27.7.15

Programa de renda acessível avança para cinco mil famílias em Lisboa

Inês Boaventura e São José Almeida, in Público on-line

Presidente da câmara, Fernando Medina, adianta que, em 2017, "todos os tuk-tukterão que ser eléctricos”. Lisboa vai proibir a circulação destes veículos durante a noite e definir pontos de paragem.

Há três meses à frente da Câmara de Lisboa, o sucessor de António Costa diz que se inspirou no Bairro de Alvalade para o programa de habitação com rendas acessíveis que prevê apresentar "até ao final do ano". Apesar das polémicas, Fernando Medina considera o vereador Manuel Salgado "uma mais-valia absolutamente indiscutível" e fala numa "campanha de insinuação" sem fundamento.

Nestes cerca de três meses, qual o maior motivo de satisfação?
Foram muitos. Talvez ter apresentado o Plano de Drenagem, porque creio que é dos projectos mais estruturantes e mais marcantes que esta cidade irá ter em muitas décadas. Num registo muito diferente, a abertura de obras tão emblemáticas como os Terraços do Carmo e o Jardim da Cerca da Graça são também momentos únicos e especiais.

E a aprovação da venda dos terrenos da Feira Popular?
Sim. É um marco muito importante, porque trata-se de uma das maiores feridas que esta cidade tem, do ponto de vista urbanístico, do desenvolvimento da cidade e também do político. A situação da Feira Popular e a do Parque Mayer estão umbilicalmente ligadas a um dos períodos mais negros da vida política do município, altamente conturbado, de grande descrédito. É um processo que teve consequências políticas, que se arrastou durante muito tempo. E por isso é particularmente gratificante podermos ter feito este processo, que começou com um acordo celebrado no tempo do presidente António Costa.

A oposição defendeu mais habitação. Por que é que o município não impôs a construção de habitação a custos controlados?
Pretendemos não complicar um processo que tinha sido muito traumático. Quando se introduz numa venda critérios dessa natureza, temos que fazer outro tipo de contas. É uma operação mais complexa e o nosso entendimento foi o de que esta operação devia ser muito simples e muito clara, por todo o histórico que envolveu. Isto a par de darmos - foi um dos compromissos que assumimos na tomada de posse - grande prioridade à habitação a custos acessíveis, que está acima da habitação social, mas que não encontra resposta nos preços de mercado, demasiado elevados.

Anunciou um programa para trazer de volta à cidade cinco mil famílias. Em que fase está?
Posso adiantar que vai haver zonas de reabilitação urbana, locais onde o edificado municipal tem densidade suficiente para permitir operações de reabilitação urbana sistemática, que permitam mais eficiência do ponto de vista dos custos da própria reabilitação. E já temos também seleccionada a primeira área onde aceitaremos construção nova a renda acessível. Queremos fazer disto a experiência-piloto do modelo que temos em mente, testá-lo. Tendo sucesso, depois alargaremos, até chegar aos cinco mil.

Como será financiado esse programa?
Não temos o modelo ainda totalmente fechado, mas o princípio é que a propriedade dos terrenos ou dos edifícios é municipal, a construção ou reabilitação será feita por privados, com a condição de ser estabelecida determinada renda, determinado tipo de preço por m2. Tem que ser garantido por um período muito longo de tempo. Isto é possível porque a câmara tem o terreno ou tem os edifícios com os quais entra, o que reduz significativamente, pelo menos em um terço, os valores globais da construção. Tenho que dizer com franqueza que a ideia base com a qual estamos a montar este projecto não é original.

Onde é que foi buscar a ideia?
A Lisboa. O Bairro de Alvalade foi construído dessa forma e foi um grande êxito.

Quando vai avançar?
Gostava de até ao final do ano apresentar o modelo e os casos concretos.

Qual vai ser a localização?
Ao nível da construção, o primeiro será em Benfica, junto ao Colombo, uma zona muito bem servida do ponto de vista de infra-estruturas e de acessibilidades. Não estamos a falar de uma zona periférica da cidade, estamos a falar de uma zona de elevado valor. Relativamente à reabilitação, será num quarteirão perto da Almirante Reis, onde a câmara tem um conjunto muito significativo de propriedades.

Voltando à Feira Popular, falou no acordo com a Bragaparques, mas há a questão do Tribunal Arbitral. Teme que a câmara seja condenada a pagar um valor significativo?
Preocupado não. Aguardarei a decisão do Tribunal Arbitral.

Pode vir daí um grande rombo para as contas da câmara?
Virá o que o tribunal decidir. Hoje a câmara felizmente tem condições financeiras para fazer face a essa contingência dentro das regras que estão colocadas e dentro do que está verdadeiramente em causa. Se me pergunta se eu preferia que a câmara não pagasse nada, preferia, naturalmente.

Que valores podem ser?
Não me quero adiantar, isso é o que o Tribunal Arbitral tem de decidir. Recordo um facto: o valor-base na hasta dos terrenos da Feira Popular está acima do que foi pago relativamente ao processo, isso dá-nos alguma margem relativamente a contingências que surjam.

É hoje que diz onde ficará a nova Feira Popular?
Não, ainda não.

Em que fase está esse processo?
Negociação e localização. Não adianto mais, para não prejudicar a posição da câmara.

Acredita que a cidade precisa de um equipamento deste género?
Sem dúvida. É um desejo grande da cidade, isso é inequívoco. E tenho uma ideia relativamente clara sobre o que deve ser o futuro da Feira Popular. Por um lado um parque popular. Não deve ser um parque de diversões Disney, igual a muitos que há no mundo, com um brand estrangeiro. Deve ser algo em que todos aqueles que têm o imaginário da Feira Popular e que a querem mostrar aos seus filhos, se revejam, mas tem que ser também um local do qual nos orgulhemos e que seja aprazível. Acho que a Feira Popular ganhava em ter uma área mais ampla do ponto de vista da sua implantação, que tivesse uma grande área verde, que estivesse inserida num parque urbano e ser um verdadeiro espaço de lazer.

Na posse, disse que a casa estava arrumada e que era tempo de fazer mais e melhor. Não é dizer que a câmara fez pouco antes?
De forma alguma. Mal seria se alguém que assume de novo funções com esta responsabilidade não sentisse o ânimo, a vontade, a energia de poder fazer mais e melhor. Se entrasse sem essa ambição, seria preocupante.

Oito anos não foi tempo demais para arrumar a casa?
Não. Estava muitíssimo desarrumada fruto daquela profundíssima crise institucional que a câmara viveu em 2007. É muito fácil com um conjunto reduzido de decisões desequilibrar por completo um município como Lisboa - muito difícil é recuperá-lo.

O PSD desequilibrou?
Sim, nos últimos anos. O último mandato foi verdadeiramente trágico. Aliás, a questão de Feira Popular é uma consequência, como o Parque Mayer, como o Vale de Santo António, como muitas coisas são. Houve aqui um período particularmente conturbado, como o facto de a câmara ter uma dívida astronómica e demorar mais de um ano a pagar a fornecedores. Hoje pagamos a pronto. Somos provavelmente os melhores clientes do país, não sei se há alguma empresa a fazê-lo, creio que não. Vir de onde viemos para onde estamos demorou muito tempo. E ao mesmo tempo fazer a transformação da visão de cidade. Tínhamos há 15 anos uma visão de cidade em que o paradigma era muito o do automóvel, de como pôr o carro a entrar e a sair da cidade muito rápido. O grande mérito do António Costa, do Manuel Salgado, do Zé Sá Fernandes, da Helena Roseta, na diversidade que eles têm, foi uma visão transformadora da cidade. Do ponto de vista do que é o espaço público, a circulação, a vida em comum, a importância das áreas verdes, esta vivência da cidade. Hoje o que nos pedem é mais quiosques, mais jardins, mais praças, mais parques infantis, mais vivência de espaço público.

Se a situação financeira é tão boa, porquê contrair um empréstimo de 25 milhões de euros para a pavimentação das ruas e admitiu contrair outro para o plano de drenagem?
Faz todo o sentido. Faz parte do programa de gerir bem as finanças. Estamos a aproveitar bem as circunstâncias que a câmara hoje tem, que deve ser das entidades do país que melhores condições financeiras consegue ter. O que fazemos é trocar dívida mais cara por dívida mais barata.

Estão a comprometer os próximos executivos.
Quando ouvi a crítica por parte da oposição confesso que me ri, porque quem deixou a câmara como deixou. Como se fizesse sentido pagar a pronto todo o investimento. Não faz. O investimento faz sentido ser pago no seu ciclo de vida. Estamos a amortizar uma grande quantidade de empréstimos, porque temos condições financeiras absolutamente únicas neste momento. Amortizamos dívida mais cara e substituímos por mais barata. Isto ajuda as finanças da câmara. Não é um problema de liquidez, é uma boa gestão financeira.

O turismo tem margem para crescer sem comprometer a qualidade de vida?
Sem dúvida. O turismo desempenhou um papel absolutamente essencial para Lisboa neste momento de crise profundíssima do país. É um pilar económico essencial na cidade e temos que trabalhar para que continue a ser. Isto na minha opinião implica cuidar da sustentabilidade do turismo na cidade, o que tem duas vertentes. Uma primeira de fazermos aqueles investimentos que são necessários para que Lisboa continue a ser uma cidade atractiva do ponto de vista turístico.

Para que foi criada a taxa turística.
Para os quais foi criada a taxa turística. Quando falamos de frente ribeirinha, dos ascensores, dos pólos de animação, da Volvo Ocean Race, de um conjunto de eventos, nós temos que tornar a cidade atractiva do ponto de vista turístico. A segunda dimensão da sustentabilidade prende-se com o não acreditar que haja uma cidade atractiva do ponto de vista turístico se não o for para os seus residentes. Lisboa não é uma cidade de fachada. Aliás é muito interessante ver que nos inquéritos ao turismo em Lisboa aquilo que as pessoas destacam como mais marcante é a autenticidade da cidade. E a autenticidade significa mantermo-nos como Lisboa, com as características e os munícipes que temos, com uma cidade agradável para todos nós vivermos. Acho é que temos que ir ajustando as políticas do município ao aumento do turismo, mas nunca em qualquer lógica de limitação ou de restrição. Estamos com níveis de carga turística muitíssimo inferiores às principais cidades turísticas. Temos é que cuidar do equilíbrio, porque quando aumenta o turismo há alterações na cidade e nos equilíbrios que estão estabelecidos. Temos que estar atentos a isso e promover as correcções necessárias.

E isso tem sido feito?
Têm sido feitas e vamos fazer mais. Mas isso é no sentido de potenciar o desenvolvimento do turismo e de o manter compatível com a harmoniosa vida da cidade. Por exemplo, há áreas em que o turismo não tem gerado desequilíbrios da cidade, pelo contrário. Um exemplo claro é o urbanismo. Hoje a consequência do turismo é a aceleração da reabilitação da cidade.

As casas que estão a ser reabilitadas estão a sê-lo só para turistas? Não se está a afastar a possibilidade de outras pessoas voltarem para Lisboa?
Não. A quem possa defender que não devíamos ter o investimento na Baixa em hotéis ou em alojamento local porque devia haver era outro tipo de investimento, eu peço desculpa. Há dez anos todos suspirávamos por investimento na reabilitação na Baixa. O que estou a dizer é que este é um caso em que o investimento e o fluxo turístico não só não desequilibraram a cidade como foram motor da melhoria. Há outras áreas em que temos que cuidar desse equilíbrio. Dou um exemplo: os tuk-tuks.

Quando é que o regulamento dos tuk-tuk fica pronto?
Vamos introduzir um conjunto de alterações que têm como objectivo este equilíbrio entre os tuk-tuks e a vida da cidade, não pondo em causa algo que é um produto turístico muito apetecido e que queremos que se desenvolva. A nossa visão não é de restrição, é de equilíbrio entre residentes, entre a vida da cidade e os tuk-tuks. As alterações são as seguintes: em primeiro lugar, a partir de 1 de Janeiro de 2017, todos os tuk-tuks terão que ser eléctricos. O ponto central de conflito é o problema do ruído e da poluição e introduziremos regulamentação para que sejam eléctricos. Vamos introduzir mais cedo, a partir de Setembro, um conjunto de alterações que são por um lado a regulamentação horária, a limitação de circulação entre as 9h e as 22h, e restrições à circulação em algumas zonas históricas com ruas muito apertadas.

Vão deixar de poder circular nessas zonas?
Vão deixar de poder circular em algumas ruas. E vamos definir áreas de estacionamento para tuk-tuks e áreas de recolha e largada de passageiros. O que é que não vamos fazer? Não vamos fixar circuitos, não vamos rigidificar os circuitos. Uma das riquezas que os tuk-tuks estão a introduzir à cidade e que são do agrado de muitas pessoas é mesmo esta flexibilidade, é poder escolher o seu percurso.

Há quem fale num excesso de tuk-tuk. A câmara não vai limitar o número de veículos?
Aí há uma dificuldade legal, o licenciamento não é camarário. Para já vamos avançar com este conjunto de medidas, que que vão ao coração do que são os principais problemas que são levantados, problemas de ruído, de poluição, de acesso a determinadas zonas mais condicionadas e também toda a questão da regulação e da articulação dos tuk-tuks com o resto do trânsito na cidade. Isto é o que acho que deve ser a atitude relativamente ao desenvolvimento do turismo: irmos adaptando, reequilibrando quando há situações de desequilíbrio. Neste caso era evidente que havia uma situação de desequilíbrio.

Considera o vereador Manuel Salgado uma mais-valia na sua equipa, atendendo às muitas polémicas que tem havido em torno de várias propostas suas?
Uma mais-valia absolutamente indiscutível. Acho que a cidade tem um benefício enorme por ter alguém com a qualidade do vereador Manuel Salgado a ocupar funções no Urbanismo e tenho um gosto muito grande por liderar uma equipa da qual ele faz parte.

Tem havido uma série de casos em que a actuação do vereador tem sido muito criticada, como o do Benfica, o do Factor F.
Só não é criticado quem não faz.

Concorda com a forma como o vereador tem conduzido esses processos?

Sinto um privilégio grande em ser presidente de um executivo que tem o vereador Manuel Salgado como responsável do Urbanismo. Isso para mim é indiscutível. Polémica sobre assuntos, isso faz parte da vida pública, da política.

Têm sido levantadas dúvidas sobre eventuais benefícios a grupos económicos.
Isso tem feito parte de uma campanha de insinuação que tem sido lançada. Sobre todos esses casos eu próprio me tenho pronunciado - analiso e pondero todos os casos e em nenhum, e se quiser podemos discuti-los todos, um a um, houve qualquer razão do lado de quem lançou essas insinuações.

Não têm fundamento?
Nenhum. E eu vi-os todos.

Mas o facto de querer vê-los todos com esse pormenor não quer dizer que lhe levantaram dúvidas, em determinado momento?
Não. Quer simplesmente dizer isto: há determinada campanha, determinado tipo de lógica de insinuação que foi lançada relativamente ao vereador Manuel Salgado que eu acho que tem de ser cabalmente desmontada. Por isso é que eu faço questão de, pessoalmente, a desmontar, caso a caso.

Porque não é a câmara a reabilitar o Pavilhão Carlos Lopes? Porquê entrega-lo à Associação de Turismo de Lisboa?
Porque a ATL tem boas condições para o fazer, tem um bom projecto e assegura que o projecto é executado em bom tempo e de forma adequada a rapidamente poder ser um equipamento ao serviço da cidade. A solução da ATL reproduzirá, espero, o êxito que foi a recuperação do Pátio da Galé.

Ao longo dos últimos anos a câmara tem entregue uma série de equipamentos à ATL, como o Terreiro do Paço, a frente ribeirinha, agora o pavilhão. Sendo esta uma associação de direito privado, não salvaguardaria melhor o interesse público se esses espaços ficassem sob a gestão da câmara?
Não. Aliás basta ver os exemplos que deu. Não tenho dúvidas nenhumas de que foram boas opções, com bons resultados para a cidade.

E que garantem a salvaguarda do interesse público, a transparência dos processos?
Total, total. Se não achasse isso, não tomava essa decisão.

Um tema importante deste mandato tem sido o da subconcessão da gestão do Metro e da Carris. Acredita que ainda é possível travar este processo?
Acredito que sim. Acho que temos a razão do nosso lado.

O Governo dizia há poucos dias que a única coisa que faltava para a celebração dos contratos era um parecer da Autoridade da Concorrência. A subconcessão está iminente.
Do lado do Governo está iminente. Depois há todo o processo que está a ser avaliado pelos tribunais e que não é matéria do Governo, é matéria dos tribunais.

Mas espera que haja uma decisão dos tribunais antes de este processo se concretizar?
Espero que esse processo não se concretize, em primeiro lugar. Em segundo lugar, espero que havendo decisão judicial seja o mais cedo possível. E em terceiro lugar espero que ela confirme aquilo que é a profunda convicção da câmara, que é a de que a câmara tem direitos patrimoniais sobre as companhias, tem direitos de concedente e a operação que o Estado está a fazer é uma operação que não é legal. Mas pior do que isso. O que está em causa é da maior gravidade para o futuro da cidade. Acho que na nossa sociedade correu muito bem a resolução dos problemas de saneamento, do abastecimento de água, da recolha de lixo, da expansão do sistema educativo. Acho que foram questões que o país resolveu bem e acho que houve uma questão que foi uma tragédia: o problema dos transportes nas áreas metropolitanas, que têm sistemas de transportes totalmente disfuncionais.

E isso vai piorar se forem privados a ficar com a gestão das empresas?
Nos últimos quatro anos a situação degradou-se ainda mais, em Lisboa perdemos cem milhões de utentes no transporte público. Isto significou diminuição da mobilidade e significou reforço do papel do automóvel, que é precisamente o oposto do que está a acontecer por toda a Europa. E uma concessão o que vai fazer é rigidificar esta estrutura de oferta por mais sete ou oito anos. É um absurdo completo.

A câmara faria melhor?
Não tenho a menor dúvida. Tenho ideias concretas sobre como faria melhor e tenho a noção clara de que fazer melhor implica assumir que há um serviço público e que o serviço público tem um custo, que deve ser assumido. Criar a ilusão, como o Governo cria, que é dizermos vamos fazer um serviço, é público e não há indemnizações compensatórias. Se nos concentrarmos só nas partes lucrativas da operação é possível ter sistemas de transporte lucrativos, claro que é. Não é possível é ter sistemas de transporte público com grande abrangência. Há um custo que é necessário pagar e nós assumimos não só que esse custo é necessário como assumimos que pagávamos uma parte desse custo.

Também tem havido conflitos com o Governo noutras áreas, como o saneamento, as águas. Olhando para todas estas matérias, como é que caracteriza aquela que tem sido a atitude do Governo para com o município?
Não gostava de generalizar, porque a relação com o Governo tem sido diferente nas várias áreas. Há áreas em que o diálogo correu bem. O diálogo com o Ministério da Administração Interna correu francamente bem, o diálogo com o Ministério da Saúde tem corrido bem. Com o Ministério do Ambiente tem corrido francamente mal. Todo o processo da EGF [Empresa Geral do Fomento], do saneamento, e o processo das águas são processos que destroem parcerias entre a administração central e a administração local que foram construídas ao longo de décadas e que são responsáveis por alguns dos maiores êxitos que o país teve na resolução de problemas básicos das populações. E todo esse trabalho, essa parceria, essa atitude, foi destruído de forma gratuita, por opções políticas.

Cinco famílias são despejadas por dia por rendas em atraso

por Ana Margarida Pinheiro, in Diário de Notícias

Balcão Nacional do Arrendamento já foi utilizado 10 333 vezes. No entanto, mais de metade dos pedidos para despejo foram recusados.

Todos os dias, mais de cinco famílias perdem as suas casas por falta de pagamento das rendas ou por utilização indevida do espaço. Os números do Ministério da Justiça, a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso, mostram que até junho deste ano já foram emitidos 929 títulos de despejo no Balcão Nacional do Arrendamento (BNA); em todo o 2014, foram realizados 1868.

As grandes cidades como Lisboa e Porto continuam a reunir o maior bolo de despejos, mas as razões que levam o senhorio ao limite repetem-se por todo o país. "A renda é por regra a última obrigação que deixa de ser paga, mas o desemprego ainda é a maior razão para o não pagamento", diz Romão Lavadinho, da Associação dos Inquilinos Lisbonenses, especificando que as quebras de rendimento sofridas durante a crise e as situações de doença ou velhice também têm tido influência nos últimos anos.

Como o cinema chegou a crianças de aldeias africanas pelas mãos de um português

Sónia Calheiros (artigo publicado na VISÃO nº1168 de 23 de julho), in Visão on-line

O português João Meirinhos anda pelas aldeias mais recônditas de África e Ásia a projetar filmes para crianças. Muitas assustam-se com os dragões das animações


Ainda faltam três mil quilómetros para chegarem a Ulan Bator, a capital da Mongólia, e o termómetro do camião já se aproximou dos 40 graus. João Meirinhos atende a chamada da VISÃO enquanto percorre os arredores de Omsk, na Sibéria, numa estrada longa e sem história, deserta de humanidade. A bordo do camião 4x4 Magirus Dentz, de 1975, que já foi carro de bombeiros na Alemanha e transportou aviões de salvamento para ralis no deserto do Saara, além do antropologista visual nascido em Lisboa, há 30 anos, viajam os italianos Davide, músico e motorista, e Francesca, fotógrafa e clown, que tem tatuado no ombro "o essencial é invisível aos olhos", uma citação de O Principezinho, de Saint-Exupéry.

"Nas últimas três semanas temos guiado cerca de dez horas por dia, entre 400 e 500, no máximo, porque as estradas têm muitos buracos. Ontem por exemplo, demorámos duas horas para fazer 60 km", conta João para quem foi "interessante" falar em português outra vez. Desde 2009 está habituado a pensar em italiano, falar espanhol e francês e pesquisar em inglês na internet. Os outros cinco voluntários seguem noutros dois camiões. Trata-se de Francisca, animadora social e relações públicas de Espanha, e dos franceses Erwan, performer de circo, Lola, editora de vídeo que trata dos contactos com os orfanatos e escolas, Eva, coordenadora do projeto e habituada a trabalhar na área da educação, e Thomas, realizador e coordenador.

Andam na estrada desde abril e já fizeram 30 sessões de cinema em aldeias no meio de nenhures: 15 na Roménia, 5 na Bulgária e na Turquia, 4 na Geórgia e uma na Rússia. "A globalização é o tema principal dos documentários não verbais que mostramos [Home, Baraka ou Microcosmos], cujos direitos de exibição nos foram doados pelos realizadores. Foi a pôr gasolina no gerador durante uma projeção que nos apercebemos que era uma contradição passar filmes sobre ecologia e depois utilizar gasolina para os mostrar. Comprámos mais painéis solares e baterias e agora somos independentes nesse sentido", esclarece João.

Foi precisamente o desperdício de dinheiro de uma sociedade consumista que fez com que João Meirinhos, ao terminar o curso de Ciências da Comunicação na variante de Cinema e Audiovisual, se interessasse por voluntariado. Ainda estagiou numa produtora de cinema publicitário, mas em 2009 fez-se à estrada quando um dos seus companheiros de Erasmus, em Itália, o desafiou: "Vamos fazer cinema com as crianças em África." Mais tarde, criaram uma joint-venture entre os franceses da Lèzards Migrateurs e os italianos da ONG Bambini Nel Deserto. Em 2011, passou por 22 países em dois continentes. Em 2012 voltou a Manchester para um mestrado em Antropologia Visual. "Sou um filho dos ideais de Abril.

Fui educado rodeado de cultura e arte como princípios básicos para o desenvolvimento. E isso nunca mudará. Esta iniciativa claramente não é um emprego, mas sem dúvida que dá muito trabalho."

Aventuras 'on the road'

Para os oito voluntários, todas estas viagens são uma troca inesperada. "É preciso não recear o acaso mas aproveitá-lo. Até agora os melhores momentos foram sempre quando a nossa aparição é uma surpresa, para ambas as partes", partilha João Meirinhos. Tanto em África como na Ásia Central, o facto de serem europeus é imediatamente associado a riqueza. "No Saara usávamos calendários pornográficos e bolas de futebol como moeda de troca para que nos deixassem em paz. Pormenores como bandeiras de cada país, uma foto de Meca ou do presidente Putine a cumprimentar Berlusconi podem evitar problemas. É útil conhecer o vocabulário básico e manter a calma", explica o português.

No meio de tantas aventuras, já teve miúdos a mastigar os restos dos seus ossos de frango; percebeu que um preservativo custa mais que uma prostituta; teve nove furos numa semana devido aos 50 graus do asfalto; já lhe ofereceram uma criança, para trazê-la para a Europa, mas fizeram uma coleta entre todos e por 50 euros ela pôde ir, pela primeira vez, à escola, durante um ano; e, por fim, o grupo decidiu "viver como um burkinabé", com menos de um euro por dia. "Acho que nem duas semanas aguentei a comer sempre a mesma coisa, arroz com molho de amendoim e um pouco de gordura de carne... O Davide foi para o hospital com paludismo. Onde a pobreza é mais extrema é onde ninguém já profere uma queixa", descreve.

Durante as sessões de cinema, são inúmeras as reações dos mais pequenos. No Burkina Faso, por exemplo, gritam quando veem um dragão numa das animações. Projetar a imagem de um camião que passa por cima de uma câmara no chão é meio caminho andado para todos fugirem, pois o efeito 3D fá-los pensar que vão ser atropelados. Na caravana há tempo para tudo, desde criar uma estação de painéis solares para dar energia a uma bomba de água num oásis no sul de Marrocos até organizar uma oficina de mecânica para "rapazes de rua" aprenderem um ofício. Mas nem tudo é um mar de rosas.

João e os sete companheiros já apanharam alguns sustos. O momento de maior stresse deu-se ao atravessarem a fronteira entre Marrocos e a Mauritânia. Foram atraídos a uma armadilha de areia e o camião ficou atolado.

"Surgiram mais de vinte homens aos gritos, em árabe, no meio do nada. Queriam 300 euros para nos ajudarem a desenterrar o camião. Conseguimos fechar negócio por 150 e passámos umas boas três horas até sair dali", relembra João. Em Bamako, capital do Mali, foram raptados por uma espécie de "Unidade de Bons Costumes Islâmica", depois de um dos amigos de João Meirinhos urinar na rua. "Saem uns homens encapuçados com metralhadoras de dentro de um jipe e levam-nos. Quando começaram a 'pescar' mais gente pela rua comecei a perceber o que se passava. Procuravam pessoas 'fora de conduta'. Queriam 7 000 SEFA (8 euros). Acabaram por aceitar os 5 000 que tinha no bolso e ainda nos deram uma boleiazinha para mais perto do acampamento." Se a campanha de crowdfunding chegar a bom porto (indiegogo.com/projects/solar-powered-cinema-mission-mongolia#/ story), conseguirão angariar 3 600 euros até 2 de agosto, e levar a sua sala de cinema itinerante para a China e para a Índia. Ainda há muitas crianças espalhadas pelo mundo à espera de ver cinema pela primeira vez.


"Um terço da produção alimentar vai para o lixo"

por Céu Neves, in Diário de Notícias

A política agrícola está errada: produzimos demais e desperdiçamos, apesar da fome em muitas áreas do mundo. Hilal Elver está em Lisboa para a conferência "Direito humano a uma alimentação adequada".

É desde 2014 relatora da ONU para o Direito à Alimentação. O que é que fez neste primeiro ano?

Não estava familiarizada com os pormenores e há que definir prioridades. A minha prioridade, o que penso que é mais importante, é o empoderamento das mulheres, a relação entre o direito à alimentação e o papel das mulheres na agricultura. É uma das formas de eliminar a fome e de fazer que as crianças sejam mais saudáveis.

As mulheres podem fazer diferente?

Têm um papel fundamental, especialmente as mulheres rurais em África e no Sul Asiático. Os homens vão para as cidades trabalhar ou são refugiados. As mulheres ficam em casa, com as terras e as crianças. Mais de 60% dos agricultores são mulheres e só têm 2% do direito da propriedade, esse pertence ao pai, ao marido ou aos irmãos. Elas tratam da terra e dos filhos e não têm dinheiro nem apoios. Isso tem de mudar. Há projetos dedicados às mulheres, nomeadamente na ONU, mas é minha intenção incrementá-los para que o seu papel se torne mais visível.

Falou em crianças saudáveis, mas vivemos num mundo de contrastes. Se, por um lado, se morre de fome, por outro morre-se por comer em excesso e mal.

Reino Unido recruta em Portugal profissionais de saúde

in Público on-line (P3)

Há centenas de vagas para várias áreas da saúde em variados pontos do Reino Unido. Salários anuais variam entre os 30 e os 49 mil euros

Enfermagem, Radiologia, Anatomia Patológica, Análises Clínicas, Nutrição, Fisioterapia, Terapia da Fala, Terapia Ocupacional, Audiologia, Cardiopneumologia e Podologia. A Vitae Professionals, empresa portuguesa de recrutamento internacional, está a organizar dois "Open Days" para profissionais de saúde, na Madeira e no Porto, e tem "centenas de oportunidades" para apresentar.

Os dois eventos, a decorrer a 22 de Agosto (Madeira) e a 3 de Setembro (Porto) são uma oportunidade para conhecer os hospitais britânicos e as propostas existentes. Os participantes poderão contar com palestras de profissionais com experiência no Reino Unido e consultores de recrutamento sobre a vida e o trabalho no estrangeiro.

As propostas que vão ser apresentadas, espalhadas por todo o Reino Unido, podem ser para contratos permanentes ou para trabalho agenciado. Os ordenados variam consoante a área e experiência do candidato, mas vão desde as 21 mil até às 34 mil libras (entre 30 e 49 mil euros). As ofertas podem ainda incluir alojamento e oferta de voos.

Para se inscreverem nos "Open Day" e esclarecer qualquer dúvida, os profissionais de saúde deverão enviar email para info@vitaeprofessionals.org, indicando do assunto “Open Day Madeira” ou “Open Day Porto”.

Quase 36% dos partos nos hospitais públicos são feitos sem epidural

Romana Borja-Santos, in Público on-line

Realidade varia muito de uma unidade para outra. Opção das mulheres, velocidade do parto e falta de anestesistas explicam o valor.

Em Agosto de 2009 chegou o João. Nasceu no Hospital de S. Francisco Xavier, em Lisboa. Célia Silva deu entrada na maternidade já com o trabalho de parto bem encaminhado e duvidou se precisaria de epidural, mas perante os conselhos da equipa de enfermagem aceitou-a. “Foi uma maravilha, pude aproveitar muito mais o momento”, conta. Por isso, quatro anos depois, em Novembro de 2013, não duvidou de que queria fazer o mesmo no parto de Tiago. Só que o anestesista, desta vez na Maternidade Alfredo da Costa (MAC), já não chegou a tempo. “Senti tudo, acho que até mordi a enfermeira e não vivi o nascimento da mesma forma por causa da dor”. Cerca de 36% dos partos realizados nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) são feitos sem qualquer analgesia, de que a epidural é o exemplo mais conhecido.

De um total de 70.692 partos registados em 2013, houve 44.956 que contaram com a participação de um anestesiologista, isto é, menos de 64% do total. Tendo em consideração que as cesarianas são necessariamente feitas com analgesia, isto significa que de fora ficam principalmente os partos vaginais, como o de Célia. Em alguns casos o valor reflecte a vontade das mulheres ou a velocidade a que se desenvolveu o parto, mas a explicação também está na carência de anestesiologistas. Os números fazem parte de um trabalho conduzido pelo Colégio de Anestesiologia da Ordem dos Médicos com o objectivo de apresentar uma fotografia da realidade nacional nesta especialidade.

A analgesia nos partos é apenas um dos pontos no estudo, pelo que não é possível aprofundar alguns dados. Por exemplo, não é possível perceber em concreto qual a proporção de epidurais apenas nos partos por via vaginal, uma vez que a resposta foi conjunta com as cesarianas e que ainda há casos, como as anestesias gerais nas cesarianas, que podem estar de fora destas 44.956 analgesias avançadas pela Ordem dos Médicos, explicou ao PÚBLICO o presidente do Colégio de Anestesiologia daquele organismo, Paulo Lemos.

O estudo da Ordem dos Médicos salienta que se tivermos em conta que houve quase perto de 83.000 partos em 2013 e que 85% aconteceram em hospitais públicos “o valor encontrado de 44.956 analgesias poderá corresponder”, no máximo, a dois terços dos “partos ocorridos nos Serviços de Obstetrícia dos Hospitais do SNS”. Paulo Lemos salienta que o número é “positivo” quando comparado com realidades como a do Reino Unido, “onde há um valor de epidural mais baixo”. No entanto, o anestesiologista recorda que, regra geral, os hospitais ingleses oferecem outras alternativas tanto no desenrolar no parto como no controlo da dor.

Célia acabou por ter mais estas experiências diferentes no segundo parto na MAC, para onde foi encaminhada devido a um problema de coagulação que obrigava ao uso de um medicamento não disponível no S. Francisco Xavier. “Como o anestesista não vinha, os enfermeiros deixaram-me circular e usar uma bola de pilates para ajudar na dilatação. Isso aliviou, mas o problema é que já tinha a expectativa de pedir a epidural e a dor é mesmo exponencial. As enfermeiras até repetiram várias vezes ‘olhem que esta senhora quer epidural´, mas o anestesista quando chegou já estava o bebé a sair”, relata ao PÚBLICO. Além disso, no primeiro parto fez aulas de preparação e neste acabou por não conseguir, pelo que teve menos “treino psicológico para lidar com a dor”.

Para esta mãe de 39 anos, as portas da natalidade já se fecharam. Pela idade e por questões financeiras. “Não é pelo segundo parto, ainda que sinta que não tenha aproveitado tanto o momento, porque na maior parte do tempo nem os olhos conseguia abrir”. Célia ressalva que, apesar de tudo, teve sorte. No primeiro parto esteve várias horas em casa com contracções. Chegou ao hospital às 10h30 e o João nasceu às 15h00, com 3,7 quilogramas. No caso de Tiago, entrou na MAC 14h às sem qualquer dilação e o bebé nasceu às 19h00 com 3,7 quilos. “Se fosse ao contrário era pior”, brinca, entre risos. “Mas acho que esta insegurança da epidural faz com que muitas mulheres corram para o privado, com medo da dor. Depois claro que há imensas cesarianas por medo.”

O obstetra Diogo Ayres de Campos, do Hospital de São João e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, começa por dizer que a utilização de epidural em Portugal está “enraizada culturalmente”, muito mais do que em alguns países com que nos comparamos. O também presidente da Comissão Nacional para a Redução da Taxa de Cesarianas defende, por isso, que “os valores nacionais são bons” e que o principal problema está nas assimetrias no acesso à epidural. Se nos grandes hospitais universitários o peso dos partos com epidural ultrapassa largamente os 90%, há casos onde o valor não atinge sequer os 20%.

Os valores da Ordem dos Médicos estão em linha com alguns dos números identificados em 2009 num estudo da anestesiologista Maria Rui Crisóstomo, do Hospital de Braga. A clínica adiantava que a epidural é o método privilegiado para aliviar a dor durante o parto, mas alertava que o acesso a esta técnica variava entre os 37% e os 93% nos vários hospitais públicos do país, consoante tanto a unidade de saúde como a hora do trabalho de parto. O problema da assimetria salientado por Ayres de Campos era um dos alertas deixados pelo trabalho. Em teoria o anestesista tem de estar disponível 24 horas por dia, independentemente da unidade ou da hora do parto.

“O principal problema está nos hospitais do interior, em que não há um anestesiologista em exclusivo na obstetrícia”, diz Ayres de Campos. De acordo com os dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), citados pelo médico, os valores mais baixos na analgesia dos partos de 2013 encontram-se nos centros hospitalares do Alto Ave, Gaia/Espinho, do Médio Tejo, Cova da Beira e Algarve, nas unidades locais de saúde do Nordeste e de Castelo Branco e no Hospital Distrital de Santarém. Em muitos destes casos o valor nem sequer ultrapassa os 20%.

O especialista considera que a epidural “tem de estar disponível”, cabendo à mulher decidir se quer ou não, “até porque no momento do parto, mesmo as que não queriam, acabam por pedir”. O clínico defende que controlar a dor é uma questão de “humanização” de um momento tão importante como o nascimento e salienta que o nível de dor varia muito de mulher para mulher.

Paulo Lemos lembra, contudo, que com a falta de anestesiologistas no SNS é cada vez mais difícil chegar a outras áreas que não a cirurgia convencional. Paulo Lemos destaca que além dos partos é urgente contar com mais profissionais na área controlo da dor aguda no pós-operatório, dor crónica ou sedação nos exames complementares de diagnóstico e terapêutica. O trabalho da Ordem dos Médicos alerta que o problema da falta de anestesiologistas tem vindo a agravar-se, com as contas a apontarem para que sejam necessários mais 467 clínicos desta especialidade em todo o país.

A carência é agravada pelo facto dos mais de 1200 anestesiologistas que estão nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde trabalharem, regra geral, simultaneamente no sector privado. Só 40% destes médicos estão nas instituições públicas com um contrato de trabalho de 42 horas e em regime de exclusividade. Há ainda mais 200 profissionais que já só trabalham no sector privado. Até 2020, a Ordem dos Médicos acredita que se podem formar dois terços dos mais de 400 profissionais em falta. Mas o problema poderá manter-se se o sector público não os conseguir fixar e ter outro tipo de organização.

O tema da presença do anestesista para proporcionar uma epidural é, aliás, recorrente nos fóruns online onde mães, grávidas e “treinantes” (nome dado a quem está a tentar engravidar) partilham informação sobre esta fase da vida. Dos eventuais riscos ou ineficácia da epidural, às vantagens de um parto com menos dor, são várias as perguntas e dúvidas formuladas no fórum onde conhecemos Célia. Há quem considere a dor suportável, há quem a ache impossível de descrever, há quem deixe sugestões para preparar o colo do útero para uma melhor dilatação. Nos testemunhos que escreve, Célia diz não ter dúvidas de que “quem conhece a epidural não quer outra coisa”.

Está sentado? Levante-se para ler este artigo e não perder anos de vida

por Patrícia Jesus, in Diário de Notícias

Está sentado? Levante-se para ler este artigo e não perder anos de vida


Ficar sentado muitas horas seguidas - mesmo com boa postura, mesmo para uma pessoa que faz exercício regularmente - é mau para a saúde. Veja seis conselhos para não se esquecer de se levantar.

Quer esteja a ler este artigo no computador, tablet ou telemóvel, é provável que esteja sentado. Uma atividade (ou falta dela) que tem sérias consequências para a saúde. "Estar muito tempo numa posição, seja ela qual for, não é bom para o sistema musculoesquelético. As nossas articulações alimentam-se de movimento", explica o médico Jorge Laíns, presidente eleito da Sociedade Internacional de Medicina Física e de Reabilitação.

E não são só as articulações: o sistema metabólico e o coração também. Assim, além das dores nas costas, estar sentado muito tempo seguido aumenta o risco de doença cardiovascular, obesidade, diabetes e até de alguns cancros, como o do cólon, lembra o médico. E segundo vários estudos, esse risco é independente da quantidade de exercício que as pessoas fazem - embora uma boa condição física seja importante, porque são os músculos que protegem as articulações e a coluna.

Agora, tente somar todas as horas que passa sentado por semana: do trabalho ao sofá de casa, sem esquecer o tempo nos transportes públicos ou no carro. Durante estes períodos gasta muito pouca energia, o que favorece o ganho de peso. Peso a mais que, por sua vez, coloca pressão nas costas, sobretudo se estiver sentado há demasiado tempo - mais de 20, 30 minutos seguidos.

Assim, além de fazer exercício regularmente, é igualmente importante fazer pausas para se levantar e dar uns passos quando está a trabalhar. Para que não se esqueça, aqui ficam seis dicas:

Diagnóstico

Comece por perceber quantas horas por dia passa sentado. Identifique os momentos em que pode evitá-lo, nomeadamente em casa e nos transportes.

Lembretes analógicos

Se trabalha em frente a um computador ou máquina afixe um lembrete num local visível: escreva um post-it, com um recado para si próprio, e deixe-o num local para o qual olhe muitas vezes.

Lembretes digitais

Instale um programa ou aplicação para avisá-lo que deve fazer uma pausa de 20 em 20 minutos e levantar-se de hora a hora. Se não trabalha com um computador, mas a conduzir ou em frente a máquina, use o telemóvel.

Truque da garrafa
Está sentado? Levante-se para ler este artigo e não perder anos de vida

Tenha uma garrafa de água pequena consigo: vai precisar de levantar-se para enchê-la.

Recados

Quando tiver um recado para dar, levante-se em vez de mandar um e-mail. Opte pelo caminho mais longo.

Exercício

Estar em boa forma é importante para suportar a tensão que estar m uito tempo sentado coloca sobre o seu corpo. Mas se já sofre de dor nas costas, aconselhe-se com o seu médico sobre o tipo de exercício: evite desportos com movimentos rá pidos, torções ou choques; a natação e a hidroginástica são indicadas.

Ser mulher é difícil mas também é bom

Sofia da Palma Rodrigues (Texto) e Elisabete Monteiro (Fotografia / /Bagabaga Studios), in Público on-line

Mulheres, africanas, guineenses. Trabalham de sol a sol para sustentar a família e pagar a escola dos filhos, que sonham um dia ver na universidade.A 31 de Julho celebra-se o Dia Internacional da Mulher Africana.
Pub

Jorgete tem porte de diva, é uma activista pelos Direitos da Mulher embora na Guiné-Bissau não lhe atribuam expressões com tanta pompa. “Inspiração”, “mamã”, “modelo a seguir”, “exemplo de força e coragem”, “alguém que não se cansa de lutar por nós”, é assim que as colegas da associação de costura onde trabalha a referem. Gosta de falar — alto, pausadamente, com garra a transpirar do discurso —, especialmente quando tem muita gente a ouvi-la: “Aqui os homens não trabalham, são as mulheres que batalham para pôr os filhos na escola, para os vestir, para lhes dar de comer. Se tivermos o nosso próprio dinheiro, deixaremos de ser tão dependentes.”

Quase metade da população guineense (46%) não sabe ler nem escrever. As mulheres representam 63,2% deste universo (a percentagem de analfabetismo masculino é de 36,8%), de acordo com os últimos censos realizados no país em 2009. Jorgete finta as estatísticas. Sim, gostava de ter estudado mais do que o 6.º ano de escolaridade, mas aprendeu a virar-se como sabia: “Não é preciso ir à escola para trabalhar com agulhas. Mesmo quem vai à escola pode nunca saber coser.”

Viver o melhor que pode, o melhor que sabe, esse é também o lema de Júlia. Há duas coisas a que nunca diz não: ao trabalho e à oportunidade de aprender mais. Produz óleo de palma, vende frutas e legumes na praça, trabalha nos campos de caju e ainda está a aprender Português, Inglês e Francês, duas vezes por semana, ao final da tarde. Julia tem tantos ofícios que, quando os conta com a ponta dos dedos, acaba sempre por se perder.

O Relatório de Desenvolvimento Humano de 2014, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), refere que na Guiné-Bissau há mais homens (78,5%) economicamente activos do que mulheres (68,1%), mas contabiliza apenas a “força de trabalho que se destina à produção de bens e serviços num determinado período de tempo”, deixando de fora as actividades praticadas pela maioria das mulheres diariamente e que garantem o sustento das famílias.

Ao contrário de Júlia, Safieto não sente vontade de ir à escola, lugar que nunca conheceu. Tinha 15 anos quando se casou com um homem três décadas mais velho, que só conheceu no dia do casamento. É uma das mulheres que dão rosto aos números: 37,1% das meninas guineenses casam-se antes dos 18 anos e 59,6% das adolescentes entre os 14 e os 19 anos estão casadas com um homem pelo menos dez anos mais velho, segundo o Inquérito aos Indicadores Múltiplos de 2014 publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Hoje, com quatro filhos, Safieto não se queixa do que tem — “acho que vivo bem” — e diz que gosta muito do marido: “Sou eu que trabalho para comprar comida, mas, quando não tenho dinheiro, ele dá-me.”

Cecília está a passar uma fase menos boa. Vive com o marido em Elalab, uma ilha isolada com cerca de 200 habitantes no Norte da Guiné-Bissau. É uma saudosista dos tempos em que tinha a casa cheia com os cinco filhos, que entretanto se mudaram para Bissau, a capital. Diz que está tudo a mudar: “A tabanca [aldeia] não tem nada para oferecer aos mais jovens, só os velhos é que cá ficam. Cada vez faz mais calor, chove menos e quase não há variedade de peixe.” No ano passado, com a subida do nível da água do mar, a sua plantação de arroz inundou-se e ficou sem comida para enfrentar a época seca [entre Outubro e Junho]. A pobreza não monetária atinge 40% da população da Guiné-Bissau, desta, 60,3% vive em áreas rurais e apenas 8,4% em centros urbanos — os números são do relatório “Guiné-Bissau: Segundo Documento de Estratégia Nacional de Redução da Pobreza”, realizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2011. “Tem sido um período difícil mas este ano vai ser diferente. Comemos arroz de manhã, à tarde e à noite. Para os flupes [uma das mais de 30 etnias do país], arroz é riqueza, se não tens arroz, estás na desgraça.”

Júlia M’bana, 30 anos

Levanto-me todos os dias às cinco da manhã e trabalho até o sol se pôr. Faço sabão, vendo bananas no mercado, trabalho nos campos de caju, colho chabéu [fruto do dendezeiro, uma espécie de palmeira] e produzo óleo de palma na Associação Sitna Bissif [“extracção de óleo de palma” em crioulo], onde sou secretária. Sou eu quem sustenta a casa: vivo com a minha sogra, os irmãos do meu marido, a minha avó, as minhas duas filhas, a minha cumbossa e os filhos da minha cumbossa. Ao todo, compro comida para 11 pessoas, quando não tenho dinheiro peço ajuda à minha avó, mas ela também já está velha. Comemos arroz a todas as refeições e, quando é possível, ponho peixe para acompanhar. O meu marido foi trabalhar para Cabo Verde e nunca mais voltou, há sete anos que não o vejo, que tomo conta das nossas filhas sozinha. De vez em quando, telefona: diz que a vida lá é difícil, que há muita crise, que não nos pode ajudar aqui em Cacheu [cidade da costa norte da Guiné-Bissau], mas que deve voltar no final deste ano. Os homens africanos não querem trabalhar no duro, são sempre as mulheres que cortam a lenha, carregam a água, varrem a casa, cuidam da horta e vendem na feira. Comecei a namorar com o Martinho muito nova, mas ele engravidou outra e eu tornei-me na sua segunda esposa. A minha cumbossa foi ao meu casamento, mesmo que eu não quisesse que ela fosse, o que é que podia fazer? Gostava de ter mais um filho, um homem. Também queria arranjar um namorado, mas tenho medo: seria obrigada a deixar as minhas filhas na casa do meu marido. É por causa de elas que não arrisco, talvez um dia, quando estiverem crescidas… Se o meu marido voltar, fico feliz porque ele vai ajudar-me e não terei de trabalhar tanto. Para onde quer que me vire, só vejo trabalho. Quero ganhar dinheiro para pagar os colégios, comprar roupas novas e cabelo [extensões artificiais] para mim e para elas e poder ir ao médico, se for preciso. Não sou doutora, mas elas vão ser: estudam na escola privada [as escolas públicas da Guiné-Bissau têm uma má reputação porque, durante o Governo de Transição — entre Maio de 2012 e Junho de 2014 —, os professores faziam várias greves para reivindicar pagamentos em atraso] e quero que vão para a universidade. A minha vida mudou depois de ter entrado na Associação Sitna Bissif, no dia 10 de Outubro de 2008. Antes, não tinha nem 100 francos CFA [cerca de 15 cêntimos] para comprar sabão. Hoje somos 51 mulheres e 14 homens e juntos conseguimos produzir muito mais óleo de palma do que se estivéssemos sozinhos. Quando estou triste e vou trabalhar com elas, brincamos, conversamos, aconselhamo-nos umas às outras e fico mais contente. Esta união ajuda a ter muitas ideias. Estou a estudar Português e Francês, quero sempre aprender mais.

Jorgete Benante, 59 anos

Nasci em 1956, isso são quantos anos? Durante a guerra [Guerra da Independência da Guiné-Bissau que começou em 1963], os meus pais fugiram comigo e com a minha irmã para o Senegal. Estudei num colégio de freiras, por isso é que falo francês tão bem. Depois casei, tive filhos e não voltei mais à escola. O meu marido viajou para Portugal e nunca mais disse nada, abandonou-me com duas crianças. Quando regressei à Guiné, conheci um rapaz 13 anos mais novo, que tinha acabado de regressar de Cuba, onde estudava. Ele começou a andar atrás de mim, mas eu dizia que não queria nada, tinha medo. Insistiu tanto que acabei por aceitar, vivemos juntos há 20 anos e temos três filhos. É o meu marido, não casámos mas dividimos a vida. Sou cristã, quando vou à igreja, sinto o meu coração confiante, alegre. É como quando passas água no corpo, sentes-te fresca. Depois da missa, digo “bom dia” a toda a gente e venho para casa, comprar comida na feira e fazer o almoço. Aqui em São Domingos todos me tratam por Iaié [mamã em crioulo], alguns nem sabem que me chamo Jorgete. As pessoas ouvem-me, sou muito respeitada. Já trabalhei no campo, nas limpezas, mas agora só costuro e planto arroz, dói-me as costas, já sou mindjer garandi [“mulher velha” em crioulo]. Sempre brinquei com agulhas. Como não estudei muitos anos, um dia pensei: o que é que eu posso fazer? Uns vão à escola, eu sei costurar. Quando vejo um modelo de que gosto, deito-me e fico a imaginar. Depois, às vezes a meio da noite, levanto-me, ligo a luz, pego no tecido e começo a coser. Quando termino, volto a deitar-me. Sou a presidente da Associação Dja Guimabilar [ “nós fazemos” em manjaco, uma das mais de 30 línguas faladas na Guiné-Bissau]. Somos nove mulheres e um homem — o costureiro é sempre um homem —, vamos recuperar a tradição de tingir e bordar panos. Tivemos formação e aprendemos a fazer modelos modernos, para vender mais. Queremos que este seja o nosso rendimento de final do mês, se as mulheres ganharem o seu dinheiro, não dependem tanto dos homens. É difícil ser mulher na Guiné, mas também é bom. Se o nosso trabalho tiver sucesso, vou construir uma casa com quartos para os meus cinco filhos e para os meus netos, já tenho o terreno mas falta-me dinheiro para a erguer. Passo as tardes na associação e à noite também costuro. Como não tenho luz em casa, ponho a lanterna no ombro e seguro-a com a cabeça. Às vezes até coso na cama. Uma vez em que fui ao Senegal, vi um rapaz na feira que costurava sacos de arroz. Vim para casa a pensar nisso e depois começaram a sair modelos da minha cabeça: bordei os sacos de arroz que tinha em casa e fiz malas de diferentes formatos. Vou levar a ideia para a associação: não penso no rendimento só para mim, também olho para elas, este dinheiro ajuda-nos muito.

Cecília Djedjo, 56 anos

Vivo com o meu marido em Elalab, já fomos muitos cá em casa, antes de os meus cinco filhos irem para a cidade. A tabanca não tem nada para oferecer aos mais jovens, só os velhos é que cá ficam. Cada vez faz mais calor, chove menos e quase não há variedade de peixe. No ano passado, o terreno onde plantei o arroz foi inundado de água salgada, perdemos tudo e ficámos sem ter que comer. Para os flupes, arroz é riqueza, se não tens arroz, estás na desgraça. Como sobrevivi? Os vizinhos convidaram-me a participar na colheita nos seus terrenos e deram-me algum arroz. Comi uma parte com o meu marido e a outra guardei, para ter sementes e poder plantar este ano sem ter de pedir a mais ninguém. Vendi os animais domésticos — cabras e porcos —, e os meus dois filhos que estavam a estudar em Bissau tiveram de ir trabalhar para ganhar algum dinheiro. Compraram-nos três sacas, é isso que temos comido durante a época seca. Quando o meu marido consegue apanhar peixe, eu vou na piroga [canoa de madeira] com outras mulheres e vendo-o no mercado. Procurei alternativas, precisava de fazer alguma coisa para poder comprar outros alimentos: comecei a costurar na máquina que a minha irmã mais velha me ofereceu — as pessoas trazem os tecidos, pagam-me o serviço e com esse dinheiro compro comida. Também tento plantar batatas, milho, tomates, mas não é fácil, o terreno de Elalab é pouco fértil e os porcos destroem as plantações. Na tabanca de Elalab somos todos flupes, a maioria é animista mas a minha família é católica, vivemos no bairro católico. Por tradição, quando o homem morre primeiro do que a mulher, a casa e os animais do casal têm de ser destruídos. A mulher terá de ir viver para um anexo na casa do irmão mais velho do marido ou pedir aos filhos para lhe construírem uma nova casa. Não é bem visto manter os bens de alguém que morreu. Connosco isso não vai acontecer, somos católicos. Se o Zé morrer primeiro do que eu, ficarei com a casa e com os animais. Esta tradição é uma forma de tirar poder às mulheres, não faz sentido nos dias de hoje.

Safieto Djaló, 31 anos

Sou a responsável pela limpeza da área das mulheres no Mercado de São Domingos [cidade fronteiriça no Norte da Guiné-Bissau]. Levo duas horas a limpar tudo e depois vou vender cebolas, tomates, chuchu, manteiga de amendoim, óleo de palma… Ganho 15 mil francos CFA (cerca de 17,5 euros) por mês, vivo com o meu marido, os nossos filhos e a minha cumbossa [“rival” em crioulo e refere-se à primeira mulher do marido]. Só à quinta-feira é que não varro, é dia de lumo [feira semanal], o mercado fica cheio. Faço muitas coisas para poder ganhar dinheiro porque o meu marido já não tem força, tem idade. Mesmo assim, quando o dinheiro não chega, ele ajuda com o que ganha no corte de lenha. Eu e a minha cumbossa? Damo-nos bem, somos muito amigas. A primeira vez que vi o meu marido foi no dia do casamento, o meu irmão mais velho é que o conhecia. Quando olhei para ele, quis desistir, mas ia fazer a minha mãe passar por uma grande vergonha, tive de aceitar. Casámos há 16 anos, ele tem mais uns 40 anos do que eu, temos quatro filhos. Dantes se a mulher rejeitasse casar, era espancada, mas agora com a escola isso já não acontece… Como não fui à escola, gosto de ver a telenovela na TV Record, aprendo muita coisa que não sabia, dá-me ideias. Aprendi a mimar, a abraçar, a falar bem com o meu marido e os meus filhos. Se não vais à escola e não vês novelas, não sabes nada, nada, ficas burra. Quando chega às nove da noite, as mulheres da vizinhança reúnem-se todas a ver televisão num sítio aqui próximo. Se eu não tiver trabalho para fazer, vou com os meus filhos, só o meu marido é que fica em casa. Gostava de ter um painel solar no telhado para poder ter um ecrã só para mim. Acho que vivo bem: pago a escola dos meninos e compro comida. A diversão é só no Tabaski e no Ramadão [as duas maiores festas muçulmanas] ou quando há um casamento… Se vamos a uma cerimónia, nós os fulas [outra das etnias guineenses] compramos sempre roupa nova, matamos um porco e oferecemos algum dinheiro. Gosto da Guiné-Bissau, aqui és livre, ninguém te chateia. No Senegal há melhores condições, mais limpeza, mais verduras, mas se não tens dinheiro, não vives. Na Guiné podes viver sem dinheiro porque o guineense tem pena do seu companheiro.

Este trabalho foi realizado com o apoio da ONGD Monte

24.7.15

Há mais camas de cuidados continuados, mas menos vagas no domicílio

Romana Borja-Santos, in Público on-line

No total, entre internamento e apoio em casa a rede tem 13.926 vagas. Número de camas está aquém da promessa de Paulo Macedo.
As unidades de média e de longa duração são as mais procuradas Adriano Miranda

O número de camas na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) ultrapassou no ano passado as 7000 vagas. A estas somam-se os 6776 lugares de apoio no domicílio, mas que ao contrário das camas viram o seu número cair de 2013 para 2014. Os dados fazem parte do Relatório Anual sobre o Acesso a Cuidados de Saúde nos Estabelecimentos do SNS e Entidades Convencionadas de 2014.

O documento do Ministério da Saúde indica que, globalmente, a rede cresceu 1,7% de 2013 para 2014, contando com um total de 13.926 lugares disponíveis entre internamento e apoio domiciliário, numa proporção de 51% e 49%, respectivamente. As vagas em internamento subiram de 6642 para 7160. No entanto, o apoio em casa é agora mais reduzido, com uma queda de 7063, em 2013, para 6766, no ano passado. A tutela justifica a redução com “o ajustamento” feito nas equipas por “questões de qualidade assistencial e de rentabilização da capacidade instalada nestas equipas”.

Mesmo com o aumento de camas, dificilmente Paulo Macedo chegará ao final do mandato cumprindo as metas definidas para o internamento. A demora no processo de abertura obrigou a uma revisão das metas iniciais da rede para 2016, que foram alteradas ainda em 2012, de 15 mil camas para pouco mais de 11 mil. Porém, ao ritmo que tem vindo a ser seguido, o objectivo é praticamente impossível de atingir.

Em relação aos utentes, a procura cresceu 4,4% em 2014, com 41.657 pessoas a serem referenciadas para a RNCCI. “No total acumulado de utentes referenciados para a Rede, desde o seu início em 2006, foram já atendidos 216.600 utentes”, diz o relatório. A maior parte das novas vagas são nas chamadas Unidades de Longa Duração e Manutenção, que detêm aliás mais de 57% do total de camas de internamento. Os doentes permanecem, em média, 164 dias nestas unidades.

As assimetrias continuam a ser um problema da RNCCI. A comparação é feita tendo em conta o número de camas por cada 100 mil habitantes com mais de 65 anos. Os números variam de um máximo de 594 no Alentejo para um mínimo de 239 em Lisboa e Vale do Tejo. Aliás, esta região é também a que tem menos vagas domiciliárias pelos mesmos 100 mil habitantes. São apenas 536 quando no Algarve a proporção é de 2104.

A pressão sobre a RNCCI traduz-se em tempos de espera acima do recomendado entre o momento em que o doente é referenciado e a altura em que se encontra uma vaga. O Ministério da Saúde indica que, “globalmente, 72% dos tempos melhoraram, em relação a 2013”, mas há casos que se agravaram como o tempo de espera por uma vaga numa unidade de média duração no Algarve, que se situou em mais de 29 dias. A maior espera, de 53 dias, é por um lugar numa unidade de longa duração no Alentejo – mesmo assim abaixo dos quase 71 dias registados em 2013.

O tempo de espera para as unidades de cuidados paliativos é também um problema, uma vez que, pela gravidade dos casos, os doentes costumam estar menos tempo internados, com a esmagadora maioria dos desfechos a serem óbitos. Em 2014 o tempo de espera variou entre cinco dias na região norte e mais de 33 dias em Lisboa e Vale do Tejo. A permanência dos doentes nestas unidades é, em média, de 37 dias. O valor representa “tendo um acréscimo de 42% em relação a 2013” e o relatório considera que este aumento “pode significar uma referenciação mais precoce”.

Paradoxalmente, as camas de cuidados paliativos caíram de 195, em 2013, para 185 no ano passado, devido a encerramentos na região norte. O problema nos cuidados paliativos já foi reconhecido neste ano pela tutela, que se comprometeu a abrir mais 150 camas até ao final de 2015. O Ministério da Saúde determinou também que todos os hospitais devem passar a ter uma equipa dedicada aos cuidados paliativos.

Sobretaxa de IRS baixa para 2,8%. Saiba quanto pode recuperar

por Cristina Nascimento, in RR

As contas baseiam-se no exercício verificado durante o primeiro semestre deste ano. Acertos terão lugar no próximo ano, quando fizer o IRS.

O Governo estima devolver aos contribuintes 0,7 pontos percentuais da sobretaxa de IRS, referente ao ano de 2015. Esta sobretaxa é actualmente de 3,5%, mas, a manter-se o ritmo actual da receita fiscal, será reduzida para 2,8% este ano.

As contas, divulgadas esta sexta-feira, baseiam-se no exercício verificado durante o primeiro semestre deste ano.

Desde 2013, trabalhadores e pensionistas pagam uma sobretaxa de 3,5%, mas no Orçamento do Estado para 2015 foi estabelecido que a sobretaxa seria total ou parcialmente devolvida se a soma das receitas de IRS e IVA ficarem acima das projecções do orçamento.

No primeiro semestre de 2015, a soma das receitas de IRS e IVA estão 4,2% acima do que o registado no mesmo período do ano anterior. No Orçamento de Estado, para a totalidade de 2015, o Executivo previa um crescimento de 3,5%.

A Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais faz dois cenários, tendo por base os rendimentos de 2015 e partindo do princípio que se mantém o comportamento da economia:

-- Uma pessoa solteira, trabalhador dependente, sem filhos, com rendimentos de 1.750€ mensais receberá um crédito fiscal de 88,62€.

-- Uma pessoa casada, trabalhador dependente, dois filhos, com rendimentos de 2.500€ mensais receberá um crédito fiscal de 156,05€.

No Portal das Finanças, está em funcionamento um simulador, no qual cada contribuinte pode introduzir o valor dos seus rendimentos e aferir com exactidão o que previsivelmente lhe será devolvido em 2016.

A prostituição (quase) à beira da estrada nas fotografias de Valter Vinagre

Sérgio B. Gomes, in Público on-line

A prostituição à beira da estrada encerra um mundo lúgubre, violento e frágil. Em Posto de Trabalho, o fotógrafo Valter Vinagre decidiu olhar para o que se esconde além das valetas e dos lugares de espera. Encontrou de tudo.

Em Posto de Trabalho (Museu da Electricidade, Lisboa, até 20 de Setembro) não há ninguém, mas não falta gente
Valter Vinagre


Volta e meia, Valter Vinagre regressa à estrada.
Posto de Trabalho


Artista(s):Valter Vinagre

Não admira, porque cresceu com ela nas traseiras de casa. A Nacional 1 - que atravessa a terra onde nasceu e cresceu (1954, Avelãs de Caminho, Anadia) – fê-lo compreender a força vital de uma linha alcatroada. E mostrou-lhe o quão violento pode ser o universo que a rodeia. Em 2003, revelou Para, imagens de espaços, flores e memoriais levantados para fazer o luto a vítimas de acidentes nas estradas. E foi durante a captação dessa série que começou a interessar-se pelo universo da prostituição que faz da estrada o seu posto de trabalho. Em vez de olhar simplesmente para o lado, Vinagre embrenhou-se no mato, em descampados inóspitos e lugares lúgubres, à procura das construções improvisadas que servem de recato às prostitutas, os lugares onde recebem quem as procura. Em Posto de Trabalho (Museu da Electricidade, Lisboa, até 20 de Setembro) não há ninguém, mas não falta gente. No lusco-fusco aplicaram-se luzes fortes para deixar a cortina meio aberta, meio fechada. Durante o trabalho houve “medo” e a sensação de estar sempre à “mercê”. Conversa com um fotógrafo irrequieto, num fim de tarde abafado.

As fotografias de Posto de Trabalho têm um lado cénico muito forte. Porque quis trabalhar com uma luz tão incisiva? Não tem receio de passar uma abordagem estetizada do mundo da prostituição?
Não. Quando comecei a fotografar, há uns quatro ou cinco anos, fui abandonando várias estratégias de aproximação formal ao tema. Deixei-as pelo caminho porque me pareceram iguais ao que já conhecia. Se mantivesse a realidade tal como a encontrei, o trabalho não ia para o caminho que queria. Ao optar por luz artificial e por não ter presença humana física, escolhi o caminho da metáfora. Costumo dizer que estas fotografias estão cheias de gente, embora não vejamos lá ninguém. Creio que ao vermos estas imagens é-nos difícil passar ao lado de uma carga humana. Quis mostrar algo que não tinha tido grandes abordagens pela fotografia em Portugal. Na verdade, quando percorremos uma estrada vemos pouco do que se passa à sua volta ou para lá do que está nas suas margens. No caso da prostituição, o que vemos é uma mulher mais ou menos jovem, mais ou menos bela e mais ou menos despida. E não vemos mais nada. Elas acabam por funcionar como uma espécie de cortina sobre o que se passa nas suas costas. Mas eu decidi com este trabalho não correr totalmente essa cortina. E acho que a luz artificial contribuiu para isso - esconde mais do que mostra.

Tem um efeito de encandeamento?
Sim. É uma luz teatral. Provavelmente, algumas pessoas acharão que estarei de alguma maneira a dourar a pílula, mas o que pretendo é exactamente o contrário.

Quis que olhássemos mais para o lado, em vez de olharmos apenas em frente?
Isso mesmo. Uso a história da Alice no País das Maravilhas para muita coisa e aqui também se pode usar. Quando ela atravessa o espelho tudo se transforma. Estas imagens até podem parecer-nos belas, mas se conseguirmos atravessar para além da sua superfície, se passarmos para o outro lado do espelho, perceberemos que a realidade que captam não é bem assim.
Em vez de olhar para o lado, Vinagre embrenhou-se no mato à procura das construções improvisadas que servem de recato às prostitutas, os lugares onde recebem quem as procura ENRIC VIVES-RUBIO

O que o levou até este universo?
Penso muito no que me leva até certos trabalhos. E chego à conclusão que muitas coisas a que me dedico são autobiográficas. Algumas realidades fizeram parte da minha infância de tal maneira que em determinado momento tenho de parar e pensar sobre elas. Nasci numa terra que é atravessada pela Nacional 1. Era uma zona de muitos acidentes. A partir dessas memórias fiz o Para. Quando era pequeno, saía de casa, atravessava o quintal e a estrada e estava na escola. A estrada esteve sempre presente durante a minha infância e, quando olho para trás, noto que o meu trabalho está muito ligado a ela. São cenários de extrema violência. E esse é um dos temas que me interessa tratar – a questão da violência na sociedade contemporânea.

E foi durante esse trabalho que a prostituição à beira da estrada o despertou?
Fui-me aproximando mais, como era inevitável. Houve fotografias que fiz com muito medo. Não tanto por sentir uma ameaça física, mas por me parecer que naqueles locais estamos sempre à mercê de qualquer coisa. Percebi que quando as prostitutas e os clientes vão para os sítios que fotografei também estão à mercê de tudo. Daí essa tensão permanente.

Fotografou estes lugares na presença das prostitutas?
Não. Mas falei muito com elas em todos os locais onde fotografei. Recolhi histórias hilariantes, terríveis, que me serviram para decidir o rumo do trabalho em termos mais formais, como a decisão de abrir ou isolar determinadas zonas com luz. Durante essas conversas, ouvi coisas que são difíceis de acreditar. Podemos imaginar que se possam passar num bordel ou num apartamento, mas nunca no meio do mato. Há todo o tipo de taras a acontecer em locais descampados.
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Estas imagens até podem parecer-nos belas, mas se conseguirmos atravessar para além da sua superfície, se passarmos para o outro lado do espelho, perceberemos que a realidade que captam não é bem assim
Valter Vinagre

Então em que momentos do dia fotografou?
Antes ou depois delas saírem, muito cedo ou então ao cair da noite. Procurei um certo lusco-fusco.

Porquê?
Por um lado, porque me permitia manobrar a luz da maneira que queria. Por outro, não para criar problemas a quem estava a trabalhar.

Levou a câmara nas primeiras abordagens?
Sim, sempre. Foi fácil de convencê-las a deixarem-me fotografar. Quando lhes explicava o trabalho, muitas respondiam num tom de brincadeira algo como “O quê! Mas sem mim?!”

O que lhe interessou tanto neste tema?
Várias coisas. Uma das quais, o lado do improviso de algumas construções. Mas ao mesmo tempo essa fragilidade violenta que está nestes lugares. Penso que a natureza da construção destes espaços e o propósito a que estão ligados foram os aspectos que mais me despertaram.

Encontrou muitos objectos pessoais nestes lugares?
Sim, em muitos casos. Alguns tinham altares com santinhas. Esses objectos fazem com que a presença destas mulheres se acentue em certas imagens. Mas não quis sublinhar demasiado esses pormenores. Quis criar imagens a partir do exercício desta profissão. E interessa-me lançar questões como estas: porque é que os clientes continuam a procurar a prostituição nestas condições? O que leva uma parte da Europa e alguns movimentos em Portugal a quererem criminalizar os clientes, as prostitutas ou o acto?

Mas sentiu que havia uma absoluta falta de imagem sobre esta realidade?
Sim. Quis fazer um trabalho que também possa servir como denúncia. Por exemplo: há uma série de perguntas que se podem fazer acerca da manutenção por largos períodos de tempo de algumas destas construções, porque muitos dos terrenos onde são erguidas são privados. Há muitas histórias que circundam estes lugares que estão para além daquilo que se vê ou pode ser mostrado. Há ciúmes, há amor, há vingança. Em alguns casos, os proxenetas ou os clientes pegam fogo a estes abrigos.

Como se lhes estivessem a destruir a casa…
O posto de trabalho.

Estes lugares parecem esconder um lado muito violento…
São lugares duros, onde há miséria, doença... E por isso tentei não olhar para eles apenas pelo lado estético, que é coisa que por si só não me interessa na fotografia. Não gosto de fazer grandes manifestos com os meus trabalhos, mas gosto que as ideias saiam da minha cabeça.

Que consequência gostava que este trabalho tivesse?
Que se começasse a olhar para esta realidade com menos moralismo, por exemplo. E com mais prática humana.

Continua a haver muita prostituição à beira da estrada?
É muito presente ainda. Existe um pouco por todo lado, em zonas rurais, em zonas industriais, em zonas urbanas. E parece-me que há cada vez mais estrangeiras.

Que tipo de tensão existe em lugares como estes?
Todos os sons se tornam importantes e despertam os sentidos. O que provoca muita tensão. No início senti-me mais ou menos despreocupado, mas depois foi-se tornando mais difícil. Estava quase sempre sozinho. Sentia-me à mercê de qualquer coisa. Os líderes das redes de prostituição e os donos daquelas matas podiam aparecer e achar que estava a estragar o negócio. Nunca aconteceu.

Acha que essa tensão também pode estar relacionada com a identidade que estes lugares vão acumulando?
Sim. E de alguma forma sentia-me um intruso nesse espaço, a interferir nele. Como se estivesse a entrar num local sagrado sem permissão.

E como foi descobrindo estas construções?
A partir do sítio da espera. Em muitos casos, seguia os caminhos já feitos que por sua vez iam dar a lugares mais recolhidos. Esse isolamento sublinhava ainda mais o sentimento de estar a entrar num território proibido.

E onde sentiu maior grau de violência?
Nos lugares onde não havia construções. Onde havia só um tapete ou uma manta. É muito estranho. Senti alguma repulsa.
ENRIC VIVES-RUBIO

Houve fotografias que fiz com muito medo. Não tanto por sentir uma ameaça física, mas por me parecer que naqueles locais estamos sempre à mercê de qualquer coisa. Percebi que quando as prostitutas e os clientes vão para os sítios que fotografei também estão à mercê de tudo
Valter Vinagre

Nos últimos trabalhos tem mostrado aspectos da nossa vida social ligados à violência. Qual é a maior dificuldade ao fotografar estes problemas?
Talvez seja o de não os tornar apenas exercícios estéticos. Se não forem bem pensados e contextualizados correm esse risco. O tempo é fundamental em trabalhos com o grau de complexidade como o que o tema da violência familiar, por exemplo, carrega. Tento amadurecer os trabalhos antes de ir para o terreno. E imaginar as imagens que preciso para concretizar a minha ideia, o meu pensamento e a minha opinião sobre as coisas. Quando sinto que o trabalho não está resolvido, espero.

E pode acontecer resolver um trabalho ainda antes de haver imagens concretizadas?
É fundamental a ideia estar resolvida. O processo funciona como se tivesse um baralho de cartas e fosse deitando fora a palha, as cartas que não valem pontos. Lembro-me de que quando pensei neste trabalho pela primeira vez havia uma grande indecisão entre o dentro e fora.

Como assim?
Tinha de ser na estrada, fora. Cheguei à conclusão que não me interessavam as zonas urbanas e os prostíbulos, os clubes, os cabarés ou os bordéis, coisas que já foram feitas por outros fotógrafos.

E quando se isola um tema para trabalhar, que importância tem essa preocupação com o novo?
Não me preocupo em fazer imagens novas que nunca ninguém tenha feito. Mas enquanto autor procuro uma linguagem própria. Que seja consequente. Em todo o caso, a fotografia não se esgota no seu mecanismo. Esse problema coloca-se muito mais ao nível de quem está por detrás da câmara.

O que se passou para que o colectivo de fotógrafos de que fazia parte, o kameraphoto, acabasse? Houve um grupo de pessoas a desentender-se ou a fotografia que faziam já não tinha lugar?
Foi um desentendimento. O fim não esteve relacionado com um vazio criativo.

Um colectivo com aquelas características ainda faria sentido hoje em Portugal?
Sim. Tanto que se sente algum vazio. E não será fácil preenchê-lo. Um colectivo é feito por pessoas com pontos comuns e discordâncias. Houve um momento em que se juntaram e que pensaram em conjunto. Discutia-se muito o trabalho de cada um com grande respeito.

Este trabalho foi discutido no seio da kameraphoto?
Foi. Até porque começou durante a primeira edição do projecto Um Diário da República, em 2010.

Há uma separata com um texto de Jaime Rocha que acompanha o livro Posto de Trabalho. Foi-lhe pedido algo específico?
Não. Entreguei-lhe as fotografias e pedi-lhe um texto a partir delas. Depois falámos sobre as imagens e sobre as histórias que fui ouvindo e o Jaime entregou-me um monólogo que se chama A Culpa Não Foi Minha.

O narrador deste monólogo põe-se no lugar do fotógrafo…
Sim, pois, e não no lugar de um intruso, o que é bastante mais confortável. Este fotógrafo é também um ouvinte.


Um confidente?
Pode ser entendido dessa maneira. E essa é um dos aspectos que mais me entusiasmaram neste trabalho – quis ouvir, gostei de ouvir.

Sentiu-se a ouvir estas mulheres ao captar as imagens?
De alguma maneira, sim.

E o Jaime foi ouvindo essas histórias?
Sim, antes de partir para o texto. Quando soube que era um monólogo fiquei muito satisfeito porque acho que é um género que se adapta perfeitamente ao trabalho. Pode relacionar-se com o lado cénico de que falávamos no início.

E acha importante essa ideia de dar voz a estas imagens?
Muito. Porque de certa forma o texto dá voz às pessoas que estão nas imagens, mas que não vemos.

A palavra humaniza o trabalho?
Em absoluto. Mas tanto o livro como o texto podem viver sozinhos. O texto, por exemplo, vai ser o ponto de partida par uma encenação feita por um grupo de teatro no local da exposição. Haverá actores a fazer uma leitura encenada do texto. Será no dia de encerramento, no dia 20 de Setembro.

E de quem partiu o convite?
Em determinado momento da concepção da exposição senti que podia arriscar em áreas que nunca tinha entrado. Aliando-me a alguém que realiza [Bruno Cabral], pude arriscar num vídeo, que serve como antecâmara da exposição e que se chama Espera. E senti que podia arriscar em vozes em duas imagens específicas para dar ainda mais força à ideia de que ali se passam coisas que nunca imaginaríamos que acontecessem em lugares como aqueles. Falámos de actores e o Jaime sugeriu o Teatro Mosca. Essa gravação das vozes aconteceu e eles disseram que também queriam encenar o monólogo.

Portanto, três coisas novas?
Isso mesmo. Fi-lo porque achei que este trabalho se prestava a esta dispersão de momentos. No filme, ocupei o lugar das prostitutas para tentar captar o que elas vêem e como pode ser entediante aquele olhar para a frente, apesar de todas as palavras cruzadas que possam existir.

Qual foi a última fotografia que tirou?
Foi a uma paisagem, ontem. É uma daquelas fotografias “sobre” qualquer coisa, a uma terra que se chama Oledo. Servirá para a junta de freguesia levar para feira raiana de Idanha-a-Nova. Ao cair do dia, subi a uma encosta para apanhar toda a zona do vale e fiz uma fotografia bonita.

Limite para usufruir da tarifa social de eletricidade sobe 10%

in Jornal de Notícias

O limite máximo do rendimento anual para beneficiar de tarifa social de eletricidade vai aumentar 10% a partir de 1 de agosto, passando dos atuais 4800 euros/ano para 5280 euros/ano, o que permite abranger um maior número de famílias.

Em comunicado, a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) anuncia que "uma vez que o número de beneficiários da tarifa social de eletricidade se encontrava, no final do primeiro semestre, muito abaixo do objetivo estipulado em 500 mil titulares de contratos de fornecimento de energia elétrica, procede-se à atualização automática em 10% do limiar do rendimento anual máximo que passará a ser de 5280 euros/ano, com efeitos a partir de 1 de agosto".

O Governo tinha definido como meta chegar ao final de junho com 500 mil consumidores com este benefício social, que representa menos 15 euros numa fatura de 35 euros de eletricidade, mas o número de beneficiários era então cerca de 60 mil. Ainda assim, registou-se um acréscimo de cerca de 23% no número de beneficiários face ao final de março.

O rendimento anual máximo é um dos critérios de elegibilidade para que os consumidores possam aceder à tarifa social de eletricidade, considerando-se para tal o rendimento total verificado no domicílio fiscal do titular do contrato de fornecimento de energia, bem como o número de coabitantes que não aufiram de qualquer rendimento, esclarece o regulador do mercado.

Assim, o rendimento anual máximo varia consoante o número de elementos do domicílio: dos 5280 euros anuais para uma família com um só elemento, 7920 euros anuais para uma família com dois elementos (um casal), 10560 euros anuais para uma família com três elementos (casal com um filho) e 13200 euros por ano para uma família com quatro elementos.

O facto do limiar do rendimento anual máximo subir 10%, tal como estabelecido na lei, permite alargar a base dos consumidores elegíveis à tarifa social de eletricidade, pretendendo-se que um maior número de consumidores economicamente vulneráveis possa aceder a este benefício social.

A tarifa social de eletricidade é aplicável aos clientes de eletricidade que se encontrem numa situação de carência socioeconómica, que tenham um rendimento inferior ao rendimento anual máximo, ou sejam beneficiários de uma prestação social - complemento solidário para idosos, rendimento social de inserção, subsídio social de desemprego, abono de família, pensão social de invalidez e pensão social de velhice.

Cavaco diz que educação "está aquém dos países mais desenvolvidos"

in Jornal de Notícias

O presidente da República defendeu que Portugal precisa de "avançar na descentralização" de competências do Governo para as autarquias na área da educação.

"Precisamos de avançar na descentralização da administração das nossas escolas", afirmou Cavaco Silva, na cerimónia de inauguração do novo centro escolar da vila de Sousel, no distrito de Portalegre, no Alentejo, que implicou um investimento de sete milhões de euros.

Considerando que Portugal "está aquém dos países mais desenvolvidos" nesta matéria, o chefe de Estado reconheceu que o país já deu "alguns passos na descentralização" de competências, "mas deve dar muitos mais".

"Em Portugal, ainda existem algumas resistências na descentralização na área escolar. São interesses corporativos e pessoais que nada têm a ver com os superiores interesses do país", advertiu Cavaco Silva.

À chegada ao centro escolar de Sousel, Cavaco Silva deparou-se com um protesto de cerca de 20 pessoas, afetas à União dos Sindicatos do Norte Alentejano e ao Sindicato de Professores da Zona Sul, as quais entoavam frases como "Serviços públicos sim, privatizações não" e empunhavam um cartaz no qual se lia: "Há fome em Sousel, não escondam a pobreza".

Na quarta-feira, o ministro-Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro, anunciou que o Governo concluiu negociações com 34 municípios que vão receber competências nas áreas da educação, saúde e cultura a partir de setembro.

Na sua intervenção, o presidente da República disse que "o investimento na educação é um dos mais importantes" e que, "mesmo em tempos difíceis", não se pode abrandar, por considerar que o que "está em causa, não é apenas a formação dos jovens, mas também um contributo significativo para o desenvolvimento económico e social".

"Aqui [na escola], preparam-se jovens para a igualdade de oportunidades, para que aqueles que não nasceram em berço de ouro possam ter tantas oportunidades como os outros", assinalou.

Após a inauguração do novo centro escolar de Sousel, o chefe de Estado seguiu para Portalegre, onde visitou a fábrica de polímeros da Evertis Ibérica e uma exposição na Câmara Municipal.

Jornadas Ibéricas de Participação pedem mais solidariedade com os pobres

in Jornal A Guarda

Iniciativa decorreu na Guarda

“Os números da pobreza em Portugal e Espanha são alarmantes” referiu o Presidente da EAP - Portugal, na abertura das primeiras Jornadas Ibéricas sobre Participação que decorreram a 9 e 10 de Julho, na Guarda. O Padre Jardim Moreira disse que “em Portugal há dois milhões e setecentas mil pessoas em risco de pobreza” e que estes números ainda ganham maior dimensão em Espanha. E acrescentou: “Com estes números não podemos dizer que está tudo bem e temos de ser mais solidários”.
Este responsável disse ainda que “os últimos anos têm sido penosos para muitos cidadãos” e, por isso, é importante “dar passos de parceria” para acabar com esta situação de desigualdade social. Lembrou que “não podemos lutar pelos pobres sem os pobres” e, por isso, é importante que “cada um colabore e tenha oportunidade para construir o seu caminho”.
No esforço conjunto de luta contra a pobreza, referiu que “se na Península Ibérica as redes se unirem podem influenciar os Governos, o mesmo sucedendo com a Rede a nível europeu”.
“Criar oportunidades e condições para que todos os cidadãos se façam ouvir” foi o desafio deixado por Jardim Moreira que acredita “numa sociedade onde todos sejam participantes e tenham o seu lugar”.
Carlos Susias, Presidente da AEPN Espanha, chamou a atenção para a necessidade “dar voz às pessoas” pois “a participação é parte essencial da democracia”. Referiu que “quando há problemas nos bancos, chamamos os peritos em finanças, quando há problemas na agricultura chamamos os técnicos agrícolas, e quando há problemas com os pobres chamamos toda a gente menos os pobres”.
Destacando o trabalho que é feito pela EAP – Portugal, que preside à Rede Europeia Anti Pobreza, explicou que “não nos podemos fechar no que passa no nosso País mas devemos trabalhar em conjunto a favor das pessoas”. E acrescentou: “que se façam políticas para as pessoas”.
O Bispo da Guarda disse que “é necessário fazer esforço de dar a palavra a quem a não tem”. D. Manuel Felício vincou a ideia de que “a democracia constrói-se todos os dias com a motivação das pessoas”.
A vereadora da Câmara Municipal da Guarda deixou também clara a ideia de que “a participação das pessoas em situação de pobreza é fundamental para encontrar soluções, para os problemas com que se debatem”.
Os trabalhos das I Jornadas Ibéricas sobre Participação juntaram cerca de três dezenas de participantes de Portugal e de Espanha.

Todos os dias pelo menos quatro mulheres são agredidas em casa

por Filipa Ambrósio de Sousa, in Diário de Notícias

Todos os dias pelo menos quatro mulheres são agredidas em casa

Balanço da comarca de Lisboa mostra que foram investigados 898 casos de violência doméstica: 743 em que os agressores são homens e 155 são mulheres.

Foram 35 anos de agressões físicas entre quatro paredes. A mulher, atualmente com 60 anos foi agredia com chicotes e cintos e chegou, a ser queimada com isqueiros e agredida com objectos pesados como um pisa papel na cara. O caso foi tornado público este ano com o agressor, de 62 anos, a responder por três crimes de violência doméstica: um contra a mulher e os outros cometidos contra as duas filhas, hoje adultas.

Este caso ilustra as estatísticas: todos os dias, em Lisboa, quatro mulheres são agredidas pelos companheiros, maridos, namorados ou ex-namorados. Dados relativos ao primeiro semestre deste ano do Ministério Público (MP) da comarca de Lisboa. Segundo o relatório divulgado ontem, no total foram 898 os inquéritos iniciados nos primeiros seis meses deste ano: 743 em que as vítimas são mulheres e 155 em que são os maridos ou companheiros a serem agredidos. O que perfaz uma média de cinco vítimas por dia. Nos casos em que as mulheres são as agredidas (a grande maioria), o balanço feito aponta para uma média de quatro mulheres por dia. "Esta é outra área da criminalidade que muito preocupa o MP e os números que subsistem não permitem que descuremos a atenção ao fenómeno", explica ao DN o procurador coordenador da comarca José António Branco. "Se reparar, o MP da comarca de Lisboa tem diversas unidades especializadas nesta tipologia criminal e, consequentemente, tem magistrados especialmente preparados para agir nesta área", concluiu. O relatório, a que o DN teve acesso, revela ainda que foram investigados 853 cibercrimes, 186 inquéritos contra agentes de autoridade e 105 casos de maus tratos a menores.

23.7.15

Ordem dos Dentistas defende criação de um cheque-dentista de urgência

in RR

A Ordem defende também o alargamento do cheque-dentista a todos os jovens até aos 18 anos, um programa que tem mostrado resultados positivos na população escolar.

A Ordem dos Médicos Dentistas defende a criação de um cheque-dentista de urgência para responder a situações agudas e ainda o alargamento do programa de promoção de saúde oral a todos os jovens até aos 18 anos.

Numa carta aberta a todos os candidatos ao Parlamento, que será publicada em jornais nacionais no sábado, a Ordem dos Dentistas alerta para a "reiterada ausência de soluções de medicina dentária no Serviço Nacional de Saúde (SNS)".

Preocupada com a dificuldade da população, sobretudo da mais desfavorecida, em aceder a um dentista, a Ordem defende a criação de um cheque dentista de urgência, a disponibilizar em consultórios aderentes, "para dar resposta às situações recorrentes de dor e trauma dentário".

Numa altura em que se divulgam os programas eleitorais dos partidos candidatos às legislativas, os dentistas pretendem manifestar a sua disponibilidade para encontrar soluções que colmatem a falta da saúde oral no SNS.

A Ordem defende também o alargamento do cheque-dentista a todos os jovens até aos 18 anos, um programa que tem mostrado resultados positivos na população escolar.

O Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral abrange já crianças e jovens que frequentam as escolas públicas aos 7, 10, 13 e 15 anos, bem como grávidas seguidas nos serviços públicos, idosos que recebem o complemento solidário e portadores de VIH/sida.

Para a Ordem deve ainda ser avaliada a inclusão no programa de doentes com diabetes, um grupo com riscos adicionais para problemas de saúde oral.

"Portugal tem mais de cinco mil clínicas e consultórios dentários com cobertura nacional com condições para que seja criada uma rede de convencionados com o SNS, abrindo em simultâneo a medicina dentária aos cuidados de saúde primários", defende a Ordem.

Para o bastonário Orlando Monteiro da Silva, que assina a carta aberta a todos os candidatos a deputados, tem havido uma "visão profundamente errada que separa a saúde oral da saúde no seu todo".

Esta Europa inquieta Sampaio. "Não pode haver um pensamento único"

por Raquel Abecasis e Catarina Santos (vídeo), in RR

Jorge Sampaio recebe sexta-feira o Prémio Nelson Mandela. Em entrevista à Renascença, o ex-Presidente diz que o tratamento dado à Grécia foi um "terramoto" e que falta democracia no processo decisório na UE.

O antigo Presidente da República Jorge Sampaio critica os acontecimentos recentes na União Europeia e o tratamento dado à Grécia – um verdadeiro "terramoto" na construção europeia.

Sampaio diz que a Europa está "numa encruzilhada" e que falta democracia no processo decisório. "Há pilares na construção do euro que ficaram por construir", diz em entrevista à Renascença. "São também desafios de guerra e paz a prazo."

Sampaio recebe esta sexta-feira, na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, o Prémio Nelson Mandela, atribuído pela primeira vez pela ONU (também Helena Ndume, uma oftalmologista da Namíbia, foi galardoada com este galardão instituído para reconhecer a contribuição em prol da humanidade).

"Este prémio, no fundo, é um pouco uma vida", afirma. "Um Prémio Carreira" para uma vida a aproximar-nos do outro.

O que significa este prémio para si?
Primeiro, uma grande honra – é a primeira vez que é atribuído. E depois o nome, o Prémio Nelson Mandela, atribuível de cinco em cinco anos. Ficamos de alguma maneira ligados a essa grande personalidade que foi tão decisiva em matéria de reconciliação de transições para a democracia e a liberdade. É uma satisfação pessoal, também tenho direito a isso e é, no fundo, uma panorâmica sobre uma vida dedicada a variadas coisas que são citadas, desde as coisas estudantis…

E a sua acção como Presidente... É referida o seu papel na questão de Timor e na transição de Macau.
Não fui participante único, mas dei a minha luta nessas duas matérias. Timor foi uma preocupação constante durante toda a minha vida adulta. E depois as causas mais apaixonantes, do ponto de vista pessoal, porque aquelas eram responsabilidades oficiais e públicas (eu levo as coisas sempre a sério, é sabido, às vezes até demasiado a sério), aquelas causas que as Nações Unidas me pediram para subscrever…

Nomeadamente a Aliança das Civilizações, da qual foi alto representante, e o combate à tuberculose.
O senhor Kofi Annan, um mês depois de eu sair de Belém, pergunta-me se eu quero ser enviado especial para a tuberculose. Disse que sim porque sempre tive uma atenção muito grande pela saúde pública. A tuberculose era uma doença esquecida. As pessoas que tinham responsabilidade de redigir os textos para o G7 [grupo dos sete países mais ricos do mundo] da altura não sabiam bem o que era a tuberculose, que matava dois milhões de pessoa por ano. Foi um trabalho que me levou a grande parte do mundo, um mundo em que se visita a pobreza e se vê o sofrimento, a doença do esquecimento, a doença da discriminação.

Um ano depois, fui convidado por Kofi Annan para ser alto representante para a Aliança das Civilizações, que é uma iniciativa que as Nações Unidas tomaram e que se preocupou, com peritos de vários continentes e confissões, com o caminho que pode haver para este diálogo entre culturas.

A Aliança das Civilizações foi uma designação muito criticada na altura, mas no fundo significava aquilo que hoje parece evidente, que é cada vez mais necessário…

E que não existe...
Só pela educação se chega a compreender a outra fé. É algo de extremamente difícil, como se está a ver agora.

Uma das suas iniciativas mais recentes é o programa que põe estudantes sírios em universidades portuguesas e europeias. É uma continuação do trabalho da Aliança das Civilizações?
Começou quando acabou o [projecto] das Nações Unidas, em 2013. Quis acabar o mandato da Aliança das Civilizações. Nasceu esta ideia: como é que se faz o auxílio universitário de emergência a estudantes carenciados? O auxílio humanitário é muito localizado e percebe-se na instrução primária e às vezes secundária, mas há uma geração de universitários que está completamente bloqueada – universidades destruídas, professores e alunos em fuga.

Costumo dizer que se fosse rico teria cá mil estudantes em Portugal – e não só em Portugal. [Os alunos sírios] Têm tido muito boas notas, fizeram estágios em empresas portuguesas conhecidas, este ano vão fazer outra vez. Muitos já falam português. Têm-me dado uma enorme satisfação e uma enorme preocupação porque continuo a ser o mesmo que se preocupa. É tal maneira terrível o que se passa na Síria, são quatro milhões de refugiados e "displaced people", [deslocados] dentro do seu próprio país.

É preciso criar um plano colectivo. Na semana passada estive numa reunião na Universidade de York, na Grã-Bretanha, para discutir uma coisa: é preciso pôr na agenda o auxílio universitário de emergência. Não é só o outro auxílio escolar…

Porque são essas pessoas que reconstruirão os países?
Não se pode perder uma geração, essas pessoas são as que podem ajudar a reconstruir o seu país nas suas várias dimensões. Eles integraram-se bem, Portugal tem jeito para isto. Tem sido uma coisa que vai completando o conjunto. Este prémio, no fundo, é um pouco uma vida. "Mutatis mutandis" para o cinema, é um Prémio Carreira.



Sabia que o seu trabalho tinha esta visibilidade? Imagino que no mundo não faltem candidatos a um prémio desta natureza.
Segundo julgo saber, houve umas centenas de candidatos. Fiquei contente porque significa que tem mais visibilidade aquilo que eu fiz, os amigos com que me cruzei, as diferenças culturais que foram ultrapassadas, a capacidade de entrosar com várias religiões (ou sem religiões), confrontações diversas, algumas sérias. E isso teve reconhecimento exterior.

Desculpe provocá-lo, mas isso são tarefas que nos tempos que correm poderíamos designar como utópicas. A ponte entre civilizações, não desistir dos refugiados, tentar fazer transições pacíficas parecem hoje coisas impossíveis.
Os meios comunicacionais, que nos colocam a perceber o que se passa no país A ou B no minuto seguinte, tornam-nos a todos potenciais actores. Há sempre qualquer coisa que é possível [fazer], desde dizer a uma família síria "Tem aqui uma casa, vamos integrá-la" ou outra coisa qualquer – na saúde, pela paz, pela reconciliação, no nosso bairro, nas nossas comunidades. Esse desinteresse, às vezes, é mais teórico do que prático. Não podemos desistir.

As pessoas podem ajudar a mudar as coisas.
Podem ajudar. Influenciar as opiniões públicas, influenciar a comunicação social no bom sentido, fazê-la mostrar os horrores que estão a acontecer

O facto de estes cidadãos sírios estarem em Portugal ajuda a que algumas pessoas não sintam o problema como distante.
Pelo menos estamos a dar condições de subida, do ponto de vista de preparação e de cultura, a um conjunto de cidadãos que estariam a monte ou clandestinos. Estão integrados nas nossas melhores escolas, estão a estudar, fazem-se semanas sírias para os estudantes.

O Erasmus é das riquezas da UE a que a gente se pode agarrar, é das mais vivas, não há muitas outras manifestações de cidadania europeia. Eu sei e penso que a grande questão é o desconhecimento da história do outro. Tivemos essa experiência nos campos de férias da Aliança das Civilizações, vieram pessoas de 60 países – iranianos, judeus, pessoas de todos os sítios. E foi uma maravilha de uma semana. Há uma coisa fundamental que nos une: a condição humana. Temos que afastar as coisas que nos separam.

Falava do Erasmus como uma grande riqueza da civilização europeia, mas há quem diga que essa civilização está em risco com os últimos acontecimentos.
Estamos num momento de grande interrogação sobre o futuro, não vale a pena ter ilusões.

Partilha da ideia de que no fim-de-semana do acordo com a Grécia houve uma mudança radical no caminho europeu?
Houve certamente um terramoto. Como é que se reconstrói isto? Eu sou um europeísta convicto, acho que um país como o nosso tem que estar integrado o mais possível no centro das decisões europeias e não pode ser marginalizado. Está todo um edifício por completar no contexto do euro, no contexto do processo decisório, na sua – atrevo-me a dizer – democratização. Os povos não participam como poderiam e deveriam.

Há uma encruzilhada em que estamos. São também desafios de guerra e paz a prazo e por isso temos que fazer um esforço muito grande para fazer com que as pessoas possam acreditar que a construção europeia lhes traz qualquer coisa. Não podemos perder a perspectiva do conjunto e sobretudo países como o nosso têm que estar inseridos nisso. Depois, há outro lado sério: mais integração, mais crescimento, como é que é a relação entre uma coisa e outra, como é que é a relação com as contas públicas... Há pilares na construção do euro que ficaram por construir. Têm que ser completados rapidamente.

Colocou-se em causa o euro?
Foi muito duro. Não quero comentar o conteúdo, mas acho que foi uma coisa que não era previsível que pudesse acontecer desta maneira. Surpreendeu-me. O espírito fundacional [da União Europeia] precisa de ser renovado.

Se nos viramos para dentro, cada um por si – porque eu sou contra isto, tu és contra aquilo – isto tende a desaparecer. Não pode ser, isso para nós fará bastante falta. Sou a favor de instituições fortes, democráticas que possam ser aceites pelas opiniões públicas e que tragam esperança aos portugueses, aos espanhóis, aos italianos. Esta divisão Norte-Sul parece-me terrível, com consequências a prazo muitíssimo difíceis. Não podemos acreditar em duas ou três Europas.

Agora, com os nacionalismos, os muros que nascem na Hungria... Por muito menos, houve a suspensão da Áustria quando foi o senhor [Jörg] Haider [de extrema-direita] que ganhou as eleições. Compare com o muro de que ninguém fala. Nessa altura, condenou-se o senhor Haider. Hoje não: o senhor [Viktor] Orbán faz o seu muro.

Falta uma grande figura europeia capaz de congregar?
Acho que isto não é só figuras, é também pensamentos dominantes. Não pode haver um pensamento único. Do lado em que eu me incluo – antes dizia-se socialismo, agora diz-se social-democracia – essa renovação está por fazer. Mas dentro de um clima de construção porque há sempre várias soluções para um problema.