Mostrar mensagens com a etiqueta Causas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Causas. Mostrar todas as mensagens

5.7.23

Mais oportunidades, períodos mais curtos: será esta a receita para promover o voluntariado jovem?

Ana Catarina Gil, in Público online

A última edição das PSuperior Talks, que aconteceu esta terça-feira, focou-se no desafio de trazer os mais jovens para o voluntariado.

Em Portugal, são os jovens que mais se dedicam ao voluntariado – só a faixa etária dos 15 aos 24 anos representa 11,3% dos voluntários portugueses – contudo, o grosso da população permanece distante das novas formas de envolvimento cívico. O que se pode fazer para mudar este paradigma? O tema esteve em debate esta terça-feira em Évora, fruto de uma parceria do PSuperior com a Fundação Eugénio de Almeida. As soluções podem passar pela criação de mais bancos de voluntariado que se traduzam em mais oportunidades e actividades temporárias que acompanhem os períodos lectivos.

Participaram neste debate Henrique Sim-Sim, coordenador da área social e de desenvolvimento da Fundação Eugénio de Almeida, Carla Ventura, vice-presidente da CASES (Cooperativa António Sérgio para a Economia Social), Cátia Martins, professora da Universidade do Algarve e Carmen Garcia, enfermeira, autora de "A Mãe Imperfeita" e colunista do PÚBLICO. A moderação ficou a cargo de Mariana Adam, editora do PÚBLICO.

Eis os factos: em toda a Europa, 19,3% da população afirma dedicar-se ao voluntariado. Contudo, e segundo o Inquérito ao Trabalho Voluntário de 2018, em Portugal, esse valor é de apenas 7,8%. Ainda que uma grande parte sejam jovens, é importante olhar para estes dados e pensar como se pode atrair mais pessoas para as acções de voluntariado.

Cátia Martins, investigadora na área do voluntariado e professora da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, diz que, depois da primeira experiência positiva, a "sementinha" do voluntariado "fica lá", contudo salienta o papel importante da academia para “consciencializar e dar oportunidades” para o voluntariado.

Este tipo de actividades pode ser promovido enquanto uma forma de desenvolver competências necessárias para a entrada no mercado de trabalho e isso deve ser servir como meio de convencer os jovens a participar. Contudo, para isso, pode ser preciso abrir o leque a diferentes actividades e enquadrá-las de acordo com o perfil de interesses dos jovens, ajustando de acordo com o tempo livre que têm, defende a professora.

Cátia Martins sugere pensar num voluntariado em “períodos mais curtos”, como um semestre e salienta que as experiências pontuais devem ser “valorizadas”.

O tempo foi um dos factores também apontados por Carmen Garcia, enfermeira e autora do blog Mãe Imperfeita. Especialmente quando se “trabalha por turnos”, conciliar a vida profissional com uma actividade de voluntariado pode revelar-se uma tarefa espinhosa: “Há profissões que têm muito a dar ao voluntariado, mas a logística não ajuda”, sentencia.
E as oportunidades?

Também Henrique Sim-Sim, coordenador da Área Social e Desenvolvimento da fundação Eugénio de Almeida, sugere que se aumente o número de iniciativas de voluntariado pontual, que pode ser uma forma de aumentar a participação dos jovens. Além disso, e olhando para o outro lado, é preciso fortalecer a capacidade de acolhimento de voluntário por parte das instituições.

“As organizações dentro da economia social são muitas, dinâmicas e persistentes nos territórios de baixa densidade”, diagnostica, contudo os “técnicos [que trabalham nessas instituições] são pessoas e, por isso, limitados na sua acção”, precisando de ser “capacitados” para acolher voluntários.

Além disso, e conforme ditam as melhores práticas internacionais, as próprias organizações precisam de ser apoiadas financeiramente “para poderem continuar a desenvolver a sua prática de voluntariado”.

Para isso, é importante reforçar o “papel das estruturas”, defende Carla Ventura, vice-presidente da CASES. “Há muitas pessoas que querem fazer voluntariado, mas não sabem onde”, afirma. Por isso, apostar na criação e formação de bancos locais de voluntariado, assim como na aproximação entre organizações e comunidades é fundamental, e exige uma maior acção por parte de entidades enquadradoras como as autarquias.

Ainda olhando para o lado das instituições, Carmen Garcia salienta a importância de haver uma maior abertura e complementaridade das instituições em relação aos voluntários.

“Tenho tido muita dificuldade em fazer com que as nossas instituições percebam as vantagens do voluntariado”, avalia, com base no que vê nos lares onde trabalha. “Há um princípio básico no voluntariado que é o principio da complementaridade: não é suposto que os voluntários vão substituir ou fazer o trabalho que deveria ser feito pelos funcionários. O que acontece muitas vezes nos nossos lares é que estamos sempre no limite dos recursos humanos e se vai um voluntário precisamos antes que ele vá dar os jantares aos acamados”, afirma.

Apesar de tudo, não deixa de ter uma visão positiva: “Podemos ficar esperançosos porque há muitos miúdos que querem fazer voluntariado.” Basta criar oportunidades.

Texto editado por Inês Chaíça

18.5.23

Mais oportunidades, períodos mais curtos: será esta a receita para promover o voluntariado jovem?

Ana Catarina Gil, in Público

A última edição das PSuperior Talks, que aconteceu esta terça-feira, focou-se no desafio de trazer os mais jovens para o voluntariado.


Em Portugal, são os jovens que mais se dedicam ao voluntariado – só a faixa etária dos 15 aos 24 anos representa 11,3% dos voluntários portugueses – contudo, o grosso da população permanece distante das novas formas de envolvimento cívico. O que se pode fazer para mudar este paradigma? O tema esteve em debate esta terça-feira em Évora, fruto de uma parceria do PSuperior com a Fundação Eugénio de Almeida. As soluções podem passar pela criação de mais bancos de voluntariado que se traduzam em mais oportunidades e actividades temporárias que acompanhem os períodos lectivos.


Participaram neste debate Henrique Sim-Sim, coordenador da área social e de desenvolvimento da Fundação Eugénio de Almeida, Carla Ventura, vice-presidente da CASES (Cooperativa António Sérgio para a Economia Social), Cátia Martins, professora da Universidade do Algarve e Carmen Garcia, enfermeira, autora de "A Mãe Imperfeita" e colunista do PÚBLICO. A moderação ficou a cargo de Mariana Adam, editora do PÚBLICO.

Eis os factos: em toda a Europa, 19,3% da população afirma dedicar-se ao voluntariado. Contudo, e segundo o Inquérito ao Trabalho Voluntário de 2018, em Portugal, esse valor é de apenas 7,8%. Ainda que uma grande parte sejam jovens, é importante olhar para estes dados e pensar como se pode atrair mais pessoas para as acções de voluntariado.

Cátia Martins, investigadora na área do voluntariado e professora da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, diz que, depois da primeira experiência positiva, a "sementinha" do voluntariado "fica lá", contudo salienta o papel importante da academia para “consciencializar e dar oportunidades” para o voluntariado.

Este tipo de actividades pode ser promovido enquanto uma forma de desenvolver competências necessárias para a entrada no mercado de trabalho e isso deve ser servir como meio de convencer os jovens a participar. Contudo, para isso, pode ser preciso abrir o leque a diferentes actividades e enquadrá-las de acordo com o perfil de interesses dos jovens, ajustando de acordo com o tempo livre que têm, defende a professora.

Cátia Martins sugere pensar num voluntariado em “períodos mais curtos”, como um semestre e salienta que as experiências pontuais devem ser “valorizadas”.

O tempo foi um dos factores também apontados por Carmen Garcia, enfermeira e autora do blog Mãe Imperfeita. Especialmente quando se “trabalha por turnos”, conciliar a vida profissional com uma actividade de voluntariado pode revelar-se uma tarefa espinhosa: “Há profissões que têm muito a dar ao voluntariado, mas a logística não ajuda”, sentencia.
E as oportunidades?

Também Henrique Sim-Sim, coordenador da Área Social e Desenvolvimento da fundação Eugénio de Almeida, sugere que se aumente o número de iniciativas de voluntariado pontual, que pode ser uma forma de aumentar a participação dos jovens. Além disso, e olhando para o outro lado, é preciso fortalecer a capacidade de acolhimento de voluntário por parte das instituições.

“As organizações dentro da economia social são muitas, dinâmicas e persistentes nos territórios de baixa densidade”, diagnostica, contudo os “técnicos [que trabalham nessas instituições] são pessoas e, por isso, limitados na sua acção”, precisando de ser “capacitados” para acolher voluntários.

Além disso, e conforme ditam as melhores práticas internacionais, as próprias organizações precisam de ser apoiadas financeiramente “para poderem continuar a desenvolver a sua prática de voluntariado”.

Para isso, é importante reforçar o “papel das estruturas”, defende Carla Ventura, vice-presidente da CASES. “Há muitas pessoas que querem fazer voluntariado, mas não sabem onde”, afirma. Por isso, apostar na criação e formação de bancos locais de voluntariado, assim como na aproximação entre organizações e comunidades é fundamental, e exige uma maior acção por parte de entidades enquadradoras como as autarquias.

Ainda olhando para o lado das instituições, Carmen Garcia salienta a importância de haver uma maior abertura e complementaridade das instituições em relação aos voluntários.

“Tenho tido muita dificuldade em fazer com que as nossas instituições percebam as vantagens do voluntariado”, avalia, com base no que vê nos lares onde trabalha. “Há um princípio básico no voluntariado que é o principio da complementaridade: não é suposto que os voluntários vão substituir ou fazer o trabalho que deveria ser feito pelos funcionários. O que acontece muitas vezes nos nossos lares é que estamos sempre no limite dos recursos humanos e se vai um voluntário precisamos antes que ele vá dar os jantares aos acamados”, afirma.

Apesar de tudo, não deixa de ter uma visão positiva: “Podemos ficar esperançosos porque há muitos miúdos que querem fazer voluntariado.” Basta criar oportunidades.

Texto editado por Inês Chaíça

9.5.23

Dos trapos aos tampões: a evolução dos produtos menstruais ao longo da História

Helen King, in Público


Na Grécia Antiga, acreditava-se que era saudável ter períodos abundantes. A relação das mulheres com a sua menstruação mudou ao longo dos séculos — e os produtos que usam nesses dias também.


Em 2023, as menstruações ainda são um tabu. Ainda que seja evocado, por exemplo, na arte contemporânea, este evento fisiológico que afecta as mulheres (e alguns homens trans) durante uma boa parte das suas vidas ainda não é um tópico de conversa comum.


Normalmente, as menstruações são vistas como algo que é preciso conter – as fugas menstruais são consideradas vergonhosas apesar das campanhas que querem ajudar as jovens a sentirem-se mais à vontade para falar sobre o tema.


Para várias mulheres, esse período traduz-se numa perda de sangue equivalente a duas ou três colheres de sopa durante os quatro ou cinco dias que duram as menstruações. Durante esse período, recorrem a tampões, pensos higiénicos ou copos menstruais.

Mas um estudo de 2019 sobre a forma como as mulheres do mundo inteiro gerem os seus períodos mostrou que muitas delas ainda usam folhas, lã de ovelha, papel de jornal, ervas ou mesmo excrementos de vaca como substância absorvente.

Um relatório da Unesco, de 2016, revelou que 10% das jovens mulheres africanas não iam à escola durante os seus períodos. De facto, um dos meios de evitar as fugas é simplesmente não sair de casa durante o período, o que explica que a menstruação ainda tenha consequências relevantes na educação das mulheres.
Os períodos na História

Todavia, as mulheres não tiveram sempre a mesma relação com as suas menstruações.

É provável que, noutras épocas, as mulheres tenham tido menos períodos e com sangramentos mais ligeiros. Isto explica-se não apenas por passarem uma grande parte das suas vidas grávidas, mas também porque a sua alimentação era mais pobre do que a dos dias de hoje.

Apesar disso, textos médicos que datam da Grécia Antiga afirmam que o sangramento ideal devia ser abundante. Isso explica-se pela crença de que as menstruações aconteciam porque os corpos das mulheres tinham uma textura mais esponjosa do que os dos homens. A sua carne absorvia mais do que elas comiam e bebiam e o sangramento era visto como benéfico para a saúde. Pensava-se mesmo que o sangue que não saía podia causar doenças mentais.

Até ao século XIX, os textos médicos repetiam as ideias herdadas da Grécia Antiga, mas no advento da Europa Moderna, os homens pareciam mais à vontade para falar sobre menstruações. Samuel Pepys, homem de Letras do século XVII, mencionava por exemplo o ciclo menstrual da mulher no seu diário.

No que diz respeito aos sangramentos, a historiadora Sara Read conclui que, nessa época, a maioria das mulheres sangrava simplesmente através das roupas ou utilizava, ocasionalmente, trapos colocados entre as coxas ou atados à roupa.

No século XIX, o mercado de protecções menstruais desenvolveu-se, dos cintos e os pensos higiénicos aos “aventais higiénicos”, usados sobre as nádegas para impedir as fugas para a roupa quando se estava sentada. Mas até ao desenvolvimento dos tampões de algodão descartáveis, no final da década de 1890, os pensos continuavam a ter de ser lavados e secos (embora os tampões reutilizáveis tenham voltado recentemente).

A partir do fim dos anos 1960, a utilização de uma banda adesiva permitiu fixar as protecções à roupa interior, em vez de ser atada a um cinto especial.
Os novos produtos menstruais

Nos anos 1930, apareceram no mercado os primeiros tampões. Eram descritos como pensos higiénicos internos. Os copos menstruais em borracha também remontam à década de 1930, embora tenham sido substituídos em grande parte por copos de silicone – disponíveis numa vasta gama de tamanhos. O risco de fuga com um copo de dimensões adequadas parece ser menor do que com um penso ou um tampão.

Estas novas protecções contribuíram, de acordo com a historiadora Lara Freidenfelds, para tornar as menstruações uma parte normal da vida – que não precisa necessariamente de dias de repouso como era o caso antes. No século XX, as protecções menstruais tornaram-se, progressivamente, marcadores sociais.
O regresso da reutilização?

Os aplicadores e as embalagens de tampões contêm materiais plásticos, o mesmo acontece com os pensos higiénicos: o consumo desses produtos não acontece sem quaisquer consequências ambientais. Os riscos associados aos produtos químicos, como dioxinas, utilizados nos tampões e pensos higiénicos, também são cada vez mais conhecidos. Essas duas razões contribuíram para estimular o mercado dos produtos naturais.

Existem, também, os discos menstruais descartáveis ou reutilizáveis – trata-se de um disco redondo de silicone que recolhe o sangue. Por fim, as cuecas menstruais, inventadas em 2017, são vendidas como sendo “as melhores para o planeta”.


Em vez de vender esses produtos nos países mais pobres do mundo, as organizações de caridade como a ActionAid organizam sessões de formação sobre como fazer pensos higiénicos. As mulheres dos países ricos ficam surpreendidas ao constatar o conforto desses pensos.

A promoção actual dos pensos higiénicos reutilizáveis ou das cuecas menstruais são um regresso a uma forma mais tradicional de gerir as menstruações, mesmo que hoje em dia seja mais fácil para a maior parte das mulheres lavar e secar essas peças de protecção.

A sua utilização sugere que a nossa atitude em relação ao sangue menstrual está a mudar. A ideia de que aqueles produtos menstruais são “resíduos” que devem ser escondidos ou eliminados de maneira “higiénica” não vai de mão dada com lavar os seus pensos e deixá-los a secar ao ar livre.

Exclusivo PÚBLICO/The Conversation
Stefan Hanß é professor de História da Idade Moderna, Universidade de Manchester

14.9.21

Três amigos usam o Instagram para fazer “currículos” de pessoas que vivem na rua — e arranjar-lhes trabalho

Mariana Durães, in Público on-line

“Un Mismo Equipo” é o nome do projecto criado por três espanhóis que pretendem tirar pessoas de situação de exclusão arranjando-lhes um emprego. Em três meses, a conta de Instagram já tem 16 mil seguidores e já conseguiu trabalho para dez pessoas em situação de sem-abrigo.

“Marian procura urgentemente emprego em Madrid. Tem bastante experiência e é encantador”: assim começa uma conta de Instagram que, em apenas três meses, já ajudou dez pessoas em situação de sem-abrigo a encontrar trabalho. É gerida pelos espanhóis Gonzalo Perales, Pablo García e Miguel Jiménez, que, enquanto vagueavam pelas ruas de Madrid, se lembraram de descobrir e contar a história dos que lá vivem, na esperança de os ajudar a sair da situação de vulnerabilidade.

Nasceu assim uma espécie de “rede de talentos” desconhecidos que, como qualquer outra página numa rede social, “pode ser muito potente se a souberes usar”, afiança Perales. Foi o próprio que a impulsionou quando, na sua página pessoal, a divulgou. O sucesso foi tanto que, numa questão de dias, começaram a aparecer propostas de emprego: “No mesmo dia em que abri o perfil no Instagram, lançámos também o site e contratámos um senhor que estava na rua e fazia parte da minha rede do Linkedin”, conta Perales ao El País.

Juntou-se a Miguel Jiménez, criaram uma associação e baptizaram o projecto — Un Mismo Equipo. Aconteceu tudo muito rápido: já estão em fase de crescimento e prestes a transformar o projecto numa startup que deverá dispor de uma lista muito vasta e diversa de profissionais: carpinteiros, camareiros, directores de comunicação ou chefs. Os perfis são, na sua maioria, de homens com mais de 50 anos, não só de Madrid, mas também de outras regiões de Espanha.

“Há pessoas que não têm roupa, apartamento ou transporte. Precisam de carregamentos no telemóvel até que tenham o primeiro salário. O que estamos a fazer é ponderar quanto custa tirar uma pessoa de uma situação tão frágil como esta e a ideia é que a partir deste Outono comecemos a falar com diversas empresas para que, além de contratar, nos possam doar dinheiro ou material durante a transição”, refere Perales, citado no mesmo texto.

Mas mesmo que não tenham ainda dado esse passo, já podem congratular-se por ter ajudado Iván (nome fictício) a voltar ao mercado laboral, depois de meses a viver na rua e com problemas de alcoolismo. “Era o mais novo. É complicado ter uma conversa normal e ser razoável com quem já leva muito tempo na rua, e eu não queria terminar assim”, confessa Iván, a viver em Salamanca.

“No primeiro mês [a viver na rua] perdi 30 quilos, porque só comia duas barras de chocolate por dia. Não sabia de associações, não tinha amigos, tinha perdido tudo”, refere o informático de 39 anos que, durante os últimos meses, procurou livros no caixote do lixo para depois os vender e conseguir assim algum dinheiro.

Sobre os criadores do Un Mismo Equipo, diz: “Não ajudam todos, mas aqueles que vêem ter algo aqui dentro. Deram-me um telemóvel para que pudesse fazer entrevistas. Custou-me conseguir trabalho porque, na área da informática, um ano sem trabalhar nota-se. Começo a trabalhar na próxima segunda-feira e estou muito feliz. Só me falta casa, está complicado. A ver se consigo antes de começar”, auspicia.

Iván não foi o único. Outra pessoa em situação de sem-abrigo, que prefere não divulgar a identidade por não querer que a filha de 17 anos saiba que há um ano e meio pede pelas ruas, conseguiu trabalho como estofador de motas, com a ajuda da associação. Durante esse tempo, chegava a casa com três ou quatro euros; num dia de sorte conseguia uma nota: “Perdi dez quilos por causa dos nervos. Nos quatro primeiros meses não pregava olho, não por mim, mas pela minha filha. Não desejo isto a ninguém. Às vezes não comia por ela”, lamenta.

Todas as semanas chegam cerca de 20 emails à Un Mismo Equipo, muitos são de cartazes de empresas que procuram funcionários. Na página de Instagram, vão publicando fotografias de potenciais candidatos, juntamente com um pequeno perfil. Os seguidores vão perguntando novidades, se Marian já arranjou emprego, aplaudem quando os gestores da página contam que Fernando conseguiu emprego como director de comunicação. E também partilham histórias de pessoas com quem se vão cruzando na rua, na esperança de lhes mudar o rumo.

Os criadores do projecto também pedem donativos para conseguirem proporcionar alojamento, transporte, telefone, higiene, comida e roupa. Durante o Verão, contam no Instagram, tiraram dinheiro das suas próprias poupanças para conseguirem fornecer tudo isto àqueles que se encontram em situação de exclusão. E adiantam que, em breve, vão abrir um programa de voluntariado para todos os que estão interessados em ajudar. Afinal, é isso mesmo que o projecto pretende, como o nome já adianta. Que todos joguem na mesma equipa.


8.6.21

Porto Design Biennale desenvolve projecto para pessoas em situação de sem-abrigo

in Público on-line

Está a decorrer, até 25 de Julho, nas cidades do Porto e de Matosinhos, a Porto Design Biennale. Ao todo estão programadas 49 actividades.

A Porto Design Biennale, a decorrer até final de Julho nas cidades do Porto e de Matosinhos, com um conjunto de 49 actividades, inicia a 17 de Junho o workshop Habitar 424, desenvolvido por e para a comunidade sem-abrigo do Porto. Conduzido pelo Assemble Studio e pelos El Warcha, o projecto tem, de acordo com a organização, o objectivo de “reconceptualizar a percepção comum acerca da condição de sem-abrigo, proporcionando ao mesmo tempo recursos comunitários crescentes para o futuro”.

“Agora que avançamos rumo a um futuro de incerteza económica, com a ameaça crescente de despejos e privação de alojamento, é urgente reconsiderar a forma como desenvolvemos e organizamos o espaço para ir ao encontro das necessidades daqueles que são mais marginalizados nas nossas cidades. De que forma podemos contrariar a segregação e a disparidade crescentes? Como podemos aprender com as pessoas que vivem na rua?” são algumas das questões a abordar na iniciativa, explica a organização.

Trabalhando em colaboração com a designer Olivia Page, o projecto irá explorar materiais ecológicos, desenvolvendo um design que incorpore os resíduos industriais e de base biológica. Segundo os responsáveis, o Habitar 424 será construído durante a primeira parte do período da Porto Design Biennale, que começou no dia 2 de Junho e encerra a 25 de Julho.

A 10 de Julho abre o espaço expositivo do Habitar 424 e, nesse dia, a associação Saber Compreender e o ateliê social e comunitário El Warcha Lisboa propõem uma reflexão sobre a inclusão social da pessoa em situação de sem-abrigo, dando particular destaque à realidade vivida no Porto e em Lisboa.

No seguimento da conversa, é apresentado o livro editado por Fran Edgerley, Inês Marques e Olivia Page, curadoras do projecto, e exibido o documentário Cristian, realizado por Luís Nuno Baldaque.

Para 17 Julho, está agendado um debate entre o colectivo Assemble e a associação El Warcha Lisboa sobre como o design pode ser uma ferramenta de desenvolvimento comunitário e o seu papel no projecto Habitar 424, seguido de uma apresentação da designer Olivia Page sobre as oportunidades materiais e ecológicas em resíduos industriais e de base biológica, mapeadas na zona do Porto. O evento termina com um debate entre Olivia Page e o colectivo Assemble, sobre o futuro da materialidade.

Este projecto visa reconceptualizar o entendimento comum acerca da condição de sem-abrigo, proporcionando, ao mesmo tempo, crescentes recursos comunitários para o futuro, e lançar as bases para a criação de “comunidades de mudança”, segundo explicou, na apresentação da bienal, o curador geral, Alastair Fuad-Luke.

Ao longo dos 54 dias decorrerão 20 conversas online e onze workskops, além das 49 actividades. As iniciativas, que envolvem nove curadores, estarão espalhadas por 25 espaços do Porto e de Matosinhos, acrescentou Alastair Fuad-Luke.

O objectivo desta edição de 2021, que o curador geral quer que envolva a participação dos cidadãos, visitantes, profissionais e amantes do design, é gerar alianças estratégicas e efectivas para a construção de comunidades de mudança. “Através do design podemos redescobrir a nossa capacidade de espanto, renovar o nosso ambiente e construir novas alianças. Podemos reconstruir-nos, centrando-nos nas experiências e nas coisas capazes de gerar uma maior sensação de bem-estar e que nos mostram como viver melhor, apesar de atravessarmos tempos de contágio e de crise”, frisou.

Um dos eixos principais da bienal é a exposição Museu da Matéria Viva, na Casa do Design, em Matosinhos, que pede a atenção de todos para os seres vivos, procurando encorajar os cidadãos e designers para a construção de novas práticas e relações para o futuro, explicou.

Outra das propostas é a mostra Cuidado Radical: Arquitecturas de Amor e Reciprocidade, orientada por Ana Jarra e Alberto Altés, que vai reunir no Palacete dos Viscondes de Balsemão, no Porto, histórias de amor, reciprocidade e envolvimento que têm em comum uma ética do cuidado.

Em versão online irá decorrer a exposição Linhas Invisíveis que, com recurso a uma análise de dados do Porto, pretende cultivar novas ideias e soluções para combater a segregação, corrigir as linhas urbanas de falha e outros males sociais.

A Porto Design Biennale contemplará ainda dois espaços de debate, nomeadamente uma série de podcasts com pessoas e designers cujas vidas têm sido dedicadas a desenhar mundos, em Perspectivas Periféricas: Conversas às Sextas, que propõe colóquios com a participação de académicos interdisciplinares, pensadores não académicos, designers, artistas visuais e performativos e cidadãos, para construir um espaço para gerar diferença.

Sendo o país convidado deste ano a França, artistas, designers e pensadores franceses e portugueses desenvolveram um trabalho criativo com base num conjunto de objectos recolhidos no Porto e em Matosinhos, cujo resultado final vai ser dado a conhecer na bienal sob diferentes formas, contou o curador Sam Baron.

Sob a designação Autre, estes trabalhos vão ser apresentados ao público sob a forma de um programa de rádio, no qual as culturas portuguesas e francesas se encontram, assim como em exposições e instalações no Museu Soares do Reis, no Porto, e na área envolvente e numa iniciativa social em que o design se torna uma ferramenta que ajuda a alimentar e apoiar pessoas carenciadas, revelou.

A Porto Design Biennale é promovida pelos municípios do Porto e de Matosinhos e organizada pelo centro de investigação da Escola Superior de Arte e Design (ESAD).
Sugerir correcção


3.9.20

Seis jovens portugueses processam 33 países por causa das alterações climáticas

Patricia Carvalho, in Publico on-line

Têm entre 8 e 21 anos e são das regiões de Leiria e Lisboa. Os incêndios de 2017 foram a pedra de toque e a associação internacional não-lucrativa Global Legal Action Network assumiu a preparação do processo que deverá dar entrada esta quinta-feira, 3 de Setembro, no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

Seis crianças e jovens portugueses, com idades entre os 8 e os 21 anos, são os autores de uma acção que dará entrada esta quinta-feira, 3 de Setembro, no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em Estrasburgo (França), contra 33 estados, por causa das alterações climáticas. O processo, conduzido pela Global Legal Action Network (GLAN), parte do princípio que a Convenção Europeia dos Direitos Humanos obriga os estados a tomarem acções concretas para reduzir as emissões de gases com efeitos de estufa (GEE) e cumprirem aquilo a que se comprometeram quando assinaram o Acordo de Paris, assegurando assim um ambiente seguro para os seus cidadãos. Os jovens dizem querer garantir que eles e os que ainda não nasceram poderão continuar a usufruir do planeta, sem medos.

No centro de tudo está Rita Mota. Em 2017 estava em Londres, a trabalhar na tese de doutoramento em Direito, sobre direitos humanos e investimento internacional, e começara a colaborar com a GLAN, como investigadora jurídica, quando aconteceram os incêndios devastadores de Junho (Pedrógão Grande) e Outubro (em toda a região centro). Sendo da zona de Leiria e andando a ouvir, há algum tempo, os responsáveis da organização sem fins lucrativos (que trabalha com casos envolvendo violações dos direitos humanos em todo o mundo), a falar do trabalho que andavam a preparar ao nível das alterações climáticas, partilhou o tema com familiares e amigos quando veio de férias a Portugal. “Tive a oportunidade de falar sobre as minhas preocupações com as alterações climáticas, sobre a relação da gravidade destes incêndios com essas alterações, e também as ideias que se estavam a gerar na GLAN sobre possíveis formas de usar a lei para conseguir alguma mudança, para um combate mais eficaz”, conta, numa videochamada, a partir de Inglaterra, onde ainda vive.
A ouvi-la estavam pessoas atentas, assustadas, com muita vontade de fazer alguma coisa. A ideia de processar 33 países — incluindo Portugal, no âmbito de todos os membros da União Europeia, o Reino Unido, a Suíça, a Noruega, a Rússia, a Turquia e a Ucrânia — ganhou forma, com vários envolvidos. Avançou-se com uma operação de crowdfunding para ajudar a construir o processo e chegou-se a 2020 com tudo pronto e os seis autores da acção definidos. Quatro de Meirinhas, em Leiria, e dois da zona de Almada, na Grande Lisboa.

Sofia, de 15 anos, e André Oliveira, de 12, são irmãos e vivem perto de Almada. Tiveram conhecimento da ideia através do pai, Nuno Oliveira, amigo de longa data de Rita Mota e responsável por uma start up ligada a soluções de base natural. Lá em casa, a preocupação com o mundo e a sua evolução não é nova. “Desde pequeninos que eu e o meu irmão temos a noção do que se está a passar com o nosso planeta e com as alterações climáticas. Os nossos pais são daqueles que nos põem a ver documentários para percebermos o que está a acontecer”, diz Sofia Oliveira. O resultado é que o “ídolo” dos dois irmãos, como conta a jovem, é “David Attenborough” — porque os seus programas mostram o que está mal no mundo, mas também deixam a esperança de que ainda é possível fazer alguma coisa. “Isso dá-nos motivação e é disso que nós precisamos: não ver tudo pela negativa, começar a ver pela positiva, porque é isso que incentiva o ser humano a avançar”, diz ela.


Ao lado, na videochamada em que ambos participam, sob o olhar e ouvido atentos dos pais, o irmão André explica o que mais o preocupa nos tempos que correm: “É pensar que as gerações futuras, daqui a 10, 20, 50 anos, poderão não ter o direito aos mesmos modos de vida a que nós tivemos. Isso é o que me preocupa mais.”

A partir de Leiria, Catarina Mota, de 20 anos, e Cláudia Agostinho, de 21, são dois dos outros rostos desta acção. Os restantes são irmãos de Cláudia, Martim, de 17 anos, e Mariana Agostinho, de apenas 8. Os Agostinho são primos de Rita Mota, Catarina é vizinha da família.

FotoMariana, Cláudia e Martim Agostinho, junto à vizinha e amiga Catarina Mota DR

As duas jovens contam como os incêndios que devastaram a região, em 2017, foram o sinal final de alerta que as motivou a agir. “Na escola sempre tivemos muitas disciplinas que abordavam as alterações climáticas e o tema sempre me assustou. Depois, tendo vivido de perto os incêndios de 2017, fiquei com muito medo e queria fazer o melhor que conseguisse para que algo assim não se voltasse a repetir. A Cláudia falou-me do que a GLAN queria fazer e achei que seria um bom contributo, ajudando-os a eles e eles a mim, no combate às alterações climáticas”, diz.

Ao seu lado, Catarina Agostinho vai concordando. “Sempre fomos sensibilizados para o facto de o fenómeno das alterações climáticas ser tão importante e assustador, mas acho que só em 2017 é que tomei a real consciência de que está a acontecer agora e que é preciso agir rapidamente. E vi nesta acção uma oportunidade de lutar”, explica.

Os advogados da GLAN, que construíram o processo, argumentam que ao não porem em prática as medidas necessárias para reduzir as emissões de GEE e cumprir os objectivos do Acordo de Paris, os 33 estados processados estão também a pôr em causa os direitos humanos dos seus cidadãos e, em concreto, dos seis jovens portugueses. Lembrando que Portugal teve, este ano, o Julho mais quente dos últimos 90 anos, e a onda de calor de 2018, que levou a que se registasse em Lisboa a temperatura recorde de 44 graus Celsius, a GLAN está ainda munida de um parecer da Climate Analytics. Esta, recorrendo às projecções científicas já conhecidas sobre os impactos das alterações climáticas no Mediterrâneo, e, em concreto, em Portugal, classifica esta zona como um “hotspot climático”, que, se nada for feito, está sujeito a um aumento de temperatura que, no pior dos cenários, pode chegar aos 8º Celsius em algumas regiões; ondas de calor mais prolongadas; seca e períodos de chuva intensos em partes do país, com as cheias consequentes; subida do nível do mar; e as consequências para a economia e a saúde dos portugueses perante estes factos.

O que os jovens e os seus advogados pretendem é que o tribunal tome uma decisão que obrigue Portugal e os restantes países processados a agirem de forma urgente para travar a crise climática.

Numa exposição escrita enviada ao P3, Gerry Liston, da GLAN, explica que o objectivo do processo é conseguir uma decisão judicial que “obrigue os governos europeus a combater as alterações climáticas de duas formas: primeiro, fazendo cortes profundos e urgentes nas emissões de GEE dentro das suas fronteiras e, em segundo, assumindo a responsabilidade pela forma como contribuem para as emissões no estrangeiro, através dos combustíveis fósseis que exportam, da importação de bens cuja produção envolve a queima desses combustíveis ou permitindo que companhias com sede nos seus países contribuam para a queima de combustíveis fósseis noutros locais, além-fronteiras”.

“O caso é muito complexo e extremamente inovador e aí também está a beleza desta acção. É inovadora do ponto de vista da dimensão, mas é extremamente inovadora do ponto de vista da técnica jurídica também”, diz uma entusiasmada Rita Mota.

Entusiasmados estão também Sofia e André Oliveira. Ele diz que, tendo asma, já sente na pele o aumento da temperatura, e a forma como se torna mais difícil respirar nos dias piores, o que é mais um incentivo para exigir mudanças rápidas. Ela mal pode esperar por começar o 10.º ano na área de Ciências Naturais, que (espera) a há-de preparar para um futuro ligado à “química verde” — área que descobriu recentemente, muito graças à mãe, Susana Santos, que trabalha numa empresa de biotecnologia dedicada a descobrir novos materiais a partir das matérias-primas que a natureza tem para oferecer.

Catarina e Cláudia continuam a reciclar, a tentar usar menos plástico, a utilizar os transportes públicos e, quando tal se proporciona, a participar em acções de limpeza dos espaços naturais, mas a acção judicial que agora chega ao tribunal é o passo extra de que, dizem, estavam a precisar. “Não estamos ligadas a qualquer organização. O que fazemos são acções individuais que cada um pode fazer, mas acho que chegamos a um ponto em que isso já não é suficiente. As acções individuais têm extrema importância, mas neste momento é necessário agir a nível dos governos”, diz Cláudia Agostinho.

Depois de três anos à espera que o caso ficasse pronto para entrar no tribunal, os jovens preparam-se agora para uma nova espera, até haver uma decisão. Mas sem cruzar os braços. André Oliveira diz que sonha com um futuro na área das engenharias, para “ajudar a desenvolver coisas úteis”. Quando “era miúdo” e começou a tomar mais consciência dos problemas causados pelas alterações climáticas, conta, desenhou um drone que aspirava furacões, transformando esse poder destrutivo em energia que era distribuída por todo o mundo. A família ri, com a lembrança. “O que queremos é que a nossa era seja de menos incerteza, menos crítica e mais esperança”, conclui o rapaz, depois de recorrer à cábula que tinha escrito com a sua mensagem, momentaneamente esquecida. Se ele passa por uma máquina capaz de utilizar a energia dos furacões é algo que ainda falta saber.

9.12.19

Na rua somos todos nós

João André Costa, in Público on-line

Se amanhã perder o emprego, sem ter para onde ir, juntar-me-ei ao milhão de pessoas sem-abrigo por essa Europa fora, 4000 só em Portugal. Deixarei de ter mãos e pernas, rosto e voz para falar.

É professor e criou o blogue Dar aulas em Inglaterra, onde vive há 11 anos.

Acabar a viver na rua é fácil. Basta perder o emprego. Levei 10 anos para ter um emprego. Não sei, literalmente, o que é ter 20 e tal anos. Nessa altura da vida estava à procura de emprego. Não saboreei a vida toda pela frente, não vivi a independência, não saí de casa, não conheci outros mundos e outras culturas, não tive tempo, ou paciência, para me divertir, não trabalhei, não aprendi mas aprendi, aprendi sobre a vida o quanto não queria aprender.

E lá arranjei o tal emprego, de onde não saí até agora. Não posso, nem quero, voltar atrás. Tenho 41 anos. Entretanto viajei, casei, viajei outra vez, comprámos uma casa, estamos a pagá-la ao banco. Vamos a exposições, ao teatro, temos várias bicicletas e computadores, jantamos e almoçamos fora, saímos com amigos e há poucas semanas mandámos pintar a casa. De caminho, renovámos a casa de banho e os quartos há dois ou três anos.
Pagamos as contas da casa, compramos roupa e prendas de anos e Natal. Não temos televisão e não temos carro. Mas temos planos, queremos continuar a viajar, ter algum dinheiro no banco, planear a reforma, vender esta casa, comprar outra na velhice. Quero continuar a escrever.

Nada do acima descrito é supérfluo. É uma vida. Normal. Sem pretensões desmesuradas, sem fotografias no Facebook ou no Instagram. Não queremos fazer inveja a ninguém, queremos viver. E, no entanto, esta vida, as viagens, os jantares fora, são luxos ao alcance de poucos. Não parece, os restaurantes estão sempre cheios no centro. E ao pé de casa.

Mas se amanhã vier uma executiva incumbida de reestruturar o nosso local de trabalho, rapidamente chegará à necessária (é sempre necessária, mesmo quando não é — e principalmente quando não é) redução de custos. Chama-se selecção natural. Eu chamo-lhe capitalismo. É uma questão de tempo. E como é sempre possível reduzir custos, os nossos lugares, a começar pelo meu, serão colocados à disposição de quem quiser trabalhar mais ainda por menos ou, pura e simplesmente, eliminados.

“Basta perder o emprego. É fácil. Estamos presos por fios. Basta perderes o emprego. Estamos todos presos por fios. E todos temos uma história para contar, uma vida tão vivida como por viver.”

Se amanhã perder o emprego, não terei outro emprego à espera. Já tenho mais de 40 anos, à porta do trabalho os miúdos de 20 e tal anos fazem fila e já sou demasiado velho e pesado para render o mesmo. E, ao mesmo tempo, demasiado novo para a reforma. Se lá chegar.
Se amanhã perder o emprego, depois de amanhã perco as viagens, as exposições, a vontade de escrever, o casamento, os amigos, a boa disposição, a esperança no futuro, a saúde e, por fim, a casa.

Um leilão solidário de 25 obras pelos 25 anos da Cais a apoiar os sem-abrigo

Sem ter para onde ir, juntar-me-ei ao milhão de pessoas sem-abrigo por essa Europa fora, 4000 só em Portugal. Deixarei de ter mãos e pernas, rosto e voz para falar. A noite é mortal e os invernos também. Sem ter para onde ir, cheio de fome, de frio e de medo e demasiado longe dos familiares mais próximos, estarei definitivamente só. E pior sensação não há.

E ninguém vai querer saber. Na Europa do primeiro mundo, na Europa dos ricos, das fronteiras e mentalidades abertas, na Europa da inclusão, do direito à habitação em contraposição com a maioria do mundo, ninguém vai querer saber. Como se sofresse de uma doença infecciosa, as pessoas na rua vão fugir de mim. Por causa do cheiro, por causa do aspecto, da dor, da fome.
As pessoas vão fugir de mim, receosas, e com razão, de igual destino. Mas não por minha culpa.

Basta perder o emprego. É fácil. Estamos presos por fios. Basta perderes o emprego. Estamos todos presos por fios. E todos temos uma história para contar, uma vida tão vivida como por viver.

Gilberto deu uma palavra aos sem-abrigo, eles deram-lhe uma lição de vida
Vítimas de uma desigualdade a crescer exponencialmente, todos os dias cruzamo-nos com os nossos iguais atirados à rua. É incompreensível. É bizarro. É o reflexo da ganância.
Ao mesmo tempo, na Finlândia, o número de pessoas sem situação de sem-abrigo nunca foi tão baixo. A solução? Dar uma habitação condigna a quem não a tem. Porque é que não pensámos nisto antes?

12.7.17

Gaia. Violência, guerra e fome numa bienal de arte e "de causas"

in RR

A 2ª Bienal Internacional de Gaia, que é inaugruada no sábado, no espaço do Centro Empresarial Fercopor, anuncia-se como uma "bienal de causas".

A iniciativa, que conta com 31 exposições e mais de 1.500 obras de artistas, lança aos 500 autores participantes o desafio de abordarem temas que inquietem e provoquem a sociedade, diz à Renascença um dos organizadores, Agostinho Santos.

"Queremos que esta seja uma bienal de causas, que provoque. Uma bienal que se preocupa com os outros, que está inquieta. Lançámos o desafio aos artistas de 11 países de abordarem questões que nos preocupam todos os dias: a violência, a guerra, a fome, a questão dos refugiados, os atentados terroristas, os sem-abrigo."

O coração da bienal está situado na antiga fábrica de linhas "Coats & Clark", o actual Centro Empresarial Fercopor. O pavilhão, com mais de sei mil metros quadrados recebe 18 exposições, mas a arte vai chegar a outros espaços da cidade - Biblioteca Municipal, Convento Corpus Christi e Mosteiro de Grijó - e da região norte, com exposições em Barcelos, Porto, Gondomar, Cerveira, Viana do Castelo, Monção, Figueira da Foz e Seia.

"Uma das vertentes da nossa bienal é levar a arte ao encontro das pessoas. Não nos vamos limitar apenas ao nosso município. Temos, por exemplo, um acordo com a bienal mais antiga do país, que é a de Vila Nova de Cerveira. Vamos ter uma exposição da Bienal de Gaia - a mais jovem do país - integrada na Bienal de Cerveira e vice-versa. Este tipo de parcerias entre bienais não é muito comum, mas nós queremos lançar este repto", diz Agostinho Santos.

Prémios, homenagens e medalhas

Na sessão de abertura da Bienal, a pintora Graça Morais vai receber a Medalha de Mérito Cultural e Científico, Grau Ouro, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e expor pela primeira vez no município. O Centro Empresarial Fercopor vai receber uma mostra de 42 obras da colecção privada da artista.

"É uma honra. A Graça Morais é uma das maiores artistas contemporâneas. Temos todo o respeito e admiração por ela e vamos ter a sorte de organizar uma exposição antológica onde o público vai perceber o percurso fantástico da nossa artista. É a primeira vez que a Graça Morais expõe em Vila Nova de Gaia, no terceiro maior concelho do país", diz Agostinho Santos.

Os artistas vencedores dos três prémios da Bienal foram escolhidos entre 292 inscritos, 130 pré-selecionados e 88 selecionados e vão receber um prémio monetário no valor de cinco mil euros.

Marta Soutinho Alves venceu o Grande Prémio da Bienal atribuído pela Câmara Municipal de Gaia. João Macedo conquistou o Prémio de Escultura Zulmiro de Carvalho atribuído pela Câmara Municipal de Gondomar e Mariana Poppovic arrecadou o Prémio Águas de Gaia.

O evento vai ainda homenagear o artista Guilherme Camarinha com uma exposição com as obras do pintor, falecido em 1994, na Fundação Escultor José Santos, no Porto.

Expectativas ultrapassadas

O evento ainda não arrancou, mas a organização garante que as expectativas já foram largamente ultrapassadas e a curiosidade do público é notória.

“Estamos muito confiantes, porque a informação que tem chegado do público é muito interessante. As pessoas contactam-nos por e-mail, por carta, por facebook a perguntar informações. Estamos agora na fase final da montagem e já têm vindo cá várias pessoas espreitar. Quer a nível de artistas quer a nível de exposições, quer a nível de obras expostas ultrapassámos todas as nossas expectativas”, refere.

Agostinho Santos garante que a população de Gaia tem vindo a despertar para a arte, mas reafirma que a Bienal não tem barreiras e vai para lá do município: “O público de Vila Nova de Gaia e da Área Metropolitana do Porto e até da região norte começa a estar entusiasmado, porque uma das características desta bienal é a pretender ser uma bienal da Área Metropolitana do Porto e do norte do país."