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7.9.23

“Sem vagas.” Há mais lugares gratuitos nas creches, mas muitas famílias continuam sem resposta

Patrícia Carvalho, in Público online

Governo diz que espera ter creche gratuita para 85 mil crianças ainda este ano mas faltam muitos mais lugares para garantir a universalidade da medida. Trabalho das mães é o que mais sofre.

Francyelle Monteiro, de 29 anos, tirou esta terça-feira para calcorrear as ruas, com o marido, de creche em creche, a ver se consegue encontrar uma resposta diferente da que tem ouvido constantemente desde que começou a procurar um lugar numa creche para o filho, de 14 meses: “Sem vagas.” Já ficou sem emprego e a família teve de deixar a casa e ir viver com os pais dela, pela perda de rendimentos. Uma vaga numa creche mudava-lhe de novo a vida. “Preciso de voltar ao mercado de trabalho, tenho oportunidade de trabalho, mas não tenho com quem deixar o meu filho. Isto está a causar-nos bastante transtorno”, diz. É um dos muitos casos a quem a Creche Feliz ainda não bateu à porta.

Antes de o filho nascer, Francyelle trabalhava como auxiliar de laboratório, mas o contrato a prazo não foi renovado assim que foi mãe. De dois salários, o casal passou a um e tudo se complicou. “Tivemos de abrir mão do lugar onde vivíamos e de dividir casa com os meus pais”, conta.

A primeira procura por creches foi ainda antes de o menino nascer, mas disseram-lhe que tinha de esperar, porque, sem registo do bebé, não era possível colocá-lo sequer numa lista de espera. A procura foi retomada “assim que ele nasceu”, recorda, e conseguiu deixar uma inscrição em três creches perto de casa, na altura, na zona de Alverca. A resposta, contudo, foi sempre a mesma: “Sem vagas.” Com a perda de emprego e a mudança de casa, a família passou para São João do Tojal, em Loures, mas os resultados não são melhores. “Não há vagas em nenhum lugar, ficamos sempre em listas de espera. O único sítio onde há vagas são lugares clandestinos, mais complicados”, lamenta.

Nos últimos dois meses, Francyelle colocou o bebé num local “informal”, graças ao apoio da igreja de que faz parte e que garante o pagamento da mensalidade. Mas também isso está a acabar. “Por causa da nossa situação financeira, eles estão a fazer o pagamento, mas só fazem durante três meses. Tenho mais um mês e depois não tenho mais o pagamento deles. Não tenho como mantê-lo nesse local.” A conclusão, por mais voltas que dê, é sempre a mesma: precisa de uma creche gratuita. “Preciso de voltar ao mercado de trabalho urgentemente”, desabafa.

Garantir que as mulheres têm igualdade de direitos no acesso ao mercado de trabalho é, precisamente, um dos objectivos da Creche Feliz, que ainda nesta terça-feira foi recordado ao PÚBLICO pela ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, após uma visita a uma creche no Montijo em que foi feito um balanço do programa de acesso a creche gratuita.

Os dados do Governo apontam para um aumento de nove mil vagas nos últimos dois meses, graças a uma portaria que simplificou a reconversão de salas vazias de locais já com serviços de apoio às crianças em salas de creche. Este ano, a expectativa da ministra é a de que o programa chegue a 85 mil crianças, um número que deverá aumentar no futuro, ajudado pela criação de mais oferta, incluindo a abertura de 20 mil novos lugares projectados até 2026, ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência e do Pares.

“Temos intensidade máxima, trabalho máximo, para uma medida que gera um aumento da procura”, disse Ana Mendes Godinho, reconhecendo que o programa está longe de chegar a todos — não só não há vagas suficientes, como a procura cresceu muito. “Há famílias que não pensavam pôr as crianças numa creche e que agora assumem isso como prioridade. As pessoas todas querem colocar as crianças na creche, a medida induziu uma procura que só mostra que é acertada. Muitas crianças que não estavam com capacidade de acesso a creche, mais vulneráveis, passaram a estar, porque o custo deixou de ser um factor.”

Quarenta e duas creches contactadas

Tânia Vargas, de 33 anos, tinha essa expectativa de conseguir encontrar uma creche para o mais novo dos seus três filhos. Gabriel tem apenas 20 dias, uma irmã com três anos e um irmão com seis, e 95% de deficiência, de quem a mulher de Amares, Braga cuida diariamente.

Antes do programa Creche Feliz não teve dificuldade em encontrar vaga em creches: inscreveu os filhos mais velhos com antecedência, pagava as mensalidades até as crianças irem efectivamente para a creche, garantindo assim um lugar. Com a gratuitidade, isso deixou de ser possível, assim como fazer uma inscrição antes de o bebé nascer. “Comecei a procurar cedíssimo. O primeiro email que enviei a pedir uma pré-inscrição foi em Janeiro de 2023, estava grávida de seis, oito semanas”, diz.

Ao todo, Tânia Vargas contactou 42 instituições em Amares e em outros três concelhos vizinhos: Vila Verde, Braga e Barcelos. Até agora, não conseguiu uma vaga gratuita. “Já tinha noção de que as coisas estavam complicadas, não sabia é que estavam tão complicadas”, ironiza.

Mandou mensagens para a Assembleia da República, ministério, Provedoria de Justiça a expor o seu caso. Sem solução e com o filho mais velho a exigir cuidados permanentes, acabou por encontrar um lugar numa creche privada que não se inclui na rede da Creche Feliz. Um peso financeiro difícil de suportar para um orçamento familiar já muito sobrecarregado com as terapias e todos os tratamentos de que a criança de seis anos precisa.

Mas Tânia Vargas ainda não desistiu. “Estar a pagar mais uma mensalidade quando se tem direito a uma creche gratuita é um bocadinho injusto, um bocadinho desolador. Vamos tentando arranjar solução [gratuita], mas, não havendo, temos esta retaguarda. Estamos a pagar já a mensalidade. Não deveria ser preciso, estando a gratuitidade universalizada, nas IPSS e afins...”, lamenta.

Aos 39 anos, Bianca Ribeiro não tem ideia do que vai ser a sua vida nos próximos tempos, se não conseguir uma creche para a filha, nascida em Abril de 2022. Procurou vagas em seis creches, na área de Belém, em Lisboa, onde vive, e conseguiu ficar em lista de espera, mas sem resultados. “Renovei [pedido], mandei mensagem para todas as creches da minha área, não tinham vaga, continuam não tendo, mesmo com o Governo ampliando [o programa] dentro do sector privado. Não há, pelo menos por aqui”, diz.

Com uma família monoparental — o pai da bebé é inglês e não vive cá —, Bianca Ribeiro, que é brasileira, diz não ter família em Portugal, nem qualquer apoio. E, para piorar tudo, perdeu o emprego de analista administrativa, que tinha há quatro anos. “Sempre trabalhei em teletrabalho, desde a pandemia”, conta, mas “a política da empresa mudou e quem quiser trabalhar tem de ir para o escritório”.

Não adiantou de nada o seu argumento de que não tinha com quem deixar a filha e os pedidos para continuar em teletrabalho. A mulher diz que a empresa lhe começou a marcar faltas sucessivas e que a pressão para que se demitisse foi tanta que acabou por chegar a acordo com eles. Está, desde esta terça-feira, desempregada e com a filha em casa. “Tenho de continuar reconstruindo a vida”, diz.

Marta Esteves é advogada especialistas em questões relacionadas com os direitos da parentalidade e diz que casos relacionados com famílias — “95% são mães” — que a procuram em busca de uma ajuda, por não terem com quem deixar os filhos bebés, como o de Bianca, aumentaram desde o início da Creche Feliz. “As vagas já eram um problema em 2021, mas o problema aumentou, porque elas não aumentaram em proporção ao aumento da procura”, diz. “As mães procuram-me para as ajudar a encontrar soluções, porque têm de regressar ao trabalho e não têm com quem deixar o bebé. A primeira coisa de que se lembram é que têm de se despedir. Mas há outras soluções, e é com isso que as ajudo”, diz a advogada do Porto.

As alternativas são, basicamente três. O teletrabalho, que é permitido para todos os pais de crianças até aos três anos, desde que a actividade seja compatível com essa modalidade e a empresa disponha de meios para o efeito; o pedido de uma licença para assistência ao filho; e a licença de parentalidade alargada, para lá dos 180 dias.

Só que, nas duas últimas soluções, há perda de rendimentos — a licença para assistência aos filhos não é remunerada e a licença alargada, para lá de 180 dias, prevê uma remuneração de apenas 30% do salário ou 40%, se for partilhada por ambos os progenitores. “A vantagem é que permite acompanhar pelo menos o primeiro ano de vida do bebé em casa”, diz a advogada.
Teletrabalho pode ajudar

O teletrabalho aparece assim como a medida mais apetecível, enquanto não aparece um lugar numa creche. Mas nem sempre é fácil. Bianca acabou por “não resistir à pressão” da empresa e ficou desempregada. Sónia X., 32 anos, de São João de Madeira, conseguiu que a empresa o aceitasse, mas não foi fácil.

O filho nasceu em Outubro do ano passado e desde Maio desse ano que ela andou à procura de uma vaga numa creche. “Inscrevi-o em três creches, mas avisaram-me logo que dificilmente iria conseguir uma vaga. Ele devia ter entrado em Março deste ano e como era a meio do ano lectivo deram-me logo a entender que iria ser muito difícil”, conta.

Em Janeiro começou a insistir no pedido, de novo, mas nada mudou. “Chegou a altura de ele entrar na creche e não havia vaga. Não tenho apoio familiar perto, por isso ou fazia prolongamento da licença parental, o que a minha entidade patronal não aceitou, ou ficava em teletrabalho. Acabaram por aceitar esta alternativa, mas não foi muito bem visto”, diz a engenheira química.

Sónia X. (pede para ser identificada apenas assim) esperou alguns meses, mas conseguiu resolver o problema. O filho conseguiu, finalmente, vaga numa creche do sector social. “Entrou hoje [nesta terça-feira] na creche. Estive em casa com ele até agora. Agora vou voltar ao trabalho normalmente.”

A “saga”, como Tânia se refere ao processo de tentar encontrar uma vaga gratuita numa creche, terminou para Sónia. Mas não para muitas outras famílias. Bianca admite mesmo sair de Portugal, se não conseguir “adaptar e mudar” a situação actual, como já fez noutras alturas da vida. “Posso ter de dar início a outros caminhos”, diz. Uma creche gratuita ajudava muito.

7.7.23

Mais crianças por sala, menos burocracia na reconversão: Governo a correr contra a falta de lugares nas creches

Patrícia Carvalho, in Público online

Portaria prevê mais duas crianças por sala e possibilidade de abertura à noite e fins-de-semana. Debate parlamentar contou com exemplos de pais desesperados, um casal chegou a pensar emigrar

Com Setembro quase a chegar e muitos pais de cabelos em pé sem saberem ainda se vão ter uma vaga gratuita para os seus filhos ao abrigo do programa Creche Feliz, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS), Ana Mendes Godinho, publicou uma portaria que permite o aumento de crianças por sala e a desburocratização na reconversão de espaços para novas salas, na tentativa de, ainda este ano, acrescentar seis mil novos lugares à parca oferta existente. A portaria foi publicada esta semana e prevê também maior flexibilização de horários.

A pedido do Bloco de Esquerda, a escassez de vagas nas creches, que está a impedir o real acesso à gratuitidade a todos os que a ela teriam direito, voltou esta semana ao Parlamento. Às críticas lançadas por Joana Mortágua e praticamente toda a oposição, a ministra ia respondendo com os resultados obtidos, em concreto, o facto de 58 mil crianças estarem já a beneficiar do programa Creche Feliz, quando, nesta primeira fase, o que tinha sido avançado como previsão pelo Governo, disse, é que se chegasse às 40 mil.

Mas Ana Mendes Godinho não pôde ignorar o óbvio: as cerca de 119 mil vagas que existem não chegam para todos e encontrar uma vaga disponível em distritos como o Porto, Lisboa ou Setúbal é uma verdadeira lotaria. Durante a tarde de quarta-feira foram dados exemplos de pais desesperados, como uma mãe de Almada, que inscreveu o filho em 12 creches e não teve vaga em nenhuma. E de uma outra mãe de Guimarães, cuja família até ponderou abandonar a casa que comprou há cerca de um ano para se mudar para outro local onde conseguisse encontrar uma vaga para o filho, depois de ver recusadas todas as tentativas para lhe encontrar um lugar naquele concelho, na Maia e na Póvoa do Varzim.

A ministra ia consultando a aplicação que indica as vagas existentes ao abrigo da Creche Feliz, e garantia que havia oferta nos locais indicados, mas André Almeida, o pai da criança de Guimarães dada como exemplo, confirma o que já outras famílias têm vindo a dizer: “Consultámos a app várias vezes, mas quando ligávamos para os sítios onde supostamente existiam vagas, diziam-nos que já estava ocupada e todas as creches tinham uma lista de espera enorme”, diz.

Com 32 anos e o filho prestes a fazer um ano, André conta a saga para tentar encontrar uma creche para o bebé, e que começou poucos meses depois de ele e a mulher terem descoberto que iam ser pais. Nada de vagas nos inúmeros locais para onde ligaram, falta de informação por parte da Segurança Social quando, já desesperados, tentaram encontrar uma ama. Depois, o alívio, com a indicação de que existia uma vaga numa ama da Segurança Social a cinco minutos de casa, para logo a seguir chegar a desilusão: “Disseram-nos que afinal não podia ser, por causa dos nossos rendimentos e de outros requisitos”, conta. Ironia: nesse mesmo dia, a mulher de André soube que iria ser despedida.

A família ponderou abandonar Guimarães, passou-lhes pela cabeça emigrar. Até que nesta quarta-feira, na tarde em que decorria o debate parlamentar e em que o seu caso foi abordado, chegou uma nova chamada da Segurança Social: “Disseram-nos que, afinal, conseguiam uma vaga para nós numa ama aqui perto de casa. Ficámos satisfeitos, esperamos que isto esteja finalmente resolvido”, diz André Almeida.

Um alívio que não será sentido por todas as famílias que ainda não sabem se terão direito a uma vaga gratuita no próximo ano lectivo. A escassez é reconhecida por todos - uma análise recente refere que seria necessário duplicar o número de vagas existentes para abranger todas as crianças com direito à gratuitidade -, e o aumento de vagas vai demorar.

Ana Mendes Godinho foi várias vezes questionada sobre quando estariam disponíveis mais lugares, nomeadamente, os 26 mil que serão abertos graças ao financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e do programa Pares, mas a ministra só conseguiu garantir que espera ter, ainda este ano, seis mil novos lugares, graças às alterações publicadas esta semana em portaria, depois de terem sido negociadas com os parceiros.
Abertura à noite e fins-de-semana

Segundo o documento, publicado em Diário da República na passada quarta-feira, o Instituto da Segurança Social pode autorizar o aumento de crianças por sala, até ao máximo de duas, desde que o espaço tenha condições para isso. Ou seja, em vez de 10 crianças nas salas até à aquisição de marcha, será possível haver 12, assim como as 14 crianças permitidas entre a aquisição de marcha e os 24 meses poderão passar a ser 16.

Outra alteração introduzida pela portaria - e que tinha sido várias vezes pedida pela Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular (ACPEEP) - é a desburocratizarão na reconversão de espaços em edifícios já dedicados às crianças, mas que não estavam até agora a funcionar como salas de creche. “Assinei uma simplificação transformadora para facilitar a reconversão automática de espaços previamente dedicados à área de infância para salas de creche, desde que salvaguardadas naturalmente as questões de segurança e conforto, bastando uma comunicação ao Instituto da Segurança Social para o efeito”, disse no Parlamento, Ana Mendes Godinho.

A portaria confirma-o, dizendo que “a reconversão de espaços, previamente licenciados ou isentos de licenciamento, dedicados à infância ou o aumento de capacidade das salas não está sujeito a licenciamento” e que para avançar nesse sentido basta “uma mera comunicação prévia da reconversão ou o aumento ao ISS”.

O documento acrescenta ainda, à portaria anterior que estabelecia as normas de instalação e funcionamento das creches, que estas “podem ser instaladas [...] em edifícios existentes ou em espaços integrados em universidades, estabelecimentos hospitalares, empresas e entidades públicas”, sendo dispensadas regras como a que diz que estes espaços devem ser preferencialmente instalados no rés-do-chão e com contacto directo com o exterior, desde que esteja salvaguardado o conforto e segurança das crianças. A portaria também indica que as creches podem ser instaladas em “construções modulares”.

As novas regras, já em vigor desde esta quinta-feira, permitem ainda que as creches possam “funcionar em permanência, incluindo período nocturno e fins-de-semana, desde que exista a necessidade de frequência, por motivos relacionados com a actividade laboral de ambos os pais ou de quem exerce as responsabilidades parentais, ou motivos de força maior devidamente justificados e limitados no tempo”.

Apesar destas alterações, na tentativa de alargar urgentemente a rede disponível, há cerca de três mil lugares de creche que não podem, por enquanto, ser abrangidos pela gratuitidade. São espaços que estão sob a alçada de municípios e que a Lei de Bases da Segurança Social estipula não podem ser alvo de acordos similares aos que foram feitos com os parceiros sociais e a ACPEEP. Uma “regra absurda”, segundo o deputado bloquista Pedro Filipe Soares, que Ana Mendes Godinho disse estar disponível para alterar. “Estamos completamente disponíveis, nos mesmos moldes do que foi feito com o sector privado, para que façamos o mesmo com as creches dos municípios. Isto implica uma alteração da Lei de Bases, é uma questão estrutural, mas estamos aqui para fazer esse caminho”, disse a ministra.

O programa Creche Feliz entrou em vigor para o sector social e solidário a 1 de Setembro do ano passado, e a 1 de Janeiro deste ano para o sector privado, prevendo a gratuitidade para todas as crianças nascidas após 1 de Setembro de 2021.

O programa é faseado e no próximo ano lectivo deverá abranger “todas as crianças que ingressem no 1.º ano da creche e as crianças que prossigam para o 2.º ano”. Em 2024, este alargamento incluirá também as que frequentem o 3.º ano, com o Governo a prever que a abrangência, nessa altura, chegue às cem mil crianças.

Para concretizar o programa, o Estado paga às creches 460 euros mensais por cada criança abrangida. Um investimento que, neste momento, segundo Ana Mendes Godinho, implica o pagamento de 27 milhões de euros por mês às creches aderentes.

9.2.23

Para que creche gratuita chegue a todos é preciso duplicar a oferta actual

Patricia Carvalho, in Público online

Graças à medida da gratuitidade, famílias estão a poupar entre cerca de 60 e quase 400 euros mensais, dependendo do agregado familiar, das despesas fixas e do rendimento.

A falta de vagas nas creches está a pôr em causa a universalização da medida de gratuitidade, que o Governo está a executar de forma faseada. E para que todas as crianças até aos três anos pudessem, efectivamente, ter direito a frequentar uma creche gratuitamente “seria necessário duplicar a actual capacidade instalada”. A conclusão está numa nota sobre a medida que a unidade de monitorização do Centro de Competências de Planeamento, de Políticas e de Prospectiva da Administração (PLANAPP) divulgou esta quarta-feira.

O documento, com data de 1 de Fevereiro, olhou para dois pontos essenciais: a capacidade de aplicação da medida, tendo em conta a oferta existente, e o que ela está a representar para as famílias que dela beneficiam, em termos de poupança.

Sobre o primeiro ponto, os técnicos não têm dúvidas: apesar de a medida da gratuitidade abranger, “potencialmente, todas a crianças nascidas após 1 de Setembro de 2021”, a sua “universalização” está a ser restringida “pela limitação na oferta e lugares nos equipamentos públicos e IPSS”. A receita fica traçada: “Para se alcançar uma eventual universalização do equipamento creche, seria necessário duplicar a actual capacidade instalada”, refere-se.

A justificação vem logo a seguir, na compilação de dados vertida na nota. Segundo a PLANAPP, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística e a Carta Social, em 2020, residiam em Portugal 248.263 crianças entre os zero e os três anos, mas o número de vagas nas creches nesse mesmo ano era de apenas 118.280. Ou seja, 129.983 destas crianças, mais de metade do total, não tinham lugar nestes equipamentos.

Os autores do documento referem que, olhando para os números entre 2011 e 2020, existe “uma trajectória gradual de convergência entre a capacidade de lugares disponíveis em creche, em aumento incremental na última década, e a diminuição, mais acelerada, do número de crianças entre os zero e os três anos”. Mas essa tendência é demasiado lenta e só duplicando as vagas se poderia fechar a brecha entre os dois valores, concluem.

“A capacidade instalada dos equipamentos continua a ser um obstáculo à plena realização da medida”, refere a unidade de monitorização, alertando que o alargamento da gratuitidade às creches privadas “não terá grande variação” no número de lugares disponíveis, já que cerca de três quartos da oferta existente pertencem ao sector social.

A única solução para que os benefícios da medida — reconhecidos pelos autores da informação — sejam mais abrangentes é mesmo alargar a rede de oferta e a nota também sugere como é que tal deve ser feito.

Tendo em conta a taxa de utilização das creches existentes, por distrito — apenas a Guarda está abaixo dos 70% e Bragança e o Porto estão muito perto dos 90% —, os autores da avaliação entendem que se deve olhar para o rácio entre a procura potencial de lugares e a capacidade existente para perceber os concelhos onde a aposta no alargamento de vagas deve ser feita. E esses estão, sobretudo, nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, mas também em várias outras zonas do litoral e algumas do interior (como Mogadouro ou o Alandroal).
Poupança variada

Apesar da “disparidade” entre crianças e vagas existentes ser ainda “significativa”, as famílias que estão a beneficiar, efectivamente, da medida estão a conseguir poupar, mensalmente, entre cerca de 60 e quase 400 euros.

Os autores da análise traçaram diversos cenários, com base no número de pessoas do agregado familiar, do seu rendimento e das despesas fixas que têm, para chegar a esta conclusão. Quem poupa menos (entre 60 e 80 euros), curiosamente, são as famílias com menos rendimentos, que se encontram no 1.º e 2.º escalões de rendimentos, mas também porque, nessas condições, pagariam sempre uma mensalidade mais baixa nas creches sociais. Já um casal com dois filhos e um rendimento médio mensal do agregado de 4000 euros estará a poupar, segundo a estimativa do PLANAPP, cerca de 370 euros por mês.

A gratuitidade nas creches, uma medida actualmente denominada Creche Feliz, começou a ser adoptada em 2020, abrangendo, então, as crianças provenientes de famílias no 1.º escalão de rendimentos. No ano seguinte foi alargada às famílias do 2.º escalão e desde 1 de Setembro de 2022 que a gratuitidade abrange todas as crianças nascidas a partir de 1 de Setembro de 2021, que frequentem creches do sector solidário e social, independentemente dos rendimentos familiares. A 1 de Janeiro deste ano a medida foi alargada às creches do sector privado e prevê-se que até 2024 seja de novo alargada.

A falta de capacidade de resposta tem sido um problema constantemente referido e que já levou mesmo a secretária de Estado da Inclusão, Ana Sofia Antunes, a admitir alterar uma das premissas da medida — aquela que define que só haverá gratuitidade em creches privadas nos concelhos onde já não exista vaga no sector social.

A Creche Feliz implica que a Segurança Social pague, por cada criança abrangida, uma mensalidade de 460 euros, seja no sector social ou no privado.

O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social lançou um aviso, no âmbito do PRR — Plano de Recuperação e Resiliência, para que sejam criados pelo menos mais cinco mil novas vagas até ao final deste ano, um valor ainda muito residual em relação às reais necessidades do país.​

1.9.22

Vinte milhões para abrir cinco mil vagas em creches este ano lectivo

in Público online

Gratuitidade das creches começa esta quinta-feira nas instituições do sector social e solidário para todas as crianças que nasceram no último ano.

O Governo espera abrir mais cinco mil vagas nas creches durante o próximo ano lectivo, revelou esta quinta-feira a ministra da Solidariedade, que vai lançar este mês um anúncio de 20 milhões de euros para financiar as obras.

A medida é divulgada no dia em que arranca o programa de gratuitidade das creches, que começa esta quinta-feira nas instituições do sector social e solidário para todas as crianças que nasceram no último ano.

No próximo mês de Janeiro, acrescentou a ministra em declarações à Lusa, o programa será alargado aos bebés mais novos de instituições privadas que não conseguiram vaga no sector social e solidário.

O programa será alargado de forma faseada até 2024, quando todas as crianças dos três anos estarão abrangidas pela gratuitidade das creches, independentemente dos rendimentos das famílias.

Para garantir o acesso a todos, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS) está a trabalhar no alargamento da capacidade de resposta.

“Vamos lançar este mês um aviso, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), para alargamento de vagas de lugares em creches”, disse a ministra da Solidariedade e Segurança Social.

Segundo Ana Mendes Godinho, o aviso conta com “20 milhões de euros para procurar aumentar cinco mil lugares em creches” durante este ano lectivo.

Os projectos de reconversão de espaços já existentes terão prioridade em relação às novas construções, para que o processo seja “mais simples, mais rápido e com um custo menor”, acrescentou a governante.

No entanto, também podem candidatar-se novas construções e até espaços “desenvolvidos por construções modelares”, afirmou Ana Mendes Godinho.

“O nosso objectivo é, nos próximos dois anos, ter a capacidade de aumentar em dez mil lugares o total da rede de creches, complementando este aviso com aqueles que já lançámos”, disse a ministra.

As vagas podem abrir em todo o país, mas também aqui será dada prioridade aos projectos em zonas onde a taxa de cobertura é menor, ou seja, onde há mais procura e menos capacidade de resposta, como é o caso da área metropolitana de Lisboa.

“Vamos priorizar com critérios de discriminação positiva na identificação da selecção dos projectos a abranger”, disse.

A gratuitidade da frequência das creches está dependente da capacidade dos estabelecimentos, sendo a única excepção os casos de crianças em risco que poderão obrigar a criar uma vaga extra.

Segundo o diploma publicado no final de Julho, a excepção são as crianças com medidas de promoção e protecção “com indicação de frequência de creche, que têm acesso e admissão obrigatórios na resposta de creche, ainda que para o efeito tenha de ser criada vaga extra”.

No caso de não haver vagas para todos, há uma lista de prioridades para admissão que tem em conta a situação económica familiar mas também outras “circunstâncias conducentes à desvantagem social da criança e da respectiva família”.

A lista de prioridades para admissão nas vagas das respostas sociais é encimada pelas crianças que já frequentavam a creche no ano anterior, seguindo-se as crianças com deficiência ou incapacidades.

As crianças, que agora venham a ser abrangidas pela medida, vão mantê-la durante todos os anos que estiverem na creche.

“Este é um dia importante para as crianças em Portugal e para o país porque pode ser uma medida transformadora do ponto de vista de inclusão, de promoção de igualdade entre homens e mulheres e também da conciliação entre a vida pessoal, familiar e profissional e ser transformadora de muitas crianças permitindo que desde o início façam parte de um sistema colectivo que as integra, nomeadamente combatendo a pobreza infantil e cortando ciclos intergeracionais”, salientou Ana Mendes Godinho.

A partir desta quinta-feira, o Estado deixa de apoiar exclusivamente as famílias de mais baixos rendimentos, já que até agora apenas as crianças de famílias dos 1.º e 2.º escalões tinham direito a creches gratuitas.

20.7.22

Creches gratuitas para bebés até um ano

in SIC

Para já, medida do Governo apenas está disponível para o setor público e IPSS.

A partir de setembro, as creches passam a ser gratuitas para crianças até um ano, que frequentem o setor público e as IPSS. Mas até agora o Governo e as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) ainda não chegaram a acordo.

A menos de um mês e meio para o inicio do ano letivo, paira a incerteza entre pais e instituições. Isto porque ainda se afinam os detalhes da medida e as instituições particulares de solidariedade social ainda não sabem quanto é que o Estado vai pagar às instituições por cada bebé.

O privado fica de fora da medida, mas também quer fazer parte e a associação que representa o setor já enviou uma proposta ao Governo a dizer que as creches privadas estão dispostas a receber o mesmo valor que o Estado pagar às IPSS.

No entanto, o setor privado diz que não obteve resposta por parte do Governo, o que significa que, para já, só no setor social é que há gratuitidade das creches - e só para as crianças nascidas
a partir de 1 de setembro de 2021.

19.4.22

Creches gratuitas para crianças até um ano de idade

Clara Viana,  in Público

Esta medida deverá ter um impacto orçamental, do lado da despesa, de 16 milhões de euros.

Confirma-se. A partir de 2022/2023, as creches que têm acordo com a segurança social vão passar a ser gratuitas para todas as crianças até ao um ano de idade. É estimado que esta medida tenha um impacto orçamental, do lado da despesa, de 16 milhões de euros, como já se encontrava previsto na proposta de Orçamento de Estado para 2022 que foi chumbada.

Em 2023/2024, a gratuitidade das creches passará a abranger também as crianças até dois anos de idade, sendo generalizada no ano lectivo seguinte a todo o universo de frequência desta resposta social. O Governo frisa que se trata do “pacote mais ambicioso de sempre para lidar com o desafio demográfico”.

Neste pacote, de acordo com o relatório do Orçamento do Estado está ainda incluída a criação da garantia infância e o aumento do abono de família; o aumento das deduções por filho em IRS até aos 6 anos; o alargamento do IRS jovem e o programa regressar.

“Estas medidas, vêm juntar-se a outras já implementadas para apoiar as famílias com filhos como os manuais gratuitos, a escola digital com entrega de computadores gratuitos e a redução das propinas”, lê-se na página 44 do documento.

31.8.21

Dos dez mil lugares em creche, 3438 já estão criados

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Às vagas do Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais — 2.ª Geração juntam-se as do Plano de Recuperação e Resiliência.

O Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais — 2.ª Geração, abrange até agora 3438 vagas em creches comparticipadas pela Segurança Social. Em Outubro, um novo concurso será lançado para criar outras 5586.

A baixa cobertura média de respostas para a primeira infância é um problema há muito diagnosticado em Portugal continental. Ficava-se pelos 48,4% em 2018 (ano da última Carta Social - Rede de Serviços e Equipamentos). Lia-se então que “as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, designadamente os distritos de Lisboa, Setúbal e Porto, eram os territórios com menor cobertura”. Do outro lado da barricada, com poucas crianças, estavam “os territórios do interior, nomeadamente os distritos da Guarda, Castelo Branco e Portalegre”.

Há precisamente dois anos, o primeiro-ministro António Costa anunciou o programa que ficou conhecido pelo acrónimo PARES 0.2. Falou, então, em sete mil novas vagas, priorizando as duas áreas metropolitanas a todos os concelhos com taxa de cobertura abaixo do objectivo europeu de 33%.

Contactado pelo PÚBLICO, o Instituto de Segurança Social esclarece que “foram já assinados 59 novos contratos de comparticipação financeira com as entidades, abrangendo 3438 lugares em creche (mais de 2600 dos quais novos), num investimento público que ultrapassa os 21 milhões de euros”.

Costa subiu a parada, falando agora em dez mil vagas. “Com os concursos de há poucos meses mais o novo concurso que vamos abrir em Outubro vamos criar no próximo ano mais dez mil lugares de creche no nosso país para que haja mais dez mil crianças que possam ter uma creche para frequentar”, disse no domingo, no encerramento do Congresso do PS, em Portimão.

A margem de acção alargou-se. O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) prevê um investimento em estruturas de apoio que contribuem para responder às necessidades de prestação de cuidados a crianças, pessoas com deficiência e idosos.

Esclarece a Segurança Social que, “no âmbito do PRR, estão previstos investimentos para alargamento da rede de apoio à infância e criação de novos lugares de creches nos territórios de maior carência de resposta”. “Ao todo, serão intervencionados 5586 lugares, no valor de 54 milhões de euros, estando prevista a abertura do aviso em Outubro”, precisa.

Ao que informou aquela entidade por escrito, no dia 1 de Junho, no território continental “existiam 1854 creches com acordo de cooperação celebrado com a Segurança Social com capacidade para 89.014 crianças, 75.281 abrangidas por acordo”. Havia ainda, no sector privado, outras 1035 creches com licença de funcionamento com capacidade para acolher 28.210 crianças.

A grande fatia das respostas desta natureza pertence, portanto, ao chamado sector social e solidário. O valor de comparticipação por utente/mês em creche é de 293,66 euros.

12.10.20

Creches grátis para todos os filhos do 2.º escalão

 São José Almeida, in Público on-line

A medida abrange mais quinze mil crianças e tem um impacto orçamental de mais onze milhões de euros.

Na proposta de Orçamento do Estado para 2021, o Governo introduz uma medida que aumenta a gratuitidade das creches da rede pública e social para todos os filhos de pais cujo rendimento familiar se integra até ao segundo escalão do IRS, soube o PÚBLICO.

Esta medida irá abranger mais de quinze mil crianças e tem um impacto orçamental de mais onze milhões de euros.

A gratuitidade das creches tem sido uma das exigências do PCP nas negociações do Orçamento do Estado para o próximo ano, tal como tem sido nos anteriores. Aliás, o PCP defende mesmo o aumento da rede de creches do Estado.

No Orçamento do Estado para 2020, gratuitidade das creches para todos os filhos contemplou os pais cujos rendimentos familiares se inseriam no primeiro escalão, mas também para os pais cujos rendimentos se situavam no segundo escalão, a partir do segundo filho. Agora, a proposta de Orçamento do Estado para 2021 alarga este direito a todos os filhos do segundo escalão.

12.5.20

Sem creches abertas, a pobreza das mulheres aumenta

Henrique Raposo, in Expresso

O encerramento de creches e escolas foi o grande erro da quarentena. Foi uma reacção baseada num pânico sem base factual e desviou o foco do verdadeiro problema: os lares de idosos. As crianças e jovens estão fora de perigo e alguns estudos até sugerem que nem sequer são grandes transmissores do vírus. O perigo não está na relação entre crianças, está entre crianças e avós ou entre crianças e educadoras/professoras/funcionárias mais velhas e/ou com graves problemas médicos.

A par desta posição de princípio e que assume uma dose (ultracontrolada) de risco (não há registo de crianças mortas), gostava de salientar outro tema: creches e escolas fechadas determinam o pesadelo económico de milhares de famílias, sobretudo as mais pobres. Há fome em Portugal neste momento. Os mais pobres estão a sofrer a sério, um sofrimento que coloca a troika ao nível de um retiro espiritual. Foi tudo demasiado brusco. Não passaram a trabalhar menos. Deixaram de trabalhar. Como dizia há dias o João Vieira Pereira, aposto que os autores das petições que querem proibir a abertura de escolas e creches são pessoas com certos privilégios, podem trabalhar a partir de casa, têm casas boas com computadores, até podem prescindir de trabalhar para estar com os filhos.

Vejam se entendem, por favor: os mais pobres não se podem dar ao luxo do #ficaremcasa; sem os filhos nas creches e escolas, não conseguem viver. Os pobres já não vivem no dia a dia normal, sobrevivem. O #ficaremcasa nem sequer os deixa sobreviver. E isto é ainda mais evidente nas mulheres. As casadas são as grandes sacrificadas no trabalho doméstico (que aumenta) e no trabalho profissional (que fica para trás). E as grandes vítimas da quarentena são as mães solteiras ou divorciadas e os seus filhos. Abram os olhos. Abram as creches e escolas.

30.4.20

Creches abrem já a 18 de Maio e o pré-escolar a 1 de Junho

Marta Moitinho Oliveira, Natália Faria e São José Almeida, in Público on-line

O plano de regresso à normalidade que o Governo apresentou esta quarta-feira aos parceiros sociais prevê a abertura das creches ainda em Maio e o pré-escolar e ATL a 1 de Junho. Aulas presenciais do 11º e 12 º anos serão em turnos de 3 horas.

As creches vão abrir já a 18 de Maio e o pré-escolar e os ATL a 1 de Junho, apurou o PÚBLICO. As datas foram reveladas esta quarta-feira pelo Governo aos parceiros sociais. António Costa anuncia esta quinta-feira o calendário completo para o regresso à normalidade.

As aulas dos 11.º e 12.º anos funcionarão, a partir de 18 de Maio, em turnos rotativos, 3 horas de manhã e 3 horas à tarde.

O primeiro-ministro está esta quarta-feira numa maratona de encontros com patrões, sindicatos e partidos, que culminam com uma audiência com o Presidente da República. Amanhã o executivo aprova em Conselho de Ministro o calendário para sair do confinamento e que concretiza um retorno gradual, progressivo e alternado para a economia e as pessoas.

As medidas apresentadas esta quarta-feira pelo primeiro-ministro à concertação social e aos partidos políticos fazem parte de um documento base preparado pelo Governo e indicador do calendário e estratégia. Mas é natural que no Conselho de Ministros haja afinamentos e alterações, até fruto das reuniões desta quarta-feira.

Nesta abertura das creches, pelo menos durante a primeira fase, os pais podem optar por ficar em casa recebendo o apoio à família (com direito a 66% da remuneração). Na data de 18 de Maio abrem ainda os centros de actividades ocupacionais para pessoas com deficiência, confirmou o PÚBLICO junto de várias fontes.

A 16 de Abril o primeiro-ministro tinha dito no Parlamento que o Governo queria reabrir as creches em Maio para as famílias, muitas com perdas de rendimento ou com esforço acrescido quando estão em regime de teletrabalho. António Costa revelou ainda nessa altura a intenção de abrir o pré-escolar, “pelo menos no período praia/campo, para que as crianças possam voltar a conviver”. A abertura das creches esteve depois prevista para 1 de Junho na estratégia e calendário do Governo noticiado pelo PÚBLICO. Mas o primeiro-ministro pondera agora antecipar a data, fruto da pressão que o sector sofre.

As creches, destinadas a acolher crianças a partir dos zero anos, deverão assim reabrir já no próximo dia 18 de Maio. Depois, e se a evolução da pandemia o permitir, o pré-escolar, dos três anos até à entrada na escolaridade obrigatória, deverá abrir cerca de duas semanas depois, no dia 1 de Junho. A partir desta altura, e a confirmar-se a manutenção da curva epidemiológica, o Estado cessa o apoio para que os pais fiquem em casa com as crianças.

A União das Misericórdias Portuguesas (UMP) já tinha defendido, pela voz do seu presidente, Manuel Lemos, em declarações ao PÚBLICO que as creches deveriam poder abrir em meados de Maio para poderem acompanhar o regresso dos pais ao trabalho nos diversos sectores que, ao longo do mês vão retomar a actividade — desde as várias unidades fabris mas também o comércio.

“Numa zona fabril, cujas unidades começam a reabrir no início de Maio, como em Vizela, por exemplo, há muitos pais que estão a falar com as misericórdias para se poderem reabrir as creches, porque não têm onde deixar os filhos. E, com cautela e testes, acho que estas creches têm o dever de reabrir, para ajudar a economia”, defendeu o presidente da UMP, sob cuja tutela existem 218 creches e jardins-de-infância espalhados pelo país.

O presidente da UMP apontou, de resto, o exemplo da Dinamarca, que permitiu a reabertura destes equipamentos de guarda de crianças, fazendo aumentar de dois para seis metros quadrados o espaço reservado em média para cada uma delas. Uma precaução que, segundo Manuel Lemos, acontecera naturalmente. “Vai haver mais gente desempregada, que deixa de precisar de recorrer aos equipamentos e muitos pais que não o quererão e arranjarão outras soluções”, admite, para considerar que “abrir tudo no dia 1 de Junho, ‘à bruta’, poderia ser contraproducente quanto àquilo que se quer seja a responsabilização dos pais no combate ao contágio” pelo novo coronavírus.

A abertura progressiva destes equipamentos de guarda das crianças — ressalva o presidente da UMP — não poderá ser feita sem que estejam garantidas medidas como sejam a medição da temperatura de crianças e cuidadores, por um lado, e a garantia da existência de equipamentos de protecção individual, por outro.

29.4.20

Misericórdias defendem abertura das creches e lares de infância em meados de Maio

Natália Faria, in Público on-line

A reabertura dos lares de idosos aos familiares continua sem data prevista. CNIS defende que deve acontecer “o quanto antes”, para que os idosos não se sintam abandonados.

Em vez de uma data fixa para a abertura de todas as creches – que o Governo apontou para o dia 1 de Junho —, o presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), Manuel Lemos, preferia uma solução “à dinamarquesa”: que as creches e jardins-de-infância pudessem abrir progressivamente, já a partir de meados de Maio, consoante as necessidades e vontade manifestadas pelos pais das crianças.

“Numa zona fabril, cujas unidades começam a reabrir no início de Maio, como em Vizela, por exemplo, há muitos pais que estão a falar com as misericórdias para se poderem reabrir as creches, porque não têm onde deixar os filhos. E, com cautela e testes, acho que estas creches têm o dever de reabrir, para ajudar a economia”, defendeu o presidente da UMP, sob cuja tutela existem 218 creches e jardins-de-infância espalhados pelo país.

Apontando o exemplo dinamarquês – “que são os ‘latinos’ da Europa do Norte” —, Manuel Lemos admite que estes equipamentos possam aumentar a distância entre crianças de dois para seis metros quadrados, para diminuir o risco de contágio, dizendo acreditar que tal possa acontecer sem necessidade de regulamentação específica. “Vai haver mais gente desempregada, que deixa de precisar de recorrer aos equipamentos e muitos pais que não o quererão e arranjarão outras soluções”, admite, para considerar que “abrir tudo no dia 1 de Junho, ‘à bruta’, pode não ajudar naquilo que se quer seja a responsabilização dos pais no combate ao contágio” pelo novo coronavírus.

A abertura progressiva destes equipamentos de guarda das crianças — ressalva o presidente da UMP — não poderá ser feita sem que estejam garantidas medidas, como sejam a medição da temperatura de crianças e cuidadores, por um lado, e a garantia da existência de equipamentos de protecção individual.

E os lares? “O quanto antes"
Sem data definida está a reabertura dos lares às visitas dos familiares. Conscientes de que o confinamento dos idosos institucionalizados em lares já dura há quase dois meses, o presidente da Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade Nacional (CNIS), Lino Maia, considera que as portas dos lares deveriam abrir-se aos familiares dos utentes o quanto antes. “Os lares estão encerrados desde o dia 6 de Março. É muito tempo. E a saudade e o enclausuramento tornam os idosos ainda mais frágeis. Aliás, estou convencido que vamos ter de enfrentar problemas mentais acrescidos nesta população”, avisa, ressalvando que a ideia “não é escancarar os lares”, mas garantir que, “em espaços próprios, devidamente desinfectados e com a devida distância”, tais contactos se possam restabelecer.

“A decisão não é nossa – será do Governo —, mas penso que temos de começar a tomar medidas para o ‘próximo imediato’ e uma das mais importantes será fazer sentir aos idosos que não estão abandonados”, avisa, confessando-se horrorizado com as declarações da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, que estimou há dias que a proibição de visitas nos lares de idosos possa perdurar até ao fim do ano. “Estes utentes viram os prisioneiros transpor as portas das prisões – e aplaudiram isso —, vêem as creches e outras actividades serem reabertas e interrogam-se: ‘E nós?’. É importante que se aponte uma data, porque os idosos também precisam de perspectivas”, insiste.

O presidente da CNIS considera, de resto, que a recente abertura de portas à possibilidade de os idosos com covid-19 serem transferidos para outras instalações — que diz estarem a ser criadas em vários pontos do país, com a colaboração das autarquias — possa ajudar a acelerar o calendário da reabertura dos lares. O mesmo se passa com o despacho publicado sábado pelo Ministério da Saúde que prevê que estes utentes possam ser acompanhados pelos médicos e enfermeiros dos centros de saúde. “Foi uma decisão importantíssima — tardia, mas importantíssima —, porque com os médicos e enfermeiros que colaboravam com os lares cooptados pelo SNS, os profissionais dos lares não têm, em muitos casos, condições de garantir os cuidados a estes doentes.”

Mais cauteloso sobre esta matéria, o presidente da UMP, Manuel Lemos, não prevê que este “desconfinamento” dos lares se possa fazer antes de decorrido um mês ou um mês e meio. “Do ponto de vista afectivo e emocional isto é muito violento para os utentes, mas temos de nos assegurar que estão garantidas todas as condições de segurança, embora admita que este processo se possa fazer de forma gradual, consoante as instituições: num lar que tenha jardim, e estando bom tempo, esse contacto pode ser feito no exterior para minimizar o risco”, admite, concluindo que “cada caso será um caso”.

quando estes existam e nos casos em que os idosos se possam deslocar. É, de resto, o que se passa na Noruega, onde a ideia é que, nos dias de bom tempo, as visitas possam fazer-se ao ar livre, sem contacto físico entre idosos e familiares. Na Alemanha, a proibição de visitas cessa a partir de 1 de Maio. Para garantir a protecção dos idosos, serão obrigatórias medidas como a medição da febre, a desinfecção das mãos e a protecção do nariz e da boca, com máscaras. Os visitantes só poderão entrar em determinadas áreas do lar, devidamente higienizadas e previamente definidas. Serão, de igual modo, criadas as chamadas “salas de despedida”, onde familiares poderão despedir-se dos idosos em cuidados paliativos.

Em Portugal, para que se possa obter um retrato fiel dos lares de idosos e dependentes, bem como das unidades de cuidados continuados tutelados pelas Misericórdias, Manuel Lemos endereçou segunda-feira uma carta aos 400 provedores pedindo-lhes que comuniquem semanalmente todos os casos de contágio e óbitos relacionados com a covid-19. “Estes números serão divulgados todas as semanas, para o melhor e para o pior. Mas acredito que ajudarão a combater esta ideia de que os lares são antecâmaras da morte. Não são. E, aliás, esta contabilização das mortes de utentes de lares por covid-19 que é feita pela Direcção-Geral de Saúde, sem distinguir entre os que são os lares com protocolos com o Estado e os restantes, causa-nos um dano reputacional desnecessário”, critica.

A UMP tem 551 lares de idosos sob sua tutela – com cerca de 29 mil idosos —, além de 150 unidades de cuidados continuados, com cerca de 4500 camas.

28.4.20

Creches vão recusar crianças com mensalidades em atraso

Alexandra Inácio, in JN

Com cada vez mais famílias a falharem o pagamento das mensalidades, as escolas só irão receber as crianças com pagamentos em dia

A confirmação só deve ser feita quinta-feira mas a intenção do Governo é permitir que as creches voltem a funcionar a 1 de junho.

A Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular (ACPEEP) defende a "urgente" reabertura ainda em maio e que o regresso não seja apenas para as crianças até aos 3 anos, mas também de jardins de infância e 1.º ciclo. E deixa um aviso: com cada vez mais famílias a falharem o pagamento das mensalidades, as escolas só irão receber as crianças com pagamentos em dia.

"Não é uma questão de represália, mas de respeito e igualdade para com quem fez o sacrifício de pagar", justifica a presidente da ACPEEP, Susana Batista. A Deco, recorde-se, recomendou às famílias negociarem reduções nas mensalidades mas nunca deixarem de pagar, sob pena de perderem a vaga. A associação - que terá cerca de uma centena de associados - recebeu mais de 100 pedidos de esclarecimento de encarregados de educação.

Na carta enviada ao Governo e presidente da República sobre as medidas que devem ser seguidas no desconfinamento, a ACPEEP, alerta que as creches privadas já perderam em média 15% dos seus alunos e os jardins de infância 10%. Apesar do "esforço para reduzir as mensalidades", o incumprimento nos pagamentos disparou entre março e abril, sendo que este mês 35% das creches associadas reportaram uma quebra de faturação superior a 50%.

"É com espanto e desagrado que vemos que o pequeno comércio pode abrir a partir de 4 de maio e nós só a 1 de junho. Onde é que os pais vão deixar as crianças para irem trabalhar?", critica Susana Batista, que receia que alguns estabelecimentos não consigam sobreviver até junho se continuar a agravar-se o cancelamento de inscrições e a falta de pagamentos. A associação reclama a atribuição de um subsídio mensal de 150 euros por família para ajudar a garantir "a sustentabilidade" das creches.

58% dos pais têm medo

De acordo com os resultados de um questionário enviado a creches e encarregados de educação pela ACPEEP, só 42% dos pais pretendem deixar os filhos regressar às escolas.

"Há os que estão desesperados por voltar a trabalhar e os que, por estarem em teletrabalho ou terem filhos mais velhos, têm medo e vão manter-se em casa", explica Susana Batista. A presidente da ACPEEP considera que esse receio até pode ajudar numa fase inicial de regresso à atividade, já que pode permitir "uma redução automática dos grupos".

A ACPEEP aprovou um guia com 28 medidas que devem ser aplicadas na reabertura [ler caixa ao lado]. Sem respostas do Governo, já há colégios a encomendar equipamentos como os termómetros infravermelhos "que acreditamos serão obrigatórios, num contexto de reabertura, e que estão completamente esgotados em Portugal", garante Susana Batista. A ACPEEP pediu ao Governo a regulação do preço de equipamentos de proteção individual, como máscaras, viseiras ou álcool que também serão de uso obrigatório.




27.3.20

Instituições de solidariedade convidadas a reduzir mensalidades das creches

Clara Viana, in Público on-line

CNIS está a aconselhar instituições a reduzir mensalidades mediante acordos com as famílias. Nos colégios ao valor das propinas serão apenas descontados serviços como os transportes ou alimentação, mantendo-se o restante igual uma vez que as aulas estão a ser garantidas “à distância”.

A Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) está a aconselhar às instituições da rede social que procedam a uma “diminuição da comparticipação mensal” que as famílias pagam pela frequência de creches e outras respostas sociais que se encontrem encerradas por determinação do Governo, devido à pandemia provocada pela covid-19, indicou ao PÚBLICO o seu presidente, Lino Maia.

A decisão cabe a cada uma das instituições particulares de solidariedade social (IPSS), a quem a CNIS sugere também que a tomem com base em acordos estabelecidos com as famílias, frisa Lino Maia.

Em 2018, último ano com dados, das 2750 creches existentes em Portugal Continental, que acolhem crianças até aos três anos de idade, 2090 eram propriedade de IPSS, existindo comparticipação do Estado para 63% dos 117.300 lugares então existentes nestes equipamentos. Nestes casos, as prestações pagas pela famílias podem oscilar entre 15% a 35% do rendimento per capita do agregado familiar que está dividido por seis escalões. Mais concretamente, nos termos da lei, as mensalidades variarão entre 33 euros e 384 euros.

As orientações da CNIS foram publicadas nesta quarta-feira no jornal online da instituição, num texto assinado pelo seu presidente, no qual se destaca que a actual situação não se encontra prevista na legislação que regulamenta o financiamento das IPSS. No que respeita às propinas pagas pelas famílias, na portaria 196-A/2015 apenas está estabelecido que “há lugar a uma redução de 10 % na comparticipação familiar mensal quando o período de ausência devidamente fundamentado exceda 15 dias seguidos”.

“Mas essa redução tem como pressuposto que a ausência, embora justificada, resulta da opção do utente, o que não é o caso em análise a propósito do encerramento forçado das respostas sociais”, justifica Lino Maia.

Por isso, adianta, “a questão é a de saber se, no actual contexto de encerramento de diversas respostas sociais, determinado por lei, originando a suspensão da prestação de serviços contratada com os utentes ou seus familiares, se mantém, e em que termos, o dever de pagamento das comparticipações familiares”. E esta para já é uma questão que “não tem uma solução uniforme”.

“A forma mais equilibrada de resolver este constrangimento foi a adoptada pelo Governo Regional da Madeira, que decidiu no sentido de mandar isentar do pagamento das comparticipações familiares os utentes das respostas encerradas, assumindo o Governo Regional esse encargo”, adianta Lino Maia.

CML deixa de cobrar rendas

Na ausência de uma resposta deste tipo no continente, a CNIS sugere que deverá ser cada instituição a “definir as propostas negociais” a apresentar às famílias com base “em juízos de equidade”. Por exemplo, a situação não é igual no caso de as instituições manterem “um mínimo de funcionamento das respostas”, de modo a estarem preparadas quando for a altura de reactivar o seu funcionamento, ou pelo contrário terem optado pelo “encerramento completo, com o envio dos trabalhadores para casa ou para o desemprego”.

Entretanto, a Câmara Municipal de Lisboa já decidiu que não vai cobrar rendas pelos espaços camarários utilizados por IPSS que servem a cidade, nomeadamente nas respostas de creches”, indicou ao PÚBLICO o assessor do vereador que tem a pasta da Educação, Manuel Grilo. A autarquia lembra que aqueles espaços “são geridos pelas IPPS” e que por isso “é da inteira responsabilidade destas instituições a redução ou isenção das mensalidades, tendo sempre atenção à necessidade de manutenção dos postos de trabalho envolvidos nesta resposta.”

Colégios mantêm propinas
Já no que respeita aos colégios tudo vai continuar igual, ou seja, as propinas vão continuar a ser cobradas e praticamente com os mesmos valores. “Estamos a prestar o serviço que a lei nos obriga neste momento, que é o ensino à distância”, justifica o director-executivo da Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo (Aeep), Rodrigo Queiroz e Melo, frisando que as mensalidades resultam de um “contrato anual estabelecido com as famílias que é pago em dez prestações”.

Às mensalidades serão abatidos apenas os serviços que não estão a ser prestados, como transportes ou alimentação, especifica este responsável, garantindo que no que respeita aos colégios “não conhece nenhum caso onde o ensino não esteja a ser a feito à distância”. “Até na pré-escolar temos mantido a actividade de modo a permitir que os mais pequenos continuem em contacto com os seus colegas e a educadora, ajudando assim a que se sintam mais seguros”.

Nesta terça-feira, o primeiro-ministro admitiu que devido à actual pandemia as escolas não voltarão a abrir este ano lectivo. Por essa razão, adianta o director executivo da Aeep, os colégios vão aproveitar as férias da Páscoa para analisar o que foi feito nestas duas semanas de encerramento das escolas, de modo a que no 3.º período a oferta disponível para os alunos “seja mais estruturada e organizada”.

Por agora, os colégios têm outra reivindicação. Conseguir que o Governo lhes garanta “o acesso imediato ao regime de layoff simplificado” de modo a aplicá-lo aos “trabalhadores não docentes que estão sem qualquer tipo de trabalho”.

Neste regime, os trabalhadores ficam a ganhar 2/3 do seu vencimento ilíquido, sendo 70% suportado pela Segurança Social e 30% pelo empregador.

10.3.14

O jardim-de-infância dos meus filhos

Por Inês Teotónio Pereira, in iOnline

Ninguém levantava a voz, mas quando era preciso a criançada era posta na ordem

As crianças passam a maior parte das suas vidas em escolas e creches e quanto mais pequenas mais tempo passam nas creches e nas escolas. Se virmos bem, tirando os fins-de-semana e as férias, elas só vão a casa comer, tomar banho, ver televisão e dormir. Ou seja, as creches são muitas vezes as primeiras casas dos nossos filhos.

A primeira vez que entrei numa creche para deixar o meu filho com dois anos foi um momento inesquecível: dezenas de crianças do mesmo tamanho (grande parte delas a chorar) e divididas por salas que iam dos meses de idade aos cinco anos. O meu filho lá ficou, a chorar, e eu fui trabalhar com uma nuvem em cima da cabeça. Quando voltei para o ir buscar disseram-me que ele tinha parado de chorado passado pouco tempo de o ter abandonado, que tinha feito cocó duas vezes, que tinha comido bem e que também tinha feito uma sesta razoável. Um dia ele deixou finalmente de chorar e entregou-se ao destino. A creche tinha imensas crianças, imensas regras e imensos horários. Nós, pais, sabíamos pouco do que ali se passava porque não podíamos entrar na escola sempre que nos apetecia ou sem razão. O relato era feito de tempos a tempos pela educadora, que nos ia informando da evolução nas necessidades orgânicas da criança e pouco mais e a avaliação versava sobre coisas como o desembaraço da criança a apertar os sapatos. Era à confiança. Era tudo uma questão de confiança. Toda a gente me tratava por "mãe" e para conversas mais prolongadas ou detalhadas marcava-se uma reunião. Fui infeliz naquela creche. Apesar de ser uma excelente creche, com excelentes instalações, educadoras com óptimos currículos e regras imbatíveis.

Até que descobri outra creche. Nesta creche havia a sala de cima e a sala de baixo. Depois havia a oficina, bicicletas sem pedais e com pedais, a cozinha, dois coelhos, pintos, duas árvores a que se podia trepar e até areia. Ninguém me chamava "mãe", tratavam-me todos pelo nome e ao meu filho tratavam pela alcunha. A natureza das actividades variava: se estivesse bom tempo iam à praça, iam à serra, iam à praia, pisavam uvas, iam ao parque dos baloiços, e se estivesse a chover faziam bolos e bolachas, teatros, desenhos, o jogo das cadeiras e até havia o dia ao contrário: as crianças iam de pijama para escola e começavam o almoço pela sobremesa. No arraial do final do ano saltávamos todos à fogueira. Cada um punha o seu lugar à mesa e só aos cinco anos é que começavam a fazer fichas. Faziam os desenhos e as brincadeiras mais incríveis e por cada obstáculo que conseguiam ultrapassar (subir a uma árvore ou andar de bicicleta, por exemplo) organizava-se uma festa. No Natal éramos nós, pais, quem fazíamos figura de parvos no teatro. Ali não havia regras imbatíveis e todos eram disciplinados. Ninguém levantava a voz mas quando era preciso a criançada era posta na ordem.

Os meus filhos andaram lá todos e chegavam mesmo a chorar quando não iam ao jardim infantil ou quando os iam buscar. Eu entrava lá sempre que queria e conhecia os pais e os avós da criançada toda. Este jardim-infantil ajudou-me a educar os meus filhos. Não os educou por mim nem os entreteve por mim. Ajudou-me a educá-los e a fazer com que cada dia que eles ali passaram fosse um dia feliz. E foram. Todos. Nunca conheci nada parecido com O Pinhão, mas acho que todas as crianças deviam ter direito a passar mais de metade da sua infância em sítios assim. Em que se dá mais importância à brincadeira e à auto-estima de cada um deles do que ao desembaraço a fazer os laços dos sapatos ou às fichas de ortografia. É que até aos cinco anos, meus senhores, as crianças deviam passar os dias a brincar e pouco mais.

5.3.14

Lares e creches ilegais dão multas até 40 mil euros

Por Sílvia Caneco, in iOnline

Multas foram agravadas. Ministério diz que eram necessários valores "desencorajadores" para prevenir situações de negligência e maus tratos

Dentro de dois meses, manter em funcionamento lares, creches, centros de actividades de tempos livres ou casas de acolhimento temporário sem a devida licença vai dar coimas entre os 20 e os 40 mil euros. Os estabelecimentos que funcionarem sobrelotados, sem regulamento interno, em instalações inadequadas, com falta de pessoal especializado ou com falta de condições de higiene ou segurança também estarão a cometer infracções muito graves, que passam a ser punidas com coimas entre os 5 e os 10 mil euros. Quem reincidir, verá estas multas agravadas até um terço do respectivo valor. Ou até mais, se se comprovar que quem infringiu as normas retirou da infracção um benefício superior ao limite máximo da coima.

Além das coimas, as infracções muito graves podem levar ao encerramento do estabelecimento, à inibição do exercício da profissão por um período até três anos, à perda do direito a subsídios ou benefícios concedidos por entidades públicas.

O novo regime de instalação, funcionamento e fiscalização dos estabelecimentos de apoio social geridos por entidades privadas foi ontem publicado em Diário da República e entra em vigor dentro de 60 dias. Não era revisto desde 1997.

O Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social justifica o agravamento das coimas pela necessidade de prevenir práticas ilícitas nestes estabelecimentos, em particular o seu funcionamento sem licença e situações de negligência e maus tratos, "com carácter de reincidência". Na introdução ao novo decreto-lei, o governo sublinha que a segurança social tem vindo "a intensificar fortemente o combate a este tipo de infracções", mas que é preciso punir de forma "rigorosa e com valores "desencorajadores" o exercício ilegal de actividades de apoio social, "que funcionam ao arrepio dos mais elementares direitos dos cidadãos, adultos e crianças ou jovens institucionalizados, e que o Estado tem o dever de proteger" porque "envolvem pessoas em situação de grande vulnerabilidade social".

De acordo com as novas normas, lares, creches e instituições que prestem apoio a crianças, jovens, idosos ou pessoas com deficiência que não substituam no prazo de 30 dias a licença de funcionamento ou não comuniquem ao Instituto de Segurança Social as alterações à actividade, ao regulamento interno, aos mapas de utentes e do pessoal e ao preçário em vigor estão a cometer uma infracção grave, que pode valer coimas entre os 2500 e os 5 mil euros.

A falta de afixação em local "bem visível" da licença ou autorização provisória de funcionamento, do mapa de pessoal e respectivos horários, do nome do director técnico, do regulamento interno e até das ementas e do preçário passam também a dar lugar a coimas entre os 500 e os mil euros, sendo consideradas infracções leves.

A determinação da coima terá em conta a gravidade da ilegalidade, a culpa, a reincidência e, também, o benefício económico que este retirou por praticar o acto ilegal.

18.2.14

Segurança Social fechou 89 lares de idosos e cinco creches em 2013

in Jornal de Notícias

O Instituto da Segurança Social fechou o ano passado 89 lares e cinco creches, resultado das mais de mil inspeções feitas em 2013, havendo, no entanto, um aumento da capacidade instalada.

Segundo dados do ISS enviados à agência Lusa, foram realizadas, durante os 12 meses de 2013, 666 ações de fiscalização a lares de idosos, das quais resultou o encerramento de 89 estabelecimentos.

Comparando com 2012, o número de fiscalizações é substancialmente mais baixo, já que nesse ano foram feitas 813. No entanto, o número de estabelecimentos encerrados aumentou entre 2012 e 2013, passando de 83 para 89.

"Os motivos que levaram ao encerramento destes lares prenderam-se, em geral, com: alvará; instalações; certificado de condições de segurança do Serviço Nacional de Bombeiros e Proteção Civil; certificado de vistoria higiosanitária; licença de utilização das instalações; regulamento interno; diretor técnico; plano de atividades; livro de registo de admissão de utentes", diz o ISS.

Para além dos fechos coercivos, houve também oito encerramentos voluntários em 2012 e seis em 2013.

No seio das creches, o ISS fez 362 ações de fiscalização que resultaram no encerramento de cinco estabelecimentos.

O instituto explica que a falta de licenciamento não justifica, por si só, o encerramento de uma creche e acrescenta que foram vários os motivos que levaram ao fecho daqueles cinco estabelecimentos.

"Deficiências graves nas condições de salubridade, higiene e conforto dos utentes, incluindo falhas no número e qualificação dos recursos humanos, suscetíveis de colocar em risco os direitos e a qualidade de vida das crianças, nomeadamente a sua integridade física e psíquica", revela.

Para além destas cinco creches fechadas pela Segurança Social, houve ainda 29 encerramentos voluntários, "que ocorreram por decisão das próprias instituições".

Paralelamente aos estabelecimentos encerrados, o ISS recebeu 66 pedidos para novas licenças de funcionamento de creches e 102 para estruturas residenciais de idosos.

Tudo somado, o ISS revela que a capacidade instalada aumentou tanto ao nível das creches como dos lares de idosos.

Em relação aos lares, a capacidade das estruturas residenciais aumentou mais de 2.700 lugares, passando de 63.409 utentes em 2012 para 66.117 em 2013.

Já nas creches, o crescimento foi bastante maior, uma vez que se passou de 104.764 lugares em 2012 para 113.917 em 2013, mais de 9 mil lugares.

15.4.13

Pais retiram filhos das creches por não conseguirem pagar mensalidade

por Filomena Barros, in RR

Associação de creches queixa-se de que os colégios da rede solidária têm comparticipação do Estado, mas não atendem muitos dos casos de famílias carenciadas.

Muitas crianças estão a ser retiradas das creches por falta de pagamento. Os pais estão a ficar sem dinheiro para pagar as mensalidades e procuram alternativas para deixar as crianças.

Há menos alunos, por desistência, mas sobretudo porque as famílias deixam de ter condições para pagar a mensalidade. Este impacto da crise económica atinge os pequenos colégios privados, que começam a ter vagas pela primeira vez em anos.

Susana Batista esteve na origem da Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Privados, há seis anos, e admite que muitas famílias procuram outras respostas. “Ou conseguem uma ama a um preço muito mais barato, ou as crianças ficam com as famílias”, observa.

Os colégios privados procuram dar respostas sociais, mas não chegam a todos. A associação queixa-se do que chama concorrência desleal: os colégios da rede solidária têm comparticipação do Estado, mas não atendem muitos dos casos de famílias carenciadas.

O Estado paga 246 euros por criança numa Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), seja uma família carenciada ou não.

É o que está previsto na lei, mas a Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Privados defende a revisão de critérios e a liberdade de escolha dos pais, mas também anda preocupada com os postos de trabalho que estão em risco se os colégios continuarem a perder alunos.