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22.9.23

Parlamento autoriza Governo a criar “cadastro” para gestores condenados

Maria Lopes, in Público

Partidos aplaudem transparência mas criticam falta de informação sobre o modelo da base de dados. PSD avisa para possibilidade de “pena perpétua”.


O Parlamento aprovou nesta sexta-feira a autorização para que o Governo crie uma base de dados de inibições e destituições de gestores e administradores de empresas. Trata-se de um "cadastro" acessível por todos os países da União Europeia e onde os serviços do Instituto dos Registos e Notariado terão que verificar se as pessoas que as empresas querem nomear para os seus órgãos executivos podem assumir funções.

A base de dados incluirá informação relativa às inibições de pessoas singulares para o exercício do comércio, para a ocupação de determinados cargos e para a administração de patrimónios alheios, bem como às destituições judiciais de titulares de órgãos sociais transitadas em julgado.

Votaram a favor da proposta de lei as bancadas do PS, PSD, Chega e PAN, enquanto a IL, o PCP e o Bloco se abstiveram. O Governo tem agora 180 dias para aprovar em Conselho de Ministros o decreto-lei que operacionaliza a base de dados, e que até enviou ao Parlamento para conhecimento dos deputados.

No debate que antecedeu a votação, apesar de a maioria dos partidos ter realçado os benefícios de um instrumento de transparência desta natureza, houve críticas de diversas bancadas à omissão do Governo sobre como ficará organizada a base de dados, já que o texto do decreto diz que esta "pode ser organizada de modo centralizado, descentralizado ou repartido de modo funcional ou geográfico".



Também se fizeram reparos citando os pareceres da CNPD - Comissão Nacional de Protecção de Dados e da Ordem dos Advogados: a primeira considera que a manutenção do registo das pessoas durante 20 anos é um prazo excessivo e a segunda quer que também os advogados sejam autorizados a aceder à base de dados.

A criação da base de dados de inibições e destituições decorre da transposição de uma directiva de 2019. Países como a Espanha, a França e a Irlanda também já criaram este registo. A base de dados poderá ser acedida por entidades de todos os Estados-membros da União Europeia, funciona em regime de reciprocidade geral e será gerida pelo Instituto de Registos e Notariado (IRN).


Até ao final de 2024, a informação sobre as condenações, inibições e destituições decididas pelos tribunais ou pelas entidades administrativas reguladoras (como por exemplo o Banco de Portugal, que chegou a decretar a inibição de administradores do BPN e BCP) será transmitida ao IRN que depois a insere na base de dados, mas depois disso haverá comunicação automática por via digital, garantiu o secretário de Estado da Justiça, Pedro Tavares.
Clarificar o modelo

A deputada social-democrata Paula Cardoso considerou "pertinente que os comportamentos abusivos possam ser verificados" e destacou a importância do registo funcionar em regime de interconexão entre tribunais e serviços administrativos de registos. Mas lembrou ser preciso clarificar quem são as entidades que podem consultar a base de dados e também qual será afinal o modelo técnico que o Governo pretende escolher - centralizado, descentralizado ou repartido geograficamente.

Paula Cardoso salientou que não se percebe qual o prazo de conservação da informação sobre as destituições. Porque, enfatizou, "para quem é destituído aos 30 ou 40 anos, contar mais 20 anos é como uma pena perpétua [na sua vida profissional]. E a pena perpétua é proibida em Portugal". Estes prazos podem ter problemas de inconstitucionalidade, avisou.


"A directiva prevê mecanismos de intercâmbio de informação sobre se uma determinada pessoa está inibida do exercício do cargo de administrador de uma sociedade, bem como de outra informação relevante, e permite que os Estados-membros recusem a nomeação de uma pessoa como administradora de uma sociedade se ela estiver sujeita a uma inibição do exercício de cargos de direcção noutro Estado-membro", justifica o Governo na proposta de lei que é discutida nesta sexta-feira no Parlamento. O objectivo é "prevenir comportamentos fraudulentos ou abusivos".


O Instituto dos Registos e Notariado (IRN) português terá de recusar o registo de um cidadão como administrador de uma empresa se este estiver sujeito à inibição do exercício do cargo noutro Estado-membro e vice-versa.

Além dos dados de identificação pessoal, a base de dados de inibições e destituições (BDID) incluirá o tipo de inibição, o seu conteúdo, o período, a identificação do processo que deu origem à inibição ou destituição, e o tribunal ou a entidade administrativa que as decretou. Terão acesso à base de dados os conservadores e oficiais de registos, os magistrados judiciais e do Ministério Público, e os órgãos de polícia criminal – além do titular dessa informação.

[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

14.9.23

Marcelo apela à participação política dos emigrantes portugueses

Por Lusa, in TSF

No Canadá, o Presidente da República refere que "vai haver uma eleição para os responsáveis do Conselho das Comunidades".


OPresidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez na quarta-feira um apelo à participação política dos emigrantes portugueses no Canadá nas eleições em Portugal e para o Conselho das Comunidades Portuguesas.

O chefe de Estado discursava num encontro com representantes da comunidade portuguesa em Montreal, primeiro ponto da sua visita oficial ao Canadá, na quarta-feira à noite, já madrugada de hoje em Lisboa.


"É preciso que não se desinteressem da participação política, também em Portugal. Na eleição dos conselheiros das comunidades -- saiu agora uma nova lei -- pois é fundamental que participem", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, referindo que "vai haver uma eleição para os responsáveis do Conselho das Comunidades".

Perante algumas centenas de pessoas, no salão de um hotel em Montreal, o Presidente da República pediu: "Não se desinteressem, não fiquem alheados da preocupação das eleições em Portugal. Eu falo muito à vontade, já não tenho mais nenhuma eleição pela frente. Portanto, é fundamental que participem. A vossa participação dá-vos mais força em Portugal e mais força aqui. Isso é essencial".


Nesta intervenção, o chefe de Estado realçou o turismo de canadianos em Portugal e, entre estes, destacou a presença de "luso-canadianos que chegam e ou já tinham residência ou passam a ter uma nova residência, e investem tantos deles em Portugal".

"Essa é uma realidade nova, é uma realidade que está a crescer. Não é apenas o que devemos ao longo da história àquilo que enviam das suas poupanças, é o acreditarem no contribuir para o Portugal de hoje e para o Portugal de futuro", acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa, considerando que "isso é inestimável".

Acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, e representantes de todos os grupos parlamentares -- PS, PSD, Chega, Iniciativa Liberal, PCP e Bloco de Esquerda -- o Presidente da República afirmou que "é Portugal que está unido para agradecer a esta comunidade anos e anos e anos e décadas de dedicação".

Marcelo Rebelo de Sousa mencionou que o último Presidente português a visitar Montreal foi "o inesquecível e sempre recordado" Jorge Sampaio, há 22 anos, em maio de 2001, para quem pediu uma salva de palmas.

15.2.23

Habitação marca a agenda política em quatro datas

Ana Bacelar Begonha, in Público online

A crise habitacional tem marcado o debate político e continuará sob foco ao longo dos próximos dias.

Esta quinta-feira, o Governo apresentará um conjunto de medidas em resposta à crise habitacional do país que tem vindo a agravar-se com o aumento dos preços das casas para compra e arrendamento e das taxas de juro dos créditos à habitação. PSD e PCP anteciparam-se ao Governo, com iniciativas próprias que foram apresentadas esta terça-feira pelos sociais-democratas e vão a discussão no Parlamento por proposta dos comunistas esta quarta-feira. O tema continuará na agenda política até ao final do mês, em que passará para as ruas com uma manifestação frente à Assembleia.

14 de Fevereiro

O PSD organizou um colóquio onde apresentou uma série de propostas para a habitação pela mão do presidente do partido, Luís Montenegro. "Um Novo Caminho para a Habitação" foi como os sociais-democratas intitularam as medidas que defendem para travar a crise habitacional e que se centram em grande medida em baixar os impostos e as taxas sobre a habitação.

O partido defende ainda, por exemplo, acelerar os licenciamentos para construção e reabilitação de casas, flexibilizar o uso dos solos para habitação, substituir o Porta65 por um subsídio de arrendamento habitacional ou criar um regime excepcional para colocar os imóveis públicos devolutos ou subutilizados em uso.

15 de Fevereiro

O Parlamento discute o tema esta quarta-feira no âmbito de um debate potestativo pedido pelo PCP com base num projecto entregue pelos comunistas em Dezembro que visa criar um regime extraordinário de protecção da habitação própria face ao aumento dos encargos com o crédito à habitação.

A iniciativa propõe essencialmente quatro medidas: reduzir os custos e encargos associados ao crédito à habitação (como comissões bancárias) quando as taxas Euribor subirem; renegociar e alargar o prazo para pagamento do crédito, limitando a taxa de execução a 35%; impedir que os bancos se oponham à entrega da casa em situação de incumprimento e possibilitar que essa entrega preveja uma compensação se a casa for vendida por um valor superior àquele em que estava avaliada no momento da dação.

E ainda permitir que as pessoas possam manter as suas casas através do aluguer quando estas forem entregues ao banco ou vendidas a fundos de investimento imobiliário para arrendamento habitacional, "podendo posteriormente ser retomado o crédito".

Recentemente, a habitação também esteve em discussão no plenário a propósito do Programa Nacional de Habitação e das comissões bancárias nas prestações de crédito à habitação.

16 de Fevereiro

O Governo apresenta um pacote de medidas dedicadas à habitação. O anúncio de que o Conselho de Ministros se reuniria na quinta-feira para aprovar políticas nesta área foi feito por António Costa em entrevista à RTP, a 30 de Janeiro, em que avançou que a estratégia do executivo passará por “disponibilizar mais solos públicos para a construção de habitação”, dar incentivos para a "construção de habitação por promotores privados" e "para colocar no mercado de arrendamento habitações que estejam com outro uso ou fora do mercado" e "apoiar os jovens no arrendamento de habitação".

Depois da centralidade dada à habitação com a criação de um ministério próprio, liderado por Marina Gonçalves, o primeiro-ministro já tinha defendido, num discurso na comissão nacional do PS, em Janeiro, que se criassem, em três meses, "novos instrumentos" para "dar respostas imediatas", mesmo que sejam "transitórios".

Paralelamente, o Governo encomendou dois estudos sobre o mercado de habitação para "analisar as práticas internacionais em matéria de regulação" e a "situação actual do mercado de arrendamento" no país no âmbito de um protocolo entre o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana e ao PlanAPP - Centro de Competências de Planeamento, Políticas e Prospectiva da Administração Pública.

25 de Fevereiro

O movimento Vida Justa organiza uma manifestação em Lisboa, do Marquês do Pombal a São Bento. Os activistas, que também estarão à porta do Conselho de Ministros, defendem que se limitem os preços dos bens essenciais, subam salários e se garanta que as casas vão "para as pessoas e não para a especulação". Concretamente sobre a habitação, o movimento propõe congelar os juros dos empréstimos das casas, impedir as rendas especulativas das casas e proibir os despejos.

10.9.21

Ciganos nas listas das autárquicas. “Estamos numa fase embrionária”

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Há quem fale em momento de viragem. Haverá pelo menos uma dúzia de candidatos ciganos a votos nas próximas eleições. Esta sexta-feira, uma campanha de apelo ao voto é lançada por ciganos para ciganos.

Mais um sinal de uma mudança que está a acontecer, ainda que devagar, no seio da maior minoria étnica nacional: uma campanha de apelo ao voto feita por ciganos para ciganos é lançada esta sexta-feira na Figueira da Foz: “O teu voto é importante!”

A campanha sai da Academia de Política Cigana, que decorre este fim-de-semana na Figueira da Foz. Essa formação bianual – que desde o final de 2017 tem vindo a ser organizada pelas associações Letras Nómadas e Ribaltambição, com o patrocínio do Conselho da Europa –procura estimular a participação política dos portugueses ciganos.

A iniciativa não se esgota nos vídeos partilhados nas redes sociais. Alguns farão campanha presencial em sítios estratégicos, como Moura ou Beja, onde o risco de eleição de candidatos da extrema-direita lhes parece elevado. E em cidades com forte concentração de pessoas ciganas, como Lisboa e Porto.

Quando tudo começou, Bruno Gonçalves, coordenador da academia, traçava objectivos a longo prazo. “Se tivermos aqui quatro ou cinco que possam aproximar-se de partidos e fazer parte das listas, já será uma grande vitória”, dizia. “Numa década, podemos ter os primeiros políticos nas autarquias, nas juntas, na Assembleia da República ou no Parlamento Europeu.”

Volvidos quatro anos, empenhando-se na busca, identifica uma dúzia de ciganos nas listas das autárquicas quase sempre em sítios não-elegíveis. A abertura nota-se mais no Bloco de Esquerda. “É triste que os principais partidos não tenham a coragem de integrar portugueses ciganos nas suas listas”, comenta. O Partido Socialista acolheu um ou outro. E várias pessoas assíduas na Academia de Política Cigana receberam convites que recusaram, “por receio de verem os contratos ou relações [laborais] prejudicados”. São facilitadores, mediadores.

Aprendizagem

Não haverá outra família como a de Maria Gil, de 49 anos de idade. Está numa lista para a Câmara do Porto. Um dos seus filhos, Salvador, numa lista para a assembleia municipal. E outro, Vicente, numa lista para a Câmara de Lisboa. Todos como independentes, em listas do BE.

“Estamos para nos inteirar, para começar a perceber os lugares a que pertencemos também”, salienta aquela activista, actriz, divorciada, mãe de quatro filhos. “Não adianta dizer que estamos nas listas porque temos um projecto pleno. Isto é recente, para nós, enquanto ciganos. Estamos numa fase embrionária. Estamos a aprender como nos podemos mobilizar nesses circuitos.”


Não quer dizer que o momento seja irrelevante, pelo contrário. “É um momento que marca uma passagem, um momento em que se projecta o interesse das pessoas ciganas em perceber como funcionam as estruturas e em envolver-se nelas”, salienta. Parece-lhe importante, sobretudo, haver jovens, como os filhos, gémeos, de 20 anos, a mostrar “vontade de participar”.

Maria Gil dá conta do pouco interesse que a política desperta na sociedade portuguesa em geral. “Não nos vemos como corpos políticos. A maior parte dos cidadãos fala nos políticos como um ‘eles’”, observa. “A revolução pela dignidade exige vermo-nos como parte de um corpo colectivo, de um corpo político.”

Guiomar Sousa, de 40 anos, concorre como independente, na lista do BE, à Câmara da Figueira da Foz. Quer ser mais do que um nome numa lista. “Posso trazer [à candidatura] a minha visão de mulher anti-racista, a minha história de vida, a minha experiência na área do trabalho. Como mulher racializada, posso sensibilizar.”

Trabalhou num projecto de integração laboral e está a fazer uma formação de técnica auxiliar de saúde. No seu entender, merece especial atenção o preço das rendas, atendendo ao diminuto valor dos salários. “Não se consegue aceder a habitação, ainda mais quando se pertence a uma minoria.” A empregabilidade é outra das suas grandes preocupações. Atendendo ao tecido produtivo local, as mulheres enfrentam dificuldade acrescida.

Valoriza a sua participação nas edições da Academia de Política Cigana, que têm decorrido em vários municípios. No seu entender, a iniciativa “tem vindo de ano para ano a lançar semente, a sensibilizar para a necessidade de as pessoas ciganas se interessarem pela política, para a importância de haver representatividade”.

Apesar de apreciar o que ali aprende, esta mulher separada, com um filho de 20 anos e uma filha de 11, nunca se imaginara numa lista para a câmara. Os familiares “receberam bem a notícia”. “Sabem que é uma forma de tentar ajudar as pessoas ciganas e não-ciganas.”

Este fim-de-semana, Natanael Ribeiro fala na Academia com Guiomar. Este empregado fabril também está numa lista do BE, mas para a Junta de Freguesia de Tavarede. Para essa mesma junta, alheio a este movimento, está Fernando Lopes, estudante, na lista do PS.
Além da academia

Há vários candidatos ciganos que não passaram pela academia política. É o caso de Iuri Serrano, comerciante de automóveis, que figura na lista do PS à Junta de Freguesia de Alfragide, no município da Amadora. E o de Ricardo Maia, pastor evangélico, que integra a lista de um movimento independente, Nós, Cidadãos! Espinho. E o de Maria João Silveira, auxiliar de acção educativa, no movimento Nós, Cidadãos!, em Estremoz. E o de João de Torres, comerciante, na lista do movimento Unidos por Torres Vedras para a Junta de Freguesia de São Pedro Matacães. E o de António Pinto, auxiliar de saúde, na lista do BE à Assembleia Municipal de Viseu. E o de Bruna Silva, na lista do BE à União de Freguesias de Tomar.

“Pela política, sempre tive um bocadinho de interesse”, conta Bruna Silva, de 29 anos. “Agora, filiei-me. Tenho as minhas ideias. Nunca tinha pensado em entrar na política. Surgiu o convite. Pensei: porque não? Posso ser uma voz. Posso dar um bocadinho de mim. A minha comunidade não é muito bem-vista. Estando ali, acho que consigo fazer a ponte, mudar um bocadinho as coisas para melhor.”

Uma novidade, isto de ver a sua cara num cartaz. “É um bocadinho estranho. Não estou habituada.” Um estranho “bom”, esclarece Bruna. “Claro que há preconceito de alguns, mas a gente já está habituada a isso. Fazem comentários um bocadinho maldosos.”

Sente maior abertura na sociedade, mesmo assim. “É uma nova era que estamos a viver. Acho que as pessoas não-ciganas que estão a entrar na política também têm interesse na nossa vida quotidiana. Sei que o futuro dos meus filhos já vai ser diferente, já vai ser melhor.”

Está envolvida na comunidade. Já trabalhou como auxiliar de acção educativa, como cabeleireira, como monitora de um projecto Escolhas. O marido, esse trabalha na construção civil. Têm três filhos. Um rapaz de 12 anos, uma rapariga de oito e outra de dez meses.

Há um interesse fora das listas de candidaturas. Osvaldo Russo, de 31 anos, por exemplo, foi desafiado para apoiar as listas de vários partidos para a Câmara de Viseu. A estudar Direito de dia e a trabalhar como vigilante de noite, casado, com mulher e quatro filhos, não tem tempo para acções de rua, mas valoriza quem as integra. “Penso que é importante ter uma diversidade de pessoas nas listas. Se não participamos, nunca mais se combatem os problemas. Participando, mostramos que também queremos combater os problemas.” Nas últimas presidenciais, os portugueses ciganos já se mobilizaram mais do que nunca para votar.

Uma experiência em Buarcos e São Julião

Os exemplos de ciganos em cargos políticos eram muito poucos quando Bruno Gonçalves foi eleito pelo Bloco de Esquerda para a Assembleia de Freguesia de Buarcos e São Julião, na Figueira da Foz, em 2017. Havia Carlos Miguel, filho de um cigano e de uma não-cigana, antes presidente da Câmara de Torres Vedras, então secretário de Estado do Desenvolvimento Regional. E Idália Serrão, que teve um avô cigano, fora secretária de Estado da Reabilitação e era deputada. Os outros exemplos vinham de fora – de Espanha, sobretudo. “Não foi bem o que estava à espera”, diz. “Não posso dizer que tudo foi negativo, mas não gostei da experiência em si, pela dinâmica com que os partidos e as pessoas eleitas abordam os temas”, esclarece. “Parece que temos uma política velha para velhos. Não estou a falar de idade. Estavam muitos jovens até.” Acredita que na Assembleia da República seria diferente.

16.11.20

Covid-19 — a tempestade ideal para o populismo em Portugal?

David Veloso Larraz, in Público on-line

Até à entrada do Chega no Parlamento há um ano, Portugal era considerado um caso paradigmático pela ausência de populismo. Mesmo que o seu resultado tenha sido mínimo (um deputado), a atestar pela cobertura mediática, o impacto político do Chega está a ser notório. Será a conjuntura crítica da covid-19 a tempestade perfeita para um enraizamento do populismo em Portugal?

A maioria das democracias tem testemunhado um forte crescimento do populismo nas últimas décadas. O populismo tem sido articulado da esquerda à direita, quer por partidos dominantes ou minoritários, quer por governos ou movimentos sociais. Na pesquisa sobre o populismo, a procura de uma definição mínima continua a ser um dos desafios mais importantes. O populismo é definido como um estilo, um discurso, uma ideologia ou uma estratégia. Embora o populismo possa ser tudo isso, dificilmente será tudo isso ao mesmo tempo. Para superar estas limitações apriorísticas, o filósofo político Ernesto Laclau defende uma abordagem fundamentada, não nos conteúdos “característicos” do populismo, mas na forma de articulação populista dos seus conteúdos. Desta maneira, o populismo é antes uma forma de fazer política.


Mais recentemente, os cientistas sociais portugueses Filipe Carreira da Silva e Mónica Brito Vieira acrescentam que esta forma de fazer política tem no ressentimento a sua própria lógica política. Assim, o populismo pode mobilizar a indignação ou a inveja. Mas em qualquer dos casos aparecem de forma simultânea os seguintes elementos: uma relação normativa entre a igualdade e a soberania popular, isto é, a ideia de povo como fundamento da legitimidade política; uma dimensão comparativa guiada por um sentimento de inferioridade imerecida; uma rivalidade entre as partes, sendo a elite responsabilizada pela inferioridade imerecida do povo; e um apelo à restauração da igualdade realizada por uma parte em nome do todo. O ressentimento também é utilizado por forças alheias ao populismo, mas o certo é que se não há ressentimento, não há populismo.

A lógica do ressentimento populista mostra que a relação entre ordem (impugnada) e povo (imaginado) é incompatível. Para alguns autores, esta oposição sugere uma separação entre populismo e democracia liberal. A partir deste ângulo, o populismo baseia-se na ideia de um povo homogéneo e, portanto, exclui outras identidades; guiado por um líder que pretende apropriar-se da vontade popular, e que concebe a disputa política a partir de uma lógica divisória entre “nós” e “eles” que ataca as bases do pluralismo. Apesar disso, o populismo não implica como premissa a construção ideológica de um povo puro, uma liderança com intenções autoritárias ou uma rivalidade antagónica fundamentada na inimizade.

Para o politólogo uruguaio Francisco Panizza, esta perspectiva não tem em conta a ambivalência do populismo, ou seja, tanto pode ser uma ameaça como um corretivo à democracia, estando a sua compatibilidade condicionada nas suas relações com outras lógicas do imaginário da democracia. Embora não tenha sido sempre assim, a discussão atual sobre o populismo tem-se centrado mais nos seus termos negativos para a democracia. Isto ocorre por duas razões principais: por um lado, a identificação do populismo com a extrema direita, e por outro lado, uma visão que o associa a um fenómeno sociopolítico próprio das democracias menos maduras.

A relativa ausência do populismo em Portugal

O início da representação em 2019 na Assembleia da República de um “partido populista”, o Chega, no mesmo ano da sua fundação, acabou com o mito da imunidade portuguesa. Isto não significa que antes de 2019 não tivessem surgido expressões menores, fragmentadas ou muito localizadas de populismos. O caso mais emblemático era o protagonizado pelo antigo líder do PSD na Madeira, Alberto João Jardim, que esteve 37 anos no poder do Governo Regional.

Apesar desta falta de tradição política populista, alguns historiadores da Universidade Nova de Lisboa estão a analisar os indícios do populismo no Portugal contemporâneo, nomeadamente em períodos agitados onde a soberania popular e a igualdade tiveram um peso importante nas mobilizações sociais. Ainda hoje, são escassos os estudos sobre o populismo em Portugal.

No passado recente, por exemplo, nos anos da intervenção da troika (FMI, BCE, CE) surgiram alguns atores que articularam de diferentes formas a lógica do ressentimento populista, mas as suas ações não tiveram grande continuidade.

Depois das grandes concentrações nas ruas das cidades de Lisboa e Porto, as mobilizações contra a intervenção financeira da troika, com alguns traços populistas, dissolveram-se rapidamente, não tendo canalizado a formação de uma nova força política como aconteceu no país vizinho. Com a sua retórica populista de combate contra a corrupção e regeneração democrática da política portuguesa, o outsider Marinho Pinto, antigo bastonário da Ordem dos Advogados, teve um notável sucesso nas eleições europeias (7% dos votos), porém, a criação do Partido Democrático Republicano não lhe permitiu obter os mesmos resultados a nível nacional, sendo claramente derrotado nas eleições legislativas (1,14% dos votos em 2015 e 0,2% em 2019).

A renovação estratégica do Bloco de Esquerda, conectando a sua linha política à indignação da sociedade civil organizada, permitiu-lhe recuperar as perdas sentidas nos comícios para as legislativas de 2011 e para as europeias de 2014; mas o forte populismo articulado contra a troika foi-se moderando para não quebrar os acordos decorrentes da legislatura, redefinindo-se como um partido titular capaz de aceitar o desafio pós-eleitoral da “nova geringonça”.

A literatura existente, diz-nos que no contexto das conjunturas críticas, tanto do lado da oferta como da procura, aumentam as condições para o sucesso do populismo. O falhanço do populismo em Portugal no contexto da recente Grande Recessão continua a ser uma das questões de maior interesse para compreender.

O impacto do Chega no sistema partidário

O impacto mediático do Chega não corresponde ao seu impacto nas eleições, na medida em que alcançou apenas 1,3% dos votos. Esta tipologia de partidos da família da direita radical expandiu-se pela Europa a partir da década de 90, sendo Portugal um dos poucos países onde ainda não tinha emergido. A representação parlamentar do Chega significou assim uma viragem no imaginário político sobre a ausência do populismo, como também a sua institucionalização na esfera pública política.

Uma primeira leitura da politóloga Marina Costa Lobo ressaltava que o sistema partidário português ficou ferido, com o coração ainda a pulsar, mas em perigo vital. Assim, o risco de quebra do sistema partidário estaria no eventual realinhamento eleitoral, isto é, caso o eixo socioeconómico dominante na política portuguesa desde 1976, estivesse a perder o seu domínio a favor de agendas identitárias.

Os primeiros passos da gestão política da pandemia confirmaram, para alguns, a boa saúde democrática. O sucesso político, elogiado internacionalmente, fundamentava-se no peso da institucionalidade para atingir compromissos entre o Presidente da República e o primeiro-ministro e os partidos políticos da direita à esquerda (a posição do Chega ficou isolada).

FotoA cabeça da manifestação convocada pelo Chega, que desceu a Avenida da Liberdade, em Lisboa, a 27 de Junho NUNO FERREIRA SANTOS

Como está a acontecer noutros países neste momento, devido ao chamado “efeito bandeira”, que explica o apoio inicial à unidade nacional e ao principal partido no poder nas situações críticas, a pandemia fortaleceu o Governo; mas, apesar da sua não cooperação, o Chega também saiu reforçado e as intenções de voto continuam a subir. Contudo, depois do levantamento do estado de emergência, o líder do PSD, Rui Rio, e o seu homólogo na Madeira, Miguel Albuquerque, mostraram disponibilidade para futuros entendimentos, o que vislumbra a fragilidade do “cordão sanitário” que o partido do centro-direita tinha estabelecido inicialmente. O Chega, com apenas um deputado, continua desde a sua emergência a desafiar a competência no lado da direita, sendo a sua tensão ainda mais forte para o CDS, que obteve nas últimas eleições o pior resultado da sua história.

Para a politóloga Mariana Mendes, na estratégia política de Chega o espelho do Vox está muito presente. Assim, o objetivo do Chega seria a formação de uma coligação com as direitas, tal como já aconteceu em Espanha a nível municipal e regional. A acelerada mudança do programa eleitoral com que o Chega se apresentou nas eleições de 2019, parece responder à evidência empírica de outros países, que mostra que após do sucesso eleitoral os partidos populistas moderam o seu populismo com o desejo de formar futuras coligações.

À semelhança do Vox, o Chega conseguiu evitar o estigma do extremismo para conquistar eleitores descontentes. No entanto, se é certo que nessa mudança corrigiu a sua posição radical a respeito do papel do Estado no serviço nacional de saúde e na educação, a sua moderação populista ainda não se plasmou. Para além das diferenças na classificação do Chega, se este deverá ser considerado como ultradireita, direita radical ou extrema direita, as suas práticas políticas apresentam um partido político que em cada uns dos seus discursos articula intensamente a lógica populista do ressentimento, desafiando muitas vezes os limites da democracia e os direitos consagrados na Constituição portuguesa.
A covid-19 e o populismo

Como outros assuntos relativos à democracia, o debate sobre a incidência da pandemia no populismo não tardou. Seguindo uma visão liberal, alguns políticos e académicos pensaram que o domínio dos especialistas para liderar as soluções a implementar e a falta de identificação de um inimigo visível, seriam razões suficientes para pôr fim ao populismo. Para Cas Mudde, no campo do populismo, alguns actores ganharam, outros ficaram na mesma e outros perderam posições. Ou seja, a pandemia não será determinante para a morte do populismo por não ter havido uma forma específica e unitária nas ações dos populistas. O recente estudo de Katsambekis e Stavrakakis sobre como os governos populistas e as forças da oposição reagiram à pandemia, confirmam as observações de Mudde sobre a amálgama de formas de atuar dos populistas.

Em Portugal, o eixo político das políticas de saúde pública marcou as primeiras decisões na gestão política da pandemia. Não houve por parte de nenhum partido qualquer subestimação sobre os efeitos da pandemia. Diferente de Donald Trump, Jair Bolsonaro ou Boris Johnson, que optaram inicialmente por uma resposta libertária frente à pandemia, André Ventura apostou na relevância da segurança sanitária para articular os conteúdos que até agora salientaram o seu populismo.


O plano de confinamento específico para a população cigana (racismo), a rejeição da libertação dos presos (lei e ordem) ou a reprovação da comemoração no Parlamento do aniversário de 25 de Abril (regime político), foram “resignificados” em nome da saúde pública dos portugueses. De facto, o líder do Chega gaba-se nos seus discursos de ter sido o primeiro a pedir que se decretasse o estado de emergência para Portugal, quando, já nessa altura, o Presidente da República tinha anunciado a convocatória do Conselho de Estado para apreciar a aprovação do mesmo.

As críticas ao Presidente da República foram, aliás, uma constante por parte de André Ventura e até o isolamento voluntário a que Marcelo Rebelo de Sousa se submeteu por causa da pandemia foi motivo para questionar a sua liderança e compromisso político. A candidatura presidencial de André Ventura parece agora ter sido um dos motivos para o foco desse antagonismo.

Contudo, o afundamento económico ameaça tornar-se na questão chave no futuro próximo. Um estudo recente do FMI mostra que as desigualdades aumentam nos cinco anos depois de crises de saúde no mundo. A economia portuguesa contraiu-se em 16,5% neste segundo trimestre de 2020, o que é a maior queda histórica desde que há registos oficiais. Neste ponto, é importante ter em conta que o populismo interage com as duas dimensões da democracia que podem ser danificadas, a inclusão e a contestação pública. Para o historiador Walter Scheidel, as catástrofes são as grandes niveladoras das desigualdades da história, quanto mais traumática e prolongada for a catástrofe, maior é o seu potencial nivelador para reverter as desigualdades. Como sublinham Brito-Vieira e Silva, a história parece dar razão a Scheidel, mas nada garante que essa “verdade histórica” se repita. O exemplo imediato da saída da Grande Recessão confirma esta suspeita.

A performatividade populista durante a Grande Recessão não teve sucesso eleitoral, mas será a pandemia uma janela de oportunidade para um aumento do populismo? Desta vez, a atribuição da culpa pode não ser repartida nos dois partidos dominantes. Aliás, desde o seu nascimento o Chega foca o seu antagonismo no governo socialista e já tem manifestado a sua disposição para se converter na alavanca que permitisse uma mudança para a formação de um governo do signo contrário.

Existe uma lacuna teórica sobre os falhanços e emergências populistas em Portugal. Na minha tese de doutoramento pretendo analisar o impacto do populismo nas estratégias partidárias durante o tempo que abrange a saída da intervenção financeira até o primeiro ano da nova crise da covid-19 (2014-2021). Esta investigação enquadra-se na minha pesquisa como bolseiro de investigação do Projeto POPULUS (http://populus.ics.ulisboa.pt) coordenado pelo professor doutor Filipe Carreira da Silva e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

O Instituto de Ciências Sociais (ICS) é uma escola da Universidade de Lisboa e um Laboratório Associado do Sistema Científico Nacional dedicado à investigação, aos estudos pós-graduados e à divulgação de ciência nas áreas de Antropologia, Ciência Política, Economia, Geografia, História, Psicologia Social e Sociologia (www.ics.ulisboa.pt). Durante um ano, todos os domingos, investigadoras e investigadores com diferentes formações, idades e percursos académicos partilham o seu trabalho com os leitores do P2.

18.9.20

Daniel Bessa. "Aumentar o salário mínimo não vai ajudar nada", a não ser que fossem "mil euros por mês"

José Bastos (Renascença) e Margarida Gomes (Público), in RR

O antigo ministro da Economia não se revê na solução governativa liderada por António Costa. Em entrevista à Renascença e jornal "Público", o professor e gestor defende que o PSD tem de "apimentar" mais o seu papel de oposição. "Não estou contente, acho que é necessário criar uma alternativa e ela passa pelo dr. Rui Rio." Noutro plano, Bessa critica o apoio de António Costa a Luís Filipe Vieira: "Aquele apoio ofende-me como contribuinte, como cidadão e como pessoa."

Daniel Bessa é um dos rostos do recém-criado conselho consultivo do Conselho Estratégico Nacional do PSD. O convite partiu do próprio líder social-democrata, Rui Rio, de quem é amigo há muitos anos.

Professor, gestor, antigo ministro da Economia de António Guterres, Daniel Bessa não se revê na solução governativa de António Costa, mas deixa elogios para o consultor a quem o primeiro-ministro pediu a Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal, António Costa Silva. Quanto ao PSD, Bessa diz que tem de apimentar mais o seu papel de oposição.

Entrou recentemente no conselho consultivo do Conselho Estratégico Nacional do PSD. Porquê?

Tenho uma consideração muito antiga de muitas décadas pelo dr. Rui Rio e não resisti a um desafio que acho interessante. Não me revejo na solução política que hoje governa o país, acho que é necessário uma alternativa. Se vai ter muito êxito ou não, logo veremos.

Foi ministro de António Guterres, apoiou Rui Moreira e aconselha Rui Rio: houve aqui uma viragem?

Depois do 25 de Abril andei mais perto do MDP, do PC. Em 92, o engenheiro Guterres desafiou-me para ver se conseguíamos derrotar o professor Cavaco Silva que ia a caminho de dez anos de Governo e parecia a altura de criar uma alternativa, e hoje continua a parecer-me a altura de criar uma alternativa. Não estou contente, acho que é necessário criar uma alternativa e ela passa pelo dr. Rui Rio.

Defendeu uma alternativa ao PS. Para quando essa alternativa?

Não sei. A senhora Thatcher preconizou um dia que este tipo de soluções acaba quando acabar o dinheiro dos outros. O PS tem sido o partido de Governo muitos anos em Portugal e, na última aventura, acabou quando acabou o dinheiro dos outros e, desta vez, talvez não seja muito diferente. Não estou muito convencido de que seja para breve.

Como é que tem visto oposição de Rui Rio? Há quem diga que é demasiado descafeínada, devia ser mais assertiva?

Cada um é como é, não vale a pena estarmos aqui a seguir uns guiões, estarmos aqui a fazer uns números. O dr. Rui Rio é assim e eu respeito. E sinto-me bem acompanhado.

Mas assumir uma alternativa não é também seguir um guião?

O dr. Rui Rio diz que as eleições não se ganham, perdem-se, mas é preciso que quando alguém perde umas eleições haja uma alternativa suficientemente credível para que possamos seguir em frente. Talvez o dr. Rui Rio pudesse ajudar um pouco mais a que as eleições se perdessem.

Defende mais cafeína na oposição?

O que estou a dizer é que talvez pudesse ajudar mais a que se perdesse mais depressa. Mas quem sou eu? De política o dr. Rui Rio sabe.

Identifica-se com o PSD de Rui Rio ou gostaria de o moldar mais à sua imagem?

A quem? Ao PSD ao dr. Rui Rio?

Aos dois.

Mudar um partido não me passa sequer pela cabeça e mudar uma pessoa também … Porquê e para quê? A única coisa que estou a dizer é que talvez o dr. Rui Rio pudesse pôr um bocadinho mais de pimenta [na oposição]. A forma como ele reagiu a esta coisa da pandemia é típica da forma como o dr. Rui Rio actua e acho que o mundo inteiro considerou exemplar. Não vamos usar um problema de saúde pública para criar um problema ao Governo - ponto final.

Isso foi numa primeira fase. Entretanto, decorreram alguns meses, deu para perceber a situação nos lares, deu para fazer outro tipo de análise. Não deveria ter sido criada uma outra visão?

Eu já fui muito além daquilo que deveria ter ido aqui, de política não percebo nada. A única coisa de que me lembrei foi de meter aqui uma notinha sobre estimulantes, ora pimenta, ora cafeína.

Como viu a primeira reunião do órgão consultivo do PSD em Coimbra? Saiu um apelo à igualdade de oportunidade na sociedade portuguesa…

A última coisa que faltava era que viesse agora comentar, para além de dizer que me senti muito bem acompanhado e que a reunião correu muito bem. Se há défice em Portugal em matérias como a igualdade, cidadania, acho normal que venham daí observações desse tipo e, ainda por cima, num partido que se recentrou e que se considera social-democrata.

Tem ouvido as apresentações de António Costa Silva?

Li o relatório.

De 0 a 20, que nota lhe merece o documento que o presidente da Partex apresentou ao Governo?

Estamos quase como na disciplina de Cidadania, era preciso saber o programa e os objectivos.

Mas o programa é conhecido …

Se eu quiser olhar para questões como modernidade, mundividência, atenção às preocupações e aos sentidos de evolução do mundo, estaria muito perto do 20. Sou um admirador do engenheiro António Costa Silva. Tem um conhecimento imenso, por exemplo, sobre o tema da energia. Depois, se formos a questões como exequibilidade, capacidade de priorização, acho que o engenheiro António Costa Silva fugiu a isso - não sei se lhe foi pedido. Em certo sentido, funciona como um menu de linhas possíveis de intervenção e daria um 14.

Voltando ao plano Costa Silva, como académico e gestor tem informação suficiente sobre a análise custo-benefício de muitas propostas? É relevante nesta altura?

Isso é relevantíssimo, mas na hora de definir prioridades, de avançar com projectos para a execução. Na altura de vermos o que vamos fazer, espero que o tema do custo-benefício não deixe de surgir.

Uma das questões é a aposta na alta velocidade ferroviária, com o TGV, a sigla proibida. Costa Silva veio dizer que não quer saber se é alta velocidade ou velocidade alta. Insistiu que o que é preciso é andar depressa em carris, porque os voos vão ser proibidos até 600 ou 1000 kms. Como olha para a questão ferroviária e, sobretudo, para a questão da bitola europeia e do porto de Lisboa?

O eng. António Costa Silva vai buscar duas linhas estratégicas que atravessam Portugal há vários séculos: a ligação à Europa, por um lado, que durante muitos anos foi a Espanha; e a ligação ao outro lado do mundo, pelo mar. Há dois grandes défices nessas ligações: a ferrovia; e a parte portuária. O eng. Costa Silva acha que, no essencial da rodovia, não há nada a fazer, mas na ferrovia e de portos sim - e estou completamente de acordo. Há uma dimensão interna que é basicamente o porto de Lisboa. Não sei se haverá alguma coisa pelas áreas metropolitanas lá por Lisboa e aqui para o Porto... Depois há o problema da ligação ferroviária à Europa.

A questão da bitola europeia...

Sim. A ligação à Europa é para aproximar o país dos mercados europeus e o que espero é uma ligação ferroviária que facilite o mais possível essa aproximação.

Pode apontar um exemplo retirado de uma ideia que seja para aproveitar do documento?

Esta aposta na ferrovia. Todos nós sabemos que o ponto em que estamos em matéria de ligação de Porto-Lisboa é fraco. Gastou-se muito dinheiro e não se melhorou nada.

Mas é uma questão de sigla? No período pré-pandemia, há cerca de ano e meio, o primeiro-ministro, numa entrevista ao El País, dizia que o TGV era uma sigla muito complicada em Portugal.

Não sei. Gostava de chegar mais depressa a Lisboa. O engenheiro Costa Silva vai por aí e estou de acordo com ele. Na questão dos portos e aeroportos também estou completamente de acordo com ele. A área sobre a qual exprimi mais dúvidas, talvez porque não sei, embora ele saiba, é a história do hidrogénio.

Costa Silva diz não ser nenhum delírio tecnológico. Como olha para esta aposta no hidrogénio?

Há um plano nacional para o hidrogénio em que se prevê gastar 7000 a 9000 milhões de euros. É muito dinheiro. Admito que não seja nenhum delírio tecnológico. Mas delírio ou não, acho que em Portugal não se deve saber muito disso e a experiência empresarial dessa área é nenhuma.

E as rendas garantidas?

É uma das razões pelas quais Portugal tem uma das energias mais caras do mundo. Estou próximo do professor Clemente Pedro Nunes, que na altura própria, contestou o solar e agora fez um paralelo e disse que era preciso os mesmos cuidados a propósito do hidrogénio. E isso mereceu-lhe o reparo de João Galamba de que era um aldrabão encartado. E provavelmente é o que me chamarão a mim.

Falta, neste caso do hidrogénio, uma avaliação rigorosa de custo-benefício, independentemente de estarmos perante uma nova tecnologia e com potencial de crescimento e inovação?

Mesmo que no limite até não seja muito sofisticada, sou mais de pequenos passos. Gosto de experimentar para ver.

Espera encontrar no próximo orçamento, com circunstâncias muito complexas e de elaboração muito difícil, uma resposta para essa dúvida?

Não. Voltamos ao plano Costa Silva. Ele diz: “Estou aqui com uma coisa para fazer a médio prazo, mas não há médio prazo, se não formos capazes de sobreviver a curto prazo”. E o próximo orçamento tem que ver com isso. O próximo orçamento tem a ver com o como é que vamos mitigar a desgraça.

Subindo o salário mínimo?

O salário mínimo tem como ponto de partida uma intervenção política voluntarista. É política, não é economia. O pior dos momentos para aumentar o salário mínimo é aquele em que o desemprego tende a explodir, porque se o desemprego tende a explodir, e isso é um problema, aumentar o salário mínimo não vai ajudar nada. É evidente que o Governo, esta maioria, nos dirá: “Durante os últimos anos aumentámos o salário mínimo, as vozes da desgraça diziam que ia haver desemprego e não houve desemprego nenhum”. E têm razão. Porque a economia estava a bombar e, portanto, a economia estava a funcionar razoavelmente, nada de exaltante, o salário mínimo foi aumentando, as empresas acompanharam e não morreu ninguém.

E o argumento do efeito positivo do aumento do salário mínimo no crescimento económico?

Aí sugiro que passem o salário mínimo para mil euros por mês, porque deve ser maior [o impacto].(...). O problema maior que temos é o do consumo. As pessoas não estão a morrer numa guerra. As pessoas mudaram porque estão assustadas e retraíram-se imenso em determinados aspectos de consumo. Onde estão os fulcros da crise? Aviação, primeiro nas viagens e depois na produção dos aviões, agências de viagens...

Em que se joga a sobrevivência de empresas e empregos num longo Inverno até à descoberta da vacina? O sucesso depende de cada um de nós mais do que das orientações das autoridades de saúde?

Estou do lado dos que apelam às pessoas para quem vão para a rua e que retomem os seus padrões de consumo, na medida do possível. E apelo quase como um dever cívico e de cidadania, porque, se não for assim, pior. Em relação ao Governo, o Governo está dependente da ajuda que possa receber.

Nunca a palavra “bazuca” teve um significado tão suave?

Ah, sim! Eu acho que é uma “bazuca!” e é muito bem-vinda. É muito dinheiro. E depois temos também o BCE [Banco Central Europeu]. Não entra nessas contas, mas tem ajudado. Se o BCE tivesse ajudado o engenheiro Sócrates como está a ajudar agora... Provavelmente, não tínhamos tido a troika.

E teríamos ainda o engenheiro Sócrates?

Talvez.

O Presidente da República e o primeiro-ministro estarão em silêncio até esta quinta-feira sobre o apoio do primeiro-ministro à recandidatura do presidente do Benfica, nas circunstâncias que todos conhecemos. É um erro o líder do Governo de Portugal associar o seu nome ao futebol profissional e àquele dirigente em particular?

Do meu ponto de vista, a questão tem sido excessivamente posta na questão do acto em si e do apoio. Se calhar não lhe fica muito bem, mas não passa mal nenhum. A mim o que me custou é que fosse apoiado aquele candidato. Aquele apoio ofende-me como contribuinte, como cidadão e como pessoa. Como contribuinte, porque sei o quanto os contribuintes portugueses foram lesados por aquela pessoa. Como cidadão, porque sei do envolvimento daquela pessoa em processos judiciais, nomeadamente em processos que pretendem denegar a justiça. E como pessoa, porque os meus valores não têm nada a ver com ele.

5.8.19

Um triste exemplo de pobreza política

José Soeiro, in Expresso

O caso passou quase despercebido no meio da maratona de votações do último plenário desta legislatura. Mas não foi menos indecoroso por isso. Em outubro de 2018, a Rede Europeia Anti-Pobreza apresentou no Parlamento um “Compromisso para uma Estratégia Nacional de Erradicação da Pobreza”, do qual fazia parte a ideia de que “nenhuma política sectorial deverá ser aprovada sem a prévia avaliação sobre os seus impactos na produção, manutenção ou agravamento da pobreza e da exclusão social”. Todos os partidos se manifestaram então sensíveis e abertos a acolher a proposta.

Em janeiro deste ano, foi apresentado um projeto de lei para criar esse mecanismo. O “regime jurídico de avaliação do impacto sobre a pobreza dos atos normativos”, proposto pelo Bloco, tinha sobretudo o mérito de dar centralidade ao tema, num país que tem ainda 1 milhão e 700 mil pessoas em situação de pobreza, obrigando a que se olhasse para o combate à pobreza não apenas como uma questão de “apoio aos pobres” ou de políticas sociais, mas sim como uma questão transversal a todas as escolhas políticas.

Quando a proposta do Bloco foi apresentada, o Presidente da República elogiou-a de imediato, manifestando-se “sensibilizado para ela” e o Governo, pela voz do Ministro Vieira da Silva, declarou que via “como interessante a proposta anunciada pela coordenadora do BE, ainda que seja necessário analisar a sua operacionalização”. A 22 de fevereiro, fez-se o debate e a votação no Parlamento. Nenhum partido votou contra. A proposta foi por isso aprovada e passou-se ao debate na especialidade.

Como é comum nestes casos, quando se aprova uma proposta, é porque se quer que ela dê origem a uma lei, feita com o contributo dos vários deputados na Comissão respetiva. Passou-se o mês de março, abril, maio e nada. Em junho, o presidente da Comissão parlamentar agendou o debate na especialidade, que foi adiado por três vezes, para que os partidos tivessem tempo de apresentar as suas propostas de alteração ao projeto. O prazo esgotou-se e, surpresa, nenhum partido propôs nenhuma alteração, nenhuma sugestão de aperfeiçoamento, nenhuma achega crítica. Nada.

No dia do debate na especialidade, PS, PSD e CDS anunciam que não têm nada a dizer e que dispensam a discussão na especialidade da proposta. Passa-se à votação. Ponto por ponto, juntam-se para chumbar, um a um, todos os artigos do projeto de lei que tinha sido aprovado na generalidade. Chumbaram a avaliação prévia do impacto sobre a pobreza, chumbaram a existência de um relatório bianual sobre o progresso no combate à pobreza, chumbaram a possibilidade de o Parlamento solicitar a entidades externas a avaliação sucessiva de impacto sobre a pobreza de determinadas leis e até a possibilidade de o Parlamento receber anualmente uma delegação de pessoas em situação de pobreza para ouvir, na primeira pessoa, o que se está a passar no país, ideia relativamente à qual o Presidente da Assembleia tinha manifestado simpatia. Tudo chumbado sem debate público, sem propostas alternativas, sem contributos e com a tentativa de que esta mudança de posição passasse entre os pingos da chuva no turbilhão de matérias que foram votadas na última sessão.

O processo foi insólito e lamentável. Mas o que aconteceu nas 24 horas seguintes tornou tudo isto mais surreal se não mesmo relativamente obsceno. No dia seguinte aos deputados do PS terem chumbado a proposta que antes haviam viabilizado, o PS apresentou, no seu programa, a seguinte proposta (página 100): "Consolidar e desenvolver a experiência, já em curso, de avaliação do impacto das leis quanto ao combate à pobreza (poverty proofing), consagrando a obrigatoriedade de avaliação fundamentada das medidas de política e dos orçamentos na ótica dos impactos sobre a pobreza".

Ou seja, o PS, que impediu que esta avaliação existisse por ter votado contra, propõe-se continuar no futuro o que não existe porque o PS se juntou à direita para chumbar.

Dá para acreditar?


8.1.19

Portugal? "Não está bem nem mal. Está uma porcaria, à conta dos partidários"

Olímpia Mairos, in RR

Com três atos eleitorais à vista, a Renascença leva o microfone à gente simples de uma aldeia pequena com janelas escancaradas para o país e portas abertas para o mundo. “Há alguns homens a sério, mas são poucos”, ouve-se.

“Há também políticos que não aprendem”, diz Emília Costa, de 62 anos. “Resolvem as desgraças com subsídios, com abraços, com mágoa, mas, no fundo, no fundo, nós precisávamos que fossem mais atentos e que se evitassem essas coisas”, porque “um Portugal pequenino é fácil de governar”.

Emília é uma das habitantes de Tresminas, uma aldeia do concelho de Vila Pouca de Aguiar, terra do ouro descoberto e explorado durante séculos pelos Romanos, que ali construíram o maior complexo mineiro da Europa.
Terra fria em plena serra da Padrela, Tresminas oferece uma paisagem de encher o olho e um casario que segue a traça tradicional da região em pedra granítica e xisto.

Aqui vivem atualmente 24 pessoas, gente de fibra e valores, que sabe bem receber e não tem medo de desafios. E tanto assim é que ninguém se fez rogado em dizer o país e o mundo ao microfone da Renascença.
Sobre o estado do país, Sérgio Costa, de 78 anos, agricultor, diz que “nem está bem nem está mal. Está uma porcaria, à conta dos partidários”. Já Lurdes Macedo, de 60 anos, entende que “anda tudo muito torto para um lado e para o outro. Uns puxam para um lado, outros puxam para o outro e as coisas não estão como deve ser.”
“Este país… prometem quando é nas campanhas, prometem muita coisa, fazem isto, fazem aquilo e, depois, no fim, não fazem como prometem, como dizem”, atira Manuel Magalhães, de 56 anos, resineiro de profissão.
Ao lado está Olivério Sanches de 85 anos, e com toda a naturalidade responde que, “segundo diz o primeiro-ministro, isto está uma maravilha”. Mas, ele entende que não é bem assim, “porque tem os professores, tem essa malta toda que têm direito e não veem nada. No orçamento do ano passado pôs que tinha verba para resolver o problema, mas não resolveu e continua a não resolver”.
E os políticos? A política?

“Os políticos são os maiores aldrabões, cá em Portugal. Em Portugal e em todos os lados”, afirma Sérgio Costa. Olivério Sanches entende que os políticos, “se prometem, têm que cumprir e precisam de se dedicar mais ao trabalho que fazem, porque alguns estão a dormir na Assembleia”.

Emília Costa, a professora reformada de 62 anos, afirma que “a política tem muito valor, mas é suja. E precisava de deixar de ser”.

E servindo-se de uma alegoria explica que “as nossas casas, as pessoas tinham complexos de estarem sujas, porque tinham ciscos, porque tinham ramos para acender as fogueiras. Mas não, aquilo era fruto da época, fruto do tempo. E agora, com tudo limpo, há o todo que não está perfeito. Porquê? Porque os políticos fazem tudo muito bem, mas as inspeções têm que existir, infelizmente não vão a tempo. As desgraças acontecem e é isso que tinha que se evitar. Grandes políticos afastam desastres e em Portugal não se têm afastado os desastres. Eles têm sido contínuos, asneira atrás de asneira. E mesmo morrendo as pessoas, eles não aprendem”.

Lurdes Macedo nota que “há alguns homens a sério, mas são poucos. E mulheres, também. Depois, uns cortam as pernas aos outros. Mesmo que sejam bons e que saibam o que hão de fazer, depois, os outros cortam-lhe as pernas, porque eles não conseguem andar”.

E António Teixeira, presidente da Junta de Freguesia de Tresminas, que afinal também é político, defende que a política deve assentar na ética.
E servindo-se de um ‘post’ que viu nas redes sociais exemplifica: “Vi que um homem era medido por zeros. Então, dizia lá o senhor árabe que o homem vale 1 ponto, se tiver ética. Vale um 1. E depois vamos somar: pomos-lhe um zero, se for inteligente, um zero, se for esperto, um zero, se for bonito… Mas, se lhe tirarmos o 1, que é a ética, ficamos sem nada, ficamos com três zeros. Vamos ficar todos a torcer, para que os políticos sejam escolhidos com este 1”.

Futurando para dentro…
Apesar de as eleições legislativas estarem à porta, Lurdes Macedo acha que “não vão conseguir renovar as coisas como Portugal merecia, como nós precisamos”, porque “há muita corrupção, há outras coisas também e não conseguimos ir a lado nenhum, enquanto não houver homens sérios, honestos”.

“Eu julgo que não vai mudar nada. A coisa vai continuar da mesma maneira”, atalha Olivério Sanches.

António Teixeira frisa que “vamos ter que decidir e seja o que o povo quiser”, mas alerta que “muitas vezes não adianta muito andarmos à procura de quem escolher”. Entende, no entanto, que, “se as escolhas forem pautadas pela ética, a pensar no próximo, a pensar no igual, a pensar no país, na nossa pátria, onde nós nascemos…, se for assim, as coisas podem correr bem. É disso que estou à espera, de políticos que pensem num Portugal com um todo e não pensem num Portugal só Porto e Lisboa e se esqueçam do interior”.

“O interior tem coisas muito bonitas para oferecer. Tem gente fantástica. Saem daqui grandes homens, grandes pensadores. As raízes do país, se calhar, não estão no litoral, estão aqui, no interior”, considera o autarca de freguesia.

Também Liliana Alves, de 38 anos, guia do Centro Interpretativo de Tresminas, manifesta “o desejo que se comece a dar mais valor àquilo que é nosso, que se comece a dar mais valor ao interior de Portugal. Precisamos muito disso. E, se as coisas forem mudando aos poucos, acreditamos que, com isso, nos traga mais benefícios, mais pessoas e mais melhorias a todos os níveis. Só assim é que podemos receber ainda melhor os nossos visitantes”.
“É importante que o interior de Portugal seja valorizado também. Somos um país muito pequeno e parece que ele é ainda mais pequeno, porque está concentrado apenas em alguns pontos e era importante alargarmos o raio de ação. Notam-se as grandes diferenças entre o litoral e o interior. Era bom que se começasse a pensar de outra maneira”, sublinha Liliana.

Foto: Olímpia Mairos/RR
Em jeito de recado ao governo que sair das próximas eleições legislativas, Emília Costa apela à valorização do interior e das aldeias, porque “as aldeias são a limpeza das vilas, as vilas são a limpeza das cidades, as cidades as limpezas das metrópoles, as pequenas metrópoles portuguesas a limpeza das grandes as metrópoles da europa e do mundo”.

E Portugal corre o risco de ver regressar a troika?, perguntamos. A resposta surge pela voz de Lídia, que apesar de começar por afirmar que “isso da Troika é assim um bocadinho mais à frente” para os seus conhecimentos, entende que “depende de todos que não volte ao mesmo”.

“Depende do povo. E dos governantes. Mas o povo é também quem tem de ter cuidado e escolher bem. E depois de ter escolhido, exigir, dando exemplos, com manifestações, claro, com o devido respeito. Não vão entrar por essas manifestações que destroem, não é por aí, mas há muita maneira de manifestar com civismo e diplomacia e diálogo”, explica Lídia.
Manuel Pinto diz que “isso não depende só de Portugal. Depende da evolução da economia a nível mundial, principalmente a nível europeu. É um bocado complicado”.

Portas abertas para o mundo
O país não está bem, sente-se em Tresminas, mas o mundo, dizem, não está melhor. E o que mais preocupa quem aqui vive é a onda populista que se espalha pelo mundo e a divisão da europa.

“O Brexit são interesses interiores, lá deles”, afirma Lídia Teixeira, de 54 anos. “Eu sou de opinião que a união faz a força. Não faço ideia porque querem sair. Não faço ideia se prejudica ou não. Políticas e culturas, eu não sei muito dessas coisas. Mas, prejudica sempre. A europa é como uma família. Uma pessoa, quando se afasta, é sempre prejudicial para todos, para quem sai e para quem fica. Isso revê-se depois, no resto do mundo. Menos um membro, mais pobre”.

Esta desempregada olha também para o Brasil de Jair Bolsonaro e afirma que ficou “um bocadinho surpresa por o nosso Presidente ser ‘tããão’ amigo, pelo menos parece, do senhor Presidente eleito do Brasil”.
“Fiquei um bocadinho surpresa, embora não seja assim uma surpresa tão grande, visto que o Brasil é quase como um irmão. Como sou revolucionária e não, vou ficar à espera. Não me vou ficar pelo que dizem. Temos que esperar para ver”, diz.

Manuel Santos, de 70 anos, um filho da terra a residir na Alemanha, afirma que “a senhora Merkel é uma senhora muito reta”, embora considere que “deixou abusar um bocadinho nos refugiados, meteu gente a mais”.
“Mas o país alemão tem capacidade para aguentar essa gente. Os alemães já tinham dificuldades em fazer certos trabalhos. Os estrangeiros, os filhos da Europa, os que estão lá, estudaram, querem emprego como os alemães e não vão fazer limpezas nem jardins nem trabalhar na agricultura. Foi demais, mas foi uma sorte”, remata o emigrante de férias na aldeia.
Com a onda populista que se espalha pelo mundo está preocupado Manuel Pinto, professor, de 61 anos. “Qualquer pessoa que se consiga aperceber do que é o mundo e das evoluções políticas e sociais, vê com preocupação o populismo, porque nós já passamos por ele e sabemos que isto é muito grave”, afirma Manuel, que afasta esta possibilidade para Portugal.
“Nós somos uma democracia e ainda temos muito presente o problema da ditadura e o medo do que pode ser uma ditadura para o país a nível social, a nível económico, a todos os níveis, principalmente a nível social. E a justiça social é extremamente importante”, argumenta.

Também António Teixeira considera que Portugal “não precisa desse tipo de extremos até porque uma casa, quando se bota abaixo, depois demora muito tempo a construir”.
“Nós sabemos o que temos, não me parece que o país caia nesse tipo de tentação. E, se o político deixar de olhar tanto para si, para o seu umbigo, para a sua eira, e pensar mais no próximo, sentir, apalpar os problemas, não precisamos de nenhuma rotura, à espera que aconteça algo de melhor”, conclui.

30.1.18

Jorge Sampaio: “A solidariedade coletiva só funciona na tragédia, mas no dia a dia é uns a ver e outros a sofrer”

José Pedro Castanheira, Pedro Santos Guerreiro (texto), António Pedro Ferreira (fotos), in Expresso

Está otimista mas preocupado. Sobretudo com os riscos externos, mas também com a definição do lugar de Portugal no mundo. Elogia o talento de António Costa por “ter percebido que tinha condições para poder liquidar a ideia do arco da governação tradicional”. Mas defende uma maior relação do PS com as empresas. E reformas, sobretudo a do território

Entra de gola alta, sapatos confortáveis e vestindo um sorriso na sala onde passaremos o fim de uma tarde fria de janeiro. Jorge Sampaio, 78 anos, Presidente da República de 1996 a 2006, recebeu o Expresso no seu gabinete, na Casa do Regalo, em Lisboa, cidade de que foi presidente da Câmara a partir de 1989, ano em que foi eleito secretário-geral do Partido Socialista — e uma vintena de anos depois do início da sua carreira política, na candidatura, em 1969, às eleições para a Assembleia Nacional, nas listas da CDE. Uma carreira intensa de intervenção cívica, que mantém.

Como vê hoje o país?
Tenho uma visão otimista. Por uma razão fundamental: quem tinha 34 anos no 25 de Abril, uma vida profissional feita e estava habituado à ditadura, não concebia que passados estes anos pudéssemos estar onde estamos. O que era a mortalidade infantil, a incapacidade de saber ler e escrever, a pobreza generalizada, a agricultura de morte... A minha visão é sempre completada com um olhar para de onde viemos, para onde estamos e para onde precisamos de avançar. O salto que se deu! Eu pertenço a uma das últimas gerações do antes do 25 de Abril, as outras já não estão cá, e isso dá uma perspetiva grande e um redobrado otimismo. E pensar que agora, acabada a descolonização e tendo relações normais com as ex-colónias, fazendo parte da União Europeia e das organizações multilaterais, tendo tido manifestos sucessos internacionais em 2017 — basta relembrar Guterres e Centeno —, há razões para esse otimismo. Mas há razões para ter moderação nesse otimismo, que resultam da circunstância de o mundo ser profundamente diferente, de os mecanismos da democracia representativa estarem em crise, de os extremismos terem aumentado, da contradição entre uma sociedade internacional multilateralmente organizada e correr-se o risco de passar para zonas de conflito muito determinadas, mesmo dentro do contexto geral de uma paz mais armada; a fome, as alterações climáticas e a sua negação, Donald Trump e o trumpismo, aparentemente florescente, as guerras religiosas, ou não, no Médio Oriente, com o que isso implica para a Europa e para aquela zona do globo tão decisiva para a paz e o desenvolvimento geral do mundo... São motivos de grande e forte preocupação.

O que o preocupa são riscos externos. Significa que considera que somos pequenos para influenciar e vulneráveis para sofrer?
Não. Nós estamos inseridos no mundo, não há soluções taxativamente apenas portuguesas e há riscos internacionais grandes que podem afetar-nos, não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Do ponto de vista interno, preocupa-me saber até onde vai a nossa capacidade reformista e de inserirmos o nosso desenvolvimento económico e social num contexto mais vasto. Qual é o nosso lugar no meio disto tudo? Que reivindicação fazemos em relação ao nosso lugar na Europa? Qual é a nossa posição em relação à ciência? E que capacidade teremos para combater a pobreza? A coisa que mais me aflige é percebermos que os benefícios da globalização e do crescimento são tão desigualmente distribuídos e que essa desigualdade não vai terminar.

Qual é o nosso caminho?
O desenvolvimento interno é um caminho apertado, dependemos de uma economia que precisa de se transformar, passando da economia das rendas — e já se deu um grande salto nesse sentido — para uma economia de exportações. E sabermos qual é a capacidade de atrairmos capitais estrangeiros, sem prejuízo de conseguirmos — eu volto a este tema que sempre foi um tema meu, não no sentido do isolacionismo, pelo contrário — desenvolver polos de desenvolvimento estratégico nacional, que se insiram num desenvolvimento internacional e que não nos façam perder coisas estrategicamente importantes, como algumas que já foram à vida — o caso mais flagrante é o da REN e dos aeroportos, para não falar noutros, e obviamente a banca.

A banca?
A banca deixou de ser portuguesa para passar a ser internacional. Não vejo nenhum mal nisso, mas há um momento em precisamos de pensar em salvaguardar a nossa capacidade de decisão.
Em suma, faz um balanço que o deixa otimista.
Sim pelas razões que já disse e também porque estamos mais bem preparados do ponto de vista das gerações mais novas.
Que enfrentam uma taxa de desemprego elevada.
Não conseguimos encontrar emprego suficiente para manter a juventude, reter os talentos, como agora se diz, talentos que têm uma boa formação, muitos até com doutoramentos. Ao mesmo tempo temos abandono escolar, temos pessoas a menos a terminar o ensino secundário, é uma situação muito contrastante. E por isso é que a minha preocupação fundamental são as questões da educação e da inovação, que são praticamente o começo de tudo.

Diz que os partidos políticos são pouco ativos [ver caixa]. Somos pouco empenhados?
Nós ainda não conseguimos encontrar uma maneira de defender a democracia representativa e de a valorizar aos olhos dos cidadãos. A democracia representativa enfrenta sérias crises: de credibilidade, em relação à opinião pública, em relação aos cidadãos, ao afastamento dos cidadãos da política, não podemos ignorar isto. Ainda por cima com os partidos políticos, que são cruciais e indispensáveis, completamente ultrapassados pela rapidez com que as relações culturais e de media funcionam. Refiro-me aos social media. Estamos perante uma contradição que me preocupa todos os dias, que é saber como se pode melhorar a atividade e a comunicação para fora dos partidos políticos, que são algo de pouco representativo. Os membros dos partidos pouco passam os 200 mil. O desinteresse é muitíssimo grande, as novas gerações não discutem política ou discutem pouco.

Como tem acompanhado a polémica em torno do financiamento dos partidos políticos?
Estou perfeitamente à vontade perante esta polémica.

Porque sempre defendeu o financiamento público?
Não é isso. Quando foram as eleições de 1991, eu era candidato do PS a primeiro-ministro. Levei um banho de todo o tamanho, com uma maioria absoluta do professor Cavaco Silva. Mas não só fui o único membro da oposição que foi à tomada de posse em Belém — nunca mais me posso esquecer disso e da surpresa que causou eu aparecer em Belém sozinho —, como foi a circunstância de eu ter ido à Assembleia da República no dia em que o Governo se apresentou, com uns papéis na mão, e ter dito: “Meus senhores, eu venho aqui dizer que violámos a lei, eu vou dar ao senhor Presidente as contas da campanha eleitoral do PS, que ficaram acima do limite legal. Tome lá, Vossa Excelência, para os efeitos que tiver por convenientes e, por consequência, convido todos os partidos nesta câmara a apresentar as suas contas.” Disse isto com o professor Cavaco a ouvir.
Só que ninguém o acompanhou.

Zero. A única coisa que houve foi uma multa, irrisória, e que o já secretário-geral, António Guterres, mandou pagar. Portanto, posso falar francamente sobre o que se passou agora. Não quero entrar em pormenores, mas foi um período muito infeliz, para dizer o mínimo, para a Assembleia da República, mas também muito infeliz em geral, porque houve dezenas de ocasiões para abordar este problema e ninguém quis falar dele. Eu, como líder parlamentar, fui abordado por vários partidos no hemiciclo, sugerindo que se podia fazer uma proposta de lei para aumentar os vencimentos dos deputados, e eu disse “façam vocês e eu apoio” — foi o fazes.
Aumentar os vencimentos será sempre impopular.
Há na sociedade portuguesa a ideia de que na política estão uns malandros que não devem ganhar coisa nenhuma, que se ganharem o salário mínimo nacional já chega. Mas a verdade é que se se quer uma democracia com gente capaz, é preciso oferecer condições. Não se vai tirar um economista de um sítio qualquer e pô-lo na Assembleia da República com um vencimento mínimo, ninguém aceita. Quando se olha para a Assembleia da República, percebe-se que as capacidades e as competências nem sempre estão ao nível desejado e desejável. Nós precisamos de gente muito competente na política. Mas para isso temos de criar condições. Pensar que as pessoas muito competentes, e que ganham a sua vida bem, vão para a política sujeitar-se à devassa, seja ela qual for — se você me oferecer um chá perguntam logo qual foi a moeda de troca. É ilusório, ninguém está disponível para isso. Temos de saber o que queremos, ter coragem para valorizar a política, os partidos, os cargos políticos — do Presidente da República aos primeiros-ministros, deputados, autarcas, e por aí fora. Esperemos que este triste episódio se não repita, sob pena de aquilo que já é muito profundamente negativo se afundar ainda mais. Eu sou muito crítico do que aconteceu, sou muito crítico dos arrependimentos que rapidamente todos manifestaram, e ainda bem, mas isto só faz sentido se agora der azo a uma política positiva de trabalho de fundo e a sério. Está tudo estudado, é uma questão de escolha.

Trabalho. O antigo Presidente da República na Casa do Regalo, em Lisboa, onde tem o seu gabinete

Mas é preciso melhorar a relação dos partidos com os cidadãos.
A tentativa de aproveitar o que de bom existe no lado dos social media é crucial, porque os ritmos a que as coisas se processam são totalmente diferentes. O ritmo de vida politico-parlamentar tradicional parece vindo da Idade Média perante o ritmo da idade contemporânea em que vivem as sociedades. Do lado político, ficamos sempre em défice completo e total. Temos de aproximar os ritmos e tentar andar ao mesmo compasso.

Como é que isso se faz?
É um trabalho paciente, passa pela educação, educação cívica, educação de responsabilidade. Preocupamo-nos mais com o êxito individual do que com o êxito coletivo, e isso é o resultado de determinadas políticas económicas e de um modelo de sociedade em que a solidariedade coletiva só funciona em momentos de tragédia, mas no dia a dia é uns a ver e outros a sofrer.
Está a pensar nos incêndios de 2017.

A compartimentação na sociedade portuguesa é das coisas mais trágicas. Eu presenciei muitas épocas de incêndios como Presidente da República e sempre me fez a maior impressão haver o público que vai para a praia e o público que sofre os incêndios. É a prova da dualidade que existe no nosso país de uma forma dramática. Embora no interior do país haja um certo abandono, é certo, também não é o deserto absoluto. Mas a velhice, a falta de saúde... é terrível. Em 2003, um ano terrível de incêndios, estávamos na inauguração do estádio do Sporting, havia um alarido brutal sobre os incêndios e ao intervalo do jogo cheguei-me ao pé de Durão Barroso e disse-lhe: “Ó senhor primeiro-ministro, faça uma coisa indispensável, vá para os incêndios, apareça.” [Ele perguntou:] “Acha que sim?” “Já! Já! Deixe isto tudo, vá para os incêndios, apareça.”

E ele foi?
Foi. De imediato.

2017 foi pior, os incêndios causaram mais de uma centena de mortos.
Este verão tivemos a terrível consagração dessa tremenda dualidade. Com isto chegamos a um tema muito importante, que é o do território. Se me perguntar quais são as políticas públicas cruciais, com certeza que são a da Justiça, a da Segurança, a da Saúde, a da Educação, a da Defesa... Mas o território é absolutamente crucial. Os fundos estruturais dos anos 80, que eram contraponto às quatro liberdades, não foram, embora gastos, capazes de equilibrar isso. O território tem um desenvolvimento profundamente desigual e precisamos de ter — embora eu deteste a expressão, porque é usada vezes de mais — uma estratégia de médio prazo para este país. Por isso eu dizia: o que é que queremos ser do ponto de vista político, económico e social, em que circuitos nos inscrevemos, o que é ambicionamos? As perspetivas financeiras pós-2020 são cruciais, porque é daí que virá a capacidade para ajudar a minorar as grandes diferenças e contrastes que existem em Portugal.

Mas se é o litoral a ver e o interior a sofrer, não é porque o centro de decisão está no litoral, ou melhor, em Lisboa?
Isso leva-me a outra coisa da maior importância, e de que eu sou um adepto: a descentralização. A regionalização falhou — eu fui a favor, mas não me pronuncio sobre as razões de ter falhado, embora ache que o nacionalismo mais desabrido nuns casos e mais justificável noutros veio ao de cima — e nós também não soubemos aproveitar plenamente as potencialidades das CCDR para a aplicação de fundos estruturais. Por mim, continuo a pensar que precisamos de uma descentralização política, com um combate muito feroz às cacicagens e a gastar dinheiro sem perspetivas, sabendo o que é a responsabilidade da cada um. As autarquias passam a vida a reclamar, e bem, capacidade para assumir um protagonismo diferente, mas quando se começa a falar em devolução de certos poderes, as autarquias recuam de imediato porque dizem que não têm meios e precisam de mais gente. Quando eu digo descentralização, digo descentralização de recursos e de responsabilidades. A descentralização ajuda, mas são precisos instrumentos. Se, por um lado, os órgãos de representatividade se esvaziam e se, por outro lado, os tribunais, os correios, a saúde se retiram fisicamente dos territórios, não há nada por onde começar e, além disso, as próprias pessoas desertam também. O que é que pode atrair pessoas para estes sítios? As vias sozinhas não chegam, os capitais são necessários. Este é um país pequeno para não ser um país solidário, não se pode dar a esse luxo. Que podemos fazer para sermos um país mais solidário? Dando condições de vida a uma parte dos portugueses que as não têm! Não podemos continuar a viver com esta percentagem da população a viver no limiar de pobreza, é incompatível com a ideia de um país inclusivo e de uma Europa desenvolvida.

A ação do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa nos incêndios de 2017 foi positiva?
Isso merece um enquadramento mais profundo. Nós, os ex-Presidentes da República, normalmente não falamos sobre os titulares que nos antecederam ou sucederam. Isso tem sido importante para a democracia, para as funções e para a própria estabilidade dos poderes presidenciais, sem prejuízo do estilo de cada um. Há um enorme acervo assumido por todos, ninguém verdadeiramente discute os poderes presidenciais, o que se pode discutir é o estilo que cada um dá e as execuções que tem em relação a esses poderes. É preciso ter a noção clara de que os poderes do Presidente são de arbitragem, de mediador de conflitos, de procura de consensos e de estímulo em relação às preocupações gerais do país. Dito isto, acho que a tragédia foi de tal maneira grande que se percebe, independentemente de quaisquer outras considerações de natureza pessoal, que a atividade do Presidente da República, como também dos outros órgãos de soberania, se justificou. Não estou a falar dos episódios em concreto, pode-se discordar ou não, mas nessa altura as pessoas sentirem que o afago é porventura mais importante, isso é verdade. Agora, não podemos substituir-nos àquilo que é o trabalho do executivo, àquilo que é trabalho da nossa administração. Cada um fez o que pôde, acho que o Presidente respondeu com afago e carinho àquilo que era o desejo de afago e de companhia na tristeza que muitas pessoas tinham.

O Governo esteve à altura?
O Governo fez o que podia fazer e devia fazer. Agora, nos momentos de tragédia é precisa também alguma contenção na mediatização dos acontecimentos, nos comentários. O país ultimamente tem tido centenas de especialistas em gripe, toda a gente sabe de gripe, é uma coisa extraordinária; centenas de especialistas em incêndios; centenas de especialistas em proteção civil...

Está a referir-se aos comentadores?
Estou a referir-me em geral, toda a gente fala em reconstrução de casas, em organização de autarquias, em segurança... Isto não é assim. É preciso ter uma ideia certa sobre o que se pretende e isso leva-nos à reforma do Estado. Ouve falar-se de reformas estruturais, quando não há nada para dizer, lá vêm reformas estruturais. Mas quais? Com que detalhe, com que objetivo? Reformas estruturais, está na moda dizer...

Está na moda há muitos anos.
O que mais me espanta é que me lembro perfeitamente do que se passou em 2003, 2004, 2005 e já na altura o problema era semelhante: a floresta completamente desarticulada, com um regime de propriedade antiquado. OK, agora querem atacar o problema, e ainda bem, estou encantado, mas não é coisa para dois meses, é para 10 ou 20 anos. E com a dor que isso vai representar para muitos portugueses. Os que não estão cá e vão reclamar um sexto, etc.
Está a falar dos direitos de propriedade, que é uma questão constitucional.
Exatamente. Estou a pensar que é preciso um Estado forte, uma política pública forte, tão consensual quanto possível. E não haver ninguém a fugir, a dizer “já não estou nessa”. Não esqueçamos que a dimensão do desafio, é uma zona inteira do país que precisa de uma profundíssima reforma da floresta, o que significa uma reforma do povoamento, da agricultura, da indústria. Isto precisa de um trabalho de política pública assumida por toda a gente.
“Toda a gente” quer dizer de dois terços no Parlamento [necessários a alterações da Constituição]?
Exatamente.

Se fosse na sua presidência falaria de um pacto de coragem, como tantas vezes falou?
Falaria com certeza e com muita mais força porque houve agora coisas mais graves, tantas mortes. E isso faz com que haja um lado de sofrimento humano e de dor muito significativo, só que essa dor e as ações de solidariedade que gera, e bem, não chegam para mudar estruturalmente as coisas. Eu quero manifestar às vítimas e às suas famílias a minha grande tristeza, preocupação e solidariedade. Digo-o com grande pudor porque as palavras podem pouco perante a tragédia sofrida por tantas pessoas, às vezes aldeias inteiras. Nós hoje temos todos de algum modo estas vítimas connosco, mas não chega para reformar políticas. Por isso, quero insistir que temos de estar à altura, tirar as devidas consequências e fazer as reformas políticas necessárias que previnam a repetição destas tragédias.

Estamos num enquadramento político inédito, com uma solução de governo que amarra a esquerda, e temos à direita uma aparente e talvez momentânea orfandade de parte dos eleitores, gerando focos de oposição inorgânica. Concorda?
Não.

Comecemos pela esquerda. Como vê a situação?
Deve-se a António Costa o talento de ter percebido que tinha condições para poder liquidar a ideia do arco da governação tradicional. E de permitir à Assembleia da República desempenhar a sua função essencial, que é a de decidir se o governo e o seu programa passam ou não passam. Se não passam, não há governo. Com a nova fórmula governativa, rompeu-se um tabu e quebrou-se um ciclo. Isso foi muito positivo para a vida portuguesa, independentemente do que acontecer a seguir. E foi positivo, finalmente, depois de tantos anos, o PCP e o Bloco de Esquerda terem chegado a fazer esta coligação de Governo.

Também lhe chama “geringonça”?
Não, não lhe chamo, é brilhante como palavra, mas não se deve aplicar, tem uma conotação depreciativa. Dito isto, o mecanismo parlamentar funciona. Até que ponto é que António Costa e o Governo estarão disponíveis, e o grupo parlamentar do PS, para aguentar determinadas coisas, até que ponto poderão defender o seu programa e a sua liberdade, até que ponto os outros estarão disponíveis a continuar? São questões em aberto. Há um ponto que eu não vejo desenvolvido: normalmente diz-se que isto vai durar enquanto o chamado custo-benefício for positivo, no sentido em que ninguém quer ficar com o ónus de ter de romper e isso é positivo; mas o contrário também, porque o PCP tem a dignidade e a história que tem atrás de si. Eu tive ligações com o PCP na Câmara de Lisboa, conheci muita gente na clandestinidade e da clandestinidade. O que me espanta é que tenham tido a capacidade, por razões de relação com o próprio eleitorado, julgo eu, de terem chegado a esta solução. Mas o limite para esta solução, em meu entender, é saber se querem baixar à wilderness outra vez e ficar de novo de fora, ou não, por isso têm de pensar duas vezes. Penso que o eleitorado jovem não estará muito disponível para voltar para fora dos instrumentos de poder possível. O PCP é um partido de poder quando possível. E, portanto, vai avaliar muito seriamente se quer deixar de o ser e ficar acantonado aos seus 7% ou 8%. O BE é parecido: o que é afinal o BE? É uma força que não tem força eleitoral autárquica, tem um conjunto de gente interessante, a começar pelo seu fundador principal, que é uma figura única, brilhantíssima.

Francisco Louçã.
Sim, brilhantíssimo. Mas o que faz o BE fora do poder? Não chega às autarquias sequer, tem um vereador, por milagre, na Câmara de Lisboa.

O Bloco de Esquerda precisa de poder?
O BE tem de medir seriamente qual é a sua relação com o poder. Uns e outros, BE e PCP, têm de medir que tipo de compromissos têm que fazer para se manterem na posição em que estão; têm de saber digerir aquilo que são os compromissos europeus do PS com os seus compromissos internos.
Está a desafiá-los?
Não, estou a dizer que isto é assim. Alguém pensa que Portugal seria neste momento viável, com as finanças que tem, contestando os compromissos europeus? Estando na União Europeia como está nesse domínio? Sendo o Banco Central Europeu o que é? Não penso que possamos ter essa aventura. Não é possível, mesmo que porventura eu desejasse, o que nem é, claro, o caso!

Ficou espantado com o apoio do PCP ao Governo. Admite espantar-se mais?
O PCP é um grande tático. O dr. Cunhal tinha uma notabilíssima capacidade tática dentro de um contexto estratégico muito idêntico. A maneira como ele, por exemplo, adaptou o partido numa semana à votação no dr. Mário Soares [nas eleições presidenciais de 1986] é absolutamente única, só possível naquele partido. O PCP tem muitas antenas na sociedade e sabe que não pode fazer apenas almoços na Baixa da Banheira, com toda a estima pelos elementos da Baixa da Banheira, porque precisa de chegar ao poder. As autarquias não chegam para os grandes desafios em cima da mesa. Que tipo de desafios está o PCP disposto a admitir? E o BE? Saídas da União Europeia, saídas do euro? Alguém se convence que isso seja possível no contexto da economia portuguesa? Sejamos realistas.

Diz que o PCP tem de decidir “baixar à wilderness”, o que pode ser traduzido de várias maneiras: é voltar ao estado selvagem, ao estado natural?
[risos] É voltar à solidão.

O que se está a passar no BE é comparável com o que aconteceu, há anos, na Alemanha com os Verdes? Uma espécie de rendição...
Não se trata de rendição...
... de pragmatismo perante a necessidade de influenciar...
O concreto da vida política e a necessidade de realizar coisas forçam a um certo pragmatismo, isso é indiscutível. O que acho mal é um pragmatismo sem conteúdo. Mas não há dúvida que a ação política tem necessidade de um pragmatismo. A realidade é que as coisas são muito mais difíceis e muito diferentes.
Foi, aliás, essa tomada de consciência que o levou a aderir ao PS, em 1978.
Sim, sem dúvida.

Defende uma redefinição das funções do Estado?
Não sou a favor do Estado mínimo, há funções que são inalienáveis. Quero que o Estado esteja mais apetrechado para responder com eficácia — e não responder sempre da mesma maneira: que é preciso mais efetivos, estou cansado de ouvir falar disso. A parte da gestão é essencial, mas normalmente não é tocada. Repare que todas as reivindicações são sempre de mais efetivos, sejam polícias, médicos, enfermeiros, sempre mais efetivos. Isso não é possível. Por outro lado, há coisas que podem não ser feitas pelos serviços públicos. Mas há outras que, como disse, são inalienáveis. Gostava de ver uma administração pública em que a gente se revisse. E há serviços que só funcionam porque a dedicação é enorme. Quando percebemos, como eu percebi nos hospitais públicos, que há enfermeiras que trabalham 12 horas e ganham uma miséria, percebe-se que há ali um serviço público que ainda mexe. É necessária uma administração pública que sirva os objetivos gerais do país, uma administração descentralizada, o que se prende muito com a capacidade de a justiça responder em tempo útil às aspirações das pessoas. A morosidade da justiça portuguesa, nomeadamente da justiça económica, é preocupante. É preciso uma regulação eficaz e forte. Não é que eu, de repente, me tenha tornado um liberal, mas a regulação é essencial.

E no plano económico?
A este propósito gostava apenas de sublinhar que é preciso termos uma ligação muito maior e mais estreita entre as universidades e as empresas, com vista à investigação e à qualificação produtiva. A nossa estrutura empresarial é muito pequena (há sobretudo pequenas e médias empresas) e não chega para fazer escala, para a incorporação de know how e da inovação. Por outro lado, temos o problema da nossa administração pública: a reforma do Estado tem de passar necessariamente por uma reforma da administração pública. Uma administração para quê? Qual é o papel dos novos instrumentos de comunicação e das novas tecnologias de informação? É necessário dotar o país de uma capacidade tecnológica nova e quanto mais cedo melhor, mas sem esquecer (e essa é a dificuldade do exercício) os que ficam para trás.
Falemos agora da direita, onde parece haver um vazio, temporário ou não, na capacidade de representação.

Os vazios preenchem-se, não duram muito tempo. Resta saber como e para quê. As fronteiras políticas, nos últimos anos, estão muito mais diluídas. O espaço político disponível do centro-esquerda para o centro-direita é muito maior do que se pensa. Agora as pessoas entretêm-se, com régua e esquadro, a ver em que bissetriz se encontram — se mais à esquerda ou mais à direita... Ora, não faz grande sentido. Já não há classes sociais como há 50 anos. Os sectores produtivos são diferentes e isso faz com que haja um éclatement das várias componentes sociais disponíveis. As ideologias continuam a ter o seu lugar estruturante no pensamento e na ação, mas é preciso uma espécie de novo sistema de pesos e medidas para avaliar constantemente as políticas propostas, as soluções práticas e as consequências/resultados. Parece continuar a haver uma bifurcação em termos de opções: ou se é mais progressista, e se preocupa mais com a equidade e com a luta contra as desigualdades, ou domina a ‘marketização’.
O próprio PS anda a navegar entre o centro e a esquerda.

Pois, claro que anda. O PS — e posso falar claramente, porque é o meu partido — tem condições únicas para aprofundar até onde pode ir do ponto de vista das suas capacidades políticas, ideológicas e programáticas. Fez-se um esforço grande e muito assinalável — tão destruído e tão criticado! — para pôr de pé um determinado edifício, e agora é preciso nutri-lo todos os dias com as políticas mais díspares. Os temas aumentam sem parar, cada dia que passa há mais um. Esses novos temas requerem um tratamento. E é por via do tipo de tratamento que se faz de cada um deles, que se será aferido do ponto de vista político e social.

Porque é que o PS tem uma oportunidade única?
Porque tem mais condições. Porque está no poder e tem mais informação do que os outros. Tem uma relação internacional muito forte e toda a informação que isso lhe dá. E ao mesmo tempo tem pessoas que deve mobilizar para essa tarefa de conceptualização e de ligação ao sector empresarial. O pouco que se fala sobre o sector empresarial perturba-me muito. Não é apenas o PS. A esquerda associada ao PS não fala em empresas. E elas são cruciais neste país. Sem isso, não teremos emprego. Direi mesmo que o PS está em boas condições para poder liderar uma renovação, não diria da social-democracia — que, lá fora, quer dizer outra coisa — mas, para utilizar o jargão português, do socialismo democrático. Toda a gente percebe que isso é o mesmo que a social-democracia europeia no sentido mais amplo do termo.

Momento. Jorge Sampaio durante a entrevista conduzida por Pedro Santos Guerreiro e José Pedro Castanheira

O antigo Presidente da República na Casa do Regalo, em Lisboa, onde tem o seu gabinete
O país perdeu recentemente um dos seus grandes empregadores e empreendedores...
Sem dúvida.

... Belmiro de Azevedo, com quem teve relações muito dialéticas.
Muito vivas e muito rijas. O que é importante é que no exercício de cargos políticos as pessoas não sejam influenciáveis e que isso fique claro para todos. Não interessa se é o senhor Joaquim, dono de uma retrosaria, ou se é o senhor Fulano, que tem uma multinacional. São iguais e é assim que sempre procurei atuar. E isso dá-me um descanso enorme. Na Câmara de Lisboa, para só falar dela, o convite à valsa pode ser grande. Mas ninguém ousou.

Está a falar de lóbis na política?
Não só. Espero que este período, a caminho de novas eleições — a começar pelas europeias —, sirva para afinar políticas. Precisamos de ser mais concretos, mais rigorosos nas metas, na calendarização, na monitorização. E, sobretudo, é preciso ter uma força política grande. É a única maneira, num país como o nosso, cheio de lóbis, influências e poderes de facto do mais variado tipo, de se conseguir fazer vingar o domínio da política sobre as coisas.

O que é que o PS precisa para isso?
De fazer sentir bem aquilo que representa e aquilo que é capaz de fazer.

A ligação ao BE e ao PCP é um obstáculo?
Os obstáculos pululam. Resta saber como é que se lida com eles e qual é o limite, até onde se pode ir. Não se esqueça que fui Presidente da República sempre com maiorias relativas, com várias saídas pelo meio. A ideia de que é preciso continuidade e estabilidade não é uma ideia oca nem visa limitar alternativas que só em democracia existem. A estabilidade é um elemento indispensável para executar um programa de governo. Para que os intervenientes sintam que aqueles senhores são os que estão a mandar naquele momento. Se não sentem isso, furam tudo por todos os lados.
Entretanto, o senhor entrou na campanha interna do PSD, levado por Santana Lopes.
É natural, mas não tenho nada a comentar. Já está tudo escrito, não vou comentar nada.

E do caso José Sócrates?
É uma matéria que eu não toco.
Falemos das Forças Armadas. Na sua Presidência esteve muito atento a essa problemática.
Sempre dei a maior importância ao cargo de comandante supremo das Forças Armadas. A minha oposição à presença das Forças Armadas na guerra no Iraque foi simbólica e paradigmática. Aí sou como o Presidente Truman em relação ao general MacArthur, o poder civil manda no poder militar. Como se sabe, o general, que fora um grande chefe militar no Pacífico, queria prosseguir para a Manchúria, o Presidente Truman disse que não e aquele velho juiz, que fora eleito Presidente da República, demitiu o general MacArthur de um dia para o outro. As Forças Armadas, cujo prestígio e modernização têm de ser louvados, têm accountability, têm responsabilidade — e isso é com o poder civil. Para mim, isso é um ponto de intransigência total. A partir do momento em que isso é subvertido, a democracia está enfraquecida.

Como tem acompanhado a trapalhada sobre as armas de Tancos?
Sinto um certo incómodo sobre essa matéria. Impõe-se que haja uma resposta sobre Tancos. O tempo passa, mas não quero ser mais claro. Ninguém fica bem nesta matéria.
Quando deixou de ser Presidente, em 2006, continuou especialmente ativo, mas no plano internacional. Passaram 12 anos…
Não tive propriamente tempo para descansar. Tinha saído em março, e, em abril ou maio, foi com gratificante surpresa que recebo um telefonema de Kofi Annan, estava eu no Palácio de Queluz. Trabalhara com ele em cimeiras das Nações Unidas em Nova Iorque sobre questões de saúde e, por isso, queria saber se eu aceitava ser seu representante pessoal para a luta contra a Tuberculose. Aceitei e desempenhei essas funções até 2012.
Foi uma aposta de Kofi Annan.

Sim. Era um cargo novo ligado à Agenda dos Objetivos do Desenvolvimento do Milénio, muito apadrinhada por Kofi Annan, e aceitei o desafio. Sempre gostei dos problemas da saúde pública, por razões pessoais e familiares. Tive a possibilidade de falar a um público muito mais vasto. Promovi várias coisas, entre as quais a primeira Conferências das Nações Unidas sobre a coinfeção VIH-Tuberculose, com o Presidente Bill Clinton e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

Depois, foi também o alto-representante para a Aliança das Civilizações.
Ban Ki-moon pediu-me para ser o alto-representante para a Aliança das Civilizações, em 2007. Tratava-se de implementar as recomendações de um relatório que pretendia incentivar o diálogo entre as sociedades muçulmanas e as sociedades ditas ocidentais e promover o diálogo e a cooperação interculturais. Acumulei os dois mandatos entre 2007 e 2012, o que significou um trabalho gigantesco. Montei toda a estrutura e o funcionamento da Aliança, desde o plano nacional até aos fora mundiais, passando por estratégias regionais. Percorri o mundo e tudo isto me deu uma enorme satisfação. Era o aproveitamento da experiência de um antigo Presidente. Recordo a ideia de Felipe González, segundo a qual os antigos Presidentes da República são como a louça da China: é uma porcelana muito bonita e antiga, mas ninguém sabe o que fazer com ela. É uma imagem magnífica. [risos]
Depois veio a atribuição do Prémio Mandela, vai fazer três anos.

Foi a primeira vez que o Prémio Mandela das Nações Unidas foi atribuído, a mim e a uma médica oftalmológica da Namíbia, doutora Helena Ndume.
Mais recentemente criou a Plataforma de Apoio aos Estudantes Sírios.

Foi em 2013. Com a ajuda de gente que conheci nos caminhos da vida, em Portugal e no estrangeiro, foi possível criar este programa de bolsas de estudo de emergência para estudantes sírios, que vai agora ser transformada numa iniciativa multilateral de origem portuguesa, com o apoio do Ministério dos Negócios Estrangeiros e que consistirá num mecanismo de resposta rápida para o ensino superior nas emergências. Ou seja, partindo da experiência síria, passamos agora para outro patamar por forma a dar uma resposta sistémica ao problema do grupo específico dos estudantes do ensino superior que sejam apanhados por crises — guerras, desastres naturais ou situações de vulnerabilidade — e que assim recebem proteção e assistência académica. No fundo, é uma espécie de Erasmus, mas para os estudantes em mobilidade forçada. Há universidades e institutos politécnicos interessados; estudantes com estudos interrompidos é o que não falta; agora, é preciso encontrar dinheiro e parceiros. Este mecanismo vai ser lançado numa reunião internacional que estou a preparar, conjuntamente com o Governo, e que terá lugar em Lisboa, no dia 5 de abril.

Os estudantes sírios responderam à altura.
São mais de uma centena em Portugal. Mais de 30 estão já empregados ou em estágios depois de terem concluído os seus mestrados entre nós. Alguns são mesmo excelentes alunos, têm notas muito boas, de 17, 18 e 19; há até um ‘cérebro’ que teve 20 valores num mestrado na Universidade de Coimbra. Este programa tem êxito porque resulta de uma cooperação entre muitos parceiros — com universidade e politécnicos, em primeiro lugar, com empresas, fundações e particulares. Conseguir fundos para isto, é um milagre e tem dado muito trabalho. Mas é também muito gratificante. E através dos estudantes, percebe-se o que tem sido a destruição da Síria, que tem gente muito boa e um ensino universitário (e não só) muito capaz. Hoje, são eles, as vítimas, mas qualquer um de nós podia estar no lugar deles.

No ano passado foram publicadas várias notícias sobre o seu estado de saúde. Quer adiantar alguma coisa?
Não. Felizmente os hospitais foram muito discretos, bem como os jornais. Estou recuperado, como podem ver. Eu não andava, e agora já ando.

Quando lhe pedimos esta entrevista, propusemos-lhe que escolhesse um livro, um texto, um poema ou uma música que, neste momento da sua vida, fosse especialmente importante.

Escolhi música. Tenho um eixo, que começa em Bach e Vivaldi, passa por Mozart, atravessa Beethoven e vai até Brahms e Mahler, ficando por aí. Um eixo em torno destes autores e das suas variações. Eu não sou como o ilustre Stravinsky, que dizia que o Vivaldi escreveu sempre o mesmo concerto. Ainda que, modestamente, não esteja de acordo. Também gosto muito de ópera. Tive a sorte de a minha mãe me levar à ópera desde miúdo.

Qual foi o último concerto a que assistiu?
O “Requiem”, de Mozart, na Gulbenkian. Preciso de orquestra e coros — isso é que me enche as medidas. Lembro-me do maestro Riccardo Muti, que dirigiu recentemente o Concerto de Ano Novo, em Viena. Viu-o em Salzburgo a dirigir o “Requiem”, de Verdi, e foi inesquecível. Mas tenho um defeito grave: não sou capaz de ouvir música e ler ao mesmo tempo. Na leitura estou na obra de Valentim Alexandre, que é absolutamente brutal do ponto de vista da investigação. São três volumes sobre a época colonial. Saiu agora o primeiro: “Contra o Vento. Portugal, o Império e a Maré Anticolonial (1945-1960)” e merece uma atenção desmedida.

O que gostaria que as pessoas aprendessem da sua vida?
A resiliência. Nunca desistir. Mesmo que se esteja muito em baixo, como aconteceu comigo em agosto, setembro e outubro, tem-se sempre a esperança de que no dia seguinte se está lá outra vez, que a noite não acabou connosco. Quando vinham as enfermeiras fazer a consulta matinal, medir a temperatura e a tensão, eu sentia que estava vivo, estar vivo é porreiro. Com esperança de que irá melhorar. Entre muitos defeitos que conheço em mim mesmo, um deles é ter muita capacidade de luta. Não parece, parece que sou um tipo frágil e que hesita, mas não gosto que me ponham a um canto. Saio de lá ao pontapé se for preciso. Isso tenho verificado ao longo da vida e das coisas mais terríveis: vou-me abaixo mas recupero. Gostaria de ver isso em muitos portugueses. Além disso, gostava de ver uma preocupação que advogo e que o meu pai sempre referia. É aquela máxima de John Kennedy: o que podes fazer de útil pelo teu país? Não é fazer para ti, mas para o teu país. Tenho isso como lema.

“Por amor de Deus, o problema da dívida está a meter-se pelos olhos adentro!”

Portugal tem espaço de afirmação política na Europa?
Não poderemos deixar de ter um caminho próprio e que se insira no quadro europeu. E não podemos dispensar estar à mesa da evolução da Europa e o mais acompanhados possível, por isso as cooperações estruturadas são importantes, como na defesa — nem concebia estarmos fora disso. Estamos na altura de consolidar o pós-crise financeira, é altura de ser demonstrado que é possível ter uma política que não dispense o consumo interno mas que tem de ter cuidado com as contas públicas. Nestes anos próximos, ou a UEM solidifica o crescimento e a capacidade de resposta ou não, e isto acaba por ser um conglomerado, perdendo-se o que melhor nos caracterizou no pós-guerra. Esse pós-guerra, que foi muitíssimo importante para a paz na Europa, começou por ser económico, depois político. É preciso que o ‘Brexit’ não seja banalizado e que não abra a porta para outros casos. Ficamos a 27, ponto, parágrafo. E a 27 temos de nos conseguir solidificar.

Está mais otimista no plano interno do que no externo.

No plano externo não estou otimista, porque há um conjunto de conflitos potenciais muito sérios, além de desafios globais, como a fome, as alterações climáticas, o ‘atentismo’ chinês, a relação da Rússia com a Europa, que está em banho-maria, e gravemente...

O trumpismo, como lhe chama, agudizou a situação.

É imprevisível o que pode acontecer. A verdade é que o senhor Trump traduz aquele conjunto de arrazoados desconexos e ignorantes em frases simples e mobilizadoras, e há uma camada de americanos que continua fiel ao seu candidato vencedor. Isto terá repercussões. Veja-se o que aconteceu no conflito israelo-palestiniano, o que significou lançar-lhes a pedrada, no momento em que também se isola dos aliados europeus e faz uma aliança com a Arábia Saudita contra o Irão.

E há a Coreia do Norte. É um mundo instável.

Não se podem fazer previsões. Sempre achei, de acordo com alguns especialistas americanos, que a posição da Coreia do Norte era para a negociação: “Precisamos de que contem connosco para negociar, temos direito a ter estes mísseis balísticos, mas queremos com isso chegar à mesa. Se não nos deixam, vamos subindo a parada.” Mas esta parada tem um limite, e Donald Trump já percebeu que, se levar à prática aquilo que ameaça, a Coreia do Sul desaparece em dois dias, dada a força terrestre dos norte-coreanos. Os americanos deveriam reconhecer que a Coreia do Norte é uma potência nuclear e conversar. Porque senão tudo abana, os aliados da China, o Japão e seus aliados, abana o espaço vital que existe naqueles confins do mundo. É por isso que vejo a gravidade de Trump, a incapacidade de admitir que o acordo atómico com os iranianos pode ser melhorado mas não pode ser suspenso.
A Europa precisa de saber qual o lugar que ocupa na cena política mundial?
Nós teremos mais força como interlocutor internacional quanto mais desenvolvida for a integração europeia, quanto mais apertados, responsáveis, rápidos forem os mecanismos de resposta da UE às crises e quanto menos parcial for a resposta de alguns dos países em relação a outros, no que concerne à divisão entre Norte e Sul, por exemplo. Isso dá cabo, a prazo, da unidade da União Europeia. Houve progressos, mas do ponto de vista do poder temos muito caminho a percorrer para nos afirmarmos como entidade incontornável à escala internacional.

Que avaliação faz do início de mandato de António Guterres na ONU?
Muito positiva. Quem conhece minimamente as Nações Unidas, como eu, percebe que tudo depende muito em primeira mão do Conselho de Segurança, sobretudo dos países com direito de veto. E, quando se tem um americano que diz o que diz e que ameaça suspender a contribuição dos EUA para 25% do orçamento das Nações Unidas, percebe-se que a vida não será fácil. António Guterres tem feito o melhor possível, com intuitos reformistas significativos. Agora, não podemos atribuir-lhe a capacidade de resolver conflitos que são muito mais profundos e que dependem de outros interesses estratégicos. As Nações Unidas, as agências e os funcionários são absolutamente cruciais e indispensáveis, não concebo o mundo sem isso.

Guterres tem sido devorado pela enorme ‘máquina’?
Não. António Guterres não é ‘devorável’, no bom sentido da expressão.

Crê que a eleição de Mário Centeno para o Eurogrupo vai alterar a política europeia relativamente às finanças de cada país?
A UE está confrontada com a necessidade absoluta de avançar com os instrumentos capazes de solidificar a união bancária, a UEM e o euro. Estou certo de que as pessoas responsáveis por essas matérias farão o que é possível, mas não estão sozinhas. Eu tenho a esperança de que a UE e os seus mecanismos consigam deixar de ter tabus. Começa a haver uma evolução positiva no sentido de alguma flexibilidade, o que dá possibilidades a Portugal. Há uma responsabilidade acrescida, tanto mais que em 2019 há uma grande incerteza com as eleições no Parlamento Europeu e com o que isso representa para a futura Comissão. Ninguém sabe o que vai resultar. Temos, assim, de aproveitar bem o tempo até lá, no qual alguns veem uma janela de oportunidade única para as reformas avançarem na Europa, mesmo que também haja eleições em Itália e que a questão catalã permaneça uma incógnita.

Acredita na coligação entre a CDU de Merkel e o SPD de Schulz?
Isso pode ser positivo, pode ser que os sociais-democratas, agora um bocado de rastos e chamados in extremis a salvar Angela Merkel, no bom sentido, tragam um sopro do mínimo de flexibilidade e de políticas alternativas. Esta coisa extraordinária, que sempre me pareceu vexatória para nós todos, que é “vocês têm de cumprir isto, mas para cumprir isto têm de crescer”, e não se pode crescer se tudo se mantiver imutável e dogmático, é uma contradição colossal. Não pode haver políticas keynesianas de nenhuma espécie, porque “vocês têm de respeitar isto custe o que custar”, mas fica a faltar o outro lado.

O vexatório aplica-se a Portugal?
À Europa no seu conjunto, como se não estivéssemos todos a perceber que o que aconteceu nestes anos é resultado da maneira como foram aplicados os remédios da troika, que os próprios responsáveis do FMI vieram reconhecer que foram mal aplicados e constituíram um desastre. Temos de ter alguma liberdade para, respeitando os critérios básicos enunciados, podermos fazer um desenvolvimento melhor. Sem tabus. E isso tem que ver com temas como a questão da dívida. A questão da dívida não pode ser eternamente um tabu, porque ela está aí. Ou como a questão do crescimento.

Está a defender a renegociação da dívida?
Não estou a defender nada disso, não vale sequer a pena. Vale a pena é dizer que não é sustentável que ignoremos que o problema existe. Por amor de Deus, ele está a meter-se pelos olhos adentro! Temos 40 anos de pagamento de dívida à nossa frente, no mínimo, e é preciso crescer a 3% ou a 4%, o que nunca aconteceu nos últimos anos. Alguma coisa tem de fazer-se, é preciso um consenso. Não estou a dizer perdões...

O que sugere, então?
Sugiro que se comece a conversar sobre isso a sério, desde os think tanks portugueses, que deviam ser muito mais ativos do que são, até aos partidos políticos, esses então nem se fala. E precisamos de ter uma posição que se discuta. Tabus?! Em democracias representativas e em democracias europeias? Não faz sentido.

Quando Sampaio “deu cabo daquilo”: 22 vetos, nenhum ultrapassado

O acervo das funções presidenciais deu-me a possibilidade de ter uma intervenção no dia a dia, de aconselhamento, de arbitragem, de moderação, em proximidade muito grande aos cidadãos no seu conjunto.
Na política externa, realço a guerra do Iraque. A posição de não envolvimento de Portugal foi um contributo muito importante para a afirmação dos princípios do multilateralismo e da legalidade à escala internacional. Ao mesmo tempo, revelou a importância que Portugal poderia ter nos conflitos europeus, como teve com a presença na Bósnia-Herzegovina.

Outro exemplo que quero assinalar é o da criação do chamado Grupo de Arraiolos, que reúne os vários Presidentes da República da UE sem poderes executivos. Está maior agora do que na altura da criação.
Por último, nunca me ponho em bicos de pé, mas fui (enquanto deputado e não só) um dos permanentes defensores da independência de Timor-Leste — muito antes de ela ter acontecido. E ainda antes de ser eleito Presidente, disse numa entrevista (precisamente ao Expresso) que uma das coisas que mais gostaria de fazer era ser o primeiro Presidente da República de Portugal a visitar Timor independente, o que foi visto como uma “declaração de guerra” muito positiva.

Na política interna, houve duas coisas muito importantes. A primeira foi a visita a todos os concelhos do país, 308 concelhos em dez anos. Visitando atividades, incutindo o debate, dando conselhos vários, etc. Foi muito importante do ponto de vista da coesão. O que me deu mais gosto foi as pessoas perceberem que estava ali um alto magistrado, eleito por sufrágio direto, que não era Governo, mas a quem faziam apelos, mostravam matérias, apresentavam queixas. “Se não fosse o sr. Presidente, esta estrada não se tinha feito”, ouvi dizer muitas vezes (era uma coisa que me irritava profundamente, mas era verdade, faziam a estrada antes de eu chegar). As visitas pelo país foram complementadas com as presidências temáticas. Agora sorrio, e não é de inveja. Fiz um esforço enorme para que se fizesse um congresso da Justiça. O congresso chegou a fazer-se, na Aula Magna, mas pegaram-se todos, como de costume.

A segunda coisa está relacionada com a longa lista dos 22 vetos, que não valem pelo número, mas pelo conteúdo. Vetos sobre leis da Assembleia da República e sobre decretos do Governo. Nenhum destes vetos foi ultrapassado, o que é uma coisa que eu tenho como glória. Nem os vetos de leis, que podiam ser ultrapassados por uma maioria de dois terços da Assembleia da República, nem de decretos do Governo, que poderiam dar origem a um novo projeto de lei do Governo ao Parlamento. Nada disso aconteceu: tive sempre a última palavra, os casos acabaram ali. As portagens do Oeste, a procriação medicamente assistida, a lei da droga… tive um papel muito importante no problema da toxicodependência, trazido constantemente por mim, quer em conferências e colóquios quer na proteção à aplicação da lei da droga. Houve dois vetos que me deram muito gosto: um sobre modificações ao Rendimento Social de Inserção — dei cabo disso e ganhei no Tribunal Constitucional. Relativamente a diplomas do Governo, destaco os vetos sobre universidades privadas — dei cabo, também com gosto, devo dizer, do facilitismo na concessão a interesses locais por via das maiorias políticas. Igualmente significativo foi o veto ao diploma sobre o ato médico. Rebentei com ele. Até hoje. O diploma era uma baralhada infernal, em favor dos médicos, diga-se.

Por último, quero ainda referir que trouxe a inovação para o centro das atenções em Portugal, com a criação da COTEC ; por influência e amizade com o rei de Espanha e do presidente de Itália. E os encontros internacionais da COTEC, que inaugurei, prosseguiram durante os mandatos do prof. Cavaco. Ah, e houve ainda a criação — que gerou uma certa incomodidade no Governo Guterres — do Conselho Económico. Foi uma ideia que fui buscar ao Council of Economic Advisers, dos Estados Unidos. Esse Conselho reunia quem havia de melhor e reunia-se mais ou menos uma vez por mês. Foi uma iniciativa transversal muito importante, promovendo o debate sobre a vida económica e financeira do país.

Depoimentos recolhidos por José Pedro Castanheira e Pedro Santos Guerreiro