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2.8.23

Mais de 200 pessoas contribuíram para cartazes que lembram abusos sexuais na Igreja

Ana Isabel Ribeiro e Samuel Santos, in Público online

Os cartazes foram instalados em Loures, Algés e na Alameda, em Lisboa, depois de uma recolha de fundos que superou as expectativas.

Lisboa acordou com três cartazes que lembram as conclusões do relatório sobre os abusos sexuais de crianças na Igreja Católica, uma crítica ao "silêncio ensurdecedor" quanto a este assunto durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

A ideia surgiu na quarta-feira passada, 26 de Julho, enquanto se ultimavam os preparativos para o encontro de jovens católicos. “Desde que saiu o relatório da comissão independente (ICAR) que me sinto revoltada com esta questão. Apesar de a jornada estar a acontecer e haver uma espécie de lavagem de imagem da igreja católica, nós não esquecemos as vítimas”, começa por explicar Telma Tavares, designer e autora dos cartazes.

As imagens, mais tarde convertidas em outdoors gigantes, foram a forma que encontrou para não deixar o tema cair em esquecimento e homenagear as vítimas. Partilhou-as no Twitter e encontrou o apoio de várias pessoas que se juntaram ao projecto This Is Our Memorial ("este é o nosso memorial", em português). No início, pensou que as ilustrações ficariam apenas nas redes sociais ou, quem sabe, estampadas em t-shirts até Bruno Rodrigues, outro membro da iniciativa cidadã que começou no Twitter, ter sugerido fazer um crowdfunding para “criar um cartaz e afixá-lo na 2ª circular”, recorda Telma Tavares.

Os outdoors foram instalados depois de duas campanhasde angariação de fundos organizadas por um grupo de cidadãos. Ainda que a ideia fosse juntar verbas para afixar um outdoor, a primeira campanha, iniciada a 27 de Julho, superou a meta dos 950 euros. Em menos de um dia, 216 pessoas ajudaram a angariar 2226 euros. Assim, foi lançado um segundo crowfunding, a 29 de Julho, para acumular mais 700 euros e preparar a afixação de um terceiro cartaz. Uma vez mais, o objectivo foi superado, com 77 pessoas a doarem, no total, 760 euros.
Os cartazes com as cores da JMJ – vermelho, verde e amarelo - foram afixados em Loures, Algés e na Alameda com o número de crianças que membros da igreja abusaram sexualmente, segundo a comissão independente (ICAR) que investigou os casos. Cada ponto vermelho representa uma pessoa. A mensagem está em inglês para que todos os peregrinos a consigam perceber: "Mais de 4800 crianças" foram abusadas por elementos da igreja, lê-se.

Esta manhã foram vistos elementos da Polícia Municipal de Lisboa junto aos cartazes instalados pela iniciativa cidadã This Is Our Memorial. Sobre esta questão, a PSP admitiu que, para este dia, tem outras prioridades e remeteu mais esclarecimentos para a câmara. Ao P3, fonte da PSP acrescentou ainda que "a opinião pública é livre" e, uma vez que os cartazes "não instigam à violência", será apenas verificado o cumprimento dos "formalismos de pagamento e comunicação" à Câmara Municipal de Lisboa, processos inscritos na legislação municipal.

Telma Tavares reforça que os cartazes são mensagens políticas e, como tal, não precisam de licença. Mesmo assim, e como o grupo receava que fossem removidos, contactaram a autarquia de Lisboa dia 31 de Julho a fim de pedir autorização, mas a resposta continua pendente. A par disto, preencheram questionários de licenças online mas, na opinião da designer, “não estavam preparados para pedidos particulares”.

O projecto This Is Our Memorial, um grupo de cidadãos que se diz "com diversos credos", critica as indecisões sobre o memorial em homenagem às vítimas de abuso sexual. "As declarações públicas de elementos envolvidos na organização da JMJ, e até do Presidente da República, vão desde a minimização das vítimas até ao assumir do 'desconforto' com a ideia de um memorial", lê-se no site.

“É uma forma de trazer tudo ao de cima e lembrar isso neste período em que há muita visibilidade na igreja católica portuguesa devido a este evento internacional. Queremos que os peregrinos vejam o que se passa em Portugal há vários anos e que nada mudou”, acrescenta Telma Tavares.
Fornecedor recusou fazer cartaz “anti-religioso"

Apesar da rápida adesão à recolha de fundos, o grupo teve dificuldade em encontrar empresas dispostas a fazer os cartazes. Os fornecedores teriam de estar sediados nos três locais onde decorre a JMJ, uma vez que iriam colocar os cartazes na madrugada desta quarta-feira. Conseguiram que duas empresas aceitassem o trabalho, mas, no final, apenas uma “cumpriu a palavra até ao fim”.

“Houve outro fornecedor que, na sexta-feira, aceitou a adjudicação do trabalho, colocou em produção, mas na segunda-feira ao final do dia recusou-se a fazer os cartazes porque a mensagem estava em inglês e disse que isso era ilegal, o que é mentira. É possível ter cartazes em inglês desde que o público-alvo seja estrangeiro, o que é o caso”, explica Telma Tavares, acrescentando que consultou advogados a propósito do comentário do dono da empresa cujo nome prefere não revelar.

No entanto, este não foi o único motivo de recusa. Segundo a mesma, o fornecedor disse ainda que o cartaz era “anti-religioso” e que ia contra os estatutos da empresa. A par disto, afirmou que não tinha disponibilidade para executar o trabalho, uma vez que a equipa estava de férias.

“Acabou por boicotar o cartaz de Loures, mas acabamos por arranjar outro e ter um cartaz perto do tribunal”, adianta. O local, revela, foi estrategicamente escolhido para assinalar "crimes que ficaram por julgar".

Apesar do esforço para alertar para a situação, os promotores da iniciativa lembram que "nada poderá reparar a experiência e a vida" das vítimas. Por isso, reforçam, assumem a missão de "denunciar o silêncio ensurdecedor". No site do This Is Our Memorial também são disponibilizados os contactos de várias associações de apoio a vítimas de abuso sexual.

“Acho que há aqui muita gente que, tal como nós, está revoltada por não ter acontecido justiça. Parece que os membros da igreja são intocáveis. Queremos lembrar que estas vítimas existem, que não tiveram indemnizações, não tiveram um memorial, o que é extremamente injusto e estamos a fazer isto por elas”, conclui Telma Tavares.
Durante a semana em Lisboa, o Papa Francisco irá reunir-se com vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica. O pontífice aterrou em Portugal na manhã desta quarta-feira.

22.5.23

“Obrigar os padres a mentir sobre a sua vida sexual é uma forma de maus tratos”

Natália Faria, in Público online

O sociólogo italiano Marco Marzano diz que os seminários são “os locais onde os futuros padres aprendem a mentir” sobre a sua vida sexual. E explica por que não abdica a Igreja do celibato obrigatório

Por que razão é o celibato obrigatório dos padres uma questão tão estrutural na Igreja Católica? O que é que tem de mudar nos seminários, essas “fábricas” de “homens de Deus”, onde os padres aprendem a fingir que não têm vida sexual? Quantos vivem realmente de forma casta? E porque é que a Igreja receia ver entrar em colapso todo o seu edifício, se aceitar abdicar do celibato obrigatório? Algumas respostas a estas questões estão contidas no livro A Casta dos Castos – Os Padres, o Sexo e o Amor, da autoria do sociólogo italiano Marco Marzano que acabou de ser lançada pela editora Zigurate, depois de ter sido publicado em Itália e traduzido posteriormente para francês e para polaco. Ao longo de 176 páginas, o professor de Sociologia na Universidade de Bérgamo recolhe depoimentos de psicólogos, padres, ex-padres e mulheres que tiveram relações com padres para analisar a fundo as razões estruturais que alimentam os comportamentos sexuais desviantes de muitos clérigos. E conclui que, tanto como os padres abusadores, é a cultura clerical que deveria ser chamada a tribunal.

Porque é que a Igreja continua a defender com unhas e dentes o princípio organizacional do celibato eclesiástico obrigatório?
O celibato obrigatório foi introduzido na Idade Média e, ao longo do tempo, tornou-se na característica mais importante da organização católica, o seu principal princípio organizacional. A Igreja Católica é dominada e governada por padres do sexo masculino numa lógica fortemente hierarquizada e todos eles são supostamente castos. Este é o principal critério para organizar a instituição. O celibato surge hoje como aquilo que separa os clérigos das pessoas normais.

É uma suposta confirmação da superioridade dos padres relativamente à massa de pessoas normais?
Exactamente. Perante os crentes, eles apresentam-se como alguém superior, alguém que é capaz de evitar toda a actividade sexual. Eles pretendem não ter qualquer vida sexual como os restantes mortais, que se debatem com a sua vida amorosa, os seus casos. Dito de outro modo, apresentam-se como uma espécie de semideuses, alguém que está algures entre Deus e as pessoas normais. A lógica é que eles se sacrificam pela salvação do resto dos mortais. Claro que isso não é verdade. De todo.

Segundo esta lógica, assumir que os padres não conseguem, afinal, controlar os seus instintos sexuais impediria que continuassem a apresentar-se como membros de uma raça superior?
Provavelmente é isso que receiam o Papa e outros membros do topo da hierárquica católica. Têm medo de que, se renunciar ao celibato obrigatório, a Igreja perca o seu esplendor, o seu sentido de superioridade; deixe, no fundo, de funcionar como um instrumento de salvação da humanidade. É precisamente porque tem medo de perder o seu carácter sagrado que a Igreja Católica recusa a mudança. E penso que muito dificilmente a Igreja deixará cair o celibato obrigatório para os seus funcionários, porque o celibato está também ligado ao exercício de poder da organização sobre os seus padres: ao controlar a sua sexualidade, a Igreja consegue controlá-los mais facilmente, consegue, por exemplo, mudá-los de paróquia.
Os padres apresentam-se como uma espécie de semideuses, alguém que está algures entre Deus e as pessoas normais. A lógica é que eles se sacrificam pela salvação do resto dos mortais

Porque é que aponta o celibato como a principal causa da violência e dos abusos sexuais cometidos por clérigos?
Claro que não há uma correlação directa entre o celibato e os abusos sexuais, até porque mais de 90% dos padres não são abusadores. Mas penso que o celibato obrigatório contribui para as causas estruturais do abuso sexual. Basta lembrarmo-nos de que a maior parte dos padres, em consequência da formação que recebem no seminário, chegam aos 40 anos de idade sexualmente imaturos, quase infantis. E sabemos que a imaturidade sexual leva a cometer abusos sexuais.

Outra coisa é a solidão que é imposta aos padres. A maior parte vive vidas solitárias. Mesmo que tenham muitos relacionamentos sexuais, continuam muito solitários, o que também contribui para a desregulação sexual. Outra coisa que concorre para o favorecimento dos abusos é a familiaridade com o secretismo. A cultura clerical é fortemente marcada pelo secretismo que facilita o abuso sexual.

Portanto, não digo que haja uma relação directa entre o celibato obrigatório e os abusos sexuais, mas há claramente uma influência nada negligenciável, ainda mais porque o abuso sexual não é composto apenas por violação e violência. Cerca de 90% do abuso sexual é feito por toques, masturbação, coisas que não implicam necessariamente a penetração ou a violência física. E tudo isto é muito compatível com a forma como a Igreja encara a sexualidade, infelizmente. Penso que, se a Igreja abolisse o celibato obrigatório, assistiríamos a um declínio nos episódios de abuso sexual.

O retrato que traça dos seminários é devastador. Compara-os a “salas de treino” para a violência sexual e cita psicólogos que dizem que a Igreja é um extraordinário elevador social para pessoas medíocres...
Isso resulta do que os psicólogos que entrevistei – alguns dos quais padres e orientadores de seminários – descrevem. São eles que concluem que a maior parte dos seminaristas são pessoas muito frágeis e inseguras que procuram na Igreja Católica uma organização que lhes dê estabilidade e segurança. Os seminários funcionam como uma “instituição total”, que controla todos os aspectos da vida de quem os frequenta, e penso que não será necessário, para formar um novo padre, pô-lo numa espécie de prisão durante seis anos, separado do resto do mundo. Nos moldes actuais, os seminários são os locais onde os futuros padres aprendem a mentir, a encobrir os seus sentimentos verdadeiros, a sua orientação sexual e a sua identidade. Nos seminários, eles aprendem a como enganar a Igreja.
A hipocrisia é estrutural e endémica. A maior parte dos padres tem uma vida sexual, às vezes muito intensa

Não é algo redutora essa caracterização genérica dos seminaristas como rapazes que perderam o rumo e procuram desesperadamente alguma segurança existencial?
Não são todos assim, alguns seminaristas são pessoas com uma personalidade forte. Mas lembre-se de que me limitei a reproduzir o que vários psicólogos me disseram durante a entrevista para o livro. Um tinha trabalhado como orientador num seminário, portanto, é uma realidade que ele conhece bem. Nalguns casos, são psicólogos que também são padres. E provavelmente esta realidade está a agravar-se, porque o número de candidatos a seminaristas tem vindo a reduzir-se drasticamente, pelo que a Igreja Católica não escolhe nem expulsa seminaristas, tende antes a fazer um esforço para não perder ninguém.

Sustenta que enquanto no seminário a Igreja controla totalmente todos os aspectos da vida dos futuros padres, adiando o desenvolvimento de uma personalidade adulta, quando os seminaristas são disseminados pelas paróquias, a vigilância eclesial outrora tão invasiva desaparece quase por completo. Que problemas é que isto levanta?
Quando saem para as comunidades, muitos vivenciam um trauma, porque passam de um cenário em que são totalmente controlados e as suas vidas são totalmente organizadas por outra pessoa, como se fossem crianças num jardim-infantil, para uma situação em que usufruem de uma enorme liberdade. Para alguns deles, isto é um trauma. E em muitos casos a reacção é passarem a ter o maior número de relações que lhes é possível. A maior parte deles chega a esta fase sem as ferramentas que lhes permitiriam manter a sua sexualidade sob controlo. Eu fiquei impressionado pelo número de parceiros sexuais que alguns dos padres e ex-padres que entrevistei tiveram. É impressionante. Não é assim em todos os casos, mas em muitos casos isto decorre da imaturidade sexual. O que a Igreja lhes diz é: “Agora és adulto, deves saber comportar-te, nós deixaremos de te controlar”. Consequentemente, muitos desenvolvem uma vida dupla: uma pública e outra secreta.

Isto não configura uma espécie de maus tratos? Porque a Igreja esmaga e anula dimensões importantes da vida dos seus seminaristas...
Sim, é um tratamento cruel que visa apenas o interesse da organização. E é aí que está o verdadeiro sacrifício dos “funcionários” da Igreja. Não é deixar de “ter sexo”, é não poder revelar que o tem, falar sobre ele, vivê-lo de uma forma saudável. Todos construímos as nossas relações familiares e amorosas e os padres estão impedidos de o fazer. E, sim, é uma forma de crueldade praticada para defender os interesses da organização. Os padres recebem tudo (um salário, alimentação, alojamento e uma vida tranquila e com imensas facilidades), mas, em troca, têm de manter a sua vida interior totalmente secreta, ficam obrigados a parecer uma pessoa casta e assexuada. E obrigar os padres a mentir sobre a sua vida sexual é uma forma de maus tratos, efectivamente, e não muito diferente das que vivenciam nos seminários, que são instituições totais, tal como o Exército, os hospitais, as prisões. A lógica é a mesma em todas estas instituições: a organização primeiro.

Porque é que entende que o encobrimento sistemático de padres abusadores é uma espécie de emanação da própria cultura organizacional da Igreja que indirectamente favorece a prática dos abusos?
Quando os bispos e outros responsáveis hierárquicos católicos encobrem os abusos, a primeira preocupação deles é não manchar a imagem pública da organização e só depois proteger as pessoas pelas quais são responsáveis. Provavelmente, isto vai acabar, porque se tornou evidente que a Igreja Católica está a arriscar muitíssimo se persistir no encobrimento. Mas, mesmo que os bispos deixem de encobrir os padres abusadores, eles vão continuar a cometer estes crimes.

Não resolveremos estes problemas, mesmo com a maior colaboração da Igreja, porque a verdadeira causa disto não está apenas nas pessoas (claro que está também nas pessoas porque volto a lembrar que nem todos os padres são abusadores), mas a origem destes abusos é, em muitos casos, estrutural, isto é, a razão profunda pela qual muitos padres cometem estes crimes emana deste secretismo, do segredo e da hipocrisia que a Igreja impõe em torno do sexo.

A hipocrisia é estrutural e endémica. A maior parte dos padres tem uma vida sexual, às vezes muito intensa, com muitos encontros e muitas relações, é, aliás, uma vida sexual bastante desordenada, mas eles são obrigados a fingir que não têm, negam-no totalmente. Portanto, o valor da hipocrisia é das coisas mais importantes que eles aprendem nos seminários. Não é que eles não possam “ter sexo”, a questão é que são ensinados e obrigados a mentir sobre isso e a manter a sua vida sexual completamente subterrânea.
O Papa Francisco confirmou há vários anos, num discurso vertido depois para um documento oficial, que o acesso aos sacramentos católicos devia ser negado aos homossexuais. Ora, as estruturas da Igreja Católica estão cheias de gays, são imensos, e, portanto, declara-se uma coisa e pratica-se o seu contrário.
É por isso que conclui que, tanto como os padres abusivos, é a cultura clerical que deveria ser apresentada perante os tribunais?
Exacto. Não nego que haja responsabilidades individuais, e não nego que os padres abusadores devem ser levados a tribunal, mas, se queremos resolver este problema, temos de mudar a regra do celibato obrigatório.

Não é exagerado pensar-se que o fim do celibato obrigatório iria provocar o colapso da Igreja Católica?
É nisso que o Papa e muitos outros responsáveis hierárquicos de topo da igreja Católica acreditam. É esse é o grande receio deles. Se eles abolissem o celibato obrigatório, teriam de mudar tudo: deixariam de poder negar o acesso das mulheres, teriam de transformar completamente a Igreja Católica…. Seria uma mudança equiparável à encetada pela Reforma Protestante de 1517, de Martinho Lutero. Todo o edifício está construído sobre o princípio do celibato obrigatório; se tirar essa pedra, o edifício entrará em colapso, segundo eles.

Não acha que essa mudança é inescapável ainda no decurso das nossas vidas?
Não. Não há razão para a Igreja Católica se prestar a essa mudança e não há nenhuma espécie de movimento forte que a reclame. Se eles não querem mudar e não estão a ser forçados a mudar, porque haveriam de mudar? O Papa Francisco teve a oportunidade perfeita para iniciar essa mudança durante o Sínodo da Amazónia, mas ele optou aí por recusar a ordenação de homens casados como forma de responder à falta de padres naquela região do mundo. Ele disse, aliás, que nunca o faria, mesmo naquela situação peculiar em que não há padres suficientes e em que há distâncias gigantescas entre paróquias. Ele disse que não, alegando que a Igreja não está preparada para isso. E eu entendo, apesar de não concordar.

Mas esta ocultação que pende sobre a vida sexual dos padres católicos é sustentável e culturalmente aceitável nos dias que correm?
Desde logo, livros como o meu seriam impensáveis há 20 ou 30 anos. E, provavelmente, nas nossas sociedades democráticas, tornar-se-á muito mais difícil manter esta vida escondida e continuar a abafar a publicação das várias notícias sobre o comportamento sexual dos padres. Por isso, diria que se vai tornar difícil manter esta verdade escondida.

O Papa vem defendendo uma política de “total transparência” em relação aos abusos…
Isso são palavras, meras palavras. Por exemplo, o Papa Francisco confirmou há vários anos, num discurso vertido depois para um documento oficial, que o acesso aos sacramentos católicos deveria ser negado aos homossexuais. Ora, as estruturas da Igreja Católica estão cheias de gays, são imensos, e, portanto, declara-se uma coisa e pratica-se o seu contrário, pelo que a transparência de que falam não é possível. Porque os padres são seres humanos, eles têm desejo sexual, querem ser amados, “ter sexo”, tal como os restantes seres humanos. Não há qualquer diferença. E ser casto, renunciar à vida sexual e amorosa, não é algo que possa ser ensinado.

Como vê a Igreja Católica daqui a dez ou 20 anos?
Penso que a Igreja estará bastante bem, para ser honesto. Claro que está a sofrer e a ser afectada pela secularização no Ocidente, e por isso está a perder algum do seu poder e dos seus crentes, provavelmente menos que os anglicanos e os protestantes, mas isso não é verdade noutras partes do mundo. Em África e na Ásia, a Igreja Católica está a crescer. Por isso, penso que não mudará grande coisa em duas décadas.

Mas a Igreja não está a perder a sua credibilidade por causa da crise desencadeada pelos abusos sexuais de menores?
Penso que sobreviverá, porque eles vão deixar de encobrir os padres que cometem abusos, pelo menos em Itália, onde os bispos estão a dizer aos seus padres que não os protegerão mais se eles cometerem estes crimes. Portanto, os padres estão a ser aconselhados a ter cuidado porque, se forem apanhados, a Igreja não permanecerá do lado deles. E com isto a Igreja está, de certa maneira, a tentar auto-ilibar-se destes comportamentos. Não penso que a Igreja esteja acabada, ela continua viva e continua a ser uma das organizações mais poderosas a nível mundial, em todos os campos, do económico ao político. Por isso, a Igreja irá sobreviver.

Vejo que está muito céptico quanto à possibilidade de o Papa Francisco mudar alguma coisa no comportamento e na doutrina da Igreja...
Não o vejo realmente interessado em mudar as coisas. Escrevi outro livro sobre isso, chamado La Chiesa Immobile. Francesco e la Rivoluzione Mancata, onde defendo que ele não é revolucionário. Como poderia um Papa ser revolucionário? Ele está empenhado em manter a instituição. Vejamos a questão da homossexualidade: se a Igreja reconhecesse a possibilidade de acesso aos sacramentos, essa mudança seria provavelmente bem acolhida no Ocidente, mas levantaria inúmeros problemas em África ou na Ásia e mesmo nalgumas partes da América. É um equilíbrio muito delicado. Quando se muda algo, arrisca-se o colapso. Eu, pessoalmente, ficaria feliz com mudanças neste campo, mas não acredito que tal vá acontecer.



30.3.23

Homem de confiança do Papa demite-se da Comissão Pontifícia para a Protecção dos Menores

Natália Faria, in Público

Hans Zollner acusa a falta de transparência da comissão que integrou nos últimos nove anos, numa nota publicada no Twitter.

O padre jesuíta alemão Hans Zollner, que tem sido um dos homens de confiança do Papa na gestão dos casos de abuso sexual de menores dentro da Igreja Católica, demitiu-se do cargo que ocupava como membro da Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores, criada em 2014 por iniciativa directa de Francisco.

Numa nota divulgada no Twitter, Hans Zollner diz que o seu pedido de demissão foi aceite pelo Papa no dia 14 de Março e justifica o seu afastamento de um cargo que ocupou nos últimos nove anos com o facto de, na sua opinião, aquela comissão estar a falhar, nomeadamente no seu dever de transparência e prestação de contas.

“Tem havido falta de clareza quanto ao processo de selecção de membros e funcionários e quanto às suas funções e responsabilidades”, acusa aquele que é considerado como um dos maiores peritos no campo da salvaguarda e protecção dos menores dentro da Igreja. “Estou igualmente preocupado com a falta de transparência financeira, que considero inadequada. É fundamental que a comissão mostre claramente como os fundos são usados no âmbito da sua actividade”, acrescenta.

Num tom inusitadamente duro, Hans Zollner defende também que tem de haver mais transparência quanto ao processo de tomada de decisões dentro da comissão e que a informação partilhada com os membros quanto a decisões específicas tende a ser “vaga e insuficiente”.

Criticando, por último, a inexistência de qualquer regulamentação que regule as relações entre a comissão e o Dicastério para a Doutrina da Fé, para cujas instalações a comissão foi transferida em Junho, Hans Zollner diz que pretende dedicar-se ao seu novo papel como consultor da Diocese de Roma, que acumulará com a direcção do respectivo Instituto de Antropologia, sem abdicar de continuar a bater-se para que "o mundo seja um lugar melhor para as crianças e adultos vulneráveis", nomeadamente através da investigação académica sobre o tema.

Criada em 2014, a Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores é presidida pelo cardeal norte-americano Seán Patrick O'Malley, que é um dos conselheiros mais próximos do Papa Francisco, e surgiu como parte dos esforços da Igreja Católica para lidar com o escândalo dos abusos sexuais, com a missão específica de propor iniciativas capazes de assegurar a protecção das crianças e dos adultos vulneráveis no seio da Igreja.

Em Abril do ano passado, o Papa anunciou que a comissão passaria a integrar o Dicastério para a Doutrina da Fé, numa decisão que, segundo ressalvou na altura, não poria em causa a sua independência, dado que os membros deste organismo continuariam a responder directamente perante si. Tratava-se tão-somente de evitar que a comissão continuasse a funcionar como "um satélite" sem ligação com o organograma da Cúria Romana.

Segundo o portal de notícias do Vaticano, O'Malley aceitou a demissão do jesuíta alemão agradecendo-lhe os "anos de serviço" e elogiando o seu papel na cimeira promovida pelo Papa, em 2019, para debater a crise dos abusos sexuais.

Em Fevereiro, quando se deslocou a Portugal para assistir à apresentação do relatório sobre os abusos sexuais de crianças no seio da Igreja Católica portuguesa nos últimos 72 anos, Hans Zollner aproveitou para aconselhar a hierarquia da Igreja a investir mais seriamente no apoio às vítimas e familiares, numa entrevista em que manifestava ainda a sua estranheza pelo facto de a Igreja italiana não ter promovido ainda um levantamento histórico sobre os abusos sexuais de menores às mãos dos clérigos italianos.

Antes disso, em Maio de 2021, Zollner fora a Fátima avisar que a Igreja portuguesa precisava de uma nova mentalidade em relação ao problema dos abusos sexuais, acusando os bispos de se limitarem a cumprir regulamentos. As palavras não caíram em saco roto, porquanto um ano depois os bispos anunciavam a intenção de promover um levantamento histórico dos casos de abuso sexual de crianças no meio eclesial, cujo relatório, apresentado em Fevereiro deste ano, concluiu que pelo menos 4815 crianças foram vítimas de abuso sexual nos últimos 72 anos, desde 1950 até à actualidade.

Poucos dias depois, Seán O'Malley fez um comunicado a elogiar o trabalho da comissão independente, prontificando-se a ajudar os bispos portugueses na reflexão que se impunha sobre as recomendações apresentadas no relatório "Dar Voz ao Silêncio".

15.6.22

Idosos de Leiria abençoados pelo papa no Vaticano em momento de "muita emoção"

in Observador

Um grupo de 12 utentes do Centro Social Paroquial dos Pousos, participou na audiência geral das quartas-feiras no Vaticano, com "muito choro" a marcar os momentos de contacto com o papa Francisco.Alexandra Neves, secretária da Direção do Centro Social, e que está a acompanhar os idosos nesta deslocação ao Vaticano, disse à agência Lusa que “todos os idosos foram cumprimentar o papa individualmente, que lhes ofereceu um terço e lhes deu a sua bênção”.

“Houve muito, muito choro, muitas emoções. E nunca mais se vão esquecer deste momento”, acrescentou a responsável, indicando que os idosos, que se deslocaram em cadeira de rodas ao local onde estava o papa, ofereceram, ao pontífice, vinho, uma tela de Nossa Senhora e um terço missionário feito por uma idosa dos Pousos.

O papa Francisco, no final da audiência geral, saudou o grupo de idosos do Centro Paroquial dos Pousos, que se deslocou ao Vaticano, na sequência de uma carta que lhe tinham enviado em janeiro.

“Queridos amigos de língua portuguesa, obrigado pela vossa presença e sobretudo pelas vossas orações por mim! A todos saúdo, especialmente ao grupo da paróquia dos Pousos de Leiria, encorajando-vos a apostar em ideais grandes de serviço, que engrandecem o coração e tornam fecundos os vossos talentos”, disse Francisco.

“Sobre vós e vossas famílias desça a bênção do Senhor”, acrescentou.


Os idosos chegaram a Roma na segunda-feira, com esta deslocação a representar para muitos o batismo de voo e a primeira experiência de pernoita numa unidade hoteleira.

“Estão superfelizes. Não param de agradecer”, disse à agência Lusa Alexandra Neves, por telefone, no final da audiência geral de hoje no Vaticano.

Na terça-feira, participaram numa cerimónia em português, na Basílica de S. Paulo Extramuros, na qual houve momentos especiais para distinguir benfeitores do Centro Social.

Tudo começou quando, em janeiro, utentes, colaboradores e a direção do Centro Social escreveram a carta ao papa, sugerindo um encontro em que, conforme a escolha do pontífice, houvesse chá ou vinho.

A expectativa de que “houvesse uma resposta 10 ou 11 meses depois, com uma bênção papal, que seria emoldurada numa moldura muito bonita e colocada na entrada da instituição”, como admitiu à Lusa Alexandra Neves, foi ultrapassada quando chegou o convite para que fosse escolhida uma quarta-feira, com a garantia de que, após a audiência geral, o pontífice privaria um pouco com o grupo de 12 idosos e respetivos cuidadores.

Com muitos idosos a manifestarem vontade de ir a Roma ver o papa, a seleção obedeceu a alguns critérios, desde logo a validação por parte da equipa médica, mas que passaram pela saúde mental e alguma mobilidade dos utentes. Maria do Céu, de 90 anos, de Fornos de Algodres, mas utente deste lar do concelho de Leiria, é a mais idosa da comitiva.

Os que ficaram no Centro Social durante estes quatro dias de viagem têm já a promessa de que, em 2023, com o papa em Portugal para a Jornada Mundial da Juventude, a direção do Centro Social vai procurar que, em Lisboa ou em Fátima, possam ver o pontífice nessa ocasião.

1.10.21

COP26: Papa apoia luta das novas gerações, alertando para pobreza energética

in Agência Ecclesia

Cidade do Vaticano, 29 set 2021 (Ecclesia) – O Papa manifestou hoje o seu apoio às novas gerações, na luta contra as alterações climáticas, numa mensagem em que aponta preocupações para a COP26, que se realiza em novembro na cidade de Glasgow, Escócia.

“Através de ideias e projetos comuns, podem ser encontradas soluções que superem a pobreza energética e que coloquem o cuidado dos bens comuns no centro das políticas nacionais e internacionais, favorecendo a produção sustentável, a economia circular, a agregação de recursos energéticos, a partilha das tecnologias adequadas”, sustentou Francisco, numa intervenção em vídeo para um seminário sobre a promoção da educação sustentável do ‘Youth4Climate’, em Milão.

A intervenção pediu “decisões sábias” para que todos possam aproveitar as “muitas experiências adquiridas nos últimos anos”, promovendo “uma cultura do cuidado, uma cultura da partilha responsável”.

“Quero agradecer-lhes pelos sonhos e projetos de bem que têm e pelo facto de se importarem tanto com as relações humanas e como com o cuidado do meio ambiente. Obrigado. É uma preocupação que faz bem a todos”, disse aos jovens participantes.


Encorajo-os a unir forças através de uma ampla aliança educativa para formar gerações de bons, maduros, capazes de superar as fragmentações e reconstruir o tecido das relações, de modo que possamos chegar a uma humanidade mais fraterna”.

O Papa evocou Pacto Global pela Educação lançado no Vaticano, em 2019, para dar “respostas partilhadas à mudança histórica que a humanidade está a experimentar e que a pandemia tornou ainda mais evidente”.

“As soluções técnicas e políticas não são suficientes, se não estiverem amparadas pela responsabilidade de cada integrante e por um processo educativo que favoreça um modelo cultural de desenvolvimento e sustentabilidade voltado para a fraternidade e a aliança entre o ser humano com o meio ambiente”, apontou.

Francisco defendeu a necessidade de existir “harmonia entre as pessoas, homens e mulheres, e o meio ambiente”.

“Não somos inimigos, não somos indiferentes. Fazemos parte dessa harmonia cósmica”, prosseguiu.

O Papa já manifestou a sua intenção de participar na conferência mundial da ONU sobre alterações climáticas (COP26).

OC

29.7.21

Pastoral dos Ciganos: Vaticano convida a aprender com cultura que «cuida dos seus mais pequenos e dos seus mais velhos»

in Agência Ecclesia

Mensagem para a memória do Beato Zeferino Giménez destaca comunidades «peritas na fraternidade»

Cidade do Vaticano, 28 jul 2021 (Ecclesia) – O Vaticano divulgou uma mensagem para a celebração da memória do Beato Zeferino Giménez (2 de agosto), cigano espanhol conhecido como “Pelé”, convidando a promover uma “verdadeira fraternidade cristã” que respeite todos.

“Pelé nasceu no seio de uma cultura que cuida dos seus mais pequenos e dos seus mais velhos com paixão. Sabem que tanto uns como os outros, pela sua vulnerabilidade, precisam de cuidado, embora também como agradecimento a Deus pelo dom das suas vidas”, refere o texto, assinado pelo cardeal Peter Turkson, prefeito do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral (Santa Sé).

O documento foi enviado à Agência ECCLESIA pela Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos, em Portugal.

Zeferino Giménez Malla foi fuzilado em Barbastro (Espanha), em 1936, por tentar salvar um sacerdote.

A Santa Sé destaca que, na vida de Pelé, como é popularmente conhecido pelos ciganos, se encontram refletidos “os valores centrais da vida cristã”.

“Os ciganos são peritos na fraternidade. As dificuldades que têm tido que enfrentar coletivamente, ao longo dos séculos, criaram neles um forte sentimento de pertença e de solidariedade de grupo”, destaca o cardeal Turkson.

O colaborador do Papa destaca os mecanismos de ajuda recíproca que mitigaram o impacto da pandemia entre os ciganos, “à qual estavam mais expostos, precisamente por viverem famílias numerosas em espaços reduzidos”.

“Umas famílias ajudaram as outras a seguir em frente. Quero também assinalar os dispositivos de urgência que também foram desencadeados aos níveis diocesanos, religiosos e civis. A pandemia fez-nos descobrir a nossa fragilidade e a nossa falta de solidariedade”, escreve.

D. Peter Turkson evoca a figura do Beato Zeferino Giménez como alguém que soube “preservar os valores tradicionais da cultura cigana, como a promoção da vida, a centralidade da família, o sentido religioso da vida, o acolhimento incondicional, a conceção humana do trabalho e a alegria de viver”.

A mensagem recorda ainda o sacerdote milanês Mario Riboldi, falecido a 8 de junho, “depois de uma vida de 57 anos dedicada à pastoral dos ciganos”, tendo percorrido toda a Europa na sua rulote-capela, desde 1971.

“Mons. Riboldi soube difundir os valores ciganos entre os não ciganos e às famílias ciganas deu o que tinha: o Evangelho e a sua própria pessoa, dedicando-se ao seu serviço”, indica o prefeito do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral.

O sacerdote italiano colaborou, entre outros, na causa que levou à beatificação de Zeferino Giménez Malla.

O Vaticano e a Conferência Episcopal Espanhola preparam materiais pastorais para estas celebrações, orientados para quem se dedica a trabalhar na Pastoral dos Ciganos.

OC



Igreja/Sociedade: Comissão Justiça e Paz pede «cidadania plena» para portugueses ciganos


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17.6.21

Vaticano denuncia violência contra as mulheres como uma forma de pobreza

in Agência Ecclesia

Alerta foi dado por D. Rino Fisichella na apresentação da mensagem do Papa para o Dia Mundial dos Pobres 2021

Cidade do Vaticano, 15 jun 2021 (Ecclesia) – O presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização (Santa Sé) alertou para “novas expressões de pobreza”, por causa da pandemia de Covid-19, e condenou a violência contra as mulheres.

“Diante dos acontecimentos diários de violência contra as mulheres, não se pode suprimir a condenação por esta barbárie que faz do mundo das mulheres um teatro de autêntica pobreza”, disse D. Rino Fisichella, esta segunda-feira, na apresentação da mensagem do Papa para o V Dia Mundial dos Pobres

Segundo o responsável da Santa Sé, é “incompreensível”, para uma cultura que atingiu as “formas mais maduras de igualdade”, constatar “expressões de desigualdade e falta de dignidade”, informa o portal ‘Vatican News’.

“Ferem não só as pobres vítimas, mas também toda a sociedade que muitas vezes é demasiado indefesa e afónica como se se resignasse a desistir das conquistas obtidas laboriosamente ao longo das décadas”, acrescentou.

A Igreja Católica vai assinalar o V Dia Mundial dos Pobres no próximo dia 14 de novembro, com uma Missa a que o Papa vai presidir na Basílica de São Pedro.

‘Sempre tereis pobres entre vós’, é o tema da mensagem de Francisco, inspirado numa passagem do Evangelho segundo São Marcos (Mc 14, 7).

D. Rino Fisichella alertou também que o tempo da pandemia de Covid-19 tem sido marcado por “formas de injustiça” que se tornam cada vez mais evidentes “quanto mais emergem novas expressões de pobreza”.

“O Santo Padre está bem consciente das consequências que todos os dias estão diante dos olhos. As pessoas mais vulneráveis veem-se privadas das necessidades básicas”, explicou, dando como exemplo as longas filas nos refeitórios para as pessoas em situação de pobreza, que são “um sinal tangível deste agravamento”.

“A pobreza não diz respeito apenas a um grupo de nações, é um fenómeno planetário que toca o mundo inteiro. Virar as costas e viver como se o problema não existisse faz com que o Papa diga uma bela expressão: muitas vezes falamos dos pobres nas nossas políticas, mas depois vemo-nos como incompetentes”, acrescentou.

O Conselho Pontifício para a Nova Evangelização vai organizar pela quinta vez o Dia Mundial dos Pobres, que foi instituído no final do Jubileu da Misericórdia (2016), e está a planear diversas iniciativas, divulga o portal ‘Vatican News’

Em 2020, as estruturas da Santa Sé ofereceram testes à Covid-19 para sem-abrigo, distribuíram 5 mil cabazes de alimentos para ajudar famílias em 60 paróquias de Roma, com máscaras e uma pagela com uma oração do Papa, e 350 mil máscaras a cerca de 15 mil estudantes da capital italiana.

A mensagem do Papa foi assinada, simbolicamente, a 13 de junho, dia da festa litúrgica de Santo António.

CB/OC

7.2.20

Papa coloca palácio no Vaticano ao serviço dos sem-abrigo

Filipe d'Avillez, in RR

Trata-se de mais uma medida que comprova a prioridade que o Papa dá aos pobres e sem-abrigo. O palácio tem espaço para 50 pessoas, mas, se houver condições climatéricas adversas, o número pode subir.

O Papa Francisco mandou renovar um palácio situado no coração do Vaticano, adaptando-o para estar ao serviço dos sem-abrigo de Roma.

O Palazzo Migliori foi construído no início do Século XIX e ao longo das últimas décadas tinha sido usado por uma ordem religiosa feminina que cuidava de jovens mães solteiras.

Quando a ordem deixou o edifício o ano passado este foi renovado. Especulou-se sobre a possibilidade de o transformar num hotel de luxo, bem perto da Praça de São Pedro, mas o Papa deu ordens explícitas ao esmoler do Vaticano, o cardeal Konrad Krajewski, que supervisionasse a adaptação do palácio para uso dos sem-abrigo da capital.

O projeto foi entregue à Comunidade de Sant’Egídio e tem agora capacidade para acolher até 50 pessoas, a quem é dada cama, roupa lavada e comida. As salas de baixo servem para ações de formação e de prestação de serviços práticos, como aconselhamento psicológico ou utilização de computadores. Quando o frio aperta na cidade torna-se ainda possível albergar mais pessoas no edifício.

Para um dos atuais utentes do serviço, o conforto não tem comparação com aquilo a que estava habituado noutros abrigos. “Aqui sinto-me mais em casa. Tenho a minha própria cama, quarto e casa de banho. É muito diferente dos dormitórios onde tenho ido até agora, onde por vezes nos sentimos como animais num estábulo sobrelotado”, disse Mario Brezza ao jornal australiano NBC News.

Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Sant’Egidio realçou o princípio do gesto. “O importante é que aqui estamos diante do Vaticano, estamos no coração do Papa, os pobres têm um lar diante do Papa”, afirmou, garantindo que a comunidade tem todo o gosto em colaborar com a Santa Sé neste trabalho.

Esta medida é mais uma demonstração da importância dada pelo Papa ao cuidado dos pobres e sem-abrigo. Outras incluem a instalação de duches nas casas de banho públicas do Vaticano, para uso de pobres e sem-abrigo, a inauguração de uma lavandaria pública e de uma barbearia e a ordem dada para que um sem-abrigo que morreu nas ruas da cidade fosse sepultado num cemitério normalmente reservado para altos funcionários da Santa Sé.

Para além disso, o Papa tem o hábito de tomar refeições com os pobres e sem-abrigo com alguma regularidade, no Vaticano.

12.4.16

Papa diz que dar esmola é um gesto de amor

In "Jornal de Notícias"

O Papa Francisco diz que dar uma esmola não é "tirar um peso" de cima, é "um gesto de amor" para com os carenciados, que deve fazer-se olhando o seu rosto.

O Papa criticou aqueles que dão uma esmola "deixando uma moeda apressadamente, sem olhar a pessoa e sem parar para falar e perceber de que necessita".

Francisco falava no Vaticano, durante a audiência geral extraordinária relacionada com o Ano Santo Extraordinário da Misericórdia, que termina a 20 de novembro.

A esmola "é um gesto de amor, de atenção sincera para quem se aproxima de nós e pede a nossa ajuda. Dar esmola também para nós deve ser um sacrifício", acrescentou.

Realçou que a esmola "é um aspeto essencial da misericórdia" e que a caridade exige uma atitude de satisfação interior. "Um ato de misericórdia não pode ser um peso do qual nos temos de libertar quanto antes", acrescentou.

"Quando pensamos: 'não dou esmola a uma pessoa para que depois vá gastar em vinho e se embebede', [há que pensar que] se se embebeda é porque não encontra outro caminho. E tu, que fazes às escondidas, quando ninguém te vê?", questionou o Papa. "E estás a julgar esse pobre homem que pede uma moeda para um copo de vinho", criticou.

O responsável máximo pela Igreja Católica concluiu que "não é a aparência que conta, mas sim olhar no rosto da pessoa que pede ajuda".

Durante todo o Jubileu, o Papa Francisco vai presidir a audiências gerais extraordinárias, um sábado por mês, que se juntam às habituais audiências de quarta-feira na praça de São Pedro, no Vaticano.

27.5.14

Deus activista dos direitos humanos? (2)

Frei Bento Domingues O.P., in Público on-line

Qual poderá ser o activista dos direitos humanos? O outro é um parasita.

1. A Amnistia Internacional iniciou, há semanas, a campanha Stop Tortura para denunciar uma situação vergonhosa: 30 anos após a assinatura, na ONU, da Convenção Contra a Tortura, esta prática bárbara continua a crescer, como se fosse a coisa mais normal do mundo. No entanto, na África, nas Américas, na Ásia-Pacífico, na Europa e Ásia Central, no Médio Oriente e Norte de Africa, alarga-se esta extrema forma de desumanidade, perante a indiferença internacional. Nos EUA, nenhum agente da CIA, envolvido em casos de tortura, foi levado a tribunal.

Não se pode atribuir esse comportamento “à ausência de Deus” na esfera pública como, por vezes, se diz. Em todos os continentes, é em seu nome que se oprime, tortura e mata. Tentei mostrar, no Domingo passado, que a palavra Deus pode ser usada para o melhor e para o pior.

Hoje, gostaria de chamar a atenção para outra forma de observação e problematização das sociedades actuais, praticada por Boaventura de Sousa Santos, no livro Se Deus fosse um activista dos direitos humanos (Almedina). Foi também publicado com grande ressonância no Brasil, traduzido em Espanha e acolhido com fervor na América Latina.

Este professor catedrático da Universidade de Coimbra e de diversas universidades americanas tenta mostrar como a democracia representativa liberal foi derrotada pelo capitalismo e como a invocação dos direitos humanos foi e é usada para os destruir. A religião, grito dos oprimidos, passou demasiado depressa a ser considerada “ópio do povo” e reduzida à esfera privada. As teologias políticas não defendem todas os mesmos interesses. Não se pode confundir as teologias que procuram justificar as opressões com as teologias dos oprimidos que animam as suas práticas concretas de libertação.

2. Juan José Tamayo, um teólogo bem informado, na selecção internacional dos Cincuenta intelectuales para una consciencia crítica (Fragmenta Editorial, Barcelona, 2013) incluiu dois nomes portugueses: José Saramago e Boaventura de Sousa Santos. O primeiro, por razões óbvias. Para quem estiver a par do que se passa nas ciências sociais, no âmbito da língua espanhola – verifiquei-o em vários países –, o segundo era previsível.

Tamayo considera Boaventura de Sousa Santos um dos cientistas sociais mais criativos no actual panorama intelectual, porque possui uma grande capacidade de inovação, tanto no próprio plano da linguagem – cheio de imagens, de símbolos e intuições - como nos conteúdos e propostas. Sabe articular coerentemente as análises críticas com as alternativas, os protestos com as propostas, a indignação ética com as utopias históricas. O seu estilo não é o de seguir caminhos já trilhados, mas o de levantar novas questões e abrir novas pistas na investigação e na sua escrita.

Para o teólogo espanhol, a obra de Boaventura de Sousa Santos é transgressora de fronteiras entre disciplinas académicas, de fronteiras geográficas e culturais, recusando, no âmbito académico, a separação entre teoria e prática e estabelecendo uma conexão intrínseca entre ambas.

Se os polícias das ciências sociais ficam incomodados com a heterodoxia deste académico militante, os adversários das teologias da libertação são obrigados a sair do sossego, que julgavam definitivo depois dos pronunciamentos negativos do Vaticano, desde a década de oitenta até à eleição do Papa Francisco. Não é por acaso que Fr. Gustavo Gutiérrez, fundador da Teologia da Libertação, tenha sido recebido por este papa e solicitado a escrever no jornal L’Osservatore Romano (1).

3. Este peruano tornou-se, muito cedo, um fervoroso discípulo do genial antropólogo, Fr. Bartolomé de las Casas (1484-1566), o intrépido defensor dos Índios, na frente filosófica, teológica, jurídica e política, tanto em Espanha como nas Américas. Mas na descoberta dessa história descobriu outra, a do célebre sermão de Fray Anton de Montesinos e do seu inesquecível grito perante os conquistadores espanhóis: e estes (os índios explorados) não são seres humanos?!

A partir daí, os olhos de Gustavo Gutierrez saltaram do séc. XVI para o séc. XX. As lutas contra a violência da opressão económica, social, cultural e política precisam de uma teologia elaborada a partir do chão das comunidades cristãs de base. Os cristãos fazem a experiência de Deus na história concreta da opressão e libertação dos seres humanos. A ousadia de G. Gutierrez provocou a proliferação das chamadas teologias contextuais, em todos os continentes.

Boaventura de Sousa Santos abriu um debate acerca dos principais desafios que a emergência das teologias políticas, no início do século XX, coloca aos direitos humanos. Não caiu na sua simplificação para facilitar uma tese. As distinções entre os diferentes tipos de teologias políticas e os discursos e práticas contrastantes sobre os direitos humanos não falam do mesmo Deus. Entre eles, qual poderá ser o activista dos direitos humanos? O outro é um parasita.

1) Nas teologias da libertação, o recurso ao Antigo Testamento nem sempre foi o mais criterioso. O estudo do exegeta Francolino Gonçalves é essencial para explorar outros caminhos mais fecundos (Cf. Antigo Testamento e direitos humanos, ISTA nº6 – 1998 – Ano III, pp. 33-52)

11.6.13

Papa reconhece que há corrupção e lóbi gay no Vaticano

in Jornal de Notícias

O Papa reconheceu a dificuldade da reforma da cúria romana ao referir-se a uma "corrente de corrupção" e à existência de um lóbi gay durante um encontro com religiosos latino-americanos.

A reforma da cúria, o Governo da Igreja católica, defendida por "quase todos os cardeais" nas reuniões preparatórias do último conclave, é um projeto "difícil", reconheceu o Papa numa reunião, a 06 de junho, com responsáveis da Confederação latino-americana e das Caraíbas dos religiosos e religiosas (CLAR).

Segundo uma síntese do que foi discutido nesse encontro de quase uma hora, revelada esta terça-feira pelo 'site' católico progressista Reflexão e Libertação, o papa acrescentou: "Na cúria, há pessoas santas, verdadeiramente, mas também há uma corrente de corrupção".

"Fala-se de lóbi gay e é verdade, ele existe", reconheceu ainda.

"Não posso fazer eu a reforma", continuou o chefe da Igreja Católica, que se confessou "desorganizado".

Esse será o trabalho da comissão de oito cardeais que o Papa nomeou e que deverá reunir-se pela primeira vez oficialmente em Roma no mês de outubro, acrescentou.