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28.4.22

Tiago Pereira: “Os ciganos são portugueses, mas é como se a sua não fosse a nossa música também”

Vítor Belanciano, in Público on-line

A Música Invisível, que tem a sua estreia este sábado no Festival Política, em Lisboa, documenta as tensões que marcam a produção e a recepção da música criada por um segmento fortemente estigmatizado da sociedade portuguesa.

Quase todas as músicas que irrompem em esferas populares, ligadas a experiências de vida, associadas a microcosmos excludentes, funcionam como marcadores de identidade. Acabam por existir numa tensão –​ nem sempre desfeita – entre serem aceites, assimiladas e até mercantilizadas ao grande público, ou manterem a senha de resistência.

Vive-se um momento com a música criada pela comunidade cigana portuguesa onde essas tensões são visíveis. Influenciada pelo flamenco, é praticamente invisível, havendo até dificuldade em encará-la simplesmente como música popular portuguesa, apesar de pontuais casos de sucesso (como o recente de Nininho Vaz Maia) e uma aptidão global para o consumo de flamenco, como se tem visto nos últimos anos pela afirmação internacional de vários nomes espanhóis. Uma coisa parece certa: quando forem quebrados estigmas sociais, a relação com a música também se transformará. No interior da comunidade cigana. E sobretudo no todo da sociedade portuguesa.

Os ciganos são portugueses, mas é como se a sua não fosse a nossa música também.” Tiago Pereira, realizador e documentarista

Agora aí está o filme-documentário A Música Invisível, do realizador e documentarista Tiago Pereira, que é exibido este sábado, pelas 18h, no Festival Política, no cinema São Jorge, em Lisboa, e que acaba por expor algumas destas baralhações, mostrando que existe uma estimulante música na margem, como a comunidade que a cria. O filme resulta de 250 vídeos gravados em todo o país, entre 2019 e 2021, que redundaria no projecto A Música Cigana A Gostar Dela Própria, apoiado pelo Alto Comissariado para as Migrações e pela Secretaria para a Cidadania e Igualdade. “Foi a partir dessas gravações, e de outras feitas posteriormente, com actuações de música, danças e curtas entrevistas, que resolvi montar uma média-metragem”, afirma Tiago Pereira, que traça um retrato da música no quotidiano cigano com os testemunhos do músico Armando Cabreiras, ou seja Raspa, ou do guitarrista José Pedro Lima, a operarem como fio condutor.

“Acabam por funcionar como narradores paralelos” reconhece Tiago Pereira. “É curioso porque o Raspa, uma espécie de filósofo da música cigana, e o José Pedro Lima, não cigano, mas que cresceu em Viana do Castelo à beira de um acampamento, tendo, como ele diz, estudado viola e flamenco porque ouvia os ciganos tocar, acabam por coincidir nas mesmas ideias só que de forma diversa. O Raspa diz que em Espanha o flamenco já alcançou o pico, precisando agora de novas ideias, enquanto o José Pedro Lima diz não estar interessado em flamenco puro porque isso é o que toda a gente faz. Interessa-lhe um tipo de flamenco português, capaz de agregar coisas daqui, seja do folclore, ou outras linguagens.”

Resistir à normalização

Várias camadas interpretativas percorrem o documentário: por um lado, a ideia da música de rua, feita por amor de amadores, transmitida de uns para outros em momentos rituais, mas também na distensão do quotidiano que não separa vida e música; e, por outro lado, a questão de por que é que ela é invisível desde sempre. “Mesmo quando pensamos nas recolhas de [Michel] Giacometti ou de Ernesto Veiga de Oliveira percebemos que eles não gravaram os ciganos. Existem milhares de gravações desde os anos 30 em Portugal e nunca ninguém gravou os ciganos. E eles estão cá há 500 anos! Os ciganos são portugueses, mas é como se a sua não fosse a nossa música também.”

 “Às tantas a criança diz: ‘Não sei cantar’. E respondem-lhe: ‘Então, tens de ir jogar à bola.’” cortesia tiago pereira  Ter uma carreira artística, fazer parte de uma indústria cultural, é a ambição de alguns destes praticantes cortesia tiago pereira

Há uma comunidade viva, que resiste às formatações impostas ao longo dos anos, também através da música e da aprendizagem autodidacta. “Mesmo quando vemos que existem muitos a virar-se para as igrejas evangélicas, percebe-se que a música nunca é abandonada. A música é muito importante para eles, mesmo quando a sociedade os tenta enquadrar numa realidade que lhes é, em grande medida, estranha. É por isso que são continuamente atacados, resistindo a essa normalização.”

A música é muito importante para eles, mesmo quando a sociedade os tenta enquadrar numa realidade que lhes é, em grande medida, estranha." Tiago Pereira, realizador e documentarista

Não é apenas num olhar de fora que se manifestam diferentes perspectivas sobre a música e a realidade ciganas. No interior da própria comunidade subsistem teorias diversas acerca da música. No filme entram músicos amadores e profissionais, crianças e adultos, cantores e guitarristas com diferentes visões, das mais puristas às mais abertas a estímulos exteriores sobre o que é, e o que poderá ser, a música cigana. “Há quem resista a um lado mais comercial da música e do flamenco como são vividos em Espanha, mas ao mesmo tempo vão-se sucedendo as experiências de mistura. É por isso que no filme está lá um rapper e outros que vão trazendo outras batidas e estímulos”, reflecte Tiago Pereira, chamando a atenção para uma cena em que se vê uma criança a cantar, mostrando algumas incertezas. “Às tantas a criança diz: ‘Não sei cantar’. E respondem-lhe: ‘Então, tens de ir jogar à bola.’” É como se o leque de expectativas se resumisse a esses dois vectores. Mas é mais do que isso. “O que a cena mostra é que não existe uma aprendizagem. O que há é o lado autodidacta, o aprender de dentro, através do ouvir. É um aprender interno. Ao mesmo tempo, o filme também mostra esse lado da insistência, do trabalhar, do tentar ir mais longe pelo esforço.”

Ter uma carreira artística, fazer parte de uma indústria cultural, é a ambição de alguns destes praticantes. Com a consciência das dificuldades, que não podem ser dissociadas dos preconceitos sociais. “Existe a noção que aquilo que criam acaba por ser para eles próprios, mas depois falam do Nininho Vaz Maia como alguém que se transformou numa estrela televisiva. Ou seja, se ele conseguiu sair é porque é possível. Mas existe a noção de que é música que não passa, não vai a festivais, não tem espaço. O flamenco é visto sempre como algo de Espanha. É estranho. É como se não existisse flamenco em Portugal.”

Existe a noção de que é música que não passa, não vai a festivais, não tem espaço. O flamenco é visto sempre como algo de Espanha. É estranho. É como se não existisse flamenco em Portugal.” Tiago Pereira, realizador e documentarista

Para já, o filme vai ser exibido este sábado, seguindo-se uma actuação dos Família Gitana com o poeta António Poppe. Depois, será exibido em Braga, a 7 de Maio, com a participação de Raspa, existindo a expectativa que faça o circuito dos festivais e seja projectado em algumas das comunidades ciganas visadas no filme. “No fim de contas, o que gostaria é que a música vingasse por ela própria”, conclui Tiago Pereira, “e que conseguíssemos tratar estas pessoas como músicos, para lá da etnia.”

11.1.21

Ricardinho era um jovem “nem-nem” e viu no hip hop uma alavanca

Ana Cristina Pereira (Texto), Adriano Miranda (Fotos) e Teresa Pacheco Miranda (Vídeo), in Público on-line

Abandonara a escola e só arranjava trabalhos pontuais, o projecto OUPA! serviu-lhe de abanão. Foi acabar o secundário e pôs-se a fazer trabalho na comunidade. Tem sido uma luta, mas sente que o seu esforço começa a ser reconhecido. Trabalha como “dinamizador cultural”. Terceiro capítulo de uma série sobre inclusão laboral, em dose dupla.

O cheiro a mofo está entranhado na cave. Pouco se aproveita dos móveis que foram sendo oferecidos aos artistas hip hop do Bairro do Cerco do Porto que ali se sentaram tantas vezes. Três inundações num ano. Fama e dinheiro, nada. Mas o esforço está a trazer alguns frutos. Ricardinho Lopes tornou-se “dinamizador cultural”.

Conhece todos os cantos do bairro. Viveu os seus 29 anos naquele território acossado pelo tráfico de drogas. A experiência mostra-lhe que a aglomeração de pobreza e exclusão, como acontece ali, na freguesia de Campanhã, afecta tudo, mas também que em qualquer lugar se pode coleccionar instantes de felicidade. “Foi aqui que fiz as minhas maiores amizades, é aqui que eu tenho o meu sangue e suor deixado. Viver no Cerco acaba por ser a melhor coisa do mundo.”


Quando era pequeno, “tinha vontade de ser jogador de futebol”. Jogava no clube do bairro. Não era o seu único interesse. Gostava de teatro, música, dança. Se pudesse voltar atrás, tirava um curso profissional de animação cultural, não de dinamização desportiva. Teria agora mais ferramentas de trabalho.

Abandonou a escola em 2012, sem fazer uma disciplina do curso. Andou desanimado. O país mergulhara numa crise. O pai, transportador e vendedor de peças de automóvel, ficou desempregado. A mãe, doméstica, andava consumida de preocupação. “Foi um momento bastante difícil. A gente agarrava-se ao que podia. Lembro-me de fazer trabalhos pontuais. Estavam completamente fechadas as portas para os jovens nessa altura.”

Naquela intermitência, engrossava a lista de jovens entre os 15 e os 29 anos que não estudavam, não trabalhavam, nem estavam em formação. Em 2015, aconteceu o OUPA!, uma residência artística com oficinas de escrita, produção musical, vídeo e concepção de espectáculos dinamizadas pela rapper Capicua, pelo músico André Tentúgal, pelo videasta Vasco Mendes. Aquele projecto do programa municipal “Cultura em Expansão” foi determinante. “Deu-me o naipe para me fazer à vida.”

Durante meses, Ricardinho e outros sete rapazes viveram uma aventura que os levou ao palco do Teatro Municipal do Porto – Rivoli. Os artistas quiseram deixar-lhes um estúdio comunitário. Tinham de fundar uma associação e de continuar a trabalhar. A Câmara do Porto cedeu-lhes aquela cave. O Presidente da República foi ao bairro assistir a um showcase do OUPA. Em 2016, o projecto foi replicado no Bairro de Ramalde e em 2017 no do Lagarteiro. Em 2018 formou uma dream team com elementos dos três bairros e fechou um disco, o Cidade Líquida. Um sonho para Ricardinho.

Quem lê as notícias vê os holofotes, mas há uma parte mirrada. “Somos jovens de um bairro que participaram num projecto e, de repente, têm de gerir uma associação.” Como? Com que fundos? Com que estratégia? “Estamos a fazer trabalho na área. Somos convidados para apadrinhar eventos. Somos entrevistados para teses. Ajudamos associações. Mas ainda estamos a tentar arranjar dinheiro para comprar um software para conseguir fazer actividades com os miúdos.”

Queriam “quebrar o estigma, derrubar os muros, os preconceitos” que existem sobre o bairro, ser uma inspiração para os miúdos dali. “Estamos a soro.” A cave inundada é a imagem do desastre. “Estamos todos a tentar sobreviver. Quase não temos tempo de sonhar. E, quando sonhamos, os sonhos desmoronam. Já demos prova que conseguimos fazer. Não dão mais condições para as pessoas fazerem mais.”

Inegável, mesmo assim, que o projecto lhe deu o abanão de que precisava. A crise estava a abrandar. Trabalhou num supermercado. “Era operador de caixa, repositor de stock, fazia um pouco de tudo.” Adorou ter um salário certo e ajudar a família. Naquela fase, terminou o ensino secundário. Quando se viu desempregado, voltou a fazer formação, desta vez na Cidade das Profissões. Marketing digital, marketing pessoal, comunicação em público, dar uma entrevista... Não deixou de “fazer pela associação, de fazer pela freguesia”. Os OUPA participaram em vários eventos. Organizaram o I Festival Oupa ACampanh´Arte em 2019. E acha que o seu esforço foi reconhecido.

Desde o ano passado, presta serviço ao Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra no âmbito do URBiNAT, um projecto europeu empenhado na regeneração urbana. “Estou a ter um trabalho de dinamização no sentido do mapeamento cultural de Campanhã.” A meta é criar um Corredor Saudável, um percurso pedonal e ciclável, passando pelos bairros do Cerco, do Lagarteiro e do Falcão, articulando espaços verdes (Parque Oriental, Praça da Corujeira, Quinta da Bonjóia, Horto municipal), serviços públicos (escolas, indústria, centros de saúde, associações locais) e projectos futuros (expansão do Parque Oriental, Novo Matadouro, Monte da Bela).

“É um projecto muito participativo”, diz Ricardinho. “Dá oportunidade a cada um de se expor, de mostrar a sua dificuldade, de propor os seus caminhos. E o meu trabalho é fazer de ponte, para se criar não apenas um corredor saudável material mas também imaterial, que são as sinergias, as ligações uns com os outros.” Ali, a crise é um contínuo. “É preciso nascer algo que nos faça parar, olhar para Campanhã, pensar em formas de reabilitá-la, de potenciá-la, de vivê-la.” A freguesia já está a transformar-se e ele, embora precário e a morar com os pais, faz parte disso. “Também é preciso preparar a comunidade.”

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.

4.5.20

Pouco ou nada é quanto estão a receber os “invisíveis” que fazem a música acontecer

André Borges Vieira (Texto) e Paulo Pimenta (Fotografias), in Público on-line

Num meio duramente castigado pelas medidas de confinamento como o das artes do palco, os profissionais dos bastidores estão entre os que enfrentam maiores dificuldades. Sem garantias a curto prazo, é toda uma classe paralisada e sem rendimentos, à qual o apoio extraordinário nem sempre chega.

Em Março, Célia Correia, técnica de luz cuja agenda de trabalho tem estado em branco desde o início da pandemia, como a de muitos dos seus colegas de bastidores, candidatou-se ao apoio financeiro extraordinário à redução da actividade concedido pela Segurança Social. Aguardou pela resposta com expectativa, ansiosa por saber se em Abril conseguiria, com o valor que contava receber, pagar parte da renda da casa, que em Março só ficou saldada porque recorreu a ajuda familiar. Afinal, Abril não foi diferente e no último mês a transferência para o senhorio ficou em espera. Da Segurança Social chegou o aviso de que não seria contemplada porque no ano passado tinha feito alguns trabalhos noutra condição que não a de trabalhadora independente – na altura, e por ter sido celebrado contrato de trabalho, não passou recibo verde.

Os contratos que agora lhe vedaram um apoio precioso foram celebrados apenas por três dias, e relativos a três trabalhos diferentes. Porém, foi o suficiente para não ter acesso ao auxílio financeiro que outros colegas conseguiram garantir, ainda que num montante manifestamente insuficiente para cobrir todas as despesas mensais e muito aquém da remuneração mensal habitualmente auferida – o primeiro pagamento, correspondente ao mês de Março, que chegou esta semana à conta de quem foi contemplado, fica-se pelos 295 euros, por dizer respeito apenas a 20 dias do mês. O valor máximo estipulado pelo Governo, correspondente ao mês inteiro, está fixado nos 438,81 euros para quem tem rendimentos médios declarados até 658,22 euros.

Célia Correia faz parte dos “invisíveis” para quem o Cena – Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos (Cena-STE) reivindica uma resposta à altura da paralisação total destes tempos de pandemia. Calcular quantos são é “impossível”, mas os técnicos de apoio às artes de palco, que já viviam numa situação precária, estão muito longe de conseguir ver uma luz ao fundo do túnel, talvez mais até do que os artistas cujos espectáculos têm por missão viabilizar.

Rui Galveias, dirigente do Cena-STE, diz que em Portugal haverá cerca de 130 mil trabalhadores no sector da Cultura, sendo que no universo das artes do espectáculo rondarão os 30 mil. De acordo com o resultado do inquérito lançado em Março por este sindicato, a classe já perdeu “pelo menos” dois milhões de euros desde que o sector entrou em paragem forçada.

A 1 de Abril, o Cena-STE reuniu com o Ministério da Cultura (MC) para discutir medidas de auxílio a estes profissionais. Esta quinta-feira deveria ter havido nova reunião, que acabou adiada para 5 de Maio. Do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, com o qual querem também sentar-se à mesa para apresentar um rol de propostas, dizem não ter ainda conseguido qualquer resposta. “O Ministério da Cultura desconhece o sector. Dizem que as medidas são suficientes, mas não são e não chegam a muita gente”, lamenta Rui Galveias.

Miguel Dias está na fatia de profissionais contemplados pelo apoio do Estado. A 28 de Abril, entraram na conta bancária deste técnico de som 110 euros. Cerca de 70 euros vão acabar por ser devolvidos à Segurança Social, porque ainda tem de pagar a contribuição do mês anterior, mesmo já não tendo tido então qualquer rendimento. Sobram-lhe aproximadamente 40 euros para o mês inteiro e a certeza de que nos próximos meses não vai ter qualquer actividade na área em que se move. Os trabalhos para os quais era contratado habitualmente não vão acontecer – perdeu a oportunidade de trabalhar no Boom Festival, no DDD – Festival Dias da Dança, no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI) e no Waking Life. “Mais uma vez” vai ter de pedir ajuda financeira, diz ao PÚBLICO.

Um pouco mais, “cerca de 200 euros”, conseguiu João Quintela. Até 7 de Março, quando teve o seu último trabalho, o técnico de luz de Conan Osiris, Miramar, Da Chick e, ocasionalmente, do Lux-Frágil e do Musicbox, entre outros espaços nocturnos, auferia mensalmente entre 900 a mil euros. Natural de Gaia, radicado em Lisboa há cinco anos, serve-se agora das “reservas” para aguentar a renda e a alimentação. “Nós, os trabalhadores independentes, estamos habituados a poupar algum a pensar em tempos piores que possam vir”, nota. Porém, nada o faria imaginar algo tão drástico. Foi assimilando a realidade à medida que as cerca de 30 datas de trabalho que tinha na agenda foram sendo desmarcadas. “De Março a Agosto foi tudo cancelado”, atira.

Com a agenda em branco ficou também Rita Sousa, técnica de audiovisuais. Perdeu temporariamente os principais clientes – Casa da Música e Fundação de Serralves – e todos os outros. Para compensar, a Segurança Social transferiu-lhe este mês 292,96 euros. Não se conforma com o montante transferido, mas sublinha conhecer colegas que não conseguiram qualquer tipo de apoio, “ou porque não passaram mais de 50% dos recibos à mesma entidade ou porque fizeram um ou dois trabalhos com contratos de um dia”, como Célia Correia.

Eduardo Maltez, técnico de som de Capicua e ocasionalmente de Mão Morta ou Bezegol, é um dos que não beneficiam de qualquer apoio, porque além do trabalho como freelancer, que representa grande parte do seu rendimento, tem ao mesmo tempo um contrato de trabalho – está vinculado a uma promotora, ainda que esteja agora em layoff. Com um “corte substancial” nos ganhos, enfrenta as mesmas dificuldades que outros colegas. Ainda assim, “neste cenário”, considera estar numa posição “um pouco melhor”. A longo prazo, porém, teme ficar na mesma situação.

À procura de soluções
Ao contrário dos músicos, que vão podendo a partir de casa fazer concertos transmitidos em streaming, ainda que na maior parte dos casos sem qualquer remuneração associada, os profissionais de bastidores dificilmente encontrarão lugar num mundo sem palcos. Eduardo Maltez e João Quintela adiantam que estão a ser estudadas com alguns artistas formas de os técnicos serem envolvidos nos novos circuitos digitais das artes do palco, para que não se vejam irremediavelmente fora da corrida – como dizem ter acontecido no caso do TV Fest, iniciativa do MC que acabou por não ir para a frente, ou noutras semelhantes. No caso do TV Fest, recorde-se, ficava ao critério dos artistas repartirem o cachet que lhes estava garantido com os seus técnicos.

“Uma ideia infeliz” é como João Brandão, responsável pelos Arda Studios, rotula o festival que ficou pelo caminho. Defende uma solução que envolva todas as partes, de forma a que a comunidade mais “invisível” da música, mas que está na “primeira linha” da indústria, tenha as mesmas possibilidades que aqueles que sobem ao palco – o que considera não ter sido acautelado no TV Fest que saiu da cartola da tutela.

Com um projecto em que investiu cerca de 1,5 milhões de euros nas mãos, João Brandão perdeu todos os trabalhos que estavam marcados desde o ano passado. Foi obrigado a colocar alguns funcionários em layoff e não sabe se daqui a uns meses vai também ele estar nessa situação. “Há projectos adiados indefinidamente e não sabemos quando serão reactivados”, conta.

Quanto aos apoios disponíveis, argumenta que são insuficientes, sobretudo para quem vive atrás das luzes do palco. “Não somos o rosto visível da indústria, mas somos quem faz a indústria andar para a frente”, afirma, para concluir que os apoios, se já são escassos para os músicos, mais dificilmente chegam a “quem faz som, ao manager, ao promotor e por aí fora”.

Ainda que o cenário não seja animador, o responsável pelo estúdio portuense reserva algum optimismo para os tempos de retoma. Ainda que antecipe haver menos dinheiro para os músicos poderem gravar álbuns, acredita que não vão deixar de o fazer. “Nos últimos cinco anos, depois da outra crise económica, viveu-se um período mais optimista, com as bandas a saírem da garagem para gravarem com qualidade, ao nível do que se faz noutros países. Não podemos regredir 15 anos. Para uma banda chegar ao palco, o trabalho de estúdio continua a ser importante”, afirma.

Menos optimista está Vítor Moura, à frente de uma empresa de aluguer de backline que presta todos os serviços necessários para fazer um concerto acontecer, do transporte de materiais ao stage management, dos roadies à montagem de palcos. Até ao final de Fevereiro tinha mais de dez festivais agendados. “Foi tudo cancelado e a facturação passou a zero”, diz. Fez o pedido para entrar em layoff e enquanto aguarda pelo despacho vai encaixotando todo o material. “Estou a preparar-me para o deixar guardado durante um ou dois anos. Enquanto isso vou ter de deixar o meu sonho em espera.” Como outros técnicos com quem falámos, equaciona mudar de ramo de actividade.

24.8.18

São reformadas que nunca perderam uma edição: eis as oito catedráticas de Vilar de Mouros

in JN

Faltavam dez minutos para a abertura de portas quando Manuela Barrocas e as sete amigas chegaram à entrada do festival Vilar de Mouros, esta quinta-feira à tarde. Manuela não é de Vilar de Mouros mas já lá mora "há 50 e tal anos". Já é mais de lá do que de qualquer outro lado. É ela a condutora de quatro das sete colegas, todas reformadas, quase todas festivaleiras desde a primeira edição.
Quando as portas abriram foram as primeiras a entrar. Não chegaram primeiro ao palco porque o passo já não permite e porque só foram ali de tarde para ver o ambiente. "Viemos com estas pulseiras que são da Junta, a Junta é que nos paga esta oportunidade", diz Custódia Maria Barreiros, de 89 anos, a mais experiente do grupo.

Custódia, como as amigas, sabe onde estava na mítica edição de 1971 que deu o nome de Woodstock português àquele festival do Alto Minho. "Praticamente não vim aqui porque estava com um filho que estava doente mas ouvia de lá de casa a música [de Elton John] e fiquei à janela". Foi o ano em que falhou e lembra-se disso. De resto, não perdeu mais nenhuma edição.
Ao lado, Ilda Vilarinho é das que tem mais histórias curiosas para contar. Primeiro frisa que o festival é bom para fugir à rotina parada da aldeia: "Isto é muito parado durante o ano e é a oportunidade que nós temos de conviver e sentir o reboliço da cidade, porque eu vivi bastantes anos em Lisboa".
A amiga, atrás, recorda que levou o filho ao primeiro festival em 1971 quando ele tinha quatro meses. "Agora tem quase 50", atira, para gáudio das restantes que acenam a cabeça. Ilda interrompe e continua a abrir o leque de histórias curiosas de Vilar de Mouros: "Em 1971 era tanta gente que a população não estava preparada, acabou-se a comida, as lojas fecharam com medo que as roubassem. Os campos ficaram dizimados, sem milho e sem fruta".

Em 1996, continua ainda, um grupo de jovens acampou no meio do milho sem que Ilda e a família reparassem. "O milho estava muito alto, eles avançaram o muro e acamparam lá no meio". A família só reparou quando, no fim do festival, encontrou os vestígios da ocupação festivaleira: "Fomos à quinta estava lá quilo tudo cheio de latas de atum, mas não estragaram nada".
Todas têm histórias para contar. Desde festivaleiros a fazerem barulho até à quatro da manhã, outros a pedirem água ou comida em desespero, até à simpatia com que acolhem quem vem de fora (uma até alugou casa a Diogo Marques, organizador, há dois anos), o grupo de catedráticas é unânime em reconhecer as vantagens do festival. "Prefiro que haja o festival a não se fazer nada", diz Ilda. "Com o festival vemos gente nova, outras coisas e é bom. Quando vim pela primeira vez era uma moça nova", recorda Deolinda Ramos.
Depois de 15 minutos a contarem histórias, o grupo despacha a equipa do JN. Querem deambular pelo festival porque vão embora cedo. Algumas têm um funeral mas asseguram que voltam à noite, depois do cortejo fúnebre e do jantar: "Vimos menino. Vimos de certeza, não estamos a brincar", assegura Manuela Barrocas, autointitulada porta-voz do grupo, enquanto as restantes se afastam de chapéu de palha e lenço cor-de-rosa, oferecidos à entrada.

13.7.16

Pode a arte ser o motor da inclusão social? A Gulbenkian mostra que sim

Marisa Soares, in Público on-line

Nesta sexta-feira e no sábado há teatro, concertos, circo, mostra de fotografias e documentários sobre projectos apoiados pela fundação.
Teatro Ibisco trabalha com crianças de dois bairros problemáticos de Loures


Os palcos da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, vão ser ocupados nesta sexta-feira e sábado por artistas improváveis. A instituição abre as portas a alguns dos projectos que apoia através do programa Partis – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, e que utilizam o teatro, a música, o cinema, a fotografia e até o circo para mudar comportamentos e promover a integração de pessoas normalmente marginalizadas.

"Há alguns anos que andamos a trabalhar neste casamento entre práticas artísticas e a inclusão social", explica Luísa Vale, directora do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Humano. Depois de apoiar alguns projectos avulso, a instituição concluiu que "a arte tem mesmo um efeito de causalidade na alteração de comportamentos", por exemplo, em crianças irrequietas ou em jovens institucionalizados. Resolveu então criar um programa dedicado a este fim, o Partis, que na primeira edição, em 2013, destinou por concurso um milhão de euros a 17 projectos plurianuais desenvolvidos por instituições sociais ou entidades culturais. Na próxima semana abre a segunda edição, com a mesma verba disponível.

"Não se trata de usar as artes numa óptica de tempos livres, nem de criar produtos que sejam apresentados num dia sem se preocuparem com o que as pessoas vão fazer no dia seguinte", ressalva Luísa Vale. Pelo contrário, o objectivo é "exigência e excelência". E é o fruto desse trabalho que se vai ver e ouvir nas instalações da fundação, na Praça de Espanha, nestes dois dias. A entrada é livre.

Os primeiros a subir ao palco da Sala Polivalente, no Centro de Arte Moderna (CAM), nesta sexta-feira às 21h, são as crianças de dois bairros considerados problemáticos em Loures, a Quinta da Fonte e a Quinta do Mocho, com os quais o Teatro Ibisco tem trabalhado.

Mais tarde, às 22h30, no anfiteatro ao ar livre passa o documentário Há Festa no Campo, sobre o projecto promovido pelas associações Ecogerminar e Terceira Pessoa, cujo objectivo é dinamizar quatro aldeias de Castelo Branco através da arte urbana. Artistas como Vhils, Uivo ou Manoel Jack foram convidados a pintar murais nas aldeias a partir de histórias partilhadas com os habitantes.

No sábado, o Jardim da Gulbenkian vai ser ocupado das 15h às 19h pelas artes circenses do projecto Mala Mágica, do Chapitô, que trabalha com jovens internados em centros educativos do Ministério da Justiça, onde realizam oficinas que promovem competências técnicas, artísticas, expressivas e comunicacionais através do circo. Ainda no sábado, a Orquestra Geração, projecto que desenvolveu orquestras infantis e juvenis em escolas dos 1.°, 2.° e 3.° ciclos, dá um concerto às 19h no Grande Auditório (o bilhete custa 3 euros, revertendo para projectos semelhantes), e outro às 22h30, com a exibição de um documentário sobre o projecto no anfiteatro ao ar livre.

Nos dois dias, estão expostas junto ao CAM as fotografias do projecto Este Espaço Que Habito - Integrar pela arte, da Associação Movimento de Expressão Fotográfica, que incita jovens a explorar a cidade e a produzir reflexões sobre os espaços que habitam.

3.12.15

Uma música contra a Violência Doméstica

João Martins, in "Cais"

Oito cantoras portuguesas juntaram-se para dar voz à APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, sensibilizando o público para o problema da Violência Doméstica. "Cansada" é o título da original canção, com letra e música do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho.

Com o objectivo de alertar as pessoas para a realidade (ainda significativa) da violência doméstica em Portugal, a APAV celebra os 25 anos de actividade com o lançamento de uma música inédita, que junta oito vozes conhecidas dos portugueses. "Cansada" é o nome da canção interpretada por Aldina Duarte, Ana Bacalhau, Cuca Roseta, Gisela João, Manuela Azevedo, Marta Hugon, Rita Redshoes e Selma Uamusse. O tema original, com letra e música a cargo do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho, foi gravado inicialmente com a voz de Débora Henriques, também jornalista.

Depois foi apresentada à APAV e a Associação propôs que a música fosse o seu "hino", cumprindo a função de despertar consciências para o problema da violência doméstica e transmitindo a mensagem de que é importante dizer "não". "Uma abordagem pela coragem" "É um problema que começa logo na educação para a igualdade de direitos que temos de dar aos nossos filhos, desde muito cedo, e no qual a escola deveria desempenhar um papel mais importante", defende Filipe Lourenço, Brand Strategy da Agência de Publicidade Brave, que escolheu a campanha "Cansada" para conteúdo desta secção da Revista CAIS na edição de Novembro. "Por isso, este tema da Violência Doméstica justifica todos os esforços e mais alguns", acrescenta. Filipe Lourenço destaca ainda originalidade da campanha. "É uma abordagem pela coragem, pelo 'grito', pelo 'basta', e não pelo cliché da "cara esmurrada", porque esse é sempre o caminho mais óbvio e o que menos contribui para a consciencialização do agressor ", explica.

A música, lançada no passado mês de Março, conta com a interpretação da Orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida pelo maestro Vasco Pearce de Azevedo. Filipe Melo tratou dos arranjos e da produção musical. A vontade e pertinência desta causa foi o que moveu todos os responsáveis pela música, que resultou de trabalho voluntário. O tema está disponível no site da APAV e é acompanhado por vídeo promocional com as oito cantoras, sempre com o mote da campanha subjacente: "Nem que o meu grito seja só uma canção".

29.4.15

Os do culto e os do mundo

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Serviço educativo da Casa da Música estreia espectáculo com duas comunidades de etnia cigana nesta quarta-feira, Dia Mundial da Dança.

Nada supera o entusiasmo de Vitória González, a quem os pais chamam Taís. A menina, de sete anos, adora dançar. E dança esta quarta-feira, a partir das 21h, na Casa da Música, no Porto. A cabeça levantada, as mãos para o alto, movimenta o corpo com uma maturidade surpreendente.

“As ciganas gostam muito de dançar”, diz a menina, que mais parece uma mulher em ponto pequeno, com a sua saia e o seu casaco de renda preta, os seus lábios pintados de vermelho. “Algumas são do culto, outras são do mundo. Eu sou do mundo. Não sou baptizada”. É um detalhe importante. Os baptizados pela Igreja Filadélfia Evangélica só podem cantar e dançar para Deus.

– Já disse à minha mãe que não quero ser baptizada, porque quero continuar a dançar – anuncia, de olhos postos na mãe.

– Danças para Deus, que é a mesma coisa – retorque a mãe, Suzete Fonseca.

– Não, não é! Se me baptizo, nem nos casamentos posso dançar.

Jorge Prendas, coordenador do serviço educativo da Casa da Música, desconhecia este constrangimento religioso quando começou a pensar neste projecto. E ficou surpreendido ao perceber o quanto as velhas tradições podem estar a ser tomadas por formas de culto mais ou menos recentes.

“Quando saltamos para um projecto destes, seja com pessoas com deficiência, sem-abrigo, ciganas ou reclusas, nunca sabemos o que vamos encontrar”, comenta o compositor. “É olhar para o que se tem e pensar: 'o que posso tirar daqui?' Neste caso, foi olhar para pessoas que nem sequer se querem tocar em palco, os do culto e os do mundo, e pensar num espectáculo que os pudesse integrar.”

Isabel Barros (direcção artística) e Jorge Queijo (direcção musical) aceitaram o repto. Houve uma reunião com um pastor da Igreja Filadélfia Evangélica para discutir os limites. Negociaram-se detalhes que não se intrometem na criação artística. Um exemplo: as adolescentes já baptizadas dançam apenas canções “de Deus”, retirando-se perante canções “do mundo”.

Prepare-se para uma espécie de festa. O que a coreografa tentou, ao longo dos últimos cinco meses, foi “conseguir que a essência da cultura cigana esteja no espectáculo de uma forma especial e com uma vertente mais contemporânea”. E foi percebendo que “muita coisa já se perdeu em termos de canto e de dança”, apesar do isolamento em que vivem as comunidades de etnia cigana em Portugal.

Jorge Prendas queria há muito trabalhar com comunidades de etnia cigana. “Queria valorizar o que é genuíno nesta cultura secular e dar a uma comunidade uma oportunidade de mostrar à comunidade em geral, muitas vezes preconceituosa, que o cigano tem uma raiz cultural bastante forte e identitária que merece ser partilhada com o público que vai à Casa da Música.”

Tudo convergiu quando o director artístico de educação, António Jorge Pacheco, lhe anunciou que 2015 seria o ano da Alemanha na Casa da Música e que a 9.ª edição do Festival Música & Revolução teria sons proibidos pelo III Reich. Os nazis não queriam ouvir cantar ou tocar as comunidades de etnia cigana; para essas, como para a as judias, determinaram prisão, trabalho forçado, extermínio.

Não era coisa que a Casa da Música pudesse fazer do pé para a mão. Precisava de parceiros, de equipas que conhecessem o terreno, que tivessem laços com uma ou mais comunidades, que lhe servissem de ponte. A Câmara Municipal de Matosinhos e a ADEIMA – Associação para o Desenvolvimento Integrado de Matosinhos trabalham há anos com os moradores dos bairros do Seixo e da Biquinha.

Começaram por ser 109 membros das duas comunidades. Nunca tinham entrado na Casa da Música, um ícone da cidade do Porto. Vitória ficou de boca aberta quando entrou na Sala Suggia. A talha dourada ou os órgãos de tubos sobressaem na sala principal do edifício desenhado por Rem Koolhaas. “Oh, é tão romântica! Tiveram de gastar muito dinheiro para fazer!”

Os ensaios do espectáculo, intitulado Romani, começaram em Dezembro do ano passado. Ainda se experimentou a manhã de domingo, mas quase ninguém apareceu. Suzete Fonseca, a mãe de Vitória, e as outras mulheres tinham de preparar o almoço antes de sair de casa. Ficaram os ensaios para as tardes de domingo.

Isabel Barros e Jorge Queijo nunca sabiam com quem contar. Podiam chegar à sala de ensaios e encontrar toda a gente, metade, menos, muito menos. Numa ocasião, morreu um familiar em Felgueiras, ninguém da Biquinha apareceu. Noutra, um familiar foi hospitalizado. No fim, resistiam 46 pessoas de etnia cigana. “Já imaginava que pudesse acontecer, também faz parte”, diz a coreógrafa.

Vitória não falhava nem os outros com rotinas associadas ao “culto” no Seixo. Vão à missa quase todos os dias. Limpam a igreja, situada no limite do bairro, de modo rotativo. Juntam-se ali ao final da tarde. Uns tocam, outros cantam, todos oram, alto, muito alto, como se isso os aproximasse mais de Deus.

O pai de Vitória lidera o grupo. “Sou uma ovelha igual às outras, simplesmente lidero a parte do coro”, diz Sérgio González, que também toca teclas. É ele quem, por exemplo, vai buscar Elton Prudêncio, o guitarrista. “Ele não é da nossa igreja, mas é da nossa doutrina. Somos da Igreja Filadélfia do Seixo. Ele é da Igreja Filadélfia de Ermesinde. Chamei-o para tocar connosco”.

“A igreja traz responsabilidades”, interpreta Jorge Prendas. “O compromisso deles não é comigo, não é com a Casa da Música, é com uma entidade suprema, com uma entidade que reconhecem como divina.”

“Trabalhar com comunidades, ciganas ou não, não é igual a trabalhar com profissionais”, lembra Isabel Barros. “Há um compromisso descomprometido. E isso é um desafio. Temos de ter plano A e B. A mim não me causa confusão. Se alguém não entra, consegue-se introduzir outra pessoa.”

Não estão sozinhos. Também entram alunos do Balleteatro. Jorge Prendas acha que a mistura só traz vantagens. “Para mim, o grande princípio é que a distinção não se note quando as pessoas forem ver o espectáculo”, diz. Estão todos no mesmo palco, apesar de se perceber quem é quem: os 46 moradores do Seixo e da Biquinha, os 11 técnicos que com eles trabalham, os 23 alunos do 12.º ano do Balleteatro e quatro músicos profissionais que amiúde colaboram com a Casa da Música.

Nesta quarta-feira à noite, na Casa da Música, haverá uma estrutura negra e, dentro dela, aquelas pessoas todas, dispostas em círculo, com lâmpadas enormes, redondas, a cair do tecto. “As luzes vão apontar para nós e muita gente vai estar a ver”, espera Vitória. “Vão estar para aí mil pessoas!”

Será a primeira vez que a cultura cigana portuguesa subirá àquele palco. Talvez no final alguém vá perguntar a Jorge Prendas, como noutras ocasiões, “porque se gasta tanto dinheiro com pessoas assim”. Há muito quem lhe diga que investir em grupos sociais vulneráveis não vale a pena. A esses, o compositor costuma explicar que “a música é uma ferramenta de intervenção social extremamente eficaz”, que “a música pode ser um caminho para a integração.”

Sérgio González está orgulhoso: “Queremos dar a conhecer ao mundo que também há ciganos educados, que servem a Deus.” Suzete Fonseca, a mulher, está expectante. “Gostava que fosse uma porta para outros trabalhos. O cigano é uma porta fechada. Faz feiras e acabou. O cigano não é só da feira!”

Ela já não trabalha na feira, nem o marido, como os pais de ambos sempre trabalharam. Gostavam ambos de trabalhar numa cozinha, só que nenhum tem formação específica. Ele tem o 8.º ano e ela só teria o 2.º, não fosse a equipa do Rendimento Social de Inserção forçá-la a fazer o 5º.

“Uso calças, mini-saia, fato de banho, mas há coisas que não quero mudar”, diz Suzete. A começar pela valorização da virgindade das raparigas até ao casamento. “A minha filha ainda é pequenina. Já peço a Deus que ponha juízo na cabeça dela. Quero que ela se guarde para um dia me dar a alegria que eu dei à minha mãe, a alegria de ter uma filha honrada, que não anda na boca do povo.”

Vitória quer “ser igual” à mãe, que se casou virgem aos 17 anos, quase 18. Mas não quer deixar a escola no 2.º ano, como ela, quer terminar o secundário, ingressar na Polícia Marítima e continuar a dançar. “Foi a minha mãe que me ensinou a dançar. Quando eu tinha cinco meses já dançava”, afiança. E a mãe confirma: “A dança está nela. Tenho vídeos dela, com cinco meses, no meu colo. A gente dizia para ela dançar e ela abanava-se e mexia as mãos como uma mulher.”

13.4.15

Comunidade cigana atua na Casa da Música

Catarina Ferreira, in Jornal de Notícias

"Amo-te, amo-te, amo o teu amor...." Artur, guitarrista de serviço, canta o refrão celebrizado por Xano, enquanto rasgueia a guitarra por rumba. Sónia Baptista, professora do Balleteatro, e Diogo, adolescente cigano, arrancam palmas e olés dos demais, enquanto dançam no ensaio do projeto "Romani", no bairro da Biquinha.

Este domingo, a cena repetiu-se no ensaio aberto, na Casa da Música (CdM), às 15 horas. A estreia está marcada para 29 de Abril, dia Mundial da Dança.

Iara balanceia os cabelos longos e negros e abre as mãos em leque, consegue arrancar Melissa e o seu meio sorriso para que dance com ela. Passada a improvisação, Sónia Baptista passa a comandar as técnicas e a comunidade cigana, repetindo o sapateado originalmente criado por uma bailarina do Seixo. Ao seu lado está Andreia que sabe a sequência de cor, mas num segundo falha-lhe um pé e corre porta fora nervosa. As amigas saem com ela, responde irritada "Achas que eu vou dançar na Casa da Música?".

A volatilidade deste coletivo de quase 90 pessoas, entre as comunidades ciganas do Seixo e da Biquinha, os músicos da CdM e os alunos finalistas do Balleteatro é "muito interessante e traz adrenalina", explica Isabel Barros, diretora do Balleteatro.

Lilia Pinto, da divisão de promoção social da Câmara de Matosinhos, explicou que " há uma série de regras da comunidade que é preciso respeitar. Por exemplo, este domingo, um membro da comunidade foi operado e há um défice significativo do número de pessoas presentes. Estão todos no hospital, há um sentido de comunidade muito forte".

O objetivo deste trabalho é aceitar, valorizar e dignificar a cultura cigana. Quando lhes foi proposta a ideia de fazer uma coisa com o Balleteatro para ser apresentada na Casa da Música, foram feitas reuniões com os grupos. "No Seixo, como a igreja Filadélfia está associada, foi mais fácil. Na Biquinha, ainda é um processo em construção, eles são bastante imprevisíveis. Mas é preciso ter um número certo para a Casa da Música poder fechar a folha de sala", contou Lurdes Queirós, vereadora de ação social da Câmara da Matosinhos.

Quanto à apresentação na Biquinha, ficou com a parte do projeto das danças do Mundo. No Seixo, como a comunidade faz parte da Igreja Filadélfia, farão músicas e danças exclusivamente relativas ao culto, concluiu a vereadora.

19.1.15

É apenas rock'n'roll octogenário, mas eu gosto

por Liliana Carona, in RR

Dançam na corda bamba com os Clã, cantam Xutos & Pontapés. Em Abril, os "avós do rock" levam o seu rock à Casa da Música.

Uns atiram as bengalas para o chão, outros levantam-se das cadeiras de rodas. Não se aquecem as vozes, aquecem-se os corpos. O ambiente tem que estar confortável: estes músicos são idosos, muitas vezes com saúde frágil.

Cerca de 30 idosos do concelho de Viseu, com uma média de idades que ronda os 80 anos, compõem o grupo A Voz do Rock – ou os "avós do rock", como se auto-intitulam. Todas as semanas ensaiam temas dos Xutos & Pontapés, Clã, Rádio Macau e outros artistas. Este mês comemoram um ano de vida e em Abril vão actuar na Casa da Música, no Porto.

Ana Bento, da associação cultural Gira Sol Azul, zela pelo bem-estar dos 30 membros d’A Voz do Rock. É percussionista, licenciada em Educação Musical.

Encontramo-los num ensaio. Canção inaugural, "Dançar na corda bamba", dos Clã. Já sabem a letra de cor, apesar de Ana Bento procurar em todos os ensaios dar um cariz próprio às canções.

A Amália do rock
As senhoras não gostam de dizer a idade verdadeira. Albertina Simões, agricultora, afirma que tem 90 anos, mas já fez 96. É conhecida na terra por "Amália". Por isso, não se estranha quando faz uma paragem no rock para entoar um fado de Fernando Farinha.

A mais nova nestas andanças é a coordenadora do grupo. Ana Bento, de 36 anos, está atrás da bateria. É tratada como neta. Admira-se ao ver "pessoas com idade tão avançada e com tanta vida".

Todos sem excepção ficam mais felizes num dia de ensaio. "Distraio-me porque tenho problemas de depressões", garante Dalma Ferreira, de 76 anos.

José Aleixo, de 86 anos, só cantava na igreja. Mas o rock "é cultura", logo é "importante". "Eu vivo num lar e vir para aqui é uma distracção muito grande", diz Maria Freitas, 88 anos, ex-funcionária dos correios. Ganha o dia quando vai aos ensaios.