Mostrar mensagens com a etiqueta Doença. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Doença. Mostrar todas as mensagens

3.2.23

Estatuto de cuidador informal fica isento de atestados médicos até ao final do ano

Ana Cristina Pereira, in Público

Ideia é simplificar processo, desde Junho até agora, iniciado por 2559 pessoas e conquistado por 530. Pode ser uma saga, como se vê pelo exemplo de Irene.

Até ao final do ano, quem requerer estatuto de cuidador informal não precisa de apresentar um atestado médico a certificar que tem capacidades físicas e psicológicas para cuidar, nem outro associado ao consentimento da pessoa alvo de cuidados. É uma tentativa de simplificar o processo, desde Junho até agora iniciado por 2559 pessoas e conquistado por 530 – 227 nos 30 concelhos com projecto-piloto, 102 com subsídios atribuídos.

A portaria foi publicada no Diário da República desta quarta-feira: “No contexto da pandemia que vivemos, verifica-se a necessidade de dispensar a junção ao processo de documentos que nesta fase são de difícil obtenção”. Até 31 de Dezembro, há possibilidade de adiar a apresentação de documentos que implicam actos médicos. Os serviços têm 30 dias para responder e não 60, como até agora.

Os números, revelados pelo Ministério do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, são diminutos face a um universo estimado em 827 mil cuidadores, mais de 200 mil a tempo inteiro. Esmiuçar casos concretos pode ajudar a perceber porquê. O de Irene R., uma dona de casa de 69 anos que cuida do marido, um antigo militar sete anos mais velho, é exemplar.

Uma das filhas, Teresa, é que a convenceu a requerer o estatuto. Oliveira de Azeméis não é um dos 30 concelhos com projectos-piloto, mas isso não impede os cuidadores residentes de verem o seu estatuto reconhecido. A mãe nunca terá direito ao subsídio, uma vez que a família não cumpre as condições de recurso, mas poderá vir a beneficiar de outras medidas, como o apoio psicossocial e o descanso do cuidador.

Logo no princípio de Julho, olhando para a lista de requistos, Teresa deu com um obstáculo: embora o pai necessitasse de supervisão permanente e de ajuda da mãe para actos essenciais, não era titular de complemento por dependência. Havia que pedi-lo à Caixa Geral de Aposentações. Só telefonando encontrou o formulário no site. Uma vez preenchido, remeteu-o com uma declaração do médico psiquiatra.



Ser docente não a livrou da sensação de estar “numa espécie de labirinto burocrático”.“Acho que as pessoas precisam de ajuda para tratar disto”, dizia. O mesmo afirmava a vice-presidente da Associação Nacional de Cuidadores Informais, Maria dos Anjos Catapirra, denunciando “explicações incorrectas por parte dos funcionários da Segurança Social, falta de literacia dos cuidadores nos meios digitais, marcações presenciais que demoram, falta de apoio das autarquias na prestação de informação nos concelhos dos projectos-piloto”.

Desde Junho, mês em que tudo começou, cresce o esforço para chegar aos cuidadores. No portal da Segurança Social, criou-se uma área dedicada que inclui um Guia Prático Em cada um dos 18 centros distritais, um Gabinete de Acolhimento ao Cuidador Informal. A nível nacional, uma linha telefónica exclusiva (300 502 502). Pelo correio, seguiram notificações aos beneficiários titulares de complemento por dependência de 2.º grau e do subsídio por assistência de 3.ª pessoa residentes nos concelhos dos projectos-piloto.

Não fosse a filha, Irene não se teria metido naquilo. “Ela deve achar que estou sobrecarregada”, concede. “Tenho uma quinta, galinhas, patos.” Cuida deles, cuida do marido, e já teve dias melhores. “Também sou doente. Tenho osteoporose. Fui operada ao coração. Tirei um peito.”

530 é o número de cuidadores que viram o estatuto reconhecido até agora.

Há cinco anos que vê o marido desaparecer, todos os dias um bocadinho. Vai sendo engolido pela demência. No princípio, nem estava a perceber. “Começou a ser muito agressivo e a ‘acartar' as coisas para o lixo”, recorda. O médico não acertou logo com a medicação. “Eu não podia abrir a boca, que ele pregava muito alto.” Não pensou em separar-se. “Tive pena. Se a gente atura quando eles têm saúde, vamos deixá-los quando ficam doentes? Fui aguentando. Ainda foi bastante tempo até o médico acertar.” E lá se acalmou.

Custa-lhe resistir à tentação de fazer por ele. As filhas vão-lhe explicando que isso acelera o processo. “Se calhar, não sei, se calhar sou eu que tenho medo que caia e vou ajudar no banho. Dou-lhe a esponja e espuma e ele esfrega-se.” Todos os dias, saem de casa de braço dado e caminham devagarinho. Estando bom tempo, Irene puxa por ele. “A gente senta-se num muro e está ali à conversa.” Não falam sobre a doença. “O que eu lhe perguntar, ele responde. Se eu não falar, ele não fala. É capaz de andar um dia todo sem falar.”

Continuando às voltas com o requerimento do estatuto, a filha temeu que Irene não conseguisse a declaração médica que atesta a sua capacidades físicas e psicológicas para cuidar do marido. O cancro deixou-a com uma incapacidade de 60%. É um problema de muitos idosos que cuidam de outros idosos. Mas a médica de família conhece a realidade, sabe que Irene cuida do marido. Passou o atestado.

Faltava uma manifestação de consentimento do pai. Falou com ele. Passou-lhe o papel para as mãos. Explicou-lhe o que era aquilo. “Ele assinou.” Pelo sim, pelo não, pediu uma junta médica de avaliação de incapacidade. Foram suspensas no dia 18 de Março, mas o Governo criou um regime excepcional em Julho que deverá funcionar até ao final do ano. Para já, a ausência desse documento não trava o processo de obtenção do estatuto.

Ao submeter o requerimento online, já no princípio de Outubro, uma última peripécia. O sistema emitiu uma mensagem de erro: entende que o pai não faz parte do agregado da mãe, embora estejam casados há 37 anos. Quando telefonou, informaram-lhe que tinha de tratar daquilo ao balcão. Dias antes do atendimentos presencial, recebeu um telefonema da Segurança Social. Queriam saber o motivo da visita. Mal a ouviram, disseram-lhe que remetesse os papéis por e-mail. “Mandei tudo. Continuo à espera. Vou ter de enviar um email de novo a lembrar. É das coisas mais inglórias que já fiz. Não vou desistir. Se não se fizer os pedidos, parece que era um bando de malucos que andava a pedir o estatuto do cuidador informal.”

Provedora de Justiça pede prorrogação da validade de atestados médicos multiusos

Por Lusa, in Público

A Provedoria de Justiça diz ter recebido várias queixas por parte dos cidadãos titulares de atestados médicos de incapacidade multiúsos cuja validade expirou em Dezembro.

Provedora de Justiça, Maria Lúcia Amaral, voltou a alertar para a urgência de prorrogar a validade dos atestados médicos de incapacidade multiúsos caducados devido a atrasos na realização de juntas médicas.

Num ofício dirigido ao Secretário de Estado da Saúde, a Provedoria de Justiça diz ter recebido várias queixas por parte dos cidadãos titulares de atestados médicos de incapacidade multiúsos (AMIM) cuja validade expirou em 31 de Dezembro de 2022, apesar de estes terem atempadamente requerido a reapreciação da sua situação.

Em causa está a morosidade na marcação de juntas médicas, abrangendo pessoas que "tinham pedido a renovação dos seus atestados em 2019 e em 2020 e que, tendo visto a respectiva validade prorrogada por norma governamental até 31 de Dezembro de 2022, se encontram agora com títulos caducados".

Face à situação, a Provedoria de Justiça considera urgente garantir a protecção imediata das pessoas que, por razões que lhes não são imputáveis, deixaram de poder continuar a usufruir de direitos conferidos na lei, inclusive atribuição de prestações sociais.

Por isso, a Provedoria de Justiça pede ao Governo que "seja excepcionalmente estabelecido, pela via adequada, um efeito de sobrevigência dos AMIM até à data emitidos, desde que tenham sido objecto, dentro do seu período de validade, de pedido de reapreciação, ainda não satisfeito".

A legislação prevê que as juntas de médicas se realizem nos 60 dias após a entrega do requerimento.

Na origem dos atrasos esteve a necessidade de reforçar as equipas médicas, com médicos de saúde publica que compunham as juntas, para cuidar dos doentes com covid-19.

O AMIM é o documento que permite a uma pessoa com deficiência ter acesso a benefícios fiscais, protecção social e apoios a nível da saúde.

24.1.23

Subsídio de doença bateu máximos em 2022, subsídio de desemprego roçou os mínimos

Elisabete Miranda,  in Expresso

Subsídios de doença e de desemprego bateram recordes no ano passado, mas em sentido contrário: um bateu o máximo de apoios em mais de uma década, o outro roçou o mínimoCom os níveis de emprego a baterem máximos e o desemprego em mínimos, a Segurança Social fechou 2022 a pagar um número historicamente baixo de subsídios de desemprego. 

Em sentido inverso, o número de subsídios de doença disparou para valores sem precedentes em mais de uma década (mesmo excluindo todo o efeito covid).

Comecemos pelo subsídio de doença. Ao longo do ano passado, a Segurança Social pagou em média, mensalmente, 292.708 prestações por doença. Estão aqui incluídos o subsídio de doença propriamente dito, o subsídio de doença profissional e todos os apoios covid, relacionados com baixas ou isolamentos profiláticos. Tudo somado, e em surpresas, o número de apoios por doença não tem precedentes: é o valor mais alto da série disponibilizada pela Segurança Social.

Contudo, olhando só para o subsídio de doença propriamente dito, excluindo todas as outras prestações sociais por doença, incluindo as associadas por covid, 2022 continua a ser um ano recorde.
Subsídio de doença bate máximos, total de prestações por doença também

De acordo com as estatísticas da Segurança Social, no ano passado, foram processados 152.873 subsídios de doença (média mensal). Este valor cresceu 10,6% face a 2021 e também este valor não tem paralelo desde pelo menos 2010.

Um indicador que se mantém estável é o da distribuição do subsídio de doença por género. Em 2022, como nos anos anteriores, as mulheres dominaram os pedidos de baixa, representando em torno de 60% dos subsídios.

Mulheres concentram 60% das baixas por doença

DESEMPREGO EM MÍNIMOS

Olhemos agora para o subsídio de desemprego. De acordo com as estatísticas da Segurança Social, no ano passado, foram atribuídas uma média de 181.426 subsídios de desemprego por mês. Olhando para a série histórica disponibilizada pelo Ministério do Trabalho, é o segundo valor mais baixo desde pelo menos 2006.

Subsídio de desemprego roça mínimos

O ano 2019 disputa o pódio com 2022, mas no ano passado ainda esteve em vigor uma medida covid que estendia por mais seis meses o tempo de atribuição da prestação social. Se excluirmos esta “Prorrogação da Concessão do Subsídio de Desemprego”, então, 2022 foi mesmo o ano em que menos subsídios de desemprego foram pagos em mais de década e meia.

Apoio extraordinário pesa em 2022

Os desempregados receberam, em média, 551,5 euros por mês. O valor vem subindo progressivamente nos últimos anos mas, ainda assim, é baixo, traduzindo o perfil dos desempregados, o baixo nível de salários declarados e as regras de apuramento da prestação social.

Subsídio de desemprego ronda os 551,5 euros

O ano passado deverá ter fechado com menos de 6% da população ativa desempregada, e, apesar da esperada desaceleração do crescimento este ano, o Governo estima que o mercado de trabalho não se ressinta. A confirmarem-se as previsões do Governo, Banco de Portugal e Conselho de Finanças Públicas, este ano, a taxa de desemprego rondará um intervalo entre 5,3% e 5,8%.

Já o valor médio do subsídio de desemprego deverá continuar a subir. O subsídio de desemprego representa, genericamente, 65% do salário declarado pelo trabalhador, mas tem um valor máximo e um mínimo. Devido à inflação e ao crescimento económico, estes patamares crescem 8,4% este ano e um desempregado não poderá receber menos de 552,34 euros nem mais que 1200,75 euros por mês (exceção feita aos subsídios sociais e extraordinários, que funcionam como complementos). A subida do salário mínimo também ditará uma subida dos valores médios.

22.2.22

Número de baixas por doença em janeiro foi o mais alto de sempre

in JN

O número de baixas por doença atingiu em janeiro um valor máximo de 513.178 devido aos subsídios associados à evolução da pandemia de covid-19, segundo as estatísticas mensais da Segurança Social.

De acordo com os dados publicados no site da Segurança Social, o número de beneficiários com processamento de prestações de doença atingiu em janeiro o valor mais alto de sempre, tendo em conta os dados disponíveis (desde janeiro de 2010).

"Devido à evolução da pandemia, registou-se um acréscimo mensal de 330.563 beneficiários (+181,0%), na comparação homóloga, um aumento de 329.301 beneficiários (+179,1%)", pode ler-se na síntese elaborada pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

O número global de prestações integra o subsídio de doença, o subsídio de doença profissional, o subsídio de tuberculose, a concessão provisória de subsídio de doença, as baixas por contágio e o subsídio por isolamento profilático (do próprio) pelo coronavírus.

A grande maioria das baixas processadas em janeiro esteve relacionada com a covid-19 que, tal como a Lusa avançou no final de janeiro, tinham abrangido 187 mil beneficiários, enquanto os subsídios por isolamento profilático chegaram a quase 170 mil pessoas.

Por sua vez, os dados de hoje mostram que o número de beneficiários de subsídio de doença totalizou 178.145 em janeiro, dos quais 41,5% do sexo masculino e 58,5% do sexo feminino, "apresentando-se este último em superioridade em todos os grupos etários considerados", lê-se na síntese.

O grupo etário entre os 50 e os 59 anos integrava a maior proporção de indivíduos (29,5%), seguido pelo grupo de indivíduos com idades entre os 40 e os 49 anos, que representava 25,8% do universo total analisado.

O valor médio do subsídio pago foi de 352,5 euros por mês.

Também as prestações por assistência a descendentes atingiram o valor mais alto de sempre em janeiro, abrangendo 56.834 pessoas.

"No mês em análise, verificou-se um crescimento significativo do número de beneficiários, parcialmente explicado pelo aumento do número de pedidos do subsídio por isolamento profilático associado à covid-19 (o descendente)", refere o GEP.

Face ao mês anterior, registou-se um aumento de 15.695 beneficiários das prestações por assistência a filhos (+38,2%) e, face ao período homólogo, uma subida de 38.189 beneficiários.

A Segurança Social tinha já registado um aumento significativo destes subsídios em dezembro, coincidindo com os picos do número de infetados com covid-19 devido à nova variante ómicron.

12.4.21

O F e os 3 D da pobreza: família, desemprego, divórcio e doença

Céu Neves, in DN

"A pobreza em Portugal - trajectos e quotidianos" identifica quatro perfis de pobres no país: reformados, precários, desempregados e trabalhadores. Recorrem à entrevista aberta para explicar os números.

Os dados estatísticos indicam que 16,2 % dos residentes em Portugal estavam em risco de pobreza em 2019 - 1,6 milhões de pessoas. Baixou comparativamente a 2018, ano que serve de base ao estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos "A pobreza em Portugal - trajetórias e quotidianos", que tenta perceber a realidade por detrás das estatísticas. Foram definidos quatro perfis de pobres e entrevistadas pessoas de cada um deles, de norte a sul do país. A primeira conclusão é que a pobreza se herda e é agravada pelo divórcio, o desemprego e a doença. E não se pode excluir o contexto socioeconómico.

A definição dos perfis tem por base o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, do Instituto Nacional de Estatística (INE), com dados de 2018, quando a taxa de pobreza no país era 17,2%. Entretanto, saiu o relatório de 2020, com números de 2019, que indicam uma diminuição de um ponto percentual na taxa global. Mas aumentou o risco de pobreza entre os reformados e entre os menores de 18 anos. É considerado pobre quem tenha um rendimento líquido inferior a 6480 euros anuais (540 euros por mês).

Aquele valor corresponde a 60% do rendimento mediano nesse ano, dividido pelos membros do agregado familiar, uma fórmula do INE e Eurostat (estatísticas da UE). Segundo o coordenador da equipa de investigação, Fernando Diogo, uma das limitações é a taxa de pobreza depender dos salários praticados nesse ano. "Em situações como a que estamos a viver, em que o rendimento está a baixar, a taxa de pobreza baixa não por diminuir o número de pobres mas porque baixa o rendimento mediano", explica. Além disso, entende que subestima a pobreza das mulheres e das crianças. O grupo dos menores de 18 anos é o mais vulnerável. "Têm uma taxa acima da global. E, quando desdobramos os dados por tipo de família, percebemos que as famílias com crianças têm taxas de pobreza mais elevadas, em particular as monoparentais e com três ou mais crianças."

Em 2018, corriam risco de pobreza 47,5% dos desempregados, 15,2% dos reformados, 10,8 % dos empregados e 18,5 % dos menores de 18 anos. O estudo da fundação concentrou-se nos pobres com 18 e mais anos, concluindo que 32,9% são trabalhadores, 27,5% reformados, 26,6 % precários e 13 % desempregados. Realizaram, posteriormente, 87 entrevistas aprofundadas e quatro exploratórias (para testar o modelo do inquérito), trabalho de campo concluído em dezembro de 2019. Não se adivinhava a pandemia de covid-19, o que contribui para um maior número de pobres e uma maior intensidade dos efeitos da pobreza, mas não altera a base da condição de pobre, segundo o coordenador do estudo. "Esses impactos reforçam as fraturas existentes na sociedade portuguesa" [ver entrevista ao lado].
Trabalhadores, 32,9%

"Fui trabalhar numa fábrica de calçado, 11 anos, fazia descontos e tudo. Fui à tropa e, quando vim, pedi um aumento. Nunca se chegaram à frente. Saí, mas nem meti a carta de despedimento, perdi os direitos. Vim para esta empresa, onde estou há 19 anos."
Homem, 40 anos, Guimarães

Os empregados representam um terço dos pobres e o fator principal é a estrutura familiar, uma vez que o rendimento de um assalariado é dividido pelos elementos do agregado. Seguem-se os "recursos que influenciam a participação no mercado de trabalho, como a educação, a experiência profissional e a ocupação; bem como as restrições ou os constrangimentos" que impedem uma atividade como a prestação de cuidados a crianças, idosos ou outros dependentes.

O maior problema são os baixos salários. "Refletem, por um lado, as características estruturais do mercado de trabalho em Portugal e, por outro lado, os efeitos de trajetória biográfica associados à pobreza na infância e na transição para a vida adulta", diz o estudo. Acrescem os problemas de saúde dos pais ou dos próprios enquanto crianças, a instabilidade laboral e a perda de membros significativos do agregado familiar, o que os obrigou a ingressar cedo no mundo de trabalho.
Reformados, 27, 5 %

"Quando saí da escola, fui tomar conta de dois meninos para uma senhora que era rica e tinha um comércio . Pediu à minha mãe se me deixava ir para lá . Eu tinha 13 anos."
Mulher, 74 anos, Montalegre

Este grupo, dos que revelaram terem sido sempre pobres, "coloca-se no centro do debate sobre a pobreza dos mais idosos a questão dos salários na longa duração", sublinham os autores. A pensão está condicionado à vida contributiva. Começaram a trabalhar em criança, com 12 e até menos anos, devido às dificuldades financeiras da família. O abandono escolar era "permitido e mesmo incentivado, de modo que as crianças pudessem contribuir ativamente para a economia doméstica, minimizando a privação material, desde logo alimentar". Estas pessoas têm décadas de trabalho, mas carreiras contributivas tardias e curtas, nalguns casos inexistentes. Rendimento que não lhes permite fazer face às necessidades. "As despesas com medicamentos e outros encargos provocados pelas doenças crónicas que os atingem, muitas vezes causa de abandono precoce do trabalho, concorrem para agravar as dificuldades decorrentes de uma pensão de pequeno valor, sobretudo quando ela é de invalidez".
Precários, 26,6%

"Nunca trabalhei! Trabalhei, fazia biscates! Nunca trabalhei com contrato ou com algo do género. Nunca."
Homem, 40 anos, Almada

No perfil dos precários, uma "parte dos entrevistados é mais escolarizada e transita mais tarde para o mundo do trabalho, mas entre os mais velhos continua a evidenciar-se o abandono escolar em idades precoces". Continua o estudo: "As inserções profissionais em idades mais tardias são realizadas sob o signo destas adversidades, na medida em que alguns assumem terem tido necessidade de começar a trabalhar depois de concluída a escolaridade obrigatória para contribuir para o orçamento familiar e custear projetos pessoais de prolongamento da escolaridade."

Outro dos fatores que referiram é a dissolução das famílias de procriação, na sequência de processos de divórcio. Em relação ao futuro, muitos parecem acomodar-se com a situação e a mudar seria a casa e o emprego. A emigração surge "como uma estratégia bem definida para lidar com a precariedade laboral e a situação de vulnerabilidade em que se encontram, claramente referenciada em algumas entrevistas em resultado de menções espontâneas dos entrevistados e sendo motivada pela procura de melhores oportunidades de vida para si e familiares".
Desempregados, 13%

"Estou com uma doença mental qualquer e cada vez mais pele e osso. A ganhar 142 euros, não pago renda porque é a minha tia que paga, mas pago luz, água, gás e tenho de comer."
Mulher, 55 anos, Porto

Este grupo integra indivíduos desempregados e inativos e que tiveram amplas experiências de trabalho ao longo da vida, mas marcados pela precariedade. Destacam-se "a instabilidade contratual, a alta rotatividade de emprego/desemprego, a informalidade das relações de trabalho, a ausência de uma carreira contributiva que assegure a reforma", o que tem impacto na ausência de direitos de proteção na doença e no desemprego".

A maior parte das situações de desemprego descritas remontam à crise de 2008- 2014, o que "sugere que não chegaram a recuperar do ambiente económico e social adverso que nessa altura se instalou, em especial para os não qualificados da construção civil".

A doença e a morte de membros significativos das famílias revela-se "um aspeto importante nas trajetórias de vida, com impacto na harmonia familiar e nos montantes de rendimentos disponíveis, pois alguns depoimentos enfatizam como a morte de um provedor teve impacto nas dinâmicas de entrada na pobreza, em particular quando a intensidade laboral do agregado familiar é muito diminuta".


19.3.19

O que preocupa mais os portugueses? Doenças, deficiência, despesas e desemprego

in RR

É o resultado do inquérito "Riscos que Importam" da OCDE.

Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) revela que os portugueses vivem preocupados com a possibilidade de ficar doentes ou com uma deficiência, pagar as despesas ou perder o emprego, e preferiam pagar mais impostos para ter melhores pensões e cuidados de saúde.

De acordo com os resultados do inquérito "Riscos que Importam", na tradução para português, que inclui as preocupações de 22 mil pessoas, entre os 18 e os 70 anos de 21 países, cerca de metade dos inquiridos apontou "ficar doente ou com uma deficiência" como uma das três principais preocupações sociais ou económicas que os afete a eles ou à família próxima no próximo ano ou dois.
Portugal não é exceção e 63% dos portugueses que responderam a este inquérito apontaram "ficar doente ou com uma deficiência" como a principal preocupação no futuro próximo, sendo um dos três países onde esta preocupação é mais elevada, abaixo da Polónia (64%) e da Finlândia (65%).

A segunda maior preocupação é conseguir fazer face a todas as despesas mensais (44,5%), seguida do receio de perder o emprego (39%), às quais se seguem a preocupação com o crime ou a violência (30,3%), o acesso a cuidados de longa duração (30,15%), habitação (25%), acesso a cuidados infantis ou educação.

Há ainda quase 5% de portugueses que diz não ter qualquer uma destas preocupações.

Os cuidados de saúde de longa duração são aqueles onde as pessoas, em geral, estão mais insatisfeitas e, em média, 50% do total de inquiridos acha que não tem acesso a "serviços públicos acessíveis e de boa qualidade na área dos cuidados a longo prazo para os mais idosos" e 45% sente o mesmo em relação às pessoas com deficiência.

Sensação de injustiça generalizada
O inquérito mostrou uma generalizada sensação de injustiça no acesso a benefícios sociais e que os governos não escutam as pessoas, sustentada na crença de que os governos não trabalham para o cidadão comum.
"Em países como França, Grécia, Israel, Lituânia, Portugal e Eslovénia, a percentagem destas pessoas atinge os 70% ou mais. Estes sentimentos estão espalhados por quase todos os grupos sociais e não estão limitados apenas aqueles que se sentem 'postos de parte'", lê-se no relatório.

Aliás, 71% dos portugueses apontam a injustiça como a principal causa para a pobreza e 75% responderam que sim quando questionados sobre se concordavam ou não em aumentar os impostos sobre os mais ricos para ajudar os mais pobres.

De uma maneira geral, as pessoas querem mais investimento nas pensões (54%) e nos cuidados de saúde (48%) de modo a sentirem-se economicamente mais seguros e à sua família, com as pensões a serem a escolha popular em 14 dos 21 países e a saúde noutros cinco, nos quais se inclui Portugal.

Quase metade dos portugueses (49%) dizem mesmo que estão dispostos a pagar mais impostos para financiar melhores pensões e cuidados de saúde.
A OCDE diz que são precisos "maiores esforços" para perceber a razão destas perceções e por que razão tantas pessoas acham que as políticas sociais não vão ao encontro das suas necessidades.

5.11.18

Iémen é “um inferno na terra” para as crianças, diz UNICEF

in o Observador

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) disse que o Iémen se tornou "um inferno na terra" para as crianças e exortou as partes em conflito a cessarem as hostilidades.

“O Iémen é hoje um inferno na terra, não para 50% ou 60% das crianças, mas para cada menino e menina do Iémen”, declarou o diretor da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África, Geert Cappelaere, numa conferência de imprensa em Amã este domingo. “Os números, na verdade, não dizem muito, mas são importantes porque nos mostram até que ponto a situação se tornou desastrosa”, acrescentou.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância considerou assim que o Iémen se tornou “um inferno na terra” para as crianças, atingidas pela fome, e desafiou as partes envolvidas no conflito a cessarem as hostilidades.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, também apelou na sexta-feira ao fim da “violência” para evitar que o país caia num “precipício”.

A guerra no Iémen opõe as forças pró-governamentais e uma coligação liderada pela Arábia Saudita aos rebeldes Huti, apoiados pelo Irão, que em 2014 e 2015 tomaram vastas áreas do país, incluindo a capital, Sanaa.
O conflito já provocou a morte de quase 10 mil pessoas, a maioria civis, causando a pior crise humanitária do mundo. Além dos casos de fome, a população sofre de doenças como a cólera.
“A cada 10 minutos, uma criança morre por causa de doenças que podem ser prevenidas”, adiantou Cappelaere.

O mesmo responsável disse à agência noticiosa AFP na quinta-feira que 1,8 milhões de crianças com menos de cinco anos sofrem de “desnutrição aguda”.

O conflito exacerbou “uma situação que já era má devido a anos de subdesenvolvimento” neste país pobre da região, referiu Cappelaere.

“Apelamos a todas as partes para que se encontrem no final deste mês sob os auspícios do enviado especial da ONU para um acordo de cessar-fogo”, declarou hoje o responsável da UNICEF.

Cappelaere sublinhou que a situação é particularmente preocupante em Hodeida, uma cidade portuária controlada pelos rebeldes no oeste do país, que as forças pró-governamentais estão a tentar recuperar.
“O porto de Hodeida é um ponto vital para 70 a 80% da população iemenita (…), porque é apenas através de Hodeida que são feitas as entregas comerciais e humanitárias que nos permitem fornecer ajuda ao norte do país”, explicou.

“Com o assalto de Hodeida, não nos preocupa apenas a vida de centenas de milhares de crianças (na região), mas também o impacto que isso terá sobre as crianças no norte do país”, acrescentou.

25.2.16

Desigualdades sociais fazem aumentar risco de fractura da anca

Ana Gerschenfeld, in Público on-line

Entre 2000 e 2010, a maioria dos países ocidentais viu diminuir o número de fracturas do colo do fémur nas mulheres idosas – um grave problema de saúde pública que pode ser evitado. Mas pelo menos em Portugal, esta melhoria não terá beneficiado por igual todas as classes sociais.

As desigualdades sociais, exacerbadas pela crise económica mundial cujos efeitos começaram a fazer-se sentir já em 2007, tiveram um efeito nefasto imediato – mas só agora posto em evidência – na saúde óssea das mulheres idosas portuguesas das classes menos favorecidas, concluem três investigadoras portuguesas num estudo publicado na revista Journal of Epidemiology and Community Health.

Pode parecer um truísmo afirmar que as pessoas mais pobres são mais vulneráveis perante a doença. As autoras do estudo – Fátima Pina, Carla Oliveira e Sandra Alves, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S) da Universidade do Porto – sublinham aliás esta realidade: “É sabido que os factores sócio-económicos determinam disparidades nos comportamentos relacionados com a saúde e na incidência de doenças e a mortalidade”, escrevem no seu artigo.

Contudo, no início da última década, diversos estudos revelaram pelo menos uma excepção a esta “regra”: na sequência de uma iniciativa internacional, na maioria dos países ocidentais, incluindo Portugal, o número de fracturas do colo do fémur (vulgo fractura da anca) nas mulheres idosas começou a estabilizar ou diminuir em todas as classes sociais.

As fracturas da anca devem-se ao alastramento da osteoporose, decorrente do substancial aumento da esperança de vida nos países mais desenvolvidos ao longo do século passado. A osteoporose surge com a idade e, como o seu nome indica, torna os ossos porosos, “rendilhados” – e portanto, mais propensos à quebra. E essa fragilidade óssea faz com que mesmo um traumatismo normalmente sem gravidade possa ter consequências desastrosas.

“As fracturas do fémur são uma consequência da osteoporose e a grande maioria é causada por impactos de pequena ou média energia, como por exemplo uma queda da cama, da cadeira, quedas por tropeções”, explicou ao PÚBLICO Fátima Pina, que liderou o estudo e é especialista da epidemiologia das doenças osteoarticulares. “A osteoporose é mais frequente nas mulheres do que nos homens porque as mulheres têm uma grande perda de massa óssea após a menopausa. Até aos 50-55 anos de idade, o risco de osteoporose é semelhante entre homens e mulheres, mas após a menopausa o risco aumenta muito entre as mulheres. Por terem mais osteoporose e também por terem maior propensão às quedas, as mulheres têm um risco de fracturas aproximadamente três vezes maior do que os homens.”

Ora, não só os custos financeiros da hospitalização e dos procedimentos cirúrgicos associados são enormes, como estas fracturas causam, primeiro uma perda de autonomia e de qualidade de vida e depois a uma mortalidade muito elevada, segundo Fátima Pina: 35% dos homens e 20% das mulheres morrem no ano que se segue a uma fractura do colo do fémur.

Mas o mais irónico disto tudo é que grande parte das fracturas da anca poderia ser prevenida: “As fracturas da anca [são] das causas mais evitáveis de incapacidade nos idosos”, lê-se ainda no artigo agora publicado.

Seja como for, na viragem do milénio, as projecções da evolução desta autêntica epidemia eram tão catastróficas que foi lançada a inciativa Década do Osso para a travar, explicou-nos ainda Fátima Pina. Entre outras acções, começou-se a administrar medicamentos contra a osteoporose e a sensibilizar a população idosa para a necessidade de aprender a evitar as quedas.

E de facto, os resultados não se fizeram esperar. Logo no início dos anos 2000, verificou-se um decréscimo das fracturas da anca na maioria dos mais de 60 países ocidentais que, como Portugal, tinham aderido à iniciativa. Aliás, Fátima Pina e colegas mostraram, já em 2013, num artigo publicado na revista Bone, que essa diminuição estava em parte associada ao aumento da venda de medicamentos contra a osteoporose.

Diferenças geográficas
Entretanto, em 2008, a equipa da investigadora também tinha descoberto que, em Portugal, entre 2000 e 2002 – ou seja, antes da melhoria associada ao recurso à medicação, que neste país começou em 2003 –, existia um padrão geográfico na incidência das fracturas da anca. Uma “desigualdade” flagrante que fazia com que certas regiões do país fossem muito mais vulneráveis do que outras à osteoporose. “Portugal até tem um baixo risco nesta matéria quando comparado com certos países do Norte”, disse-nos Fátima Pina, mas em certas regiões de Portugal, como o Algarve ou Trás-os-Montes, o risco revelava-se altíssimo. “E nós queríamos saber a origem dessas diferenças geográficas”, acrescenta. Tratar-se-ia de factores ambientais, de factores sociais, de factores genéticos? Estariam as estatísticas globais que mostravam, desde 2003, uma diminuição das fracturas da anca a mascarar situações desiguais conforme o local de residência das pessoas? As três autoras do actual estudo decidiram portanto “dissecar” o fenómeno em termos de classes sócio-económicas.

Para realizar o estudo, as investigadoras analisaram os casos de 96.905 pessoas com mais de 50 anos (77% de mulheres) constantes do Registo Nacional de Altas Hospitalares e que foram hospitalizadas, entre 2000 e 2010, devido a fracturas da anca causadas por impactos fracos ou moderados. E desta vez, tiveram em conta o local de residência das pessoas, à escala dos municípios de Portugal continental, distribuindo-os por três categorias: pobres, médios e ricos. As disparidades geográficas do impacto da iniciativa da Década do Osso surgiram logo.

“A vantagem do nosso estudo é que, ao desagregarmos por grupos sócio-económicos, percebemos padrões que ficam ‘escondidos’ quando se analisa a totalidade dos dados”, frisa Fátima Pina. “Por exemplo, já era sabido que as taxas de incidência de fracturas [da anca] apresentam uma tendência de decréscimo em vários países e em Portugal também se vinha a observar esse padrão, mas não se sabia que esse decréscimo não ocorre em todas as regiões.”

“Nós mostrámos [agora] que existem desigualdades acentuadas: quando analisamos [a evolução desta incidência nas várias] faixas etárias de acordo com o grupo sócio-económico, nas mulheres de áreas mais pobres não existe tendência de decréscimo e, pelo contrário, a partir de 2007, a tendência é de crescimento [do número de fracturas da anca].” Segundo Fátima Pina, este tipo de desigualdades também poderá vir a revelar-se noutros países se forem realizados estudos deste tipo, o que ainda não aconteceu.

O resultado talvez mais marcante desta análise por área de residência verificou-se entre as mulheres com 65 a 79 anos: nas regiões “ricas”, confirmaram-se os resultados obtidos a nível nacional. E mais: houve uma diminuição contínua das fracturas da anca, de 1,7% por ano, ao longo de todo o período 2000-2010, explicam as autoras. Mas nas regiões “médias”, verificou-se “uma tendência abrupta para diminuírem (4,7% por ano)” durante um curto período (2004-2007), “seguida de uma tendência para aumentarem (3,4% por ano)”, lê-se no artigo. E nas regiões “pobres”, não houve qualquer diminuição da incidência das fracturas da anca e “só foi observada uma tendência para aumentarem entre 2006 e 2010, com um incremento de 3,3% por ano”, escrevem ainda as cientistas.

“Não podemos afirmar com certeza que foi o abandono da medicação nos grupos mais pobres e mais velhos que fez com que estes grupos tivessem um aumento das fracturas do fémur, mas essa é uma hipótese válida, porque há uma mudança brusca na tendência nestes grupos", diz-nos Fátima Pina. “As taxas de incidência vinham a diminuir e, de repente, passaram a aumentar, por volta do ano 2007.”

E não foi nesse ano por acaso. “O ano 2007 marcou o início da crise económica mundial, que teve um impacto forte no país e na vida das pessoas”, argumenta a cientista, lembrando que foi em 2007 que começou a haver algumas reduções nos rendimentos em Portugal, nomeadamente “ligeiros cortes nas pensões das pessoas idosas”. Ora, como a prevenção da osteoporose não é vista como uma prioridade face a doenças como a hipertensão ou a diabetes, os medicamentos anti-osteoporose terão sido dos primeiros a ser abandonados pelas mulheres de menores recursos financeiros.

Mas por que é que o efeito da interrupção da medicação foi tão imediato? Não deveria ter demorado mais tempo a verificar-se um aumento visível das fracturas da anca? Não, responde-nos Fátima Pina, porque os medicamentos anti-osteoporose têm, justamente, efeitos imediatos – e basta uma interrupção do tratamento de três meses para cancelar os seus benefícios.

Contudo, a austeridade e a troika só chegaram a Portugal anos mais tarde. Será que a situação piorou ainda mais nitidamente desde então? A equipa está agora a analisar dados que vão até 2015, responde Fátima Pina. No entanto, ela acredita desde já que as disparidades terão piorado e se terão estendido a outros grupos populacionais. Os novos resultados deverão ser conhecidos daqui a uns meses.

Todavia, este estudo só responde parcialmente à questão da origem das diferenças regionais em termos de fracturas da anca evidenciado pelo estudo de 2008, que é o que motivou a equipa em primeiro lugar. “As desigualdades sócio-económicas explicam parte desse padrão geográfico, mas não explicam tudo” diz Fátima Pina, “e continuamos à procura de entender por que existem diferenças geográficas tão acentuadas em Portugal”.

Há de facto uma variável ambiental que poderá fornecer um substancial elemento de resposta, salienta: a composição da água. Não se trata da qualidade da água, mas sim da sua composição química natural, que, apesar de respeitar as normas de qualidade, varia conforme as regiões do país. “A composição química da água poderá explicar grande parte das diferenças geográficas”, diz Fátima Pina. “Alguns elementos da água estão associados ao risco de fracturas, porque ao longo da vida alguns minerais presentes na água e nos alimentos vão-se depositando nos ossos, tornando-os mais frágeis.”

A confirmar-se a relevância deste factor ambiental, poderá ser possível gerir melhor os esforços de combate à osteoporose – e as suas nefastas consequências.

12.5.14

Padre Jardim Moreira teme aumento do abandono de doentes

in RR

Alerta para o fenómeno surge após um caso no Porto. Rosa, uma doente de cancro, que teve alta do Hospital de Joaquim Urbano, acabou por ser deixada, por sua vontade, junto à Igreja do Carvalhido.

Estão a aumentar os casos em que as famílias são obrigadas a abandonar doentes por não terem condições para os ter em casa. A confirmação é do padre Jardim Moreira, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, já depois de o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, ter alertado para o fenómeno, no seguimento de um caso naquela cidade que foi divulgado na quarta-feira.

Um doente de cancro, que teve alta do Hospital de Joaquim Urbano, acabou, esta segunda-feira, por ser deixada, por sua vontade, junto à Igreja do Carvalhido, zona onde o marido costuma arrumar carros. Segundo o “Público”, Rosa aguentou-se na escadaria da igreja cerca de cinco horas até ser transportada pela polícia para um quarto numa pensão de Cedofeita, arranjado pela Segurança Social, a mesma instituição que cortara o Rendimento Social de Inserção (RSI) ao casal, deixando-o sem capacidade de pagar uma renda.

Para o Padre Jardim Moreira, estas são situações reveladoras da fragilidade extrema a que muitas famílias estão sujeitas. “Para não deixar o doente sozinho e sem condições de acompanhamento, acho que no hospital tem quem o acompanhe e cuide da sua saúde. É quase um gesto de desespero e de impotência com que as pessoas chegam aí, porque é a luta entre o amor e o abandono em que se sentem impelidos diante de situações concretas.”

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza teme que esses casos possam aumentar ainda mais no futuro.

Rui Moreira disse que muitos responsáveis de unidades hospitalares lhe têm relatado casos de famílias cuja localização é impossível de obter, na altura em que os doentes recebem alta.

7.5.14

O inferno de uma doente com cancro deixada na escadaria de uma igreja

Abel Coentrão, in Público on-line

Uma mulher debilitada, com cancro, teve alta do Hospital Joaquim Urbano, no Porto, mesmo sem ter uma casa para onde ir. Passou uma tarde nas escadas de uma igreja, onde não viu o céu, até a Segurança Social lhe arranjar um quarto. O inferno em que vive está agora escondido numa pensão.

Foi longa a espera de Rosa. Doente de cancro, com graves problemas de mobilidade, esta mulher de 46 anos teve nesta segunda-feira alta do Hospital Joaquim Urbano, onde lhe trataram mais uma infecção respiratória e a deixaram sair, mesmo sabendo que, naquele dia, ela não tinha uma casa para onde ir. Metida sozinha num táxi, foi parar, desamparada, às escadas da igreja do Carvalhido, na rua onde o marido arruma carros. Aguentou-se ali, deitada, umas cinco horas, até ser transportada pela polícia para um quarto numa pensão de Cedofeita, arranjado pela mesma Segurança Social que lhes cortara o rendimento social de inserção, deixando-os sem capacidade de pagar uma renda.

Felizmente está sol, reparava Paulo Natividade. É o amigo. O amigo que Armindo tem tido desde que a droga, o desemprego e a espiral descendente, contra a qual vai lutando, fizeram dele o arrumador de carros “oficial” da rua da Prelada. E o amigo que não calou a indignação pela forma como naquela segunda-feira, o Hospital Joaquim Urbano deu alta a uma mulher que não tinha, sabiam disso, para onde ir. Armindo tinha-os avisado de manhã. “Fiquei sem casa. Aguentem-na aí até eu resolver o problema” pediu ao telefone a um médico, à frente de Paulo. Às 14h, quando lá chegou, já ela não estava. Saíra num táxi. Pago, por “pena dela”, pelo director de serviço de Pneumologia, explicou ao PÚBLICO o assessor de imprensa do Centro Hospitalar do Porto.

“Ela queria sair. O médico avisou-a do problema da casa, mas a senhora disse que tinha familiares no Carvalhido e deixaram-na sair”, insistiu a mesma fonte, garantindo que, neste caso, não poderiam forçar a intervenção da Segurança Social. Não era a primeira vez que Rosa entrava e saía daquele hospital. Soma outros problemas de saúde ao cancro que, segundo a família, lhe deixa pouca esperança de vida, e “não é uma doente fácil”. Mas Armindo não entende porque cederam, e não esperaram que chegasse, tendo em conta a sua condição física débil e as dores que a obrigam a tomar morfina, entre vários outros medicamentos cujo custo não conseguem suportar. Foi deixada por um taxista nas escadas da igreja do Carvalhido às “portas do céu”, como se lê numa parede, e foi um irmão dele, Joaquim, que a descobriu assim, desamparada.

Armindo estava ainda no hospital, quando o irmão lhe telefonou. Pediu ajuda ao seu outro “irmão” Paulo Natividade, que trabalha naquela mesma rua e que acabou por passar a tarde ali, com eles. Pessoas foram chegando, incluindo o pároco responsável pela igreja cuja entrada ostenta uma imagem de Cristo e um mapa da Europa, mostrando a distância entre o Porto e Jerusalém, a Terra Prometida. Segundo o amigo, o sacerdote disse-lhes que procurassem apoio na Junta de Freguesia e, perante os apelos de quem ali estava, pediu ao sacristão que lhes arranjasse um cobertor. Depois, celebrou-se missa, e os fiéis foram saindo, indiferentes, a maioria deles, ao que ali se passava. Deixando ainda mais indignadas duas funcionárias do lar de Monte dos Burgos, Maria Nogueira e Ana Sousa que, ainda de farda, amparando Rosa, quase davam àquele escadório um ar de hospital em hora de visitas. Houvesse conforto…

Ainda assim, alguns paroquianos aproximaram-se, perguntaram, ajudaram. Um euro, dois. Um paliativo para aquela família, com um filho dependente, de 16 anos, que perdera o rendimento social de inserção, no valor de 408 euros. O rapaz deixara a escola, “para cuidar da mãe”, mas Armindo não sabia explicar se fora esse o motivo do corte. Conhecia, isso sim, as consequências dele. O senhorio do “apartamento” onde dormiam, na Rua Álvares Cabral, fechou-lhes a porta da casa. Trabalha com dinheiro à vista, sem recibos. “Só me deixa entrar se eu lhe pagar 400 euros”, queixava-se o antigo motorista que, ao mesmo tempo que luta para se afastar da droga que lhe “estragou a vida”, convivia, naquela casa partilhada por outros inquilinos, “com um “ambiente pesado, tentador” para um ex-toxicodependente.

Os haveres deles estavam, ainda ontem, todos lá dentro. Nas escadas, na segunda-feira, Rosa vestia a roupa com que saíra do hospital e aguentava, mal, a espera. Dois agentes da polícia, chamados ao local, já tinham há muito pedido ajuda, ligando para o número de emergência social, quando, passavam das 19h, receberam a indicação de que havia para eles um quarto numa pensão, em Cedofeita. E foi deitada nos bancos traseiros do carro patrulha da PSP que esta mulher, a quem foi detectado há um ano um cancro no pulmão, foi levada. O cobertor que lhe arranjaram nas escadas da igreja foi útil para conseguirem levá-la, de novo escadas acima, até um segundo andar, onde esta terça-feira foi já visitada por uma assistente social. Que ficou de ver o que se passou com o processo do rendimento social de inserção e de procurar uma solução de habitação para esta família que, durante uma tarde, deixou, às portas do céu, um exemplo vivo de como a vida pode ser um inferno.

15.5.13

Desemprego prejudica «consideravelmente» a saúde

in TVI24

Investigador espanhol diz que as pessoas que rodeiam os desempregados também saem afetados

O desemprego prejudica «consideravelmente» a saúde das pessoas que o sofrem e também a das que as rodeiam, disse esta terça-feira o investigador Fernando Rodrigo, coordenador do relatório sobre saúde laboral em Espanha 2001-2010.

O relatório, o primeiro realizado em Espanha sobre saúde laboral segundo os seus autores, foi elaborado por especialistas de várias universidades espanholas e norte-americanas, assim como pelo Instituto Sindical do Trabalho, Ambiente e Saúde e pela Unión de Mutuas, cita a Efe.

As conclusões do relatório foram apresentadas hoje, na Universidade de Valência, informou a agência noticiosa espanhola EFE.

Fernando Rodrigo, da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona, considerou que «o desemprego em massa (...) é o principal problema de saúde pública» de Espanha, classificando de «tremendos» os efeitos da situação.

As pessoas sentem-se vulneráveis, registam consequências psicofísicas, aumentam os cuidados psiquiátricos, o consumo de substâncias psicotrópicas, de tabaco e de álcool, assim como os suicídios, explicou o investigador.

O estudo analisa a saúde laboral nos anos de maior crescimento económico e de emprego, e mostra os primeiros efeitos da crise e do aumento do desemprego.

Rodrigo declarou que as empresas e a administração pública, que «alegam dificuldades económicas», estão «a baixar a guarda» no seu esforço de prevenção de acidentes laborais, com o risco, na sua opinião, de «se perder o conquistado na primeira década do século XXI».

Javier Múrcia, da Unión de Mutuas, chamou a atenção para os riscos resultantes do stress, considerando que a situação leva «a baixas e a doenças comuns que prejudicam a saúde do trabalhador e a produtividade».