14.7.23

economia da zona euro vai cair este ano?

Sónia M. Lourenço Jornalista e Carlos Esteves Jornalista infográfico, in Expresso

A zona euro entrou em recessão técnica nos primeiros três meses deste ano e os economistas dividem-se sobre se a atividade voltou a cair no segundo trimestre. As projeções apontam para um crescimento no conjunto de 2023, só que pouco acima de zero. Mercado de trabalho é ponto forte, mas, com os juros ainda a subir, o risco de contração anual não está afastado

A má notícia foi dada pelo Eurostat no início de junho. Ao contrário do que apontavam as primeiras estimativas, a economia da zona euro tinha caído em cadeia no segundo trimestre, isto é, face aos três meses anteriores. O avanço de 0,1% inicialmente estimado acabou por se transformar numa queda de 0,1%. A diferença é pequena, mas foi suficiente para provocar uma recessão técnica, dado que se tratou do segundo trimestre consecutivo de contração em cadeia. E o cenário pode não ter sofrido alterações no segundo trimestre deste ano. Antecipando os dados preliminares que o Eurostat deverá publicar no final deste mês, os economistas ouvidos pelo Expresso dividem-se entre uma nova queda em cadeia do Produto Interno Bruto (PIB) da zona euro, e um regresso ao “verde”. Com o mercado de trabalho a resistir à conjuntura difícil - marcada pelo arrastar da guerra na Ucrânia, inflação ainda elevada, e juros a subir -, as projeções apontam para crescimento no conjunto de 2023, mas pouco acima de zero. E os economistas avisam que o risco de uma contração anual não está afastado.


Pela primeira vez desde a pandemia de covid-19, a economia da zona euro está em recessão técnica, que se define por pelo menos dois trimestres consecutivos de recuo em cadeia do PIB. Depois da queda de 0,1% nos últimos três meses de 2022, seguiu-se nova queda de 0,1% no primeiro trimestre deste ano.

Desagregando os dados, são quatro os países da moeda única europeia que se encontram em recessão técnica: Alemanha, Estónia, Irlanda - onde os dados desde a crise pandémica têm estado marcados por grande volatilidade -, e Lituânia.

Acresce que a economia francesa - a segunda maior da zona euro - está basicamente estagnada, com o PIB a registar uma variação nula em cadeia nos últimos três meses de 2022, e um avanço de apenas 0,2%, também em cadeia, no primeiro trimestre deste ano.

É precisamente sobre a Alemanha - onde o PIB recuou 0,5% em cadeia nos últimos três meses de 2022 e caiu 0,3% no primeiro trimestre deste ano - que recaem as maiores preocupações dos economistas. O ‘motor’ da zona euro parece ter gripado (e o agravamento das contas públicas alemãs já levou o governo a alertar para a necessidade de contenção da despesa no próximo ano).

“O caso que preocupa mais é o da Alemanha, em que a economia não parece ainda ter recuperado dos níveis pré-covid”, salienta João Borges de Assunção, professor da Católica Lisbon.

Teresa Pinheiro, economista do BPI, partilha o alerta: “O comportamento da economia alemã gera alguma preocupação na medida em que se constitui como um dos principais motores da zona euro”. E destaca que a situação de recessão técnica fica a dever-se “quer a debilidade da procura interna (num contexto de mercado de trabalho resiliente), quer também a uma maior exposição à economia da China via exportações e interligação na cadeia de valores”.

Acresce “a maior proximidade geográfica da região do conflito Rússia/Ucrânia”, penalizando a economia tanto de forma direta, como indireta “via expectativas de famílias e empresas, retirando ímpeto à atividade”, aponta Teresa Pinheiro.
ATIVIDADE PODE TER VOLTADO A CAIR NO SEGUNDO TRIMESTRE

Os números do segundo trimestre deste ano não são ainda conhecidos - o Eurostat só vai publicar a estimativa rápida preliminar no final de julho -, e os economistas dividem-se sobre o que esperar.

Para João Borges de Assunção, “uma nova contração em cadeia no segundo trimestre parece o cenário mais claro”. E nota que “as vendas a retalho têm saído fracas nas principais economias europeias, apesar de a inflação continuar elevada”.

A estimativa da Católica Lisbon é que a zona euro tenha contraído 0,5% em cadeia no segundo trimestre, correspondendo a uma queda de 0,3% em termos homólogos, ou seja, em relação ao mesmo período do ano passado.

Já Teresa Pinheiro lembra que a contração da zona euro nos primeiros três meses deste ano “esteve fortemente relacionada com a queda da atividade na Irlanda”. Ora, “este efeito irá ser provavelmente corrigido no segundo trimestre, antecipando-se o retorno a um crescimento em cadeia da atividade, suportado pelo sector dos serviços”, considera a economista.

“Os indicadores de atividade económica PMI [sigla para “Purchasing Managers' Index”] sinalizam um abrandamento da atividade na zona euro, com o setor industrial a reforçar a tendência de contração da atividade, mas que deverá parcialmente compensado pela atividade no setor dos serviços”, aponta, por sua vez, Bruno Fernandes, economista do Santander. E destaca: “As principais economias da zona euro poderão entrar numa trajetória de estagflação no segundo trimestre”.

Na análise à situação económica europeia, “os dados são mistos”, enfatiza Bruno Fernandes. Por um lado, “temos as principais economias a apresentar sinais de arrefecimento, mas, por outro, temos as economias a operar no pleno emprego, acompanhada por uma evolução positiva dos salários”, vinca o economista.
MERCADO DE TRABALHO MANTÉM-SE FORTE

De facto, em maio a taxa de desemprego na zona euro, ajustada da sazonalidade, manteve-se nos 6,5%, o que compara com 6,7% em maio de 2022. É o valor mais baixo para a taxa de desemprego na zona euro desde, pelo menos, o ano 2000.

Resta saber se o mercado de trabalho europeu vai continuar a resistir à conjuntura complexa. A guerra na Ucrânia arrasta-se sem fim à vista, a inflação continua elevada (5,5% em junho), apesar de estar a descer, e o Banco Central Europeu (BCE) passa a mensagem de que “ainda não podemos declarar vitória” sobre a inflação - nas palavras da sua presidente, Christine Lagarde, no Fórum do BCE em Sintra, no final de junho -, sinalizando claramente que vai continuar a subir os juros.

As projeções apontam para a manutenção da taxa de desemprego na zona euro perto dos mínimos históricos. Em maio, a Comissão Europeia apontava para os 6,8% este ano, recuando para 6,7% em 2024. Já em junho, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), antecipou valores ainda mais baixos, de 6,7% para este ano, e de 6,6% para 2024.

Só que a subida dos juros pelo BCE para baixar a inflação pode acabar por cobrar um preço também sobre o mercado de trabalho. Se o investimento das empresas e o consumo das famílias fraquejar, será difícil o mercado de trabalho passar incólume.

Veja-se a discussão em curso nos Estados Unidos, onde a Reserva Federal (Fed) tem um duplo mandato: estabilidade dos preços e alcançar o máximo emprego. Com a taxa de desemprego a permanecer marcadamente baixa, nos 3,7%, economistas como Olivier Blanchard - antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional - e Ben Bernanke - ex-presidente da Reserva Federal (Fed) daquele país - consideram que trazer a inflação de volta aos 2% vai exigir uma subida do desemprego. Quanto? A sua estimativa é que terá de ultrapassar os 4,3% por algum tempo. Não é um aumento enorme face ao patamar atual, mas no passado esse tipo de trajetória da taxa de desemprego tem estado associado a recessões.

No caso do BCE o mandato é único e está inscrito nos seus estatutos: garantir a estabilidade dos preços na zona euro. Uma missão que a presidente Lagarde tem vincado nas suas intervenções.

Tudo somado, as projeções apontam para que a zona euro consiga crescer no conjunto de 2023, mas pouco acima de zero. Com exceção da Comissão Europeia - que em maio apontava para 1,1% -, as restantes projeções ficam abaixo da fasquia de 1%. É o caso da OCDE e do BCE, que esperam um avanço de 0,9%.

A projeção do Santander é ainda mais contida, com Bruno Fernandes a apontar para os 0,7%. “O crescimento deverá revelar-se fraco, possivelmente inferior a 1%”, antecipa, por sua vez, Teresa Pinheiro, do BPI.

Já a previsão da Católica-Lisbon tem o seu ponto central nos 0,1%, com um intervalo compreendido entre uma contração de 0,5% e um crescimento de 0,7%. “Mantém-se, assim, o risco de uma recessão suave, que parece agora o cenário mais provável, dados os desenvolvimentos recentes das economias alemã e francesa”, destaca uma nota de análise da instituição.