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12.1.22

Porto: sala de consumo assistido já tem gestão e abre em março

 André Manuel Correia, in Expresso

O investimento da Câmara Municipal do Porto ronda os 650 mil euros. A sala de consumo vigiado amovível vai ser instalada junto ao Bairro Novo da Pasteleira

A Câmara do Porto vai mesmo avançar com a criação de uma sala de consumo vigiado amovível. O espaço vai ser montado junto ao Bairro Novo da Pasteleira, na rua 25 de Julho, e o investimento total do município irá rondar os 650 mil euros. A abertura está prevista já para o mês de março.

Em reunião privada realizada esta segunda-feira, o executivo liderado por Rui Moreira atribuiu, por unanimidade, a gestão do projeto ao consórcio “Um Porto Seguro”, liderado pela APDES – Agência Piaget para o Desenvolvimento. Esta entidade vai receber 270 mil euros para a operacionalização do equipamento durante um ano, a título experimental.

O programa de consumo vigiado resulta de um protocolo entre a Câmara Municipal do Porto, a ARS Norte, o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) e o Instituto de Segurança Social, refere a autarquia em comunicado.

Durante a reunião, Rui Moreira frisou que esta “não é uma sala de consumo assistido da Câmara do Porto”. Também a vereadora Cristina Pimentel, com o pelouro da Ação Social, reforçou que “não é o município que define a abordagem” nem tampouco o caderno de encargos. “Nesta matéria não temos sequer competência técnica, essa é da Administração Regional de Saúde do Norte e do SICAD”, esclareceu.

O programa de consumo vigiado será monitorizado e avaliado trimestralmente por uma Comissão de Implementação, Acompanhamento e Avaliação composta por elementos da autarquia, SICAD, ARS Norte, Centro Distrital do Porto da Segurança Social e ainda por um representante do consórcio responsável pela gestão do espaço.

30.8.21

“Se tivermos cem pessoas aqui por dia, são cem momentos em que não estão na rua”

Cristiana Faria Moreira (Texto) e Daniel Rocha (Fotografia), in Público on-line

Primeira sala de consumo vigiado fixa abriu há três meses em Lisboa, duas décadas depois de a lei passar a prever este tipo de instalações. O processo foi moroso, mas a adesão tem sido “bastante significativa” e superado as expectativas, reconhecem os técnicos. “Queremos muito que esta sala seja uma referência para quem precisa.”

Primeira sala de consumo vigiado fixa abriu há três meses em Lisboa, duas décadas depois de a lei passar a prever este tipo de instalações. O processo foi moroso, mas a adesão tem sido “bastante significativa” e superado as expectativas, reconhecem os técnicos. “Queremos muito que esta sala seja uma referência para quem precisa.”

A V. o espaço já não lhe é estranho. Afinal, por ali passa todos os dias pelo menos três vezes – “às vezes mais” – sempre que sente necessidade de consumir. Acabara de sair da sala das drogas injectáveis, uma das vias que apresenta maior risco de overdose, mas também de propagação de doenças infecciosas, sobretudo se houver partilha de seringas e de outros materiais. Estamos na Quinta do Loureiro, dentro do bairro municipal construído depois da demolição das barracas da colina do antigo Casal Ventoso. É um local onde se convive com a droga há largas décadas e, por isso mesmo, lugar óbvio para a instalação da primeira sala de consumo vigiado fixa do país, vulgarmente conhecida por sala de chuto.

Aberta há pouco mais de três meses, por ali há duas palavras de ordem: reduzir danos. Como? Com a distribuição de material asséptico para evitar a transmissão de doenças. Com consumos supervisionados por um profissional de saúde, pronto a intervir em caso de necessidade, pronto a evitar uma overdose e a salvar uma vida. São essas condições e o acolhimento sem julgamentos que fazem V. regressar. “Sinto-me muito seguro e muito confortável aqui. Melhor do que na rua. E além da segurança o mais importante é a higiene”, diz o homem de 47 anos, que pediu para não ser identificado.

Estas salas de consumo “são habitualmente instaladas nas zonas onde se vende e onde se consome”, contextualiza o psicólogo Hugo Faria, um dos técnicos da associação Ares do Pinhal – que gere o equipamento e acompanha os utentes. Na verdade, algumas das áreas que hoje pisamos eram já antes salas de consumo a céu aberto, rodeadas de seringas e lixo. “Isto era tudo aberto e o pessoal metia-se todo aqui. Muita gente consumia aqui todos os dias”, recorda V.

Talvez isso justifique a adesão que a sala tem tido, apenas três meses após a sua abertura, a 18 de Maio: 566 pessoas inscritas, cerca de 100 utilizadores diários. “É uma peça que encaixou [no local]”, diz o psicólogo.
Um espaço seguro

Mal se passam as portas do Serviço de Apoio Integrado — assim é a designação oficial —, há um espaço, o Café Conforto, com mesas e cadeiras onde se pode ver televisão, tomar um café, fazer as refeições e deixar os animais de companhia. Há também balneários, serviço de lavandaria, áreas para atendimento psicossocial, consultas de clínica geral e rastreios de doenças infecto-contagiosas, assim como para procedimentos simples de enfermagem, como trocar pensos.

O trabalho começa precisamente por garantir que estas pessoas têm acesso ao que é mais básico. “Há utentes que nos dizem que como estão com a higiene mais cuidada, têm um melhor aspecto e já são olhados de outra forma. Apesar do pouco tempo de trabalho, algumas coisas já se começam a reflectir”, nota a psicóloga Roberta Reis, que faz parte desta equipa de 12 profissionais, na qual há psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e um clínico geral, que acompanham os utentes.

Quando os técnicos falam nestes 100 utilizadores diários, referem-se apenas àqueles que ali vão consumir. De fora dessas contas ficam os que passam apenas tomar um banho, lavar a roupa ou então procurar um sítio mais digno para fazer as suas refeições. “Alguns utilizam as salas várias vezes por dia. Temos pessoas que trabalham e que vêem aqui um espaço para fazer o seu consumo a meio do dia porque estão mais seguros em relação à confidencialidade e porque no consumo feito na rua pode acontecer tudo”, observa Hugo Faria.

Pelo que os técnicos vão percebendo, quem ali aparece são pessoas que já andavam naquela zona, o que reforça uma conclusão já retirada de outros exemplos de salas pela Europa: “As pessoas não se deslocam para ir à sala de consumo. As pessoas deslocam-se pela substância.” Daí a necessidade de estes espaços se localizarem próximos de locais de venda e consumo.

Sempre que chega um novo utilizador, a equipa tenta recolher os dados básicos de cada utente: nome, data de nascimento, nacionalidade, se tem ou não abrigo e qual a via de consumo que utiliza. Nem sempre conseguem, porque há utentes que não estão para grandes conversas. Nestes três meses de actividade, a média de idades dos consumidores rondou os 44 anos. Cerca de 85% são homens e 32% estão em situação de sem-abrigo. “Há uma parcela muito grande que está com abrigo, mas numa situação de muita vulnerabilidade”, observa Roberta Reis.

Alguns consomem há mais de 20 anos; outros começaram recentemente. A maioria, 72%, consome drogas fumadas —o restante por via injectada —, um sinal que “reflecte o trabalho que foi feito ao longo nos últimos 20 anos pelas equipas na redução de danos, de educação para a prática de consumo mais seguro”, considera o psicólogo Hugo Faria.

Constante negociação

Vão entrando e saindo vários utentes. Os técnicos já lhes sabem os nomes. Sempre que chega alguém para consumir, comunicam entre si por walkie-talkies para perceber se há lugar nas salas. Lá dentro, há dois espaços dedicados ao consumo: um destinado aos utentes que o fazem por via injectável e outro por via fumada.

Quando acedem à sala de consumo, o enfermeiro faz-lhe algumas perguntas: que droga vai usar, o que consumiu nas últimas 24 horas, que medicação toma, se integra o programa da metadona. Informação essencial para saberem como actuar numa situação de emergência. O material, como seringas, pratas e cachimbos, dependendo do tipo de consumo, é distribuído. As misturas são feitas ali e não podem vir preparadas.

O enfermeiro Samuel Areias está ali para o que der e vier. Primeiro, “para garantir que fazem um consumo de maneira asséptica, evitando que estejam no meio da rua a preparar, que apanhem uma carica do chão para preparar a dose ali”. Depois, para visualizar o consumo sempre que é feito em zonas onde o risco seja maior. “Muitas das vezes fazem consumos em grandes veias, na jugular e na femoral. Temos de estar a visualizar. Qualquer coisa que aconteça estamos aqui.”

Ao pé de si tem um carrinho de emergência a que espera nunca ter de recorrer. Os utentes têm 30 minutos para fazerem o seu consumo injectado e 40 minutos no caso de ser fumado. Depois, mais 20 minutos de “recobro”. “Aqui estão seguros. Sentem-se tranquilos. Muitas vezes até ficam mais do que o tempo [previsto]”, diz o enfermeiro, que trabalha também na urgência de um hospital da capital.

Sala de consumo vigiado vai também avançar no Porto

Após um longo debate, também no Porto vai avançar um serviço semelhante. Será uma estrutura amovível com dez postos para consumo fumado e injectado, que se localizará na zona ocidental da cidade, próxima ao Bairro Novo da Pasteleira, zona da cidade onde se convive com a droga há décadas.

Esta sala estará em funcionamento dez horas por dia, toda a semana, e será financiada pela Câmara do Porto (CMP) na fase piloto com 650 mil euros, verba que cobrirá a disponibilização e operacionalização do espaço.

Ao PÚBLICO, a Câmara do Porto explica que o prazo de entrega de candidaturas para a gestão da unidade decorreu até ao dia 30 de Julho, estando por isso ainda a ser analisadas. "Logo que haja a respectiva decisão do júri o processo terá que ser submetido para aprovação pelo executivo, bem como a celebração do contrato de financiamento com a entidade seleccionada, que definirá o prazo máximo de início de funcionamento após a assinatura do respectivo contrato", diz ainda a autarquia.

A ideia é que, após uma fase piloto, seja criada uma nova resposta: uma sala de consumo móvel que permitirá chegar a utilizadores de drogas de outras zonas da cidade, incluindo a oriental.

Apesar dos casos difíceis que lhe chegam às mãos todos os dias, ele confessa que chegou a duvidar se teria “estômago” para isto no meio de toda a complexidade que o consumo de droga tem. “Este é um trabalho que não é para toda a gente. É um bocadinho fora da caixa. Estamos a ver uma coisa que dizemos para eles não fazerem. Há muita gente que não consegue perceber o outro lado.”

Por ali, essa é a missão constante: apoiar mais do que julgar. “Negociar constantemente”, como dizem os psicólogos. “Houve um utente que disse que queria consumir até morrer. E isso é difícil. Rapidamente temos de falar. Não há regras. É gerir. É fazer na altura”, recorda Hugo Faria.
Uma espera de 20 anos

A primeira sala de consumo vigiado abriu em Junho de 1986 em Berna, na Suíça. Nos anos seguintes, foram criadas instalações do mesmo tipo na Alemanha, nos Países Baixos, em Espanha, na Noruega, no Luxemburgo, na Dinamarca, na Grécia e em França. Em 2018, segundo dados do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, encontravam-se em funcionamento 31 salas nos Países Baixos, 24 na Alemanha, 13 em Espanha, 12 na Suíça, cinco na Dinamarca, duas na Noruega, duas em França e uma no Luxemburgo.

Em Portugal, estão previstas na pioneira lei de 2001, que regulamentou as políticas de redução de danos associados ao consumo de substâncias ilícitas. No entanto, só em Abril de 2018, pela mão do então vereador da Câmara de Lisboa, Ricardo Robles (BE), chegou o anúncio da abertura destes equipamentos. E só agora se concretizou a abertura da primeira sala fixa, embora já desde meados de 2019 haja uma carrinha — uma sala móvel — que percorre zonas como Arroios, Beato e Bairro Portugal Novo, onde é possível fazer um consumo injectável supervisionado por profissionais de saúde.

Paulo S. conhece bem uma sala em França em que a área para os consumidores de substâncias fumadas é “muito grande”, tal como a de Lisboa deveria ser, repara o utente. “O pessoal é cinco estrelas. O processo está muito bem organizado. Só o espaço é que é pequeno para os consumidores que fumam. Deveria ser maior. Há muito mais gente para o consumo fumado”, diz o homem de 49 anos, desde 2007 preso à droga, depois de ter perdido a mulher e um filho e a vida se ter tornado demasiado insuportável.

Quando se lhe pergunta por que razão começou a consumir, ele responde com uma honestidade desarmante: “Foi por falta de ocupação. Eu nem gostava. Sinceramente, era falta de ocupação. Principalmente à noite, sozinho.” Depois, tornou-se uma necessidade.

Paulo viajou sempre muito, trabalhando aqui e ali. Nos últimos quatro, cinco anos tem estado sem casa. Prefere isso aos albergues, onde se sente como se estivesse “a cumprir uma pena”. Com a pandemia acabou por recorrer aos centros de alojamento temporários da câmara. Nos últimos meses, tem estado na Pousada da Juventude do Parque das Nações, à espera de um quarto no projecto Housing First.

Estamos muito felizes de poder ter um espaço digno para esta população, em que as pessoas são tratadas com respeito, em que são olhadas Roberta Reis, psicóloga

Dar dignidade

Grande parte da adesão ao projecto justifica-se pelo trabalho feito pela equipa comunitária que anda nas ruas e que foi dando a conhecer aos consumidores que teriam um espaço para consumir em segurança, acredita a psicóloga Roberta Reis. “O trabalho passou por criar uma relação com as pessoas, criar uma relação de confiança. Começamos a convidar as pessoas para virem conhecer o espaço antes de consumirem. Havia muita curiosidade em saber como seria aqui dentro, se seriam muito controlados.”

Apesar da intervenção “sólida”, o programa é ainda muito novo e há muito trabalho que precisa de ser feito, em particular no maior conhecimento desta população, reconhecem os técnicos.

​Por agora, a ideia é continuar a devolver a humanidade que alguns consumidores acabam por perder ao longo da vida. “É muito interessante ver como a auto-estima das pessoas muda quando elas começam a olhar e a cuidar de si. É a partir daí que elas começam a querer mais e a buscar mais”, diz Roberta Reis, que recorda um utente que há dois anos não tomava um banho. “Nós comemoramos as pequenas vitórias diárias. Para nós isso foi uma conquista.”

Ali trabalham, como havia de resumir a psicóloga, “com aquilo que a pessoa quer e está capaz naquele momento”. Fazem ligação aos apoios da Santa Casa da Misericórdia, ao Programa de Metadona, aos serviços de tratamento. Há dois utentes que irão em breve começar numa comunidade terapêutica.

“A redução de danos é muitas vezes olhada como uma área em que se exige pouco das pessoas. Nós não concordamos minimamente com isso. O que tentamos fazer é aceitar a condição em que a pessoa está. Partimos daí e depois vamos fazendo o caminho. Não desistimos”, acrescenta Hugo Faria. Mas o trabalho por ali é também uma constante gestão de problemas: “Passamos o dia inteiro a gerir conflitos, mas eles acontecem aqui dentro, deixam de acontecer na rua. O objectivo da sala é exactamente esse. Que a comunidade que está ali à volta ganhe em qualidade de vida. Porque vão sair de casa e não vão tropeçar em alguém que está a injectar à sua porta”, nota o psicólogo.

A redução de danos é muitas vezes olhada como uma área em que se exige pouco das pessoas. Não concordamos minimamente com isso. O que tentamos fazer é aceitar a condição em que a pessoa está. Partimos daí e depois vamos fazendo o caminho. Não desistimos Hugo Faria, psicólogo

Gerir esta sala até ao final do ano custará ao município “cerca de 350 mil euros, a maioria para o pagamento dos recursos humanos” e para os equipamentos e materiais necessários à actividade, diz o vereador dos Direitos Sociais da Câmara de Lisboa, Manuel Grilo. O sucesso máximo de uma sala de consumo será sempre o seu fecho, porque significaria que tinha deixado de ser necessária. No entanto, até esse momento — se alguma vez chegar — muito haverá a fazer.

“Estamos muito felizes de poder ter um espaço digno para esta população, em que as pessoas são tratadas com respeito, em que são olhadas. Queremos muito que esta sala seja uma referência para quem precisa”, conclui a psicóloga. Para Hugo Faria depressa fazer as contas que importam: “Se tivermos 100 pessoas aqui por dia, são 100 momentos em que não estão na rua.” Menos seringas e cachimbos que ficarão no chão, menos vidas que estarão em risco. Esses serão os pequenos sucessos do dia-a-dia.

Câmara está a fazer novo diagnóstico no Lumiar e admite nova localização

Nos planos da autarquia está ainda a construção de uma nova sala de consumo vigiado no Lumiar, próxima ao Bairro da Cruz Vermelha - que está actualmente em processo de realojamento - e que tem sido muito contestada pela população local. A preparação dos terrenos ainda arrancou em Junho do ano passado, mas a Associação de Moradores do Bairro da Cruz Vermelha avançou com uma providência cautelar, ainda a decorrer na justiça, diz ao PÚBLICO o vereador Manuel Grilo.

A associação argumenta que a nova sala ficará próxima de escolas, creches e edifícios residenciais e que porá em causa o sossego da zona. Isso mesmo alega também o PSD Lumiar, tendo avançando, em Setembro passado, com uma queixa à Procuradora-Geral da República e à Provedora de Justiça por considerar que aquele local não cumpre a legislação que enquadra estes equipamentos.

Com as obras paradas, Manuel Grilo adianta que está a ser feito um novo diagnóstico aos utilizadores de droga a céu aberto daquela zona para perceber se de facto aquele local ainda apresenta níveis de consumo que justifiquem a instalação da sala. Enquanto aguarda uma decisão do tribunal e as conclusões desse novo diagnóstico, o município está a estudar outras possíveis localizações para a sala de consumo vigiado, adianta ainda o autarca.


8.7.21

Porto terá sala de consumo de drogas em Setembro, na zona de Serralves

in Público on-line

Unidade móvel de consumo vigiado vai funcionar 10 horas por dia, sete dias por semana, na “Viela dos Mortos”.

A Câmara do Porto indicou esta quarta-feira que a sala de consumo vigiado de drogas, cujo protocolo foi assinado há quase um ano, vai ficar instalada na Viela dos Mortos, na zona de Serralves, devendo abrir portas em Setembro.

A informação, inicialmente avançada pelo Jornal de Notícias, foi confirmada à Lusa pela autarquia, que vota na reunião do executivo de segunda-feira a abertura de candidaturas para o Programa de Consumo Vigiado, que resultará na criação de um espaço para consumo vigiado amovível.

A proposta, a que a Lusa teve acesso, estabelece, cerca de um ano depois da assinatura do protocolo para a criação de Respostas de Consumo Vigiado no Porto, as condições de atribuição de financiamento do programa, ao qual poderão candidatar-se todas as pessoas colectivas privadas sem fins lucrativos, cuja finalidade estatutária inclua a luta contra a toxicodependência, e tenham intervenção geográfica na cidade do Porto.

A estrutura amovível do programa deverá funcionar dez horas por dia, sete dias por semana, em horário proposto e validado pela entidade gestora à Comissão de Implementação, Acompanhamento e Avaliação. De acordo com o anexo a que a Lusa teve acesso, a equipa deverá ser composta por profissionais em permanência, tais como enfermeiros (dois), técnicos psicossociais (um), educadores de pares (um), entre outros. A equipa será ainda reforçada com profissionais a tempo parcial nomeadamente por um psicólogo (sete horas por semana), um assistente social (sete horas por semana) e um médico (sete horas por semana).

A execução do programa terá a duração de um ano, a título experimental, a que se seguirá uma segunda fase, com a duração de dois anos, caso a avaliação da fase experimental seja favorável. De acordo com os documentos consultados pela Lusa, o limite máximo do financiamento público assegurado pela Câmara do Porto para a execução do programa pelo período de um ano, a título experimental, é de 270 mil euros.

O espaço, que se dirige a utilizadores de substâncias psicoactivas ilícitas, por via injectada e/ou fumada, contará, contudo, com o apoio da Câmara do Porto no montante global de 650 mil euros. O Programa de Consumo Vigiado do Município do Porto resulta da cooperação entre várias entidades, na sequência do protocolo assinado em 2020 para a criação de respostas deste tipo na cidade, assinala a Câmara do Porto na nota publicada esta quarta-feira.

Esse documento, subscrito pela Câmara do Porto, pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), pela Administração Regional de Saúde do Norte (ARS Norte) e pela Segurança Social, prevê numa primeira fase a implementação de um espaço de consumo vigiado amovível e numa segunda fase um espaço de consumo vigiado móvel.

A operacionalização do protocolo cabe a uma Comissão de Implementação, Acompanhamento e Avaliação, composta por elementos das entidades envolvidas.

No dia 14 de Junho, a Câmara do Porto já tinha avançado que ia trazer “em breve”, a reunião do executivo, o aviso de abertura de procedimento para seleccionar a entidade que vai operar a unidade móvel de consumo vigiado de droga no concelho.

O esclarecimento foi prestado pelo vereador da Habitação e Coesão Social, Fernando Paulo, em resposta ao pedido de esclarecimento da vereadora da CDU, Ilda Figueiredo, no período antes da ordem do dia da reunião do executivo desta manhã.

“Temos vindo a trabalhar desde o ano passado, esperamos muito brevemente trazer à câmara o aviso de abertura do procedimento para seleccionar a entidade que vai operar essa unidade móvel”, afirmou à data.

Em Julho de 2020, a Câmara do Porto aprovou, por maioria, com os votos a favor do grupo Rui Moreira: Porto, o Nosso Partido, do PS, da CDU e a abstenção do PSD, o Programa para Consumo Vigiado que pressupõe, numa primeira fase, como projecto-piloto, a disponibilização de uma unidade amovível, a ser complementado, numa segunda fase por um espaço móvel com um veículo adaptado.

O protocolo foi assinado pelas entidades envolvidas no final de Agosto de 2020.

28.12.20

Abel libertou-se das drogas na prisão e agora trabalha com quem lá está

Ana Cristina Pereira (Texto) e Adriano Miranda (Fotos), in Público on-line

Entrou a ressacar. Passou pelo Programa de Apoio ao Recluso Entrado Toxicodependente e pela Unidade Livre de Drogas. Cumpriu os passos. Fez teatro. Uma vez liberto, vai às prisões como voluntário e como mediador. O seu sonho é criar uma comunidade para quem sai da cadeia e não tem cá fora um familiar ou um amigo que lhe dê a mão.

Não é um discurso comum sobre a prisão, o de Abel Sousa. “Bendita a hora que fui preso. Se não tivesse sido preso, se calhar não estava aqui hoje. Ainda fui a tempo de me lembrar da educação que tive. O mundo das drogas podia ter-me flipado todos os neurónios. Eu podia ter ficado sem capacidade para dar a volta.”

Usando a terminologia do criminologista Cândido Agra, não era um delinquente-toxicodependente, mas um toxicodependente-delinquente, com família mais estruturada, a cometer crimes para consumir. “Eu tive uma infância espectacular. Nunca me faltou nada.” Tão-pouco na adolescência. Tinha a família, os amigos, a namorada, a ambição do futebol profissional. “Estava no Boavista com pré-acordo para o Sporting. Achava que o futebol me ia dar tudo.” De súbito, uma grave lesão num joelho, três cirurgias. “Vi o meu sonho cair por terra.”

Tentava convencer-se de que não era o fim do mundo, que podia trabalhar com o pai da rapariga com quem namorava desde os doze anos, ali, em Penafiel. “Fui caço com a melhor amiga dela. Estava a dois meses de me casar. Tinha 19 anos.” Que fazer? “Sempre fui um baldas nos estudos.” Tinha de pensar. “Isolei-me no Algarve e, numa noite, muito bêbado, experimentei heroína.”

Volvidos quase 30 anos, já lhe custa explicar o que sentiu naquela primeira vez. “É o paraíso. A heroína abafa os problemas. Dentro do efeito, a vida há-de continuar.” A partir dali, andou “atrás daquela primeira sensação”, sem jamais a reencontrar. Num instante, o corpo a pedir mais, a ressaca, a urgência de calar.

A degradação progressiva

No princípio, ainda conseguia esconder. Pouco a pouco, a família percebeu. “É mentiras. É dormir fora de casa. É eles a andar atrás de mim.” Os pais tentavam libertá-lo. E ele acedia. Sujeitava-se a desintoxicações. Ficava meses em comunidades terapêuticas. “Aguentava-me um ano, dois, recaia. Um ano, dois, recaia.”

No topo da lista dos episódios de que se arrepende está o roubo do cartão dourado do pai. “Tinha 23 ou 24 anos, gastei doze ou treze mil contos em nove ou dez dias com drogas, hotéis, restaurantes, carros.” Comove-se ao falar no pai. “Sempre fez tudo por mim.” Não vacilou nem quando, cancelado o cartão, a polícia apanhou o filho a tentar pedir um cheque em seu nome. “Quando cheguei a casa, deu-me um abraço e teve um ataque de miocárdio. Foi do choque. Peguei nele e levei-o para o hospital. Estava desesperado. Pus-me a dizer que, se ele não sobrevivesse, matava os médicos todos.”

Aquela aflição não o fez mudar de vida, pelo contrário. Enterrou-se ainda mais, apesar de todos os apelos dos pais e dos irmãos. “Eu nunca fui abandonado por eles. Eu é que senti que tinha de os abandonar porque estava a fazê-los sofrer demasiado. Se me queria matar, matava-me sozinho.”

Já não era só a heroína. Metera-se na base de cocaína. “Vivia no mundo da droga. Dormia ao relento, nos carros.” Só ia a casa de meses a meses, cada vez mais magro, mais desdentado, mais maltrapilho. “Tive de começar a roubar, a entrar em esquemas, a fazer transporte de droga.” Pouco antes de morrer, o pai ainda lhe disse: “Esperei ver-te recuperado, mas, neste momento, o que vejo à minha frente não é o meu filho, é um cadáver ambulante.”

Mais de 400 processos

Quando o levaram para a prisão, contava 36 anos. “Fiquei muito tempo na cadeia porque tinha muita coisa para responder. Mais de 400 processos.” Quase tudo por furtar em supermercados e por atestar o depósito e não pagar. “Fui muitas vezes caço nesses anos todos. Era detido. Ia à polícia. Isto ia acumulando.”

Havia de ficar encarcerado quatro anos e nove meses. No início, revolta. “Entrei a ressacar. Meu Deus!” Um ano antes, em 2007, o Estabelecimento Prisional do Porto criara o programa Observação (OBS), entretanto renomeado Programa de Apoio ao Recluso Entrado Toxicodependente. Naquele lugar, fazem a desabituação física das ditas drogas de abuso e a recuperação psicológica.

Abel pouco tem a dizer sobre o primeiro mês. “É só mediação. É voltar a raciocinar.” Ficavam naquele espaço 22 horas por dia, só dispunham de duas horas de recreio a céu aberto e de uma visita semanal. Ao fim de um a três meses, os reclusos podem passar às áreas comuns. Abel preferiu ficar até abrir vaga na unidade livre de drogas (ULD), opção que existe em poucas cadeias. “Senti que já chegava, que tinha de dar um rumo à minha vida. Nos pavilhões, droga é porta sim, porta não. Quem não cai na tentação?”

Este segundo programa combina actividades educativas, ocupacionais e terapêuticas. “Na ULD foi um crescer. Estamos presos, mas, ao mesmo tempo, acabamos por nos conseguir libertar. As terapias, as regras, a vigilância, o controlo, tudo tem um objectivo.” Foi ultrapassando as várias etapas: novo membro, membro responsável, velho membro, responsável de unidade, mentor. Não diz que foi fácil. Ao fim-de-semana, os técnicos não trabalhavam. E Abel, enquanto responsável de unidade, insistia nas terapias de grupo. “Alguns não queriam.” “Podias dar uma folga”, diziam-lhe. “Ouve lá, tu ao sábado, drogavas-te, ao domingo drogavas-te, aos feriados drogavas-te. Não vai haver reunião porque queres dormir mais um bocado? Não! Comigo isso não funciona!”

No seu caminho de toxicodependente em recuperação, ajudou trabalhar num projecto da PELE – Espaço de Contacto Social e Cultural. Entrou no espectáculo Entrado (2009/2010). Foram nove meses num exercício de autoconhecimento e expressão, sentido ético e artístico. O público foi desafiado a entrar na prisão e a fazer um percurso, confrontando-se com percepções e vivências daquele lugar, culpa e perdão. Que orgulho em cada um dos dias de espectáculo, que levou 200 pessoas por noite à prisão. “Foi mais um desafio superado.”

Abel sentiu-se ligado ao director artístico, Hugo Cruz, à adjunta, Maria João Mota, ao director musical, Artur Carvalho. “São pessoas que nos transmitiram que conseguimos.” Um dia depois de sair da prisão, em Agosto de 2012, estava a ligar a Hugo Cruz. “Tenho trabalho para ti em Setembro”, disse-lhe. Era o Mexe – Encontro Internacional de Artes e Comunidade. Ia carregar material e ajudar a montá-lo. Desde então, a PELE chama-o. “Foram eles os primeiros. Ganhar algum dinheiro quando saí da cadeia foi com a PELE.” Trabalhos pontuais, já se vê. “Não era um sustento viável”.

Tinha de arranjar algo mais consistente. “Pedi a um primo que trabalhava em ar condicionado. Ele estava com um pé atrás – as minhas passagens pelos negócios da família tinham sido sempre drásticas, havia recaídas, roubos e afins –, mas ele acreditou em mim. Trabalhei com ele três ou quatro anos.”

O regresso à prisão

Agarrou a oportunidade de voltar à prisão, noutros moldes, os que idealizava. Em 2014-2016, a PELE desenvolveu o Ecoar – Empregabilidade, Competências e Arte em quatro estabelecimentos prisionais. Abel assumiu o papel de mediador. “O recluso estranha quem chega. Eu podia dar a minha experiência. Saber que estava ali alguém que foi igual a eles era meio caminho andado para a confiança, facilitava o trabalho do mundo artístico.”

A ideia era orientar a criação artística para a aquisição de competências de empregabilidade. E aquilo fazia-lhe sentido. “Reaprender a trabalhar em equipa, a estar próximo do outro, a saber ouvir o outro, a olhar para o outro, a ver qualidades no outro: ‘Não és só um ladrão, também sabes ser humilde, ter uma conversa franca.’ Foi isso que o teatro me deu.”

Falando sobre prática artística em meio prisional, Hugo Cruz diz o mesmo: “O que a criação artística traz é, muitas vezes, um espaço para as pessoas estarem em contacto consigo e com os outros, para experimentarem outras formas na relação com os outros. Quando estou a ter um ensaio de música, de teatro ou de dança, tenho oportunidade de criar situações que me permitem reformular as minhas visões de vida, perceber que posso funcionar de outra maneira.”

Não quer romantizar. Não diz que a arte salva. “Não vai resolver o problema do emprego, a percepção negativa que muitas vezes se tem sobre quem esteve preso.” Pode, sim, “preparar, fortalecer estas pessoas para estarem nessas situações com consciência de si mesmas e dos seus direitos”.

Nos vários projectos que desenvolveu em prisões, Hugo Cruz viu pessoas que não iam à escola passar a fazê-lo. “Também se trabalha uma segurança. A pessoa começa a perceber que pode ocupar esse espaço. Muitas vezes, não o fazia, não por preguiça, por toda a vida achar que aquele espaço não é para si.”

Refizera a vida. Um mês depois de sair da prisão reencontrara Sara, com quem tivera um curto envolvimento na adolescência. Ela tinha quatro filhos – dois pequenos e dois adolescentes. “Foi mãe muito cedo. Sempre criou os filhos sozinha. Sempre trabalhou. Os filhos têm uma educação tremenda. Também me apaixonei por ela por isso.” Ao fim de dois meses, estavam a viver juntos. “Os miúdos foram crescendo a ver-me como pai deles e eu a vê-los como meus filhos. Para mim, são meus filhos. Fomos crescendo como família.”

Nunca pôs o passado atrás das costas. Foi fazendo voluntariado na Pastoral Penitenciária, da Igreja Católica em Portugal. Às vezes, pais de jovens consumidores de drogas pedem-lhe ajuda. “Miúdos de 16 anos têm de ser desmontados. Estão a viver o melhor da droga. Depois vem o resto – as mentiras, os roubos, a desgraça.” Confronta-os com um futuro hipotético que reflecte o seu passado.

Já em 2019, a PELE tornou a desafia-lo para um novo projecto, o Laboratório de arte e cidadania. Ia voltar a trabalhar com jovens nas prisões e experimentar trabalhar com jovens em centros educativos, com enfoque naqueles com percursos de insucesso e abandono escolar, uma vez mais, tendo em vista a empregabilidade. Veio a pandemia de covid-19. “A gente tenta através do Zoom fazer reuniões e chegar a eles lá dentro, mas não é igual nem para lá caminha.”

Um sonho maior

Tinha assumido a exploração de um café perto de casa, em Galegos, Penafiel. Enquanto ali está, a servir quem chega, Abel vai pensado noutra hipótese. “O meu sonho é ter uma casa para ajudar quem sai da prisão e não tem suporte. Quem não tem um pai, uma mãe, um irmão, alguém que lhe deite a mão, volta para o crime e para a droga.”

Planeia criar uma associação e recorrer a dinheiros públicos. Tem uma quinta que, para já, é só um grande terreno e uma casa em ruínas. “Vou montar uma comunidade terapêutica de auto-sustento.” As terapias ocupacionais vão incluir plantar batatas, feijão ou cenouras e cuidar de galinhas, coelhos ou porcos. Serão parte de programa de busca de harmonia entre trabalho, autocuidado, lazer e descanso. “Com as terapias, vão descobrir em que são bons.”

Aos 48 anos, está confiante que descobriu em que é bom. “O meu nome já chegou a muita gente. Há famílias que me têm pedido ajuda e eu tenho ajudado. Já falei em colóquios de toda a maneira e feitio. Isto dá alento.” Mas a comunidade é o futuro. O presente é a pandemia. “Neste momento, já ponderámos fechar o café. Primeiro que se sobreviva, é terrível. Já ganhámos dinheiro como este café, mas agora não. Tem dado para as despesas. Quando não der para as despesas, fechamos a porta. Não vale a pena.”

O programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e o IEFP, tem como objectivo fomentar o emprego para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nesta série de seis reportagens apoiadas, o PÚBLICO apresenta um conjunto de retratos representativos dos diversos grupos-alvo da iniciativa. As reportagens são guiadas por critérios editoriais, sem qualquer relação directa com os apoios atribuídos pelo programa.

7.12.20

​"Extinção do Instituto da Droga e Toxicodependência foi um erro político que está por corrigir”

Liliana Corona, in RR

“Todos os anos são dadas datas”, afirma o responsável do CRI – Centro de Respostas Integradas da Guarda, que reivindica um serviço mais ágil, desde a extinção do Instituto da Droga e Toxicodependência, em 2011, e integração nas Administrações Regionais de Saúde. Numa altura de pandemia, em que os adictos podem recair e com o aumento do consumo de álcool, há consultas descentralizadas que estão em risco, porque não há viatura própria. As deslocações são feitas no carro do psicólogo clínico, coordenador daquele espaço.

Luís Ramos, 47 anos, tem um quiosque de artesanato, ali mesmo ao lado do Centro de Respostas Integradas (CRI) da Guarda. “Eles estarem aqui nunca me incomodou, nem incomoda”.

No coração da cidade, com vistas para a Sé Catedral, ‘eles’ entram e saem do espaço que há mais de duas dezenas de anos alberga o CRI, uma estrutura do Ministério da Saúde integrada numa rede de serviços pertencentes à Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, após a extinção do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT).

O serviço tem duas vertentes de intervenção, a comunitária, onde se enquadra a prevenção, a supervisão de projetos e formação; e uma segunda área de intervenção, que é ligada ao tratamento e à prestação de cuidados globais de utentes e suas famílias, com comportamentos aditivos e dependências. Cuidados que englobam uma equipa multidisciplinar com técnicos de serviço social, psicólogos, enfermeiros, médicos, pessoal auxiliar e administrativo.



“Cada ARS faz o que entender. A capacidade de resposta varia”

Rui Correia, 52 anos, psicólogo clínico é o coordenador do CRI da Guarda, há 25 anos, desde a data de abertura a 12 de setembro de 1995 (na altura chamava-se CAT, Centro de Atendimento a Toxicodependentes).

“Olhamos para o problema das dependências e dos comportamentos aditivos como uma doença que requer uma abordagem multidisciplinar e numa vertente de não internamento, ou seja, ambulatório (vêm e vão). Quando é preciso internar alguém, recorremos a uma Unidade de Alcoologia e Unidade de Desabituação em Coimbra”, explica o responsável.

Rui Correia acrescenta que existem seis CRI na região Centro - Guarda, Castelo Branco, Viseu, Leiria, Coimbra e Aveiro - com as suas diversas extensões, como é o caso da consulta em Gouveia.

Um total de valências da alçada da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (DICAD), que surgiu após a extinção do IDT, em 2011, no governo liderado pelo então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

“Ano de má memória e que foi um erro político, já admitido pelos seus interventores e ainda não alteraram o rumo das coisas, um erro que ainda está por corrigir. Há uma dificuldade em alterar o que foi a desagregação do IDT, um serviço vertical com sede em Lisboa e que agregava cinco delegações regionais que tutelavam serviços de cariz local, como este”, refere, enfatizando que foi criada uma direção geral, o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), que “emana diretrizes e programas, mas não tem braços no terreno, porque os braços que eram as unidades locais foram integrados nas ARS, que são serviços muito grandes, com muitos problemas, têm muita coisa para tratar, é uma coisa pouco funcional.”

“Quando havia IDT, o modus operandi era o mesmo, agora não, cada ARS trabalha à sua maneira. Precisávamos de um edifício comum e não estar espartilhados em cinco edifícios e que todos nos víssemos e articulássemos com facilidade. Cada ARS faz o que entender, uns mais rápidos e outros mais lentos. A capacidade de resposta varia, por exemplo, um contrato numa ARS pode ser pago a X e noutra ARS a Y e orientações distintas, o que dificulta a tomada de decisões e relacionamento”, confidencia Rui Correia.

Com a nova designação do CRI, o serviço começou também a dar resposta às substâncias lícitas, como é o caso do álcool, “mas, em 1995, o inimigo número um era a droga, as imagens do Casal Ventoso entravam-nos todos os dias pela televisão. Mas tem havido uma alteração do panorama e têm entrado mais utentes com problemas de álcool. As substâncias lícitas têm vindo a adquirir uma maior preponderância”, argumenta o psicólogo clínico.

Além da vertente de apoio e tratamento do utente, o CRI destaca-se na promoção de projetos “financiados por receitas do Estado e que vêm dos jogos da Santa Casa da Misericórdia”, revela o responsável, adiantando alguns desses projetos.

“Temos vários projetos pioneiros a decorrer, dois deles na prisão da Guarda, outro na noite. Um deles é o projeto de prevenção do Estabelecimento Prisional da Guarda, sobre a literacia em saúde (a partilha de materiais de consumo e tatuagens) e outro visa capacitar as pessoas para o emprego num projeto de reinserção (como fazer um currículo, por exemplo). O outro projeto na noite é o projeto ‘Pit Stop’, intervir nos bares noturnos”.

“Há sempre diminuição de consultas quando se faz um confinamento”

Gouveia, segundo o psicólogo Rui Correia, foi “pioneira e tem sido um grande esforço. Naquela cidade existe, desde 1995, uma consulta descentralizada do CRI da Guarda, onde fazemos deslocar técnicos do CRI ao Centro de Saúde de Gouveia, numa articulação que é pioneira na região Centro do país e esta forma articulada evita que os utentes de Gouveia, Seia e Fornos de Algodres tenham de vir ao CRI da Guarda”, explica o coordenador.

No Centro de Saúde de Gouveia a consulta é feita em colaboração com técnicos do centro de saúde (duas médicas e dois enfermeiros) “e damos, desta forma, resposta de proximidade, pois os utentes têm acesso aos mesmos serviços, o acesso à metadona”, realça.

Em 2019, de um total de 6 mil consultas, 25% dos utentes que recorreram ao Centro de Respostas Integradas, com sede na Guarda, eram oriundos dos concelhos de Gouveia, Seia e Fornos de Algodres e têm consultas no Centro de Saúde de Gouveia.

Por causa da pandemia, as deslocações a Gouveia diminuíram: “íamos três vezes por mês e agora passamos a ir duas vezes por mês. Tem ido apenas um técnico ou dois e reafirmo o caráter pioneiro de Gouveia, não encontro em nenhum CRI da Região Centro uma consulta em que os técnicos se desloquem para cooperar com os técnicos do Centro de Saúde, e está em perigo, é uma consulta que está em risco”, adverte o psicólogo.

Mas por que motivo está em risco esta consulta? “Há uma efetiva redução do número de utentes pela reorganização do espaço e pela impossibilidade de levarmos mais pessoas no carro, que é a minha viatura, a viatura que uso para deslocar a minha família. A deslocação dos técnicos à consulta, sou eu que os levo na minha viatura particular”, conta Rui Correia.

“Já demos conta deste constrangimento. Já sugerimos à tutela, a opção de rent a car, mas foi vedada. Se saíssemos de Gouveia, havia uma perda objetiva para os utentes que teriam de se deslocar sempre à Guarda, e a rede de transportes públicos é muito deficitária. Tudo isto se evita se nós formos e temos ido em espírito de missão, porque não queríamos deixar cair a consulta, mas está em risco”, alerta.

Sobre a deslocação até Gouveia, o Estado paga o quilómetro a 36 cêntimos. O “psi” vai na sua viatura própria, “porque os constrangimentos na administração pública são tantos, que esta é a única solução na impossibilidade de ter viatura própria ou recorrer a serviço de rent a car.”

“Disponho do meu carro e da minha família para levar os técnicos e a alternativa era parar as consultas. Mas nunca fechámos e nunca deixámos de atender ninguém. Sempre garantimos o fornecimento de metadona a quem está a fazer o programa”, sublinha.

A dependência é uma doença com fortes recidivas e, em tempos de pandemia, "é provável que algumas pessoas tenham recaído. Havia processos terapêuticos que vinham a ser bem encaminhados, mas um despedimento, os projetos alterados, modifica a vida da pessoa”, conta o coordenador do CRI da Guarda.

“Há sempre diminuição de consultas quando se faz um lockdown ao país, aliás o número de consultas baixou. As pessoas ficaram assustadas com a covid-19, inclusivamente, havia um utente que não queria abrir a maçaneta da porta. Foram feitas algumas alterações (se antes tínhamos a equipa toda a trabalhar) agora temos metade e houve necessidade de diminuir a prestação de cuidados com o número de horas, reduzir a vinda dos utentes ao urgente, damos reforço de medicação para quem vinha semanalmente, mas não temos lista de espera.”
“É muito difícil lidar com o estigma”

No CRI da Guarda, algumas rotinas mudaram, nomeadamente o horário e a criação de um diferente “balcão de atendimento para evitar que as pessoas fossem ao gabinete de enfermagem”, mostra Rui Correia, clarificando que houve um encurtar do horário por causa do efeito da pandemia.

“Funcionamos das 9h30 às 18h00, ininterruptamente, mas antes fechávamos às 19h00. Estamos a espaçar mais as consultas, com a equipa a funcionar em espelho. Tentamos salvaguardar a prestação de cuidados, para que o serviço não feche. Somos 13 pessoas (um psicólogo, coordenador do serviço, mais duas psicólogas, duas técnicas de serviço social, dois médicos - duas vezes por semana-, dois enfermeiros, três administrativos e os auxiliares) sendo que duas dessas pessoas estão de baixa”, descreve.

A rotina no CRI da Guarda é preenchida com os cuidados de enfermagem, a prescrição médica, as consultas (com psicólogos e médicos), os telefonemas.

E quem chega ao CRI da Guarda, sabe que está no centro da cidade. “É um serviço exposto. Gostávamos de estar no Parque da Saúde, mas estarmos aqui contribui para uma certa normalização das coisas”, considera o psicólogo responsável.

Lá fora, ouvem-se vozes de crianças, algumas acompanham os pais, outras ficam à porta à espera. Saem cabisbaixo e apressados sem quererem dar voz. Os olhares de quem passa perturba? Para José (nome fictício), de 35 anos, que acaba de bater à porta do CRI, a resposta é afirmativa.

“É muito difícil lidar com o estigma, arranjar trabalho na sociedade, mas graças ao CRI levamos uma vida normal”, afirma o mecânico, que arranjou trabalho numa oficina há ano e meio.

“Este é um espaço que nos permite largar os maus hábitos e permite-nos levar a vida normal”, elogia.

Também Adelino Ribeiro, 39 anos, com quatro filhos, diz que: “é muito difícil ser eu, basta acompanhar com alguém já ando a traficar”, lamenta. Utente do CRI desde 2001, relembra que foi aos 17 anos que seguiu por um caminho que o levou a quatro detenções.

“Fui fraco na altura, perdi tempo nisto. Tinha 17 anos quando comecei a experimentar drogas duras”, afirma, ao mesmo tempo que enaltece o trabalho do CRI. “Estando numa cidade fronteiriça, onde existe facilidade em adquirir drogas, aqui tenho medicação e apoio psicológico há 20 anos, porque me ajuda. Falam connosco abertamente. Às vezes saio a sorrir. Se não fosse o CRI, os consumos de droga mantinham-me na prisão. Assumi que tenho um problema e assim ando mais ou menos controlado”, conclui.
Metadona para “mudar de vida”

Com o 12.º ano de escolaridade, Adelino Ribeiro dedicou-se à poesia, ao teatro e à música (baterista) durante o total de 12 anos e oito meses de prisão.

A última das quatro vezes, estava no Estabelecimento Prisional da Guarda, de onde saiu em maio de 2018, depois de quatro anos e oito meses ali detido. Hoje trabalha em campanhas de agricultura. “Faço campanhas no estrangeiro, por exemplo na altura das vindimas e ganho uma pipa de massa. Já estive em França, Alemanha, Luxemburgo”, relata.

Adelino reitera o apoio do CRI da Guarda. “Graças a estas consultas, aprendi que não quero mais voltar para lá (para a prisão). A metadona é como se fosse uma substituição da heroína, tranquiliza a pessoa e somos obrigados a cumprir um programa. Não é algo rápido, ainda faço o programa de metadona. São 20 anos aqui”, valoriza Adelino Ribeiro, para quem nunca é tarde para mudar de vida. “Não acho que seja tarde… sinto-me bem e faço o que gosto…”

Adelino Ribeiro aguarda que o enfermeiro especialista em saúde mental e psiquiatria, Luís Andrade, 40 anos, prepare a unidose de metadona com 60 miligramas.

“Conseguimos trabalhar com eles para ter uma melhor qualidade de vida. O tratamento através da medicação, nomeadamente com o programa de metadona faz com que os utentes tenham comportamentos muito melhores”, justifica.

A metadona é um opiáceo, uma substância derivada do ópio, que produz uma certa insensibilidade à dor, usada na dor crónica e dor aguda de elevada intensidade, que quando bem aplicada permite que os utentes levem uma vida normal, sem procurarem o consumo de drogas e é fornecida pelo Laboratório Militar.

Os opiáceos em doses elevadas, como é o caso da heroína, produzem euforia, estados hipnóticos e causam dependência.

O psicólogo Rui Correia adianta que “o utente estar medicado com uma substância quimicamente pura, permite que ele tenha a sua profissão sem ter necessidade de comprar ilícitos, ou cometer pequenos ou grandes delitos (usamos a metadona e buprenorfina no tratamento da dependência opiácea da heroína)” e destaca que “uns levam medicação para uma semana, outros para 15 dias e outros diariamente, sendo que há dois tipos de apresentação da metadona: a unidose líquida e outras doses feitas por nós, com o pipetador no caso de doses mínimas, também administradas via oral”.

Desinfeta-se a porta de entrada, há mais um utente que entra. Adelino Correia, 55 anos, utente do CRI há mais de 15 anos.

“É um apoio bom porque não consumimos heroínas e cocaínas e é gratuito. Não tinha outra opção, quando enveredei por este caminho”, diz em tom apressado, sem querer revelar mais informações.

Ao mesmo tempo sai um casal. O homem de poucas palavras e a mulher: “têm ajudado muito o meu marido, sobretudo apoio psicológico. Tem bons resultados, ele está diferente. Somos logo atendidos e estou satisfeita. Tudo direitinho”, elogia.

Para o psicólogo clínico Rui Correia, “a vergonha existe sempre e é preciso vencer a barreira, porque as dependências não escolhem classes, temos de tudo, todas as profissões, todas as idades (temos homens com mais de 60 anos que consumiam drogas)”.

Família e escola contra a droga

Ajudar a que as drogas ou os comportamentos aditivos deixem de ser o centro da vida da pessoa que procura o CRI é o principal objetivo do psicólogo Rui Correia, que afirma que o adicto “quer, primeiro, satisfazer a sua adição, e isto chega a uma altura que é muito difícil de gerir, ou vem por vontade própria, ou pressionado pela família, ou por ordem do tribunal”.

“Ajudamos aquelas pessoas que estão a pisar a linha, estão em risco de se tornar adictos. Existimos para dar saúde a quem nos procura”, refere, E por isso, para o coordenador do CRI, a intervenção comunitária junto das famílias e das escolas “é muito importante para evitar ou atrasar comportamentos de risco (fazemos formações a professores)”.

De acordo com os dados de 2019, o CRI da Guarda registou 480 utentes e respetivas famílias e seis mil consultas, sendo que 10% dos utentes são mulheres.

O coordenador do CRI, considera que “a curiosidade, a pressão de pares, facilita comportamentos desviantes”, sendo que “aquilo que existe são substâncias e pessoas disponíveis a consumi-las (o consumo numa fase inicial é visto como agradável).

Só que começa a criar-se um novelo e evolui para uma adição. Nem toda a gente que experimenta as drogas continua o seu uso”, alerta.

O coordenador do CRI diferencia dois conceitos: “quando as drogas invadem a vida de uma pessoa, um ‘dependente’ passa mal sem a sua substância, mas um ‘adicto’ não passa sem as substâncias ilícitas (o canábis, a heroína, a cocaína, o ecstasy). O adicto tem a substância e a satisfação dessa necessidade no centro da vida”, esclarece.

Na perspetiva de Rui Correia, as drogas estão sujeitas a flutuações e a modas. “Hoje em dia, não é nada cool a imagem das seringas, do dependente de heroína. Hoje, pouquíssimos consumidores têm hepatite ou HIV, passámos de uma situação grave para uma muito atenuada e isso é fruto do nosso trabalho”, defende.

“Os utentes são testados à entrada com métodos de deteção precoce, é feito aconselhamento. Não estamos nos anos 90 e ainda bem. Se neste momento tenho 70 a 80 utentes novos por ano, no começo tinha sempre 150 utentes novos por ano”, salienta.
Do aumento do consumo de álcool à falta de emprego

Segundo os indicadores do European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs (ESPAD), há aumento do consumo de álcool em idades mais precoces e “é preciso fazer coisas, formar interventores”, declara o coordenador do CRI da Guarda.

Segundo o ESPAD, “o uso de álcool continua alto entre os adolescentes, na Europa, com uma média de mais de três quartos (79%) dos alunos a consumir álcool"

“Percebemos que houve mais consumos de álcool, uma substância que entrou de novo na vida de algumas pessoas. O consumo de álcool aumentou. As pessoas passaram a beber mais. Convivemos com o álcool desde pequeninos, juridicamente não é considerado droga, mas pode ser altamente desorganizador, há uma normalização do consumo do álcool”, lamenta Rui Correia.

O tratamento da dependência de álcool é feito em dois serviços de internamento, sedeados em Coimbra: a Unidade de Alcoologia e a Unidade de Desabituação.

A dificuldade em encontrar trabalho para as pessoas com dependências de substâncias, é um dos principais desafios para o psicólogo clínico.

“Tentamos que as pessoas tenham as condições necessárias para ter trabalho, que cumpram as suas responsabilidades. Mas não é fácil, os trabalhos não são abundantes e depois não há nenhum programa específico para pessoas com comportamentos aditivos.”

“Em tempos houve um programa “Vida Emprego” com o IEFP (o Decreto-lei n.º 13/2015, de 26 de janeiro, revogou o Programa Vida Emprego, criado pela resolução do Conselho de Ministros n.º 136/98, de 4 de dezembro) e que permitia que os utentes que se encontravam em situações de ir trabalhar pudessem ser financiados no seu projeto ou os seus empregadores verem parte do salário coberto pelo programa. Há pessoas a trabalhar na ULS da Guarda que encontraram trabalho ao abrigo deste programa”, exemplifica, em tom de esperança, o responsável do CRI.

 

22.10.20

24 pessoas em situação de sem-abrigo na cidade

 Diana Familiar, in Labor

O Trilho – Unidade de Apoio a Toxicodependentes e Seropositivos, valência da Santa Casa da Misericórdia, identificou 24 pessoas em situação de sem-abrigo em S. João da Madeira, segundo informação atualizada no mês anterior, com a salvaguarda de que este número foi superior entre janeiro e setembro deste ano.

Destas 24 pessoas, acompanhadas pelo Trilho, Centro Comunitário Porta Aberta, também ele da Misericórdia, Centro Comunitário da Associação de Jovens Ecos Urbanos e Protocolo de RSI da ACAIS – Associação Centro de Apoio aos Idosos Sanjoanenses, 10 estão em quartos de pensões e em apartamentos de autonomização e de emergência. Apesar de estarem numa destas respostas, estas pessoas “mantêm-se nas estatísticas dos sem-abrigo”, deu a conhecer Branca Correia, diretora do Trilho, ao labor.

Entre os principais problemas que levaram estas pessoas a terem a rua como “casa” estão “problemas de saúde mental, comportamentos aditivos e dependências, desemprego, divórcio, desestruturação familiar”, revelou. A forma como o Trilho as acompanha passa pelo “apoio social para aquisição de medicação prescrita, transportes a consultas, documentação, acesso a prestações sociais, acesso à cantina, balneário e lavandaria social, pagamento de quartos de pensão, integração no apartamento de autonomização, fornecimento de alimentos e produtos de higiene, vacinação contra a gripe, entrega de máscaras comunitárias, apoio psicossocial e monitorização do número de indivíduos em situação de sem-abrigo mensalmente e locais de pernoita”, explicou Branca Correia, esclarecendo que a “câmara municipal tem possibilitado estes apoios na medida em que paga as refeições da cantina social extra acordo com a Segurança Social, através do Programa de Apoio Famílias e Fundo de Maneio, disponibiliza de um T4 para instalação do apartamento de autonomização, máscaras comunitárias e articula com os Centros de Saúde Entre Douro e Vouga para a Campanha de Vacinação Contra a Gripe”. Noâmbito do trabalho desenvolvido na Rede Social, a equipa do Trilho foi nomeada como elemento interlocutor local para a Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo.

PANDEMIA “VEIO PIORAR” PROCESSO DE INTEGRAÇÃO DESTAS PESSOAS EM RESPOSTAS SOCIAIS

A todas as pessoas que se encontram em situação de sem-abrigo são apresentadas “soluções” que são “mais adequadas à sua situação em geral, isto é, quase sempre passam por um Centro de Alojamento Temporário”. Todavia, “se se tratarem de cidadãos com consumo de substâncias ativo, não podem enquadrar esta resposta sem devida medicação/tratamento”, informou a diretora técnica do Trilho, clarificando que “todas as respostas/recursos sociais têm regras que, por vezes, não se coadunam com a situação de extrema vulnerabilidade e desfiliamento dos cidadãos que temos à frente”.

Ao labor, Branca Correia não teve dúvidas ao afirmar que “a situação pandémica veio piorar todo este processo, pois é muito mais difícil conseguir vagas nas respostas sociais, e implicam teste à Covid-19 e a um período de isolamento voluntário”. Nos casos em que estas pessoas recusam as soluções apresentadas, “mantemos o acompanhamento e os apoios com o objetivo de colmatar necessidades básicas, nomeadamente cantina, lavandaria e balneário social, medicação prescrita, apoio psicossocial”, assegurou a diretora técnica do Trilho. “O objetivo primeiro é manter sempre a ligação que permita monitorizar o estado geral do cidadão e manter a abertura dos canais de intervenção”, concluiu Branca Correia ao labor.

13.5.20

Dados sobre drogas, álcool e jogo entre jovens podem sinalizar dependências futuras

in Dnoticias

Os números revelam descidas nos consumos de álcool, drogas e tabaco nos jovens entre os 13 e os 18 anos, ainda assim os resultados “são maus” e podem significar dependências “num futuro próximo”, defendeu o subdiretor-geral do SICAD.

A análise do subdiretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), Manuel Cardoso, e que o próprio classificou como “desmancha-prazeres” surgiu hoje em contracorrente ao tom mais otimista com que os participantes da apresentação virtual do Estudo sobre o Consumo de Álcool, Tabaco, Drogas e outros Comportamentos Aditivos e Dependências (ECATD-CAD) foram olhando para os resultados que revelam alguma estagnação nos dados face ao último estudo realizado, em 2015.

“Genericamente, e olhando para as tendências, os dados são maus”, disse Manuel Cardoso, deixando um alerta a pais, educadores, reguladores e agentes de fiscalização, mas também decisores políticos.

“Com estes resultados estamos a garantir que num futuro próximo teremos seguramente mais jogadores patológicos e dependência de jogo, não conseguiremos reduzir a dependência de drogas nem o número de mortes por overdose, teremos uma das mais altas taxas de doenças não transmissíveis e continuaremos com uma das menores esperanças de vida de anos com saúde e estaremos nos primeiros lugares mundiais, se não no primeiro, de consumo per capita de álcool e de problemas ligados ao álcool, incluindo mortes por intoxicação alcoólica”, disse.

Um em cada 10 alunos consumiu, no último ano, bebidas alcoólicas, tabaco e drogas ilícitas.

Quando Manuel Cardoso defendeu que é preciso “fazer muito melhor do que isto”, João Goulão, diretor do SICAD, concordou.

“Acho que todos estamos de facto preocupados e não nos podemos comprazer com o facto de as coisas estarem paradas a níveis que ainda são preocupantes. Isto desafia-nos e interpela-nos a todos para fazermos mais e melhor”, disse referindo o desafio que se coloca ao SICAD é ter agora um “espetro de intervenção” mais alargado.

O ECATD-CAD, cujos dados preliminares foram hoje apresentados, é representativo dos alunos do ensino público entre os 13 e os 18 anos (26.319 alunos de 734 escolas) e é feito de quatro em quatro anos.

Os alunos dizem em grande percentagem que é fácil o acesso a álcool e tabaco e que estes dois produtos são não só os mais consumidos como aqueles cujo consumo se inicia mais precocemente.

João Goulão mencionou a responsabilidade nesta matéria de quem fiscaliza e Manuel Cardoso, no caso do álcool, defendeu que é necessário aumentar impostos para baixar consumos.

“Constata-se aqui que há venda de álcool a menores ou que há disponibilidade de álcool a pessoas que não têm idade suficiente e o mesmo em relação ao tabaco. A par do esforço preventivo que é um desafio para todos nós, e em particular para os serviços da saúde e da educação, há aqui desafios que são colocados às entidades que têm a responsabilidade de fiscalizar essa venda. Inquestionavelmente essa fiscalização tem que ser mais efetiva”, disse o diretor do SICAD.

Já Manuel Cardoso referiu que o aumento do imposto sobre bebidas alcoólicas, que não sofre atualizações “há dois ou três anos”, é uma questão “em cima da mesa” para “discutir com a tutela”.

“Seguramente, vai ter que ser implementada mais tarde ou mais cedo”, disse, concluindo ainda sobre a facilidade de acesso que “menor preço, maior consumo, principalmente para os mais novos”.

O álcool é a principal substância psicoativa consumida pelos jovens alunos, seguido do tabaco, segundo o estudo que adianta também os comportamentos de maior risco são limitados a uma minoria.

João Goulão defendeu também que a responsabilidade de uma fiscalização efetiva se estende ao jogo, mencionando o caso do Placard, um jogo social de apostas desportivas com idade mínima de acesso.
“Isso parece ser claramente contornado pelos próprios jovens e a fiscalização também tem uma palavra a dizer aqui”, disse.

Manuel Cardoso referiu a questão da publicidade ao jogo online e o esforço para que fosse banida ou pelo menos restringida numa fase de maior permanência em casa devido à pandemia de covid-19, ficando ausente da programação televisiva entre as 07:00 e as 22:30, o período já aplicado para exclusão de publicada a álcool.

“O que eu percebia é que às 22:31 caíam uma série de spots publicitários [de casinos online], referiu.

Sobre o consumo de drogas, João Goulão mostrou-se surpreendido pela positiva com a redução do consumo de canábis entre os mais jovens, algo que considerou inesperado.
“Eu estava à espera, e não tenho rebuço nenhum em assumi-lo, que o consumo da canábis entre os jovens estivesse a subir por força das discussões em torno da legalização da canábis, num primeiro momento para fins medicinais e depois alguma insistência na questão da legalização para uso recreativo, levando a uma previsível ou suposta assunção da inocuidade dos produtos de canábis. Apesar de tudo, estes resultados, no que diz respeito a essa variáveis, a mim surpreendem-me pela positiva”, disse.

7.5.20

Nos centros de acolhimento aos sem-abrigo, o consumo não gera preconceito

Cristiana Faria Moreira (Texto), Nuno Ferreira Santos (Fotografia) e Teresa Abecasis (Vídeo), in Público on-line

O estado de emergência prolongou a estada nos centros de acolhimento à população sem abrigo por mais de um mês. Como se trata pessoas com dependências e se pede para que mantenham o confinamento? Com entrega de metadona, troca de seringas e consumo assistido garantido junto aos centros.

Naraye chega de sorriso rasgado e troca umas impressões com um técnico sobre o casaco novo que traz vestido. “Nice, nice.” Naraye é um nepalês de 29 anos que sucumbiu às drogas. Ele assume-o sem receios nem meias palavras. “Consumia muitas drogas e... a minha vida acabou. Ninguém quer saber de mim.”

Está em Portugal há cerca de um ano. Já antes tinha estado em Lisboa, mas esteve fora dois anos e regressou no ano passado. Trabalhou num restaurante “durante cinco ou seis meses” e, com a pandemia, ficou desempregado. A família está longe — tanto física como emocionalmente —, no Nepal. E ele caiu na rua, sozinho, acabando por entrar no centro de acolhimento temporário montado pela Câmara de Lisboa no Pavilhão do Casal Vistoso, no Areeiro.

“Estou aqui há um mês. É a minha casa. Deram-me um sítio para dormir, dão-me comida, apoiam-me. Sinto-me muito bem aqui”, diz o jovem. Aqui, também parou de consumir. “Estou a tomar metadona e estou bem agora.” Naraye é uma das 32 pessoas que, segundo dados da semana passada, estão neste momento nos quatro centros de acolhimento temporário criados pela autarquia para acolher a população sem abrigo, e que estão inseridas no programa de substituição opiácea de baixo limiar — conhecido como “metadona”.

Como a estada nos centros se prolongou devido à propagação da covid-19, era preciso criar respostas “para pessoas com situação diversa”: casais, pessoas LGBTI, com mobilidade reduzida, com animais de estimação, mas também pessoas com dependências de álcool e drogas.

“Queríamos criar condições não só para que as pessoas viessem para os centros de emergência, mas para que permanecessem o máximo de tempo”, diz Ricardo Fuertes, assessor do vereador dos Direitos Sociais, Manuel Grilo, e técnico na área das dependências.

Acabaram por trazer para dentro dos centros de emergência algumas respostas: um tratamento preventivo para síndrome de privação alcoólica, o programa da metadona, o programa de troca de seringas e também a unidade móvel de consumo vigiado.

Com a pandemia, as equipas de tratamento têm mais dificuldade em dar resposta a interrupções súbitas, por exemplo, de consumos de álcool. “Quem tem uma dependência alcoólica pode passar um mau bocado se diminuir de forma brusca esse consumo”, explica Fuertes. Por isso, há um tratamento preventivo, que não exige abstinência, em que 15 pessoas estão a fazer terapêutica.

É a primeira vez que este conjunto de respostas está disponível junto dos centros de acolhimento, dizem os seus responsáveis. No interior, não é permitido o consumo de qualquer substância, seja tabaco, drogas ou álcool — alguns habitantes da zona já se queixam do aumento do consumo de droga em redor do pavilhão.

A estratégia tem tido bons resultados, assume o assessor. “Os centros têm conseguido manter as pessoas cá, o que é um bom sinal. As pessoas não são simplesmente expulsas ou criticadas cada vez que se sabe que têm consumos. Demos opções para que esses consumos existam, sejam feitos em melhores condições ou eventualmente para que iniciem tratamentos por metadona”, diz Ricardo Fuertes.

“Uma gratidão enorme”
Naraye é uma das pessoas que integraram o programa da metadona quando entrou para o centro. Foi criada uma nova paragem da unidade móvel, que é gerida pela associação Ares do Pinhal, à porta do Pavilhão do Casal Vistoso, e a distribuição de doses em dois centros — no Clube Nacional de Natação e na Casa do Lago.

O nepalês começou a consumir drogas por causa de uma ex-namorada. “Foram as raparigas que me fizeram consumir drogas, mas eu não as culpo. A culpa é minha”, diz. Ela não consumia, mas fê-lo ficar com um desgosto. “Antes pensava que ela era má pessoa, mas agora acho que eu é que sou mau. Ela já não está comigo, está com outra pessoa. Por isso é que eu comecei a tomar drogas.”

O programa da metadona tinha 1200 utentes até Março — destes, apenas 20% são pessoas em situação de sem-abrigo. Nos centros estão 32 utentes. A maioria já estava no programa, mas há seis que foram admitidos desde que ali estão, adianta Elsa Belo, assistente social e directora técnica da Ares do Pinhal, responsável pelo programa de metadona em Lisboa. Eram pessoas como Naraye, que estavam a consumir e não estavam ligadas a nenhum programa de tratamento ou de redução de riscos e que, quando viram a carrinha parada à porta, foram pedir ajuda.

A pandemia obrigou os técnicos a mudar procedimentos. À porta da unidade móvel traçaram uns riscos no chão, com a distância de dois metros para que os utentes percebessem que aquela era a distância que deveriam manter nos transportes públicos, em casa, nos centros de acolhimento onde habitam. “Tivemos de pensar como é que iríamos estar com as pessoas num contexto de rua, em unidades móveis, mas ao mesmo tempo ensiná-las como é que deveriam proteger os outros e como é que deveriam proteger-se a eles próprios”, conta a assistente social.

As conversas e os desabafos tiveram de ser encurtados, mas ainda assim há da parte dos utentes “uma gratidão enorme” por a carrinha da metadona não ter desaparecido das ruas. A distribuição de metadona existe nos quatro espaços — em alguns é feita na carrinha, noutros é feita no interior dos centros através da distribuição de doses.

A pandemia veio alterar por completo as rotinas de todos. As ruas ficaram sem ninguém e isso significou que quem lá vive perdeu o pouco sustento que ali conseguia. De repente, deixou de haver pessoas a quem pedir, fazer recados, biscates ou ajudar a arrumar o carro. A comida também começou a escassear. Um momento de grandes mudanças, como este, pode também dar origem a consumos descontrolados.

Para se preparem para esse cenário, foram formadas equipas nos quatro centros para actuar em casos de overdose e administrar naloxona — uma medicação que reverte os efeitos da sobredosagem com opiáceos. “Ao todo, foram formadas 23 pessoas que estarão agora preparadas para actuar, caso aconteça alguma situação”, diz Adriana Curado, psicóloga do GAT – Grupo de Activistas em Tratamentos, que está na carrinha de consumo vigiado.

A formação foi apenas dirigida aos técnicos e voluntários que estão a prestar apoio nos centros, mas está planeada uma formação para utentes para que possam ter sintomas de overdose, e assim ser possível actuar com os técnicos que estão preparados com a naloxona em situações de emergência.

O programa de consumo vigiado móvel, que se iniciou no ano passado nas freguesias do Beato e de Arroios, existe agora nos pavilhões do Casal Vistoso e do Clube Nacional de Natação (CNN). As pessoas que consomem não são a maioria das pessoas que estão nos centros, fazem notar os técnicos. Na carrinha, junto ao Casal Vistoso, recebem, por dia, “dez, 15 pessoas” e junto ao CNN à “volta de cinco, seis pessoas”, avança Adriana Curado — só no Casal Vistoso há 98 pessoas acolhidas. Algumas eram já utentes do programa de consumo vigiado. Noutros casos, recorreram pela primeira vez à carrinha.

Estas medidas de redução de riscos ou redução de danos são também uma oportunidade para conhecer melhor esta população e uma “entrada para respostas [de tratamento] mais estruturadas” — ainda que, por esta altura, estejam bastante limitados devido à covid-19. “É o início de um contacto com uma equipa”, sublinha Ricardo Fuertes.

“Portugal é o meu país agora”
Naraye diz que tem a sua vida confinada àquele centro por agora, mas está esperançoso quanto ao futuro. Acorda todos os dias pelas 9h30 — “Eles acordam-nos”, corrige —, depois toma o pequeno-almoço. À entrada do pavilhão, onde foi criada a zona de rastreio e é medida a temperatura sempre que entram no espaço, foi também montada uma zona de convívio, com televisão e cadeiras para a assistência — um pedido dos utentes que queriam muito ver televisão.

“Vejo televisão, tomo os meus medicamentos, meço a minha temperatura, e depois vou para a cama. Pelas 11 da noite vou-me deitar”, conta o nepalês.

Vai passando os dias no centro, sai pouco. “Há dez dias que não saio. Se eu for lá para fora, a minha cabeça começa a pensar noutras coisas. Vou tentar arranjar dinheiro para tomar drogas. Eu não preciso dessa vida, tenho de fazer as coisas de maneira diferente agora. Por isso não vou lá para fora. Este sítio é bom para mim.”

No acesso às bancadas do pavilhão, de que se tem vista para as frágeis camas, mesas e cadeiras dispostas no que foi outrora um campo de jogos, uma escadaria vai ficando despida à medida que os sapatos usados que ali estão vão calçando pés descalços. Ao final da tarde, faz-se também fila para escolher a roupa do dia, para depois ir tomar banho. Naraye está feliz com o casaco verde-tropa que escolheu naquele dia.

Elsa Belo reconhece muitos dos rostos que ali estão. “E eles também me conhecem a mim”, ri-se. A assistente social trabalha há 22 anos na associação Ares do Pinhal. Começou, “ainda uma criança”, no antigo bairro do Casal Ventoso. E ainda há rostos que reconhece de lá. “Há pessoas que não têm a capacidade, não têm as condições, muitas vezes não querem ou não podem fazer uma coisa diferente. E isso tem de nos fazer reflectir. Que mal-estar é este que não lhes permite dar um salto?”

Mas há muitos mais rostos que não conhece, de pessoas novas que caem nesta situação. “Há muitos casos que não são sem-abrigo. As pessoas estão sem abrigo.” São casos como os de quem pagava a renda de quarto na casa de um idoso e acabou posta fora por medo ou de quem perdeu o emprego e ficou, de repente, sem meios de subsistência e “foi parar à pala do Pavilhão de Portugal”. “Quando as carrinhas das equipas de rua passaram por estes recantos da cidade, foram apanhar muitas pessoas que ficaram de um dia para o outro sem chão”, diz a assistente social.

Há pessoas que não têm a capacidade, não têm as condições, muitas vezes não querem ou não podem fazer uma coisa diferente. E isso tem de nos fazer reflectir. Que mau estar é este que não lhes permite dar um salto?

Por agora, diz Elsa Belo, eles estão “numa enorme expectativa”, entre o receio de que os centros fechem e a esperança de que o contacto com as equipas lhes traga novas oportunidades. “E nós tudo faremos para conseguir dar algumas respostas”, assume.

Às carrinhas de metadona em Lisboa começam a chegar presos recém-libertados
Naraye também procura a sua sorte. Foi por isso que pediu que a sua cara não fosse mostrada. Receia a exposição e o preconceito, porque se antes não tinha nenhum objectivo, agora tem e bem traçado. “Tenho de encontrar um emprego para ter dinheiro e endireitar a minha vida.” Tem experiência em restaurantes e gostava de poder cozinhar.

Por agora, por aqui pretende continuar. “Portugal é o meu país agora. Deu-me uma vida nova. Não tenho palavras para descrever em inglês. Eu nasci no Nepal, mas o país da minha vida é Portugal.”

28.4.20

Ruas despidas expõem “esqueleto” do Porto

André Borges Vieira e Ana Marques Maia, in Público on-line

Uma viagem pela Baixa, onde agora, com as ruas sem gente, droga, mendicidade e indigência tornaram-se mais visíveis, embora sempre tenham existido, mas camufladas pelo ruído visual.

Na rua Mouzinho da Silveira, a meio da tarde, prepara-se às claras uma dose injectável numa espécie de acampamento improvisado na fonte Monumental, numa das artérias onde se concentram restaurantes que fazem parte do roteiro gourmet de topo da cidade do Porto. Mais acima, frente a estação de São Bento, zona turística por excelência, na entrada de um posto de turismo de portas encerradas, esticam-se umas pratas que servirão de suporte para matar a ressaca. No mercado da Sé, há um grupo que faz o mesmo, não muito longe da catedral, que é visita obrigatória para quem vem de fora.

Tudo isto faz-se à luz do dia, à vista de todos, numa espécie de loop diário de um calendário que mais parece um disco riscado, em que os dias parecem repetir-se e facilmente confundem-se uns com os outros.

Na rua de Sá da Bandeira concentram-se pequenos grupos de garrafa na mão, talvez acabadas de comprar, frente a dois supermercados. Perto dali há quem remexa os contentores do lixo e revire uma mala deixada para trás – uma parecida com as muitas que até há dois meses compunham uma banda sonora de ruído ao trilhar a calçada dos passeios. Catam-se os despojos dos que ainda há bem pouco tempo enchiam as esplanadas a beber vinho do Porto e a provar tapas, que na verdade são petiscos, e outros pratos very typical que alguns portuenses nunca provaram.

Dentro de um carro, faz-se uma viagem pela Baixa - da Ribeira até à zona mais alta, já quase na Praça da República, com uns desvios até à marginal do rio, já em Massarelos, onde se ouviam os fados na tasca da Piedade, antes de ter encerrado temporariamente até que a covid-19 decida devolver-nos a normalidade. Perto da varanda onde a proprietária do estabelecimento montava a esplanada que facilmente enchia, mas agora está arrumada, a uns dois minutos de carro, há quem ande de viatura em viatura estacionada, com gente lá dentro, em transacções obscuras, mas, mais uma vez, possível de assistir às claras.

De volta ao centro da cidade, passamos por alguém que deambula com uma garrafa na mão. Ainda há umas horas a mesma pessoa estava na entrada da rua do Almada. Na rua José Falcão há um casal de idosos que tenta escapar a alguém que se aproxima para pedir uma moeda, que, sem máscara e sem cumprir o distanciamento social, não descola.

Na Baixa circulam também os poucos que saem para fazer compras ou nas deslocações trabalho-casa. Há os que olham com desconfiança para quem se aproxima. Não respondem quando são chamados. Aceleram o passo. Fazem de conta que não é com eles. Perto da Cordoaria, voltamos a ver quem peça uma moeda a quem passa. Olha-se para trás só para garantir que ainda está longe. Volta-se a olhar para a frente e acelera-se o passo. Mas há uns meses atrás seria só algo normal.

Parar nos semáforos torna possível ser abordado por quem tente conseguir uma moeda. Noutras zonas há semanas que deixou de passar gente em número suficiente. Deposita-se agora a esperança num carro que pára.

Tudo isto acontece todos os dias, nas mesmas ruas, onde se vêem as mesmas caras, nas mesmas rotinas. Só que estas pessoas sempre estiveram nos mesmos sítios, com as mesmas rotinas e com as mesmas necessidades e problemas. Mas agora, como noutras cidades, o “esqueleto” do Porto está exposto.

23.4.20

Equipas que distribuem metadona não pararam. “Teria sido catastrófico”

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Equipas de rua reajustaram intervenção para assegurar entrega de metadona e troca de seringas. Traficantes até usam máscara, mas é maior o risco de intensificarem adulteração de drogas. Está a chegar à mão dos técnicos medicamento que reverte overdoses, mas em quantidade incipiente, como se fosse uma amostra.

s drogas ilícitas circulam, ainda que menos, com maior dificuldade, porventura mais adulteradas, nalguns sítios bem mais caras. Habituados às quebras de distribuição, os traficantes adaptam-se. As equipas de redução de riscos procuram um equilíbrio entre a necessidade de reduzir contactos e a necessidade de auxiliar quem consome. Às suas mãos começa a chegar naloxona, um spray nasal que pode reverter os efeitos de uma overdose de opiáceo.

Se parassem as equipas que trocam seringas usadas por novas, fazem acompanhamento psicológico, prestam cuidados de enfermagem, amiúde encaminham para outras estruturas, por vezes acompanhando a consultas, que fariam pessoas como Rosária, que todos os dias toma uma dose de metadona, droga de substituição opiácea? “Este é um serviço essencial. Não podem faltar. Deus me livre!”

Vistas do céu, as estufas de LED dos Países Baixos parecem obras de arte
A estas equipas acorrem muitos consumidores de heroína e/ou cocaína com um sistema imunitário frágil. “Deviam ficar o tempo todo em confinamento”, como diz Teresa Sousa, coordenadora do GiruGaia, equipa da Agência Piaget para o Desenvolvimento. Não sendo da natureza destas equipas fingir que todos fazem o que é suposto, cada uma traçou um plano de contingência e, atendendo à sua realidade específica, reajustou-se.

Cada uma ao seu modo
A equipa da Crescer continua a fazer a sua rota pelos principais locais de consumo e tráfico da zona Ocidental de Lisboa – Casal Ventoso, Bairro da Cruz Vermelha, Portas de Benfica. “Continuamos a ir aos mesmos sítios, às mesmas horas, mas ficamos muito menos tempo”, revela o director, Américo Nave. “Fazemos basicamente troca de material. Há muito menos apoio psicológico – conversa, no fundo.”

A equipa da Norte Vida, que cobre os principais locais de consumo da zona Ocidental do Porto, concentrou a acção. Sai todos os dias, mas deixou de ir ao Viso e a Ramalde, só pára no Bairro Pinheiro Torres. Em vez de 40 minutos, permanece uma hora e meia. Atende pelo postigo. Forma-se uma fila estreita e espaçada. Os consumidores vigiam-se, assegura a coordenadora Manuela Moreira. Um tenta dar o golpe e logo outro chama à razão: “Ó amigo!” Têm de desinfectar as mãos ao entrar, de evitar tocar nas superfícies, de falar o menos possível lá dentro, de tomar a metadona e sair.

Para a equipa de rua do Centro Comunitário de Esmoriz fez mais sentido dispersar a intervenção pelo concelho de Ovar, atendendo apenas duas ou três pessoas em cada sítio. O giro fazia-se todos os dias em três horas. Faz-se duas vezes por semana em quatro ou cinco. Havendo reforço da equipa, o coordenador Nuno Rechena quer voltar ao ritmo diário, agora que o cerco foi levantado.

Os reajustes vão sendo feitos conforme vai ditando o terreno. A equipa da GiruGaia, por exemplo, passara de sete para três saídas por semana e agora faz duas, entregando a cada pessoa as doses diárias de metadona para ir tomando ao longo da semana. “Há pessoas que não conseguem gerir”, torna Teresa Sousa. “Com algumas, estamos a articular com familiares. Para duas pessoas, vamos voltar e entregar duas vezes por semana.”

PÚBLICO -Foto
TIAGO LOPES
Para compensar a retirada parcial, tentam manter contacto telefónico com as pessoas que acompanham, embora não com todas, até porque nem todas têm telefone, algumas vivem na rua. “Não têm retaguarda familiar, não têm proximidade com médico de família, temos de manter alguma regularidade de contactos”, salienta Marília Lopes, coordenadora da equipa de rua do Centro Social de Paramos, em Espinho. Em caso de necessidade, vão ter com a pessoa.

Traficantes também usam máscaras
Seguindo a unidade móvel por Espinho, que tem parte dos utentes no centro de acolhimento de emergência montado no parque de campismo, pode ver-se como a equipa tenta sensibilizar, de forma reiterada, as pessoas que vai encontrando a não sair de casa, a lavar as mãos com regularidade, a tossir ou a espirrar para o cotovelo ou para um lenço descartável, a não levar as mãos à cara, a manter distância social e, claro, a não partilhar seringas, tubos, isqueiros, nada. De vez em quando, lá vem alguém que pede uma máscara.

– Para que tens necessidade de usar máscara? –, pergunta Marília a um homem, à saída de Espinho.

– Covid –, responde.

– Sabes que máscara que te vamos dar só protege os outros de ti, não te protege dos outros.

– Então não preciso.

João Goulão pede mais profissionais e decisão sobre estrutura que tutela as drogas
João Goulão pede mais profissionais e decisão sobre estrutura que tutela as drogas
– Vou explicar-te porque uso máscara. Estou com 40 pessoas sempre que venho à rua. A probabilidade de me infectar é gigante. Para te proteger e proteger-me, uso máscara. Tu usares uma máscara das que te posso dar [cirúrgica] não te vai fazer nada. Não tenho uma destas para te dar. Estou a reutilizar a minha. Não queres a minha babada, pois não?

– Não.

– O que tens de fazer é manter distância.

Todas as equipas têm pedidos de máscaras. E, de forma directa ou indirecta, tratam de sensibilizar até os traficantes. O movimento pode ser grande nas bocas de tráfico. Há sempre quem esteja a vender, quem esteja a “capear” (a chamar clientela para o seu traficante), quem assuma o papel de “pica” ou “enfermeiro” (cuida dos outros). E essa dinâmica também se reajustou à pandemia de covid-19.

– Olha, tens dito à malta para ter cuidado? –, pergunta Marília a Rosário, que vive em Espinho mas costuma ir comprar crack ao Porto.

– Eles andam lá de luvas e de máscaras, andam.

Psicólogos alertam para risco de aumento do jogo compulsivo, consumo de álcool e tabaco
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– E desinfectam as luvas?

– Anda lá um com uma bisnagazinha. Agora, se desinfecta…

– Quem usa máscara?

– Os que andam a vender. E os “capeadores” também andam de máscara.

Não estão todos a fazê-lo. Talvez os que o fazem tenham uma vantagem competitiva, como diz Rui Coimbra, da direcção da CASO (Consumidores Associados Sobrevivem Organizados).

Discutir com a tutela e reajustar
Em tempo de pandemia global, o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) permite alguma flexibilidade no uso do material e já se disponibilizou para reforçar os orçamentos das equipas. Isso pode traduzir-se em diversas práticas. Solange Ascensão, coordenadora da equipa de rua GiruSetúbal, pede aos utentes que desinfectem “o pacote em que a droga vem”, as mãos antes de consumir, o material. Para facilitar, tem distribuído toalhetes extra.

PÚBLICO -Foto
Equipa de rua do Centro Social de Paramos. TIAGO LOPES
No princípio, faltou até material de protecção individual. E nem a equipa de Ovar deixou de distribuir metadona. “Fizemos chegar viseiras e máscaras, de acordo com o levantamento de necessidades feito nas equipas de rua”, afiança João Goulão, director nacional do SICAD. Para as equipas técnicas, não para os consumidores.

Houve um canal que se abriu. Uma vez por semana, o SICAD reúne-se, através da Internet, com a R3 – Riscos Reduzidos em Rede, que agrega a maior parte das equipas de redução de riscos e associações de pessoas que consomem drogas e/ou fazem trabalho sexual. Há pouco, juntaram-se-lhes a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD) e outras equipas de rua. “Podemos, de uma forma aberta e franca, discutir os problemas e encontrar soluções”, congratula-se Rui Coimbra, que integra essas reuniões. “Está a nascer uma resposta estratégica, articulada entre as equipas de proximidade e os organismos estatais”, alegra-se também Marta Pinto, co-fundadora da R3 e investigadora da Universidade do Porto.

Suspendeu-se o trabalho sexual, o pequeno biscate, o arrumo de carro, a mendicidade. “Saindo do litoral e da cidade, o preço da droga duplica. Por causa do risco. Uma pedra de crack, que no Porto custa 5 euros, aqui [em Viseu] pode ser 15 ou 20, facilmente”, exemplifica Coimbra. Sobe a tentação para fazer “sociedades”, isto é, comprar droga a meias e partilhá-la. No giro que faz em Setúbal, Solange Ascensão já nota retrocesso. “Temos pessoas que fumavam e estão a injectar-se. Esta via dá mais moka com menos quantidade.”

Um medicamento para reverter overdoses
Um pouco por todo o lado se fala no risco de mortes associadas. “O facto de haver uma possibilidade real de escassearem as substâncias ilícitas pode fazer com que sofram uma adulteração diferente da habitual ou mais intensa”, explica Marta Pinto. “Podem ser tranquilizantes, benzodiazepinas, mas também podem ser outras substâncias, potencialmente letais.” Por isso, importa ter meios de reverter overdoses.

Desde a semana passada, começou a chegar às equipas do Norte do país naloxona, o tal medicamento que reverte overdose de opiáceo. A equipa do Centro Social de Paramos, por exemplo, recebeu duas embalagens, válidas até ao final de Abril. A equipa da Norte Vida recebeu uma. Em número insuficiente. Quase como se fossem amostras. A equipa do Centro Comunitário de Esmoriz, na região centro, nada.

Já antes chegara a Lisboa, mas com a indicação de que deviam ficar na posse das equipas, não dos consumidores. A Crescer, por exemplo, não lhe deu uso. Quem presencia overdoses não são as equipas de rua, mas são familiares, vizinhos, outros consumidores. “Agora temos autorização para distribuir pela comunidade e isso é que parece interessante”, adianta Américo Nave. Está tudo na aurora. Vão “iniciar formação a pares e líderes da comunidade, pessoas que estão 24 horas nos bairros de consumo e podem aplicar o medicamento, se for preciso”. Terão de ser gente que “esteja bastante tempo no terreno, que tenha uma boa relação com os outros e alguma liderança”. Se alguém entrar em overdose, pulveriza uma narina. Não funcionando, pulveriza outra. E chama a emergência médica.

“A ​naloxona está disponível para ser distribuída usando o circuito de distribuição da metadona às Administrações Regionais de Saúde”, garante Goulão. “Desde Janeiro, está disponível em Lisboa e Vale do Tejo. Tem chegado às DICAD, conforme as solicitações”, diz ainda, lembrando que os serviços locais e regionais não são controlados pelo SICAD. Em 2012, o Governo decidiu desmantelar o Instituto da Droga e Toxicodependência, segmentando respostas por cinco administrações. O actual executivo preparava-se para voltar a concentrar tudo numa só estrutura.

Apesar do esforço, não foi possível manter o nível de acesso aos cuidados de saúde. “Do ponto de vista das doenças infecto-contagiosas, temos consultas desmarcadas e sem data”, lamenta Marília Lopes. “Estamos a falar de VIH e hepatite C. A quem já estava em tratamento, a farmácia continua a disponibilizar a terapêutica. Não tem é consultas. Quem ia iniciar terapêutica, ficou em suspenso.” No sábado, a ministra da Saúde, Marta Temido, disse que as consultas e cirurgias adiadas por causa da pandemia iam começar a ser reagendadas.

Mesmo assim, suspira de alívio quem já muito se preocupou. Nem sempre o princípio da redução de danos é compreendido. “Não deixar ninguém para trás é cuidar de todos”, enfatiza Marta Pinto. “Criar as condições para que as pessoas cuidem de si próprias, mesmo que consumam substancias psicoactivas, é proteger as pessoas que usam drogas, mas também as suas famílias e as suas comunidades.”

Rui Coimbra, sempre tão crítico, elogia: “Estão todos a dar o litro: SICAD, DICAD, equipas de rua. Toda a gente está a ser extraordinária. São heróis. O sistema estava tão fragilizado. Mesmo sem condições, tudo fizeram para as pessoas não ficaram sem metadona. Teria sido catastrófico.” Não será suficiente. “Há maior dificuldade [em angariar dinheiro e comprar produto], mais risco, mais violência, mais crime. É o que é.”

10.1.20

Sem-abrigo - Identidades reconquistadas

Pedro Mesquita, in Reconquista

Três homens, três histórias. Em comum a droga, a rua mas, acima de tudo, a força de vontade de mudar.

Numa altura em que Portugal se comprometeu em acabar com o flagelo dos "sem-abrigo" até 2023, a Renascença apresenta-lhe a história de três pessoas que, durante vários anos, fizeram da rua a sua morada.
Jorge Cardinali é um artista de circo, mágico e recordista mundial a girar pratos; Christian é romeno, e faz vigilância nos albergues noturnos do Porto e Laudelino Jesus era empresário da restauração. Caíram os três para a rua, por culpa do vício da droga.

Entre um e outro relato, há frases que se cruzam.


"Quando dei por ela estava no fundo do poço”

“Vivi junto a multibancos e em jardins. Onde me podia aninhar, ali ficava”

“A minha vida era o consumo de droga e o álcool. Falta-me tudo, sobretudo não ter ninguém com quem falar”

“Uma conversa amiga caia melhor do que uma sopa”
Viver na rua é estar à vista de todos e enfrentar a indiferença.

“Não me sentia uma pessoa. Nós perdemos a identidade”

“Às vezes as pessoas nem olham, mas quando não queres dar dinheiro podes convidar a pessoa a comer”

“Quando estamos sem fazer higiene há muito tempo, não cheiramos bem, não somos seres visualmente agradáveis”
Mas nestas três histórias paralelas houve, também um momento decisivo, a força necessária, com a ajuda de alguém, para reconquistar a identidade.

“Foi um clique que me deu. Estava farto da droga, de estar na rua, e fui pedir ajuda ao meu filho. Ele respondeu-me: Eu ajudo-te, cota, mas quem impõe as regras sou eu. Fiz um tratamento, deixei a droga e tornei-me voluntário da rede europeia anti-pobreza. Também regressei aos espetáculos de circo”

“No meu caso foi uma conversa com um antigo sem-abrigo. Conversámos e ele aconselhou-me duas coisas: Sair da rua e deixar as drogas”

“Comigo o que aconteceu foi que me lembrei do meu filho e não quis que a minha história terminasse assim. Houve, depois, uma equipa de rua que me ajudou”
Esta é uma história de identidades reconquistadas.

18.11.19

Conheça a história do concelho europeu com mais toxicodependentes

in CMTV

Comunidade destruída por toneladas de droga que deram à costa há 18 anos

Há 18 anos toneladas de cocaína deram à costa em Rabo de Peixe nos Açores

No Investigação CM desta quinta-feira revelamos-lhe as histórias que se escondem num dos concelhos europeus com mais toxicodependentes.
Há dezoito anos, largas centenas de tonelada de cocaína com um elevado grau de pureza deram à costa em Rabo de Peixe nos Açores. A preço de mercado só a droga que a polícia apreendeu valeria atualmente 150 milhões de euros.

29.11.18

A pobreza na toxicodependência

in Jesuítas em Portugal

Um estágio, num hospital onde 90% dos doentes estavam infectados por VIH e eram toxicodependentes, permitiu a Raquel Borges de Pinho transformar o modo como olhava para esta realidade, curando a sua falta de empatia com aquelas pessoas.

Quase todos nós, de uma forma ou de outra, já tivemos a oportunidade de percepcionar situações, casos, pessoas e vivências em que se manifestou, de um modo claro e evidente, o terrível e doloroso flagelo social da toxicodependência. E demos conta da complexidade das situações, da multiplicidade dos factores e causas, da gravidade das consequências da conduta, da dificuldade em procurar saídas e mudar as coisas.
Pela minha parte, quando tomei contacto com esta realidade, de início, tive imensa dificuldade em compreender o porquê dos comportamentos. Não conseguia ter empatia com estes doentes, nem sensibilidade para criar uma melhor relação médico-doente. Falávamos linguagens diferentes! Foi então que, ainda durante a minha especialidade, decidi fazer um estágio num hospital onde 90% dos doentes infectados por VIH (vírus imunodeficiência humana) eram toxicodependentes. Foi aí que consegui olhar o mundo pelos olhos da droga.

E valerá a pena, mais uma vez, voltar a olhar para o problema e partilhar com os outros, algumas ideias e experiências concretas! A adição à droga é uma situação comportamental que entra na vida das pessoas como qualquer outra doença, como, por exemplo, o cancro. Consome o que existe de bom na vida das pessoas… e nada escapa à sua fúria destruidora, desde a família, o trabalho, os amigos, a saúde e as finanças, etc…
Do ponto de vista físico, a ilusão de bem estar que a droga simula aquando do seu efeito, é tão sedutora como efémera e faz com que as pessoas a procurem, desesperadamente. O problema é que o corpo se habitua rapidamente a funcionar sob o efeito daquela substância, e quando é retirada abruptamente, os sintomas físicos de abstinência são duros de suportar, acabando por criar uma certa necessidade que leva de novo ao consumo. E só os mais fortes e mais resistentes, quer com o apoio de fármacos, quer sem eles, isto é, “a frio”, conseguem manter-se afastados e quebrar essa dependência.

Mas neste ponto temos apenas a adição física, a mais fácil de resolver. É a adição psicológica a mais complicada e a que leva mais vezes ao consumo. Os medos, as angústias, a timidez, os problemas desaparecem naqueles minutos/horas do efeito da droga. Os tímidos tornam-se sociais e faladores, os ansiosos e angustiados, em pessoas calmas e relaxadas. Os traumas do passado ficam guardados no baú e as vozes da culpa silenciam-se. Como me disse uma vez um doente, “as dores da alma desaparecem!”. O mundo fica perfeito e quando voltam à realidade cinzenta e sombria, do mundo e da vida quotidiana, querem regressar desesperadamente.
É a adição psicológica a mais complicada e a que leva mais vezes ao consumo. Os medos, as angústias, a timidez, os problemas desaparecem naqueles minutos/horas do efeito da droga

Do ponto de vista económico é incomportável para qualquer gestão familiar o preço da droga, associado à quantidade e frequência dos consumos. O trabalho que ocupava e realizava a pessoa, anteriormente, passou a ser local e fonte de problemas com colegas e chefias, e insuficiente para pagar as despesas. Inicialmente, e visando aparentar a normalidade, vão tentando manter o mesmo nível de vida, mas depois, assumem a sua adição e entram num caminho descendente. Desapegam-se de tudo o que seja possível transformar em dinheiro/droga, começam a pedir dinheiro emprestado ou adiantamentos por conta do salário, até que, já na última linha do desespero, fica o roubo (tanto a familiares, amigos ou a estranhos) e a prostituição para pagar a dose em falta.

Neste ponto, a saída é difícil de encontrar, como se de um labirinto se tratasse. Fazem várias tentativas para abandonar o consumo sem sucesso, mas nestas tentativas/falhas vão-se afastando de quem os poderia ajudar, só para não ouvir recriminações ou para não terem de confessar o seu fracasso, e isolam-se no seu problema ou procuram, unicamente, companhias similares.

E não há dúvida que, para além de todo o prejuízo causado à própria saúde, à família, aos amigos, enfim, ao mundo das suas relações e amizades, no fim da linha só encontram a sua solidão e a pobreza.

E não há dúvida que, para além de todo o prejuízo causado à própria saúde, à família, aos amigos, enfim, ao mundo das suas relações e amizades, no fim da linha só encontram a sua solidão e a pobreza. Vejo muitas vezes no meu consultório essa pobreza, mas sobretudo, o que me impressiona é uma grande pobreza de esperança! Deixam de acreditar neles próprios, pois já desiludiram tantas pessoas à sua volta, que acham que não são merecedores que tenham esperança e fé neles. Vão-se sentindo pequenos e sem voz, completamente marginalizados.

O milagre acontece quando acreditamos! Quando fazemos ver que é possível todo um caminho e que mesmo que consumam e voltem a cair nas garras da droga, lá estaremos para lhes estender a mão, para os ajudar. Nesse momento, consegue-se que os muros que construíram com o fim de se isolarem das pessoas, comecem a ter pequenas brechas por onde poderemos entrar.

O milagre acontece quando acreditamos! Quando fazemos ver que é possível todo um caminho e que mesmo que consumam e voltem a cair lá estaremos para lhes estender a mão.

Claro que ao longo destes anos, muitas ajudas foram infrutíferas, mas as que resultaram e tiveram êxito, compensam, de sobra, todo o esforço. Por isso, o trabalho tem de continuar. E continuar com mais pessoas, mais gente, mais solidariedade e mais empenho. Entendo que por vezes, as pessoas que não compreendem esta realidade da droga, nem os seus envolventes, preferem afastar-se, mas toda e qualquer ajuda é necessária e muito se pode fazer.

Na minha opinião, uma das propostas a fazer à comunidade, seria motivá-la no sentido de reflectir e agir sobre o problema da droga, imaginar e criar iniciativas de acção concreta junto dos toxicodependentes, em ordem a proporcionar-lhes uma maior inclusão social.

Numa primeira instância, cobrir as necessidades básicas como higiene, alimentação e saúde, principalmente, com apoio psicológico. Existem, espalhados pelo País, centros de apoio à toxicodependência (onde fornecem a metadona), salas de administração, comunidades e clínicas para tratamento da adição. Existem igualmente linha telefónica de apoio à droga, orientada por psicólogos, prontos para ajudar. No entanto, por vezes é necessário ir ao terreno, sair à rua ao encontro da pessoa perdida entre efeito da droga/ressaca, como por exemplo um serviço de carrinha ambulatória com cuidados de saúde básicos, distribuição de comida, roupa e calçado, etc.

Sentindo-se úteis à comunidade e cada vez mais confiantes neles próprios, estariam a dar passos seguros na inclusão e inserção social

Numa segunda instância, pensaria no apoio à família e amigos. Também eles, muitas vezes, sentem-se perdidos, sem saberem o que fazer, desiludidos e com grande sentimento de impotência por não conseguirem tirar o filho, irmão ou amigo daquele martírio. Penso que são peças fundamentais da recuperação do toxicodependente, mas que também elas estão em sofrimento e precisam de ajuda, apoio e enquadramento. Seria benéfica a formação de grupo ou grupos onde poderiam encontrar espaço, informação e conforto para partilharem uma dor comum e auto ajudarem-se mutuamente.

Numa terceira e última instância, pensaria em iniciativas concretas que, compreendendo as limitações de cada indivíduo, lhes permitisse contribuir para a vida em sociedade com trabalhos e tarefas a realizar por eles. Sentindo-se úteis à comunidade e cada vez mais confiantes neles próprios, estariam a dar passos seguros na inclusão e inserção social e cada vez mais longe da droga.