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5.7.23

“Vais ter de levar comigo, se acontecerem algumas coisas menos agradáveis para ti, poderei ter sido eu”: a ameaça contra Joel Neto

Rui Gustavo, in Expresso

Mensagem foi enviada pelo chefe de gabinete da secretaria Regional da Educação dos Açores e levou à apresentação de uma queixa-crime por ameaça. Na origem de tudo está o livro “ Jénifer, Ou A Princesa da França”

“Ah e só mais uma coisa: se acontecerem algumas coisas menos agradáveis para ti, poderei ter sido eu”: foi esta a mensagem enviada pelo Messenger do Facebook que levou o escritor Joel Neto a apresentar uma queixa por ameaça contra António Bulcão, chefe de Gabinete da Secretaria Regional da Educação dos Açores.

“A referida mensagem faz-me recear pela minha segurança, bem como pela segurança da minha mulher, Marta Cruz Neto, e do meu filho, Artur Cruz Neto, de apenas sete meses e meio, e cujos nomes, aliás, foram textualmente utilizados no decurso da referida série de mensagens”, denuncia o escritor na queixa a que o Expresso teve acesso. “Tanto quanto sei, (…) António Bulcão é (ou foi) caçador, pelo que suponho que, como tantos caçadores e ex-caçadores, disponha de armas de fogo em casa”, descreve o escritor.

Segundo Joel Neto, o envio de mensagens “hostis” e “insultuosas” terá começado em fevereiro, depois da publicação do livro “Jénifer, Ou A Princesa da França”, em que a pobreza endémica da região é denunciada. A ameaça surgiu depois de a RTP ter exibido uma reportagem baseada no livro. Primeiro, Bulcão terá dito: “Vais ter de levar comigo. Tenho pena.” E depois concretizou a alegada ameaça.

“Caso eu tivesse de arriscar uma avaliação diria tratar-se de uma pessoa que não se encontra emocionalmente bem”, diz o queixoso, para quem isso é atestado pelo “facto de a ameaça constante nesta denúncia ter sido enviada por escrito, circunstância tão surpreendente num advogado de profissão”. Neto fez “printscreens” das mensagens que anexou à queixa.

“Evidentemente, e tendo em conta que as palavras escolhidas não são suficientemente substantivas para esclarecer as “coisas menos agradáveis” que me possam acontecer, não se pode excluir a possibilidade de António Bulcão estar a referir-se, antes, ao uso da máquina do Estado, a que tem acesso enquanto membro de primeira linha da equipa que acompanha o Governo Regional, para me atingir”, constata o escritor na queixa.

O Expresso contactou Joel Neto que não quis prestar declarações, mas confirmou a apresentação da queixa no MP dos Açores. A assessoria da Secretaria Regional da Educação informou que António Bulcão “não” pretende reagir à queixa.

Bulcão foi professor de Neto no ensino secundário e os dois tinham uma relação “formal” de amizade que terá começado quando o jornalista e escritor decidiu regressar aos Açores para aí viver. A amizade arrefeceu com a publicação do livro.

“A minha queixa também tem a motivação secundária de defender o exercício da opinião livre nos Açores, por parte de jornalistas ou de cidadãos mais ou menos anónimos. É difícil aceitar que o Governo dos Açores seja aquele em que se pode recorrer a tais métodos de coação.”

4.11.20

PSP fez 600 acções de sensiblização ao bullying e cyberbullying nas escolas

in Público on-line

A iniciativa foi dirigida a alunos do 1º ao 3º ciclo do ensino básico e ainda do ensino secundário. Objectivo é alertar pais, professores e auxiliares para estarem atentos a este fenómeno.

A Polícia de Segurança Pública (PSP) realizou entre os dias 19 e 30 de Outubro 600 acções de sensibilização no âmbito do programa Escola Segura – Bullying e Cyberbullying, envolvendo 14.319 alunos de estabelecimentos de ensino de todo o país.

Em comunicado, a PSP adianta que a acção envolveu 396 polícias que realizaram 600 acções de sensibilização, envolvendo 14.319 alunos e 97 professores e assistentes operacionais de 349 estabelecimentos de ensino, realizando ainda 582 contactos individuais de prevenção criminal.

Entre 19 e 30 de Outubro, a PSP desenvolveu uma operação na sua área de responsabilidade em Portugal continental e nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, dedicada à prevenção e detecção de situações de bullying e cyberbullying, através da realização de acções de sensibilização direccionadas para a comunidade escolar do 1º, 2º e 3º ciclos do ensino básico e do ensino secundário.

Estas acções visaram sensibilizar alunos, pais, professores e assistentes operacionais para este tipo de violência, bem como consciencializar e capacitar este público para detectar sinais de alerta e apoiar e encaminhar vítimas e agressores.

A PSP esteve também presente em duas aulas televisivas do projecto #estudoemcasa (transmitidas em 19 de Outubro) e, no dia 20 de Outubro, marcou presença divulgando o tema e conselhos de segurança em noticiários dos canais televisivos, rádios e redes sociais oficiais da polícia.

“Estas acções complementam o esforço de sensibilização da PSP para a prevenção do bullying e do cyberbullying nos sete anos lectivos anteriores onde foram realizadas 18.657 acções de sensibilização grupais de prevenção do bullying e cyberbullying que contaram com 426.644 alunos, professores, assistentes operacionais e pais sensibilizados”, refere a PSP.

Na nota, a PSP diz ainda que vai estar “disponível ao longo de todo o ano lectivo para continuar a realizar acções de sensibilização sobre esta temática, adaptadas às especificidades da situação actual de combate à pandemia da doença covid-19, podendo para o efeito ser contactadas localmente as Equipas do Programa Escola Segura ou ser solicitado o seu agendamento através do email escolasegura@psp.pt”, é ainda referido.

16.9.20

Mais de 60% dos jovens foram vítimas de cyberbullying na pandemia. Agressores indiferentes

Natália Faria, in Público on-line

Estudo “Cyberbullying em Portugal durante a pandemia da covid-19” mostra que, entre os agressores, quase um terço sentiu-se indiferente ou mesmo alegre face aos danos provocados. É preciso trabalhar mais a empatia e a tolerância, nas escolas e em casa, alerta investigadora.

Insultos, partilha de fotos íntimas, incitações ao suicídio: mais de 60% dos estudantes disseram-se vítimas de cyberbullying durante os três meses de confinamento ditado pela pandemia, que transferiu o ensino das salas de aula para os ecrãs. “Mandaram-me fotos com teor sexual e muitas mensagens com ‘devias-te matar’ ou ‘se fosse como tu já me tinha matado’”, relatou um dos 485 jovens inquiridos no âmbito do estudo “Cyberbullying em Portugal durante a pandemia da covid-19”, realizado por uma equipa do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. O mais surpreendente, porém, nem é o aparente aumento das agressões online, mas antes o facto de, entre os 41% que se assumiram como autores dos ataques, os sentimentos preponderantes terem sido a raiva, a alegria e a indiferença face aos danos causados.

Com este inquérito, os investigadores quiseram saber a que ponto o fecho das escolas, e o consequente ensino mediado por ecrãs, tinha deixado os alunos mais expostos ao cyberbullying e perceber um pouco melhor quem são as vítimas e as motivações dos agressores. E, desde logo, muito para além das horas passadas com a telescola ou nas plataformas de comunicação com os professores, 44,7% dos inquiridos, com idades entre os 16 e os 34 anos, declararam ter passado mais ou menos seis horas por dia a navegar na Internet, sobretudo nas redes sociais (94,8%) ou em blogues e YouTube (72,6%). Da amostra, 61,4% disseram-se vítimas de cyberbullying pelo menos algumas vezes, nos três meses em que durou o ensino à distância.

Quando, numa pergunta aberta, lhes perguntaram se tinham aumentado estas mensagens de conteúdo prejudicial e violento, 59% responderam que sim, contra os 37% que declararam não ter sentido que a negatividade nas redes sociais tenha aumentado. “Não podemos medir este aumento das agressões, porque não foi feito nenhum estudo antes da pandemia, mas as respostas parecem indicar que sim”, arrisca Raquel António, uma das autoras do estudo, para sublinhar que, muito para além do medo provocado pelo coronavírus, “as vítimas de bullying afirmaram terem-se sentido irritadas, tristes, nervosas e inseguras com mais frequência do que os estudantes que não sofreram ataques online”.

Nada de demasiado surpreendente: um estudo que a Unicef fez em 2017 já mostrava que uma em cada três crianças tinha sido vítima de cyberbullying e que uma em cada cinco deixou mesmo de ir à escola por causa disso. Nas redes sociais como na vida real, o estudo mostrou que “os estudantes LGBTI e com rendimentos familiares mais baixos” foram os alvos preferenciais dos ataques. Entre os que assistiram às agressões, 51,2% declararam que tentaram impedir que continuassem, apenas um pouco acima dos 47,1% que assumiram nada terem feito.

Pouco culpados

Mas as respostas mais surpreendentes surgem quando os autores destes ataques – e 41% dos inquiridos assumiram terem agredido alguém online - foram questionados sobre os sentimentos preponderantes: 29,4% mostraram-se indiferentes ao sofrimento causado e 9,1% declararam mesmo ter sentido alegria. Apenas 16% admitiram sentir culpa. E por que praticaram cyberbullying? “Por brincadeira”, responderam 41,1% dos inquiridos. Entre os restantes, 23,9% referiram a necessidade de vingança relativamente a episódios anteriores e 10,2% disseram que o fizeram para se afirmarem perante os colegas.

“Sentimos neste inquérito muita falta de reconhecimento das emoções nos outros e acredito que esta falta de culpa e esta indiferença nos agressores decorre daí”, interpreta Raquel António, para quem “muitas vezes, os jovens não têm consciência de que, ao carregarem no botão para partilharem determinado conteúdo, estão a magoar muito quem é visado naquela foto ou naquele post”. Dito de outro modo, “partilham e comentam sem pensar nas consequências dos seus comentários”.

A par de medidas mais eficazes no combate ao cyberbullying, o estudo reclama que se aumente nos jovens esta consciência “de que aquilo que eles escrevem nas redes sociais tem impacto nos outros”. “É importantíssimo trabalhar a empatia, a gentileza, a tolerância e o respeito, não só na escola mas também em casa, onde os pais devem estar atentos aos que os filhos escrevem online e promover uma utilização segura dos dispositivos tecnológicos”, precisa a investigadora, sem deixar, contudo, de ressalvar, que as conclusões do estudo podem ter ficado enviesadas pelo facto de haver mais raparigas e participantes heterossexuais entre os inquiridos. “Era importante podermos recolher dados com amostras mais abrangentes, e, no futuro, queremos também perceber se este aumento das situações de cyberbullying ocorreu também entre os adultos”.

Insultos, partilha de fotos íntimas, incitações ao suicídio: mais de 60% dos estudantes disseram-se vítimas de cyberbullying durante os três meses de confinamento ditado pela pandemia, que transferiu o ensino das salas de aula para os ecrãs. “Mandaram-me fotos com teor sexual e muitas mensagens com ‘devias-te matar’ ou ‘se fosse como tu já me tinha matado’”, relatou um dos 485 jovens inquiridos no âmbito do estudo “Cyberbullying em Portugal durante a pandemia da covid-19”, realizado por uma equipa do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. O mais surpreendente, porém, nem é o aparente aumento das agressões online, mas antes o facto de, entre os 41% que se assumiram como autores dos ataques, os sentimentos preponderantes terem sido a raiva, a alegria e a indiferença face aos danos causados.

Com este inquérito, os investigadores quiseram saber a que ponto o fecho das escolas, e o consequente ensino mediado por ecrãs, tinha deixado os alunos mais expostos ao cyberbullying e perceber um pouco melhor quem são as vítimas e as motivações dos agressores. E, desde logo, muito para além das horas passadas com a telescola ou nas plataformas de comunicação com os professores, 44,7% dos inquiridos, com idades entre os 16 e os 34 anos, declararam ter passado mais ou menos seis horas por dia a navegar na Internet, sobretudo nas redes sociais (94,8%) ou em blogues e YouTube (72,6%). Da amostra, 61,4% disseram-se vítimas de cyberbullying pelo menos algumas vezes, nos três meses em que durou o ensino à distância.

30.3.16

Quando o Facebook é uma arma para os agressores na violência doméstica

Ana Cristina Pereira, in "Público"

Órgãos de investigação criminal lidam cada vez com mais casos de violência doméstica associada à Internet e às novas tecnologias.

Primeiro pensou que era engano. Depois percebeu que não. O ex-marido publicara um anúncio num site pornográfico com o nome e o número dela. O telemóvel a tocar, a tocar. Precipitou-se para a GNR. "Nem conseguia controlar as minhas fezes, nem a minha urina, de tal maneira estava alterada."
Dir-se-á que é um sinal dos tempos. "Ainda temos uma violência doméstica muito tradicional - um vai rebaixando o outro, muitas vezes, até chegar à violência física -, mas há cada vez mais recurso à Internet e às novas tecnologias", nota Teresa Morais, que no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) do Porto coordena a secção que investiga este tipo de crimes.
Computadores, telemóveis, GPS podem fazer parte do arsenal usado por um agressor de qualquer idade, género ou orientação sexual, observa Vieira Pinto, chefe do Núcleo de Investigação e de Apoio a Vítimas Específicas da GNR no Porto. Para aborrecer, intimidar ou controlar a vítima.
Isabel viveu dois anos de namoro e nove de casamento. "No início, passávamos muito tempo juntos. Ele tinha acabado de fazer uma desintoxicação, precisava de vigilância, não tinha amigos. Os amigos dele eram de outro tempo. Eu deixei de conviver com os meus amigos para estar com ele."
O mal-estar surgiu com o nascimento do filho. A vida de Isabel deixou de girar em torno do marido. "Eu deixei de ser a mãe dele, passei a ser a mãe do meu filho. Ele começou a andar mais alterado, a implicar com o que eu fazia. Exaltava-se. Dizia: "És uma merda, não vales nada, não serves para nada!""
Os ciclos repetiam-se: tensão, ataque, apaziguamento. "Eu nada dizia para o ambiente estar mais estável. Eu não queria que o miúdo assistisse a discussões, a berros." Encurtava o sossego. Cresciam a desconfiança, a violência. "Começou a controlar o meu telefone e o Facebook."
Isabel não percebia como ele adivinhava os seus movimentos. Só depois de apresentar queixa, soube que ele lhe montara um GPS no carro - a GNR apreendeu o aparelho e analisou os registos. Ele também monitorizava a actividade dela na Internet. Instalou um programa que lhe permitia aceder às palavras-passe, ler todas as mensagens entradas e saídas da caixa do correio electrónico ou do programa de conversação do Facebook, saber em que sites tinha navegado.
A violência sexual, diz, tornou-se comum. "Eu tinha de cumprir as minhas obrigações quer me apetecesse quer não me apetecesse. Estando ele bem, não queria saber se eu estava bem ou não. Se eu não cedesse, começava logo: "Só pensas em ti. És egoísta. Não vales nada!" Atacava-a também pela forma física. "És uma baleia. Pensas que és boa. Melhores do que tu tenho eu ao pontapé.""

Regresso ou inferno
Um dia, Isabel gritou "basta". "Ele pôs o televisor aos berros. Foi para a sala, pôs o televisor da sala aos berros. Eu desliguei o do quarto. Ele começou a ligar-me para o telemóvel. Eu desliguei o telemóvel. Ele começou a ligar para o telefone de casa. Eu pus o telefone fora do descanso. Ele pôs-se a berrar da sala para o quarto. O meu filho acordou. Peguei nele e saí de casa."
Eram três da manhã. Ela refugiou-se em casa da mãe. Ele seguiu-a, fincou pé à porta, ordenou-lhe que voltasse a casa, a menos que desejasse o inferno. "Eu disse-lhe que enquanto ele não se tratasse não valia a pena", conta. Divorciaram-se. Não conseguiram chegar a acordo sobre o apartamento comprado com recurso a empréstimo. Entregaram-no ao banco. Declararam insolvência.
Isabel arrendou um apartamento para morar só com o filho, mas acabou por partilhá-lo com o ex-marido. "Ele disse-me que estava a tratar-se, que não tinha para onde ir, para eu lhe dar uma oportunidade, que queria estar comigo e com o filho. E eu... burra... deixei-o vir." Sentia pena dele. E desejava que ele tivesse mudado. "Queria acreditar que as coisas podiam ser diferentes." Finda a fase de lua-de-mel, recomeçaram as alterações de humor, os insultos, o controlo. De nada serviu Isabel pedir-lhe que se fosse embora. "Ele disse: "Enquanto não organizar a minha vida, não saio daqui. E tu tens de continuar a ser minha mulher, tens de cumprir as tuas obrigações!""
Desatou a chantageá-la. "Quase todos os meus amigos eram amigos dele. Ele fazia questão de pedir amizade às pessoas que eram minhas amigas no Facebook. Ele dizia que ia falar de mim, publicar fotos íntimas, deixar a minha imagem na lama. Eu ia ficar na miséria, nem ia ter para dar de comer ao meu filho, porque ele ia dar cabo do meu emprego. Eu ia ter de sair daqui e de ir para longe, porque nem ia conseguir olhar para as pessoas." E, assim, "sob ameaça", ela ia tendo relações sexuais com ele.
Certo dia, um primo de outra cidade veio passar um fim-de-semana. "Pensavas que eu já cá não estava e que ias metê-lo na tua cama!", gritou o ex-marido de Isabel. "Para ele, eu dormia com toda a gente." Voltou a forçá-la a ter sexo. O primo percebeu. De manhã, levou-a à GNR. Os militares foram lá a casa dizer ao homem para sair. Ele pediu tempo para se organizar e eles deram-lhe dois dias.
Isabel aguardou em casa da mãe. "Ele tirou o que quis. Levou quase tudo. Ainda me exigiu dinheiro pelo que deixou - o frigorífico, a placa, os televisores." E instalou-se no apartamento ao lado. Isabel manteve-se em casa da mãe. "Ainda cheguei a dormir uma ou duas noites em casa para ver o que acontecia. Ele mandava-me mensagens a dizer: "Estou a ouvir-te. Não consegues dormir. Andas a pé." Queria que eu me sentisse assombrada, sei lá. Também mandava mensagens a dizer que me deixava em paz se eu fosse para a cama com ele mais uma vez."
Partilhou no Facebook uma fotografia de Isabel no banho e numerosos comentários maldosos. "Escreveu que me deitava com todos, que gostava de estar com não sei quantos ao mesmo tempo, que pedia dinheiro emprestado ao meu patrão e lhe pagava de joelhos. Chegou a usar o nome do meu falecido pai. "Coitado, que deve andar às voltas na cama com vergonha da filha que tem.""
Isabel afligia-se, sobretudo pelo filho, então com cinco anos. E se tudo aquilo lhe caísse em cima, um dia qualquer, na escola? "Os pais vêem, comentam em casa, os miúdos apercebem-se. A gente sabe como são os miúdos." Já bastava ela sentir-se olhada de lado na rua e no trabalho. Teve de falar com o empregador. "Quando ele o começou a meter ao barulho, tive de lhe contar para ele estar preparado." Medo, ansiedade, vergonha. "Não acabei com a minha vida porque pus o meu filho à frente do meu desespero", diz.
Subitamente, ele roubou a identidade dela e publicou um anúncio num site porno. O telefone tocou uma, dez, 20, 30 vezes. Ficou em estado de choque. Conduziu até à GNR. "Naquele dia, se ele se atravessasse à frente do meu carro, eu matava-o. Contactei o site a dizer que o anúncio era falso, para o retirarem imediatamente, que eu já tinha apresentado queixa, e eles retiraram."
A casuística, no Núcleo de Investigação e de Apoio a Vítimas Específicas da GNR, já mostra agressores capazes de retirar informação dos perfis das vítimas, de assumir a identidade delas e de, assim, publicar anúncios, fazer compras, enviar mensagens. E agressores capazes de enviar, de forma sistemática, mensagens abusivas. Ou de recorrer a GPS e a câmaras de vídeo para as vigiar.
"Pôr gravadores a gravar o que a pessoa diz ou câmaras escondidas para filmar cada movimento da pessoa é uma forma de manter uma dinâmica de poder, de controlo", diz a psicóloga forense Catarina Ribeiro, investigadora na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica. Sempre existiram formas de controlo: ler a correspondência, vasculhar as gavetas, revistar a carteira. Com a evolução tecnológica, abrem-se possibilidades mais elaboradas.
Um centro de estudos britânico já enumerou quatro "A" que distinguem a violência relacionada com a tecnologia: anonimato, acessibilidade, acção à distância, automação. Embora possa ser intensa, não só é menos aparente a quem está de fora, como requer menos tempo e esforço para perpetrar.
A GNR encontrara o sistema de GPS que o ex-marido de Isabel usava. Apreendeu os equipamentos com mais de mil fotografias dela, de carácter íntimo ou mesmo sexual. Encheu mais de 400 páginas com mensagens que ele lhe enviou por diferentes meios. "Ele estava com uma pulseira electrónica, impedido de se aproximar de mim, de me contactar. No entanto, morava na casa ao lado, ligava-me centenas de vezes por dia, mandava-me centenas de mensagens."
A 19 de Março de 2015, Dia do Pai, ele ia jantar com o filho. Isabel foi a casa buscar roupas. "Bateram à porta. Era o meu filho. Eu abri. Vi que o meu ex-marido também estava lá fora. Segui as indicações da GNR: "Se você estiver à porta e ele aparecer, feche-se." Como o meu filho estava cá fora, fechei-me cá fora. Ele mandou o miúdo para o carro e agarrou-me nos braços. "Eu vou-te matar, vais aparecer numa valeta!" Tentou dar-me uma cabeçada e eu tive o reflexo de fugir para trás. Consegui soltar-me e empurrá-lo. Desatei a correr para o café que havia ao lado de minha casa. Era onde estaria gente, não é? Ele foi atrás de mim. Eu pus-me atrás do balcão. O dono do café disse-lhe: "Aqui não!" Chamei a GNR. Ele foi embora com o miúdo."
Isabel pediu a revisão das medidas de coacção enquanto o ex-marido aguarda o julgamento. A juíza estabeleceu um mês para ele mudar de casa. Disse-lhe que iria para a prisão se continuasse a violar a ordem para não contactar a ex-mulher. "Eu tenho um dispositivo que me avisa da proximidade dele. Não se pode aproximar da minha casa nem do meu trabalho. Está proibido de me contactar até por sinais de fumo." Passou um ano, mas Isabel ainda não anda descansada. As visitas da criança fazem-se com recurso a intermediário. "Tive de lhe pôr um processo por ele nunca ter pago pensão de alimentos. No fim de Fevereiro, descontaram-lhe [o valor] no ordenado. Tive medo, mas ele não fez nada."

Denúncias já são feitas pelas redes sociais

O uso da Internet e das novas tecnologias também está a gerar preocupação a quem acolhe mulheres e crianças vítimas de violência doméstica, como referiu ainda este mês Joana Sampaio, directora técnica da casa-abrigo gerida pela organização internacional de mulheres Soroptimist — Clube do Porto. Os agressores podem estar nas redes sociais a vigiar os perfis das vítimas, dos familiares e dos amigos em busca de informação que lhes permita localizá-las, intimidá-las ou mesmo agredi-las. Mas não são só más notícias. Só no ano passado, 45 casos chegaram à GNR através do Facebook, informa o major Marco António Ferreira da Cruz, chefe da divisão de comunicação e relações públicas da GNR. Os especialistas apontam outras vantagens: há maior acesso à informação sobre a legislação em vigor e as respostas existentes. Desde logo, por exemplo, sobre os núcleos de atendimento a vítimas.

15.1.14

"Passividade é o maior perigo"

in Jornal de Notícias

Coautora de um estudo internacional sobre cyberbullying, Ana Almeida, investigadora de Psicologia da Educação e Educação Especial da Universidade do Minho, considera que o Ministério da Educação subestima o "bullying".

É falso que quando um jovem anuncia a intenção de suicidar-se nunca o fará?

É. No caso do "bullying", alguns investigadores, reconhecendo o impacto que essa experiência tem na vida dos jovens, criaram o termo bulicídio. O "bullying" pode, de facto, conduzir ao suicídio. Está demonstrada essa relação de causa-efeito?

É um fenómeno multideterminado. A qualidade dos relacionamentos e a rede de suporte são fatores a ponderar. Mas é verdade que há experiências tão negativas que as crianças sentem que não lhes resta outra alternativa.

A sensação de passividade por parte de pais, professores, funcionários, colegas, pode contribuir para isso?

Prefiro chamar-lhe dificuldade em vez de passividade. Muitos pais tentam acabar com a situação de fragilidade dos filhos, mas sentem-se impotentes. Por vezes é muito difícil alterar a situação. A pressão do grupo [agressor] é muito grande, a adrenalina que provoca a agressão gera contágio social e ao mesmo tempo banalização e minimização dos seus efeitos. É o que designamos como dessensibilização moral por parte do agressor e de quem vê.

Essa passividade, ou dificuldade, não é um risco?

É o maior perigo. Nunca podemos considerar uma situação de agressão ou humilhação normal. É sempre um comportamento continuado e deliberado em que há desequilíbrio de poder que atormenta a vítima. Esse comportamento é validado pelo ambiente e nem sempre condenado. É preciso um mecanismo dissuasor do "bullying".

Da parte de quem?

A escola tem de ter consciência do clima escolar para estudar as abordagens de prevenção. Está muita coisa por fazer. O Ministério da Educação devia integrar o "bullying" na sua lista de prioridades. O sucesso escolar é importante, mas impossível para todos se não houver bem estar e segurança na escola.

O "bullying", mesmo que seja temporário, deixa sequelas para sempre?

Depende da frequência e da gravidade. Mas a investigação diz que ficam sequelas, para vítimas e agressores.

4.7.13

32% das pessoas conhece ou foi vítima de violência na 'net'

por Céu Neves, in Diário de Notícias

Uma em cada três pessoas conhece ou foi vítima de uma das novas formas de violência e que utilizam a Internet como meio preferencial de agressão e de perseguição. É a conclusão do estudo para a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) sobre o tema da "Perceção da população portuguesa sobre stalking, cyberstalking , bullying e cyberbullying ", que será apresentado esta manhã na sede da associação, em Lisboa.

Os portugueses identificam sobretudo o bullying , mas, depois de ouvirem a explicação, acabam reconhecer casos das outras formas de violência que usam preferencialmente as novas tecnologias.

Estamos a falar do assédio persistente em que uma pessoa se impõe a outra, com um conjunto de comportamentos que são indesejados ou intrusos (stalking); da utilização da Internet ou de outros meios eletrónicos para perseguir e assediar alguém (cyberstalking); da violência entre pares com comportamentos agressivos por um agressor ou grupo de agressores contra uma vítima ou grupo de vítimas (bullying); do uso das novas tecnologias para agredir verbalmente ou contribuir para a exclusão social da vítima, por exemplo, disseminando boatos ou revelando informações por telefone, email, redes sociais, etc (cyberbullying ).

A APAV e outras associações europeias querem lei que considere crimes aqueles tipos de maus tratos.

"Os dados batem certo com o que são as tendências tradicionais. As pessoas podem não conseguir distinguir os conceitos, mas depois de lhes ser explicado reconhecem as situações. Estão mais habituados ao bullying, o que não é diferente das perceções internacionais", diz Daniel Cotrim, assessor técnico da direção da APAV.

O inquérito, a que o DN teve acesso, foi aplicado pela INTERCAMPUS, tendo sido entrevistadas 1104 pessoas, entre os 15 e 64 anos, de norte a sul do País. É o 4.º barómetro que resulta da colaboração das duas estruturas.

Uma segunda conclusão do estudo é a de que as pessoas mais facilmente reconhecem aquelas agressões nos outros do que contra si próprios. Apenas 5% diz ter sido vítima.

Em 18% dos casos de violência referenciados, o fenómeno ainda decorria no momento das entrevistas, de 6 a 31 de maio.

Em geral, as vítimas são agredidas diárias e em 53% das vezes durante mais de um ano.