22.5.23

“Obrigar os padres a mentir sobre a sua vida sexual é uma forma de maus tratos”

Natália Faria, in Público online

O sociólogo italiano Marco Marzano diz que os seminários são “os locais onde os futuros padres aprendem a mentir” sobre a sua vida sexual. E explica por que não abdica a Igreja do celibato obrigatório

Por que razão é o celibato obrigatório dos padres uma questão tão estrutural na Igreja Católica? O que é que tem de mudar nos seminários, essas “fábricas” de “homens de Deus”, onde os padres aprendem a fingir que não têm vida sexual? Quantos vivem realmente de forma casta? E porque é que a Igreja receia ver entrar em colapso todo o seu edifício, se aceitar abdicar do celibato obrigatório? Algumas respostas a estas questões estão contidas no livro A Casta dos Castos – Os Padres, o Sexo e o Amor, da autoria do sociólogo italiano Marco Marzano que acabou de ser lançada pela editora Zigurate, depois de ter sido publicado em Itália e traduzido posteriormente para francês e para polaco. Ao longo de 176 páginas, o professor de Sociologia na Universidade de Bérgamo recolhe depoimentos de psicólogos, padres, ex-padres e mulheres que tiveram relações com padres para analisar a fundo as razões estruturais que alimentam os comportamentos sexuais desviantes de muitos clérigos. E conclui que, tanto como os padres abusadores, é a cultura clerical que deveria ser chamada a tribunal.

Porque é que a Igreja continua a defender com unhas e dentes o princípio organizacional do celibato eclesiástico obrigatório?
O celibato obrigatório foi introduzido na Idade Média e, ao longo do tempo, tornou-se na característica mais importante da organização católica, o seu principal princípio organizacional. A Igreja Católica é dominada e governada por padres do sexo masculino numa lógica fortemente hierarquizada e todos eles são supostamente castos. Este é o principal critério para organizar a instituição. O celibato surge hoje como aquilo que separa os clérigos das pessoas normais.

É uma suposta confirmação da superioridade dos padres relativamente à massa de pessoas normais?
Exactamente. Perante os crentes, eles apresentam-se como alguém superior, alguém que é capaz de evitar toda a actividade sexual. Eles pretendem não ter qualquer vida sexual como os restantes mortais, que se debatem com a sua vida amorosa, os seus casos. Dito de outro modo, apresentam-se como uma espécie de semideuses, alguém que está algures entre Deus e as pessoas normais. A lógica é que eles se sacrificam pela salvação do resto dos mortais. Claro que isso não é verdade. De todo.

Segundo esta lógica, assumir que os padres não conseguem, afinal, controlar os seus instintos sexuais impediria que continuassem a apresentar-se como membros de uma raça superior?
Provavelmente é isso que receiam o Papa e outros membros do topo da hierárquica católica. Têm medo de que, se renunciar ao celibato obrigatório, a Igreja perca o seu esplendor, o seu sentido de superioridade; deixe, no fundo, de funcionar como um instrumento de salvação da humanidade. É precisamente porque tem medo de perder o seu carácter sagrado que a Igreja Católica recusa a mudança. E penso que muito dificilmente a Igreja deixará cair o celibato obrigatório para os seus funcionários, porque o celibato está também ligado ao exercício de poder da organização sobre os seus padres: ao controlar a sua sexualidade, a Igreja consegue controlá-los mais facilmente, consegue, por exemplo, mudá-los de paróquia.
Os padres apresentam-se como uma espécie de semideuses, alguém que está algures entre Deus e as pessoas normais. A lógica é que eles se sacrificam pela salvação do resto dos mortais

Porque é que aponta o celibato como a principal causa da violência e dos abusos sexuais cometidos por clérigos?
Claro que não há uma correlação directa entre o celibato e os abusos sexuais, até porque mais de 90% dos padres não são abusadores. Mas penso que o celibato obrigatório contribui para as causas estruturais do abuso sexual. Basta lembrarmo-nos de que a maior parte dos padres, em consequência da formação que recebem no seminário, chegam aos 40 anos de idade sexualmente imaturos, quase infantis. E sabemos que a imaturidade sexual leva a cometer abusos sexuais.

Outra coisa é a solidão que é imposta aos padres. A maior parte vive vidas solitárias. Mesmo que tenham muitos relacionamentos sexuais, continuam muito solitários, o que também contribui para a desregulação sexual. Outra coisa que concorre para o favorecimento dos abusos é a familiaridade com o secretismo. A cultura clerical é fortemente marcada pelo secretismo que facilita o abuso sexual.

Portanto, não digo que haja uma relação directa entre o celibato obrigatório e os abusos sexuais, mas há claramente uma influência nada negligenciável, ainda mais porque o abuso sexual não é composto apenas por violação e violência. Cerca de 90% do abuso sexual é feito por toques, masturbação, coisas que não implicam necessariamente a penetração ou a violência física. E tudo isto é muito compatível com a forma como a Igreja encara a sexualidade, infelizmente. Penso que, se a Igreja abolisse o celibato obrigatório, assistiríamos a um declínio nos episódios de abuso sexual.

O retrato que traça dos seminários é devastador. Compara-os a “salas de treino” para a violência sexual e cita psicólogos que dizem que a Igreja é um extraordinário elevador social para pessoas medíocres...
Isso resulta do que os psicólogos que entrevistei – alguns dos quais padres e orientadores de seminários – descrevem. São eles que concluem que a maior parte dos seminaristas são pessoas muito frágeis e inseguras que procuram na Igreja Católica uma organização que lhes dê estabilidade e segurança. Os seminários funcionam como uma “instituição total”, que controla todos os aspectos da vida de quem os frequenta, e penso que não será necessário, para formar um novo padre, pô-lo numa espécie de prisão durante seis anos, separado do resto do mundo. Nos moldes actuais, os seminários são os locais onde os futuros padres aprendem a mentir, a encobrir os seus sentimentos verdadeiros, a sua orientação sexual e a sua identidade. Nos seminários, eles aprendem a como enganar a Igreja.
A hipocrisia é estrutural e endémica. A maior parte dos padres tem uma vida sexual, às vezes muito intensa

Não é algo redutora essa caracterização genérica dos seminaristas como rapazes que perderam o rumo e procuram desesperadamente alguma segurança existencial?
Não são todos assim, alguns seminaristas são pessoas com uma personalidade forte. Mas lembre-se de que me limitei a reproduzir o que vários psicólogos me disseram durante a entrevista para o livro. Um tinha trabalhado como orientador num seminário, portanto, é uma realidade que ele conhece bem. Nalguns casos, são psicólogos que também são padres. E provavelmente esta realidade está a agravar-se, porque o número de candidatos a seminaristas tem vindo a reduzir-se drasticamente, pelo que a Igreja Católica não escolhe nem expulsa seminaristas, tende antes a fazer um esforço para não perder ninguém.

Sustenta que enquanto no seminário a Igreja controla totalmente todos os aspectos da vida dos futuros padres, adiando o desenvolvimento de uma personalidade adulta, quando os seminaristas são disseminados pelas paróquias, a vigilância eclesial outrora tão invasiva desaparece quase por completo. Que problemas é que isto levanta?
Quando saem para as comunidades, muitos vivenciam um trauma, porque passam de um cenário em que são totalmente controlados e as suas vidas são totalmente organizadas por outra pessoa, como se fossem crianças num jardim-infantil, para uma situação em que usufruem de uma enorme liberdade. Para alguns deles, isto é um trauma. E em muitos casos a reacção é passarem a ter o maior número de relações que lhes é possível. A maior parte deles chega a esta fase sem as ferramentas que lhes permitiriam manter a sua sexualidade sob controlo. Eu fiquei impressionado pelo número de parceiros sexuais que alguns dos padres e ex-padres que entrevistei tiveram. É impressionante. Não é assim em todos os casos, mas em muitos casos isto decorre da imaturidade sexual. O que a Igreja lhes diz é: “Agora és adulto, deves saber comportar-te, nós deixaremos de te controlar”. Consequentemente, muitos desenvolvem uma vida dupla: uma pública e outra secreta.

Isto não configura uma espécie de maus tratos? Porque a Igreja esmaga e anula dimensões importantes da vida dos seus seminaristas...
Sim, é um tratamento cruel que visa apenas o interesse da organização. E é aí que está o verdadeiro sacrifício dos “funcionários” da Igreja. Não é deixar de “ter sexo”, é não poder revelar que o tem, falar sobre ele, vivê-lo de uma forma saudável. Todos construímos as nossas relações familiares e amorosas e os padres estão impedidos de o fazer. E, sim, é uma forma de crueldade praticada para defender os interesses da organização. Os padres recebem tudo (um salário, alimentação, alojamento e uma vida tranquila e com imensas facilidades), mas, em troca, têm de manter a sua vida interior totalmente secreta, ficam obrigados a parecer uma pessoa casta e assexuada. E obrigar os padres a mentir sobre a sua vida sexual é uma forma de maus tratos, efectivamente, e não muito diferente das que vivenciam nos seminários, que são instituições totais, tal como o Exército, os hospitais, as prisões. A lógica é a mesma em todas estas instituições: a organização primeiro.

Porque é que entende que o encobrimento sistemático de padres abusadores é uma espécie de emanação da própria cultura organizacional da Igreja que indirectamente favorece a prática dos abusos?
Quando os bispos e outros responsáveis hierárquicos católicos encobrem os abusos, a primeira preocupação deles é não manchar a imagem pública da organização e só depois proteger as pessoas pelas quais são responsáveis. Provavelmente, isto vai acabar, porque se tornou evidente que a Igreja Católica está a arriscar muitíssimo se persistir no encobrimento. Mas, mesmo que os bispos deixem de encobrir os padres abusadores, eles vão continuar a cometer estes crimes.

Não resolveremos estes problemas, mesmo com a maior colaboração da Igreja, porque a verdadeira causa disto não está apenas nas pessoas (claro que está também nas pessoas porque volto a lembrar que nem todos os padres são abusadores), mas a origem destes abusos é, em muitos casos, estrutural, isto é, a razão profunda pela qual muitos padres cometem estes crimes emana deste secretismo, do segredo e da hipocrisia que a Igreja impõe em torno do sexo.

A hipocrisia é estrutural e endémica. A maior parte dos padres tem uma vida sexual, às vezes muito intensa, com muitos encontros e muitas relações, é, aliás, uma vida sexual bastante desordenada, mas eles são obrigados a fingir que não têm, negam-no totalmente. Portanto, o valor da hipocrisia é das coisas mais importantes que eles aprendem nos seminários. Não é que eles não possam “ter sexo”, a questão é que são ensinados e obrigados a mentir sobre isso e a manter a sua vida sexual completamente subterrânea.
O Papa Francisco confirmou há vários anos, num discurso vertido depois para um documento oficial, que o acesso aos sacramentos católicos devia ser negado aos homossexuais. Ora, as estruturas da Igreja Católica estão cheias de gays, são imensos, e, portanto, declara-se uma coisa e pratica-se o seu contrário.
É por isso que conclui que, tanto como os padres abusivos, é a cultura clerical que deveria ser apresentada perante os tribunais?
Exacto. Não nego que haja responsabilidades individuais, e não nego que os padres abusadores devem ser levados a tribunal, mas, se queremos resolver este problema, temos de mudar a regra do celibato obrigatório.

Não é exagerado pensar-se que o fim do celibato obrigatório iria provocar o colapso da Igreja Católica?
É nisso que o Papa e muitos outros responsáveis hierárquicos de topo da igreja Católica acreditam. É esse é o grande receio deles. Se eles abolissem o celibato obrigatório, teriam de mudar tudo: deixariam de poder negar o acesso das mulheres, teriam de transformar completamente a Igreja Católica…. Seria uma mudança equiparável à encetada pela Reforma Protestante de 1517, de Martinho Lutero. Todo o edifício está construído sobre o princípio do celibato obrigatório; se tirar essa pedra, o edifício entrará em colapso, segundo eles.

Não acha que essa mudança é inescapável ainda no decurso das nossas vidas?
Não. Não há razão para a Igreja Católica se prestar a essa mudança e não há nenhuma espécie de movimento forte que a reclame. Se eles não querem mudar e não estão a ser forçados a mudar, porque haveriam de mudar? O Papa Francisco teve a oportunidade perfeita para iniciar essa mudança durante o Sínodo da Amazónia, mas ele optou aí por recusar a ordenação de homens casados como forma de responder à falta de padres naquela região do mundo. Ele disse, aliás, que nunca o faria, mesmo naquela situação peculiar em que não há padres suficientes e em que há distâncias gigantescas entre paróquias. Ele disse que não, alegando que a Igreja não está preparada para isso. E eu entendo, apesar de não concordar.

Mas esta ocultação que pende sobre a vida sexual dos padres católicos é sustentável e culturalmente aceitável nos dias que correm?
Desde logo, livros como o meu seriam impensáveis há 20 ou 30 anos. E, provavelmente, nas nossas sociedades democráticas, tornar-se-á muito mais difícil manter esta vida escondida e continuar a abafar a publicação das várias notícias sobre o comportamento sexual dos padres. Por isso, diria que se vai tornar difícil manter esta verdade escondida.

O Papa vem defendendo uma política de “total transparência” em relação aos abusos…
Isso são palavras, meras palavras. Por exemplo, o Papa Francisco confirmou há vários anos, num discurso vertido depois para um documento oficial, que o acesso aos sacramentos católicos deveria ser negado aos homossexuais. Ora, as estruturas da Igreja Católica estão cheias de gays, são imensos, e, portanto, declara-se uma coisa e pratica-se o seu contrário, pelo que a transparência de que falam não é possível. Porque os padres são seres humanos, eles têm desejo sexual, querem ser amados, “ter sexo”, tal como os restantes seres humanos. Não há qualquer diferença. E ser casto, renunciar à vida sexual e amorosa, não é algo que possa ser ensinado.

Como vê a Igreja Católica daqui a dez ou 20 anos?
Penso que a Igreja estará bastante bem, para ser honesto. Claro que está a sofrer e a ser afectada pela secularização no Ocidente, e por isso está a perder algum do seu poder e dos seus crentes, provavelmente menos que os anglicanos e os protestantes, mas isso não é verdade noutras partes do mundo. Em África e na Ásia, a Igreja Católica está a crescer. Por isso, penso que não mudará grande coisa em duas décadas.

Mas a Igreja não está a perder a sua credibilidade por causa da crise desencadeada pelos abusos sexuais de menores?
Penso que sobreviverá, porque eles vão deixar de encobrir os padres que cometem abusos, pelo menos em Itália, onde os bispos estão a dizer aos seus padres que não os protegerão mais se eles cometerem estes crimes. Portanto, os padres estão a ser aconselhados a ter cuidado porque, se forem apanhados, a Igreja não permanecerá do lado deles. E com isto a Igreja está, de certa maneira, a tentar auto-ilibar-se destes comportamentos. Não penso que a Igreja esteja acabada, ela continua viva e continua a ser uma das organizações mais poderosas a nível mundial, em todos os campos, do económico ao político. Por isso, a Igreja irá sobreviver.

Vejo que está muito céptico quanto à possibilidade de o Papa Francisco mudar alguma coisa no comportamento e na doutrina da Igreja...
Não o vejo realmente interessado em mudar as coisas. Escrevi outro livro sobre isso, chamado La Chiesa Immobile. Francesco e la Rivoluzione Mancata, onde defendo que ele não é revolucionário. Como poderia um Papa ser revolucionário? Ele está empenhado em manter a instituição. Vejamos a questão da homossexualidade: se a Igreja reconhecesse a possibilidade de acesso aos sacramentos, essa mudança seria provavelmente bem acolhida no Ocidente, mas levantaria inúmeros problemas em África ou na Ásia e mesmo nalgumas partes da América. É um equilíbrio muito delicado. Quando se muda algo, arrisca-se o colapso. Eu, pessoalmente, ficaria feliz com mudanças neste campo, mas não acredito que tal vá acontecer.