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17.4.23

Lurdes “não encontrava trabalho por ser cigana”. Em Agosto, hotel voltou a chamá-la

António Pedro Pereira(texto) e Paulo Pimenta (fotografia), in Público online

As “negas” sucessivas – por causa da sua etnia, garante – acabaram quando o hotel onde tinha trabalhado lhe reabriu as portas. Saíra em 2018 para cuidar de um bebé abandonado que acolheu como filho.

Lurdes Dias diz que é “toda Guimarães”, desde o amor pela cidade ao clube de futebol mais representativo do concelho, o Vitória Sport Clube. E desata às gargalhadas quando confessa que nasceu na cidade rival, Braga. Esse “acidente” biográfico aconteceu em Janeiro de 1970, quando a mãe tinha ido visitar um familiar e já só saiu da capital do Minho com uma menina nos braços.

É muito assim, franca, directa e bem-disposta, esta mãe de quatro filhos, dois biológicos e dois “do coração” (adoptados), que esteve mais de dois anos em busca de trabalho e a levar “negas” sucessivas até voltar aonde já se tinha sido dado bem. Após a recuperação do sector hoteleiro da fase aguda provocada pela pandemia de covid-19, voltou a ser chamada, em Agosto passado, pelo hotel onde já tinha trabalhado como camareira entre 2014 e 2018.

Lurdes, de 53 anos, esteve enquadrada no conceito de desempregada de longa duração – para o Estado, desempregados de longa duração são as pessoas que se encontrem inscritas no Instituto do Emprego e Formação Profissional há 12 meses ou mais. Aliás, a vimaranense até poderia ser incluída noutra denominação mais recente: desempregados de muito longa duração, que engloba os desempregados com idade igual ou superior a 45 anos, e inscritos no centro de emprego há 25 meses ou mais.

No seu caso, foi importante o apoio do projecto Estação Guimarães Norte, uma iniciativa de intervenção social com o objectivo de capacitar e apoiar os grupos sociais mais vulneráveis no acesso e na integração no mercado de trabalho. Este projecto corre dentro da Fraterna – Centro Comunitário de Solidariedade e Integração Social, sediada na cidade berço.

“Não encontrava trabalho por ser cigana”, dispara Lurdes Dias, casada, com o companheiro de há 30 anos, desde o dia 1 de Junho de 2018. “A família do meu homem não é cigana e sempre me tratou muito bem”, acrescenta. A questão da etnia tem sido um obstáculo, às vezes intransponível, na vida de Lurdes. A família dela não aceitou muito bem, mas, “passado um ano” de alguma resistência, já estava de volta ao convívio com os pais e irmãos. “O meu homem não convive tanto com a minha família, mas em festas ou outras ocasiões [importantes] está sempre presente, como quando algum familiar está no hospital, ou assim”, comenta.

A questão do hospital veio forçosamente das marcas ainda muito fortes da perda recente da mãe, que morreu há dois meses. “O meu homem aceita muito bem os meus rituais e eu os dele. Sou evangélica cristã, ele é católico, mas não se importa que eu faça o luto [mais prolongado]. Para nós, pode ir até um ano. Eu entendo que devo respeitar as crenças dele e que devo fazer o luto pela minha mãe até Agosto, quando fizer seis meses que morreu. Disse-lhe que, se ele quisesse, podíamos abrir a porta ao compasso na Páscoa, mas não quis. Acho que já não liga muito à religião”, explica-se.

“Uma pessoa como as outras”

A questão familiar foi o primeiro de muitos grandes obstáculos sociais que Lurdes teve de ultrapassar durante a vida, desde assuntos mais pessoais até ao tratamento que lhe tem sido reservado pela sociedade, em geral. Ser cigana, diz, não é um cartaz: “Sou uma pessoa como as outras.”

A trabalhar novamente no hotel do centro histórico de Guimarães do qual saiu em 2018, para ser mãe pela quarta vez, esta vimaranense desfia um rol de situações em que se sentiu discriminada no acesso ao mercado de trabalho devido à sua etnia.

“Antes do hotel, tinha tirado um curso de Auxiliar de Acção Educativa e arranjei trabalho numa creche, mas as mães diziam-me que as crianças tinham medo de mim, por ser cigana. Mas as crianças não sabiam que eu era cigana, eram as mães que lhes diziam”, comenta. “As crianças adoravam-me e eu a elas, e tínhamos uma relação excelente”, junta.

“Estive lá quatro meses, mas depois tinha de andar escondida [das mães] e isso para mim não dava. Vim-me embora”, atalha, decidida.

A unidade hoteleira abriu-lhe as portas do trabalho duas vezes, a primeira em 2014. “Estavam a contratar camareiras. Fui lá, gostaram muito do meu trabalho e fiquei efectiva”, conta Lurdes.

Quatro anos depois, nasceu Adolfo Júnior, numa família vizinha de Lurdes com remotas ligações familiares. “Elas [mãe e avó] esqueceram-se do menino. Eu não o podia deixar na rua e aos dois meses foi viver comigo. Tive de deixar o hotel para tomar conta dele”, recorda.

“Ele” é “o Júnior”, hoje com quatro anos e filho mais novo de Lurdes e do marido, que conceberam biologicamente “uma rapariga de 28 anos e um rapaz de 23” e há uns anos já tinham adoptado o Samuel, agora com 15, e que tem problemas emocionais e psicológicos que parecem estar a ser finalmente bem diagnosticados.

“Uns médicos diziam que é hiperactivo, outros desconfiaram que era bipolar. Há pouco tempo, uma médica suspeitou que fosse depressão”, desabafa. Esta clínica mudou a medicação, que Samuel toma desde os seis anos, e “finalmente parece estar a dar certo”. “Anda muito melhor”, comenta.

De diagnóstico em diagnóstico, Samuel tem sido o grande desafio parental de Lurdes e do marido: tem causado uma série de problemas na escola e o cúmulo dessas situações em que “é agressivo”, como diz a mãe, colocou-o perante a justiça. “Ele vai para os tribunais e o procurador perguntou se queria desistir dele. Disse que nunca desistiria dele, ele é que tem de desistir de mim. Mas eu vou ganhar esta batalha”, garante.

Ser um exemplo “para os meninos”

A coragem que Lurdes demonstra nesta “batalha” tem sido um dos combustíveis que a fazem avançar na vida. Quando “o Juninho” entrou na sua vida, em 2018, tinha um trabalho certo no qual era apreciada profissionalmente. Fazia parte da equipa de camareiras do hotel, sentia-se realizada e estava feliz.

“Eu e o meu homem estávamos juntos havia 25 anos e casámos a 1 de Junho de 2018, no Dia Mundial da Criança. Os meus filhos mais velhos foram os nossos padrinhos de casamento. Foi tão romântico, foi tão bonito”, diz, entre a emoção genuína e o toque defensivo da ironia, por causa das diferenças de etnia, ela cigana, ele não. “No início, os outros olhavam admirados para nós. Mas o fruto proibido é sempre o mais apetecido, não é?”

Nesse ano, teve de deixar o trabalho para cuidar do filho mais novo. “Não conseguia arranjar infantário para o Juninho, mas depois lá consegui. Comecei a procurar trabalho, mas quando respondia a um anúncio, nunca era aceite”, recupera Lurdes. “Ia a um café que tinha um papel a dizer ‘precisa-se de empregada’ e diziam-me que já não precisavam, mas depois o papel continuava lá”, aponta.

Não era propriamente uma novidade para Lurdes, que desde cedo teve de conviver com o estigma de ser diferente dos outros. “Ligava para responder a anúncios e diziam-me para lá ir [às entrevistas]. Quando lá chegava, viam que era cigana e recusavam-me”, insiste. Estas recusas foram ocorrendo na procura de emprego em vários sectores, de empregada de limpeza a vagas na restauração e na indústria, área em que chegou a trabalhar há muitos anos.

“Há muito tempo, trabalhei numa grande fábrica de calçado. Um dia, faltou um aquecedor e eu fui a única chamada. Depois, o aquecedor apareceu num gabinete, mas eu vim-me embora. Fui eu que quis...”, exemplifica, sem perder tempo.

Entretanto, nunca se manteve imóvel. Além das responsabilidades parentais, foi-se qualificando com cursos de formação. Tirou um de Auxiliar Educativa, outro de Florista e um outro de Assistente de Geriatria.

Movia-se entre “negas” de vagas que, garante, só lhe eram vedadas por ser cigana e caminhos que descobria para se valorizar e encontrar o tão almejado trabalho. Andou nestes ziguezagues até ao Verão do ano passado.

“Sempre disse no hotel que, quando precisassem de mim, eu voltava. Mas quando veio a pandemia, ficaram apenas duas pessoas como camareiras. Entretanto, agora as coisas endireitaram e chamaram-me”, relata. Não se ficou por aí: “Estava a fazer o 9.º ano e, como ainda faltava cerca de um mês, acabei por fazer o resto do curso, os exames, online.”

Voltou a fazer limpezas e a arranjar quartos a 1 de Agosto de 2022, de volta à unidade com cerca de 100 quartos no centro histórico de Guimarães. “Éramos seis ciganas na equipa, mas uma saiu porque vai abrir um café e a outra foi embora porque era muito lenta”, regista, sublinhando que naquele lugar foi tratada como queria ser tratada nos outros onde lhe fecharam as portas. Como outra cidadã qualquer. E num sector em que as cargas horárias são particularmente pesadas, sem grandes descansos: horários de entrada definidos, jornadas de nove horas com uma hora para almoço, folgas alternadas e rotativas, um fim-de-semana de seis em seis semanas. Este é, aproximadamente, o caso das rotinas laborais de Lurdes.

Foto “Compensava-me mais ficar em casa do que ir trabalhar”, confessa Lurdes, fazendo contas à subida da renda de casa, em habitação social. “Gosto de trabalhar”, conta, “é importante para mim”. Paulo Pimenta
“Nós, ciganos, somos de trabalho como todos os outros”

Ainda a etnia, e um recado espontâneo — “Nós, ciganos, somos de trabalho como todos os outros” — num tom seco, indignado, acabando por virar a página rapidamente, em direcção às soluções práticas da vida do dia-a-dia, contornando uma das cavalgadas políticas na ordem do dia sobre a dignidade dos portugueses ciganos – a comunidade que, ainda há pouco, se insurgiu contra o Governo num manifesto assinado por um conjunto de associações ciganas sobre a forma de integração social e política adoptada pelo executivo.

No entanto, para Lurdes Dias, é já óbvio, neste ponto da vida, que os obstáculos não se desviam sozinhos. É preciso identificá-los, combatê-los, ultrapassá-los. Cada um por si, individual e colectivamente.

“Olhe, até lhe digo uma coisa: compensava-me mais ficar em casa do que ir trabalhar. Se calhar, até perdemos dinheiro. Mas o meu marido apoia-me, porque sabe que eu preciso de trabalhar”, começa por disparar. E vai explicando: “Nós vivemos numa habitação social e por causa do trabalho [do rendimento que passou a auferir] a nossa renda, que era de 80 euros, passou para mais de 300 euros mensais.”

“Eu gosto de trabalhar, gosto do que faço e do meu trabalho, é importante para mim”, continua Lurdes. E acaba a levantar valores que não costumam ter um valor facial no mercado de trabalho. “Apesar de tudo, trabalhar é importante. E eu não quero dar um mau exemplo aos meninos”, conclui a camareira de 53 anos, mãe de quatro “meninos”: dois maiores de idade e dois menores, os principais visados nesta declaração de princípios e modelos a seguir.

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.

22.11.21

“Os surdos podem fazer tudo o que os ouvintes fazem”

Ana Cristina Pereira (Texto) e Paulo Pimenta (Fotos), in Público on-line

Carlos Alberto Silva e Alexandra Perry perderam a audição em bebés. Ele é administrativo e ela professora de Língua Gestual Portuguesa. Criaram dois filhos e têm os seus hobbies.

Quem entra na Fundação Nuno Silveira, em Gondomar, dá logo com Carlos Alberto Silva. Está na secretaria, com o nariz enfiado no computador, a fazer encomendas, a verificar pagamentos, a processar salários.

É o mais antigo funcionário da organização. Quando foi contratado, faz agora 25 anos, ainda se chamava Associação de Apoio ao Deficiente Nuno Silveira e ainda não dispunha das actuais instalações. Um complexo com lar residencial para pessoas com deficiência, centro de actividades ocupacionais, serviço de apoio domiciliário, empresas de inserção e cursos de formação profissional.

Não nasceu surdo, há 47 anos. “Estava na incubadora quando fiquei constipado e foi assim que começou a surdez. A minha mãe só deu conta aos nove meses.” Chamava por ele e pelo irmão gémeo e só o irmão virava a cabeça na sua direcção.

As portas da sua mente eram os olhos. A família inventou um código linguístico para comunicar com ele. Entrando no Centro António Cândido, no Porto, que então funcionava como uma escola exclusiva para crianças surdas, aprendeu língua gestual portuguesa.

As escolas públicas tinham começado a integrar alunos surdos. Desde 1978, nalgumas havia Núcleos de Apoio a Crianças Deficientes Auditivas. Ficavam à parte, juntando-se às ouvintes nalgumas disciplinas práticas. Carlos teve essa experiência na Escola Básica Eugénio de Andrade.

No 10.º, quando passou para a Escola Infante D. Henrique, foi integrado numa turma de ouvintes. Tinha aprendido leitura de fala, isto é, leitura labial, mas “foi complicado”. “Exigia um grande esforço e muito estudo. Tinha de estar sempre focado nos lábios do professor.” Alguns colegas ajudavam-no, emprestando-lhe os apontamentos.
Não havia intérprete na sala de aula

Foi no ensino secundário que conheceu Alexandra Perry, dois anos mais velha. Ela perdera a audição aos nove meses com uma doença viral, o sarampo. Tinham uma língua comum e uma forma semelhante de apreender o mundo e num instante ficaram encantados um com o outro.

Para ela, frequentar o secundário também era “uma luta muito grande”. “Não havia os apoios escolares de hoje. Não tínhamos intérprete na sala de aula. A primeira vez que tive intérprete foi quando entrei na Escola Superior de Educação de Coimbra. Foi um descanso.”

Um parêntesis: esta conversa está a acontecer na sala da família, em Águas Santas, Maia; o portátil está ligado e, através de videochamada, uma intérprete ajuda-nos a perceber o que Carlos e Alexandra vão dizendo.

Alexandra esclarece que, concluído o secundário, não foi logo para o ensino superior. Só havia os cursos da Associação Portuguesa de Surdos e da Associação de Surdos do Porto. “As pessoas tornavam-se formadoras de Língua Gestual Portuguesa e ensinavam nas escolas.”

Seguiram ambos por esse caminho profissional. “Sentíamos-mos inferiores aos professores”, admite ela. Todos os anos, assinavam um novo contrato com a categoria de técnicos especializados. Invariavelmente, começavam o ano lectivo com atraso. Preparavam aulas, davam-nas, faziam avaliações, mas ganhavam menos do que qualquer professor.

Havia algum debate, mas os estudiosos da área linguística já tinham provado que a língua gestual tem estrutura, gramática, precisão, flexibilidade, subtileza, como qualquer língua. E em 1997 a Língua Gestual Portuguesa foi reconhecida como instrumento de acesso à educação. Nessa altura, ganhou estatuto de disciplina. Nasceram as Unidades de Apoio Educativo aos Alunos Surdos. Mas o grande momento de viragem, na opinião de Alexandra, ocorreu em 2008, quando foram criadas escolas de referência para a educação bilingue de alunos surdos, que ensinam Língua Gestual Portuguesa como primeira língua e a Língua Portuguesa, na forma escrita e falada, como segunda.

Já se tinham casado e já tinham tido o primeiro filho quando, aos 26 anos, Alexandra decidiu ingressar no ensino superior. Nos seus tempos de presidente da Afomos, a associação dos profissionais de língua gestual, liderou a luta pela sua dignificação. Há três anos, o Ministério da Educação criou um código de recrutamento para professores de Língua Gestual Portuguesa. “Agora sinto que somos vistos como os outros professores.”

Dá aulas no Agrupamento de Escolas Eugénio de Andrade, no Porto. A sua antiga escola é hoje uma escola de referência para alunos surdos. “Adoro trabalhar ali. Adoro trabalhar com alunos surdos. Os alunos surdos também têm de pensar no seu futuro profissional. Sou lutadora e sinto que lhes sirvo de exemplo. Sou um modelo que eles podem seguir. Os surdos podem fazer tudo o que os ouvintes fazem menos ouvir.”

Carlos gaba-lhe a paciência. Não hesitou quando, ainda solteiro, um amigo lhe disse que estavam à procura de uma pessoa com o 12.º ano, residente em Gondomar, com alguma deficiência. O anúncio tinha três requisitos e ele preenchia os três. “Era a pessoa certa para aquele lugar.”

Não basta aceder ao emprego, é preciso segurá-lo. E ele tornou-se parte da casa. “Sinto-me muito bem no meu trabalho”, garante. Embora Alexandra já ali tenha ido dar uma formação de língua gestual para funcionários, poucos a sabem usar. Nem por isso Carlos se atrapalha. “Tenho os meus códigos. Sei utilizar a voz. Faço leitura de fala.”

Admite que a pandemia de covid-19 dificulta a comunicação dos surdos. As máscaras escondem os lábios. Para falar com ele, os colegas afastam-se um pouco e baixam a máscara. “Eles têm essa sensibilidade. É fácil comunicar com toda a gente. Não me posso queixar.”

Paula Aguiar, coordenadora das respostas sociais, só tem elogios a fazer-lhe, percebemos ao visitá-lo no trabalho no dia seguinte. “O Carlos faz trabalho administrativo e colabora e apoia-nos também nas áreas técnicas.” Aponta, em jeito de exemplo, o cartaz sobre a exposição de Natal. “Ele é muito curioso, muito interessado. Quando não sabe ajudar trata de saber. Faz a sua pesquisa e aparece com a solução.”
Atar fios aos pés dos bebés

A sociedade, nota Alexandra, está mais sensibilizada. Ainda assim há muita gente surda com o 12.º ano ou o ensino superior fora do mercado de trabalho. “Quem não tem experiência com surdos tem dificuldade em concebê-la”, achega Carlos. “Como é que eu vou comunicar com aquela pessoa?”

Não é só uma questão de sensibilidade. Reconhecem o muito que o mundo mudou desde a sua infância e mesmo desde a infância dos filhos, agora com 25 e 16 anos. A evolução tecnológica facilita a vida das pessoas surdas.

Carlos dá o exemplo dos sensores que tem num candeeiro do quarto. Havendo um grito dentro de casa, a luz acende e apaga, acende e apaga. Se ele e Alexandra estiverem a dormir, acordam com aquele piscar.

Quando eram crianças, nada daquilo existia. Quando os filhos nasceram, tão-pouco. Pelo menos que eles tivessem conhecimento. Incapazes de ouvir o choro do bebé, tinham de engendrar soluções mais ou menos criativas.

Conta Alexandra que, na maternidade, mantinha uma mão no berço para sentir o movimento do bebé. E conta Carlos que, já em casa, atavam uma ponta de um fio ao pé do bebé e outra ponta a um braço. Se o bebé se mexesse, o puxão acordava o adulto responsável. E tantas vezes acordava para nada.

Ao que diz Alexandra, cuidar do primeiro filho foi bem mais complexo. Quando o segundo chegou, já tinham todas as estratégias testadas. Se fosse agora, que há sensores e outras tecnologias, mais fácil seria.

Os filhos são bilingues. Em casa, aprenderam língua gestual portuguesa. Na creche e no infantário aprenderam língua portuguesa. Na escola, continuaram a aprendê-la nas formas oral e escrita. A língua gestual não se revelou um obstáculo à aprendizagem da língua verbal.

Há uma parte da comunidade surda que se assume como uma minoria linguística e cultural, afastando-se da ideia de deficiência. O reconhecimento da língua gestual e o ensino bilingue fazem parte dessa concepção, que se desliga da visão médica e que adopta a visão das ciências sociais. Nesse sentido, os filhos pertencem à maioria ouvinte, mas também à minoria surda. Cresceram a frequentar a Associação de Surdos do Porto. Os pais fizeram-nos sócios quando ainda eram pequeninos. Nas actividades e nos convívios com a comunidade surda forjaram parte da sua identidade.

Carlos integrou há muitos anos a equipa de futsal da associação. Perdeu a conta aos jogos em que vestiu a camisola contra os jogadores das associações de surdos de Braga, de Coimbra ou de Lisboa. A certa altura, tornou-se treinador. “Vou sair. Estou cansado. Estou a ficar velho.”

Nesta fase da vida, está mais interessado nos passeios de BTT. Quem visita as suas redes sociais encontra abundante prova desta nova paixão. Quando se lhe fala do risco de não ouvir os carros, desvaloriza: “Os condutores dos carros têm de ter respeito pelos ciclistas. Têm carta. Sabem que devem manter distância de segurança.”

Alexandra acompanha-o nas caminhadas que vão fazendo, mas não é de praticar desporto. Prefere dedicar os tempos livres às actividades culturais, onde inclui o teatro para surdos, e de animação, onde coloca os concursos de miss e mister surdo e as festas de carnaval.

O filho mais velho afastou-se um pouco, mas o mais novo “adora” ir com os pais até à associação, onde encontra rapazes da sua idade, que também crescem em famílias silenciosas, que comunicam com as mãos.

Naquele final de dia, o mais novo desapareceu, envergonhado, numa divisão da casa. O mais velho ainda não tinha chegado. Quando tiverem relações amorosas sérias, Alexandra incentivará quem com eles partilhar os dias a aprender língua gestual. “Vou espicaçá-las. Tenho esperança que continuemos a ser uma família unida.”

O casal lembra que a inclusão de qualquer grupo minoritário exige um esforço dos próprios, mas também dos outros. Alexandra gostava de ver mais ouvintes a aprender língua gestual. Carlos reivindica mais acessibilidade nos serviços públicos.

Até há dois anos, se tivesse um acidente na estrada nem podia chamar a emergência médica. O Governo criou a aplicação MAI112, que permite comunicar com o operador através de mensagem escrita ou de videochamada com intérprete de língua gestual portuguesa. Também previu um serviço de atendimento a pessoas surdas com intérprete, à distância ou presencial, no Instituto de Registos e Notariado, na Segurança Social, nos centros de emprego. Carlos e Alexandra queriam acessibilidade em todos os serviços públicos.

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.

8.2.21

As intermitências do desemprego. Cristiana tinha três trabalhos e agora está em casa

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Tirou um curso profissional de informática com aplicação web, mas tem feito vida combinando o refeitório de uma escola com a caixa de um supermercado e umas horas num café. Um exemplo de resiliência e de precariedade agravada pela pandemia. Um capítulo extra a fechar a série sobre inclusão laboral

Até à passagem de ano, Cristiana Costa tinha três trabalhos. Num, o contrato chegou ao fim. Nos outros, o confinamento suspendeu a necessidade do seu labor. Esta sexta-feira, recebeu a carta do Instituto de Emprego e Formação Profissional a dizer que tem direito a subsídio de desemprego.

Na análise que faz das consequências da pandemia, o sociólogo Renato do Carmo costuma falar em desempregados imediatos. São pessoas com contratos a termo ou sem contrato, trabalhadores independentes, estagiários, em suma, trabalhadores precários – maioritariamente jovens e menos qualificados. Muitos sem protecção social, o que obrigou o país a criar respostas específicas.

Cristiana encaixa nesse perfil. A 18 de Março, estava Portugal ainda a aprender a lidar com o vírus SARS-Cov2, o Presidente da República declarou estado de emergência. Com o país confinado, a rapariga foi dispensada do trabalho no refeitório da escola – “Não havia crianças para almoçar”. E de dar uma ajuda no café.

Está habituada a esta intermitência. Desde 2018, a cada período escolar assina um novo contrato com a empresa de prestação de serviços que a coloca a servir os almoços numa escola de pré-escolar e 1º ciclo. Vão as crianças de férias, vai ela para o desemprego.

Inscreveu-se no centro de emprego, apesar das notícias desencorajadoras que todos os dias ouvia na televisão. Volvida uma semana, estavam a chamá-la para reforçar a equipa de operadores de caixa de um supermercado, como já acontecera noutras alturas.

Crise em forma de W

As crises podem assumir várias formas. Explica o economista Eugénio Rosa que muitas desenham um V – a uma quebra segue-se uma recuperação. Esta, encarada como a maior e mais repentina da história recente, esboça uma forma mais próxima de um W: quebra, recuperação, nova quebra, nova recuperação. A primeira quebra foi abrupta em Março, Abril, parte de Maio. A primeira recuperação — com criação de emprego desde Agosto — terminou em Dezembro.

Os dados sobre trabalhadores subutilizados – categoria em que o INE inclui os desempregados, os empregados a tempo parcial que desejariam trabalhar mais horas e os inactivos que querem trabalhar – ajudam a perceber essa história. Entre Março e Maio, esse grupo passou de 12,4% para 14,6%. Já em Dezembro, a estimativa provisória divulgada pelo INE apontava para uma taxa de 13,4%.

Cristiana viveu esse ziguezague. Em Maio, quando o país reabriu, voltaram a chamá-la para dar uma ajuda no café. A rede de supermercados quis assinar um novo contrato de três meses, para robustecer o serviço no Verão, e logo outro, para o fortalecer no Natal. Recomeçando as aulas presenciais, também retomou o seu lugar na escola.

Apesar da crise pandémica, a rapariga de 23 anos andava de um lado para outro, incansável. “Eu nunca lhe disse, mas é demais”, comenta a mãe, Olinda, vindo da sala de estar para a sala de jantar. “Não é por eu ser mãe, mas ter assim uma filha sabe bem. Dedica-se e vai para a frente. Se fosse eu, desistia.”

A experiência da mãe foi outra. “A mim, as coisas saíram muito direitinhas.” Aprendeu costura. Trabalhou como cravadeira em fábricas de calçado. E agora, que tem 50 anos e saúde débil, só deseja uma pensão de invalidez. “Eu não conseguia o que ela consegue.”

Nada se faz a pé desde a moradia da família, em Macieira da Lixa, no concelho de Felgueiras. Os pais emprestavam-lhe carro. O horário da escola é sempre igual. De segunda a sexta, entre as 9h e as 14h30. No supermercado, o horário é rotativo. Acontecia começar logo às 15h para um turno de três, quatro ou cinco horas. No café, era menos certo. “Só chamam se precisarem.”
Da informática para o que aparecesse

Não foi para isto que Cristiana se preparou. Tirou um curso profissional de informática com aplicação web. Aprendeu a programar, a construir páginas web e a fazer outras coisas que lhe permitiam imaginar-se a trabalhar numa empresa – num gabinete, numa oficina ou num laboratório. “O 12.º, já fiz um bocado à rasca. Achei que não ia conseguir ir para a universidade.”

Cumpriu um estágio numa loja. Puseram-na a fazer reposição de stock, atendimento ao balcão, colocação de alarmes. Enviou currículos. “Queria trabalhar na minha área. Ninguém respondia. Desanimei.” Abriu-se ao que quer que aparecesse. E o que apareceu foi um lugar temporário numa caixa de supermercado.

Aos 18/19 anos estava a cumprir uma sucessão de contratos de três meses no tal supermercado (ao qual haveria de voltar para cumprir nova sucessão de contratos aos 20/21 anos e, agora, aos 22/23)​. Já aos 20, uma amiga falou-lhe na empresa prestadora de serviços na área da restauração. Candidatou-se. E começou a assinar um contrato por cada período escolar e a servir refeições.

Até ao último dia do ano, andava naquela roda-viva. O contrato com o supermercado terminou no dia 31 de Dezembro. No dia 22 de Janeiro, as aulas foram suspensas até 5 de Fevereiro e Cristiana de imediato dispensada. Na impossibilidade de saber quando será retomado o ensino presencial, inscreveu-se no centro de emprego. Como esteve no supermercado nove meses, tem direito a subsídio.
O Estado a funcionar como dique

Pelas contas do Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de desemprego estava em Dezembro nos 6,5%. Seria outra se não se classificassem muitos novos desempregados como inactivos. E se não fossem os apoios públicos à economia e ao emprego, com destaque para o layoff simplificado.

“O Estado está a pagar de duas formas”, explica o economista Eugénio Rosa. Através da isenção de contribuições para a Segurança Social e através de financiamento do layoff. “O problema é que isso vai ter limites. Algumas empresas começam a libertar-se de trabalhadores. Se for um trabalhador mais qualificado, a empresa tem interesse em reter. Se não for, pode entender que facilmente o consegue substituir.”

O sociólogo Renato do Carmo recorre à metáfora do dique, uma obra de engenharia hidráulica que mantém porções de terra secas contendo águas correntes. O apoio à economia e ao emprego permitiu a muitas empresas “ganhar tempo, capacidade de adaptação, resistir ao impacto a crise”. “A questão que se põe neste momento é o que poderá acontecer com o impacto deste segundo confinamento”, diz.

Parece-lhe evidente que “será difícil algumas empresas – que conseguiriam resistir e adaptar-se, algumas até recuperar um pouco, porque começaram a ter mercado, procura interna – aguentarem este segundo confinamento”. “Podemos ter falências ou redução de pessoal, o que significa um aumento de desemprego, já no perfil de pessoas com vínculo”, prossegue. “Não estou a dizer que antes não tenha havido desemprego entre estas pessoas, mas o primeiro impacto foi mais no trabalho precário.”

O sociólogo Elísio Estanque faz leitura idêntica. “Já se sabia que o impacto na economia seria devastador, que a pandemia iria atirar muitos micro e pequenos negócios para a falência”, refere. Multiplicam-se as queixas, sobretudo, na cultura, na restauração, na hotelaria. Agora, sublinha Estanque, “tudo depende do quanto o surto vai durar”. Com a vacinação, espera-se que “daqui a meia dúzia de meses a economia comece a sua reabilitação”. Só que isso exige uma injecção de dinheiro quanto antes. Há um Plano de Recuperação e Resiliência, com uma previsão de 12,9 mil milhões de euros para aplicar em três grandes áreas: resiliência, transição digital e transição climática. O Quadro Comunitário de Apoio – PT2030 deverá contemplar outros 29,8 mil milhões de euros que se distribuirão por vários programas. “A questão tem muito que ver com os tempos”, corrobora Renato do Carmo. “Quanto tempo mais levará até virem essas verbas e que impacto terão na economia? Temo que, no entretanto, a economia se vá tornado cada vez mais vulnerável.” Os apoios concedidos aos trabalhadores vão chegando ao fim.

Ao que se vê no Portal da Segurança Social, em Dezembro 241.324 pessoas recebiam alguma prestação de desemprego. O Orçamento Suplementar de 2020 previa a prorrogação até ao fim do ano do subsídio social de desemprego, mas o Orçamento para 2021 não acautelou a sorte de quem está nessa situação. Só em Janeiro, 22 mil pessoas que recebiam essa prestação ficaram sem qualquer apoio. As famílias vão ficando cada vez mais aflitas.

Um desejo de estabilidade

Cristiana está no princípio da vida. Não tem encargos. Tem retaguarda familiar. Mora com os pais e a irmã, Marina, de 15 anos, numa casa espaçosa e confortável. O pai trabalha numa empresa de vinhos. A irmã dedica-se aos estudos para, daqui a uns anos, ser capaz de ingressar no ensino superior e estudar gestão de empresas. A mãe entretém-se a fazer arranjos de costura no atelier que montou no piso térreo. E Cristiana ajuda em casa. Espera que, mal o país abra, a voltem a chamar para a escola e para o café.

Não desgosta do que faz. O problema é o regime contratual. Que planos pode fazer quem tem contratos temporários a tempo parcial? “Não dá para gerir a minha vida. Estou sempre à espera. Se ficasse efectiva, tinha mais segurança. Já não andava de um lado para o outro. Ficava num sítio. Se ficasse efectiva, já podia fazer um crédito para um carro e, mais tarde, para uma casa.”

Quem sabe o que o futuro reserva? A pandemia já acelerou a digitalização, a flexibilidade, a precariedade. “Todos os cenários apontam para uma reconversão muito profunda do tecido económico”, torna Estanque. “É provável que isso se traduza num modelo de relações de trabalho onde a flexibilidade será maior. O quadro jurídico do trabalho terá de ser reajustado, mas não podemos perder de vista a segurança. A segurança terá de ser trabalhada através de legislação e da fiscalização. E os investimentos públicos terão de contemplar estes aspectos para não se permitir uma precarização generalizada a todos os sectores da economia.”

Por todo o lado se fala na transição para o digital. O Ministério da Economia lançou um Plano de Acção. Está quase a abrir a segunda fase das candidaturas ao Programa UPSkill destinado a desempregados, com o ensino secundário ou superior, que desejam qualificar-se para trabalhar com tecnologias digitais. Terá Cristiana, por fim, oportunidade de trabalhar na área que escolheu? Uma coisa é certa: não é de estar de braços cruzados. “Já me inscrevi para os censos!”

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.

18.1.21

Quando a violência doméstica é agravada pelo preconceito

Ana Cristina Pereira (Texto) e Nelson Garrido (Fotos), in Público on-line

Estereótipo negativo sobre mulheres brasileiras foi usado para justificar mais controlo e violência. Primeiro, o ex-companheiro não quis que trabalhasse, depois fê-la perder emprego. Numa casa-abrigo, a técnica de enfermagem depressa encontrou lugar no mercado de trabalho. Quarto capítulo de uma série sobre inclusão laboral.

Não sai de casa sem a unidade de protecção da vítima, um pequeno aparelho que apita caso o ex-companheiro se aproxime. “Ele disse tantas vezes que me mata, que me arranca a cabeça.” Desde que ele usa pulseira electrónica, ela já não investiga perigo em cada esquina. Cruzando a porta do trabalho, sente-se segura. Na portaria têm o nome dele. Não o deixam entrar.

Os sinais estavam lá desde o princípio, ainda no Brasil. Era demasiado inexperiente para os ver. Tinha 16 anos. Num instante, ficou grávida. Ele pediu-lhe que não usasse saias curtas, nem blusas com decote. “Ele quer que eu seja aquela mãe de família, ele diz isso para me proteger”, pensou. Proibiu-a de ter amigos, só podia ter amigas. “Ele já foi casado. Isso é coisa de casado. Isso é amor”, pensou também.

Resistências a estudar e trabalhar

Já com uma criança nos braços, quis trabalhar. A avó sugeriu que estudasse enfermagem. Pagar-lhe-ia o curso técnico. “Teve ali um pouco de resistência”, recorda. “Não precisas, eu trabalho; não tem como conciliar tudo”, argumentou ele. A mãe e a avó contrapuseram: “Não, eu ajudo. Tens de ter uma profissão. Tens de trabalhar.” Muito lhes agradece esse passaporte para a libertação.

Nunca foi fácil. Acontecia ter de sair mais cedo ou chegar mais tarde para fazer algum trabalho. “Ele me insultava. Dizia que eu estava com homens.” Ligava-lhe, revistava-lhe o telemóvel, vigiava-a. As conversas com colegas e professores levaram-na a questionar aquele comportamento. E a contestá-lo. As discussões estouraram. Corria para casa da mãe ou da avó. “As coisas acalmavam. Ele ia lá.” Entretanto, já ia no segundo filho. Nem a avó, nem a mãe lhe diziam: “Separa, vem para cá, fica na minha casa, eu te ajudo.” Diziam-lhe: “É teu marido, tens tua casa, tens tuas coisas.” E ela voltava, com cada vez menos vontade.

Mantinha a cabeça baixa na sua presença. “Tinha medo de levantar a minha cabeça porque ele dizia que eu estava a olhar para algum homem. Às vezes, estávamos num restaurante e ele começava: ‘Vamos embora.’ ‘O que foi?’ ‘Não paras de olhar para aquele homem.’ ‘Que homem?’” Durante muito tempo, nem lhe permitia abrir uma conta numa rede social. Quando autorizou que aderisse ao Facebook, reservou-se ao direito de dizer que amizades podia ou não aceitar. Protegia o telemóvel dele com palavra-passe, mas o dela tinha de ficar desprotegido. “Ele chegava do trabalho e pegava no meu telemóvel e ficava olhando.”

Um dia, ela levantou a cabeça e disse que aquilo não estava certo, que ia bloquear o telemóvel. “Se tens tua privacidade, porque não posso ter a minha?” Uma explosão como nunca vira. “Teve uma agressão muito forte.” Quer a mãe dela, quer a irmã dele assistiram. “Foi quando nos separámos mesmo.” Não chegou a ser julgado. “Eu, com pena por conta dos meninos, fui lá e retirei a queixa.”

Organizou-se. A avó comprou uma pequena casa para ela e para os filhos, que já eram três. “Confesso que estava difícil conciliar. A casa era longe da família. Tive de colocar os meninos na escola pública. Os meninos odiavam. É horrível. Mal tem aulas.” O ex-companheiro resolveu tentar a sorte em Portugal e telefonava com frequência. As crianças choravam com saudades dele. Ele desafiou-a. “Vem para cá. Estou mudado. Estou mais tranquilo.”

Aquela conversa, repetida, acabou por ter efeito. “Ainda tinha algum sentimento. Meus meninos ficaram todos animados. Eu pensei: posso ir para Portugal e dar uma qualidade de vida melhor para eles.” Vendeu os móveis, arrendou a casa e ainda pediu dinheiro emprestado. Além dos passaportes, dos bilhetes, teve de comprar roupas de inverno. Não esperava que a violência escalasse, como veio a acontecer. “Lá no Brasil, quando tinha briga, eu agarrava nos meninos e ia para casa da minha família. Em Portugal, eu não tinha ninguém.”

Perseguições até perder o emprego

O preconceito que assombra as mulheres brasileiras tornou-o ainda mais obsessivo. “Aqui em Portugal, todas as brasileiras são putas”, dizia-lhe. “Os homens vão olhar para ti, vão pensar que tu és uma puta. Não fales com nenhum homem.”

Não queria que ela trabalhasse. Ela insistia. E arranjou trabalho num lar de idosos. Parecia-lhe perfeito. “Minha chefe era brasileira. Era pertinho de casa. Só tinha mulheres trabalhando.” Ele aceitou. Ao perceber que havia um fisioterapeuta a frequentar o lar duas a três vezes por semana, “enlouqueceu”.

Aproveitava o tempo livre para a vigiar. Viu-a cruzar-se com o fisioterapeuta e dizer bom dia. “Foi uma briga enorme.” As colegas viam-no horas em frente ao lar. Perguntavam-lhe: “O que é que teu marido faz ali?” Fê-la faltar várias vezes. “Ele saía na minha frente correndo e trancava a porta.” Ligava-lhe amiúde. Se não atendesse o telemóvel, por estar a dar banho a um idoso ou a fazer outra coisa qualquer, ligava para o telefone fixo. “Eram muitas chamadas. Até que conseguiu que a minha chefe chegasse para mim e dissesse: ‘Assim não dá. Vou ter de te demitir. Vai resolver a tua vida.’”

Uma vizinha, de quem se tornou amiga, incentivava-a a chamar a polícia. “Tenho muito medo”, respondia. Ainda não tinha autorização de residência. “Vão me mandar para o Brasil.” Antes de voltar, queria ganhar algum dinheiro para pagar as dívidas e recomeçar. “Fui levando isso.” Até que a vizinha chamou mesmo a polícia.

A polícia sugeriu-lhe que fosse para uma casa-abrigo para vítimas de violência doméstica. “Não vim para Portugal para isso”, reagiu. “Que vergonha!” Ia voltar para casa? Telefonou a um primo, tolhida pelo embaraço. E ele acolheu-a e à criança mais pequena. As outras tinham preferido ficar com o pai, o companheiro de jogos, pizza e pipocas. Foi buscá-las. Nova briga.

A polícia explicou-lhe que teria de iniciar um processo de regulação das responsabilidades parentais. Quando o processo deu entrada, ele descobriu que ela estava a ficar em casa do primo. “Não tive paz.” Uma agonia. “Tenho de sair daqui. Tenho de ir para um lugar que ele não saiba onde é”, disse ao primo. Uma amiga dele acolheu-a. Quando se apresentou em tribunal, não tinha emprego, nem casa. Recomendando-lhe que voltasse quando tivesse meios, a juíza retirou-lhe a criança e entregou-a ao pai. Nem consegue narrar a dor. “Sair de casa sem os meus filhos foi o maior erro da minha vida.”

Recuperou o trabalho. Arrendou um quarto. A cada visita aos filhos, uma briga. “Até que teve uma agressão enorme.” “Você sabe quantas vezes já apresentou queixa contra ele?”, perguntou-lhe o polícia.

Na esquadra, voltaram a falar-lhe na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica. Explicaram-lhe que a ajudariam a recuperar-se e a recuperar os filhos. E ela entendeu que talvez aquela fosse a sua única hipótese. Já com autorização do tribunal, foi com a polícia buscar a criança mais pequena à escola e seguiu com ela para uma estrutura de emergência, noutra cidade. Naqueles três meses, recompôs-se emocionalmente. Ainda ficou um ano e meio numa casa-abrigo, numa terceira cidade, até sair, com autonomia financeira, os filhos a cargo, alguma segurança.

Recomeçar a trabalhar

A não ser que consigam uma transferência do posto de trabalho, as vítimas entram nas casas-abrigo sem emprego ou em vias de o perder. O estatuto de vítima confere-lhes acesso preferencial aos programas de formação profissional. O Instituto de Emprego e Formação Profissional definiu interlocutores específicos.

Para lá de todo o desgaste físico, psicológico e emocional, há mulheres que chegam ali sem qualquer experiência de trabalho fora de casa. Algumas já têm mais de 45 anos. “Os reduzidos níveis de educação formal [...] constituem uma desvantagem importante”, lê-se no estudo “Processos de Inclusão de Mulheres Vítimas de Violência Doméstica”, organizado por Maria das Dores Guerreiro em 2015. “A aposta na formação pode constituir uma via de valorização”. E algumas fazem-no, mas o emprego “é a prioridade, dada a saída do relacionamento abusivo, o carácter temporário do acolhimento e a necessidade de responder aos encargos financeiros associados a uma vida autónoma, que implica em grande parte dos casos despesas com os filhos menores”.

A fuga, tantas vezes à pressa, sem nada ou com quase nada, para um sítio seguro, tende a deixar estas pessoas sem retaguarda familiar. O referido estudo aponta para os horários de trabalho “incompatíveis com os horários das crianças”. E para outros constrangimentos, como a “falta de transportes ou a distância alargada, a inexistência ou dificuldade de acesso a serviços de apoio às crianças”. E os baixos salários. E as falhas nos pagamentos.

Mas a economia vivia um bom momento. A taxa de emprego estava elevada. Como tem formação e experiência numa área vital, num instante arranjou lugar. A equipa da casa-abrigo incitava a procura online. E ela viu um anúncio. Respondeu. Compareceu na entrevista. “Eles pedem morada e eu não podia dar a morada da casa-abrigo [que tem de se manter confidencial, por uma questão de segurança]. Fiquei com vergonha, mas contei tudo. Foram bastante compreensivos.” Dão-lhe um dia extra sempre que precisa de ir ao tribunal.

Tinha a outra grande dificuldade: a da conciliação da vida laboral com a vida familiar. Enquanto esteve na casa-abrigo, a equipa deu-lhe apoio. “Quando o horário era um bocadinho depois, iam buscar meus filhos.” Quando saiu, já tinha uma amiga, a cabeleireira das crianças, disposta a fazer isso.

No pequeno apartamento, sente-se muito orgulhosa. Com a especulação que para aí vai, parecia impossível encontrar habitação a um preço que pudesse pagar. Não fosse a chefe tê-la ajudado, estaria em habitação social, como acontece a algumas vítimas com filhos.

Até há uns meses, não se sentia segura. Hesitava em cada passo. Ele aproveitava-se das crianças para obter informações. “A tua mãe está aí? O que está fazendo?” Apesar dos riscos, as crianças falavam com o pai ao telefone e iam visitá-lo. Já na pandemia, estando o concelho do pai em risco elevado, a mãe pediu ao tribunal que não fossem naquele fim-de-semana. Por telefone, a criança mais velha revelou que iam à praia. E o pai apareceu, com outros dois adultos, decidido a levar as crianças. Mais uma agressão. “Veio a polícia. Foi quando lhe puseram pulseira electrónica.”

A guarda tornou-se exclusiva da mãe. Os contactos com o pai passaram a ser intermediados pelo Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental. As crianças só vão a casa dele porque ela permite. A de sete anos fica confusa. A de nove chora quando se separa da mãe e chora quando se separa do pai. A de doze revolta-se. “Ele diz aos meninos que eu tinha homens e por isso me castigava. Chegou a mostrar vídeos pornográficos com pessoas de rosto coberto para dizer que eu fazia aquilo.” Crê que, com a ajuda das psicólogas, essa imagem se desfez na cabeça das crianças mais novas. Da mais velha não. “Acredita em tudo o que o pai diz. O medo que eu tenho é que cresça a achar que isso é certo.”

Às vezes, tem vontade de lhes dizer que o pai é um agressor, mas cala-se. “Acho que é conversa de adulto. Queria que esquecessem, que fossem crianças normais.” E o que iria ela acrescentar? “Ele dizia na frente deles: ‘Eu vou-te matar!’ Eles sabem, mas não querem dizer, porque não querem que o pai vá preso…”

Ter estabilidade laboral

Não sabe quando voltará a ter uma relação amorosa. Para já, nem quer pensar nisso. Ter autorização de residência e contrato sem termo ajuda-a a encarar o futuro.

“No começo, só queria juntar dinheiro para voltar para o Brasil”, diz. “Depois que eu passei por essas casas, me sinto capaz. Quando chegou a residência, vendo que os meninos gostam da escola, que temos médico de família, que estou efectiva, pensei: vou tentar fazer a minha vida aqui com os meus filhos. Se eu for para o Brasil, ele vai para lá e vai começar tudo de novo. Não me sinto segura de ir.” Aqui, sente-se. Pelo menos enquanto ele usar pulseira electrónica.

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.


11.1.21

Ricardinho era um jovem “nem-nem” e viu no hip hop uma alavanca

Ana Cristina Pereira (Texto), Adriano Miranda (Fotos) e Teresa Pacheco Miranda (Vídeo), in Público on-line

Abandonara a escola e só arranjava trabalhos pontuais, o projecto OUPA! serviu-lhe de abanão. Foi acabar o secundário e pôs-se a fazer trabalho na comunidade. Tem sido uma luta, mas sente que o seu esforço começa a ser reconhecido. Trabalha como “dinamizador cultural”. Terceiro capítulo de uma série sobre inclusão laboral, em dose dupla.

O cheiro a mofo está entranhado na cave. Pouco se aproveita dos móveis que foram sendo oferecidos aos artistas hip hop do Bairro do Cerco do Porto que ali se sentaram tantas vezes. Três inundações num ano. Fama e dinheiro, nada. Mas o esforço está a trazer alguns frutos. Ricardinho Lopes tornou-se “dinamizador cultural”.

Conhece todos os cantos do bairro. Viveu os seus 29 anos naquele território acossado pelo tráfico de drogas. A experiência mostra-lhe que a aglomeração de pobreza e exclusão, como acontece ali, na freguesia de Campanhã, afecta tudo, mas também que em qualquer lugar se pode coleccionar instantes de felicidade. “Foi aqui que fiz as minhas maiores amizades, é aqui que eu tenho o meu sangue e suor deixado. Viver no Cerco acaba por ser a melhor coisa do mundo.”


Quando era pequeno, “tinha vontade de ser jogador de futebol”. Jogava no clube do bairro. Não era o seu único interesse. Gostava de teatro, música, dança. Se pudesse voltar atrás, tirava um curso profissional de animação cultural, não de dinamização desportiva. Teria agora mais ferramentas de trabalho.

Abandonou a escola em 2012, sem fazer uma disciplina do curso. Andou desanimado. O país mergulhara numa crise. O pai, transportador e vendedor de peças de automóvel, ficou desempregado. A mãe, doméstica, andava consumida de preocupação. “Foi um momento bastante difícil. A gente agarrava-se ao que podia. Lembro-me de fazer trabalhos pontuais. Estavam completamente fechadas as portas para os jovens nessa altura.”

Naquela intermitência, engrossava a lista de jovens entre os 15 e os 29 anos que não estudavam, não trabalhavam, nem estavam em formação. Em 2015, aconteceu o OUPA!, uma residência artística com oficinas de escrita, produção musical, vídeo e concepção de espectáculos dinamizadas pela rapper Capicua, pelo músico André Tentúgal, pelo videasta Vasco Mendes. Aquele projecto do programa municipal “Cultura em Expansão” foi determinante. “Deu-me o naipe para me fazer à vida.”

Durante meses, Ricardinho e outros sete rapazes viveram uma aventura que os levou ao palco do Teatro Municipal do Porto – Rivoli. Os artistas quiseram deixar-lhes um estúdio comunitário. Tinham de fundar uma associação e de continuar a trabalhar. A Câmara do Porto cedeu-lhes aquela cave. O Presidente da República foi ao bairro assistir a um showcase do OUPA. Em 2016, o projecto foi replicado no Bairro de Ramalde e em 2017 no do Lagarteiro. Em 2018 formou uma dream team com elementos dos três bairros e fechou um disco, o Cidade Líquida. Um sonho para Ricardinho.

Quem lê as notícias vê os holofotes, mas há uma parte mirrada. “Somos jovens de um bairro que participaram num projecto e, de repente, têm de gerir uma associação.” Como? Com que fundos? Com que estratégia? “Estamos a fazer trabalho na área. Somos convidados para apadrinhar eventos. Somos entrevistados para teses. Ajudamos associações. Mas ainda estamos a tentar arranjar dinheiro para comprar um software para conseguir fazer actividades com os miúdos.”

Queriam “quebrar o estigma, derrubar os muros, os preconceitos” que existem sobre o bairro, ser uma inspiração para os miúdos dali. “Estamos a soro.” A cave inundada é a imagem do desastre. “Estamos todos a tentar sobreviver. Quase não temos tempo de sonhar. E, quando sonhamos, os sonhos desmoronam. Já demos prova que conseguimos fazer. Não dão mais condições para as pessoas fazerem mais.”

Inegável, mesmo assim, que o projecto lhe deu o abanão de que precisava. A crise estava a abrandar. Trabalhou num supermercado. “Era operador de caixa, repositor de stock, fazia um pouco de tudo.” Adorou ter um salário certo e ajudar a família. Naquela fase, terminou o ensino secundário. Quando se viu desempregado, voltou a fazer formação, desta vez na Cidade das Profissões. Marketing digital, marketing pessoal, comunicação em público, dar uma entrevista... Não deixou de “fazer pela associação, de fazer pela freguesia”. Os OUPA participaram em vários eventos. Organizaram o I Festival Oupa ACampanh´Arte em 2019. E acha que o seu esforço foi reconhecido.

Desde o ano passado, presta serviço ao Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra no âmbito do URBiNAT, um projecto europeu empenhado na regeneração urbana. “Estou a ter um trabalho de dinamização no sentido do mapeamento cultural de Campanhã.” A meta é criar um Corredor Saudável, um percurso pedonal e ciclável, passando pelos bairros do Cerco, do Lagarteiro e do Falcão, articulando espaços verdes (Parque Oriental, Praça da Corujeira, Quinta da Bonjóia, Horto municipal), serviços públicos (escolas, indústria, centros de saúde, associações locais) e projectos futuros (expansão do Parque Oriental, Novo Matadouro, Monte da Bela).

“É um projecto muito participativo”, diz Ricardinho. “Dá oportunidade a cada um de se expor, de mostrar a sua dificuldade, de propor os seus caminhos. E o meu trabalho é fazer de ponte, para se criar não apenas um corredor saudável material mas também imaterial, que são as sinergias, as ligações uns com os outros.” Ali, a crise é um contínuo. “É preciso nascer algo que nos faça parar, olhar para Campanhã, pensar em formas de reabilitá-la, de potenciá-la, de vivê-la.” A freguesia já está a transformar-se e ele, embora precário e a morar com os pais, faz parte disso. “Também é preciso preparar a comunidade.”

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.

28.12.20

Abel libertou-se das drogas na prisão e agora trabalha com quem lá está

Ana Cristina Pereira (Texto) e Adriano Miranda (Fotos), in Público on-line

Entrou a ressacar. Passou pelo Programa de Apoio ao Recluso Entrado Toxicodependente e pela Unidade Livre de Drogas. Cumpriu os passos. Fez teatro. Uma vez liberto, vai às prisões como voluntário e como mediador. O seu sonho é criar uma comunidade para quem sai da cadeia e não tem cá fora um familiar ou um amigo que lhe dê a mão.

Não é um discurso comum sobre a prisão, o de Abel Sousa. “Bendita a hora que fui preso. Se não tivesse sido preso, se calhar não estava aqui hoje. Ainda fui a tempo de me lembrar da educação que tive. O mundo das drogas podia ter-me flipado todos os neurónios. Eu podia ter ficado sem capacidade para dar a volta.”

Usando a terminologia do criminologista Cândido Agra, não era um delinquente-toxicodependente, mas um toxicodependente-delinquente, com família mais estruturada, a cometer crimes para consumir. “Eu tive uma infância espectacular. Nunca me faltou nada.” Tão-pouco na adolescência. Tinha a família, os amigos, a namorada, a ambição do futebol profissional. “Estava no Boavista com pré-acordo para o Sporting. Achava que o futebol me ia dar tudo.” De súbito, uma grave lesão num joelho, três cirurgias. “Vi o meu sonho cair por terra.”

Tentava convencer-se de que não era o fim do mundo, que podia trabalhar com o pai da rapariga com quem namorava desde os doze anos, ali, em Penafiel. “Fui caço com a melhor amiga dela. Estava a dois meses de me casar. Tinha 19 anos.” Que fazer? “Sempre fui um baldas nos estudos.” Tinha de pensar. “Isolei-me no Algarve e, numa noite, muito bêbado, experimentei heroína.”

Volvidos quase 30 anos, já lhe custa explicar o que sentiu naquela primeira vez. “É o paraíso. A heroína abafa os problemas. Dentro do efeito, a vida há-de continuar.” A partir dali, andou “atrás daquela primeira sensação”, sem jamais a reencontrar. Num instante, o corpo a pedir mais, a ressaca, a urgência de calar.

A degradação progressiva

No princípio, ainda conseguia esconder. Pouco a pouco, a família percebeu. “É mentiras. É dormir fora de casa. É eles a andar atrás de mim.” Os pais tentavam libertá-lo. E ele acedia. Sujeitava-se a desintoxicações. Ficava meses em comunidades terapêuticas. “Aguentava-me um ano, dois, recaia. Um ano, dois, recaia.”

No topo da lista dos episódios de que se arrepende está o roubo do cartão dourado do pai. “Tinha 23 ou 24 anos, gastei doze ou treze mil contos em nove ou dez dias com drogas, hotéis, restaurantes, carros.” Comove-se ao falar no pai. “Sempre fez tudo por mim.” Não vacilou nem quando, cancelado o cartão, a polícia apanhou o filho a tentar pedir um cheque em seu nome. “Quando cheguei a casa, deu-me um abraço e teve um ataque de miocárdio. Foi do choque. Peguei nele e levei-o para o hospital. Estava desesperado. Pus-me a dizer que, se ele não sobrevivesse, matava os médicos todos.”

Aquela aflição não o fez mudar de vida, pelo contrário. Enterrou-se ainda mais, apesar de todos os apelos dos pais e dos irmãos. “Eu nunca fui abandonado por eles. Eu é que senti que tinha de os abandonar porque estava a fazê-los sofrer demasiado. Se me queria matar, matava-me sozinho.”

Já não era só a heroína. Metera-se na base de cocaína. “Vivia no mundo da droga. Dormia ao relento, nos carros.” Só ia a casa de meses a meses, cada vez mais magro, mais desdentado, mais maltrapilho. “Tive de começar a roubar, a entrar em esquemas, a fazer transporte de droga.” Pouco antes de morrer, o pai ainda lhe disse: “Esperei ver-te recuperado, mas, neste momento, o que vejo à minha frente não é o meu filho, é um cadáver ambulante.”

Mais de 400 processos

Quando o levaram para a prisão, contava 36 anos. “Fiquei muito tempo na cadeia porque tinha muita coisa para responder. Mais de 400 processos.” Quase tudo por furtar em supermercados e por atestar o depósito e não pagar. “Fui muitas vezes caço nesses anos todos. Era detido. Ia à polícia. Isto ia acumulando.”

Havia de ficar encarcerado quatro anos e nove meses. No início, revolta. “Entrei a ressacar. Meu Deus!” Um ano antes, em 2007, o Estabelecimento Prisional do Porto criara o programa Observação (OBS), entretanto renomeado Programa de Apoio ao Recluso Entrado Toxicodependente. Naquele lugar, fazem a desabituação física das ditas drogas de abuso e a recuperação psicológica.

Abel pouco tem a dizer sobre o primeiro mês. “É só mediação. É voltar a raciocinar.” Ficavam naquele espaço 22 horas por dia, só dispunham de duas horas de recreio a céu aberto e de uma visita semanal. Ao fim de um a três meses, os reclusos podem passar às áreas comuns. Abel preferiu ficar até abrir vaga na unidade livre de drogas (ULD), opção que existe em poucas cadeias. “Senti que já chegava, que tinha de dar um rumo à minha vida. Nos pavilhões, droga é porta sim, porta não. Quem não cai na tentação?”

Este segundo programa combina actividades educativas, ocupacionais e terapêuticas. “Na ULD foi um crescer. Estamos presos, mas, ao mesmo tempo, acabamos por nos conseguir libertar. As terapias, as regras, a vigilância, o controlo, tudo tem um objectivo.” Foi ultrapassando as várias etapas: novo membro, membro responsável, velho membro, responsável de unidade, mentor. Não diz que foi fácil. Ao fim-de-semana, os técnicos não trabalhavam. E Abel, enquanto responsável de unidade, insistia nas terapias de grupo. “Alguns não queriam.” “Podias dar uma folga”, diziam-lhe. “Ouve lá, tu ao sábado, drogavas-te, ao domingo drogavas-te, aos feriados drogavas-te. Não vai haver reunião porque queres dormir mais um bocado? Não! Comigo isso não funciona!”

No seu caminho de toxicodependente em recuperação, ajudou trabalhar num projecto da PELE – Espaço de Contacto Social e Cultural. Entrou no espectáculo Entrado (2009/2010). Foram nove meses num exercício de autoconhecimento e expressão, sentido ético e artístico. O público foi desafiado a entrar na prisão e a fazer um percurso, confrontando-se com percepções e vivências daquele lugar, culpa e perdão. Que orgulho em cada um dos dias de espectáculo, que levou 200 pessoas por noite à prisão. “Foi mais um desafio superado.”

Abel sentiu-se ligado ao director artístico, Hugo Cruz, à adjunta, Maria João Mota, ao director musical, Artur Carvalho. “São pessoas que nos transmitiram que conseguimos.” Um dia depois de sair da prisão, em Agosto de 2012, estava a ligar a Hugo Cruz. “Tenho trabalho para ti em Setembro”, disse-lhe. Era o Mexe – Encontro Internacional de Artes e Comunidade. Ia carregar material e ajudar a montá-lo. Desde então, a PELE chama-o. “Foram eles os primeiros. Ganhar algum dinheiro quando saí da cadeia foi com a PELE.” Trabalhos pontuais, já se vê. “Não era um sustento viável”.

Tinha de arranjar algo mais consistente. “Pedi a um primo que trabalhava em ar condicionado. Ele estava com um pé atrás – as minhas passagens pelos negócios da família tinham sido sempre drásticas, havia recaídas, roubos e afins –, mas ele acreditou em mim. Trabalhei com ele três ou quatro anos.”

O regresso à prisão

Agarrou a oportunidade de voltar à prisão, noutros moldes, os que idealizava. Em 2014-2016, a PELE desenvolveu o Ecoar – Empregabilidade, Competências e Arte em quatro estabelecimentos prisionais. Abel assumiu o papel de mediador. “O recluso estranha quem chega. Eu podia dar a minha experiência. Saber que estava ali alguém que foi igual a eles era meio caminho andado para a confiança, facilitava o trabalho do mundo artístico.”

A ideia era orientar a criação artística para a aquisição de competências de empregabilidade. E aquilo fazia-lhe sentido. “Reaprender a trabalhar em equipa, a estar próximo do outro, a saber ouvir o outro, a olhar para o outro, a ver qualidades no outro: ‘Não és só um ladrão, também sabes ser humilde, ter uma conversa franca.’ Foi isso que o teatro me deu.”

Falando sobre prática artística em meio prisional, Hugo Cruz diz o mesmo: “O que a criação artística traz é, muitas vezes, um espaço para as pessoas estarem em contacto consigo e com os outros, para experimentarem outras formas na relação com os outros. Quando estou a ter um ensaio de música, de teatro ou de dança, tenho oportunidade de criar situações que me permitem reformular as minhas visões de vida, perceber que posso funcionar de outra maneira.”

Não quer romantizar. Não diz que a arte salva. “Não vai resolver o problema do emprego, a percepção negativa que muitas vezes se tem sobre quem esteve preso.” Pode, sim, “preparar, fortalecer estas pessoas para estarem nessas situações com consciência de si mesmas e dos seus direitos”.

Nos vários projectos que desenvolveu em prisões, Hugo Cruz viu pessoas que não iam à escola passar a fazê-lo. “Também se trabalha uma segurança. A pessoa começa a perceber que pode ocupar esse espaço. Muitas vezes, não o fazia, não por preguiça, por toda a vida achar que aquele espaço não é para si.”

Refizera a vida. Um mês depois de sair da prisão reencontrara Sara, com quem tivera um curto envolvimento na adolescência. Ela tinha quatro filhos – dois pequenos e dois adolescentes. “Foi mãe muito cedo. Sempre criou os filhos sozinha. Sempre trabalhou. Os filhos têm uma educação tremenda. Também me apaixonei por ela por isso.” Ao fim de dois meses, estavam a viver juntos. “Os miúdos foram crescendo a ver-me como pai deles e eu a vê-los como meus filhos. Para mim, são meus filhos. Fomos crescendo como família.”

Nunca pôs o passado atrás das costas. Foi fazendo voluntariado na Pastoral Penitenciária, da Igreja Católica em Portugal. Às vezes, pais de jovens consumidores de drogas pedem-lhe ajuda. “Miúdos de 16 anos têm de ser desmontados. Estão a viver o melhor da droga. Depois vem o resto – as mentiras, os roubos, a desgraça.” Confronta-os com um futuro hipotético que reflecte o seu passado.

Já em 2019, a PELE tornou a desafia-lo para um novo projecto, o Laboratório de arte e cidadania. Ia voltar a trabalhar com jovens nas prisões e experimentar trabalhar com jovens em centros educativos, com enfoque naqueles com percursos de insucesso e abandono escolar, uma vez mais, tendo em vista a empregabilidade. Veio a pandemia de covid-19. “A gente tenta através do Zoom fazer reuniões e chegar a eles lá dentro, mas não é igual nem para lá caminha.”

Um sonho maior

Tinha assumido a exploração de um café perto de casa, em Galegos, Penafiel. Enquanto ali está, a servir quem chega, Abel vai pensado noutra hipótese. “O meu sonho é ter uma casa para ajudar quem sai da prisão e não tem suporte. Quem não tem um pai, uma mãe, um irmão, alguém que lhe deite a mão, volta para o crime e para a droga.”

Planeia criar uma associação e recorrer a dinheiros públicos. Tem uma quinta que, para já, é só um grande terreno e uma casa em ruínas. “Vou montar uma comunidade terapêutica de auto-sustento.” As terapias ocupacionais vão incluir plantar batatas, feijão ou cenouras e cuidar de galinhas, coelhos ou porcos. Serão parte de programa de busca de harmonia entre trabalho, autocuidado, lazer e descanso. “Com as terapias, vão descobrir em que são bons.”

Aos 48 anos, está confiante que descobriu em que é bom. “O meu nome já chegou a muita gente. Há famílias que me têm pedido ajuda e eu tenho ajudado. Já falei em colóquios de toda a maneira e feitio. Isto dá alento.” Mas a comunidade é o futuro. O presente é a pandemia. “Neste momento, já ponderámos fechar o café. Primeiro que se sobreviva, é terrível. Já ganhámos dinheiro como este café, mas agora não. Tem dado para as despesas. Quando não der para as despesas, fechamos a porta. Não vale a pena.”

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens apoiadas, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.