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19.7.23

Pobreza: taxa desce em 2021, mas Portugal mantém-se longe da meta para 2030

Raquel Albuquerque (Jornalista), Carlos Esteves (Jornalista infográfico), in Expresso

A taxa de risco de pobreza diminuiu em 2021, mas Portugal continua longe da meta estabelecida para 2030. E apesar de a percentagem de idosos pobres ter vindo a descer, o número de beneficiários do 

Rendimento Social de Inserção acima dos 55 anos está a aumentar há sete anos

Cerca de 1,7 milhões de portugueses viviam com menos de 551 euros por mês em 2021, estando 16,4% da população em risco de pobreza. A percentagem é mais baixa do que no ano anterior (18,4%), recuperando do impacto da pandemia, mas ainda mantém-se muito distante dos 10% a que o país quer chegar em 2030.

Ao longo da última década, Portugal conseguiu ser mais eficaz em reduzir a pobreza entre os mais velhos - 17% eram pobres em 2021 - do que entre os mais novos (18,5%).

Quase um terço dos idosos viviam em situação de pobreza há 20 anos, mas, ainda assim, hoje os 17% correspondem a cerca de 400 mil pessoas com menos de €551 por mês.

Enquanto que o número de beneficiários do Complemento Social de Idosos (CSI) tem vindo vindo a descer 2019, as pessoas com mais de 65 anos a receber o Rendimento Social de Inserção (RSI) está a subir desde 2015. Neste momento, são cerca de 12.800.

Em geral, nas últimas duas décadas, a taxa de risco de pobreza passou de 20,4% para 16,4%. O país recuou de 630 mil trabalhadores a viverem abaixo do limiar de pobreza em 2003 para cerca de 500 mil em 2021.

Se em 20 anos Portugal retirou 440 mil pessoas da pobreza, a meta é agora bem maior e para um período de tempo muito mais curto: tirar 660 mil pessoas até 2030, ou seja, em sete anos. O objetivo da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza é reduzir a taxa para 10%, tendo como referência 2019.

5.5.23

Plano vai incluir novas medidas

Raquel Albuquerque, in Expresso

Já com atraso, o plano para aplicar a Estratégia de Combate à Pobreza traz novidades e será entregue ao Governo este mês

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP) foi aprovada há um ano e meio pelo Governo com a ambiciosa meta de chegar a 2030 com uma taxa de pobreza de 10%, bem abaixo dos 16,4% registados em 2021. Para que a mesma seja implementada falta ainda aprovar o Plano de Ação, que deverá ser entregue ao Executivo este mês pela coordenadora da Estratégia, Sandra Araújo. Tendo falhado o prazo de conclusão, previsto para final de abril, o plano está a ser finalizado e nele irão constar propostas de novas medidas de combate à pobreza, juntando-se às 137 já aprovadas em Conselho de Ministros em dezembro de 2021.

“Para a elaboração do Plano de Ação 2022-2025 foram solicitados contributos a todas as áreas governativas e algumas enviaram propostas de criação de novas medidas, que respondem à conjuntura atual, diferente da que se vivia quando a Estratégia foi aprovada”, diz ao Expresso Sandra Araújo, sem querer avançar o conteúdo dos novos critérios, por estarem ainda a ser discutidos. “Decorre um trabalho de negociação e de concertação para incluir as propostas no plano, quer sejam enquadradas nas que já existem ou apresentadas mesmo como novas medidas.”

MAIS INDICADORES POR CONCELHO

O plano que está em preparação será uma espécie de manual para pôr em prática as ideias que já constam da ENCP. Por exemplo, uma das normas conhecidas é a reavaliação e aperfeiçoamento do Rendimento Social de Inserção (RSI), embora seja ainda necessário definir em concreto o que isso significa. Para cada uma das 137 medidas Sandra Araújo irá propor quais as áreas governativas que têm de ser envolvidas, o financia­mento necessário, as metas a cumprir e os indicadores a monitorizar.

Reconhecendo a escassez de dados por concelho sobre as condições económicas das famílias, um dos objetivos da ENCP é envolver as autarquias e as comunidades intermunicipais, para que criem indicadores territo­riais, tirando partido da transferência de competências de Ação Social para os municípios. “Grande parte das medidas tem aplicação local e, por isso, a nossa ambição passa também pela criação de planos de combate à pobreza locais ou intermunicipais. É uma das questões em que estou a trabalhar agora”, avança.

Admitindo que a meta de redução da taxa de pobreza para 10% até 2030 é “muito ambiciosa”, a coordenadora da ENCP, com 30 anos de experiência na luta contra a pobreza, continua a achar que é possível lá chegar. Para já, face à inflação e às dificuldades de muitas famílias, as medidas do Governo parecem-lhe “suficientes” para evitar um agravamento da situa­ção dos mais carenciados e elogia a eliminação do IVA, apesar do seu “impacto reduzido”.

24.10.22

Marcelo pede “novos modelos de acção” para concretizar a estratégia antipobreza adoptada em 2021

in Público online

No Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, o Presidente da República pede “vontade e ambição” no combate a esta realidade “que persiste” na sociedade portuguesa.

O Presidente da República defendeu nesta segunda-feira a necessidade de Portugal avançar na concretização das metas da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 com “novos modelos de acção” para enfrentar o problema, e lembrou que “quase dois milhões de portugueses são pobres”.

Numa mensagem colocada no portal da Presidência na Internet, por ocasião do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, Marcelo Rebelo de Sousa pede “vontade e ambição” no combate a esta realidade “que persiste” na sociedade portuguesa.

“Falar de combate à pobreza e às desigualdades em Portugal é antes de mais falar de uma sociedade envelhecida, onde os mais velhos correm maior risco de pobreza e exclusão social. Falar de combate à pobreza e às desigualdades em Portugal é falar de uma sociedade onde as causas estruturais da pobreza se cristalizaram ao longo de anos, para não dizer décadas, e que passam de geração em geração”, lembra o chefe de Estado.

Falar de combate à pobreza é também, segundo o Presidente da República, “falar nesse lastro que afecta o nosso presente, e que terá consequências no nosso futuro, porque atinge as nossas crianças”, mas também “assumir esta realidade e olhá-la de frente, apontando caminhos para a sua resolução”. “Caminhos que coloquem este desafio, e sobretudo o desafio do combate à pobreza infantil e entre os idosos, enquanto desígnio nacional”, acrescenta.

Marcelo considera que o caminho “começou já a ser trilhado com a publicação, no final do ano passado, da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, com objectivos mensuráveis, nomeadamente retirando 660 mil pessoas da situação de pobreza e reduzindo para metade a taxa de pobreza nas crianças e entre trabalhadores”.

“Impõe-se, e as efemérides como a que hoje se assinala servem para sublinhar esse facto, a concretização destas metas, com uma abordagem diferente à pobreza, encarada como um desafio que todos temos de partilhar, adoptando novos modelos de acção, capazes de enfrentar as novas formas de pobreza que invadem o mundo e que marcarão de maneira decisiva as próximas décadas”, conclui o chefe de Estado.

O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza foi também assinalado pela Unicef Portugal. A organização aproveitou para sinalizar que esta é uma realidade que “já está a afectar as crianças e os jovens” no país.

Pobreza: inflação está a ‘encolher’ salário mínimo de €705 para €639 por mês

Raquel Albuquerque, in Expresso

Portugal tem pela frente a meta de retirar 600 mil pessoas da situação de pobreza até 2030. Mas a inflação, que chegou quando ainda muitos tentavam resolver o impacto da pandemia, veio agravar a situação. Esta segunda-feira assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza

Com o peso da inflação, quem recebe o salário mínimo de 705 euros por mês vê agora esse rendimento encolhido para €639. Não fica muito distante do limiar de pobreza (€554) e é bastante escasso para pagar as despesas básicas, como uma renda, água, luz e gás, além de alimentação e transportes, mostram os dados partilhados pela Pordata esta segunda-feira, quando se assinala o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

O cenário é ainda mais duro para quem recebe uma pensão mínima de velhice e invalidez (€278,05) e que vê o seu poder de compra descer para €252 mensais. É essa a realidade perante a inflação de 9,3% em setembro, segundo os dados do INE.

"Os números da pobreza em Portugal, ainda que sejam atenuados com muitos apoios sociais e medidas do Governo, não deixam de refletir vidas com muitas dificuldades económicas", sublinha Luísa Loura, diretora da Pordata.

Segundo os dados mais recentes da pobreza em Portugal, referentes a 2020, cerca de 18,4% dos portugueses viviam em risco de pobreza por terem menos de 554 euros mensais. São 1,9 milhões de pessoas. E a pandemia agravou a situação, tanto a nível da pobreza como das desigualdades.

“É CONFRANGEDOR”

Os dados partilhados pela Pordata mostram que, em 2021, 72% dos pensionistas de velhice e 87% dos pensionistas de invalidez viviam com menos do que o salário mínimo nesse ano (€665). E é já claro que a pandemia agravou a pobreza entre os mais idosos, embora os grupos mais afetados sejam as famílias com filhos, os desempregados e as crianças.

Quando muitos portugueses estavam ainda a recuperar dos efeitos económicos da pandemia, com despesas que ficaram por pagar, a inflação veio piorar o cenário, sobretudo para quem vive com salários já muito baixos. “Quando olhamos para os rendimentos em 2020, com base nas declarações de IRS, a repartição pelos escalões é confrangedora”, refere Luísa Loura.

Dos quase 5,5 milhões de agregados familiares com declaração de IRS em 2020, cerca de duas em cada cinco famílias vivem, no máximo, com €10.000 por ano. “Por outras palavras, perto de 40% dos agregados familiares auferiam aproximadamente €833 mensais”, aponta a Pordata.

PORTUGAL COM A 8.ª PIOR TAXA

Em 2021, Portugal passou a ser o 8.º país da União Europeia com maior percentagem de população em risco de pobreza ou exclusão social (22,4%), um indicador europeu, mais abrangente, que inclui as pessoas que vivem com menos de €554 mensais, as que estão em situações de privação material ou com vínculos frágeis com o mercado de trabalho.

Os 22,4% da população portuguesa nessa situação superam a média europeia (21,7%). Roménia, Bulgária, Grécia, Espanha, Letónia, Itália e Lituânia são os únicos países com um cenário pior do que o de Portugal.

Consciente das metas assumidas perante a União Europeia no sentido de tirar 660 mil pessoas da pobreza em Portugal até 2030, o Governo aprovou em dezembro do ano passado a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Contudo, até então, apesar de algumas das medidas propostas terem já avançado pontualmente, não foi definida qualquer comissão de acompanhamento nem se conhece qualquer indicador de monitorização da Estratégia.

4.4.22

Governo quer tirar 660 mil pessoas da pobreza até 2030

in JN

Reforço das prestações sociais e aumento das reformas, a par da execução da Estratégia Nacional para a Integração dos Sem-abrigo deverão produzir resultados numa década.

O Orçamento do Estado deverá passar a incluir um Relatório sobre as Desigualdades, que sirva de bússola para as medidas que o Governo pretende implementar para tirar 660 mil pessoas da situação de pobreza até 2030, ficando o país com 10% de cidadãos nesse patamar.

Programa do Governo. Alargar votação antecipada em mobilidade e generalizar voto eletrónico

Programa. Governo focado no clima, digital, demografia e desigualdades

Programa do Governo. Executivo quer melhorar formação de magistrados sobre crimes de violência doméstica

Para atingir tais valores, será implementada a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, que deverá reduzir a pobreza monetária para o conjunto da população para 10%, reduzir 170 mil crianças em situação de pobreza e aproximar o indicador de privação material infantil à média europeia e reduzir para metade os trabalhadores pobres (-230 mil).

Serão aumentados os rendimentos dos pensionistas dos escalões mais baixos, através do Complemento Solidário para Idosos e do Complemento da Prestação Social para a Inclusão, bem como as reformas em geral através de um aumento extraordinário das pensões. Para os mais novos, serão feitos aumentos do abono de família e criado um complemento para os jovens em risco de pobreza.

As autarquias serão chamadas a garantir respostas a nível do apoio social, no âmbito das medidas de descentralização de competências em curso.

A Estratégia Nacional para a Integração dos Sem-abrigo, o "1.º Dto. - Programa de Apoio ao Acesso à Habitação" e a Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2021- 2050, que ainda terá de ser aprovada, complementam a estratégia geral de combate à pobreza.

18.2.22

Queremos ser um país com uma das mais baixas taxas de pobreza da Europa

Victor M. Pinto (texto), in Solidariedade

O Governo aprovou em Dezembro a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, referindo que se trata de "um instrumento que visa concretizar uma abordagem multidimensional e transversal de articulação das políticas públicas tendo em vista a erradicação da pobreza". A Estratégia tem entre os seus objetivos a redução da taxa de pobreza para 10% da população, o que significa retirar 660 mil pessoas da situação de pobreza até 2030 e a meta de reduzir para metade a pobreza das crianças, o que significará retirar 170 mil crianças desta condição durante o mesmo período de tempo.
A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP) é a última tentativa para acabar com os níveis persistentes de risco de pobreza em Portugal que têm oscilado entre os 17% e os 22 %.
A estabilidade saída das últimas eleições legislativas, com a maioria absoluta do PS, remove todos os obstáculos de natureza política que podiam impedir a concretização da ENPC.
O risco de pobreza aumentou entre 2019 e 2020, segundo dados do INE, atingindo quase 2 milhões de pessoas e com subidas maiores entre mulheres e idosos, mas também nas famílias. A taxa de risco de pobreza após transferências sociais passou de 16,2% em 2019 para 18,4% em 2020.
Carlos Farinha Rodrigues, é um economista especialista nas áreas de distribuição do rendimento, desigualdade, pobreza e políticas sociais. Integra a comissão que delineou a Estratégia de Combate à pobreza em Portugal.

CARLOS FARINHA RODRIGUES

Carlos Farinha Rodrigues ér Professor Associado da Lisbon School of Economics and Management da Universidade de Lisboa (ISEG/UL) e Investigador do Cemapre (Centro de Matemática Aplicada à Previsão e Decisão Económica) nas áreas de distribuição do rendimento, desigualdade, pobreza e políticas sociais.
É membro da Direcção do Instituto de Políticas Públicas Thomas Jefferson-Correia da Serra e assessor do Instituto nacional de Estatística nas áreas de distribuição do rendimento e das estatísticas das famílias. Membro da comissão de coordenação de preparação de uma proposta de Estratégia Nacional de Combate à Pobreza em Portugal.
É consultor científico do Programa Proinfância promovido pela Fundação La Caixa dirigido a famílias com crianças em situação de pobreza e exclusão social. É coordenador científico em Portugal do projecto europeu "EUROMOD - Tax-benefit microsimulation model for the European Union". Desde 2013 é coordenadpr do Mestrado em Economia e Políticas Públicas do ISEG - Universidade de Lisboa. Tem publicado diversas estudos sobre a distribuição do rendimento em Portugal, a desigualdade, a pobreza e a eficácia redistributiva das políticas públicas.

JORNAL SOLIDARIEDADE – O resultado das eleições é favorável à implementação da Estratégia?CARLOS FARINHA RODRIGUES – Eu diria que sim. Haverá uma intenção maior de que a Estratégia vá em frente. Eu penso, apesar de tudo, que a necessidade de uma Estratégia de Combate à Pobreza é de tal forma urgente e necessária que qualquer partido responsável teria de, com esta fórmula ou com outra, ter este tipo de preocupações. É evidente que aqui o PS comprometeu-se com esta Estratégia, que está definida, quer nos Pilares Europeus dos Direitos Sociais quer no PRR. Dificilmente qualquer governo responsável poderia deixar de dar atenção a esta situação. Estranhei, com pena, que o assunto da Estratégia do Combate à Pobreza tenha ficado fora do debate eleitoral. Com a atual maioria há condições reforçadas para que a Estratégia siga o seu caminho.

Os números da pobreza em Portugal nunca estiveram tão altos, desde 2014, como agora. Considera a pandemia a principal causa?
Entre 2014 e 2019 nós tivemos um caminho que se traduziu numa redução significativa dos principais indicadores de pobreza, desigualdade e exclusão social. Em 2019 atingimos os números mais baixos desde que existe registo dessa informação pelo INE. Havia um percurso que está relacionado com as políticas seguidas, tem a ver com a recuperação da economia, mas a tendência era claramente de diminuição. Não significa que estávamos bem, continuávamos a ser dos países com maior pobreza e desigualdade no contexto europeu, mas estávamos no bom caminho. Os dados do INE referentes a 2020 representam um ponto de travagem da recuperação positiva destes indicadores.

Mais do que travagem foi um retrocesso de 2,2%...
Houve, de facto um retrocesso de 2,3 anos nalguns casos. Nós não podemos deixar de associar isso à pandemia, à travagem da atividade económica e aos efeitos das medidas que foi necessário tomar para conter a pandemia. Não há outra justificação. Aliás, quando se olha para os efeitos da pandemia, em 2020, verifica-se que se traduziram no reforço dos fatores tradicionais de pobreza, exclusão e desigualdade, mas também da emergência de novos fatores. Deixe-me dar um exemplo simples: a experiência que nós temos de crises anteriores, designadamente a que esteve associada ao plano da Troika, mostrava-nos que tínhamos um agravamento grande nos rendimentos das famílias, mas ao mesmo tempo subsistiam alguns fatores que amorteciam esse efeito. Era o trabalho informal, os biscates e os pequenos trabalhos, que constituíram, nas crises anteriores, uma almofada que amorteceu os efeitos económicos que aconteciam na economia formal com a queda dos rendimentos. Com a paralisação completa da atividade económica em largos períodos de 2020 essa almofada deixou de funcionar. Mais, nós descobrimos que a não existência dessa possibilidade tinha uma consequência adicional: essas pessoas que viviam desses trabalhos, negócios e biscates estavam afastados do mercado formal de emprego e não estavam abrangidos pelos sistemas tradicionais de segurança social. Houve um conjunto de famílias que, de repente, encontraram-se sem qualquer tipo de proteção. É verdade que o governo tentou trazer essas pessoas para o sistema de proteção social. Não foi o suficiente, mas terá sido o possível. Os efeitos desta pandemia, do ponto de vista social, têm uma característica: foram profundamente desiguais. Houve sectores que não foram afetados, como os funcionários públicos e os reformados, e outros que foram obrigados a parar. A pandemia provocou um reforço dos fatores de pobreza em Portugal e dos fatores de desigualdade. Há ainda outro aspeto importante... Os dados do INE mostram que em média os rendimentos familiares subiram pouco menos que três por cento, mas quando nós olhámos para os dez por cento mais pobres os seus rendimentos tiveram uma quebra muito grande. Ou seja: uma das características desta pandemia é que ela foi profundamente desigual nos seus efeitos sociais, atingindo sectores mais desprotegidos de uma forma mais intensa. As medidas europeias da desigualdade e pobreza são calculadas a partir dos rendimentos, mas a minha experiência diz-me que cada vez mais há uma determinante da pobreza e exclusão social que não é apanhada nas estatísticas que é a incapacidade de largas camadas da população terem acesso a serviços básicos essenciais. Também se agravaram as desigualdades. E, por via das paralisações do sistema de ensino, tivemos o desenvolvimento de fatores potenciais de desigualdade que são importantes no presente, mas vão ter um peso muito grande no futuro se não forem tomadas medidas ativas para os contrariar.

Uma das surpresas em relação à questão da pobreza foi a descoberta de que não basta ter um emprego estável para evitar ser pobre. Isso chega a ser cruel.
O facto de termos uma percentagem de working poor tão elevada, 10 a 11%, é extremamente preocupante. Significa que o combate à pobreza passa, mais uma vez, pelo combate às desigualdades, mas também por uma valorização do fator trabalho que na minha opinião não tem acontecido como devia nos últimos anos.

Isso leva à discussão do aumento do ordenado mínimo e do ordenado médio...
Leva-nos a uma discussão muito vasta sobre a forma de encarar o salário nos nossos dias. Nós hoje temos formas de trabalho menos tradicional e temos que encontrar respostas de forma que não signifiquem uma desvalorização dos direitos. Por outro lado, continuamos a ser um país de baixos salários e, obviamente, a questão dos aumentos do salário mínimo tem tido um efeito positivo, mas não basta. Temos que ter um aumento do salário médio. Esta aproximação do salário mínimo ao médio acaba por reduzir a eficácia dos aumentos. Aumenta o contingente de pessoas com salários mínimos e dá muito poucas perspetivas para a resolução do problema dos working poor.

Verifica-se que há mais de uma década se fala intensamente no combate à pobreza, mas não há meio de se verem resultados. Porquê?
Há várias questões. É verdade que nós hoje temos uma discussão maior na agenda política e mediática das questões da pobreza. Isso é positivo. Temos que ter presente a ideia de que a pobreza não é um problema dos pobres. É um problema nosso enquanto sociedade. Uma sociedade quem os níveis que nós temos é, do ponto de vista democrático e da coesão social, uma sociedade mais pobre. Colocar-se uma ênfase superior no debate é em si mesmo positivo. Mas só é produtivo se houver alteração de políticas. Temos tidos um conjunto de políticas sociais de combate à pobreza que têm tido resultados, mas o problema da pobreza não se resolve só através das políticas sociais. Temos que ter uma visão integrada do sistema económico que permita ter um conjunto de políticas integradas que não se esgotam nas políticas sociais. Isso implica colocar o combate à pobreza como algo transversal às políticas públicas. Só assim se resolve o problema de forma estrutural. Por outro lado, quando pensamos em reduzir ou erradicar a pobreza eu não tenho dúvidas nenhumas que é necessário ganharmos as pessoas para este combate. É fundamental uma consensualização o mais alargada possível. Cada um de nós tem que sentir que é importante para o futuro coletivo. Deixe-me dar um exemplo elucidativo: quando comecei a estudar a pobreza em Portugal foi pela profunda injustiça que ela representava. Hoje continuo convencido que a pobreza é uma forma gravíssima de injustiça, é uma violação dos direitos básicos das pessoas, mas, e eu sou economista, não tenho dúvidas, a pobreza que temos é um fator que impede o crescimento e o desenvolvimento económico. Por isso o combate à pobreza tem que ser feito por uma questão de equidade, mas também pela eficiência económica. A pobreza é um travão ao crescimento e ao desenvolvimento económico, é uma violação dos direitos humanos e é um fator de fragilidade da coesão social. É por isso que um dos objetivos da Estratégia de Combate à Pobreza é fazer desse combate um desígnio nacional. É um objetivo instrumental para ganharmos o combate.

Considera que há uma componente hereditária, sucessória, transmissível da condição de pobreza nas sociedades, comunidades e famílias?
Nós sabemos que existe uma parcela muito significativa da nossa população pobre que resulta de uma transmissão inter-geracional da pobreza. O que eu rejeito liminarmente é a sua inevitabilidade. Quando se ouve frequentemente dizer uma das frases mais assassinas, a ideia de que “pobres sempre existiram e existirão”, é preciso termos a noção de que não é verdade. A pobreza é o resultado da forma como nós organizamos e fazemos funcionar a sociedade. Como tal, acredito que se houver vontade política, um desígnio nacional, nós podemos quebrar o ciclo de transmissão geracional da pobreza e podemos fazer com que esta frase deixe de ser tão consensual. É por isso que eu defendo que o primeiro objetivo de qualquer estratégia tem que ser combater a situação das crianças em situação de pobreza.

A pobreza envergonhada continua a ser uma realidade?
Existe sim. Quando investigamos a perceção que as populações pobres têm sobre a pobreza é muito frequente nós ouvirmos esta resposta: “Não, eu não sou pobre eu sou remediado, pobres eram os meus pais quando uma sardinha dava para três refeições por dia”. Há uma razão histórica. Ainda está muito presente, muito viva, a memória da pobreza dos anos 50/60 do século passado. Apesar dos indicadores graves que temos em matéria de pobreza, nas últimas décadas demos passos de gigante na melhoria das condições de vida das pessoas. A forma de avaliarmos a pobreza não é estática ao longo do tempo, depende das condições que a sociedade tem e o que é grave é que nós tenhamos milhares de pessoas excluídas das formas normais de funcionamento social.

Acredita que não é uma utopia erradicar a pobreza?
É uma questão complexa. Eu não considero uma utopia nós reduzirmos fortemente a pobreza e melhorarmos as condições de vida da população. Há aspetos, nomeadamente de natureza técnica, que limitam esse tipo de análise. Vamos a um exemplo. Nós hoje medimos a pobreza de forma relativa. Uma família é considerada pobre se tiver menos de 60 por cento do rendimento mediano. Significa que eu só conseguiria erradicar a pobreza com uma distribuição igualitária dos rendimentos que ninguém defende. Não acho que seja uma utopia, é um objetivo que temos que assumir. Deixarmos de ter pobres é uma meta. Isso implica não nos limitarmos à pobreza monetária, mas definirmos o objetivo de encontrarmos maneira de darmos às pessoas que vivem em Portugal uma vida digna.

A Estratégia está aprovada agora falta pô-la em prática. Do ponto de vista político há condições para a sua exequibilidade. Quais são os passos seguintes?
O governo anterior decidiu nomear uma comissão de que tive o privilégio de fazer parte para estudar e propor uma Estratégia de Combate à Pobreza em Portugal. Essa comissão fez um diagnóstico muito aprofundado da situação, fez propostas claras de métodos e objetivos e elaborou um documento extenso que está disponível no site do Grupo de Estudos e Planeamento da Segurança Social. O governo apresentou uma lei que consagra a Estratégia e de uma forma geral consagra muitos dos princípios que foram definidos nessa comissão. Do ponto de visto político há condições para o processo avançar. O que é importante nós percebermos é que a aprovação desta Estratégia é um ponto de partida não é um ponto de chegada, ou seja, espero que haja vontade política para a concretizar. O que significa ter uma nova visão: a ideia de que o combate à pobreza não é um problema exclusivo das políticas sociais, mas é um problema transversal às várias políticas públicas; a ideia de que é necessário definir metas e monitorizar a forma como elas estão ou não a ser alcançadas; a possibilidade de participação que permita às organizações da sociedade civil e cada um de nós, enquanto cidadãos, integrar a elaboração e a avaliação dessa Estratégia. Recordo que houve um debate intenso com a sociedade civil, houve um pedido às instituições que lidam com as questões da pobreza para darem o seu contributo e houve uma resposta muito participada, o documento esteve em discussão pública antes de ser publicado. É preciso vontade política e participação do governo, das instituições do Estado central, das Autarquias, da Instituições de Solidariedade Social, mas também as próprias populações em situação de pobreza. Nós temos as condições para implementar a Estratégia. Um dos fatores de viabilidade é considerar que o combate à pobreza está ao mesmo nível das outras políticas públicas.

O Sector Social Solidário com o conhecimento que tem deve, em seu entender, ser fortemente envolvido?
Eu acho que sim porque uma das limitações no combate à pobreza foi alguma compartimentação, mesmo fragmentação de políticas. Sabemos que há vários atores que têm papéis importantes no combate à pobreza. Fala das Instituições de Solidariedade Social, claro que sim, mas também as Autarquias Locais. Faltava uma Estratégia. E o objetivo de uma Estratégia não é termos ou dizermos que temos uma Estratégia. É termos algo que dê consistência, que permita gerar sinergias de todos os agentes envolvidos. Um exemplo: muitas das Instituições de Solidariedade Social têm um trabalho meritório no combate à pobreza, mas grande parte funcionam como ilhas isoladas. Não temos sido capazes de as integrar num projeto comum. A existência de uma Estratégia pode ser um fator que promova a consistência entre várias políticas, nomeadamente aquelas que implicam ação direta no terreno com os vários agentes envolvidos.

A redução a metade da taxa de pobreza nos próximos dez anos é exequível?
É o objetivo que nós propusemos e deve nortear a nossa atividade. Só o ano da pandemia significou um aumento de dois pontos percentuais. Temos que perceber o que significou este retrocesso em 2020. Há uma inversão da tendência anterior provocada pela pandemia, numa visão negativa, ou numa perspetiva contrária, perceber que foi um ponto excecional, um outlier, como dizem os estatísticos, e a partir daqui, se tomarmos as medidas corretas, vamos recuperar o caminho da redução da pobreza. Os dez por cento é o objetivo de nos aproximarmos dos níveis de pobreza que existem nos países mais desenvolvidos da Europa. Costumamos dizer que a taxa de pobreza em Portugal anda na média da União Europeia. A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza serve para nós não nos reduzirmos a isso. Temos que ir mais longe, queremos ser um país com uma das mais baixas taxas de pobreza da Europa.



6.1.22

Estratégia de combate à pobreza em vigor amanhã. Estes são os seis eixos

Por Notícias ao Minuto

A resolução do Conselho de Ministros, que entra em vigor amanhã, determina que a estratégia de combate à pobreza se organize em torno de seis eixos.

Foi publicado, esta quarta-feira, em Diário da República, a resolução do Governo que aprovou a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 (ENCP). O despacho, que entra em vigor amanhã, determina que esta estratégia se organize em torno de seis eixos.

O diploma determina ainda que os eixos identificados e os "respetivos objetivos estratégicos são previstos em planos de ação nos quais que se identificam as ações concretas a desenvolver, os indicadores, as entidades envolvidas e as metas". Os seis eixos são os seguintes:
 
Reduzir a pobreza nas crianças e jovens e nas suas famílias;
Promover a integração plena dos jovens adultos na sociedade e a redução sistémica do seu risco de pobreza;
Potenciar o emprego e a qualificação como fatores de eliminação da pobreza;
Reforçar as políticas públicas de inclusão social, promover e melhorar a integração societal e a proteção social de pessoas e grupos mais desfavorecidos;
Assegurar a coesão territorial e o desenvolvimento local;
Fazer do combate à pobreza um desígnio nacional.

O diploma do Governo prevê ainda que seja criada uma comissão interministerial de alto nível (CIAN), que será "responsável por analisar, acompanhar e avaliar a execução da ENCP, constituída pelos membros do Governo responsáveis pelas áreas da presidência do conselho de ministros, do trabalho, solidariedade e segurança social, da educação, das autarquias locais, da saúde e das infraestruturas e habitação, sem prejuízo de os membros da CIAN poderem convidar a participar nas suas reuniões, quando tal se justifique, membros do Governo responsáveis por outras áreas governativas".

Esta comissão deverá reunir-se trimestralmente, segundo a mesma resolução.

O Governo aprovou a versão final da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, em meados de dezembro. Na conferência de imprensa após essa reunião do Conselho de Ministros, a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, referiu que a estratégia tem entre os seus objetivos a "redução da taxa de pobreza para 10% da população, o que significa retirar 660 mil pessoas da situação de pobreza até 2030".




Estratégia de combate à pobreza foi publicada. Haja “vontade política” para a levar ao terreno

Natália Faria, in Público on-line

Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, publicada esta quarta-feira em Diário da República, propõe-se retirar 660 mil portugueses da pobreza até 2030.

As metas já eram conhecidas: retirar 660 mil pessoas da pobreza até 2030, das quais 170 mil crianças e 230 mil trabalhadores. Falta agora, segundo o especialista em desigualdades Farinha Rodrigues, “garantir que haverá vontade política para levar à prática” a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 (ENCP), publicada esta quarta-feira em Diário da República.

Numa altura em que o primeiro ano da pandemia criou 228 mil novos pobres, segundo o mais recente inquérito do Instituto Nacional de Estatística (INE) — que fixa agora em 1,9 milhões os portugueses em situação de pobreza, isto é, obrigados a viver com menos de 554 euros por mês —, a ENCP propõe-se reduzir a taxa de pobreza monetária para o conjunto da população para 10%, o que representa uma redução de 660 mil pessoas. Quanto aos trabalhadores pobres, que segundo o INE subiram de 9,6% para 11,2%, o objectivo é reduzir para metade a taxa de pobreza neste grupo.

Mas a ENCP foca-se prioritariamente nos mais novos, de maneira a “quebrar a reprodução dos ciclos de pobreza, não apenas retirando as crianças da situação de pobreza”, mas garantindo que “a condição socioeconómica dos agregados deixe de ser um preditor tão preponderante de sucesso escolar e de percursos profissionais”.

Além de reforçar os apoios à frequência de creches instituindo a sua progressiva gratuitidade, a ENCP propõe-se ainda tornar o pré-escolar “tendencialmente gratuito”, criando assim as condições para tornar a sua frequência obrigatória a partir dos três anos de idade “no médio prazo”.

Portugal não estará sozinho neste propósito, tal como o PÚBLICO noticiou. Apesar de na maioria dos sistemas educativos europeus a escolaridade obrigatória se iniciar aos seis anos, a França, por exemplo, decidiu, em Setembro de 2019, baixar para os três anos a idade de início da escolaridade obrigatória. Já era assim na Hungria. E na Bélgica a idade de início da escolaridade obrigatória baixou, também em 2019, para os cinco anos. Na Grécia, inicia-se aos quatro anos, segundo o último relatório da rede Eurydice sobre o ensino obrigatório na Europa.

Como a escola continua a ser, apesar de todas as suas debilidades, o principal elevador social, a ENCP propõe-se ainda reforçar as medidas de apoio ao acompanhamento dos alunos no contexto pós-pandémico e desenvolver mecanismos de apoio ao estudo para crianças de agregados familiares pobres através da criação de “espaços de estudo acompanhado”.

A detecção precoce de problemas de saúde mental deverá igualmente ficar assegurada por via do anunciado aumento da rede de psicólogos escolares, sendo que o documento prevê ainda, entre uma miríade de outras medidas, a criação de mecanismos de acesso gratuito para crianças inseridas em famílias desfavorecidas a consultas de rotina na área da saúde oral, mental e a rastreios visuais e auditivos.

A ENCP vai, porém, mais longe, propondo medidas concretas nas áreas do emprego, da formação e da habitação. A existência de crianças no agregado familiar deverá ser uma condição prioritária de acesso à habitação. E, a pensar nas dificuldades dos jovens, particularmente dos de menores rendimentos, no acesso à habitação, prevê-se o reforço da habitação com renda acessível, através da criação de um “parque habitacional público a preços acessíveis”, a construir através da reabilitação do património imobiliário do Estado com aptidão para uso habitacional.

É um bom ponto de partida”, reage ainda Farinha Rodrigues, professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade de Lisboa, e investigador nas áreas da desigualdade e pobreza, enfatizando o facto de, pela primeira vez, ficar “reconhecido que o problema do combate à pobreza não é exclusivo do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, mas transversal aos vários ministérios”.

660.000 As pessoas que serão retiradas da pobreza até 2030, das quais 170 mil crianças e 230 mil trabalhadores

Para o também membro da comissão de coordenação responsável pela proposta de ENCP falta, contudo, garantir que haverá vontade política para levar a estratégia ao terreno. “É uma questão de vontade política, sendo que estamos num contexto de alguma incerteza”, alerta, dizendo-se satisfeito pelo facto de a estratégia aprovada pelo Governo prever a criação de uma comissão interministerial de acompanhamento e avaliação da execução da ENCP, a qual ficará ainda incumbida de nomear um coordenador nacional da estratégia.

O texto da ENCP é, no entanto, omisso, quanto às esperadas alterações no Rendimento Social de Inserção (RSI), proposto pelos especialistas, que gostariam de ver esta prestação não contributiva alargada a mais beneficiários e não, como até agora, restringida aos mais pobres de entre os pobres.

No último inquérito às condições de vida, feito com base nos rendimentos de 2020, isto é, do primeiro ano da pandemia, o INE fixava em 18,4% os portugueses que estavam abaixo da linha de pobreza, num agravamento de 2,2 pontos percentuais relativamente a 2019. Foi o maior aumento da pobreza desde 2003, segundo os especialistas, que admitiam, porém, poder tratar-se de um efeito transitório da pandemia e não de uma inversão da tendência que, desde a crise iniciada em 2008, vem apontando baixas consecutivas no número de portugueses em situação de pobreza.

20.12.21

Governo aprova estratégia nacional para tirar da pobreza 660 mil pessoas

in Público on-line

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza foi um dos diplomas aprovados em Conselho de Ministros.

O Governo quer retirar da pobreza 660 mil pessoas, um dos objectivos consagrados na Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2020-2030, esta quinta-feira aprovada em Conselho de Ministros.

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza foi um dos diplomas aprovados, tendo a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, anunciado que um dos objectivos é conseguir retirar 10% da população da condição de pobreza.

De acordo com a governante, isto significa retirar da pobreza 660 mil pessoas, um número mais ambicioso do que os 360 mil que estariam naturalmente assumidos na transição do plano europeu para o plano nacional.

A estratégia tem também como objectivo a erradicação da pobreza junto de 170 mil crianças.


18.10.21

Estratégia contra a pobreza: comissão quer consultas de rotina e rastreios nas escolas para avaliar saúde mental

Helena Bento, in Expresso

Comissão responsável pela Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, que está em consulta pública, defende um aumento da rede de psicólogos nas escolas e “soluções mais efetivas” para a habitação, explica Edmundo Martinho, coordenador da comissão que elaborou a estratégia e provedor da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa. Versão final do documento deverá ser aprovada no início de novembro

Combater a pobreza implica assegurar mais cuidados de saúde mental. A comissão responsável pela Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, que está em consulta pública até 25 de outubro, defende um aumento da rede de psicólogos nas escolas e consultas de rotina para detetar problemas psicológicos de forma precoce. Também propõe “soluções mais efetivas” para a habitação: “Se não conseguirmos garantir estabilidade, dificilmente haverá estratégias bem-sucedidas para os problemas de saúde mental. E estes problemas agravam as situações de pobreza”, diz ao Expresso o coordenador da comissão e provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

A preocupação com a saúde mental é transversal a toda a estratégia. Porquê?
Não há uma relação direta entre pobreza e saúde mental, mas sabemos que as questões de saúde mental são críticas em Portugal. Basta olhar para a prioridade que foi dada a esta área no PRR [Plano de Recuperação e Resiliência]. Há duas componentes aqui: a prevenção e deteção precoce de problemas psicológicos, por um lado, e a necessidade de haver soluções de suporte mais efetivas de natureza assistencial e habitacional, por outro lado.

Isto é importante para todas as pessoas mas ainda mais para as famílias e pessoas em situação de pobreza, porque a ausência dessas duas componentes tende a agravar outras fragilidades e circunstâncias destas pessoas. É dada uma importância especial a crianças e jovens porque é nessas idades que muitos dos problemas de saúde mental se manifestam, e é crucial que sejam detectados logo nessa fase.

Esse é um dos eixos da estratégia, em que se propõe que haja um acesso gratuito e facilitado aos cuidados de saúde por parte dos agregados familiares mais desfavorecidos, nomeadamente através do acesso a serviços médicos de proximidade, pela expansão das equipas comunitárias de saúde mental para a infância e a adolescência. É muito importante que as crianças e os jovens, sobretudo os jovens com percursos profissionais e pessoais muito desesperados, desintegrados e descrentes sejam acompanhados de uma forma precoce e estas equipas podem desempenhar aqui um papel essencial.

Outro dos eixos diz respeito ao emprego...
Sim. Há todo um conjunto de ações e mecanismos que podem ser implementados no sentido de combater a discriminação e marginalização no contexto laboral. Há situações que, se não forem detectadas precocemente e não forem acompanhadas, dificultam a integração do mercado de trabalho. A questão da habitação, que é outro eixo da estratégia, acaba por ser transversal a tudo isto, porque a estabilidade habitacional é muito importante para a estabilidade em geral e garante que as várias abordagens de saúde mental tenham mais possibilidades de êxito. Em Lisboa, por exemplo, uma parte substancial da população sem-abrigo tem problemas de saúde mental, o que mostra que, de facto, a questão da habitação é central. Se não conseguirmos garantir estabilidade de vida e de habitação, dificilmente haverá estratégias bem-sucedidas para os problemas de saúde mental, problemas estes que, de resto, são um fator adicional de fragilidade e agravam as situações de pobreza.

Promover a saúde mental e a deteção precoce de problemas psicológicos em meio escolar é uma das prioridades. Como é que isso poderá ser feito?
Esse aspecto cruza-se com uma proposta mais genérica que consta da estratégia e que tem que ver com o acompanhamento médico e de saúde das crianças em ambiente escolar. A proposta em cima da mesa é que haja consultas de rotina, quer através de serviços de proximidade, quer através dos serviços médicos regulares, para que haja uma deteção precoce das várias situações.

Do nosso ponto de vista, há um conjunto de rastreios e avaliações regulares que deveriam ser feitos em meio escolar, precisamente para se poderem detetar situações de risco para a saúde mental. As escolas têm de estar alertas para isto. Temos de encontrar uma solução para garantir que haja um acompanhamento gratuito e facilitado, de que possam beneficiar, sobretudo, os agregados mais desfavorecidos, para não haver obstáculos dessa natureza que dificultem ou impeçam o desenvolvimento integral das crianças.

O aumento da rede de psicólogos nas escolas é uma das medidas propostas, mas o Governo já deu a entender que não vai contratar mais profissionais desta área além dos 300 que foram admitidos recentemente. Seriam necessários mais?
Cabe às entidades setoriais, isto é, da área da Saúde e da Educação, perceber como aumentar essa rede - se através da contratação de profissionais, se utilizando de uma forma mais extensa os que já existem. A estratégia não detalha, por não ser esse o objetivo nesta fase, as formas de concretização das medidas propostas. O que seguramente sabemos é que esta rede deve ser reforçada na sua capacidade de intervenção. Foi importante para nós sinalizar a importância de ter respostas adequadas em todo o território nacional, dando particular atenção às zonas e famílias mais desfavorecidas, em que estas questões não são tratadas como deveria ser. E esse apoio deve começar por ser dado, obrigatoriamente, nas escolas, na nossa opinião.

Na saúde, propõe-se, em concreto, a criação de mecanismos de acesso gratuito, para crianças de agregados desfavorecidos, a consultas de rotina através de serviços médicos de proximidade. Que mecanismos são estes?
Aqui o SNS tem uma palavra importante a dizer. Independentemente dos mecanismos que sejam criados, o importante é que haja um acesso facilitado e gratuito aos serviço - não podemos deixar que haja barreiras de nenhum tipo. A própria falta de literacia pode transformar-se, por vezes, numa barreira. Dou o exemplo da saúde oral: há famílias que acham que não se deve cuidar dos dentes muito cedo, mas é precisamente ao contrário.

No caso da saúde mental, o importante é alertar as famílias para a adoção de comportamentos de promoção da mesma. O que pressupõe, por exemplo, que não sejam acrescentados processos de marginalização e que haja compreensão e apoio, para que a criança sinta que estão todos a remar para o mesmo lado. Também é importante que a família atribua importância à intervenção precoce e que saiba que, quanto mais cedo as situações forem detectadas, mais bem sucedidas serão as intervenções. Daí que, além da escola, seja necessário envolver a família ao máximo nestes processos. A prevenção e intervenção exigem a mobilização de todos os meios, não só os da Saúde, como os do setor social. A resposta a dar tem de ser integrada e robusta.

Os “serviços itinerantes” para crianças propostos na estratégia servem para colmatar as assimetrias regionais que existem no acesso aos cuidados?
A ideia é essa, sim. Não podemos ter a veleidade de pensar que temos serviços com a mesma configuração em todo o território nacional. Tem de haver recursos e soluções diferenciadas, e equipas a ir ao encontro das pessoas e famílias que vivem em zonas menos dotadas de equipamentos públicos. Ninguém pode ficar sem o acesso aos cuidados a que tem direito. Não identificámos essas zonas, mas há algumas que já estão identificadas e localizam-se, em grande medida, nas áreas metropolitanas e zonas mais fragilizadas das áreas metropolitanas. Seja como for, isto é algo que tem de ser visto à escala do país, com intervenções onde estas sejam consideradas mais necessárias.

Para a área do trabalho, fala-se especificamente em políticas de integração. O que se pretende?
As questões da saúde mental são, em muitas circunstâncias, uma barreira à entrada no mercado de trabalho, porque há uma descrença das pessoas nas suas capacidades e falta de confiança em si próprias, o que leva a um afastamento do trabalho. É necessário que estas pessoas disponham de mecanismos de suporte que lhes permitam entrar ou regressar de forma sustentada. Episódios mais críticos de saúde mental podem afetar a relação com aquele posto de trabalho em concreto, daí a necessidade de implementar estes mecanismos.

No caso da depressão, por exemplo, o que as orientações internacionais dizem é que as baixas devem ter a menor duração possível, porque a presença no local de trabalho pode ajudar à recuperação e o afastamento, por outro lado, pode agravar ainda mais a situação.

Também pode acontecer o contrário...
Sim, é verdade. Mas é também por isso que defendemos que o combate à pobreza tem de ser entendido como um desígnio nacional, um desígnio de toda a sociedade portuguesa, e isso inclui também as empresas. Só é possível que tenhamos sucesso se todos entendermos a importância da mobilização coletiva. Não se pode esperar que seja só o Estado a fazê-lo. Se acharmos que isto é uma responsabilidade exclusiva do Estado, dificilmente seremos bem-sucedidos.

O que cabe às empresas fazer?
O mais importante é estarem atentas, por exemplo, às condições em que é exercida a medicina do trabalho. Essas consultas podem servir para detetar precocemente problemas de saúde mental. Há vários mecanismos internos que podem ser criados e muitas empresas já têm, hoje em dia, formas de ajudar os seus trabalhadores e apoiá-los quando surgem questões específicas nesta área. São cada vez mais as empresas que estão preocupadas com a saúde mental dos seus trabalhadores, além da saúde física, e é preciso mobilizar as restantes. Este combate à pobreza ou é de todos ou dificilmente será bem-sucedido.

Pessoas com deficiência esquecidos pela Estratégia de Combate à Pobreza

Filomena Barros, in RR

A presidente da Humanitas diz que é inaceitável e lembra que há uma forte ligação entre deficiência e pobreza.

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza omite as pessoas com deficiência, no capítulo que refere as "Pessoas e Grupos mais Desfavorecidos".

É uma omissão que não se entende e a Humanitas vai fazer o alerta no âmbito da consulta pública que decorre até dia 25, da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, aprovada a 30 de setembro.

“Achamos que no ponto 4, onde se podia e devia referenciar a deficiência com principal público de inclusão social, e aliás o ponto 4 refere-se à inclusão social das pessoas e das classes mais desfavorecidas. Isso não é feito, o que para nós é inaceitável”, aponta a presidente da Federação Portuguesa para a Deficiência Mental.

Nesse capítulo são referidos os idosos, comunidade cigana e migrantes.

Helena Albuquerque admite que possa ter sido um “esquecimento”, até porque, acrescenta, “nos outros pontos (da Estratégia), ao nível da empregabilidade, etc., em todos eles faz-se uma alusão às pessoas com deficiência. Para grande surpresa da Humanitas, no ponto 4, que é um dos pontos mais importantes, que é sobre a inclusão social das pessoas mais desfavorecidas, não se faz referência às pessoas com deficiência…?! Não consigo interpretar isto, porque não está de acordo com o resto do documento. E como todos sabemos, há uma forte ligação entre deficiência e pobreza”.

De resto, o esquecimento a que se dizem votados está presente em outros assuntos, como o fim das restrições impostas pela pandemia. Tirando a autorização para os utentes dos lares regressarem aos Centros de Atividades Ocupacionais, mantêm-se quase todas as restrições, desde março de 2020.

Helena Albuquerque explica que “as pessoas com deficiência, nomeadamente com deficiência intelectual, estão colocadas nas empresas não a nível de contrato, mas através de protocolos entre as instituições e as empresas. E essas pessoas e foram obrigadas a regressar aos CAO, nomeadamente, e a suspender os seus protocolos. Portanto, havia comparticipações financeiras que essas pessoas estavam a receber, e que não recebem neste momento, porque ainda não nos foi autorizada a presença nas empresas”.

A Humanitas (que representa 35 instituições da área de apoio à deficiência intelectual) reclama por novas orientações desde julho, mas, três meses depois, ainda não teve qualquer resposta da Segurança Social.

A Renascença também pediu esclarecimentos ao gabinete da Ministra Ana Mendes Godinho, até agora em resposta.

4.10.21

Estratégia contra a pobreza segue para consulta pública

in o Observador

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza para 2021-2030 foi aprovada e vai agora ser submetida a consulta pública. O documento terá medidas específicas para diferentes públicos-alvo.

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 foi aprovada pelo Governo esta quinta-feira e segue agora para consulta pública, segundo comunicado do Conselho de Ministros.

“A estratégia constitui um elemento central do objetivo de erradicação da pobreza, enquadrado no desafio estratégico de redução das desigualdades”, tenso sido aprovada na generalidade “a fim de ser submetida a consulta pública”, refere o comunicado emitido no final da reunião desta quinta-feira do Conselho de Ministros.

“Tem por base uma abordagem global, multidimensional e transversal de articulação das políticas públicas e atores, definindo prioritariamente seis Eixos de intervenção, em estreita articulação com o Pilar Europeu dos Direitos Sociais e o respetivo Plano de Ação e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030”, lê-se no mesmo documento.

Em entrevista à Lusa em julho, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social adiantou que o documento iria ter medidas especificas para diferentes públicos-alvo, como as crianças, os jovens ou os trabalhadores e que seria apresentado até ao final do mês de setembro.

“Procuramos que esta estratégia nacional de combate à pobreza seja organizada e direcionada em função de públicos-alvo para termos medidas dirigidas em função de grupos específicos onde pode fazer diferença a implementação de medidas concretas”, disse, na altura, adiantando que a estratégia iria incluir, por exemplo, medidas “decisivas” e que podem “fazer a diferença” no combate à pobreza infantil, que é aquela que “pode levar a quebrar os ciclos intergeracionais de pobreza”.

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 terá também medidas dirigidas aos jovens, aos trabalhadores e aos públicos mais vulneráveis, além de “medidas transversais de preocupação com a coesão territorial”, garantindo uma “intervenção local cada vez mais com capacidade para respostas personalizadas, localizadas no território para garantir o combate às assimetrias, até no acesso aos serviços essenciais”.


29.6.21

Estratégia de Combate à Pobreza entra em consulta pública em setembro e dará “especial importância” a crianças e jovens

 Raquel Albuquerque, in Expresso

Com o objetivo de “quebrar ciclos de pobreza”, olhando para a vulnerabilidade dos mais jovens, a proposta de Estratégia está em discussão entre as várias áreas governativas e deverá entrar em consulta pública em setembro, segundo o Ministério do Trabalho e Segurança Social. Grupo de trabalho criado para rever as regras do RSI terá também de apresentar propostas até final de setembro

A comissão criada pelo Governo para elaborar uma proposta de Estratégia Nacional de Combate à Pobreza entregou o documento ao Executivo em dezembro, dois meses depois de ter sido constituída, e a proposta está agora a ser discutida entre as diferentes áreas governativas. “Prevê-se que entre em consulta pública no início de setembro”, indica ao Expresso o gabinete de Ana Mendes Godinho, ministra do Trabalho e da Segurança Social.

“A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza está a ser desenhada em função das diferentes etapas do ciclo de vida das pessoas, com enfoque nos grupos-alvo mais vulneráveis e dando especial importância ao combate à pobreza infantil e juvenil, com o objetivo de quebrar ciclos de pobreza”, refere o Ministério.

A comissão é composta por vários especialistas dedicados aos temas da pobreza e das desigualdades, como os economistas Carlos Farinha Rodrigues ou Amélia Bastos, e é coordenada por Edmundo Martinho, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. O grupo ouviu várias entidades e instituições sociais antes de elaborar a proposta que foi apresentada ao Governo.

O objetivo é que este documento, inserido no âmbito do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, “apresente medidas concretas, cruzando diferentes instrumentos e dimensões de política pública”, e criando em particular “um quadro de monitorização único da evolução dos indicadores”.

PROPOSTAS DE REVISÃO DO RSI TAMBÉM EM SETEMBRO

Associado a este esforço e aproveitando os 25 anos da existência do Rendimento Social de Inserção (RSI), criado por lei a 29 de junho de 1996, o Governo também criou um grupo de trabalho para rever as regras da atribuição desta prestação social.

Segundo o Ministério da Segurança Social, o “trabalho de reflexão interna tem estado em curso” e a equipa que está a avaliar as regras “tem de apresentar as suas propostas ao Governo até final de setembro”. O grupo é constituído por representantes da Direção-Geral da Segurança Social (a quem compete a coordenação), do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP), do Instituto da Segurança Social, do Instituto de Informática da Segurança Social e do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP).


“Poderão ainda ser convidadas a participar nos trabalhos personalidades de reconhecido mérito no âmbito do combate à pobreza e exclusão social, bem como outras entidades, como os parceiros sociais, os parceiros do sector social e solidário, representantes dos municípios ou membros da comissão responsável pela Estratégia Nacional de Combate à Pobreza.”

23.4.21

Pandemia intensificou a pobreza: mais 16.600 pessoas recorreram ao RSI no último ano

Natália Faria, in Público on-line

Prestação destinada a pessoas que vivem em pobreza extrema chega agora a 216.550 beneficiários, mais 8,3% do que em Março do ano passado. são números que indiciam “um agravamento muito claro da intensidade da pobreza neste ano de pandemia”, segundo a investigadora do ISEG Amélia Bastos.

O número de beneficiários do rendimento social de inserção (RSI) voltou a subir em Março, para um total de 216.550 beneficiários. É um aumento de mais de três mil beneficiários comparativamente com o mês anterior. Se recuarmos a Março do ano passado, altura em que foi decretada a pandemia provocada pelo novo coronavírus, o país soma mais 16.636 pessoas que usufruem desta prestação, destinada a ajudar à sobrevivência dos que vivem numa situação de pobreza extrema.

É um aumento de 8,3%, em apenas um ano. E a prestação média de RSI por beneficiário fixa-se agora nos 119,47 euros mensais, mais 2,4% do que em Março de 2020 (116,68 euros). A síntese estatística divulgada pela Segurança Social (SS), que dera já conta de um aumento também na casa dos três mil no número de beneficiários do RSI entre Janeiro e Fevereiro, permite perceber que a prestação média por família está agora nos 262,31 euros.

No total, 101.574 famílias beneficiam agora daquele apoio. São mais 1400 do que no mês anterior e mais 7626 famílias do que em Março de 2020. Sem surpresas, há mais mulheres do que homens a terem de recorrer ao RSI, perfazendo os menores de 18 anos 32,4% do total de beneficiários, o que também não constitui surpresa, dado que os números sobre a pobreza mostram há muito que as crianças e jovens são dos grupos mais afectados.

Só podem aceder ao RSI as pessoas ou famílias em situação de pobreza extrema. Quem viva sozinho não pode ter rendimentos mensais iguais ou superiores a 189,66 euros. E, no caso das famílias, a porta só se abre àquelas cuja soma de rendimentos mensais não seja igual ou superior ao valor máximo de RSI, o qual se calcula somando os referidos 189,66 euros pelo titular aos 132,76 euros por cada indivíduo maior e aos 94,83 euros por cada menor.

“São valores de tal forma baixos que o aumento do número de beneficiários indicia um agravamento muito claro da intensidade da pobreza neste ano de pandemia”, sublinhou ao PÚBLICO a investigadora Amélia Bastos, do Instituto Superior de Gestão, enfatizando que, mais do que o inquérito do INE às condições de vida, que se reportava aos rendimentos de 2019, e que dava por isso conta de uma redução do número de pessoas em risco de pobreza para os 16,2%, as estatísticas mensais do RSI “já têm que ver com o que acontece neste momento e dizem respeito a rendimentos e provas de recurso já respeitantes ao período de pandemia”. E traduzem, acrescenta a investigadora na área das desigualdades e pobreza, “um agravamento já esperado, mas ainda assim alarmante”.

A Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, cuja proposta já foi entregue ao Governo, poderá conter alterações no RSI, fazendo aproximar as suas prestações aos 540 euros mensais que marcam a linha da pobreza em Portugal, de forma a tornar este mecanismo mais eficaz no resgate das pessoas da situação de pobreza. Mas, por enquanto, o Governo não confirmou se acatará ou não a sugestão do grupo de trabalho que nomeou para pensar aquela estratégia.
Mais desempregados, menos pensões de velhice

Noutra frente, os desempregados com direito a prestações de desemprego aumentaram 38,8% num ano, tendo-se fixado em Março em 241.263 pessoas. Destas, 208.975 tinham direito a subsídio de desemprego (um aumento de 43,8% em termos homólogos) e as restantes estavam com o subsídio social de desemprego inicial ou subsequente. Quanto ao layoff, foram pagas 10.332 prestações, num aumento de 882,1% face a Março de 2020. Daquele universo, 5941 funcionários estavam em layoff temporário, enquanto os restantes 4391 viram reduzido o horário de trabalho.

As pensões destinadas aos idosos também continuam a diminuir por efeito da pandemia e do seu maior impacto em termos de mortalidade neste grupo etário. Esta redução é mais expressiva nas pensões por invalidez, que diminuíram 4,9% num ano (o equivalente a menos 9235 pensões, estando agora contabilizadas 179.437 pensões). Já as pensões de velhice e de sobrevivência diminuíram ambas entre Fevereiro e Março (menos 3931 e 1967, respectivamente), mas continuam a registar aumentos, ainda que muito ligeiros, relativamente ao mês homólogo do ano anterior. Por outro lado, o complemento solidário para idosos (CSI) desceu 3,7% num ano, estando agora a abranger 158.616 idosos.


20.4.21

Portugal deve "pôr as fichas todas nas famílias com crianças" para erradicar a pobreza

 Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia), in RR

O combate à pobreza tem de ser um “desígnio nacional”, e a prioridade tem de ser dada às famílias com crianças. Edmundo Martinho, coordenador da comissão que está a elaborar a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, acredita que Portugal vai conseguir inverter os números até 2030, mas até lá é preciso revalorizar os salários e mudar a política de habitação.

Sem revalorização dos baixos salários a pobreza não vai acabar em Portugal, mas a solução não depende só do Estado, diz Edmundo Martinho. O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e coordenador da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, comenta assim os resultados do estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), que indica que há um quinto de portugueses em situação de pobreza e que, desses, mais de metade até tem emprego, sendo que 20% da população pobre é constituída por crianças e jovens.

Assistente social de formação, Edmundo Martinho esteve na criação do Rendimento Mínimo Garantido, que deu lugar ao Rendimento Social de Inserção (RSI). Sabe que a pobreza não se combate só com subsídios, mas apoios como este continuam a ser fundamentais.

Na prioridade que tem de ser dada às famílias com filhos, a escola deve ter um papel fundamental na deteção precoce dos problemas. E combater a pobreza também implicará ter outra política de habitação, que acabe com o estigma relativamente aos bairros onde se mora, defende Edmundo Martinho.

Não considera chocante que mais de metade dos portugueses pobres até trabalharem? Isto não torna urgente combater os baixos salários e a precariedade laboral?

Torna urgentíssimo. Aliás, o estudo quando refere os famosos "três dês" [desemprego, divórcio e doença] não deixa de fazer referência a isso, e nomeadamente aos trabalhadores que fazem parte de famílias com crianças. A presença de crianças no agregado, e quando o número de crianças é maior, agrava muito as condições de pobreza material, e agrava sobretudo muito as condições de vida da maior parte dessas crianças.

Um dos eixos da Estratégia de Combate à Pobreza é, precisamente, o que tem que ver com a questão do emprego, das condições de trabalho, de uma forma geral. Sempre houve um bocadinho este conceito de que o trabalho era o melhor protetor das situações de pobreza, e aquilo que chegamos à conclusão em Portugal, e esse dado não é novo, é um dado conhecido.

"A nossa economia e as nossas empresas têm de ter uma atitude diferenciada relativamente à questão dos salários"

Não é novo, mas impressiona.

Impressiona muito, e houve durante vários programas do Governo a intenção de abordar de forma consolidada este aspeto. É verdade que no período imediatamente anterior à pandemia, a situação estava a melhorar substancialmente porque, obviamente, numa situação em que o mercado de emprego e a economia estão dinâmicos e pujantes isso tem um efeito muito relevante sobre os níveis salariais, mas não é suficiente, diria.

Embora seja um caminho que não podemos deixar de seguir, este de valorização salarial, das competências e das profissões, a nossa economia e as nossas empresas têm de ter uma atitude diferenciada relativamente à questão dos salários.

O salário mínimo é um instrumento de que o Governo dispõe para, de alguma forma, poder enfrentar esta situação, mas para além do salário mínimo há toda a dimensão da repartição daquilo que são os rendimentos da economia, entre a remuneração do capital e a remuneração do trabalho, e a remuneração do trabalho tem vindo a perder espaço ao longo das últimas décadas. Temos de ser capazes de inverter isto, e isso é possível não a partir de um impulso governativo, porque não é por aí.

O mundo económico e financeiro de hoje não é determinado pelo Estado, propriamente...

Exatamente, o Estado tem um papel a desempenhar, mas - e esse é um dos outros eixos da proposta de Estratégia que apresentámos - enquanto não entendermos que o combate à pobreza é um desígnio nacional, e de todos, não somos capazes de atingir resultados satisfatórios.

Há a dimensão das políticas públicas, há a dimensão da responsabilidade do Estado, e essa, obviamente, deve ser aprofundada nas dimensões em que pode ter impacto significativo. Mas, depois, há toda uma outra dimensão que temos de entender, que enquanto houver situações de pobreza como aquelas que se conhecem e que referiu - nomeadamente as que se associam a práticas profissionais e a uma relação estável com o trabalho -, enquanto houver situações desse tipo, a sociedade, como um todo, não pode estar ignorante relativamente a isto e, pelo contrário, tem de se mobilizar.

A mobilização não passa apenas pelas iniciativas da responsabilidade social, pelos apoios ocasionais aqui e acolá, não. Passa por este entendimento de que o trabalho, sendo o fator mais protetor das situações de pobreza, tem de ser valorizado, e valorizar o trabalho significa também valorizar a dimensão salarial do trabalho. Nada disto se faz apenas com a resposta de um lado, ou seja, na medida das responsabilidades que nos cabem, naturalmente, é preciso que todos nos mobilizemos para isto.

"O Estado tem um papel a desempenhar, mas - e esse é um dos outros eixos da proposta de Estratégia que apresentámos - enquanto não entendermos que o combate à pobreza é um desígnio nacional, e de todos, não somos capazes de atingir resultados satisfatórios"

O próprio autor do estudo diz que não se pode centrar as respostas só na Segurança Social, por exemplo, tem de ser multisetorial.

Sem dúvida nenhuma. É óbvio, e todos sabemos, que a Segurança Social, através das transferências que são feitas para os cidadãos - seja o abono de família, o subsídio de desemprego, as pensões de reforma, etc -, essas transferências sociais têm um impacto muito forte na redução da pobreza. Sem essas transferências teríamos uma situação muito mais dramática.

A Segurança Social tem um papel essencial na forma como faz a gestão destes apoios financeiros, como os torna cada vez mais eficazes, e esse é outro aspeto muito relevante das políticas públicas. Portanto, a Segurança Social tem um papel importantíssimo, mas está longe de ser suficiente.

Nós temos hoje, como o próprio estudo aponta, a questão do divórcio e a forma como implica na organização das famílias, e como implica numa fragilização, não só dos laços entre os membros da família, como na relação com o consumo, com aquilo que são os consumos essenciais à vida das famílias: a questão da habitação, a questão da saúde, que também vem referida nos três Ds, com o “d” de doença.

A pobreza é uma herança que ninguém quer receber, mas o Estudo confirma que continua a ser um dos problemas do país, com uma pobreza que passa de geração em geração, muitas vezes estamos a falar de um pai e de uma mãe com vários filhos, que vão passar por essa pobreza, e de certa forma a aumentá-la..

Ou pelo menos a mantê-la...

Como é que se combate este quase “destino” de que quem nasce pobre tenha de permanecer pobre ao longo da vida?

O foco principal e esmagador que as políticas públicas deviam ter - se me permite a expressão muito coloquial - é força toda no que tem a ver com as crianças, e isto significa várias dimensões. Significa, desde logo, a dimensão das condições materiais, financeiras e de vida da família onde a criança vive, porque a criança não vive sozinha, obviamente. E deveria haver - pelo menos é essa a nossa grande preocupação - um reforço substancial daquilo que são as condições de vida materiais destas famílias onde haja crianças.

Depois a questão da escola, e aqui, quando se fala de escola, fala-se não no sentido estrito daquilo que é o percurso escolar formal, mas começa nas creches. Temos de ter uma política muito firme e muito forte de reforço e disponibilização das creches às nossas crianças. É essencial que as creches sejam completamente disponíveis para as famílias, porque muitas vezes caímos no erro de achar que as creches são um serviço que se presta às famílias, mas não é verdade. Também é, mas a creche tem de ser entendida fundamentalmente como um direito e um serviço que se presta a cada criança, porque é aí que tudo se inicia e se forma, é aí que se criam as bases para um desenvolvimento harmonioso e adequado.

Depois há uma segunda dimensão que também representamos na proposta de Estratégia que fizemos, e que de alguma forma está em curso, que tem que ver com o acompanhamento personalizado de todas as situações de crianças na escola, que precisam de acompanhamento extraescolar.

Sabemos hoje que uma das razões que leva ao abandono escolar tem muito que ver com o insucesso, e esse insucesso quantas vezes está ligado à dificuldade que as famílias podem ter de acompanhar as crianças naquilo que é o seu percurso extraescolar.

"O foco principal e esmagador que as políticas públicas deviam ter - se me permite a expressão muito coloquial - é pôr as fichas todas no que tem a ver com as crianças e nas famílias com crianças"

Uma situação que provavelmente se acentuou, agora com a pandemia.

Naturalmente, ficou muito mais visível, quem não tem em casa quem estimule, quem acompanhe nos trabalhos, quem acompanhe o percurso escolar. É uma área que deveríamos, sem nenhuma dúvida, assumir como um foco central.

Depois a questão da habitação, que é essencial. Deveríamos desviar o foco que temos tido, e deveríamos eliminar aquilo que são as políticas de habitação social e termos uma política social de habitação. Isto, que parece semântico, não é, de todo. Nós temos hoje crianças que estão marcadas desde logo pelos sítios onde vivem. Quando estão na escola com os amigos, com os seus pares, com os professores, não é indiferente a origem habitacional que apresentam, e temos de ser capazes de combater isso.

Isto para dizer que, relativamente ao combate à pobreza, acho que a obrigação que temos é pôr as fichas todas - desculpem usar esta expressão - nas crianças e nas famílias com crianças.

ESTUDO
Pobreza em Portugal. "Não basta ter um emprego seguro"


É o que pode fazer a diferença a médio e longo prazo?

Claro. Porque se estamos com aproximações tímidas, às vezes um bocadinho menos tímidas, mas se não entramos a sério com toda a força neste domínio, dificilmente conseguiremos, a prazo, alterar este quadro em que uma criança que nasce pobre, seguramente será pobre ao longo da sua vida adulta. Isso tem que ser quebrado, de alguma maneira.

E finalmente uma quarta dimensão, sempre com este foco muito poderoso nas famílias com crianças, é a questão do acompanhamento destas famílias. Entendemos que é indispensável que o acompanhamento das famílias onde haja crianças seja um acompanhamento muito alargado, ou seja, quando estabelecemos objetivos para a vida de uma criança, para o seu percurso escolar - numa creche, no pré-escolar e por aí fora - temos de ser capazes, em simultâneo, de perceber quais são as fragilidades adicionais que lhe estão associadas, porque muitas vezes isso não chega. Falamos de habitação e dos cuidados de saúde.

Não é por acaso que propomos uma outra questão que tem que ver com os rastreios regulares ao nível da saúde escolar, haver a preocupação de um acompanhamento em permanência de todas as crianças, não apenas daquelas que possam ser mais pobres, que permita esta vigilância das condições de saúde, que podem ter que ver com a qualidade alimentar, a qualidade do ar que a pessoa respira na sua casa, doenças, falta de exercício. É importantíssimo que haja uma vigilância.

Feita na escola?

Na escola, ou a partir da escola. A escola tem de ser, desse ponto de vista e na nossa ótica, o polo central de onde tudo isto parte. Depois, obviamente, as respostas são diferenciadas. Dou-lhe um exemplo aqui em Lisboa, e que tem que ver com a questão da saúde oral.

A Santa Casa tem um projeto nessa área.

Sim, uma clínica que está a funcionar, totalmente gratuita para todas as crianças, independentemente da condição financeira dos agregados. A única diferença, onde pode haver uma ligeira comparticipação para as crianças de agregados com condições financeiras melhores, é na comparticipação dos aparelhos quando precisam deles.

Temos milhares de crianças que já foram acompanhadas naquela clínica, que provavelmente de outra forma não iriam cuidar dos seus dentes.

E a relevância disto é que não é apenas uma questão de estética, tem a ver com a saúde global da criança, com o próprio relacionamento social.

Temos hoje em fila (de espera) mais de 400 crianças que vão pôr o seu aparelho, que de outra forma não poriam. Obviamente que a dentição mais corrigida permite-lhes terem uma melhoria ao nível da mastigação, mas também do ponto de vista das suas relações sociais.

Numa sociedade que é cada vez mais de imagem, isto não é assim tão inócuo…

Exatamente, tudo isso conta. Para uma criança que vive num ambiente fragilizado, todas as pequenas conquistas são relevantes. Ainda que possam ser coisas que, à partida, podemos dizer que não têm relevo. Não é verdade. Temos cartas de crianças a pedir a consulta, a fazer a marcação, dramáticas, desse ponto de vista. Sobretudo de adolescentes.

É a idade mais difícil…

Claro. No confronto com os seus pares, sentem uma fragilidade adicional e, às vezes, é a que mais as incomoda, em termos pessoais, porque é aquela que se exprime na imagem que nós projetamos para os outros.

Isto para dizer que – voltando ao princípio – estas situações não chegam à Segurança Social, de todo. É preciso que mobilizemos todos os recursos e, na nossa perspetiva, o foco das famílias com crianças tem de ser assumido de forma plena. Isso significa recursos, e não apenas materiais, financeiros, mas também recursos humanos. O próprio PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] prevê um reforço substancial ao nível de cada concelho, e isto é essencial.

Um acompanhamento comunitário, mais próximo do terreno?

Um acompanhamento das famílias, em que a gente sabe não apenas o que aquela criança precisa para ter um crescimento saudável e harmonioso: temos também de perceber quais são as dimensões onde se nota mais a fragilidade da própria família – se é a habitação, a questão do emprego, a doença. Isto tem de resultar num plano conjugado para a família toda. A prioridade deve ser dada, em nosso entender, às famílias onde haja crianças.

Em que ponto está a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza? Em dezembro foi entregue um primeiro esboço ao Governo, quando é que será apresentada publicamente?

Este tem sido um processo excecional. O meu papel é de coordenador de um conjunto de peritos, de onde vem muita desta orientação global. O que procuramos fazer foi um processo de auscultação muito extenso, ouvimos praticamente todas as grandes organizações representativas e muitas pessoas individuais, investigadores ou militantes destas causas.

Procurámos, a partir de três ou quatro perguntas, perceber como é cada uma destas pessoas, destas entidades, entende que o combate à pobreza deve ser feito: o que está bem e deve ser reforçado; o que está mal e deve ser corrigido; o que não temos e deve existir. Para combater a pobreza, o que temos de fazer? Melhorando o que existe, corrigindo o que está mal e fazendo o que não está feito, de alguma maneira.

Este processo foi excecional, tivemos muitas, muitas contribuições, quase todas de grande profundidade e de grande qualidade. Terminamos uma proposta de Estratégia, que se estrutura em volta de cinco, seis eixos e depois tem as medidas concretas.

Cabe ao Governo fazer duas coisas: validar o que ali está, porque depende, obviamente, da orientação do Executivo. Depois, estamos numa fase em que vão existir contactos com outras áreas governativas, porque esta estratégia tem a coordenação – do lado do Governo – da senhora ministra da Presidência e da senhora ministra do Trabalho, mas é indispensável, nesta fase, associar outras áreas governativas. Há questões que têm a ver com a saúde, as finanças, a habitação, a educação. É indispensável recolher, por parte do Governo, a sensibilidade àquele conjunto de medidas, até que ponto algumas daquelas coisas que estão propostas estão ou não em curso, estão ou não a ser preparadas, para que depois saia um documento coerente.

O terceiro passo é o da consulta pública, segundo o que está previsto como metodologia: colocar o documento em consulta pública, para voltar a recolher contributos de quem queira, já não em cima de duas ou três perguntas, mas de um documento concreto, em que as pessoas podem dar conta do que estão ou não de acordo, do que consideram insuficiente, excessivo.

Tivemos uma iniciativa, no site desta Estratégia, abrindo, durante bastante tempo, a possibilidade de qualquer pessoa poder fazer os seus comentários, e tivemos muitas centenas de contributos. Uns mais estruturados, outros menos, mas é um sinal positivo: de facto, esta questão da pobreza é uma questão que mobiliza as pessoas. Agora, tem é de as mobilizar para a ação concreta. Não chega mobilizar para o domínio concetual ou da compaixão, é preciso mobilizar para a ação concreta.


"O RSI não tira ninguém da situação de pobreza, mas mitiga a pobreza extrema. O que queremos é que estas prestações, progressivamente, se aproximem do limiar da pobreza, e que essa aproximação, mais uma vez, se tivermos de priorizar alguma coisa, comece pelas famílias onde há crianças"

Durante a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia vamos ter a Cimeira Social no Porto, a 7 e 8 de maio. Vai ser um grande momento de reflexão sobre estes temas?

Vai ser, seguramente, um momento de reflexão e mais do que isso, porque o momento central da Cimeira é a aprovação do Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, que é um instrumento relativamente ao qual Portugal teve um contributo importante quando foi aprovado em Gotemburgo, durante a presidência sueca. Levou este tempo todo a transformar-se de um documento proclamatório - embora relevante -, com os 20 princípios que tem, num plano de ação. E é um plano de ação com dados objetivos muitos concretos para a Comissão Europeia.

Como tirar 15 milhões de pessoas da pobreza, até 2030…

Dos quais cinco milhões de crianças, voltamos sempre ao tema. Este momento da cimeira pode ser relevantíssimo, porque é a consagração no espaço europeu, da ambição – que alguns consideram insuficiente, outros considerarão excessiva, mas é sempre assim – de ter um impacto muito forte no domínio dos direitos sociais. É disso que se trata, não é apenas a pobreza. Naturalmente, a pobreza tem um lugar central no Pilar Europeu dos Direitos Sociais, no plano de ação, mas vai muito para além disso. Acho que é um momento de desafio para todos os Estados-membros.

Relativamente aos subsídios: esteve envolvido na criação do Rendimento Mínimo Garantido, que deu lugar ao Rendimento Social de inserção (RSI). É certo que a pobreza não se combate só com subsídios, mas é fundamental que este tipo de apoio continue a existir? O que é que está previsto?

Esse é um dos eixos da estratégia, os mecanismos de proteção social, de uma forma geral, e como é que podem ser melhorados. Temos um caminho que aponta para que, progressivamente, este conjunto de prestações tenda a consolidar-se. Que possamos deixar de ter quatro, cinco, seis, sete, oito prestações diferentes, às vezes com condições de acesso diferenciadas, com condição de recurso diferente, caminhando progressivamente para uma consolidação e uma harmonização destas respostas.

Temos de trabalhar naquelas que existem – e a proposta que temos, em relação ao RSI, aponta para uma melhoria substancial, não apenas do ponto de vista financeiro, mas da sua capacidade. O RSI sempre foi entendido, às vezes de forma excessiva por alguns, como um instrumento que se dedica a suavizar a pobreza extrema, mas não retira ninguém da pobreza. Temos o limiar da pobreza pelos 480 euros por mês, para uma pessoa; o RSI são 180.

O RSI não tira ninguém da situação de pobreza, mas mitiga a pobreza extrema. O que queremos é que estas prestações, progressivamente, se aproximem do limiar da pobreza, e que essa aproximação, mais uma vez, se tivermos de priorizar alguma coisa, comece pelas famílias onde há crianças.

"Em condições normais, de retoma da atividade, com liberdade, diria que temos condições para, neste espaço de 10 anos, podermos inverter muito esta imagem, este retrato da pobreza em Portugal"

É preciso escolher os recursos que estão disponíveis…

Não é possível fazer de um dia para o outro. Esta estratégia é a 10 anos, até 2030, o importante é que possamos dizer, quando lá chegarmos, que houve impacto real na vida destas famílias, em particular na vida destas crianças, que hoje podem ter três, cinco anos, daqui a 10 anos serão adolescentes, alguns jovens adultos. Temos de ter esta capacidade de assumir a melhoria das prestações que temos hoje, em cima da mesa. Melhorar substancialmente a sua eficácia, por um lado, e melhorar o seu impacto na vida das famílias, por outro lado. É preciso fazer isto – peço desculpa pela insistência – priorizando as famílias com crianças, porque elas têm fatores agravados.

É aí que se pode quebrar o ciclo?

Não há outra forma, diria. Não há outra forma…

Portugal vai conseguir vencer este desafio de combater a pobreza?

Vai. Estou muito convicto disto. Por aquilo que é possível perceber, do que está hoje presente num conjunto de documentos, que são estruturantes da nossa atividade, do país – como o PRR, o próprio plano de ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, as estratégias que estão em curso no domínio da habitação, a própria educação -, tudo o que estamos a fazer, permite-nos ser otimistas, em relação a isto.

Agora, ser otimista não chega, é preciso ser capazes de pôr a energia – não apenas a nossa, individual -, dos serviços, dos recursos, ao serviço desta causa. E a questão das crianças é de primeiríssimo plano, deveria ser de primeiríssima prioridade.

Em que horizonte temporal vamos conseguir fazer isso?

Tudo vai depender do ritmo de recuperação da economia. Se conseguirmos debelar o desemprego, criar emprego mais qualificado, mais bem remunerado, tudo isto pode acelerar. Vai depender muito da forma como o país, como um todo, consiga retomar o caminho que estávamos a ter, de crescimento e de coesão.

Em condições normais, de retoma da atividade, com liberdade, diria que temos condições para, neste espaço de 10 anos, podermos inverter muito esta imagem, este retrato da pobreza em Portugal.

19.4.21

«Combate à pobreza é um desígnio nacional, e de todos» – Edmundo Martinho

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)in Agência Ecclesia

Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é coordenador da Comissão que está a elaborar a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza

Um quinto dos portugueses está em situação de pobreza, e desses, mais de metade tem emprego. Para muitos a pobreza é uma herança familiar, e mais de 20% da população pobre é constituída por crianças e jovens.

São dados, resumidos, do Estudo que a Fundação Francisco Manuel dos Santos divulgou na última semana e que servem de mote para a conversa com Edmundo Martinho.

Não considera chocante mais de metade dos portugueses pobres até trabalharem? Isto não torna urgente combater os baixos salários e a precariedade laboral?

Torna urgentíssimo. Aliás, o estudo quando refere os famosos 3 D’s (desemprego, divórcio e doença) não deixa de fazer referência a isso, e nomeadamente aos trabalhadores que fazem parte de famílias com crianças.

A presença de crianças no agregado, e quando o número de crianças é maior, agrava muito as condições de pobreza material, e agrava sobretudo muito as condições de vida da maior parte dessas crianças. E um dos eixos da Estratégia de Combate à Pobreza é precisamente o que tem que ver com a questão do emprego, das condições de trabalho, de uma forma geral.

Sempre houve um bocadinho este conceito de que o trabalho era o melhor protetor das situações de pobreza, e aquilo que chegamos à conclusão em Portugal, e esse dado não é novo, é um dado conhecido…


Não é novo, mas impressiona…

Impressiona muito, e houve durante vários programas do governo a intenção de abordar de forma consolidada este aspeto.

É verdade que no período imediatamente anterior à pandemia, a situação estava a melhorar substancialmente porque, obviamente, numa situação em que o mercado de emprego e a economia estão dinâmicos e pujantes isso tem um efeito muito relevante sobre os níveis salariais, mas não é suficiente, diria. Embora seja um caminho que não podemos deixar de seguir, este de valorização salarial, das competências e das profissões, a nossa economia e as nossas empresas têm de ter uma atitude diferenciada relativamente à questão dos salários.

O salário mínimo é um instrumento de que o governo dispõe para, de alguma forma, poder enfrentar esta situação, mas para além do salário mínimo há toda a dimensão da repartição daquilo que são os rendimentos da economia, entre a remuneração do capital e a remuneração do trabalho, e a remuneração do trabalho tem vindo a perder espaço ao longo das últimas décadas. Temos de ser capazes de inverter isto, e isso é possível não a partir de um impulso governativo, porque não é por aí…

É uma questão que ia colocar: o mundo económico e financeiro de hoje não é determinado pelo Estado, propriamente…

Exatamente, o Estado tem um papel a desempenhar, mas – e esse é um dos outros eixos da proposta de Estratégia que apresentámos – enquanto não entendermos que o combate à pobreza é um desígnio nacional, e de todos, não somos capazes de atingir resultados satisfatórios.

Há a dimensão das políticas públicas, há a dimensão da responsabilidade do Estado, e essa, obviamente, deve ser aprofundada nas dimensões em que pode ter impacto significativo. Mas, depois há toda uma outra dimensão que temos de entender, que enquanto houver situações de pobreza como aquelas que se conhecem e que referiu – nomeadamente as que se associam a práticas profissionais e a uma relação estável com o trabalho -, enquanto houver situações desse tipo, a sociedade, como um todo, não pode estar ignorante relativamente a isto e, pelo contrário, tem de se mobilizar. E a mobilização não passa apenas pelas iniciativas da responsabilidade social, pelos apoios ocasionais aqui e acolá, não. Passa por este entendimento de que o trabalho, sendo o fator mais protetor das situações de pobreza, tem de ser valorizado, e valorizar o trabalho significa também valorizar a dimensão salarial do trabalho.

Nada disto se faz apenas com a resposta de um lado, ou seja, na medida das responsabilidades que nos cabem, naturalmente, é preciso que todos nos mobilizemos para isto.

O próprio autor do estudo diz que não se pode centrar as respostas só na Segurança Social, por exemplo, tem de ser multissectorial.

Sem dúvida nenhuma. É óbvio, e todos sabemos, que a Segurança Social, através das transferências que são feitas para os cidadãos – seja o abono de família, o subsídio de desemprego, as pensões de reforma, etc. -, essas transferências sociais têm um impacto muito forte na redução da pobreza. Sem essas transferências teríamos uma situação muito mais dramática. A Segurança Social tem um papel essencial na forma como faz a gestão destes apoios financeiros, como os torna cada vez mais eficazes, e esse é outro aspeto muito relevante das políticas públicas. Portanto, a Segurança Social tem um papel importantíssimo, mas está longe de ser suficiente.

Nós temos hoje, como o próprio estudo aponta, a questão do divórcio e a forma como implica na organização das famílias, e como implica numa fragilização, não só dos laços entre os membros da família, como na relação com o consumo, com aquilo que são os consumos essenciais à vida das famílias: a questão da habitação, a questão da saúde, que também vem referida nos três D, com o ‘d’ de doença…

A pobreza é uma herança que ninguém quer receber, mas o Estudo confirma que continua a ser um dos problemas do país, com uma pobreza que passa de geração em geração, muitas vezes estamos a falar de um pai e de uma mãe com vários filhos, que vão passar por essa pobreza, e de certa forma a aumentá-la…

Ou pelo menos a mantê-la…

Como é que se combate este quase ‘destino’ de que quem nasce pobre tenha de permanecer pobre ao longo da vida?

Dou-lhe a minha opinião muito direta sobre isso: o foco principal e esmagador que as políticas públicas deviam ter – se me permite a expressão muito coloquial – é força toda no que tem a ver com as crianças, e isto significa várias dimensões. Significa, desde logo, a dimensão das condições materiais, financeiras e de vida da família onde a criança vive, porque a criança não vive sozinha, obviamente. E deveria haver – pelo menos é essa a nossa grande preocupação – um reforço substancial daquilo que são as condições de vida materiais destas famílias onde haja crianças.

Depois a questão da escola, e aqui, quando se fala de escola, fala-se não no sentido estrito daquilo que é o percurso escolar formal, mas começa nas creches. Temos de ter uma política muito firme e muito forte de reforço e disponibilização das creches às nossas crianças. É essencial que as creches sejam completamente disponíveis para as famílias, porque muitas vezes caímos no erro de achar que as creches são um serviço que se presta às famílias, mas não é verdade. Também é, mas a creche tem de ser entendida fundamentalmente como um direito e um serviço que se presta a cada criança, porque é aí que tudo se inicia e se forma, é aí que se criam as bases para um desenvolvimento harmonioso e adequado. Portanto, desde logo a questão das creches, com um grande reforço da nossa capacidade de acolher as crianças em creches.

Depois há uma segunda dimensão que também representamos na proposta de Estratégia que fizemos, e que de alguma forma está em curso, que tem que ver com o acompanhamento personalizado de todas as situações de crianças na escola, que precisam de acompanhamento extra escolar.

Sabemos hoje que uma das razões que leva ao abandono escolar tem muito que ver com o insucesso, e esse insucesso quantas vezes está ligado à dificuldade que as famílias podem ter de acompanhar as crianças naquilo que é o seu percurso extra escolar.

Uma situação que provavelmente se acentuou, agora com a pandemia.

Naturalmente, ficou muito mais visível, quem não tem em casa quem estimule, quem acompanhe nos trabalhos, quem acompanhe o percurso escolar. É uma área que deveríamos, sem nenhuma dúvida, assumir como um foco central.

Depois a questão da habitação, que é essencial. Deveríamos desviar o foco que temos tido, e deveríamos eliminar aquilo que são as políticas de habitação social e termos uma política social de habitação. Isto, que parece semântico, não é, de todo. Nós temos hoje crianças que estão marcadas desde logo pelos sítios onde vivem. Quando estão na escola com os amigos, com os seus pares, com os professores, não é indiferente a origem habitacional que apresentam, e temos de ser capazes de combater isso. Isto para dizer que, relativamente ao combate à pobreza, acho que a obrigação que temos é por as fichas todas – desculpem usar esta expressão – nas crianças e nas famílias com crianças.

É o que pode fazer a diferença a médio e longo prazo?

Claro. Porque se estamos com aproximações tímidas, às vezes um bocadinho menos tímidas, mas se não entramos a sério com toda a força neste domínio, dificilmente conseguiremos a prazo alterar este quadro em que uma criança que nasce pobre, seguramente será pobre ao longo da sua vida adulta. Isso tem que ser quebrado, de alguma maneira.

E finalmente uma quarta dimensão, sempre com este foco muito poderoso nas famílias com crianças, é a questão do acompanhamento destas famílias. Entendemos que é indispensável que o acompanhamento das famílias onde haja crianças seja um acompanhamento muito alargado, ou seja, quando estabelecemos objetivos para a vida de uma criança, para o seu percurso escolar – numa creche, no pré-escolar e por aí fora – temos de ser capazes, em simultâneo, de perceber quais são as fragilidades adicionais que lhe estão associadas, porque muitas vezes isso não chega. Falamos de habitação e dos cuidados de saúde. Não é por acaso que propomos uma outra questão que tem que ver com os rastreios regulares ao nível da saúde escolar, haver a preocupação de um acompanhamento em permanência de todas as crianças, não apenas daquelas que possam ser mais pobres, que permita esta vigilância das condições de saúde, que podem ter que ver com a qualidade alimentar, a qualidade do ar que a pessoa respira na sua casa, doenças, falta de exercício. É importantíssimo que haja uma vigilância…

Feita na escola?

Na escola, ou a partir da escola. A escola tem de ser, desse ponto de vista e na nossa ótica, o polo central de onde tudo isto parte. Depois, obviamente, as respostas são diferenciadas. Dou-lhe um exemplo aqui em Lisboa, e que tem que ver com a questão da saúde oral.

A Santa Casa tem um projeto nessa área.

Sim, uma clínica que está a funcionar, totalmente gratuita para todas as crianças, independentemente da condição financeira dos agregados. A única diferença, onde pode haver uma ligeira comparticipação para as crianças de agregados com condições financeiras melhores, é na comparticipação dos aparelhos quando precisam deles.

Temos milhares de crianças que já foram acompanhadas naquela clínica, que provavelmente de outra forma não iriam cuidar dos seus dentes. E a relevância disto é que não é apenas uma questão de estética, tem a ver com a saúde global da criança, com o próprio relacionamento social. Porque, a questão dos aparelhos, temos hoje em fila (de espera) mais de 400 crianças que vão pôr o seu aparelho, que de outra forma não poriam. Obviamente que a dentição mais corrigida permite-lhes terem uma melhoria ao nível da mastigação, mas também do ponto de vista das suas relações sociais.

Nós estamos numa sociedade que é cada vez mais de imagem, isto não é assim tão inócuo…

Exatamente, tudo isso conta. Para uma criança que vive num ambiente fragilizado, todas as pequenas…

Conquistas, não é?

Exatamente. São relevantes. Ainda que possam ser coisas que, à partida, podemos dizer que não têm relevo. Não é verdade. Temos cartas de crianças a pedir a consulta, a fazer a marcação, dramáticas, desse ponto de vista. Sobretudo de adolescentes.

É a idade mais difícil…

Claro. No confronto com os seus pares, sentem uma fragilidade adicional e, às vezes, é a que mais as incomoda, em termos pessoais, porque é aquela que se exprime na imagem que nós projetamos para os outros.

Isto para dizer que – voltando ao princípio – estas situações não chegam à Segurança Social, de todo. É preciso que mobilizemos todos os recursos e, na nossa perspetiva, o foco das famílias com crianças tem de ser assumido de forma plena. Isso significa recursos, e não apenas materiais, financeiros, mas também recursos humanos. O próprio PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) prevê um reforço substancial ao nível de cada concelho e isto é essencial.

Um acompanhamento comunitário, mais próximo do terreno?

Um acompanhamento das famílias, em que a gente sabe não apenas o que aquela criança precisa para ter um crescimento saudável e harmonioso: temos também de perceber quais são as dimensões onde se nota mais a fragilidade da própria família – se é a habitação, a questão do emprego, a doença.

Isto tem de resultar num plano conjugado para a família toda. A prioridade deve ser dada, em nosso entender, às famílias onde haja crianças.

Em que ponto está a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza? Em dezembro foi entregue um primeiro esboço ao Governo, quando é que será apresentada publicamente?

Este tem sido um processo excecional. O meu papel é de coordenador de um conjunto de peritos, de onde vem muita desta orientação global. O que procuramos fazer foi um processo de auscultação muito extenso, ouvimos praticamente todas as grandes organizações representativas e muitas pessoas individuais, investigadores ou militantes destas causas. Procuramos, a partir de três ou quatro perguntas, perceber como é cada uma destas pessoas, destas entidades, entende que o combate à pobreza deve ser feito: o que está bem e deve ser reforçado; o que está mal e deve ser corrigido; o que não temos e deve existir. Para combater a pobreza, o que temos de fazer? Melhorando o que existe, corrigindo o que está mal e fazendo o que não está feito, de alguma maneira.

Este processo foi excecional, tivemos muitas, muitas contribuições, quase todas de grande profundidade e de grande qualidade. Terminamos uma proposta de estratégia, que se estrutura em volta de cinco, seis eixos e depois tem as medidas concretas.

Cabe ao Governo fazer duas coisas: validar o que ali está, porque depende, obviamente, da orientação do Executivo. Depois, estamos numa fase em que vão existir contactos com outras áreas governativas, porque esta estratégia tem a coordenação – do lado do Governo – da senhora ministra da Presidência e da senhora ministra do Trabalho, mas é indispensável, nesta fase, associar outras áreas governativas. Há questões que têm a ver com a saúde, as finanças, a habitação, a educação. É indispensável recolher, por parte do Governo, a sensibilidade àquele conjunto de medidas, até que ponto algumas daquelas coisas que estão propostas estão ou não em curso, estão ou não a ser preparadas, para que depois saia um documento coerente.

O terceiro passo é o da consulta pública, segundo o que está previsto como metodologia: colocar o documento em consulta pública, para voltar a recolher contributos de quem queira, já não em cima de duas ou três perguntas, mas de um documento concreto, em que as pessoas podem dar conta do que estão ou não de acordo, do que consideram insuficiente, excessivo.

Tivemos uma iniciativa, no site desta Estratégia, abrindo, durante bastante tempo, a possibilidade de qualquer pessoa poder fazer os seus comentários. E tivemos muitas centenas de contributos. Uns mais estruturados, outros menos, mas é um sinal positivo: de facto, esta questão da pobreza é uma questão que mobiliza as pessoas. Agora, tem é de as mobilizar para a ação concreta. Não chega mobilizar para o domínio concetual ou da compaixão, é preciso mobilizar para a ação concreta.

Durante a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia vamos ter a Cimeira Social no Porto, a 7 e 8 de maio. Vai ser um grande momento de reflexão sobre estes temas?

Vai ser, seguramente, um momento de reflexão e mais do que isso, porque o momento central da cimeira é a aprovação do Plano de Ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, que é um instrumento relativamente ao qual Portugal teve um contributo importante quando foi aprovado em Gotemburgo, durante a presidência sueca. Levou este tempo todo a transformar-se de um documento proclamatório – embora relevante -, com os 20 princípios que tem, num plano de ação. E é um plano de ação com dados, objetivos muitos concretos para a Comissão Europeia.

Como tirar 15 milhões de pessoas da pobreza, até 2030…

Dos quais cinco milhões de crianças. Voltamos sempre ao tema. Este momento da cimeira pode ser relevantíssimo, porque é a consagração no espaço europeu, da ambição – que alguns consideram insuficiente, outros considerarão excessiva, mas é sempre assim – de ter um impacto muito forte no domínio dos direitos sociais. É disso que se trata, não é apenas a pobreza, o pilar vai muito além.

Naturalmente, a pobreza tem um lugar central no Pilar Europeu dos Direitos Sociais, no plano de ação, mas vai muito para além disso. Acho que é um momento de desafio para todos os Estados-membros.

Relativamente aos subsídios: esteve envolvido na criação do Rendimento Mínimo Garantido, que deu lugar ao Rendimento Social de inserção (RSI). É certo que a pobreza não se combate só com subsídios, é fundamental que este tipo de apoio continue a existir? O que está previsto?

Esse é um dos eixos da estratégia, os mecanismos de proteção social, de uma forma geral, e como é que podem ser melhorados. Ou seja, temos um caminho que aponta para que, progressivamente, este conjunto de prestações tenda a consolidar-se. Que possamos deixar de ter quatro, cinco, seis, sete, oito prestações diferentes, às vezes com condições de acesso diferenciadas, com condição de recurso diferente, caminhando progressivamente para uma consolidação e uma harmonização destas respostas.

Temos de trabalhar naquelas que existem – e a proposta que temos, em relação ao RSI, aponta para uma melhoria substancial não apenas do ponto de vista financeiro, mas da sua capacidade. O RSI sempre foi entendido, às vezes de forma excessiva por alguns, como um instrumento que se dedica a suavizar a pobreza extrema, mas não retira ninguém da pobreza. Temos o limiar da pobreza pelos 480 euros por mês, para uma pessoa; o RSI são 180…

O RSI não tira ninguém da situação de pobreza, mas mitiga a pobreza extrema. O que queremos é que estas prestações, progressivamente, se aproximem do limiar da pobreza, e que essa aproximação, mais uma vez, comece pelas famílias onde há crianças. Se tivermos de priorizar alguma coisa…

É preciso escolher os recursos que estão disponíveis…

Não é possível fazer de um dia para o outro. Esta estratégia é a 10 anos, até 2030, o importante é que possamos dizer, quando lá chegarmos, que houve impacto real na vida destas famílias, em particular na vida destas crianças, que hoje podem ter 3, 5, anos, e daqui a dez anos serão adolescentes, alguns jovens adultos. Temos de ter esta capacidade de assumir a melhoria das prestações que temos hoje, em cima da mesa. Melhorar substancialmente a sua eficácia, por um lado, e melhorar o seu impacto na vida das famílias, por outro lado.

É preciso fazer isto – peço desculpa pela insistência – priorizando as famílias com crianças, porque elas têm fatores agravados…

É aí que se pode quebrar o ciclo?

Não há outra forma, diria. Não há outra forma.

Portugal vai conseguir vencer este desafio de combater a pobreza?

Vai. Estou muito convicto disto. Por aquilo que é possível perceber, do que está hoje presente num conjunto de documentos, que são estruturantes da nossa atividade, do país – como o PRR, o próprio plano de ação do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, as estratégias que estão em curso no domínio da habitação, a própria educação -, tudo o que estamos a fazer, permite-nos ser otimistas, em relação a isto. Agora, ser otimista não chega, é preciso ser capazes de pôr a energia – não apenas a nossa, individual -, dos serviços, dos recursos, ao serviço desta causa. E a questão das crianças é de primeiríssimo plano, deveria ser de primeiríssima prioridade.

Em que horizonte temporal vamos conseguir fazer isso?

Tudo vai depender do ritmo de recuperação da Economia. Se conseguirmos debelar o desemprego, criar emprego mais qualificado, mais bem remunerado, tudo isto pode acelerar. Vai depender muito da forma como o país, como um todo, consiga retomar o caminho que estávamos a ter, de crescimento e de coesão.

Em condições normais, de retoma da atividade, com liberdade, diria que temos condições para, neste espaço de dez anos, podermos inverter muito esta imagem, este retrato da pobreza em Portugal.