Ana Cristina Pereira, in Público on-line
Entidades estão só à procura de um espaço adequado para o projecto-piloto. Em breve, Lisboa terá um programa de gestão de consumo de álcool. No Porto, há um movimento no mesmo sentido, mas ainda está no início do processo.
Não fosse a pandemia de covid-19, a ideia talvez continuasse no plano da discussão teórica. Como há uma ordem de confinamento e o síndrome de abstinência pode ser fatal, alguns alcoólicos sem abrigo vão ser desafiados a entrar numa estrutura residencial com quartos individuais, refeições, bebidas alcoólicas e uma equipa técnica que os ajudará a gerir o consumo, reduzindo a quantidade até, quem sabe, poderem fazer um tratamento para deixar de beber. Para já em Lisboa, depois no Porto.
Mariana vem à janela desenhar o que pensa fechada em casa
O sentido de urgência é grande. Com os cafés e os bares fechados e as ruas semi-desertas, quem vive de pedir, arrumar carros e outros expedientes aflige-se para arranjar dinheiro e matar a ressaca. No caso dos alcoólicos crónicos, os quadros de privação podem trazer tremores, convulsões, alterações neurológicas irreversíveis ou mesmo a morte.
O diálogo que se abriu entre o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD), as instituições de solidariedade que prestam serviços de proximidade, com reuniões semanais pela Net, abriu caminho a uma nova resposta: o programa de gestão de consumo de álcool.
Crescer versus APDES
Em Lisboa, aliaram-se o SICAD, a DICAD, o Instituto de Segurança Social, a Santa Casa da Misericórdia, a Câmara Municipal e a Crescer – Associação de Intervenção Comunitária para o projecto-piloto. “Já adiantámos bastante”, afiança João Goulão, director-geral do SICAD. “O passo seguinte é encontrar um espaço adequado. O espaço é uma condicionante muito séria.” No Porto há um movimento no mesmo sentido, encabeçado pela Agência Piaget Para o Desenvolvimento (APDES), mas “ainda numa fase inicial”, a procurar parceiros.
A Crescer está pronta para arrancar assim que seja possível. “Se existir um espaço hoje, nós estamos preparados para avançar amanhã”, garante Américo Nave, director executivo da Crescer. Há anos que se bate por esta alternativa. “Temos várias pessoas que têm vindo a desenvolver interesse e investigação nesta área.” Leram estudos. Visitaram estruturas noutros países. Podem evitar erros já cometidos por outros. “Podemos ser um bocadinho mais ambiciosos.”
A estrutura deverá acolher, no máximo, 30 pessoas. Deverão ficar alojadas em quartos individuais. A acompanhá-las estará uma equipa multidisciplinar, que incluirá profissionais da saúde e do serviço social. “No fundo, acreditamos que esta estrutura é também uma estrutura clínica”, resume. Cada pessoa terá o seu próprio programa de gestão de consumo. “Mediante o perfil, em diálogo, será decidido que tipo de bebida [consumirá], a que horas do dia, que quantidade. À partida, todas as pessoas devem aceitar reduzir a quantidade.”
Questionado sobre a eventual reacção social que um projecto destes poderá provocar, Américo Nave desvaloriza: “Para mim, o que é polémico é haver pessoas a viver na rua. Como é possível alguém viver na rua 30 anos?” Diz-lhe a experiência que não é porque quer, como por vezes se ouve dizer, é porque “as respostas que existem não estão adequadas”.
Os albergues só recebem alcoólicos crónicos em situação de sem abrigo “por especial favor”. Não costumam deixar entrar quem se apresenta embriagado à porta. Há estruturas, centros de emergência de baixo limiar, que o fazem, mas pouquíssimas. “Estas pessoas estão numa extrema vulnerabilidade. É mais fácil motivá-las e encaminhá-las para tratamento numa estrutura em que já tem contacto com equipas técnicas da área da saúde de área social”, refere.
Psicólogos alertam para risco de aumento do jogo compulsivo, consumo de álcool e tabaco
Ainda muito está em discussão. O projecto-piloto, até por ser isso mesmo, “pode levantar várias hipóteses de trabalho”. Pode vir a ser uma estrutura intermédia entre a rua e a abstinência. Pode abarcar até pessoas que não moram na rua, mas padecem de alcoolismo crónico. É vasto o grupo de consumidores problemáticos. “Queremos criar parcerias com outras entidades. Gostaríamos que fosse um projecto partilhado.”
MAP versus “Wet Houses”
Os chamados Managed Alcohol Programs (MAP) surgiram no Canadá há mais de 20 anos, procurando impedir que as pessoas morressem geladas no inverno. São parentes das “Wet Houses”, populares nos Estados Unidos. As primeiras fornecem as bebidas, as segundas não, esclarece Marta Pinto, professora e investigadora da Universidade do Porto e co-fundadora da R3 – Riscos Reduzidos em Rede, que agrega a maior parte das equipas de redução de riscos e associações de pessoas que consomem drogas e/ou fazem trabalho sexual.
“São programas altamente criteriosos, aceitando apenas pessoas que têm consumos altamente problemáticos e danos devastadores no que diz respeito à sua inserção sócio-laboral, ao seu equilíbrio psíquico, à sua saúde orgânica”, explica a especialista. “Fazem uma intervenção que passa por assegurar o acesso a bebidas alcoólicas de forma controlada, ao mesmo tempo que investem numa abordagem integrada de prestação de cuidados sócios-sanitários”.
Os vários estudos feitos no Canadá e noutros países, que entretanto desenvolveram o modelo, apontam para menos consumo, menos episódios de emergência médica, menos encarceramento. E isso não a surpreende. “Uma pessoa em situação de sem abrigo e de quase absoluta exclusão social tem mais dificuldade em gerir os seus consumos na rua do que num contexto protegido onde as suas necessidades básicas estão asseguradas e onde lhe são prestados vários cuidados. Se tivermos uma abordagem compreensiva há uma redução do uso e um aumento da procura de tratamento”, salienta. “São abordagens pouco óbvias mas que têm mostrado resultados.”
Durante muito tempo, recorda, procurou-se apenas promover a abstinência. “Na década de 80, começou a ficar claro que essa abordagem deixa de fora a maioria das pessoas que utilizam drogas. As abordagens de redução de riscos procuram complementar as intervenções mais clássicas e lidar de forma pragmática com os que não queriam ou não conseguiam ficar abstinentes.” Foi assim que nasceram os programas de troca de seringas e de substituição opiácea. Ora, “as equipas que trabalham com consumidores de drogas ilícitas desde há muito tempo vêm lidando com consumos nocivos de álcool e têm vindo a falar na necessidade de criar respostas específicas nesse âmbito.”
Perante a pandemia de covid-19 e a declaração do Estado de Emergência, a Unidade de Alcoologia de Lisboa deu orientações para se distribuir terapêutica que previna quadros graves de privação aos sem-abrigo alcoólicos que pernoitam nos centros de acolhimento. Duas vezes ao dia: um comprimido de Diazepam, um comprimido de Tiaprida, um comprimido de ácido fólico, um comprimido de Neurobion. “Consideramos, ainda, que os cidadãos sem-abrigo que pernoitem na rua, identificados e conhecidos pelos técnicos de programas estruturados de acompanhamento na rua, poderão ser beneficiários desta intervenção, a definir caso-a-caso.”
Noutros pontos do país, há equipas que seguem esta orientação. É o caso, por exemplo, do Centro de Acolhimento de Emergência montado no parque de campismo municipal de Espinho. O Centro Social de Paramos, que com a autarquia coordena o Núcleo de Planeamento e Intervenção em Sem-abrigo, garantiu apoio de uma médica. Três das 14 pessoas ali acolhidas estão a tomar a medicação que as ajuda a não sentir ressaca e a controlar a vontade de beber. “As pessoas que bebem de forma excessiva confrontam-se com ressacas monumentais”, observa Marília Costa, coordenadora da equipa de rua. “Para estar em isolamento profiláctico têm de estar bem. Tivemos uma pessoa que começou a ressacar de manhã, caiu, rachou a cabeça, teve de ir para o hospital. Isso fez com que não queira lá ficar. Estas três que iniciaram a terapêutica estão bem.”
Linha de apoio foi reforçada
A Linha Vida, o 1414, está agora mais apta a prestar apoio emocional e esclarecer dúvidas sobre questões relacionadas com dependências. “Voltámos a reforçá-la em termos de recursos humanos, com pessoas", anunciou João Goulão, director-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, na conferência diária da Direcção Geral de Saúde desta sexta-feira. Ao que explicou, aquela linha “vinha perdendo importância em detrimento da Saúde 24”. “Nas chamadas, há principalmente pessoas com abuso de álcool, mas também questões colocadas a propósito do jogo [apostas online]”, esclareceu. “Nota-se acréscimo paulatino desta procura.” O volume das chamadas é, todavia, bastante baixo. “Tratam-se de dezenas de chamadas. Temos quatro funcionários.”
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28.4.20
14.6.16
Jovens com problemas de álcool procuram ajuda para "travar a doença na fase inicial”
in TVI24
Associação Alcoólicos Anónimos revela que os jovens que consomem álcool em excesso estão a procurar apoio antes que os seus problemas com a bebida se “transformem num verdadeiro desastre”
Jovens que consomem álcool em excesso estão a procurar apoio nos Alcoólicos Anónimos (AA) antes que os seus problemas com a bebida se “transformem num verdadeiro desastre”, segundo a associação.
Agora que o caráter progressivo da doença do alcoolismo é melhor compreendido, os jovens estão a reconhecer que, quando se é alcoólico, o melhor momento para travar a doença é na sua fase inicial”, refere a associação, na véspera do Dia Mundial dos Alcoólicos Anónimos.
Esta realidade vai ao encontro dos resultados do relatório “A situação do país em matéria de álcool 2014”, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), segundo o qual os jovens portugueses estão mais conscientes dos riscos de consumir bebidas alcoólicas do que os europeus.
O relatório aponta que a maioria dos jovens (59%) entre os 15 e os 24 anos consideram de “alto risco” o consumo regular de álcool, enquanto 36% o classificaram de “médio risco”.
Os Alcoólicos Anónimos sublinham que o facto de rapazes e raparigas se sentirem cada vez mais atraídos pelo programa é “uma das tendências mais encorajadoras no crescimento” da associação.
Em declarações à agência Lusa, Fernanda (nome fictício), membro dos AA, adiantou que “os Alcoólicos Anónimos são uma solução que responde a qualquer fase do alcoolismo, desde a pessoa que começa a sentir os primeiros danos, até à pessoa que bebe na rua”.
"A primeira fase da doença começa logo que a pessoa ingere álcool para se sentir mais desinibida”, uma situação que pode ser um “indício que começa a existir um problema com o álcool”, disse Fernanda.
Depois as quantidades de álcool que ingere vão aumentando e começa a haver “um descontrolo”: O jovem “bebe demais, mesmo que não queira, e começa a haver danos, como falta de rendimento na escola, problemas com os pais, professores e amigos e alguma agressividade”, contou.
Segundo Fernanda, os jovens procuram ajuda quando começam a sentir os efeitos nocivos do álcool e depois de “usufruírem do período de euforia em que acham que o álcool é ótimo”.
Muitos dos jovens que recorrem aos AA “andam na casa dos 20, alguns ainda nem lá chegaram” e “reconheceram que são alcoólicos”, refere a associação.
“
A sua necessidade de recuperação é tão premente quanto a de homens e mulheres mais velhos que não tiveram a oportunidade de recorrer a AA na sua juventude", acrescenta.
Também procuraam apoio nos AA cada vez mais mulheres, de todos os estratos sociais, que representam cerca de um terço dos membros da associação.
“Chegam muito mais mulheres do que chegavam anteriormente, embora se note mais nas zonas urbanas”, disse Fernanda, apontando com explicação para este aumento o facto de “haver mais informação” e de estarem “mais à vontade para procurar a solução para o seu problema”.
A associação salienta que “algumas mulheres podem eventualmente sentir-se mais estigmatizadas pela sua maneira descontrolada de beber, devido à tendência da sociedade em olhar o comportamento das mulheres de forma diferente”.
“A vergonha e a culpa são grandes nas mulheres, mas também nos homens”, mas a “reação social é diferente”, disse Fernanda, sublinhando que este comportamento é mais censurado nas mulheres do que nos homens.
Dados da Organização Mundial da Saúde relativos a 2015 referem que Portugal é um dos dez países com maior consumo de álcool per capita do mundo, com uma média de 12,5 litros.
Associação Alcoólicos Anónimos revela que os jovens que consomem álcool em excesso estão a procurar apoio antes que os seus problemas com a bebida se “transformem num verdadeiro desastre”
Jovens que consomem álcool em excesso estão a procurar apoio nos Alcoólicos Anónimos (AA) antes que os seus problemas com a bebida se “transformem num verdadeiro desastre”, segundo a associação.
Agora que o caráter progressivo da doença do alcoolismo é melhor compreendido, os jovens estão a reconhecer que, quando se é alcoólico, o melhor momento para travar a doença é na sua fase inicial”, refere a associação, na véspera do Dia Mundial dos Alcoólicos Anónimos.
Esta realidade vai ao encontro dos resultados do relatório “A situação do país em matéria de álcool 2014”, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), segundo o qual os jovens portugueses estão mais conscientes dos riscos de consumir bebidas alcoólicas do que os europeus.
O relatório aponta que a maioria dos jovens (59%) entre os 15 e os 24 anos consideram de “alto risco” o consumo regular de álcool, enquanto 36% o classificaram de “médio risco”.
Os Alcoólicos Anónimos sublinham que o facto de rapazes e raparigas se sentirem cada vez mais atraídos pelo programa é “uma das tendências mais encorajadoras no crescimento” da associação.
Em declarações à agência Lusa, Fernanda (nome fictício), membro dos AA, adiantou que “os Alcoólicos Anónimos são uma solução que responde a qualquer fase do alcoolismo, desde a pessoa que começa a sentir os primeiros danos, até à pessoa que bebe na rua”.
"A primeira fase da doença começa logo que a pessoa ingere álcool para se sentir mais desinibida”, uma situação que pode ser um “indício que começa a existir um problema com o álcool”, disse Fernanda.
Depois as quantidades de álcool que ingere vão aumentando e começa a haver “um descontrolo”: O jovem “bebe demais, mesmo que não queira, e começa a haver danos, como falta de rendimento na escola, problemas com os pais, professores e amigos e alguma agressividade”, contou.
Segundo Fernanda, os jovens procuram ajuda quando começam a sentir os efeitos nocivos do álcool e depois de “usufruírem do período de euforia em que acham que o álcool é ótimo”.
Muitos dos jovens que recorrem aos AA “andam na casa dos 20, alguns ainda nem lá chegaram” e “reconheceram que são alcoólicos”, refere a associação.
“
A sua necessidade de recuperação é tão premente quanto a de homens e mulheres mais velhos que não tiveram a oportunidade de recorrer a AA na sua juventude", acrescenta.
Também procuraam apoio nos AA cada vez mais mulheres, de todos os estratos sociais, que representam cerca de um terço dos membros da associação.
“Chegam muito mais mulheres do que chegavam anteriormente, embora se note mais nas zonas urbanas”, disse Fernanda, apontando com explicação para este aumento o facto de “haver mais informação” e de estarem “mais à vontade para procurar a solução para o seu problema”.
A associação salienta que “algumas mulheres podem eventualmente sentir-se mais estigmatizadas pela sua maneira descontrolada de beber, devido à tendência da sociedade em olhar o comportamento das mulheres de forma diferente”.
“A vergonha e a culpa são grandes nas mulheres, mas também nos homens”, mas a “reação social é diferente”, disse Fernanda, sublinhando que este comportamento é mais censurado nas mulheres do que nos homens.
Dados da Organização Mundial da Saúde relativos a 2015 referem que Portugal é um dos dez países com maior consumo de álcool per capita do mundo, com uma média de 12,5 litros.
30.12.15
Overdose. Álcool matou mais pessoas do que cocaína e heroína
in Diário de Notícias
Rua Cor de Rosa, no Cais do Sodré. Ambiente após a entrada em vigor da nova lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos.
Maioria dos casos registou-se entre os 45 e os 54 anos. Álcool é um dos cinco principais fatores de risco de morte ou doença
Em Portugal morreram 44 pessoas de overdose alcoólica. Ou seja, o consumo de bebida foi tão elevado num curto espaço de tempo que o corpo não teve capacidade para reagir à toxicidade, levando à falência dos órgãos. Este número refere-se ao ano passado e é surpreendente ainda mais quando comparado com as mortes provocadas por overdose de drogas. Em 2013 foram 22, sobretudo provocadas pelo consumo de opiáceos (o mais conhecido é a heroína) e de cocaína. O álcool é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um dos cinco principais fatores de risco de morte ou doença.
"As overdoses por álcool são mais do que as devida ao consumo de drogas. Em 2014 foram 44. A faixa etária mais prevalente foi a de 45-54 anos e daí para baixo", revela ao DN Manuel Cardoso, subdiretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), que confessa um misto de surpresa e de choque com o que os dados agora conhecidos revelam. A overdose acontece quando o fígado não é capaz de decompor os produtos tóxicos, levando ao desacelerar do sistema respiratório. O que pode acontecer com 0,6% de álcool no sangue.
Se comparadas, as overdoses por álcool são o dobro das provocadas pelas drogas ilícitas. Em 2013, o relatório "A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências", registou 22 mortes por overdose de drogas, com destaque para os opiáceos (46% dos casos), seguidos da cocaína (36%) e da metadona (27%). Nos dois anos anteriores a tendência foi semelhante: em 2012 registaram-se 29 overdoses por drogas ilícitas e em 2011 foram 19.
Embora o consumo esteja a descer, Portugal continua no top dos maiores bebedores per capita. E o consumo exagerado traz um preço a pagar que continua a ser muito alto. "Nos acidentes rodoviários 15% das mortes são atribuídas ao álcool, na violência 22% dos abusos estão relacionados com este consumo e 22% dos suicídios e sofrimento autoinfligido são atribuídos ao álcool. Nas doenças de fígado, o álcool tem um peso de 50% e 30% dos cancros da boca e da faringe estão relacionados com o este consumo", exemplifica.
"É um produto barato e acessível"
"São estas mortes que levam a que a esperança média de vida à nascença reduza em comparação com outros países europeus. O álcool contribui em, pelo menos, 6% para a redução da esperança e da qualidade de vida", refere o subdiretor-geral do SICAD, lembrando que o álcool é considerado pela OMS um dos cinco principais fatores de risco de morte ou doença. Impacto que é visível no número de anos de vida saudável, por exemplo quando se compara Portugal com os países nórdicos. "Aos 65 anos esperamos viver mais 20. Enquanto os nórdicos têm 14 a 15 anos de vida saudável, nós invertemos e temos seis a sete anos", acrescenta.
Mudar comportamentos
A lei do álcool foi alterada neste ano, passando a proibir a venda de todas as bebidas a menores de 18 anos. Manuel Cardoso explica que não é possível esperar uma mudança imediata nos padrões de consumo, mas quer ver resultados dentro de três a quatro anos, à medida que os novos limites forem sendo interiorizados. "O que assumimos com os nossos parceiros é que com menos de 18 anos não se bebe. Temos de ter uma educação para o consumo responsável", sublinha.
Os parceiros de que fala fazem parte do Fórum Álcool e Saúde, que junta 79 membros, desde a saúde, à indústria, vendedores, autoridades policiais, escolas e associações de pais. "Acreditamos que é através desta intervenção que mudamos mentalidades para maior consciência dos efeitos nocivos do álcool", diz. A publicidade, aponta, tem estado a mudar, nas escolas trabalha-se com os jovens em projetos como "Eu e os outros", em que o protagonista da história tem de tomar a decisão certa e que está a mudar de comportamentos.
Com as polícias aposta-se na fiscalização. "Um dos compromissos com a PSP e a GNR é o aumento dos testes de alcoolemia, que passaram de cerca de 500 mil para um milhão. A cada três anos o condutor devia ser testado para saber que existe fiscalização", frisa, salientando que vigiar a venda nos bares e nos restaurantes é difícil. "Tenho consciência de que dão o seu melhor, mas não têm vida fácil. O que me entristece são os pais que não se preocupam com os filhos", afirma Manuel Cardoso.
Rua Cor de Rosa, no Cais do Sodré. Ambiente após a entrada em vigor da nova lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos.
Maioria dos casos registou-se entre os 45 e os 54 anos. Álcool é um dos cinco principais fatores de risco de morte ou doença
Em Portugal morreram 44 pessoas de overdose alcoólica. Ou seja, o consumo de bebida foi tão elevado num curto espaço de tempo que o corpo não teve capacidade para reagir à toxicidade, levando à falência dos órgãos. Este número refere-se ao ano passado e é surpreendente ainda mais quando comparado com as mortes provocadas por overdose de drogas. Em 2013 foram 22, sobretudo provocadas pelo consumo de opiáceos (o mais conhecido é a heroína) e de cocaína. O álcool é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um dos cinco principais fatores de risco de morte ou doença.
"As overdoses por álcool são mais do que as devida ao consumo de drogas. Em 2014 foram 44. A faixa etária mais prevalente foi a de 45-54 anos e daí para baixo", revela ao DN Manuel Cardoso, subdiretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), que confessa um misto de surpresa e de choque com o que os dados agora conhecidos revelam. A overdose acontece quando o fígado não é capaz de decompor os produtos tóxicos, levando ao desacelerar do sistema respiratório. O que pode acontecer com 0,6% de álcool no sangue.
Se comparadas, as overdoses por álcool são o dobro das provocadas pelas drogas ilícitas. Em 2013, o relatório "A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências", registou 22 mortes por overdose de drogas, com destaque para os opiáceos (46% dos casos), seguidos da cocaína (36%) e da metadona (27%). Nos dois anos anteriores a tendência foi semelhante: em 2012 registaram-se 29 overdoses por drogas ilícitas e em 2011 foram 19.
Embora o consumo esteja a descer, Portugal continua no top dos maiores bebedores per capita. E o consumo exagerado traz um preço a pagar que continua a ser muito alto. "Nos acidentes rodoviários 15% das mortes são atribuídas ao álcool, na violência 22% dos abusos estão relacionados com este consumo e 22% dos suicídios e sofrimento autoinfligido são atribuídos ao álcool. Nas doenças de fígado, o álcool tem um peso de 50% e 30% dos cancros da boca e da faringe estão relacionados com o este consumo", exemplifica.
"É um produto barato e acessível"
"São estas mortes que levam a que a esperança média de vida à nascença reduza em comparação com outros países europeus. O álcool contribui em, pelo menos, 6% para a redução da esperança e da qualidade de vida", refere o subdiretor-geral do SICAD, lembrando que o álcool é considerado pela OMS um dos cinco principais fatores de risco de morte ou doença. Impacto que é visível no número de anos de vida saudável, por exemplo quando se compara Portugal com os países nórdicos. "Aos 65 anos esperamos viver mais 20. Enquanto os nórdicos têm 14 a 15 anos de vida saudável, nós invertemos e temos seis a sete anos", acrescenta.
Mudar comportamentos
A lei do álcool foi alterada neste ano, passando a proibir a venda de todas as bebidas a menores de 18 anos. Manuel Cardoso explica que não é possível esperar uma mudança imediata nos padrões de consumo, mas quer ver resultados dentro de três a quatro anos, à medida que os novos limites forem sendo interiorizados. "O que assumimos com os nossos parceiros é que com menos de 18 anos não se bebe. Temos de ter uma educação para o consumo responsável", sublinha.
Os parceiros de que fala fazem parte do Fórum Álcool e Saúde, que junta 79 membros, desde a saúde, à indústria, vendedores, autoridades policiais, escolas e associações de pais. "Acreditamos que é através desta intervenção que mudamos mentalidades para maior consciência dos efeitos nocivos do álcool", diz. A publicidade, aponta, tem estado a mudar, nas escolas trabalha-se com os jovens em projetos como "Eu e os outros", em que o protagonista da história tem de tomar a decisão certa e que está a mudar de comportamentos.
Com as polícias aposta-se na fiscalização. "Um dos compromissos com a PSP e a GNR é o aumento dos testes de alcoolemia, que passaram de cerca de 500 mil para um milhão. A cada três anos o condutor devia ser testado para saber que existe fiscalização", frisa, salientando que vigiar a venda nos bares e nos restaurantes é difícil. "Tenho consciência de que dão o seu melhor, mas não têm vida fácil. O que me entristece são os pais que não se preocupam com os filhos", afirma Manuel Cardoso.
9.11.15
Mais álcool e tuberculose no Norte, VIH e suicídios a Sul
Diana Melo, in Diário de Notícias
Mais de 50 agrupamentos de centros de saúde definiram grandes metas para os próximos anos
Um país desigual na saúde precisa de metas que reduzam as desigualdades. As doenças cardiovasculares e os cancros são as mais fatais para os portugueses e também as que mais mortes causam antes do esperado (70 anos). Localmente, há desafios distintos às populações: as doenças relacionadas com o álcool, como cirroses e hepatites, causam muitas mortes prematuras no Norte e no Centro. Os suicídios distribuem-se mais pelo Sul do país e doenças como a tuberculose mantêm-se em força nos maiores centros urbanos. A nível local, mais de 50 regiões já definiram as suas prioridades e estratégias para aproximar a sua saúde das melhores metas do país.
O Plano Nacional de Saúde, editado pela Direção-Geral da Saúde, foi estendido até 2020 e é o documento-base das estratégias nesta área. Pela primeira vez, vê cumprido um dos seus desígnios, "influenciar as estratégias locais de saúde", diz ao DN o coordenador do PNS, Rui Portugal.
O trabalho "no bairro" vem plasmado na "Resenha dos planos de saúde: nacional, regionais, locais", em que são definidas as prioridades de saúde para dois a três anos. "Cada região tem diferenças demográficas, de mortalidade, morbilidade ou no acesso à saúde. A ideia agora é dar recursos e responsabilizar os gestores pelas decisões de planeamento, contratualização, gestão de recursos e boas práticas. Queremos que intervenham onde há mais necessidade", explica.
O Norte define como prioridades os tumores do pulmão e do estômago, mas também a doença pulmonar obstrutiva crónica e as doenças do fígado e cirrose, por serem as maiores causas de morte prematura, acima da média do país.
O tabaco, o álcool e a hipertensão são os principais fatores de risco numa zona do país onde a tuberculose tem ainda muitos casos novos por ano, apesar de a taxa ser progressivamente mais baixa.
Pelo menos metade dos planos (25 na região) definem-na como prioritária. O Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Porto VI tinha uma taxa de 48 casos por cem mil, o dobro da meta da Organização Mundial da Saúde. O objetivo é baixar para 30 em 2016.
E os ACES definem medidas como rastreios rápidos - mesmo a contactos dos doentes -, o cumprimento dos tratamentos, a visita a doentes faltosos ou a toma de medicação assistida.
Álcool e acidentes
Os problemas associados ao álcool, como as hepatites, as cirroses e cancros são prioritários nas regiões Norte e Centro. Estas patologias são, aliás, a terceira causa de morte na região antes dos 70 anos, depois do cancro da mama e dos acidentes de viação, estes muitas vezes relacionados com os consumos abusivos. E para eles são definidas consultas de desintoxicação, como as do tabaco, mas também programas de reinserção dos doentes.
No Algarve, a tuberculose ou as doenças ligadas ao álcool têm menos peso, mas não os acidentes de transporte. No ACES Algarve III a taxa é muito superior à média, com 14,5 mortos por cem mil habitantes. No Algarve há muitos casos novos de VIH/sida e falhas graves no acesso a rastreios na área do cancro, que podem afetar as metas.
Em Lisboa, os planos locais já entregues também destacam a tuberculose e a infeção VIH/sida, o cancro, as doenças mentais e ligadas aos idosos, além das mais frequentes em Portugal. Na Amadora, por exemplo, as mortes prematuras chegam a ser quatro vezes superiores à média no VIH e no cancro.
Se os suicídios começam a aumentar em regiões menos habituais, nos planos locais de saúde eles têm mais visibilidade na região do Algarve e do Alentejo. As Unidades Locais de Saúde alentejanas trabalham estas matérias, a depressão e doenças mentais com maiores apoios na comunidade: preparação para o luto, envelhecimento ativo, educação no uso de medicação, acompanhamento em consulta e por outros profissionais.
Mais de 50 agrupamentos de centros de saúde definiram grandes metas para os próximos anos
Um país desigual na saúde precisa de metas que reduzam as desigualdades. As doenças cardiovasculares e os cancros são as mais fatais para os portugueses e também as que mais mortes causam antes do esperado (70 anos). Localmente, há desafios distintos às populações: as doenças relacionadas com o álcool, como cirroses e hepatites, causam muitas mortes prematuras no Norte e no Centro. Os suicídios distribuem-se mais pelo Sul do país e doenças como a tuberculose mantêm-se em força nos maiores centros urbanos. A nível local, mais de 50 regiões já definiram as suas prioridades e estratégias para aproximar a sua saúde das melhores metas do país.
O Plano Nacional de Saúde, editado pela Direção-Geral da Saúde, foi estendido até 2020 e é o documento-base das estratégias nesta área. Pela primeira vez, vê cumprido um dos seus desígnios, "influenciar as estratégias locais de saúde", diz ao DN o coordenador do PNS, Rui Portugal.
O trabalho "no bairro" vem plasmado na "Resenha dos planos de saúde: nacional, regionais, locais", em que são definidas as prioridades de saúde para dois a três anos. "Cada região tem diferenças demográficas, de mortalidade, morbilidade ou no acesso à saúde. A ideia agora é dar recursos e responsabilizar os gestores pelas decisões de planeamento, contratualização, gestão de recursos e boas práticas. Queremos que intervenham onde há mais necessidade", explica.
O Norte define como prioridades os tumores do pulmão e do estômago, mas também a doença pulmonar obstrutiva crónica e as doenças do fígado e cirrose, por serem as maiores causas de morte prematura, acima da média do país.
O tabaco, o álcool e a hipertensão são os principais fatores de risco numa zona do país onde a tuberculose tem ainda muitos casos novos por ano, apesar de a taxa ser progressivamente mais baixa.
Pelo menos metade dos planos (25 na região) definem-na como prioritária. O Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Porto VI tinha uma taxa de 48 casos por cem mil, o dobro da meta da Organização Mundial da Saúde. O objetivo é baixar para 30 em 2016.
E os ACES definem medidas como rastreios rápidos - mesmo a contactos dos doentes -, o cumprimento dos tratamentos, a visita a doentes faltosos ou a toma de medicação assistida.
Álcool e acidentes
Os problemas associados ao álcool, como as hepatites, as cirroses e cancros são prioritários nas regiões Norte e Centro. Estas patologias são, aliás, a terceira causa de morte na região antes dos 70 anos, depois do cancro da mama e dos acidentes de viação, estes muitas vezes relacionados com os consumos abusivos. E para eles são definidas consultas de desintoxicação, como as do tabaco, mas também programas de reinserção dos doentes.
No Algarve, a tuberculose ou as doenças ligadas ao álcool têm menos peso, mas não os acidentes de transporte. No ACES Algarve III a taxa é muito superior à média, com 14,5 mortos por cem mil habitantes. No Algarve há muitos casos novos de VIH/sida e falhas graves no acesso a rastreios na área do cancro, que podem afetar as metas.
Em Lisboa, os planos locais já entregues também destacam a tuberculose e a infeção VIH/sida, o cancro, as doenças mentais e ligadas aos idosos, além das mais frequentes em Portugal. Na Amadora, por exemplo, as mortes prematuras chegam a ser quatro vezes superiores à média no VIH e no cancro.
Se os suicídios começam a aumentar em regiões menos habituais, nos planos locais de saúde eles têm mais visibilidade na região do Algarve e do Alentejo. As Unidades Locais de Saúde alentejanas trabalham estas matérias, a depressão e doenças mentais com maiores apoios na comunidade: preparação para o luto, envelhecimento ativo, educação no uso de medicação, acompanhamento em consulta e por outros profissionais.
24.4.15
Aprovada a proibição de venda de cerveja a menores
in Jornal de Notícias
O Conselho de Ministros aprovou, esta quinta-feira, a nova lei de álcool, proibindo o consumo de bebidas alcoólicas a todos os menores de 18 anos, independentemente do tipo de bebida.
Atualmente basta ter 16 anos para poder adquirir cerveja e vinho, já que a lei atual prevê uma diferenciação entre as bebidas espirituosas, permitidas só a partir dos 18 anos, e restantes bebidas alcoólicas.
A medida aprovada em Conselho de Ministros altera o regime de disponibilização, venda e consumo de bebidas alcoólicas em locais públicos, tal como decorreu da avaliação prevista na legislação em vigor desde 2013.
Em conferência de imprensas, o titular da pasta da Saúde, Paulo Macedo, indicou que a revisão agora aprovada "uniformiza a proibição de venda de bebidas a menores, independentemente do tipo de álcool".
"Na sequência da revisão, esta nova legislação permitirá uma melhor fiscalização e uma mensagem mais clara nos espaços públicos e no acesso a bebidas pelos adolescentes", sublinhou Paulo Macedo.
O Conselho de Ministros aprovou também a revisão da lei do Tabaco, que prevê a proibição do cigarro eletrónico com nicotina e de fumar em todos os espaços públicos fechados.
De acordo com a proposta, que transpõe duas diretivas da União Europeia, é determinada a proibição de fumar nas áreas com serviço em todos os estabelecimentos de restauração e de bebidas, incluindo nos recintos de diversão, nos casinos, bingos, salas de jogos e outro tipo de recintos destinados a espetáculos de natureza não artística.
O ministro da Saúde, Paulo Macedo, lembra que esta proposta acontece passados oito anos da lei vigente do tabaco.
Os três principais objetivos são proteger os cidadãos da exposição involuntária ao fumo, proteger os próprios fumadores e promover uma proteção adicional através de maior informação.
Assim, de acordo com o ministro, os maços de cigarros deixam de ter advertências em forma de texto e passam a ter imagens dissuasoras, serão eliminados aspetos de "natureza subjetiva" como a menção a "light" ou "suave", e os produtos de tabaco com aromas distintivos, por exemplo mentol, vão passar a ser proibidos.
Vai ser ainda reforçado o combato ao tráfico de tabaco e serão regulamentados os cigarros eletrónicos, com a proibição da sua venda através da internet.
A proposta de lei tem previsto um período de moratória de 5 anos, até 2020, para se adaptarem os espaços públicos que investiram em obras para serem espaços com fumo.
O Conselho de Ministros aprovou, esta quinta-feira, a nova lei de álcool, proibindo o consumo de bebidas alcoólicas a todos os menores de 18 anos, independentemente do tipo de bebida.
Atualmente basta ter 16 anos para poder adquirir cerveja e vinho, já que a lei atual prevê uma diferenciação entre as bebidas espirituosas, permitidas só a partir dos 18 anos, e restantes bebidas alcoólicas.
A medida aprovada em Conselho de Ministros altera o regime de disponibilização, venda e consumo de bebidas alcoólicas em locais públicos, tal como decorreu da avaliação prevista na legislação em vigor desde 2013.
Em conferência de imprensas, o titular da pasta da Saúde, Paulo Macedo, indicou que a revisão agora aprovada "uniformiza a proibição de venda de bebidas a menores, independentemente do tipo de álcool".
"Na sequência da revisão, esta nova legislação permitirá uma melhor fiscalização e uma mensagem mais clara nos espaços públicos e no acesso a bebidas pelos adolescentes", sublinhou Paulo Macedo.
O Conselho de Ministros aprovou também a revisão da lei do Tabaco, que prevê a proibição do cigarro eletrónico com nicotina e de fumar em todos os espaços públicos fechados.
De acordo com a proposta, que transpõe duas diretivas da União Europeia, é determinada a proibição de fumar nas áreas com serviço em todos os estabelecimentos de restauração e de bebidas, incluindo nos recintos de diversão, nos casinos, bingos, salas de jogos e outro tipo de recintos destinados a espetáculos de natureza não artística.
O ministro da Saúde, Paulo Macedo, lembra que esta proposta acontece passados oito anos da lei vigente do tabaco.
Os três principais objetivos são proteger os cidadãos da exposição involuntária ao fumo, proteger os próprios fumadores e promover uma proteção adicional através de maior informação.
Assim, de acordo com o ministro, os maços de cigarros deixam de ter advertências em forma de texto e passam a ter imagens dissuasoras, serão eliminados aspetos de "natureza subjetiva" como a menção a "light" ou "suave", e os produtos de tabaco com aromas distintivos, por exemplo mentol, vão passar a ser proibidos.
Vai ser ainda reforçado o combato ao tráfico de tabaco e serão regulamentados os cigarros eletrónicos, com a proibição da sua venda através da internet.
A proposta de lei tem previsto um período de moratória de 5 anos, até 2020, para se adaptarem os espaços públicos que investiram em obras para serem espaços com fumo.
22.12.14
Alfredo Frade. “Houve um investimento político na droga desproporcionado em relação ao álcool"
Por Marta F. Reis, in iOnline
Psiquiatra que nos últimos anos dirigiu a Unidade de Alcoologia de Lisboa diz que ficou surpreendido com a resiliência social no país
Alfredo Frade dedicou a carreira à toxicodependência e nos últimos anos dirigiu a Unidade de Alcoologia de Lisboa. O psiquiatra reformou-se em Novembro, depois de 38 anos de serviço público. Lamenta o “ziguezague” do governo nesta área, que desmotiva os profissionais. E diz que o SNS nos últimos anos não retrocedeu, mas avançou na direcção errada.
Porque decidiu reformar-se?
Tenho 63 anos. Saí com antecipação embora não me faltasse muito. Pensei que a reforma ainda vai subir para os 67 anos e quis dedicar-me a outras coisas.
É uma decisão difícil?
Sim. São 38 anos de serviço público. Apesar de tudo é uma vida.
Por onde começou?
Formei-me na Faculdade de Medicina de Lisboa, em Santa Maria. Na altura ainda havia o serviço médico à periferia: tínhamos de nos deslocar antes de fazer a especialidade. Estive um ano em Mourão, em 1978.
Como foi essa experiência?
Havia colegas que iam um bocado contrariados. Do ponto de vista deles, aquilo atrasava o acesso à especialidade. Eu e o meu grupo fizemo-lo com grande satisfação porque era um período em que as pessoas estavam bastante envolvidas socialmente e era disso que se tratava, levar saúde para outros locais do país.
Surpreendeu-o esse contacto com o Interior alentejano?
Senti esse choque, mas isso tornava o trabalho mais gratificante. Havia pobreza mas não havia tanta desigualdade.
Nessa altura já sabia que queria ser psiquiatra?
Sim. Tive essa percepção a partir do terceiro ano de Medicina, quando começamos a contactar com doentes. Até aí queria apenas ser médico.
Que vocação é essa?
Uma apetência por cuidar dos outros. Hoje a triagem é demasiado feita pelas notas.
Nota diferenças nos jovens?
Os jovens com quem lido já são internos de psiquiatria, têm uma sensibilidade diferente. Mas o que observo mesmo em consulta é que algumas dessas pessoas que entram pela nota acabam por abandonar.
É muito comum?
Não sei, mas as notas serem tão altas e ser uma profissão sem desemprego faz com que a vocação possa não ser o único motivo. Mesmo que hoje haja outros problemas, como não haver evolução profissional e progressão de carreira. Isso tem feito muita gente sair para outros sítios e emigrar, mesmo chefes de serviço.
Mesmo assim, os médicos mantêm salários superiores à média da população. O dinheiro não se tornou demasiado preponderante?
Acho que nunca é só pelo dinheiro. Se uma pessoa vê que pode ganhar mais e que tem outras oportunidades profissionais, legitimamente sai. Se anda nos serviços a marcar passo, se não há estímulos, se não pode progredir para chefe de serviço e monetariamente é pior, é natural que se façam contas. A crise e os cortes no serviço público acentuaram isto, até porque há outra questão. Os serviços começam a desintegrar-se. E se a pessoa vê sair os colegas e o chefe, pensa porque não criar uma equipa noutro lado. Isso não seria mau se toda a gente tivesse acesso ao privado, mas o problema é que para ter acesso aos mesmos serviços, com a qualidade que dantes havia no público, será preciso pagar.
Depois de fazer a especialidade de psiquiatria começa logo a trabalhar na área das dependências?
Sim, abriu um concurso e fui admitido no Centro de Estudos de Profilaxia da Droga, numa altura em que esta área ainda estava sob a tutela do Ministério da Justiça. A droga era um problema criminal.
Essa cisão era só no papel ou havia estigma também entre profissionais?
Havia um estigma social mas na Medicina não creio que se fizesse distinção. Nisso os profissionais e técnicos da minha geração foram fundamentais e foi o nosso trabalho que culminou mais tarde na lei da descriminalização da droga. Foi um grande avanço civilizacional.
Hoje que balanço faz da estrutura de resposta às dependências?
Acaba por ser mais insuficiente no alcoolismo. Houve um grande investimento político na toxicodependência clássica, em particular com a criação do Instituto da Droga e Toxicodependência. Independentemente disso ter tido bons resultados, acabou por ser um investimento na droga desproporcionado e desfasado em relação ao álcool. A toxicodependência clássica atingiria 1% da população e o alcoolismo atinge 10%. Aí as estruturas não foram suficientemente apoiadas e hoje acabam por ainda não ser suficientes.
Como o explica?
Ao haver a mudança de paradigma a nível social, houve a percepção de que a droga dava votos e isso gerou motivação política muito forte para serem feitas coisas. O álcool, até por culturalmente continuar a ser tolerado ainda de mais, nunca foi atacado da mesma forma. Ainda há a fazer um grande caminho, que é precisamente o inverso: Temos de partir de uma tolerância social tremenda para uma maior educação da população e controlo.
Em que áreas?
Em particular junto dos jovens e na prevenção rodoviária. Parece-me também que a recente distinção que foi feita de se poder beber vinho e cerveja aos 16 e bebidas destiladas aos 18 também foi má.
Era intenção dos serviços e do ministério impor os 18 anos para todas as bebidas, o que foi travado na coligação.
Houve um condicionamento por parte do nosso actual ministro da Economia. O lobby das cervejas foi muito forte e Pires de Lima, como é público, estava muito ligado a esse sector.
Acha que esse lobby explica também o ignorar do alcoolismo não só em Portugal mas na Europa?
Sim. Os governos têm cedido sistematicamente a isso sem qualquer justificação do ponto de vista da saúde pública, com efeitos muito negativos. É preciso não esquecer que além do problema de saúde, temos a violência doméstica, que deriva muito disso também. É nesse sentido que os profissionais que trabalham nesta área se têm tentado chegar à frente com projectos. Temos agora o projecto Corda Bamba entre o Instituto Português da Juventude, a Unidade de Alcoologia de Lisboa e o centro de desabituação das Taipas que vai arrancar em Janeiro e pretende chegar aos jovens que não vão aos serviços de saúde. Apesar de me ter reformado, vou continuar a colaborar pro bono com este projecto porque quero mesmo que aconteça.
Como correu a integração dos serviços da droga e do álcool nas Administrações Regionais de Saúde, uma das mudanças introduzidas por este governo com a extinção do IDT e criação do SICAD?
Eu era um optimista em relação a isso. Nunca fui muito favorável a termos um instituto só para tratar toxicodependentes e alcoólicos. De certa forma é estigmatizante e afasta estas pessoas do restante apoio médico. Com a integração, ficámos mais perto dos centros de saúde e houve maior formação junto dos médicos de família que estavam habituados a enviar estes problemas directamente para nós. Mas continuamos sem poder referenciar os doentes directamente para consultas de outras especialidades sem ser na base do telefonema. Portanto, apesar de ganhos, não foi tudo bem conseguido e há problemas novos.
Por exemplo?
Tornou-se tudo muito mais burocrático. O que dificulta ainda mais tudo isto é que os governos, nomeadamente este, têm uma atitude de ziguezague em relação às políticas nesta área. Extinguiu-se o IDT quando não se sabia muito bem o que se ia fazer. Depois nas ARS continuou-se sem uma boa articulação. E, mais recentemente, houve um despacho que determinou que parte da resposta, nomeadamente na área da álcool, será integrada nas estruturas de Saúde Mental e não nos cuidados primários, o que aponta para uma nova separação. Esse despacho ainda não teve grande concretização, não se sabe bem o que vai acontecer.
É angustiante essa sucessão de despachos?
Para quem está no terreno é desastroso. As pessoas acabam naturalmente por perder a motivação. Tive a sorte de trabalhar sempre com pessoas muito motivadas, que faziam o seu trabalho sabendo que havia decisões políticas superiores a nós mas conseguindo ter como preocupação central cuidar dos doentes e fazer o melhor possível, pensar coisas novas.
O que é que o chocou mais no SNS nos últimos anos?
As dificuldades na prescrição e passarem a haver objectivos e plafonds a cumprir que acabam por limitar a prática médica. A saúde não pode ser gerida desta maneira e para mim é o pior momento que estamos a viver. Passou a haver uma visão demasiado financeira num serviço que tem de atender pessoas independentemente de dar lucro ou não.
O debate da sustentabilidade financeira que se acentuou nos últimos anos não é exclusivo de Portugal. Que outra resposta gostaria de ver?
Percebo que existissem gastos desnecessários e que tem de haver uma optimização de recursos. E percebo a necessidade de uma gestão criteriosa, mas não este exagero. Quando se chega ao ponto das decisões políticas retirarem autonomia aos serviços e aos médicos e de se avançar com a definição do número de minutos que os enfermeiros podem demorar a vacinar, entra-se numa esfera em que as decisões são políticas e não técnicas. A saúde passa a ter mais uma gestão financeira do que médica, o que é inconcebível e não garante os melhores cuidados.
Tendo assistido à evolução do SNS, é caso para dizer que se recuou?
Podendo ter havido recuos em algumas áreas, o que eu vejo é mais um avanço na direcção errada.
Mas os doentes ainda podem confiar no SNS?
Acho que o serviço de saúde público ainda funciona. Se tivesse um problema de saúde grave, continuaria a ir para o serviço público. Mas até pela saída de profissionais e se algo não mudar, pode não ser verdade daqui a algum tempo.
Sente o impacto da crise nas consultas?
Certamente que sim, apesar de eu acreditar que parte do impacto ver-se-á mais à frente. Nos últimos tempos o que temos visto mais são pessoas a desistirem de consultas por dificuldades de acesso. Na unidade de alcoologia tínhamos doentes que vinham das ilhas ou do Alentejo e que, com as mudanças na comparticipação dos transportes, deixaram de vir. Se calhar aparecerão mais tarde, em pior estado. Em termos de saúde mental, não vejo que tenham aumentado muito os casos novos. Houve foi uma maior descompensação nas pessoas que tinham uma fragilidade prévia, mais recaídas, o que comprova que a crise afecta os mais frágeis. Por outro lado, há indícios de um aumento da violência e agressividade, temos mais casos remetidos pelos tribunais. Mas, por exemplo, na taxa de suicídio tivemos um aumento ligeiro, não subiu dramaticamente.
Estava à espera de algo diferente?
Surpreendeu-me sinceramente que apesar de tudo não tenha havido mais problemas, o que mostra talvez que apesar de tudo somos um país com muita solidariedade e com estruturas de apoio que funcionam, muitas delas instituições particulares de solidariedade. Houve uma resiliência social muito grande. Por outro lado, surpreende-me que não tenha havido uma maior explosão social. Tivemos grandes manifestações mas agora assiste-se a um certo apaziguamento.
Encontra alguma explicação?
Não sei. Talvez se reservem para ajustes de contas políticos, seja na abstenção ou no apoio a alguns movimentos que começam a surgir. Tenho dúvidas que o apaziguamento seja eterno.
Dá para traçar algum perfil psicológico dos portugueses?
É sempre muito difícil fazer um diagnóstico colectivo. Dito isto, o que sinto é muito um carácter bipolar, períodos muito depressivos e depois de maior euforia.
O que pode ser enganador para quem nos governa?
De facto. Mas o diagnóstico dos governantes também daria pano para mangas. Há traços de personalidade muito vincados, para o bem e para o mal. Não fazendo análises individuais, temos muita sociopatia na política portuguesa, pessoas muito senhoras do seu nariz mas que conseguem lideranças fortes.
Como havemos de saber em quem confiar?
Pois, essa é a dificuldade.
Que conselho daria o psiquiatra?
Não votar sempre no mesmo, construir alternativas. Já ajudei a construir três partidos, entre eles o Bloco de Esquerda. Agora não estou politicamente activo mas acredito que temos de conseguir construir colectivamente alternativas suficientemente boas. E acho que a alternativa não pode ser voltar ao passado mas mostrar novos caminhos. É nisso que a oposição tem sido fraca e só por isso que o governo se mantém.
Desejos para 2015?
Que se consiga dar a volta a isto, individualmente e socialmente. Sou um optimista e nas equipas onde trabalhei sinto que isso facilita muito a vida das pessoas. É ao perceberem que não é solução estar numa lamentação permanente que se mobilizam para fazer coisas novas.
Psiquiatra que nos últimos anos dirigiu a Unidade de Alcoologia de Lisboa diz que ficou surpreendido com a resiliência social no país
Alfredo Frade dedicou a carreira à toxicodependência e nos últimos anos dirigiu a Unidade de Alcoologia de Lisboa. O psiquiatra reformou-se em Novembro, depois de 38 anos de serviço público. Lamenta o “ziguezague” do governo nesta área, que desmotiva os profissionais. E diz que o SNS nos últimos anos não retrocedeu, mas avançou na direcção errada.
Porque decidiu reformar-se?
Tenho 63 anos. Saí com antecipação embora não me faltasse muito. Pensei que a reforma ainda vai subir para os 67 anos e quis dedicar-me a outras coisas.
É uma decisão difícil?
Sim. São 38 anos de serviço público. Apesar de tudo é uma vida.
Por onde começou?
Formei-me na Faculdade de Medicina de Lisboa, em Santa Maria. Na altura ainda havia o serviço médico à periferia: tínhamos de nos deslocar antes de fazer a especialidade. Estive um ano em Mourão, em 1978.
Como foi essa experiência?
Havia colegas que iam um bocado contrariados. Do ponto de vista deles, aquilo atrasava o acesso à especialidade. Eu e o meu grupo fizemo-lo com grande satisfação porque era um período em que as pessoas estavam bastante envolvidas socialmente e era disso que se tratava, levar saúde para outros locais do país.
Surpreendeu-o esse contacto com o Interior alentejano?
Senti esse choque, mas isso tornava o trabalho mais gratificante. Havia pobreza mas não havia tanta desigualdade.
Nessa altura já sabia que queria ser psiquiatra?
Sim. Tive essa percepção a partir do terceiro ano de Medicina, quando começamos a contactar com doentes. Até aí queria apenas ser médico.
Que vocação é essa?
Uma apetência por cuidar dos outros. Hoje a triagem é demasiado feita pelas notas.
Nota diferenças nos jovens?
Os jovens com quem lido já são internos de psiquiatria, têm uma sensibilidade diferente. Mas o que observo mesmo em consulta é que algumas dessas pessoas que entram pela nota acabam por abandonar.
É muito comum?
Não sei, mas as notas serem tão altas e ser uma profissão sem desemprego faz com que a vocação possa não ser o único motivo. Mesmo que hoje haja outros problemas, como não haver evolução profissional e progressão de carreira. Isso tem feito muita gente sair para outros sítios e emigrar, mesmo chefes de serviço.
Mesmo assim, os médicos mantêm salários superiores à média da população. O dinheiro não se tornou demasiado preponderante?
Acho que nunca é só pelo dinheiro. Se uma pessoa vê que pode ganhar mais e que tem outras oportunidades profissionais, legitimamente sai. Se anda nos serviços a marcar passo, se não há estímulos, se não pode progredir para chefe de serviço e monetariamente é pior, é natural que se façam contas. A crise e os cortes no serviço público acentuaram isto, até porque há outra questão. Os serviços começam a desintegrar-se. E se a pessoa vê sair os colegas e o chefe, pensa porque não criar uma equipa noutro lado. Isso não seria mau se toda a gente tivesse acesso ao privado, mas o problema é que para ter acesso aos mesmos serviços, com a qualidade que dantes havia no público, será preciso pagar.
Depois de fazer a especialidade de psiquiatria começa logo a trabalhar na área das dependências?
Sim, abriu um concurso e fui admitido no Centro de Estudos de Profilaxia da Droga, numa altura em que esta área ainda estava sob a tutela do Ministério da Justiça. A droga era um problema criminal.
Essa cisão era só no papel ou havia estigma também entre profissionais?
Havia um estigma social mas na Medicina não creio que se fizesse distinção. Nisso os profissionais e técnicos da minha geração foram fundamentais e foi o nosso trabalho que culminou mais tarde na lei da descriminalização da droga. Foi um grande avanço civilizacional.
Hoje que balanço faz da estrutura de resposta às dependências?
Acaba por ser mais insuficiente no alcoolismo. Houve um grande investimento político na toxicodependência clássica, em particular com a criação do Instituto da Droga e Toxicodependência. Independentemente disso ter tido bons resultados, acabou por ser um investimento na droga desproporcionado e desfasado em relação ao álcool. A toxicodependência clássica atingiria 1% da população e o alcoolismo atinge 10%. Aí as estruturas não foram suficientemente apoiadas e hoje acabam por ainda não ser suficientes.
Como o explica?
Ao haver a mudança de paradigma a nível social, houve a percepção de que a droga dava votos e isso gerou motivação política muito forte para serem feitas coisas. O álcool, até por culturalmente continuar a ser tolerado ainda de mais, nunca foi atacado da mesma forma. Ainda há a fazer um grande caminho, que é precisamente o inverso: Temos de partir de uma tolerância social tremenda para uma maior educação da população e controlo.
Em que áreas?
Em particular junto dos jovens e na prevenção rodoviária. Parece-me também que a recente distinção que foi feita de se poder beber vinho e cerveja aos 16 e bebidas destiladas aos 18 também foi má.
Era intenção dos serviços e do ministério impor os 18 anos para todas as bebidas, o que foi travado na coligação.
Houve um condicionamento por parte do nosso actual ministro da Economia. O lobby das cervejas foi muito forte e Pires de Lima, como é público, estava muito ligado a esse sector.
Acha que esse lobby explica também o ignorar do alcoolismo não só em Portugal mas na Europa?
Sim. Os governos têm cedido sistematicamente a isso sem qualquer justificação do ponto de vista da saúde pública, com efeitos muito negativos. É preciso não esquecer que além do problema de saúde, temos a violência doméstica, que deriva muito disso também. É nesse sentido que os profissionais que trabalham nesta área se têm tentado chegar à frente com projectos. Temos agora o projecto Corda Bamba entre o Instituto Português da Juventude, a Unidade de Alcoologia de Lisboa e o centro de desabituação das Taipas que vai arrancar em Janeiro e pretende chegar aos jovens que não vão aos serviços de saúde. Apesar de me ter reformado, vou continuar a colaborar pro bono com este projecto porque quero mesmo que aconteça.
Como correu a integração dos serviços da droga e do álcool nas Administrações Regionais de Saúde, uma das mudanças introduzidas por este governo com a extinção do IDT e criação do SICAD?
Eu era um optimista em relação a isso. Nunca fui muito favorável a termos um instituto só para tratar toxicodependentes e alcoólicos. De certa forma é estigmatizante e afasta estas pessoas do restante apoio médico. Com a integração, ficámos mais perto dos centros de saúde e houve maior formação junto dos médicos de família que estavam habituados a enviar estes problemas directamente para nós. Mas continuamos sem poder referenciar os doentes directamente para consultas de outras especialidades sem ser na base do telefonema. Portanto, apesar de ganhos, não foi tudo bem conseguido e há problemas novos.
Por exemplo?
Tornou-se tudo muito mais burocrático. O que dificulta ainda mais tudo isto é que os governos, nomeadamente este, têm uma atitude de ziguezague em relação às políticas nesta área. Extinguiu-se o IDT quando não se sabia muito bem o que se ia fazer. Depois nas ARS continuou-se sem uma boa articulação. E, mais recentemente, houve um despacho que determinou que parte da resposta, nomeadamente na área da álcool, será integrada nas estruturas de Saúde Mental e não nos cuidados primários, o que aponta para uma nova separação. Esse despacho ainda não teve grande concretização, não se sabe bem o que vai acontecer.
É angustiante essa sucessão de despachos?
Para quem está no terreno é desastroso. As pessoas acabam naturalmente por perder a motivação. Tive a sorte de trabalhar sempre com pessoas muito motivadas, que faziam o seu trabalho sabendo que havia decisões políticas superiores a nós mas conseguindo ter como preocupação central cuidar dos doentes e fazer o melhor possível, pensar coisas novas.
O que é que o chocou mais no SNS nos últimos anos?
As dificuldades na prescrição e passarem a haver objectivos e plafonds a cumprir que acabam por limitar a prática médica. A saúde não pode ser gerida desta maneira e para mim é o pior momento que estamos a viver. Passou a haver uma visão demasiado financeira num serviço que tem de atender pessoas independentemente de dar lucro ou não.
O debate da sustentabilidade financeira que se acentuou nos últimos anos não é exclusivo de Portugal. Que outra resposta gostaria de ver?
Percebo que existissem gastos desnecessários e que tem de haver uma optimização de recursos. E percebo a necessidade de uma gestão criteriosa, mas não este exagero. Quando se chega ao ponto das decisões políticas retirarem autonomia aos serviços e aos médicos e de se avançar com a definição do número de minutos que os enfermeiros podem demorar a vacinar, entra-se numa esfera em que as decisões são políticas e não técnicas. A saúde passa a ter mais uma gestão financeira do que médica, o que é inconcebível e não garante os melhores cuidados.
Tendo assistido à evolução do SNS, é caso para dizer que se recuou?
Podendo ter havido recuos em algumas áreas, o que eu vejo é mais um avanço na direcção errada.
Mas os doentes ainda podem confiar no SNS?
Acho que o serviço de saúde público ainda funciona. Se tivesse um problema de saúde grave, continuaria a ir para o serviço público. Mas até pela saída de profissionais e se algo não mudar, pode não ser verdade daqui a algum tempo.
Sente o impacto da crise nas consultas?
Certamente que sim, apesar de eu acreditar que parte do impacto ver-se-á mais à frente. Nos últimos tempos o que temos visto mais são pessoas a desistirem de consultas por dificuldades de acesso. Na unidade de alcoologia tínhamos doentes que vinham das ilhas ou do Alentejo e que, com as mudanças na comparticipação dos transportes, deixaram de vir. Se calhar aparecerão mais tarde, em pior estado. Em termos de saúde mental, não vejo que tenham aumentado muito os casos novos. Houve foi uma maior descompensação nas pessoas que tinham uma fragilidade prévia, mais recaídas, o que comprova que a crise afecta os mais frágeis. Por outro lado, há indícios de um aumento da violência e agressividade, temos mais casos remetidos pelos tribunais. Mas, por exemplo, na taxa de suicídio tivemos um aumento ligeiro, não subiu dramaticamente.
Estava à espera de algo diferente?
Surpreendeu-me sinceramente que apesar de tudo não tenha havido mais problemas, o que mostra talvez que apesar de tudo somos um país com muita solidariedade e com estruturas de apoio que funcionam, muitas delas instituições particulares de solidariedade. Houve uma resiliência social muito grande. Por outro lado, surpreende-me que não tenha havido uma maior explosão social. Tivemos grandes manifestações mas agora assiste-se a um certo apaziguamento.
Encontra alguma explicação?
Não sei. Talvez se reservem para ajustes de contas políticos, seja na abstenção ou no apoio a alguns movimentos que começam a surgir. Tenho dúvidas que o apaziguamento seja eterno.
Dá para traçar algum perfil psicológico dos portugueses?
É sempre muito difícil fazer um diagnóstico colectivo. Dito isto, o que sinto é muito um carácter bipolar, períodos muito depressivos e depois de maior euforia.
O que pode ser enganador para quem nos governa?
De facto. Mas o diagnóstico dos governantes também daria pano para mangas. Há traços de personalidade muito vincados, para o bem e para o mal. Não fazendo análises individuais, temos muita sociopatia na política portuguesa, pessoas muito senhoras do seu nariz mas que conseguem lideranças fortes.
Como havemos de saber em quem confiar?
Pois, essa é a dificuldade.
Que conselho daria o psiquiatra?
Não votar sempre no mesmo, construir alternativas. Já ajudei a construir três partidos, entre eles o Bloco de Esquerda. Agora não estou politicamente activo mas acredito que temos de conseguir construir colectivamente alternativas suficientemente boas. E acho que a alternativa não pode ser voltar ao passado mas mostrar novos caminhos. É nisso que a oposição tem sido fraca e só por isso que o governo se mantém.
Desejos para 2015?
Que se consiga dar a volta a isto, individualmente e socialmente. Sou um optimista e nas equipas onde trabalhei sinto que isso facilita muito a vida das pessoas. É ao perceberem que não é solução estar numa lamentação permanente que se mobilizam para fazer coisas novas.
25.6.14
Desempregados, precários e desmotivados consomem mais álcool, tabaco e drogas
in iOnline
O estudo, feito pelo SICAD, introduz pela primeira vez à análise dos dados a questão dos consumos na população laboral e conclui que o consumo destas substâncias é maior entre esta população laboral quando comparada com a população geral
Os desempregados e os trabalhadores precários e insatisfeitos profissionalmente registam maiores consumos excessivos de álcool, tabaco, medicamentos e drogas, revela um estudo hoje divulgado e que, pela primeira vez, analisa o consumo de substâncias psicoativas na população laboral.
O estudo, feito no âmbito do III Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral 2012, introduz pela primeira vez, na análise dos dados, a questão dos consumos na população laboral e conclui que o consumo destas substâncias é maior entre esta população laboral, quando comparada com a população geral.
A investigação, promovida pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e das Dependências (SICAD), analisou o consumo diário de tabaco, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de medicamentos no último mês e o uso de substâncias ilícitas no último ano.
O consumo de bebidas alcoólicas atingia os 53,2 por cento da população laboral (50,3 por cento na população geral) e o de tabaco situava-se nos 30 por cento (26,3 por cento na população geral).
O estudo, que tem uma amostra de 6.817 entrevistas validadas no continente, Açores e Madeira, e que inclui os desempregados na população laboral, revela consumos superiores de álcool (22,9 por cento entre os homens, contra 20,7 nos empregados, em particular), tabaco (53,3 por cento entre os homens, contra 33,8 por cento nos empregados).
Também entre os trabalhadores a tempo parcial, a prevalência destes dois consumos é superior à dos trabalhadores a tempo inteiro.
O consumo diário de tabaco atinge os 56,2 por cento entre os trabalhadores homens (22,4 por cento nas mulheres), a tempo parcial, e o consumo excessivo de álcool, os 20,3 por cento (4,9 por cento nas mulheres), contra os 35,9 (20,8 nas mulheres) e os 19,6 por cento (4,9 por cento das mulheres) dos trabalhadores a tempo inteiro.
O estudo regista também maiores consumos de álcool e tabaco entre os trabalhadores em situações laborais precárias, com 43,6 por cento dos homens sem vínculo contratual a consumirem tabaco diariamente. Valores que descem para os 35,6 por cento nos trabalhadores com ligação contratual.
No caso das mulheres, o consumo de tabaco é maior entre as trabalhadoras com vínculo laboral.
O consumo excessivo de álcool atinge 32,5 por cento dos homens com trabalhos precários e 10,6 por cento das mulheres (17,9 por cento e 8,0 por cento entre os trabalhadores com contrato).
O aumento de consumos é visível também entre os trabalhadores que se declaram insatisfeitos ou pouco satisfeitos profissionalmente: 44,4 por cento dos homens e 26,1 por cento das mulheres, que se declararam insatisfeitos com o trabalho, fumam diariamente, e 29,3 por cento dos homens e 23,3 por cento das mulheres, deste universo, bebem álcool em excesso.
Embora com percentagens menos expressivas, o consumo de medicamentos e de drogas ilícitas segue a mesma tendência com os desempregados e os trabalhadores precários a registarem, em regra, consumos superiores à população com emprego.
O estudo revela ainda que o consumo diário de tabaco e de drogas ilícitas é mais frequente na faixa etária entre os 15-34 anos, enquanto o álcool e os medicamentos são sobretudo consumidos pela população entre os 35 e os 64 anos.
Para o presidente do SICAD, João Goulão, os dados revelados pelo estudo estabelecem uma associação entre as situações laborais e determinados consumos, mas, para o responsável, não é possível estabelecer "qualquer nexo de causalidade entre esses comportamentos".
No mesmo sentido, Casimiro Balsa, do Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, que coordenou o estudo, sublinhou a dificuldade de estabelecer essa relação, explicando que o estudo permite formular hipóteses que só serão confirmadas com um estudo feito em meio laboral.
"Há consumos que estão bem associados a situações de desemprego e precariedade, mas não podemos dizer que o desemprego e a precariedade conduzem ao consumo" disse.
João Goulão lembrou que se trata do primeiro estudo sobre esta área, sendo por isso preciso aprofundar a investigação destas questões.
Para o presidente do SICAD, estes são "dados importantes" para conhecer a realidade dos consumos aditivos no contexto laboral, uma prioridade do novo plano estratégico de intervenção do SICAD 2013-2015.
O estudo, feito pelo SICAD, introduz pela primeira vez à análise dos dados a questão dos consumos na população laboral e conclui que o consumo destas substâncias é maior entre esta população laboral quando comparada com a população geral
Os desempregados e os trabalhadores precários e insatisfeitos profissionalmente registam maiores consumos excessivos de álcool, tabaco, medicamentos e drogas, revela um estudo hoje divulgado e que, pela primeira vez, analisa o consumo de substâncias psicoativas na população laboral.
O estudo, feito no âmbito do III Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral 2012, introduz pela primeira vez, na análise dos dados, a questão dos consumos na população laboral e conclui que o consumo destas substâncias é maior entre esta população laboral, quando comparada com a população geral.
A investigação, promovida pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e das Dependências (SICAD), analisou o consumo diário de tabaco, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de medicamentos no último mês e o uso de substâncias ilícitas no último ano.
O consumo de bebidas alcoólicas atingia os 53,2 por cento da população laboral (50,3 por cento na população geral) e o de tabaco situava-se nos 30 por cento (26,3 por cento na população geral).
O estudo, que tem uma amostra de 6.817 entrevistas validadas no continente, Açores e Madeira, e que inclui os desempregados na população laboral, revela consumos superiores de álcool (22,9 por cento entre os homens, contra 20,7 nos empregados, em particular), tabaco (53,3 por cento entre os homens, contra 33,8 por cento nos empregados).
Também entre os trabalhadores a tempo parcial, a prevalência destes dois consumos é superior à dos trabalhadores a tempo inteiro.
O consumo diário de tabaco atinge os 56,2 por cento entre os trabalhadores homens (22,4 por cento nas mulheres), a tempo parcial, e o consumo excessivo de álcool, os 20,3 por cento (4,9 por cento nas mulheres), contra os 35,9 (20,8 nas mulheres) e os 19,6 por cento (4,9 por cento das mulheres) dos trabalhadores a tempo inteiro.
O estudo regista também maiores consumos de álcool e tabaco entre os trabalhadores em situações laborais precárias, com 43,6 por cento dos homens sem vínculo contratual a consumirem tabaco diariamente. Valores que descem para os 35,6 por cento nos trabalhadores com ligação contratual.
No caso das mulheres, o consumo de tabaco é maior entre as trabalhadoras com vínculo laboral.
O consumo excessivo de álcool atinge 32,5 por cento dos homens com trabalhos precários e 10,6 por cento das mulheres (17,9 por cento e 8,0 por cento entre os trabalhadores com contrato).
O aumento de consumos é visível também entre os trabalhadores que se declaram insatisfeitos ou pouco satisfeitos profissionalmente: 44,4 por cento dos homens e 26,1 por cento das mulheres, que se declararam insatisfeitos com o trabalho, fumam diariamente, e 29,3 por cento dos homens e 23,3 por cento das mulheres, deste universo, bebem álcool em excesso.
Embora com percentagens menos expressivas, o consumo de medicamentos e de drogas ilícitas segue a mesma tendência com os desempregados e os trabalhadores precários a registarem, em regra, consumos superiores à população com emprego.
O estudo revela ainda que o consumo diário de tabaco e de drogas ilícitas é mais frequente na faixa etária entre os 15-34 anos, enquanto o álcool e os medicamentos são sobretudo consumidos pela população entre os 35 e os 64 anos.
Para o presidente do SICAD, João Goulão, os dados revelados pelo estudo estabelecem uma associação entre as situações laborais e determinados consumos, mas, para o responsável, não é possível estabelecer "qualquer nexo de causalidade entre esses comportamentos".
No mesmo sentido, Casimiro Balsa, do Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, que coordenou o estudo, sublinhou a dificuldade de estabelecer essa relação, explicando que o estudo permite formular hipóteses que só serão confirmadas com um estudo feito em meio laboral.
"Há consumos que estão bem associados a situações de desemprego e precariedade, mas não podemos dizer que o desemprego e a precariedade conduzem ao consumo" disse.
João Goulão lembrou que se trata do primeiro estudo sobre esta área, sendo por isso preciso aprofundar a investigação destas questões.
Para o presidente do SICAD, estes são "dados importantes" para conhecer a realidade dos consumos aditivos no contexto laboral, uma prioridade do novo plano estratégico de intervenção do SICAD 2013-2015.
Comportamento aditivos nos idosos exigem "cada vez maior atenção"
in iOnline
João Goulão diz que, pela primeira vez, o plano estratégico do SICAD para abordagem dos comportamentos aditivos e das dependências contempla medidas específicas dirigidas a esta população, que tem uma “problemática muito própria”
O presidente do organismo de combate à droga em Portugal, João Goulão, defendeu hoje que os comportamentos aditivos na população idosa exigem “cada vez maior atenção” e uma reflexão acerca das “respostas possíveis” para combater este problema.
“Vamos ter que prestar cada vez maior atenção [a este problema]. Quando antes tínhamos franjas muito pouco significativas de pessoas nestas circunstâncias, hoje não será bem assim e é preciso refletir acerca das respostas possíveis”, disse à agência Lusa o presidente do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD).
Há algumas décadas, Portugal teve “um gravíssimo problema relacionado com o consumo de heroína” e, hoje, os antigos consumidores têm idades entre os 50 e 60 anos.
“São os consumidores que envelhecem, não os mais velhos que começam a consumir”, disse João Goulão, que falava à Lusa a propósito do congresso “Família, comportamentos aditivos, dependência e envelhecimento”, promovido pela Federação Portuguesa de Instituições Sociais Afetas à Prevenção de Toxicodependências (FPAT).
Contudo, há exceções a esta regra: “Há também pessoas que desenvolvem comportamentos aditivos em fases mais tardias da vida”, sublinhou.
João Goulão adiantou que estes comportamentos visam “potenciar o prazer em algumas circunstâncias ou aliviar o desprazer, que se traduz nas mais diversas formas de desagrado com o seu tipo de vida”.
“Seja porque acontecem dificuldades económicas, dificuldades familiares, isolamento, solidão, entre outras motivações, o que é facto é que existem pessoas já avançadas na idade que vêm desenvolver comportamentos, por exemplo, em relação ao jogo ou ao consumo de determinadas substâncias, nomeadamente o álcool”, acrescentou.
Apesar da idade, João Goulão disse que estas pessoas “procuram ajuda”.
Segundo dados dos Centros de Respostas Integradas e Unidades de Alcoologia, em 2012, mais de metade (53%) do total de utentes acompanhados tinham 40 ou mais anos.
Dos 24.234 utentes, 65% tinham entre os 40 e os 49 anos, 28% entre 50 e 59 anos e 7% tinham 60 ou mais anos.
Os dados referem que 63% dos utentes eram dependentes de substâncias ilícitas e 37% de álcool.
A grande maioria dos utentes são homens (83%) que apresentavam como “fatores de vulnerabilidade e risco”, a falta de autonomia, baixas habilitações literárias, inexistência de uma profissão, situação de desemprego e sem rendimentos.
João Goulão avançou que, pela primeira vez, o plano estratégico do SICAD para abordagem dos comportamentos aditivos e das dependências contempla medidas específicas dirigidas a esta população, que tem uma “problemática muito própria”.
“No que diz respeito aos dependentes de substâncias em fases mais precoces do seu ciclo de vida temos uma preocupação muito grande relativa à inserção laboral, mas em relação a estas pessoas existe outro tipo de problemática”, sublinhou.
A presidente da FPAT, Maria Helena Paes, disse que o congresso, que ocorre no dia em que se assinala o Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas, pretende ”alertar para os problemas patológicos que existem” nesta população, mas também para a sua prevenção, “procurando dar uma melhor qualidade de vida às pessoas”.
“A toxicodependência e o álcool são questões que se revestem da maior importância”, porque causam “um grande sofrimento” nas famílias.
João Goulão diz que, pela primeira vez, o plano estratégico do SICAD para abordagem dos comportamentos aditivos e das dependências contempla medidas específicas dirigidas a esta população, que tem uma “problemática muito própria”
O presidente do organismo de combate à droga em Portugal, João Goulão, defendeu hoje que os comportamentos aditivos na população idosa exigem “cada vez maior atenção” e uma reflexão acerca das “respostas possíveis” para combater este problema.
“Vamos ter que prestar cada vez maior atenção [a este problema]. Quando antes tínhamos franjas muito pouco significativas de pessoas nestas circunstâncias, hoje não será bem assim e é preciso refletir acerca das respostas possíveis”, disse à agência Lusa o presidente do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD).
Há algumas décadas, Portugal teve “um gravíssimo problema relacionado com o consumo de heroína” e, hoje, os antigos consumidores têm idades entre os 50 e 60 anos.
“São os consumidores que envelhecem, não os mais velhos que começam a consumir”, disse João Goulão, que falava à Lusa a propósito do congresso “Família, comportamentos aditivos, dependência e envelhecimento”, promovido pela Federação Portuguesa de Instituições Sociais Afetas à Prevenção de Toxicodependências (FPAT).
Contudo, há exceções a esta regra: “Há também pessoas que desenvolvem comportamentos aditivos em fases mais tardias da vida”, sublinhou.
João Goulão adiantou que estes comportamentos visam “potenciar o prazer em algumas circunstâncias ou aliviar o desprazer, que se traduz nas mais diversas formas de desagrado com o seu tipo de vida”.
“Seja porque acontecem dificuldades económicas, dificuldades familiares, isolamento, solidão, entre outras motivações, o que é facto é que existem pessoas já avançadas na idade que vêm desenvolver comportamentos, por exemplo, em relação ao jogo ou ao consumo de determinadas substâncias, nomeadamente o álcool”, acrescentou.
Apesar da idade, João Goulão disse que estas pessoas “procuram ajuda”.
Segundo dados dos Centros de Respostas Integradas e Unidades de Alcoologia, em 2012, mais de metade (53%) do total de utentes acompanhados tinham 40 ou mais anos.
Dos 24.234 utentes, 65% tinham entre os 40 e os 49 anos, 28% entre 50 e 59 anos e 7% tinham 60 ou mais anos.
Os dados referem que 63% dos utentes eram dependentes de substâncias ilícitas e 37% de álcool.
A grande maioria dos utentes são homens (83%) que apresentavam como “fatores de vulnerabilidade e risco”, a falta de autonomia, baixas habilitações literárias, inexistência de uma profissão, situação de desemprego e sem rendimentos.
João Goulão avançou que, pela primeira vez, o plano estratégico do SICAD para abordagem dos comportamentos aditivos e das dependências contempla medidas específicas dirigidas a esta população, que tem uma “problemática muito própria”.
“No que diz respeito aos dependentes de substâncias em fases mais precoces do seu ciclo de vida temos uma preocupação muito grande relativa à inserção laboral, mas em relação a estas pessoas existe outro tipo de problemática”, sublinhou.
A presidente da FPAT, Maria Helena Paes, disse que o congresso, que ocorre no dia em que se assinala o Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas, pretende ”alertar para os problemas patológicos que existem” nesta população, mas também para a sua prevenção, “procurando dar uma melhor qualidade de vida às pessoas”.
“A toxicodependência e o álcool são questões que se revestem da maior importância”, porque causam “um grande sofrimento” nas famílias.
18.3.14
Crise está a aumentar número de casos de alcoolismo
in iOnline
Augusto Pinto lembra ainda a acessibilidade ao álcool existente no nosso país, com uma “cultura muito enraizada em relação à substância” o que dificulta o trabalho de prevenção
A crise está a aumentar o número de casos de alcoolismo e a tornar os consumos mais perigosos, sobretudo nas bebidas destiladas e cerveja, alerta o presidente da Sociedade Portuguesa de Alcoologia.
“Aquilo que verificámos em estudos e padrões de consumo é que tem havido um aumento progressivo do consumo de bebidas destiladas. Mesmo no caso dos jovens, são as bebidas mais consumidas”, explica o médico Augusto Pinto, em declarações à Lusa, na véspera do Dia Nacional dos Alcoólicos Anónimos.
De acordo com o presidente da Sociedade, a crise que se vive atualmente no país “pode efetivamente agravar os consumos” e ao mesmo tempo levar “a consumos mais perigosos”, acrescentando que a capacidade de desenvolver doenças “é mais grave nas bebidas destiladas”, comparando com a ingestão de vinho.
“Sendo ambas portadoras de álcool, a quantidade é maior nas destiladas, o que faz prever uma redução do tempo necessário para chegar à doença”, alerta Augusto Pinto, avançando que são necessários dez anos de consumo “elevado, habitual, regular e excessivo” para chegar à dependência, mas, caso as bebidas destiladas sejam consumidas regularmente, a dependência surge mais cedo.
“Eu diria que a crise pode efetivamente agravar os consumos e pode levar a consumos mais perigosos. As consequências orgânicas e a capacidade de desenvolver doenças é mais grave nas bebidas destiladas do que em alguém que consume vinho ou aguardente. Sendo ambas portadoras de álcool a quantidade é maior nas destiladas”, frisa o especialista.
Para o médico, a pessoa, normalmente, não se reconhece como doente pelo facto de “beber algumas vezes de forma excessiva e ficar embriagado”, situação que “entra dentro de uma normalidade aceite na sociedade”, explica.
De acordo com Augusto Pinto, o facto de alguém beber com regularidade cria uma situação designada no meio médico como tolerância, ou seja, a pessoa vai aguentando-se cada vez mais tempo sem ficar embriagada.
“Fica com a ideia de que aguenta cada vez mais a bebida e que isso é um aspeto positivo e não negativo. Ora quanto maior capacidade de consumo a pessoa tem (…) mais perto está de ser meu cliente, doente”, explicou.
Augusto Pinto desmistifica ainda o mito de que os doentes alcoólicos andam sempre embriagados, alertando que é precisamente o contrário, graças à tolerância que ganham através do tempo.
“Quando começam a reduzir essa capacidade [de enorme tolerância] é sempre um mau prognóstico. Significa que em termos cerebrais e hepáticos as coisas estão piores ou agravadas”, revela.
De acordo com o especialista, há muito a fazer na área da prevenção e intervenção precoce, embora reconhecendo que a existência de um dia nacional possa chamar a atenção do problema, revela que não tem o mesmo impacto ao nível de doentes com outro tipo de patologias, porque se tratam de doentes com dificuldade em aparecer, na sua maioria anónimos.
“Sempre defendemos a existência, para além dos grupos de alcoólicos anónimos, de grupos de alcoólicos tratados, já que todos são importantes porque são ambos de autoajuda. Em algumas pessoas é importante a relação de anonimato, mas outros encaram a doença como outra qualquer e havia a necessidade de que estes estigmas fossem esbatidos na sociedade e que se respeitasse ainda mais os doentes não tratados”, salientou.
Augusto Pinto lembra ainda a acessibilidade ao álcool existente no nosso país, com uma “cultura muito enraizada em relação à substância” o que dificulta o trabalho de prevenção.
“Toda a população considera normal o consumo de bebidas alcoólicas, não perspetivamos nenhuma atividade festiva sem álcool. Em todas as festas há álcool na mesa”, lembra.
Para Augusto Pinto, parte da solução do problema passa pela “mudança de consciência” e aceitação do doente tratado na sociedade e o aumento das respostas, nomeadamente na capacidade de intervenção de técnicos e médicos especializados no problema.
Augusto Pinto lembra ainda a acessibilidade ao álcool existente no nosso país, com uma “cultura muito enraizada em relação à substância” o que dificulta o trabalho de prevenção
A crise está a aumentar o número de casos de alcoolismo e a tornar os consumos mais perigosos, sobretudo nas bebidas destiladas e cerveja, alerta o presidente da Sociedade Portuguesa de Alcoologia.
“Aquilo que verificámos em estudos e padrões de consumo é que tem havido um aumento progressivo do consumo de bebidas destiladas. Mesmo no caso dos jovens, são as bebidas mais consumidas”, explica o médico Augusto Pinto, em declarações à Lusa, na véspera do Dia Nacional dos Alcoólicos Anónimos.
De acordo com o presidente da Sociedade, a crise que se vive atualmente no país “pode efetivamente agravar os consumos” e ao mesmo tempo levar “a consumos mais perigosos”, acrescentando que a capacidade de desenvolver doenças “é mais grave nas bebidas destiladas”, comparando com a ingestão de vinho.
“Sendo ambas portadoras de álcool, a quantidade é maior nas destiladas, o que faz prever uma redução do tempo necessário para chegar à doença”, alerta Augusto Pinto, avançando que são necessários dez anos de consumo “elevado, habitual, regular e excessivo” para chegar à dependência, mas, caso as bebidas destiladas sejam consumidas regularmente, a dependência surge mais cedo.
“Eu diria que a crise pode efetivamente agravar os consumos e pode levar a consumos mais perigosos. As consequências orgânicas e a capacidade de desenvolver doenças é mais grave nas bebidas destiladas do que em alguém que consume vinho ou aguardente. Sendo ambas portadoras de álcool a quantidade é maior nas destiladas”, frisa o especialista.
Para o médico, a pessoa, normalmente, não se reconhece como doente pelo facto de “beber algumas vezes de forma excessiva e ficar embriagado”, situação que “entra dentro de uma normalidade aceite na sociedade”, explica.
De acordo com Augusto Pinto, o facto de alguém beber com regularidade cria uma situação designada no meio médico como tolerância, ou seja, a pessoa vai aguentando-se cada vez mais tempo sem ficar embriagada.
“Fica com a ideia de que aguenta cada vez mais a bebida e que isso é um aspeto positivo e não negativo. Ora quanto maior capacidade de consumo a pessoa tem (…) mais perto está de ser meu cliente, doente”, explicou.
Augusto Pinto desmistifica ainda o mito de que os doentes alcoólicos andam sempre embriagados, alertando que é precisamente o contrário, graças à tolerância que ganham através do tempo.
“Quando começam a reduzir essa capacidade [de enorme tolerância] é sempre um mau prognóstico. Significa que em termos cerebrais e hepáticos as coisas estão piores ou agravadas”, revela.
De acordo com o especialista, há muito a fazer na área da prevenção e intervenção precoce, embora reconhecendo que a existência de um dia nacional possa chamar a atenção do problema, revela que não tem o mesmo impacto ao nível de doentes com outro tipo de patologias, porque se tratam de doentes com dificuldade em aparecer, na sua maioria anónimos.
“Sempre defendemos a existência, para além dos grupos de alcoólicos anónimos, de grupos de alcoólicos tratados, já que todos são importantes porque são ambos de autoajuda. Em algumas pessoas é importante a relação de anonimato, mas outros encaram a doença como outra qualquer e havia a necessidade de que estes estigmas fossem esbatidos na sociedade e que se respeitasse ainda mais os doentes não tratados”, salientou.
Augusto Pinto lembra ainda a acessibilidade ao álcool existente no nosso país, com uma “cultura muito enraizada em relação à substância” o que dificulta o trabalho de prevenção.
“Toda a população considera normal o consumo de bebidas alcoólicas, não perspetivamos nenhuma atividade festiva sem álcool. Em todas as festas há álcool na mesa”, lembra.
Para Augusto Pinto, parte da solução do problema passa pela “mudança de consciência” e aceitação do doente tratado na sociedade e o aumento das respostas, nomeadamente na capacidade de intervenção de técnicos e médicos especializados no problema.
21.2.13
Cerveja é a bebida alcoólica mais consumida por jovens portugueses
in Jornal de Notícias
O psiquiatra Domingos Neto alertou, esta quinta-feira, que a cerveja é a bebida alcoólica mais consumida pelos jovens portugueses, razão pela qual considera não fazer sentido impor um limite de idade diferente para o seu consumo.
"O álcool é todo igual e o álcool que é mais consumido pelos jovens é a cerveja. Que é uma bebida forte per si e cria hábitos alcoólicos persistentes e duradouros. Esta divisão da lei não faz sentido", declarou à agência Lusa Domingos Neto.
O alcoologista falava a propósito da nova lei do álcool, que será hoje discutida em Conselho de Ministros e que deverá aumentar a idade mínima da venda e consumo de bebidas espirituosas para 18 anos, mantendo-a nos 16 anos nos casos do vinho e da cerveja.
Para Domingos Neto, esta divisão entre cerveja, vinho e bebidas espirituosas não tem lógica nem do ponto de vista pedagógico: "dá uma ideia de que há um álcool bom e um álcool mau, o que não é verdade".
Além disso, o especialista considera que esta distinção pode dar a noção de que a cerveja "é uma espécie de álcool fraquinho ou que se bebe pouco", uma ideia igualmente errada.
Também o presidente do SICAD, antigo Instituto da Droga e da Toxicodependência, já tinha alertado para um excessivo consumo de cerveja por parte dos jovens.
Numa entrevista à Lusa no final do ano passado, João Goulão reconheceu que os jovens estão a beber mais álcool, mas apanham cada vez menos bebedeiras, porque regressaram à cerveja e repartem o consumo por vários dias da semana.
O responsável apontou para uma mudança de padrão no consumo jovem, com uma diminuição do consumo de bebidas espirituosas e das bebedeiras pontuais e um aumento do consumo de cerveja de forma mais regular.
O psiquiatra Domingos Neto até reconhece que o diploma que será hoje discutido em Conselho de Ministros pode representar um avanço em relação à lei em vigor, onde o limite mínimo que vigora para consumo de álcool são os 16 anos. Contudo, teme que se tenha perdido uma "boa oportunidade de colocar o consumo aos 18 anos para todos os tipos de álcool".
Questionado sobre a razão para diferenciar algumas bebidas, Domingos Neto lembrou que as cervejeiras têm "uma força de lóbi" que as representantes das bebidas espirituosas não alcançam.
"As cervejeiras são muito poderosas em Portugal e têm representantes muito bem situados politicamente, inclusivamente na Assembleia da República", argumentou, notando ainda que estas empresas dirigem a sua publicidade diretamente aos "grupos de risco", como os jovens.
O alcoologista frisa que não se deve "atacar o álcool como se fosse uma droga", até porque a maioria da população consome o produto de forma moderada e não problemática.
Contudo, há uma "minoria significativa" para quem é uma droga. Trata-se de pessoas que não têm mecanismos biológicos de contenção, tal como acontece com os jovens.
O perito avisa também que o consumo de álcool juvenil está associado a mau rendimento escolar, porque o cérebro não está desenvolvido para metabolizar a substância, e também contribui de forma significativa para a mortalidade em acidentes de viação.
O psiquiatra Domingos Neto alertou, esta quinta-feira, que a cerveja é a bebida alcoólica mais consumida pelos jovens portugueses, razão pela qual considera não fazer sentido impor um limite de idade diferente para o seu consumo.
"O álcool é todo igual e o álcool que é mais consumido pelos jovens é a cerveja. Que é uma bebida forte per si e cria hábitos alcoólicos persistentes e duradouros. Esta divisão da lei não faz sentido", declarou à agência Lusa Domingos Neto.
O alcoologista falava a propósito da nova lei do álcool, que será hoje discutida em Conselho de Ministros e que deverá aumentar a idade mínima da venda e consumo de bebidas espirituosas para 18 anos, mantendo-a nos 16 anos nos casos do vinho e da cerveja.
Para Domingos Neto, esta divisão entre cerveja, vinho e bebidas espirituosas não tem lógica nem do ponto de vista pedagógico: "dá uma ideia de que há um álcool bom e um álcool mau, o que não é verdade".
Além disso, o especialista considera que esta distinção pode dar a noção de que a cerveja "é uma espécie de álcool fraquinho ou que se bebe pouco", uma ideia igualmente errada.
Também o presidente do SICAD, antigo Instituto da Droga e da Toxicodependência, já tinha alertado para um excessivo consumo de cerveja por parte dos jovens.
Numa entrevista à Lusa no final do ano passado, João Goulão reconheceu que os jovens estão a beber mais álcool, mas apanham cada vez menos bebedeiras, porque regressaram à cerveja e repartem o consumo por vários dias da semana.
O responsável apontou para uma mudança de padrão no consumo jovem, com uma diminuição do consumo de bebidas espirituosas e das bebedeiras pontuais e um aumento do consumo de cerveja de forma mais regular.
O psiquiatra Domingos Neto até reconhece que o diploma que será hoje discutido em Conselho de Ministros pode representar um avanço em relação à lei em vigor, onde o limite mínimo que vigora para consumo de álcool são os 16 anos. Contudo, teme que se tenha perdido uma "boa oportunidade de colocar o consumo aos 18 anos para todos os tipos de álcool".
Questionado sobre a razão para diferenciar algumas bebidas, Domingos Neto lembrou que as cervejeiras têm "uma força de lóbi" que as representantes das bebidas espirituosas não alcançam.
"As cervejeiras são muito poderosas em Portugal e têm representantes muito bem situados politicamente, inclusivamente na Assembleia da República", argumentou, notando ainda que estas empresas dirigem a sua publicidade diretamente aos "grupos de risco", como os jovens.
O alcoologista frisa que não se deve "atacar o álcool como se fosse uma droga", até porque a maioria da população consome o produto de forma moderada e não problemática.
Contudo, há uma "minoria significativa" para quem é uma droga. Trata-se de pessoas que não têm mecanismos biológicos de contenção, tal como acontece com os jovens.
O perito avisa também que o consumo de álcool juvenil está associado a mau rendimento escolar, porque o cérebro não está desenvolvido para metabolizar a substância, e também contribui de forma significativa para a mortalidade em acidentes de viação.
Deco diz que nova lei do álcool é "claro recuo" na prevenção do alcoolismo.
in Jornal de Notícias
A Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor considera que a existência de duas idades mínimas para a venda e consumo de álcool "não faz qualquer sentido" e representa um "claro recuo" na prevenção do alcoolismo.
Em reação à nova lei do álcool, aprovada em Conselho de Ministros, esta quinta-feira, Bruno Campos Santos disse à Lusa que estas medidas representam "um recuo claro na prevenção do consumo de álcool", nomeadamente a existência de uma idade mínima para a venda e consumo das bebidas espirituosas (18 anos) e outra para o vinho e a cerveja (16 anos).
"É como permitir aos jovens fumar cigarros a partir dos 16 anos e só fumar charutos a partir dos 18 anos", disse Bruno Campos Santos.
Este responsável da DECO disse desconhecer qualquer fundamento científico para esta diferenciação e considera que "vai em contramão com a realidade em Portugal".
"Todos nós sabemos que os jovens consomem mais cerveja, porque só têm poder económico para esta bebida, e consomem muito, principalmente através das «litradas»", que consistem na ingestão de grandes quantidades deste tipo de bebida.
"Só quem não conhece a realidade é que pode achar que estas mudanças vão disciplinar o acesso ao álcool", adiantou.
Bruno Campos Santos disse ainda ter dúvidas sobre a fiscalização da lei.
A Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor considera que a existência de duas idades mínimas para a venda e consumo de álcool "não faz qualquer sentido" e representa um "claro recuo" na prevenção do alcoolismo.
Em reação à nova lei do álcool, aprovada em Conselho de Ministros, esta quinta-feira, Bruno Campos Santos disse à Lusa que estas medidas representam "um recuo claro na prevenção do consumo de álcool", nomeadamente a existência de uma idade mínima para a venda e consumo das bebidas espirituosas (18 anos) e outra para o vinho e a cerveja (16 anos).
"É como permitir aos jovens fumar cigarros a partir dos 16 anos e só fumar charutos a partir dos 18 anos", disse Bruno Campos Santos.
Este responsável da DECO disse desconhecer qualquer fundamento científico para esta diferenciação e considera que "vai em contramão com a realidade em Portugal".
"Todos nós sabemos que os jovens consomem mais cerveja, porque só têm poder económico para esta bebida, e consomem muito, principalmente através das «litradas»", que consistem na ingestão de grandes quantidades deste tipo de bebida.
"Só quem não conhece a realidade é que pode achar que estas mudanças vão disciplinar o acesso ao álcool", adiantou.
Bruno Campos Santos disse ainda ter dúvidas sobre a fiscalização da lei.
12.7.12
Há cada vez mais mulheres e jovens alcoólicos
in Sol
Está a aumentar o número de alcoólicos que procuram ajuda e observa-se, em particular, uma tendência de crescimento do número de mulheres e jovens com problemas de alcoolismo.
«Nota-se um aumento no número de casos de alcoolismo. Continua a haver mais homens, mas o alcoolismo feminino está a subir, tal como o juvenil» – revela o director da Unidade de Alcoologia de Lisboa, Alfredo Frade. Igual percepção tem a comunidade Alcoólicos Anónimos (AA). «Nos últimos dez anos, tem aumentado o número de mulheres. E, neste momento, temos também muitos jovens de 20 e poucos anos», alerta António D., responsável pela comunicação dos AA. «Posso dizer que, neste momento, as mulheres talvez representem um terço da nossa comunidade», acrescenta.
João Goulão, responsável pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), afirma ao SOL não ter disponíveis dados sobre o número de alcoólicos em Portugal, não podendo, por isso, «objectivar» se a crise económica fez disparar o consumo de álcool. Goulão lembra, porém, que Portugal continua a ser um dos países da Europa com maiores consumos de álcool e reforça que, «segundo a observação directa no terreno», verifica-se «uma maior procura de ajuda de pessoas com problemas de alcoolismo».
João Goulão lembra que «o consumo de álcool serve para duas coisas: para dar prazer e para alívio do desprazer». Marta, de 32 anos, sabe bem o que isso é, ou não fosse uma alcoólica em recuperação. Esta jovem, que vive em Lisboa, é uma das mais de mil pessoas que integram os AA. Mas o álcool não é a sua única adicção: Marta assume ter um problema de adicção com comida (desde os cinco anos), compras e séries televisivas, e também sabe que não pode tocar em drogas.
Histórias de dependência
O SOL conheceu Marta numa reunião aberta dos AA, na zona de Belém. Na mesma mesa estavam mais cinco mulheres e outros tantos homens. Marta – loura, de rosto bonito e olhos azuis –, foi acompanhada pelo marido, para que este percebesse os AA. O marido da jovem ouviu os testemunhos de pessoas que não sabem como sobreviveram ao álcool. Histórias de pessoas que, em sobriedade, são capazes de falar do que antes escondiam, como é o caso de Vasco que, na reunião, assumiu o descontrolo: «Não matei ninguém porque não calhou. Destruí três carros, fiz dezenas de quilómetros em coma alcoólico. Felizmente estou cá para contar os disparates que durante 40 anos fiz».
Silvina, que estará a abeirar os 50 anos, é recém-chegada aos AA. Está sem beber há poucos dias. E acusa a ansiedade no modo como fala: «Nas reuniões sinto-me aceite, dão-me colinho. E isso é muito bom».
Marta não se esconde atrás de problemas para justificar a dependência. Tem consciência de que é alcoólica desde os 28 anos. «Há pessoas a quem acontecem mil e uma desgraças e não são adictas. A mim nunca me aconteceu nada de extraordinário na vida e sou adicta», sublinha. «A adicção serve para não vermos determinados aspectos da nossa vida; é mais fácil ocuparmos a cabeça com determinada adicção do que agir», explica. Esta jovem começou a beber em excesso numa altura em que iniciou uma dieta rigorosa. «O álcool veio colmatar a adicção da comida», lembra. E como para Marta «só se deixa de estar na adicção quando a dor da adicção é maior do que a causa do problema», a procura de ajuda só surgiu em 2010, quando percebeu que o casamento estava mesmo em perigo.
Marta sabe que nunca se pode achar mais forte que a doença. Por isso, nunca sai de casa sem um plano de ajuda: «Gosto de fazer planos e partilhá-los com os outros, para me sentir mais obrigada a cumpri-los».
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