Por Maria João Guimarães, em Nova Iorque, in Público on-line
Um mentor é alguém que se dispõe a estar ao lado de um adolescente em risco para lhe proporcionar uma relação sólida e ser um modelo consistente. A figura de mentor é muito popular nos Estados Unidos, e só em Nova Iorque há centenas de programas de mentores quase para todos os gostos: só para raparigas, para cientistas negros, para gays, lésbicas e transgender, para pessoas com deficiências.
O PÚBLICO visitou vários programas e falou com mentores e protegidos e com responsáveis. Aqui fica o que eles dizem sobre esta forma de voluntariado e ajuda:
Joy Schwartz, mentora de Ore Adelaja no programa Girls Quest
"Sinto-me realizada ao saber que posso ter uma influência positiva"
“Decidi ser mentora porque uma jovem profissional na cidade de Nova Iorque pode ficar muito isolada, demasiado concentrada na carreira. Logo que estabilizei a minha vida de adulta - conseguir arranjar um apartamento, pagar as contas e ter essa parte resolvida -, decidi oferecer-me para este programa. Fazer isto ajuda-me a sentir um pouco realizada, já que posso ter alguma influência positiva. Queria uma mentoranda que gostasse de desafios. Não tento orientá-la nas suas escolhas, mas sou obcecada com ter objectivos e traçar planos para os atingir. Muitas vezes eu e a Ore discutimos isso: se ela quer uma coisa, tem de ter um plano para o conseguir.”
Ore Adelaja, mentoranda de Joy no programa Girls Quest, Manhattan
"A minha mentora ajudou a preparar-me para conviver com pessoas diferentes"
“Andamos muito a pé, nunca estive tão em forma! Com a Joy tenho conhecido muitas coisas em Nova Iorque, já experimentámos muitas coisas, fomos ao bairro coreano, etc.
A escola onde eu andava tinha uma maioria de negros, e no meu novo liceu não há negros. Há chineses, asiáticos, diferentes tipos de brancos. A Joy ajudou-me também nisso, a preparar-me para conviver com pessoas diferentes.
Nasci na Nigéria, vim para Brooklyn com os meus pais quando tinha dois anos. Recentemente voltei lá e fiquei muito impressionada: não podia beber água, há malária... Isso inspirou-me: quero ser médica e o meu sonho é abrir um hospital na Nigéria.”
Susan Varghese, directora de programas do Girls Quest, um programa de mentores para raparigas em Manhattan
"Contam-se pelos dedos das mãos os casos que não resultam"
“O programa funciona com o compromisso de um mínimo de um ano e encontros entre mentores e protegidos pelo menos duas vezes por mês.
Delineamos objectivos para a relação, perguntamos inicialmente a ambas o que querem conseguir, e vamos avaliando. Porque são duas pessoas que não se conhecem e é suposto passarem tempo juntas, isso pode ser um pouco estranho.
Para encontrar os pares fazemos um intenso processo de entrevista depois ficamos com uma boa ideia de personalidade e o que procuram, em termos de idade, raça, religião, interesses, local de residência. Há uma preferência comum das adolescentes: muitas querem uma mentora jovem. querem uma irmã, não uma mãe ou avó. Mas já tive mentoras óptimas na casa dos 50. Faço isto há vários anos, e contam-se pelos dedos da mão os pares que não resultaram.”
Anthony Whittaker, responsável do programa Goodwill Goodguides, Queens
"Os mentores podem mostrar aos miúdos que há carreiras fora dos gangues"
“Quanto era jovem passei o mesmo que muitos miúdos que precisam de mentores: um lar sem pai, família envolvida em drogas. Mas consegui ficar longe das ruas graças ao desporto. Fiz várias coisas na vida: fui polícia, trabalhei num banco, mas estive sempre ligado ao deporto enquanto treinador de basquete. Foi assim que conheci muitos jovens de quem fui mentor, porque reconheci em muitos o perigo de caírem nas ruas. Alguns deles são hoje meus amigos. E outros ofereceram-se para serem eles próprios mentores no programa que eu dirijo.
Os mentores só têm de ser eles próprios. Podem mostrar aos miúdos que há uma carreira fora dos gangues, seja a trabalhar nos Correios ou numa empresa de informática.
Hoje trabalho neste programa que envolve cerca de 100 adolescentes; em alguns casos, mais difíceis, sou eu próprio mentor. Por exemplo, um miúdo que conheci quando me tentou roubar uma bola num jogo. Esse vai dar muito trabalho.”
Bernard Young, mentor no programa Goodwill Goodguides, antigo mentorando "O meu mentor ajudou-me a superar problemas de autoconfiança e timidez"
“Para mim, um mentor tem sempre de dar o seu melhor mas não esperar muito do seu protegido. Espero poder ser um modelo a seguir por aqueles que não têm. Eu próprio beneficiei muito com ter tido um mentor. O meu mentor, que foi o Anthony, ajudou-me na minha autoconfiança, porque sempre fui tímido e isso piorava ainda por ser muito alto. Houve coisas em que ele me ajudou que só mais tarde percebi. Eu tinha um part-time e medo das entrevistas por ser demasiado alto. Um dia perdi o medo, fui a uma entrevista e consegui o meu trabalho actual na ConEdison, que é na área do curso que estudei na universidade.”
Elijuan Spencer, 14 anos, estudante de liceu, mentorando de Bernard
"Não tinha a certeza do que era um mentor mas ajuda-me"
“Vivo com os meus dois irmãos e a minha mãe. Inscrevi-me no programa porque o meu irmão andava cá. Não tinha a certeza do que era um mentor, mas é uma coisa que me ajuda: fico longe da rua, tenho alguém com quem falar. Falamos sobre a escola, sobre como eu posso melhorar no basquete. Às vezes falamos sobre o futuro mas ainda não tenho planos. É muito cedo... para já sei que quero acabar o liceu. Porque podemos depois divertir-nos tudo o que quisermos, mas é importante pelo menos acabar o liceu.”
Bruce Beckwith, director de serviços da New York Mentoring Alliance
"O mentor pode dar um sonho, e uma base para esse sonho"
“Sabemos que os adolescentes em risco que têm mentores têm menos riscos de ter problemas de drogas, álcool, de serem pais adolescentes, e mais hipóteses de acabar o liceu ou de ir para a faculdade. Há estudos que o mostram. Também mostram que quanto mais longa é a relação, maiores são os benefícios. Mas não queremos assustar as pessoas [potenciais mentores], e não é prático um compromisso de tanto tempo. Elas primeiro comprometem-se a um período mínimo de um ano. Depois, se quiserem, continuam. E muitas querem.
Os programas são sujeitos a avaliação constante. Quanto sugerimos aos mentores que não se foquem demasiado nos trabalhos de casa, fazemo-lo porque há estudos que nos dizem que esta abordagem é melhor.
Muitas vezes o mentor é a única pessoa consistente na vida destes jovens. Pode-lhes dar um sentido de futuro, que pode ser planeado, um sonho. E tentar criar uma base para que depois de possa construir esse sonho, mas realisticamente.
Temos cerca de 200 programas de mentores a ajudar cerca de 30 mil adolescentes na cidade de Nova Iorque.”
Natasha Dillon, fundadora do programa Guiding Proud para adolescentes gay e transgender
"Tudo se passa na escola para não haver acusações de assédio"
“A ideia começou há um ano. Houve uma série de crimes de ódio em Nova Iorque, e comecei a pensar se estes crimes podiam desencorajar os jovens de sair do armário. Provavelmente ter-me-ia desencorajado a mim. Pensei que temos de ajudar estes miúdos e comecei a procurar um sítio para me oferecer como mentora. E vi que não havia nenhum programa especificamente para miúdos LGBT [Lésbicas, gays, bissexuais e transgender].
Hoje temos onze pares, cinco homens, cinco mulheres e um trans, em três escolas. Têm actividades conjuntas a cada 15 dias, e tudo se passa na escola - é uma maneira de “blindar” o programa por potenciais acusações de assédio. Mas é muito bom podermos dar a estes adolescentes alguém com quem possam falar, que passou pelo mesmo que eles. Se já é difícil ser adolescente...nos media, na sociedade, tudo o que se vê é orientado para relações heterossexuais; não é que tenha mal, mas deixa muitos jovens a sentirem-se desadequados. Se não têm nenhum adulto para falar sobre isto pode ser ainda mais complicado.
Foi incrível a resposta que tivemos ao programa. Os mentores querem dar este tipo de ajuda e os miúdos também a querem receber.”
Este trabalho foi feito no âmbito de uma bolsa do American Club of Lisbon


