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23.2.23

Inteligência artificial no estudo do autismo aplicada em Coimbra

Por Lusa, in Diário das Beiras

A caracterização das perturbações do desenvolvimento do autismo através da análise de tarefas de imitação, com recurso a inteligência artificial, é o objetivo de um projeto, hoje anunciado, das universidades de Coimbra (UC) e de Oxford (Reino Unido).

Denominado Move4ASD, o estudo científico pretende “utilizar abordagens tecnológicas baseadas em metodologias de inteligência artificial para caracterizar o autismo através da análise de tarefas de imitação”, explicou João Ruivo Paulo, investigador do Instituto de Sistemas e Robótica (ISR) da UC, citado em nota de imprensa daquela instituição enviada à agência Lusa.

De acordo com o cientista do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (DEEC) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), o Move4ASD “estuda a hipótese de, nos indivíduos diagnosticados com autismo, o mecanismo de aprendizagem – designado neurónio-espelho – estar alterado, em relação a indivíduos saudáveis”.

“Assim, acredita-se que a aprendizagem de atividades motoras, como andar e dançar, e outras atividades de interação social, possam ser mal interpretadas por indivíduos diagnosticados com esta condição”, observou João Ruivo Paulo.

O Move4ASD vai analisar dados neurofisiológicos e comportamentais, captados através de eletroencefalografia e movimento tridimensional, dados que serão processados com recurso a inteligência artificial para descobrir distinções entre indivíduos saudáveis e participantes do grupo clínico.

“Através desta diferenciação entre grupos será possível identificar biomarcadores neurofisiológicos de padrões motores ainda pouco compreendidos”, frisou o coordenador do projeto.

A equipa científica – que inclui ainda Paulo Menezes e Gabriel Pires (ISR), Miguel Castelo Branco e Teresa Sousa, do Instituto de Imagem Biomédica e de Investigação Translacional de Coimbra (CIBIT) do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS) da Universidade de Coimbra, e Tingting Zhu, investigadora da Universidade de Oxford – acredita que com este estudo “será possível contribuir para um melhor conhecimento do autismo, no que diz respeito ao sistema neurónio-espelho”.

No futuro, esperam que possa vir a ser desenvolvida “uma ferramenta automática para identificar estes biomarcadores, que, por sua vez, pode conduzir a uma caracterização otimizada destas perturbações”.

A iniciativa envolve também uma colaboração com a Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo (APPDA), tendo vários jovens desta entidade realizado recentemente uma visita ao ISR, para conhecerem o trabalho ali desenvolvido e o projeto Move4ASD, interagir com robôs e praticar jogos interativos.

“Esta colaboração será essencial para se desenvolver conhecimento científico relevante no âmbito destas perturbações de desenvolvimento”, notou a equipa de investigadores.

11.7.22

Ser pobre determinou maior probabilidade de apanhar covid? Estudo português mostra que sim

Joana Ascensão, in Expresso

Após o primeiro confinamento geral, a incidência de covid foi 3,5 vezes maior para os mais pobres. Estudo da DGS, junto com o ISPUP e o INSA, prova que a situação socioeconómica das famílias determinou a probabilidade de infeção

O vírus não escolhe idades, geografias ou contas bancárias. Está correto. Mas apanhar o vírus, estar mais “a jeito” de se cruzar com ele, pode ser condicionado por estas determinantes.

E a prova disso é uma investigação publicada em fevereiro no Jornal Europeu de Saúde Pública que se debruçou nos primeiros meses de pandemia em Portugal para concluir que a situação socioeconómica dos portugueses influenciou a probabilidade de contraírem covid.19.

Por investigadores que trabalhavam para a Direção-Geral da Saúde (DGS), em conjunto com o Instituto de Saúde Pública da Universidade de Porto (ISPUP) e do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), foram estudados três períodos de tempo: um deles anterior ao primeiro Estado de Emergência, o do Estado de Emergência, que se fez coincidir com confinamento total da população, e um terceiro de pós-Estado de Emergência.

A dinâmica da infeção no país foi associada ao índice de privação socioeconómica, já caracterizado em cada freguesia portuguesa, para que os investigadores percebessem, em cada infetado, a sua condição socioeconómica, dividida em quatro grupos.

As conclusões fazem realçar um gradiente de incidência de infeção do grupo mais vulnerável para o menos vulnerável, com cerca do dobro do primeiro relativamente ao segundo para o período de confinamento total, que cresceu para 3,5 vezes mais no período de desconfinamento.

No Pré-Estado de emergência não se verificaram diferenças significativas porque quase todos os casos de covid-19 em Portugal foram importados.

João Magalhães, médico de saúde pública coordenador da investigação, acredita que na fase de emergência algumas condicionantes dos resultados prendem-se com a possibilidade de as pessoas com uma posição socioeconómica mais favorecida por norma terem mais oportunidade de fazerem teletrabalho, coisa que não estava ao alcance dos trabalhadores mais operacionais e dos trabalhadores essenciais.

No período de pós-confinamento geral, esse fator associado à comunicação de risco, “que nem sempre é fácil quando associada a uma menor literacia, terá agravado mais esta diferença”, admite.

“Isto é particularmente importante para nós, de cada vez que temos uma onda, para sabermos que medidas é que tomamos. Se não tivermos em conta os diferentes graus de literacia e de compreensão da população, estamos sempre a colocar muito mais em risco as mesmas pessoas”, declara ao Expresso.

8.2.22

Pobreza afeta mais de dois milhões de pessoas. Mais de um milhão são mulheres.

Ana E. de Freitas, in Voz da Planície

O Gabinete de Estudos da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) fez um levantamento sobre a “pobreza no feminino”. Os dados revelam que mais de dois milhões de pessoas estão em situação de pobreza e que mais de um milhão são mulheres residentes no País, 23,5%. No caso dos homens atinge 21,1%.

Este estudo foi realizado no âmbito da preparação da “Semana da Igualdade”, prevista realizar de 7 a 11 de março deste ano e que vai integrar o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora com o lema: “A igualdade tem de existir. Para o País evoluir”.

Neste documento pode ler-se que “conjugando o risco de pobreza com outros dois indicadores: privação material e social severa e intensidade laboral per-capita muito reduzida, verifica-se que, em 2021, eram perto de 2 milhões e 32 milhares as pessoas residentes em Portugal que se encontravam em situação de pobreza ou exclusão social mesmo após as transferências sociais, o que afeta 22,4% da população."

"As mulheres têm um risco de pobreza superior aos homens (19,2% face a 17,5%), em virtude dos seus salários serem muito baixos – ainda mais baixos que os dos homens -, assim como todas as prestações que deles dependem, e foi entre elas que a pobreza mais aumentou: em 125,6 milhares face a 2019, o que corresponde a 935,6 mil mulheres pobres", avança, também, este estudo.

"Sem a segurança social e as prestações que garante, o nível de pobreza seria ainda mais elevado, dando as pensões o maior contributo, o que permite que a percentagem de pobres se reduza quase a metade. Também as restantes prestações sociais: como o desemprego, a doença, a parentalidade, o abono de família, o RSI, entre outras são importantes nessa redução", deixa claro o documento..

"Ainda assim, a percentagem de pobres é muito elevada, sendo quase sempre superior no caso das mulheres. Em 2020, 45,3% das mulheres em Portugal eram pobres antes de qualquer transferência social, reduzindo-se para 23,6% após as transferências relativas a pensões e para 19,2% após todas as transferências sociais", remata o estudo.


5.11.21

Combate à pobreza energética junta universidades de três países

Isabel Pacheco, in RR

Os destinatários são os bairros sociais de Portugal e Espanha e França.

Um projeto europeu quer reduzir a 0% o consumo de energia das habitações sociais. É o objetivo da ARCAS - Arquitetura para o Clima, uma ferramenta digital que está a ser desenvolvida por cinco parceiros europeus, entre eles, a Universidade do Minho.

Os destinatários são os bairros sociais de Portugal e Espanha e França.

A ferramenta digital ARCAS - Arquitetura para o Clima quer ser, sobretudo, um instrumento de combate à “pobreza energética”, destaca Manuela Almeida, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho.

“Quando propomos soluções de reabilitação não temos em conta a situação económica das famílias. São as tais questões da pobreza energética”, explica a investigadora. Neste projeto as “questões particulares” são consideradas. “Caso contrário, seria mais do mesmo”, remata.

Ajudar a poupar mais energia e a melhorar a qualidade do ar são dois dos propósitos do modelo em desenvolvimento a aplicar no sudoeste europeu. Região, esclarece o coordenador do projeto, Arturo Gutiérrez de Terán, da Fundação de Estudos sobre a Qualidade da Edificação das Astúrias (FECEA), com “construções sociais e clima semelhantes”.

“Descobrimos que desde o Porto, toda a Cornija Cantábrica ao Sudoeste de França temos um clima semelhante. A partir deste dado reunimos três universidades, uma em França, La Rochelle, outra aqui, a Universidade do Minho e em Espanha a Universidade o País Basco”, conta o especialista.

O objetivo da parceria europeia, explica o responsável, é reduzir “o consumo de energia da vida dos edifícios” que na Europa é “muito elevado, de 40%”, alerta.

“Onde está o problema mais difícil? No que já está edificado. O nosso projeto refere-se a isto: à reabilitação energética de edifícios, mas de habitações sociais”.

Integrado nas políticas da União Europeia no combate à pobreza energética, o projeto ARCAS, previsto para 2023, reúne universidades de Espanha, França e Portugal, a Fundação de Estudos sobre a Qualidade da Edificação das Astúrias, o Governo de Cantábria e conta com 1,3 milhões de euros do Programa Interreg Sudoe/FEDER.

29.7.21

Idosos que usaram plataformas digitais para comunicar durante a pandemia sentiram-se mais solitários do que os que não tiveram qualquer contacto

in Visão

O estudo focou-se em adultos com idades superiores a 60 anos e verificou que quando comunicavam, sobretudo, virtualmente com a família e amigos, os benefícios para a saúde mental eram menores do que quem não tinha qualquer tipo de contacto

A pandemia de Covid-19 reduziu drasticamente o contacto físico entre as famílias, prejudicando, sobretudo, os adultos a partir dos 60 anos, por serem o grupo de maior risco. A maioria das pessoas manteve contacto com a família e amigos durante o isolamento através do telemóvel, por chamadas de vídeo, zoom e outras plataformas digitais, como forma de reduzir o isolamento.

Um estudo, publicado esta segunda-feira na Frontiers in Sociology, examinou como o contacto presencial e virtual entre famílias, bem como a combinação das duas formas de contacto, está relacionado com o bem-estar mental dos idosos durante a pandemia. Serviram-se de dados recolhidos entre 2018 e 2019 e em junho de 2020, dos mesmos indivíduos, para comparação com dados do Health and Retirement Study, nos EUA e da associação Understanding Society, no Reino Unido.

“Ficamos surpreendidos com a descoberta de que uma pessoa idosa que apenas teve contacto virtual durante o confinamento sentiu mais solidão e mais impactos negativos na saúde mental do que uma pessoa idosa que não teve contacto com outras pessoas”, afirmou Yang Hu, co-autor da investigação e especialista em sociologia da Universidade de Lancaster ao The Guardian.

Já vários estudos tinham relatado um aumento acentuado no sofrimento mental, distúrbios psiquiátricos e solidão nos Estados Unidos e no Reino Unido durante a pandemia. Mas os resultados desta investigação acrescentaram que o contacto presencial entre as famílias ajuda a manter o bem-estar mental dos idosos e que o contacto virtual não era uma alternativa qualitativamente equivalente.

Os dados mostraram um aumento significativo na solidão nos EUA e um declínio no bem-estar mental geral no Reino Unido depois do confinamento. Os três fatores que mais contribuíram para esta situação foram o facto de as chamadas e mensagens de texto geralmente serem insuficientes para simular o contacto cara a cara, a dependência do acesso à internet, dos recursos do dispositivo e do know-how tecnológico, que muitas vezes são estratificados devido às condições socioeconómicas e, por fim, o uso intensivo de tecnologia poder causar stress ou até mesmo levar ao esgotamento de quem não está tão à vontade para mexer com aparelhos tecnológicos.

No Reino Unido a escala de bem-estar mental geral diminuiu de 62,6% antes da Covid-19 para 46,3% durante a pandemia e nos EUA não houve grande alteração. Relativamente à solidão, 28,7% dos americanos ficaram mais solitários durante a pandemia, em comparação a 11,1% no Reino Unido. Portanto, o impacto negativo da pandemia e das medidas associadas sobre a solidão dos idosos parece ter sido maior nos Estados Unidos do que no Reino Unido.

“Não é apenas a solidão que piorou com o contacto virtual, mas a saúde mental geral. As pessoas estavam mais deprimidas, mais isoladas e sentiam-se mais infelizes como resultado direto do uso de tecnologia para comunicar”, acrescentou o especialista.

Por norma, no Reino Unido, as mulheres eram mais propensas do que os homens a depender apenas do contacto virtual com a família e nos EUA, o contacto apenas virtual foi relatado com mais frequência por aqueles que têm um curso superior, que trabalharam durante a pandemia e/ou são imigrantes. Curiosamente, em ambos os países, as pessoas que vivem sozinhas tendem a estar mais vezes fisicamente com a família, do que as pessoas que viveram com outras pessoas durante a pandemia.

Nos EUA, o contacto cara a cara mais frequente entre as famílias foi associado a um melhor bem-estar mental geral durante a pandemia, mas não foi associado a mudanças no bem-estar mental geral antes e durante a pandemia.

No Reino Unido, o contacto cara a cara frequente foi associado a um melhor bem-estar mental geral durante a pandemia e a um menor declínio do bem-estar mental após o início da pandemia.

As conclusões indicam que a pandemia prejudicou o bem-estar mental dos idosos, como evidenciado pelo notável aumento da solidão nos EUA e o declínio do bem-estar mental geral no Reino Unido e destacam que as interações entre as famílias são um recurso-chave para ajudar na manutenção da saúde psicológica dos mais velhos.

Em Portugal, de acordo com os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, 65,3% das pessoas com idades entre os 55 e 64 usou internet e 39% com idades entre os 65 e 74. A maioria utilizou este recurso durante o confinamento para comunicar e aceder a informação.

21.5.21

Crianças de Boticas participam em estudo sobre o impacto da pandemia no bem-estar infantil

in Diário Atual

O município de Boticas participou, no dia 14 de maio, no estudo sobre o impacto da pandemia de covid-19 no bem-estar infantil.

A Câmara de Boticas explicou que o estudo pretendeu “analisar de que forma a crise sanitária foi impactante na vida das crianças, colocando o enfoque nas vivências do seu dia a dia”. A participação dos alunos do Agrupamento de Escolas Gomes Monteiro surgiu por convite da EAPN Portugal, em parceria com o Departamento de Psicologia da Universidade do Porto, através de Teresa Dias.

O principal objetivo deste estudo nacional (incluindo as ilhas) será conhecer as perceções das crianças sobre o impacto da pandemia por Covid-19 em dimensões objetivas e subjetivas do seu bem-estar psicológico. “Procurar-se-á, ainda, compreender quais as dimensões da vida onde as crianças percecionam maior impacto negativo e maior impacto positivo; o grau de satisfação que sentem face às diferentes dimensões da vida; as alterações objetivas de vida individual e familiar que ocorreram durante este período e o grau de importância que atribuem a estas alterações para a sua perceção de bem-estar”, refere a organização.

O estudo segue uma metodologia qualitativa com recurso ao método de focus group (via online) com seis crianças do Agrupamento de Escolas Gomes Monteiro com idades compreendidas entre os 8 e os 10 anos.

O focus group foi moderado por Elizabeth Santos e Cátia Santos do Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza (ONLCP).

12.4.21

O F e os 3 D da pobreza: família, desemprego, divórcio e doença

Céu Neves, in DN

"A pobreza em Portugal - trajectos e quotidianos" identifica quatro perfis de pobres no país: reformados, precários, desempregados e trabalhadores. Recorrem à entrevista aberta para explicar os números.

Os dados estatísticos indicam que 16,2 % dos residentes em Portugal estavam em risco de pobreza em 2019 - 1,6 milhões de pessoas. Baixou comparativamente a 2018, ano que serve de base ao estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos "A pobreza em Portugal - trajetórias e quotidianos", que tenta perceber a realidade por detrás das estatísticas. Foram definidos quatro perfis de pobres e entrevistadas pessoas de cada um deles, de norte a sul do país. A primeira conclusão é que a pobreza se herda e é agravada pelo divórcio, o desemprego e a doença. E não se pode excluir o contexto socioeconómico.

A definição dos perfis tem por base o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, do Instituto Nacional de Estatística (INE), com dados de 2018, quando a taxa de pobreza no país era 17,2%. Entretanto, saiu o relatório de 2020, com números de 2019, que indicam uma diminuição de um ponto percentual na taxa global. Mas aumentou o risco de pobreza entre os reformados e entre os menores de 18 anos. É considerado pobre quem tenha um rendimento líquido inferior a 6480 euros anuais (540 euros por mês).

Aquele valor corresponde a 60% do rendimento mediano nesse ano, dividido pelos membros do agregado familiar, uma fórmula do INE e Eurostat (estatísticas da UE). Segundo o coordenador da equipa de investigação, Fernando Diogo, uma das limitações é a taxa de pobreza depender dos salários praticados nesse ano. "Em situações como a que estamos a viver, em que o rendimento está a baixar, a taxa de pobreza baixa não por diminuir o número de pobres mas porque baixa o rendimento mediano", explica. Além disso, entende que subestima a pobreza das mulheres e das crianças. O grupo dos menores de 18 anos é o mais vulnerável. "Têm uma taxa acima da global. E, quando desdobramos os dados por tipo de família, percebemos que as famílias com crianças têm taxas de pobreza mais elevadas, em particular as monoparentais e com três ou mais crianças."

Em 2018, corriam risco de pobreza 47,5% dos desempregados, 15,2% dos reformados, 10,8 % dos empregados e 18,5 % dos menores de 18 anos. O estudo da fundação concentrou-se nos pobres com 18 e mais anos, concluindo que 32,9% são trabalhadores, 27,5% reformados, 26,6 % precários e 13 % desempregados. Realizaram, posteriormente, 87 entrevistas aprofundadas e quatro exploratórias (para testar o modelo do inquérito), trabalho de campo concluído em dezembro de 2019. Não se adivinhava a pandemia de covid-19, o que contribui para um maior número de pobres e uma maior intensidade dos efeitos da pobreza, mas não altera a base da condição de pobre, segundo o coordenador do estudo. "Esses impactos reforçam as fraturas existentes na sociedade portuguesa" [ver entrevista ao lado].
Trabalhadores, 32,9%

"Fui trabalhar numa fábrica de calçado, 11 anos, fazia descontos e tudo. Fui à tropa e, quando vim, pedi um aumento. Nunca se chegaram à frente. Saí, mas nem meti a carta de despedimento, perdi os direitos. Vim para esta empresa, onde estou há 19 anos."
Homem, 40 anos, Guimarães

Os empregados representam um terço dos pobres e o fator principal é a estrutura familiar, uma vez que o rendimento de um assalariado é dividido pelos elementos do agregado. Seguem-se os "recursos que influenciam a participação no mercado de trabalho, como a educação, a experiência profissional e a ocupação; bem como as restrições ou os constrangimentos" que impedem uma atividade como a prestação de cuidados a crianças, idosos ou outros dependentes.

O maior problema são os baixos salários. "Refletem, por um lado, as características estruturais do mercado de trabalho em Portugal e, por outro lado, os efeitos de trajetória biográfica associados à pobreza na infância e na transição para a vida adulta", diz o estudo. Acrescem os problemas de saúde dos pais ou dos próprios enquanto crianças, a instabilidade laboral e a perda de membros significativos do agregado familiar, o que os obrigou a ingressar cedo no mundo de trabalho.
Reformados, 27, 5 %

"Quando saí da escola, fui tomar conta de dois meninos para uma senhora que era rica e tinha um comércio . Pediu à minha mãe se me deixava ir para lá . Eu tinha 13 anos."
Mulher, 74 anos, Montalegre

Este grupo, dos que revelaram terem sido sempre pobres, "coloca-se no centro do debate sobre a pobreza dos mais idosos a questão dos salários na longa duração", sublinham os autores. A pensão está condicionado à vida contributiva. Começaram a trabalhar em criança, com 12 e até menos anos, devido às dificuldades financeiras da família. O abandono escolar era "permitido e mesmo incentivado, de modo que as crianças pudessem contribuir ativamente para a economia doméstica, minimizando a privação material, desde logo alimentar". Estas pessoas têm décadas de trabalho, mas carreiras contributivas tardias e curtas, nalguns casos inexistentes. Rendimento que não lhes permite fazer face às necessidades. "As despesas com medicamentos e outros encargos provocados pelas doenças crónicas que os atingem, muitas vezes causa de abandono precoce do trabalho, concorrem para agravar as dificuldades decorrentes de uma pensão de pequeno valor, sobretudo quando ela é de invalidez".
Precários, 26,6%

"Nunca trabalhei! Trabalhei, fazia biscates! Nunca trabalhei com contrato ou com algo do género. Nunca."
Homem, 40 anos, Almada

No perfil dos precários, uma "parte dos entrevistados é mais escolarizada e transita mais tarde para o mundo do trabalho, mas entre os mais velhos continua a evidenciar-se o abandono escolar em idades precoces". Continua o estudo: "As inserções profissionais em idades mais tardias são realizadas sob o signo destas adversidades, na medida em que alguns assumem terem tido necessidade de começar a trabalhar depois de concluída a escolaridade obrigatória para contribuir para o orçamento familiar e custear projetos pessoais de prolongamento da escolaridade."

Outro dos fatores que referiram é a dissolução das famílias de procriação, na sequência de processos de divórcio. Em relação ao futuro, muitos parecem acomodar-se com a situação e a mudar seria a casa e o emprego. A emigração surge "como uma estratégia bem definida para lidar com a precariedade laboral e a situação de vulnerabilidade em que se encontram, claramente referenciada em algumas entrevistas em resultado de menções espontâneas dos entrevistados e sendo motivada pela procura de melhores oportunidades de vida para si e familiares".
Desempregados, 13%

"Estou com uma doença mental qualquer e cada vez mais pele e osso. A ganhar 142 euros, não pago renda porque é a minha tia que paga, mas pago luz, água, gás e tenho de comer."
Mulher, 55 anos, Porto

Este grupo integra indivíduos desempregados e inativos e que tiveram amplas experiências de trabalho ao longo da vida, mas marcados pela precariedade. Destacam-se "a instabilidade contratual, a alta rotatividade de emprego/desemprego, a informalidade das relações de trabalho, a ausência de uma carreira contributiva que assegure a reforma", o que tem impacto na ausência de direitos de proteção na doença e no desemprego".

A maior parte das situações de desemprego descritas remontam à crise de 2008- 2014, o que "sugere que não chegaram a recuperar do ambiente económico e social adverso que nessa altura se instalou, em especial para os não qualificados da construção civil".

A doença e a morte de membros significativos das famílias revela-se "um aspeto importante nas trajetórias de vida, com impacto na harmonia familiar e nos montantes de rendimentos disponíveis, pois alguns depoimentos enfatizam como a morte de um provedor teve impacto nas dinâmicas de entrada na pobreza, em particular quando a intensidade laboral do agregado familiar é muito diminuta".


Quase 60% dos pobres com mais de 18 anos em Portugal trabalham

Alfredo Maia, in JN

Apoios sociais do Estado são escassos e não tiram as pessoas da pobreza

Praticamente um terço do trabalhadores e quase metade dos desempregados estão na pobreza. Baixas qualificações, baixos salários, filhos adultos sem emprego e doença na família explicam retrato.

Quase 60% dos pobres com mais de 18 anos em Portugal trabalham. Além dos 26,6% em situação precária, os trabalhadores com um contrato são quase um terço das pessoas em situação de pobreza. Ou seja, do total de empregados, quase 11% são pobres. Esta é uma novidade do estudo "A Pobreza em Portugal - Trajetos e Quotidianos", coordenado pelo sociólogo Fernando Diogo, da Universidade dos Açores e investigador no CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, para a Fundação Francisco Manuel dos Santos e que será apresentado esta segunda-feira.

Para o especialista em temáticas da pobreza, que liderou uma equipa de 11 investigadores de oito universidades e de instituições de pesquisa, o que o surpreende é o facto de "a maior parte ter contrato efetivo há muitos anos: 10, 20 ou mais". Há várias razões, explica ao JN: famílias com vários filhos, por vezes adultos e sem trabalho, em que "o ordenado escasso é dividido por todos". Há, também, casos de mudança frequente de emprego, de atividade e de patrão, no que o estudo designa por trajetórias em carrossel. E a perpetuação do modelo de baixa produtividade, de baixas qualificações e de baixos salários.

Partindo dos inquéritos do Instituto Nacional de Estatística às condições de vida e rendimentos das famílias (ICOR), o estudo acentua que, com mais ou menos oscilações, um quinto da população vivia em situação de pobreza entre 2003 e 2018. Nesse ano, a taxa de pobreza era de 17,2% (1,7 milhões de pessoas), já após apoios sociais (exceto pensões).

Decompondo a população pobre com mais de 18 anos, o projeto estudou os perfis dos empregados, que representam 32,9% dos pobres e 10,8% do total da população empregada. Seguem-se os reformados (27,5%), ou seja, 17% dos pensionistas são pobres; o dos precários (26,6% do total na pobreza); e o dos desempregados (13%). Quase metade destes é pobre.

A grande maioria dos 87 entrevistados no estudo qualitativo vive um processo de reprodução intergeracional da pobreza e começou a trabalhar de forma precoce. Como precoce foi o abandono escolar, mesmo o dos que nunca chumbaram. Mas era preciso ajudar em casa - complementar o rendimento, suprir a falta de um progenitor, tomar conta do gado.

As baixas ou muito baixas qualificações refletem-se na dificuldade em associar atividades laborais a uma profissão, no facto de parte significativa não ter gostado das atividades que realizou, ou na própria perceção de pobreza. Comparando-se com os que estão na miséria, alguns declararam não ser pobres. Um assegurou que só o seria se vivesse debaixo da ponte.

Vinte euros fazem diferença

Pequenas quantias, de 20 ou 30 euros por mês, têm um impacto muito forte no orçamento doméstico, diz o estudo. Muitos apoiam familiares, ou são por eles ajudados, para sobreviver ou enfrentar despesas básicas. O caso piora com a morte de familiares, com a doença do próprio ou de familiares, ou com a separação, com efeitos no rendimento do agregado, questões que Fernando Diogo diz não terem estado previstas no guião, mas que são importantes.

A morte e a doença desafiam e questionam os apoios do Estado (subsídio de desemprego, subsídio de doença, reformas antecipadas por invalidez, o RSI, o abono de família). "São escassos, não fazem a diferença para tirar as pessoas da pobreza, mas fazem a diferença na vida das pessoas. Se não existissem, a situação seria muito pior", nota o investigador.

Apesar deste quadro, "a resignação é o sentimento predominante na avaliação que os entrevistados fazem da sua vida" e "a maioria considera-se feliz", diz o estudo.

2,4 milhões em risco


Em 2017, as famílias em situação de pobreza ou exclusão social somavam quase 2,4 milhões de pessoas, ou seja, 23,3% do total da população portuguesa.

1,7 milhões de almas

O último inquérito anual do INE às condições de vida e rendimentos das famílias, relativos a 2019, mostra uma descida da taxa de pobreza para 16,2%, ainda próximo dos 1,7 milhões de almas. O risco de pobreza ou exclusão social era de 19,8%, abrangendo mais de dois milhões de pessoas.

Os três D da pobreza

O estudo "A Pobreza em Portugal" destaca três fatores de entrada na pobreza: o divórcio, o desemprego e a doença.


Limiar de pobreza

É um valor estimado por ano, com base no Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, que corresponde a 60% do valor do rendimento mediano (por adulto) em determinado ano.

Taxa de pobreza

É um valor estimado por ano, com base nos dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, que corresponde à percentagem de indivíduos com rendimento inferior ao limiar de pobreza.

25.2.21

Ecossistema do Impacto: uma tendência mundial e nacional

Rita Ferreira, opinião, in Dinheiro Vivo

De acordo com um estudo da Cone Communications, 75% dos Millennials procura maior propósito no seu trabalho. A remuneração passa a assumir uma importância secundária em relação à necessidade de sentirem que o seu trabalho se alinha com os seus valores e ao sentimento de que estão a retribuir e a acrescentar valor à sociedade. Também nas organizações se verifica uma tendência positiva associada ao Impacto, com 85% das que têm este propósito na sociedade a reportarem crescimento, face a 42% das ditas "mais tradicionais", segundo um estudo da Harvard Business School. O Ecossistema do Impacto e a Inovação Social suscitam cada vez mais interesse, começando a desenhar-se uma tendência mundial.

O IES - Social Business School quis perceber se, também no contexto português, era possível validar esta tendência. Assim, realizamos um estudo que contou com a participação de 61 pessoas, residentes em Portugal, que frequentaram programas nossos associados ao Ecossistema do Impacto, durante o ano de 2020. De acordo com os resultados, obter mais conhecimento sobre o Ecossistema do Impacto (42,6%) constituiu-se como a principal motivação para participar nos programas, sendo que começar um projeto (34,4%), iniciar uma carreira (18%) e mudar para uma carreira no Ecossistema do Impacto (4,9%) foram as motivações que se seguiram. Entre os que pretendiam efetivamente entrar no Ecossistema - fosse através da criação de um projeto, início de uma carreira ou mudança para uma carreira na área - 65,7% tinham já uma ideia de negócio.

De facto, no contacto direto com os nossos alunos - ao longo dos vários programas desenvolvidos em 2020, em áreas como sustentabilidade, envelhecimento ativo, educação, saúde, inclusão, ambiente e economia circular - este "movimento" é cada vez mais notório, não só no que diz respeito ao interesse em construir uma carreira dentro de uma organização do Ecossistema, como também a vontade de ser empreendedor nesta área e gerar um impacto positivo na sociedade.

E este interesse não é exclusivo da geração Millennial. Como mostram as conclusões do nosso estudo, na faixa etária dos 41 aos 50 anos, 75% dos nossos participantes tinham como principal motivação começar um projeto ou iniciar uma carreira no Ecossistema do Impacto. De facto, uns impressionantes 66,7% tinham já uma ideia de negócio aquando da inscrição nos programas. Também na faixa etária dos 51 aos 60 anos, a percentagem é de 33,3% quando nos referimos à fatia relativa a quem queria começar um projeto no Ecossistema do Impacto e que já tinha uma ideia de negócio aquando da inscrição.

É bastante interessante para nós perceber que uma parte considerável dos nossos alunos com carreiras de sucesso no mundo corporate, independentemente da idade, sente vontade/necessidade de entrar neste Ecossistema. Mesmo que a intenção não passe necessariamente por mudar de carreira e iniciá-la numa organização de Impacto ou ainda começar um projeto "a solo", há uma tendência cada vez mais clara para o intraempreendedorismo ou para os chamados CSR Champions (CSR = Corporate Social Responsibility). Ou seja, não só se verifica uma vontade crescente de exercer uma profissão ligada a este Ecossistema, dentro do Ecossistema propriamente dito, como também de levar a responsabilidade social corporativa a outro nível dentro das respetivas empresas/organizações.

É por estas e outras razões que programas como o "PLUG.IN_PACT" - que tem como objetivo ser uma porta de entrada para o Ecossistema do Impacto - assumem um papel tão importante no proporcionar de ferramentas e de bases concretas para a resolução de um problema específico da sociedade. Segundo testemunhos que recebemos após a última edição deste programa, a "possibilidade de conceber a economia de outro modo, de conhecer e usar ferramentas que permitem operacionalizar ideias que têm impacto e criam valor na sociedade" está na base dos benefícios deste tipo de iniciativas que se têm vindo crescentemente a desenvolver no contexto nacional. Para algumas destas pessoas, completos outsiders de áreas como gestão, este tipo de programas podem mesmo ser um "pontapé de saída" para os seus projetos de empreendedorismo social, como conseguimos perceber através de outro dos nossos testemunhos.

A intenção real em envolver-se com este Ecossistema está patente nos resultados do nosso estudo: do total de inquiridos, cerca de 60,7% envolveram-se em um ou mais projetos relacionados com o Ecossistema do Impacto após a participação nos nossos programas. Mesmo entre os participantes que tinham como principal motivação "unicamente" obter mais conhecimento sobre este Ecossistema, uns significativos 57,7% acabaram por se envolver em algum projeto relacionado com Impacto. De uma forma significativa, a totalidade (100%) dos inquiridos que até ao momento não se envolveram em nenhum projeto relacionado com esta área tem interesse em fazê-lo a curto/médio prazo.

É facto que o Ecossistema do Impacto tem gerado cada vez mais curiosidade e que as pessoas já não se contentam em espreitar pela porta entreaberta. Querem, realmente, entrar neste mundo e emergir-se nele. Embora tenha começado este artigo com um dado relacionado com a geração Millennial, esta é uma tendência que já percebemos que não lhes é exclusiva. É uma tendência transversal, sem fronteiras geracionais ou geográficas.

Responsável de Marketing e Comunicação do IES - Social Business School

27.1.21

Violência doméstica. Cerca de 30% foram pela primeira vez vítimas durante a pandemia

in RR

São os mais jovens e menos escolarizados que mais sofrem este tipo de crime. O tipo de violência mais apontado é a psicológica. Maioria das vítimas não procura ajuda nem denuncia.

Um terço dos inquiridos num estudo da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) diz ter sido vítima de violência doméstica pela primeira vez durante a pandemia. Quinze por cento reportou a ocorrência deste crime na sua casa.

Os resultados preliminares foram divulgados nesta quarta-feira e indicam que são as mulheres quem mais refere ser vítima de violência doméstica (15,5%) durante este período de Covid-19, embora os homens também o sejam (13,1%).

"Este fenómeno, ainda que transversal a todos os grupos etários e níveis de escolaridade, tem especial relevo nos mais jovens e menos escolarizados. São também as pessoas que reportam dificuldades económicas ou cuja atividade profissional foi prejudicada pela pandemia quem mais refere ser vítima de violência doméstica", sublinha a ENSP em comunicado.

O projeto de investigação "VD@COVID19" procurou analisar a violência doméstica psicológica, física e sexual autorreportada durante a pandemia, tendo para isso recolhido, entre abril e outubro de 2020, um total de 1.062 respostas a um questionário online dirigido à população. .

Violência (doméstica) emocional. Como identificar sinais de uma relação tóxica


"O desenho do estudo levou a uma maioria de respondentes com ensino superior, o que permitiu incluir grupos sociais que frequentemente têm menor participação em estudos de violência doméstica", adianta a ENSP.

Os resultados indicam que, "em tempos de Covid-19, a ocorrência de situações de violência é uma realidade em Portugal com 15% dos participantes (159) a relatar ocorrência de violência no seu domicílio e um terço das vítimas (34%) disse ter sofrido violência doméstica pela primeira vez durante a pandemia".

O tipo de violência mais relatada é a psicológica, com 13% (138 participantes), seguindo-se a sexual, com 1% (11), e a física, com 0,9% (10), existindo coocorrência de diferentes tipos de violência.

Os investigadores referem que "a pandemia e o efeito das medidas de combate à propagação do vírus nos determinantes sociais e de saúde, como o agravamento das desigualdades socioeconómicas, nos consumos de álcool, medicamento e drogas e nos sentimentos de mal-estar e stress, potenciam o risco de violência doméstica".

Segundo o estudo, a maioria das vítimas não procura ajuda nem a denuncia (72%), por a considerarem "desnecessária", que "não alteraria a situação" e por se sentirem constrangidos com a situação.

Já os principais motivos para não ter denunciado a situação às autoridades policiais são que o "o abuso não foi grave" e "acreditar que as autoridades não fariam nada".

As vítimas que procuraram ajuda fizeram-no maioritariamente junto de profissionais de saúde mental e, globalmente, avaliaram positivamente a resposta que receberam.

"Os resultados deste estudo apontam para uma complexidade na ocorrência de violência doméstica e de género em tempos de Covid-19, pelo que existem pontos que carecem de maior aprofundamento, como, por exemplo, o perfil de vítima e o tipo de violência, novas vítimas e distribuição geográfica", afirma a coordenadora do estudo, Sónia Dias.

A investigadora adianta que "parece haver sinais de um aumento de casos não reportados oficialmente, considerando o facto de a grande parte das vítimas em tempos de Covid-19 não ter procurado ajuda ou denunciado", sendo por isso relevante continuar os esforços de recolha, análise e divulgação de dados, a sua caracterização e impactos, contribuindo para uma melhor definição de políticas públicas e planos de ação ao nível da prevenção e combate à violência doméstica.

Será também relevante, defendeu, "continuar os esforços para o planeamento e implementação de ações concretas de intervenção para o combate a todas as formas de violência doméstica e de género, bem como agilizar estratégias de proteção das vítimas em tempo de Covid-19, áreas que são acrescidas de maior dificuldade pelo contexto de pandemia".

26.10.20

A Pobreza tem Gente Dentro

José Lúcio Curado (opinião), in JNMadeira

«Não há estado social sem sentido cívico, sentimento de pertença a comunidade» - Pierre Rosanvallon

No mês passado foi publicado um livro com o título “Rendimento Adequado em Portugal”. Trata-se de um estudo coordenado por José António Pereirinha, desenvolvido com a colaboração de professores e professoras da Universidade de Lisboa, da Universidade Católica Portuguesa e do ISCTE em parceria com a Rede Europeia Anti-Pobreza. Como o próprio nome indica procura determinar qual é o nível de rendimento que permite um nível digno de vida em Portugal. Em 2014, esse valor seria de 760 euros mensais, aumentava para 1335 euros se essa pessoa tivesse a seu cargo uma criança de 12 anos e se falarmos de um casal com uma criança de 12 anos cresce para 1745 euros, que equivaleria a cerca de 862,50 euros por mês por cada um dos elementos do casal.

Em 2020, o salário mínimo nacional situa-se nos 635 euros (650,88 na Região) e o valor que determina atualmente a taxa de risco de pobreza (referente a 2018) é o de 501,17 euros mensais.

Como se percebe, tanto num caso como no outro, muito longe do valor apontado, para 2014, como sendo adequado para uma pessoa adulta, empregada, sem ninguém a cargo. Quando há crianças, piora. Aliás, uma das conclusões do estudo é precisamente essa: há uma subavaliação da pobreza infantil e enviesamentos, para menos, no perfil de pobreza nos agregados que incluem crianças.

A lógica diria que o valor considerado como o mínimo adequado para viver condignamente e o valor do risco de pobreza deveriam ser muito próximos, pelo menos muito mais próximos do que o que realmente são. Como se explica a diferença? Metodologia: enquanto que para o cálculo do rendimento adequado, se procurou saber quais as necessidades para uma vida digna e quanto custa satisfazê-las, no caso do limiar da pobreza o cálculo é feito com base numa percentagem (60%) do salário médio no País, e num país em que os salários são dos mais baixos da Europa, o valor que se usa para estimar o número de pessoas em risco de pobreza torna-se demasiado austero, como diz Elvira Pereira uma das autoras do estudo.

Na Madeira, os números constantes no Anuário Estatístico referente a 2018, publicado em finais de 2019, ganham assim contornos bastante preocupantes. 31,9% das pessoas residentes na madeira viviam em risco de pobreza. Mesmo depois de contabilizados os valores das transferências sociais, esse valor diminui apenas para os 27,5%, ou seja, mais de um quarto da população continua em risco de pobreza. Mas pior são os 9,4% da população, cerca de 24 mil pessoas que vive em situação de privação material severa, sem condições que garantam a sua subsistência, quanto mais, uma vida condigna.

Uma outra conclusão que se pode tirar é que há muita gente que, apesar de trabalhar a tempo inteiro e fora do crivo dos apoios sociais, não consegue sair do risco de pobreza, tem de fazer escolhas diárias sobre aquilo que deixa de comer, de vestir, de investir na educação dos filhos. Quando tantas vezes nos definimos e apresentamos pela profissão que temos, ter um emprego a tempo inteiro deveria ser garante de rendimento adequado. Mas não é.

Haverá solução? Acredito que sim, mas não há soluções mágicas. Precisamos de investir na educação e formação, precisamos de aumentar a produtividade, mas também de distribuir melhor os aumentos da produtividade que conseguimos ao longo das últimas quatro décadas. Precisamos de dignificar o trabalho com salários que permitam ter um rendimento adequado às nossas necessidades.

A pobreza não são apenas números, tem gente dentro. Enquanto sociedade não podemos baixar os braços. Temos de lutar para que essa situação seja apenas transitória, não se pode entranhar nas pessoas, ao ponto de as definir, como se fosse uma profissão ou uma inevitabilidade.

Não, as pessoas não são pobres, as pessoas estão pobres. E temos de fazer algo quanto a isto.



8.10.20

Taxas e taxinhas. Portugueses batem recorde de impostos em 2018

Sandra Afonso, in RR

A carga fiscal ultrapassa os 37% em 2018, acima dos 35,4% indicados pelo INE. Estudo da CIP revela que o Estado cobrou 4.300 taxas às empresas.

Nunca os portugueses pagaram tantos impostos como em 2018. Um estudo promovido pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP), a que a Renascença teve acesso, revela um novo máximo histórico.

Ainda assim, há quem pague mais na Europa – Portugal é o 15.º país onde se paga mais impostos. Ou seja, em 14 países, o peso total dos impostos é ainda superior.

França, Bélgica e Dinamarca lideram a tabela, com uma carga fiscal entre 48% e 45%. Com menos impostos cobrados, está a Irlanda.

Em Portugal, o estudo promovido pela CIP e elaborado pela consultora EY e a Sérvulo coloca a receita fiscal em percentagem do PIB nos 37,1%, em 2018. Claramente acima dos 35,4% indicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

O aumento da receita do IVA terá claramente contribuído para esta subida. Uma das conclusões deste estudo é que a tributação está a ser desviada para os impostos indiretos – algo que não é uma originalidade portuguesa, dado que está a acontecer em toda a Europa, e não é de agora, é uma tendência.

Em 2018, quase um quarto da receita fiscal total (23,6%) veio do IVA. Em comparação com os restantes 26 Estados-membros, os portugueses são dos que mais pagam.

Outro dado interessante: entre 2007 e 2018, Portugal registou a 10.ª maior subida na receita de IVA no espaço comunitário.

Ainda segundo o relatório que vai ser divulgado nesta terça-feira, depois do IVA, o imposto com maior carga tributária face à Europa, é o IRC: representa 9% da receita total.

Já o peso dos impostos sobre as famílias fica abaixo do registado na maioria dos Estados-membros.

Taxas e taxinhas agravam impostos das empresas

Os autores utilizam um cálculo inédito: comparam a receita fiscal com o volume de negócios, em vez do PIB ou riqueza produzida, como é habitualmente feito, para avaliar a carga fiscal das empresas (a receita das empresas antes dos custos fixos, operacionais, administrativos, financeiros e impostos). Mede a carga fiscal das empresas “enquanto esforço financeiro efetivo e não tanto como referencial macroeconómico.

Chegam à conclusão de que, em 2017, 20% do volume de negócios foi entregue ao Estado para pagar impostos.

Portugal é um dos Estados-membros que regista maior aumento da carga fiscal sobre as empresas. Entre 2008 e 2017, a carga fiscal subiu cinco posições no ranking, para 11.º lugar. Foi a quinta maior subida, de 2,5 pontos percentuais.

A liderar a tabela está a Grécia, com 30%. Com menos tributação sobre as empresas está a Irlanda, com 10%.

De acordo com este indicador, apenas oito países da União Europeia registaram aumentos de impostos entre 2008 e 2017, e Portugal foi um deles. Em 19 países, a carga fiscal até desceu neste período.

Principais taxas e impostos pagos pelas empresas

Na verdade, o que as empresas não pagam nos chamados impostos tradicionais acabam por entregar em contribuições e taxas específicas.

O sistema fiscal tem vindo a focar-se, sobretudo, nos setores com “maior capacidade tributária”, como a banca, que tem desde 2011 a “Contribuição sobre o Setor Bancário”.

A esta seguiram-se outras áreas. Recentemente, foram criados
a contribuição sobre os dispositivos médicos,
o adicional de solidariedade sobre o setor bancário e
a autorização legislativa da contribuição especial para a conservação dos recursos florestais.

Estão ainda a ser cobradas mais de 4.300 taxas, associadas a 24 entidades da administração central do Estado e 11 reguladores. Só para a Agência Portuguesa do Ambiente são cobradas 600 taxas.

Neste levantamento, são deixadas várias críticas a este processo tributário, entre elas, a falta de transparência nestas taxas, a dificuldade em identificar a base legal para a cobrança, a dispersão e complexidade da cobrança e alocação da receita, a acumulação de competências de diferentes entidades sobre a mesma taxa, sendo que algumas entidades desconhecem mesmo que taxas cobram.

Na prática, e de acordo com este trabalho, há setores onde diferentes entidades partilham a mesma competência para cobrar taxas, o que faz com que acabem por ser cobradas “várias taxas sobre a mesma realidade”.

Taxas “abusivas” num “modelo fiscal esgotado”

O que este estudo conclui é que nos últimos anos aumentou o recurso a “novas figuras tributárias”, que muitas vezes não têm ligação aos impostos tradicionais, que incidem sobre o rendimento, o consumo e o património.

São “tipos tributários anómalos, sucessivamente agravados”, para garantir “fluxos de receitas estáveis”. É uma consequência do esgotamento do atual modelo fiscal com a crescente necessidade de receita do Estado.

O IRC, IRS, IVA, IMI e IMT continuam a ser as principais fontes de receita, mas a estas juntam-se agora novas taxas e contribuições, que pesam sobre as empresas e, segundo este estudo, estão a ser usadas de forma abusiva.

A receita é afetada a determinados fundos “para legitimação de tributações agressivas”. É ainda usada a “qualificação extraordinária” para justificar um carácter temporário, que “tende a ser permanente”.

Os ministérios têm um papel cada vez mais ativo no controlo e gestão desta receita.

Os autores acusam ainda o Estado de impor “obrigações de serviço público adicionais” às empresas sem a necessária fundamentação económico-financeira, como na tarifa social de energia, ou criar impostos regulatórios apenas para aumentar a receita, como o mecanismo para equilibrar a concorrência no mercado grossista de eletricidade, o Clawback tax.

Recomendações da CIP

António Saraiva, presidente da CIP, critica, logo no início deste estudo, a “multiplicação de taxas, contribuições e outros tributos e figuras paralelas, com custos que se tornam cada vez mais revelantes para as empresas e cuja aplicação é discricionária”. Lembra ainda que muitas delas são extraordinárias, “mas que acabam por se tornar permanentes”.

O presidente da Confederação Empresarial de Portugal contesta igualmente a “imposição de obrigações de serviço público às empresas, que acabam por ser tributos menos transparentes, mas igualmente onerosos, sem que exista em muitos casos necessária fundamentação”.

Perante este diagnóstico, a CIP diz que são necessárias propostas para uma maior eficiência e justiças fiscais.

Segundo o presidente da CIP, é necessária uma “reforma da política fiscal”, mas tem que ser “abrangente”, revisitando “toda a panóplia de formas de tributação alternativa criadas, para que exista transparência e previsibilidade e para que o incentivo seja a criação de riqueza, para todos”.

1.10.20

Pobreza é mais determinante na transmissão do vírus do que o uso de comboio

in TSF

Um estudo demonstra que não existe uma ligação direta entre o transporte ferroviário e o risco de infeção.

Um estudo concluiu que não existe uma ligação direta entre as infeções da covid-19 e a utilização do transporte ferroviário na Área Metropolitana de Lisboa, considerando como fator mais determinante as questões socioeconómicas.

O estudo, a que a agência Lusa teve acesso, foi desenvolvido pelos investigadores Milton Severo, Ana Isabel Ribeiro, Raquel Lucas, Teresa Leão e Henrique Barros do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), entre os dias 2 de março e 5 de julho.

A análise incidiu em freguesias atravessadas pelas linhas ferroviárias de Azambuja, Sintra, Cascais, do Sul (Fertagus), do Sado e do Oeste, localizadas em concelhos da Área Metropolitana de Lisboa.

Em declarações à agência Lusa, o professor Milton Severo, um dos autores do estudo, explicou que o objetivo era perceber a relação entre a proximidade das estações ferroviárias com a transmissão da covid-19.

"Verificou-se que, quando se comparam essas linhas, não se associavam de uma forma homogénea. Ou seja, o risco de infeção não era superior nas freguesias mais próximas das estações do que naquelas mais afastadas", apontou.

O investigador referiu que, por exemplo, a linha de Sintra apresentava um risco maior nas freguesias atravessadas pelo comboio, mas que na linha do Sado e da Fertagus o risco mostrou ser maior nas freguesias não atravessadas.

Entretanto, a partir de abril, os investigadores foram percebendo que o fator mais determinante para o risco de contágio eram as condições socioeconómicas.

"Enquanto no início da pandemia esse indicador (privação socioeconómica) não se associava, conforme foi passando o tempo esse indicador passou a associar-se e as freguesias com maior privação apresentam um risco superior de infeção comparada com as outras", apontou.

Assim, como principais conclusões, o estudo demonstra que não existe uma ligação direta entre o transporte ferroviário e o risco de infeção, uma vez que os dados foram mudando ao longo do tempo, e coloca como fator determinante as condições socioeconómicas.

A pandemia de covid-19 já provocou pelo menos 961.531 mortos e mais de 31,1 milhões de casos de infeção em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 1.920 pessoas dos 69.200 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Depois de a Europa ter sucedido à China como centro da pandemia em fevereiro, o continente americano é agora o que tem mais casos confirmados e mais mortes.

10.8.20

O teletrabalho significa mesmo dias mais longos e mais reuniões

Jena McGregor/Washington Post, in Público on-line

Aqueles que sentem que com o confinamento estão a trabalhar mais podem agora citar os dados de um novo estudo do National Bureau of Economic Research. Os dias de trabalho estão mais longos, mas há assimetrias entre a Europa e os Estados Unidos.

A enorme mudança global para o trabalho remoto desde o início da pandemia tem trazido algumas vantagens: mais flexibilidade, menos deslocações e calças mais confortáveis. Mas aqueles que acham que esta grande experiência de trabalhar em casa também traz bastantes desvantagens – dias mais longos, mais reuniões e mais emails para responder – são agora apoiados pelos dados de 3,1 milhões de trabalhadores.

Em média, o dia de trabalho estendeu-se por mais 48,5 minutos nas semanas a seguir ao confinamento e o número de reuniões aumentou 13%, concluiu um estudo publicado na segunda-feira pelo centro de investigação norte-americano​ National Bureau of Economic Research.

O estudo, que examinou os dados anónimos de emails e calendários de mais de três milhões de utilizadores de uma plataforma online gerida por uma empresa de serviços tecnológicos​ desconhecida, também mostrou que houve um aumento significativo de emails internos e da dimensão das reuniões.

Alguém que esteja a trabalhar em casa durante uma crise na saúde – especialmente aqueles que estão simultaneamente a cuidar de crianças – não vai ficar surpreendido. Apesar de entrevistas isoladas ou inquéritos mais pequenos já apontarem para resultados semelhantes, o que esta nova análise acrescenta “é documentação à escala do padrão geral”, considera Jeffrey Polzer, professor na Harvard Business School e co-autor do estudo.

A investigação, que analisou os dados de mais de 21 mil empresas em 16 grandes áreas metropolitanas em todo o mundo durante as oito semanas anteriores e posteriores ao confinamento, apenas incluiu trabalhadores que utilizam o produto da empresa de tecnologia envolvida. E apesar de a amostra ser grande, os dados representam apenas uma fracção da força de trabalho.

Mas oferecem uma visão de como os hábitos de trabalho e os estilos de comunicação mudaram para muitos trabalhadores que tentaram adaptar-se ao teletrabalho em massa, especialmente enquanto a economia piorava, os layoffs aumentavam e as ansiedades profissionais explodiam.

“As pessoas estão com medo – medo pelo seu trabalho e pela economia. Quero garantir que os gerentes sabem que estou constantemente a responder a emails e mensagens e que estou sempre no Slack”, disse Cali Williams Yost, fundadora da empresa de consultoria laboral Flex Strategy Group. Este sentimento é agravado pela dificuldade das chefias em criar o ambiente certo para o teletrabalho: “É uma mistura tóxica de burnout e sobrecarga”.

Para muitos trabalhadores, um ponto positivo do estudo é que o total de tempo agendado para reuniões diminuiu. Houve uma redução de 11,5%, ou quase 20 minutos por dia, de acordo com os dados, e, em média, as reuniões foram programadas para serem mais curtas (não é claro quando tempo realmente demoraram). Com o tempo, o número de emails também voltou aos valores pré-confinamento.

O estudo encontrou algumas diferenças entre os trabalhadores na América e na Europa. Em muitas cidades europeias, por exemplo, a redução no tempo das reuniões foi maior, enquanto a diminuição nas cidades norte-americanas foi relativamente menor. E enquanto o dia de trabalho se manteve longo nalgumas cidades, incluindo Nova Iorque, voltou ao normal noutras no período do pós-confinamento.

Ter uma jornada de trabalho mais longa não quer necessariamente dizer que as pessoas trabalharam mais horas nesse dia, realça, com cuidado, Polzer. Analisar o primeiro e o último email e o calendário não tem em conta aqueles que tiveram de cuidar de pais idosos, gerir interrupções de crianças em casa ou que simplesmente foram passear o cão pela terceira vez nesse dia.

Mas um dia passado em reuniões mais curtas ou que se estende até à noite – mesmo se o número total de horas de trabalho não for maior – pode ter desvantagens também. “É trabalhar em casa, viver no trabalho ou ambos?”, questiona Polzer. “Ao tentarmos gerir o nosso trabalho no ambiente de casa, é muito difícil desligarmo-nos do trabalho. Sempre foi esse o caso desde que os nossos telemóveis nos seguem para casa, mas agora este fenómeno cresceu.”

Polzer afirma que os investigadores não dividiram os dados por género para perceberem se os dias de trabalho se alongaram mais para os homens ou para as mulheres. Nos primeiros meses de pandemia, muitos ficaram preocupados por as carreiras das mulheres sofrerem mais a longo prazo, visto que escolas e creches estavam fechadas e, desproporcionalmente, eram as mulheres que perdiam os empregos ou eram obrigadas a fazer escolhas entre as carreiras ou cuidar dos filhos.

Ao longo do tempo, diz Polzer, a tendência para dias mais longos de trabalho não vai ser sustentável. “As organizações estão a tentar perceber a capacidade para lidar com este tipo de trabalho”, afirma. “As pessoas vão começar a sofrer de burnout se não repensarmos como estão a passar o seu tempo.”

16.7.20

Comprar casa? É cada vez mais difícil para as gerações mais novas

Pedro Filipe Silva, in RR

Estudo da Fundação Calouste Gulbenkian avalia o acesso de várias gerações à habitação e revela que, em oito anos, diminuiu de forma acentuada a percentagem de famílias com casa própria, onde o representante tem menos de 30 anos. O peso da habitação na despesa anual das famílias mais que duplicou em 26 anos.

O sonho de comprar uma casa é cada vez mais difícil de se realizar nas gerações mais novas. É o que revela um estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, que avalia o acesso de várias gerações à habitação.

Em oito anos, diminuiu de forma acentuada a percentagem de famílias com habitação própria, onde o representante tem menos de 30 anos. Em 2011, essa percentagem era de 45% e, em 2017, apenas 24%. Uma descida acentuada depois de sucessivos aumentos durante 20 anos.

A coordenadora do estudo, Romana Xerez, sublinha que a última geração está em desvantagem. “Houve uma grande transformação na habitação própria, uma transformação que é diferente entre gerações. O que podemos verificar é que a última geração, os chamados Millennials, que têm entre os 20 e os 38 anos, tem uma desvantagem no que toca à habitação própria.”

A investigadora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa explica que há dois fatores que justificam essa descida: a crise de 2008 e a aposta no arrendamento. “Isso foi um período que teve um efeito muito grande da crise de 2009 e, portanto, devemos analisar esse período com o impacto da crise, mas também com o período pré-crise. As alterações de vida que se verificaram em Portugal, com perda de rendimentos e aumento do desemprego".

"Por outro lado, há aqui também uma mudança de políticas no sentido de reforçar a importância do arrendamento. Houve também algumas alterações que surgiram nomeadamente no novo regime do arrendamento urbano, no sentido de aproximar as famílias do mercado do arrendamento”, sublinha a coordenadora deste estudo, que revela ainda que a despesa pública com a habitação diminuiu 42% entre 1995 e 2017.

Há ainda outro dado que pode explicar o nível baixo no acesso à habitação própria. Portugal é dos países da União Europeia que apresenta maior percentagem de jovens adultos a viver em casa dos pais. Está apenas atrás de Grécia e Itália, com 64%, acima da média europeia que é de 48%.

Perante os dados, Romana Xerez sublinha que este estudo vem confirmar que a falta de acesso à habitação é um novo risco social. “A questão dos riscos sociais não é nova, aquilo que mostra é o peso dos novos riscos sociais, que resultam de um conjunto de transformações económicas, políticas e sociais. Este acesso à habitação degradou-se, torna-se mais difícil para alguns grupos, não só na questão económica, mas também nas questões físicas de habitação”.

Este, que é o primeiro de um conjunto de estudos promovidos pela Fundação Calouste Gulbenkian com o objetivo de incentivar a justiça entre gerações, apresenta outras conclusões.

O peso da habitação na despesa anual média das famílias mais do que duplicou em 26 anos. Essa despesa representava, em 1990, apenas 12% dos encargos das famílias, e em 2016 já era de 32%. Ao olhar para as famílias mais jovens, é possível verificar que registaram uma quebra de riqueza líquida superior a 50%, entre 2010 e 2017.

Os encargos com empréstimos à habitação tendem a terminar já depois da idade da reforma. Com os dados de 2018 disponilizados pelo Banco de Portugal, é possível concluir que 30% das pessoas pagam os empréstimos já em idade de reforma e, de geração em geração, a tendência tende a piorar.

O estudo contou também com a colaboração das investigadoras Elvira Pereira e Francielli Dalprá Cardoso do Centro de Administração e Políticas Públicas do ISCSP da Universidade de Lisboa.

A pandemia veio piorar o cenário?

Este estudo sobre o acesso à habitação entre gerações é pioneiro em Portugal e os dados remontam a 2017, mas a coordenadora Romana Xerez não foge à questão sobre a atual pandemia.

Segundo Xerez, "esta geração mais nova já está em desvantagem em relação às gerações anteriores, nomeadamente a que denominamos de «baby boomers» e são estes também que surgem com mais desvantagem nestes riscos da pandemia, nomeadamente na sua precariedade laboral, na diminuição dos rendimentos e, eventualmente, no aumento do desemprego. Por isso o reforço da habitação como o novo risco social surge pelas consequências da pandemia, que pode estar ainda muito no início.”, conclui.



13.5.20

Efeitos da pandemia nas desigualdades de género e violência em estudo

Por Notícias ao Minuto

Os efeitos da pandemia sobre as desigualdades de género, nomeadamente na violência doméstica, vão ser estudados numa investigação académica com um apoio de 500 mil euros a ser lançado na quinta-feira, adiantou hoje o Governo.

Estudo será um projeto conjunto da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG).

"Para melhor atuarmos e tomarmos as medidas que minimizem os impactos da crise precisamos de conhecer a sua natureza e as suas implicações, neste caso, sobre as desigualdades de género, e por isso será amanhã [quinta-feira] lançado pela FCT e pela CIG um apoio de 500 mil euros dirigidos a projetos de investigação que analisem as consequências da pandemia nas desigualdades de género e na violência contra as mulheres", disse a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva.

A ministra e a sua equipa governativa estão hoje a ser ouvidas pela comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, tendo Mariana Vieira da Silva sublinhado que "as mulheres são dos grupos mais vulneráveis em face da atual crise", mais afetadas por baixos salários e vínculos precários e, "por isso, mais vulneráveis à crise que vivemos e que vamos viver".

4.11.14

Mais de 70% dos jovens portugueses com sinais de dependência da Internet

Samuel Silva, in Público on-line

Estudo do ISPA mostra também que 13% dos casos são graves, podendo implicar isolamento e comportamentos violentos.

Este é o retrato de uma geração que vive quase permanentemente ligada. Através dos computadores ou dos dispositivos móveis, os jovens e adolescentes nacionais passam muito do seu tempo na Internet. Um tempo excessivo em muitos casos. Um estudo do ISPA mostra que quase três quartos da população até aos 25 anos apresenta sinais de dependência do mundo digital. Em casos mais extremos, o vício do online pode implicar isolamento, comportamentos violentos e obrigar a tratamento.

“Percebemos que a dependência da Internet é generalizada”, sintetiza a investigadora da Unidade de Intervenção em Psicologia do ISPA – Instituto Universitário, Ivone Patrão, coordenadora deste estudo. Nos últimos dois anos, este trabalho passou por três fases de aplicação de questionários junto de jovens e adolescentes dos 14 aos 25 anos, envolvendo quase 900 inquiridos. Esta é, portanto, uma imagem com grande-angular do que está a acontecer em muitas casas.

Os exemplos recolhidos pelo PÚBLICO corroboram os resultados da investigação. Quase todos os casos partilham também o pedido para que seja mantida a reserva da identidade dos jovens envolvidos. As histórias repetem-se, porém, e soam familiares aos pais. Alguns adolescentes deixam para trás um percurso académico de bom nível para se fecharem no quarto a jogar computador dia e noite. Há amizades de infância que são postas de lado em detrimento do contacto online. O isolamento em relação à família, as mudanças de comportamento, os casos de violência inexplicável face ao insucesso num jogo digital ou à proibição de continuar ligado, são outros comportamentos comuns.

Os investigadores do ISPA também elencam alguns componentes-chave para identificar os casos de dependência da Internet numa espécie de retrato-tipo do jovem viciado no mundo online: grau elevado de importância conferido ao computador ou aos dispositivos móveis; sintomas de tolerância face ao uso; sintomas de abstinência face ao não uso (como irritabilidade, dores cabeça, agitação e por vezes agressividade) e, em casos mais extremos, recaída face às tentativas sucessivas para parar.

Os números a que chegou a equipa de Ivone Patrão no ISPA dão uma outra camada de leitura desta realidade. Há quase três quartos (73.3%) dos jovens que apresentam sintomas de viciação na Internet. Destes, 13% apresentam níveis severos de dependência, que se manifestam através dos comportamentos mais extremos descritos pelos pais e elencados pelos investigadores. Os próprios jovens parecem ter noção disto, uma vez que mais de metade (52,1%) dos inquiridos se percepciona como “dependentes da Internet”.

Maioria frequenta o secundário

Os investigadores do ISPA chegaram também a outro retrato-tipo: os jovens dependentes são sobretudo do sexo masculino, não têm relacionamento amoroso e frequentam o ensino secundário. Este foi um dos primeiros resultados a que a equipa da Unidade de Intervenção em Psicologia chegou, em 2012, quando aplicou um primeiro questionário – desenvolvido pela Nottingham Trent University, que é parceira deste trabalho – de modo a validá-lo para a realidade portuguesa. As conclusões iniciais motivaram a continuação da investigação nas duas fases seguintes, que agora são divulgadas publicamente.

Outros estudos recentes confirmam os sinais de uma geração cada vez mais dependente da tecnologia, levando mesmo a situações-limite em que “é posto em causa o bem-estar físico” dos jovens e adolescentes, conta a investigadora da Faculdade de Ciência Sociais da Universidade Nova de Lisboa, Cristina Ponte, que liderou os projectos EU Kids Online e, mais recentemente, Net Children Go Mobile.

Neste último trabalho, cujos resultados nacionais serão discutidos numa conferência no final do mês, 6% dos jovens admitem ter ficado “sem comer ou sem dormir por causa da Internet”, por exemplo. “Há uma pressão para estarem sempre ligados”, avalia esta especialista. Na sua investigação recolheu exemplos que atestam esta situação, como a de um menino de 12 anos que contava, por entre risos, que no smatphone e no tablet nunca se fica offline, por causa dos sinais sonoros com os alertas para as actualizações no email ou nas redes sociais. O rapaz dava também conta da forma como os amigos ficavam zangados se ele não respondesse rapidamente a alguma mensagem, por exemplo, mesmo no horário em que devia estar a dormir.

“Os jovens estão a usar demasiado as tecnologias. Quase minuto a minuto”, confirma Rosário Carmona, psicóloga, que tem tratado casos de dependência da Internet no Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil (Cadin), em Cascais. “Quando lhes pergunto se já foram ao email hoje, eles riem-se. Não foram ao email, porque não saíram do email”, ilustra.

Rosário Carmona tem lidado com os casos mais patológicos de dependência do mundo online, aqueles em que “a utilização da Internet se sobrepõe a outras dimensões da vida” e que estão sobretudo associados aos jogos multiplayer. “É um ciclo vicioso”, expõe. O jovem tem dificuldades em fazer amigos e por isso joga muito tempo. Torna-se cada vez melhor no jogo e prefere ficar em casa a jogar, em vez de sair para estar com amigos, a família ou mesmo ir à escola. “Todos procuramos aquelas situações em que somos mais competentes”, explica a psicóloga.

Dependência associada a depressão

Uma das principais conclusões a que chegou a equipa do ISPA no seu estudo sobre os usos da Internet foi a de que os jovens que apresentam sinais de dependência do mundo online têm também sintomas de isolamento e, por vezes, de depressão. Entre os inquiridos do estudo do ISPA que revelam sinais de dependência, quase um quarto (22,1%) apresenta elevados níveis de isolamento social. “Esta dependência está associada ao isolamento social, mas não está associada ao isolamento emocional”, adverte, porém, Ivone Patrão, coordenadora deste trabalho.

Estes são jovens isolados, mas que encontram nas conversas e nos encontros online “um escape”. Esta é, portanto, uma dependência que “traz uma mais-valia”, ainda que do ponto de vista psicológico não seja saudável, expõe a mesma especialista. “O desafio da adolescência é sair do núcleo familiar e passar o foco para o mundo social. Na Internet, tudo isto é mais fácil”, acrescenta Rosário Carmona, da Cadin. Os jovens têm a sensação de satisfazer online as suas necessidades de contacto social. A psicóloga encontra também entre os dependentes do mundo virtual com quem costuma lidar sintomas de isolamento ou depressão.

“Na prática clínica, estamos a perceber que a dependência não é causa, mas consequência”, diz. Quando um adolescente fica deprimido, por força de algum episódio escolar ou familiar, por exemplo, está a conseguir encontrar nas novas tecnologias um refúgio.

Por isso, a especialista não é apologista da solução mais comumente encontrada pelos pais para responder ao uso excessivo do computador pelos filhos e que é fruto de tensões familiares: retirar o computador ou limitar fortemente o acesso a ele. “O uso excessivo da Internet está a suprir uma outra necessidade do jovem. Se lhe tiramos o computador, ele fica no vazio. É preciso fazê-lo ganhar o gosto por actividades alternativas, antes de diminuir o tempo online”, defende a psicóloga que, recentemente, fez um estágio num centro especializado no tratamento de casos de dependência em Seul. Na Coreia do Sul, o problema tomou tal dimensão que o Ministério da Educação já promove a identificação precoce de crianças e jovens em risco e a realização de programas de prevenção.

Intervenção de prevenção

Por cá ainda não há nenhuma iniciativa do género. Esta é “uma área emergente”, classifica Ivone Patrão do ISPA, em que “importa intervir do ponto de vista preventivo”. “Temos cada fez mais pessoas com acesso a computador e na experiência clínica percebo que cada vez mais os adolescentes estão entregues a si próprios no uso do computador. Há uma necessidade de educar os jovens para a forma como podem fazer um uso saudável destes dispositivos”, propõe a investigadora.

A dependência da Internet é considerada uma dependência comportamental, sem substância. “As consultas que existem destinam-se a dependências de substâncias, como o álcool e as drogas”, explica Ivone Patrão, alertando para as limitações destas terapêuticas. O passo seguinte da investigação do ISPA passará, por isso, pelo desenvolvimento de formas de intervenção e terapêuticas para contrariar o vício do online nos jovens em Portugal. Noutros países, estão a ser dados passos na farmacologia, no sentido de desenvolver novas drogas que actuem sobre estes casos específicos.

Esta discussão foi alimentada pela nova edição do Manual de Diagnóstico das Doenças Mentais (DSM-V), lançada pela Associação Americana de Psiquiatria no ano passado, que inclui um anexo em que é recomendado o estudo e a compreensão dos critérios de diagnósticos das dependências comportamentais como as dos jogos e da Internet. Em Portugal, o Plano Nacional dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2013-2020, aprovado na semana passada pelo Conselho de Ministros, prevê o alargamento da área de intervenção do SICAD às dependências sem substância como o jogo ou a Internet.

20.3.14

Escola pública não garante mobilidade social nem dá garantias de ensinar os alunos a ler e a contar

Natália Faria, in Público on-line

A escola pública deixou de funcionar como “veículo” de mobilidade social. Tornou-se “criminosa, indigna e estúpida”. E a culpa, aponta Maria Filomena Mónica, autora de um livro sobre as salas de aula que é lançado nesta quinta-feira em Lisboa, é dos sucessivos ministros. “O melhor que tinham a fazer era começar por deixar os professores em paz”, aconselha

Há miúdos que ameaçam fisicamente os professores, alunas que são iniciadas no haxixe pelos próprios pais. Há disputas com telemóveis, contínuos que receiam os alunos. Há portões de escola que mais parecem “chaminés de fábrica”: “Hoje em dia um charro é tão comum como um cigarro nas escolas”, descreve uma aluna.

Há professores que gastam aulas a gritar e que depois desistem. E que, além de directores de turma, são classificadores de exames, coordenadores de disciplina e distribuidores do serviço lectivo e que, por isso, se desgastam em reuniões que lhes roubam tempo para as salas de aula. E há frases como esta, proferida por uma professora que, ao fim de páginas de diário em que dá conta da sua frenética batalha, desmorona: “Não tenho uma posição optimista face ao futuro das escolas públicas. Bem pelo contrário, temo que estejamos a assistir, a muito curto prazo, à sua decadência total”.

A socióloga Maria Filomena Mónica andou meses a procurar resposta para a pergunta "O que se passa dentro das nossas salas de aula?" e as respostas que obteve, a partir dos diários de duas professoras, quatro alunas e uma mãe, confirmaram os seus piores receios. “É uma escola criminosa, indigna, estúpida. Que não suscita a curiosidade para aprender, que não ensina as crianças a pensar. Nesse sentido, a escola tornou-se um desperdício de dinheiro”, diagnosticou ao PÚBLICO, a propósito do lançamento dos livros A sala de Aula e Diários de Uma Sala de Aula, que decorre esta quinta-feira, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, ambos editados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Para evitar mal-entendidos, a socióloga esclarece à partida que estudou a escola pública porque a quer melhor. “Os pais que não se convençam que aquilo só se passa nas escolas públicas. Conheço miúdas das privadas que me fariam relatos igualzinhos ou piores”, ressalva. E o que nos mostram os relatos que se estendem por aquelas centenas de páginas é o de uma escola de massas que perdeu a oportunidade de funcionar como “elevador social” das classes mais desfavorecidas. “Nos anos a seguir ao 25 de Abril, acreditava-se que a escola devia servir de instrumento de mobilidade social. A prova de que isso não funcionou é que continuamos com a maior taxa de desigualdade social da Europa: o rendimento médio dos 20% mais ricos é sete vezes superior ao dos 20% mais pobres, enquanto a média europeia é de quatro”, argumenta.

O pior é que nem enquanto transmissora do “saber ler e contar” a escola está a cumprir o seu papel. “A cultura que os alunos adquirem ao longo de 12 anos é má. Há a ideia de que a escola tem de dar coisas que os alunos compreendem facilmente, como as telenovelas, os discos da Taylor Swift ou os livros do Harry Potter. Simplesmente para isso eles não precisam da escola. Eles vão lá por si. E o resultado é que muitos dos jovens que frequentam a escolaridade obrigatória mal sabem ler e muito menos interpretar o que lêem ou construir frases com sujeito, predicado e complemento directo”, acusa a socióloga.

Não diziam palavrões nem cuspiam para o chão
Para ajudar a perceber como se chegou a este ponto, a socióloga recua várias décadas. Em 1926, havia cerca de 63% de analfabetos. Esses eram os tempos em que apenas 13% dos jovens permaneciam na escola após a quarta classe e em que os alunos “não diziam palavrões, não cuspiam no chão e mal levantavam os olhos quando eram chamados ao quadro”. Em 1974, a taxa de analfabetismo tinha descido aos 35% mas continuava a ser a mais elevada da Europa. Muitos alunos deixavam a escola aos nove, 10 anos. As universidades eram “uma ilha frequentada por privilegiados”. Quando o Estado Novo ruiu, nem as escolas nem os docentes foram preparados para acolher os alunos até então estranhos à escola. Hostis a regras, pouco propensos a qualquer tipo de actividade intelectual, postos perante professores “habituados a ensinar os filhos das classes médias”. Com o ministério da 5 de Outubro a debitar consecutivamente “leis, decretos e portarias que ninguém entendia, pela simples razão de que não eram inteligíveis”, a deserção das classes médias para o ensino particular que se seguiu “agravou os problemas”.

10.3.14

"Até a emigração se tornou precária”

Catarina Gomes, in Públio on-line

“Sentem-se ofendidos se os chamamos emigrantes. Vêem-se como expatriados, pessoas em trânsito, tudo menos emigrantes”, diz a antropóloga Marta Vilar Rosales.

Em termos de volume de emigração é consensual a ideia de que se voltou a números de saídas semelhantes aos da década de 1960, mas agora “a emigração é diferente". "Nesse tempo, quando se saía era para a vida, hoje em dia as saídas não têm a mesma estabilidade. Quando saem têm trabalhos precários, sazonais. Muitos dos que vão voltam”, afirma o coordenador do projecto de investigação Regresso ao futuro: a nova emigração e a relação com a sociedade portuguesa, João Peixoto.

O sociólogo do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa chama-lhes “movimentos itinerantes”, notando que “até a emigração se tornou precária”, querendo com esta expressão dizer que quem está num país muitas vezes já viveu noutro antes e, quando deixa de ter trabalho no sítio onde está, pode “reimigrar”. “Não há mais carreiras longas e trabalho para a vida toda”, a esse factor junta-se o facto de “muitas vezes os trabalhos mais precários serem para estrangeiros”.

Esse vai e vem nota-se. Entre 2001 e 2011 havia em Portugal 230 mil pessoas que tinham estado a viver fora mais de um ano, refere João Peixoto, que vai apresentar dados da investigação que é financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Neste universo estão também os emigrantes tradicionais que vêm passar a sua reforma a Portugal. Mas estes são uma minoria, representam cerca de um terço; os restantes são pessoas mais jovens que regressaram a Portugal. “O grupo onde há mais gente a entrar em Portugal que tinha estado lá fora têm entre 30 a 34 anos. Isto é uma novidade”.

“O que falta saber é por que voltam – “porque deixaram de ter trabalho? Porque deixaram cá família?” –, e se ficam em Portugal ou se voltam a sair.” João Peixoto diz que “a situação só não pode ser considerada mais dramática [em termos demográficos] porque as pessoas não vão para sempre. São razões para manter algum optimismo”.

Mas não foi apenas este aspecto que mudou. Quando o objecto de estudo são portugueses com habilitações mais altas que saíram do país, é delicado usar o termo “emigrante”, constata a investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Marta Vilar Rosales. Na investigação de que é coordenadora, Travessias do Atlântico: materialidade, movimentos contemporâneos e políticas de pertença, estão acompanhar portugueses que foram viver para o Rio de Janeiro e São Paulo, assim como brasileiros que vieram para Portugal.

A investigação, que é financiada pela FCT, ainda está no início mas uma coisa é certa: “sentem-se ofendidos se os chamamos de emigrantes. Vêem-se como expatriados, pessoas em trânsito, tudo menos emigrantes”, diz a antropóloga.
“É rara a família portuguesa que não tem um tio, um tio-avô emigrante. Há o estigma de ser emigrante para sobreviver”, diz.

“O conceito de emigração introduz a questão do determinismo e não de escolha. É para aquela pessoa que, coitada, teve que sair”. Quando se emigra “cada pessoa constrói uma história para fazer sentido para si, essa história do trânsito é muito valorizada. Falar de emigração atrapalha o discurso da mobilidade transnacional, da globalização e do cosmopolitismo”. acrescenta.


15.1.14

Quanto mais instruídos e ricos, menos solidários são os portugueses

Maria João Lopes, in Público on-line

Estudo da Universidade Católica Portuguesa e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano vai ser apresentado na quinta-feira e mostra ainda que pessoas que recebem mais de 4 mil euros por mês são tão infelizes como quem recebe menos de 500.

Os portugueses com mais habilitações e mais rendimentos são os que dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos. Esta é a apenas uma das conclusões do estudo da Universidade Católica Portuguesa e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano, que vai ser apresentado na quinta-feira em Mafra.

As conclusões do estudo Literacia social: os valores como fundamento de competência, que vai ser debatido na Conferência Internacional sobre Literacia Social e que contou com o apoio da União Europeia, preocupam o investigador Lourenço Xavier de Carvalho, uma vez que serão as pessoas com mais instrução as mais propensas a ocupar lugares de liderança.

“Quanto mais avançamos nos níveis de instrução, do 1º ciclo até ao ensino superior, a importância da justiça ou da solidariedade vai baixando progressivamente. São os mais instruídos e os mais ricos que desvalorizam a justiça e a solidariedade”, diz Lourenço Xavier de Carvalho, coordenador deste estudo que é também a tese de doutoramento em Ciências da Educação que apresentou na Universidade Católica em 2013.

Quando questionados sobre a importância de ajudar os outros, 86,5% das pessoas com o 1.º ciclo respondem afirmativamente, uma percentagem que baixa para 83,4% quando as pessoas têm o 2.º ciclo, para 73,5% quando têm o 3.º ciclo, que sobe ligeiramente para 76,2% quando possuem o secundário, desce para 59,2% quando têm bacharelato, ficando o valor mais baixo na fatia dos licenciados, mestres ou doutorados, com 53,1%.

A mesma pergunta cruzada com os níveis de rendimento revela que 86,4% das pessoas que ganham até 500 euros considera muito importante ajudar os outros, percentagem que vai baixando à medida que os rendimentos aumentam e que atinge o valor mais pequeno – 46,7% - quando chega ao grupo dos que ganham mais de 4 mil euros por mês.

No que toca, por exemplo, à importância dada a “lutar por uma causa justa” – o indicador usado para aferir a posição da justiça como valor social – conclui-se que os portugueses com mais instrução desvalorizam este aspecto. São as pessoas com o 2.º ciclo que mais valorizam a luta por uma causa justa (86,2%), ficando a fatia mais pequena (56,9%) para quem tem estudos superiores.

O estudo também indica que “as pessoas que têm muito baixos rendimentos, abaixo dos 500 euros, têm níveis de felicidade mais baixos” que “só são iguais aos dos níveis de rendimento mais elevados”: “Quem tem mais de 4 mil euros por mês é tão infeliz como quem tem menos de 500”, nota o investigador.

A explicação para estes dados poderá passar, segundo Lourenço Xavier de Carvalho, pela própria educação e formação que está a ser dada às pessoas: “Está associado a este fenómeno dos elevados rendimentos e dos elevados níveis de instrução serem um pouco contrários àquilo que é a harmonia social e o desenvolvimento pessoal”, explica Lourenço Xavier de Carvalho, insistindo que é preciso mudar o sentido da educação. “Continuamos a educar para o domínio material, para o domínio técnico, queremos formar profissionais competentes, que dominem bem as técnicas de cada área, e os currículos são cada vez mais técnicos. Mas na realidade não é isso que faz as pessoas mais ou menos felizes. É a dimensão humana, relacional, que está cada vez mais afastada dos currículos”, frisa, defendendo que “as prioridades do sistema educativo estão completamente erradas”.

Individualismo crescente
Para este investigador, quanto mais se avança na escala de instrução, mais os currículos são “técnicos” e “desprovidos da dimensão humana”: “As pessoas tornam-se cada vez mais competitivas, cada vez mais insensíveis ao sofrimento dos outros, cada vez se sentem menos responsáveis pelo bem comum. Acabam por ter as ferramentas de decisão, mas não têm as competências pessoais e sociais para serem bons líderes”, sublinha.

A leitura dos dados permite ainda verificar que, nos últimos dez anos, as pessoas tornaram-se mais tolerantes em relação grupos discriminados na sociedade portuguesa, mas ao mesmo tempo mais individualistas. De acordo com o estudo, na última década, os indicadores relativos ao individualismo mostram que cresceu em média 10%. “As pessoas são mais desconfiadas do que eram, acreditam mais naquelas expressões ‘cada um por si’ e ‘olho por olho, dente por dente’.

Rendimentos e estudos à parte, o investigador verificou, porém, que, quando questionada sobre os objectivos de vida, a generalidade das pessoas revela uma aproximação a valores como “a honra, o amar e ser amado e a família”. Para Lourenço Xavier de Carvalho, é o sistema educativo e a competição que estão a afastar as pessoas do que “realmente as faz felizes”.

Neste aspecto, para a generalidade das pessoas - e não especificamente no segmento das mais letradas e ricas - a família surge no topo: “Ter uma família sólida passou a ser o mais importante de todos os objectivos de vida”, diz o investigador, precisando que a família surge como a “instituição de mais confiança para as pessoas” e em relação à qual estão dispostas a fazer mais sacrifícios. Em média, mais de 90% dos inquiridos valoriza a família - percentagem que baixa para cerca de 80% quando os níveis de escolaridade são mais elevados.

Apesar do individualismo crescente, nos últimos dez anos a maioria das pessoas - e mais uma vez, o investigador não está centrado nas variáveis do estudo/rendimento - também se voltaram mais para a espiritualidade num sentido lato, fenómeno ao qual não será alheia a crise: “1999 era o auge da materialidade, do investimento, lembramo-nos da Expo 98 e dos grandes investimentos públicos, atirava-se dinheiro para cima das coisas, dos problemas, para os resolver”, recorda o investigador.

Dez anos depois, as transformações ocorridas levaram muitas pessoas a procurar outras referências: “Em 2009 batemos no fundo, estamos no pico da crise, é muito provável que a movimentação das pessoas para a maior valorização do imaterial tenha a ver com essa experiência de crise, de perceber que, afinal, houve aqui uma ilusão de que o dinheiro, o prestígio, o estatuto, o poder, poderia resolver os problemas todos. E afinal o que resolve os problemas é a proximidade à família, são as relações harmoniosas, amar e ser amado”, nota.

Na quinta-feira, o estudo vai ser debatido no Palácio Nacional de Mafra, numa conferência que vai juntar investigadores e peritos europeus, entre os quais a princesa Laurentien da Holanda, enviada especial da UNESCO em literacia para o desenvolvimento.