. “À medida que sairmos disto, as coisas vão ser diferentes”, prevê a executiva. “Só não sabemos quão diferentes.”

Supriya provou o que o seu futuro lhe reserva quando ela e o seu marido planearam uma pequena reunião ao ar livre para celebrar o Diwali, uma festa religiosa hindu, que se assinalou a 14 de Novembro. Normalmente recebem cerca de 70 convidados; este ano, reduziram a lista para dez.

“Por alguma razão, tudo foi muito mais significativo”, diz, assumindo que tal como aconteceu consigo, também outros estão a pensar sobre as suas prioridades. Quando tudo isto terminar, diz que não ficará ofendida se “receber metade dos convites que costumava receber”.

Uma vez decidido a manter um círculo mais pequeno, como estabelecer esses limites? Supriya planeia ser mais transparente com os convites que não pode aceitar, dizendo a amigos ou conhecidos que um evento iria comprometer o tempo da família.

Quando uma das amigas de Sherilyn lhe perguntou quando celebrariam o seu aniversário, a coach passou um dia inteiro a pensar em como responder. “Eu queria ser honesta e autêntica e não ferir os seus sentimentos”, confessa. Acabou por dizer à amiga que já se sentia “celebrada o suficiente” para uma eremita do coronavírus. Depois disso, Sherilyn já voltou a ver a amiga e percebeu que a sua recusa não tinha provocado nenhum dano à amizade que as une.

Shasta Nelson prevê que algumas pessoas nunca mais regressarão aos níveis prepandémicos de compras ou de festas. “Não podemos dizer sim a tudo e já não queremos dizer sim a tudo.” Mas, para isso e por isso, “teremos de ser mais atenciosos”.