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10.5.23

Projeto Click alcançou excelentes resultados em 2022

in CM-Gaia



É criada uma resposta de autonomização profissional e social para cidadãos em situação de vulnerabilidade

Perante os excelentes resultados alcançados em 2022, a Câmara Municipal de Gaia aprovou em reunião de Câmara realizada a 8 de maio a renovação do protocolo para a continuidade do projeto Click – ativar competências de empregabilidade, o que resultará em respostas específicas de autonomização profissional e social para cidadãos em situação de vulnerabilidade.


Desenvolvido através de um acordo de cooperação entre a Rede Europeia Anti Pobreza (EAPN Portugal) e o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP, I.P.), o projeto assenta na mediação entre a oferta e a procura de emprego. Tal é feito a partir da dinamização de sessões que promovem o aprofundamento e o desenvolvimento das soft skills de públicos desempregados vulneráveis e da sensibilização e capacitação para a responsabilidade social de potenciais entidades empregadoras. Através desta metodologia estreitam-se relações e aprofundam-se oportunidades concretas de "teste” com o desenvolvimento de processos de mentoria profissional, que inclui, ainda, apresentações públicas em formatos de speed recruitment e pitch.


Desde 2017, o projeto Click tem-se revestido de uma lógica de rentabilização dos conhecimentos adquiridos, permitindo uma replicação devidamente reconfigurada do projeto, da qual se destacam algumas diferenças estruturantes ao nível da focalização dos públicos-alvo, da intensificação da articulação com o tecido empregador ("mentoria profissional”) e ainda da intensificação e da personalização dos processos de coaching.


De referir que o projeto pretende intervir junto de 20 beneficiários que cumulativamente devem cumprir os seguintes requisitos: beneficiários de Rendimento Social de Inserção (RSI); primeiro ciclo do ensino básico concluído; ensino secundário não concluído; situação de desemprego; e ter entre 18 e 50 anos de idade.


Em 2021 o Click desenvolveu-se em Gondomar, com um grupo de 15 formandos no primeiro semestre e outro (15) no segundo semestre. Em 2022, o projeto escalou a sua intervenção para quatro territórios, nomeadamente Vila Nova de Gaia e Porto (1.º semestre), Maia e Valongo (2.º semestre), chegando assim a um total de 80 pessoas, a meta mais ambiciosa desde a sua implementação. No ano de 2023 o Click celebra dez anos de existência e prevê uma nova expansão territorial para Vila Real, além da continuidade da intervenção no Porto e Vila Nova de Gaia, abrangendo um total de 80 participantes/ano.

23.2.23

Dois anos depois, Marcelino chegou ao fim do labirinto por um tecto digno

Camilo Soldado, in Público

Marcelino Ribeiro é cego e tem uma enteada também cega a seu cuidado. Viveu num parque de campismo e esteve à espera de habitação social mais de um ano.

Marcelino Ribeiro navega com a ponta da bengala o caminho que se abre entre o arquipélago de caixas verdes, agora dispostas pelo chão da sala da nova casa. Enquanto a mobília não preenche o apartamento para onde se mudou com a enteada que está ao seu cuidado, são as caixas que organizam os pertences de uma vida.

Quando o PÚBLICO se encontrou pela primeira vez com Marcelino, em meados de Janeiro, o homem de 67 anos vivia ainda no parque de campismo do Furadouro, em Ovar, numa caravana que lhe serviu de casa nos últimos dois anos. Com ele, a dormir na outra ponta do pequeno atrelado, estava a enteada, Soraia Pereira, de 28 anos, também cega e com problemas de mobilidade.

Tinha ido ali parar por falta de alternativas. Aguardava a resposta de candidatura a habitação social da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, que tardava em chegar. A sequência de eventos que levou um homem que, durante grande parte da vida, trabalhou no sector da construção civil, a viver numa caravana fez-se de uma combinação de problemas de saúde com azar. Aos 50 anos, começou a perder a visão e a vida deu uma volta.

Mais tarde, sofreu violência doméstica da companheira com quem partilhava casa, procurou ajuda, mas as soluções que lhe apontavam nunca incluíam Soraia. A curta reforma, de apenas 350 euros, limitava as perspectivas de arrendamento numa Área Metropolitana do Porto onde os preços ainda não pararam de subir. Mas sair dali era urgente. “Estava num total desespero”, conta.

Em Janeiro de 2021, surgiu a possibilidade de comprar a caravana que lhe viria a servir de casa. A mensalidade do parque de campismo, 175 euros, era-lhe bem mais suportável. Acrescentou-lhe um avançado e uma estrutura para maior protecção. “No início era tudo bonito. Adorava viver aqui”, diz, sobre o espaço de onde se ouve o mar. Mas o primeiro temporal fê-lo mudar de ideias.

Uma rajada de vento inclinou a armação, a luz ia abaixo com regularidade, a casa de banho mais próxima ficava a 100 metros do lote de Marcelino. Os balneários ficavam ainda mais distantes e Soraia, com os problemas de mobilidade que tem, tinha dificuldades em fazer um caminho que se tornava ainda mais difícil de percorrer quando chovia mais. “Não é fácil viver aqui”, dizia.

Um ano e dois meses

Então vice-presidente da associação Saber Compreender, Filipe Gaspar organizou uma biblioteca humana no Bonfim, em 2018, e foi aí que conheceu Marcelino, que se disponibilizou para contar sua história até então, falar sobre os estereótipos que se colam às pessoas cegas.

Foram mantendo contacto, Filipe foi sabendo das barreiras que Marcelino ia encontrando e tentando fazer pontes. “Mas os nossos encontros vinham da vontade dele em participar em tudo o que fosse iniciativas sociais e culturais. Acho admirável que ele, estando num lugar tão frágil e vulnerável, o faça”, diz.

Sentindo-se “no limite” das suas condições no campismo, Marcelino entregou a candidatura a habitação social na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia (CMVNG), no dia 9 de Novembro de 2021. Pedia que fosse perto do hospital ou do centro de saúde, sítios onde ele e Soraia são “clientes habituais”, refere.

Enquanto isso, trabalhava na Junta de Freguesia de Mafamude e Vilar do Paraíso, em Gaia, ao abrigo de um programa de inserção laboral. Saía às 5h, caminhava até ao centro do Furadouro, onde apanhava o autocarro até Ovar. Daí, ia no comboio até à estação ferroviária de General Torres, em Gaia, e depois de metro, até Santo Ovídio. Foi numa dessas viagens, em Janeiro de 2022, que a bengala se prendeu numa trotineta que estava pelo caminho, junto à estação de General Torres. “Caí, bati com o queixo no chão, parti os dentes”. Ninguém se responsabilizou, lamenta.

Ao fim de um ano e dois meses de espera, assinou contrato no dia 26 de Janeiro, para habitação no bairro D. Armindo Lopes Coelho, no Olival. Não fica perto do hospital, nem a oferta de transportes públicos é satisfatória, aponta. Ainda assim, demorou menos que os cinco anos que a CMVNG calcula ser o tempo médio de espera para acesso a habitação social no concelho. Neste momento, estão 3211 famílias alojadas neste tipo de resposta, havendo uma lista de espera de mais 1091 candidatos.

Marcelino garante que a Gaiurb, a empresa municipal que gere o parque habitacional de Gaia, lhe chegou a prometer habitação mais cedo, um dado que a autarquia confirma ao PÚBLICO. “Estava previsto a casa ficar pronta até fim de 2022. Mas as obras atrasaram ligeiramente e só em Janeiro foi possível entregar a habitação”, responde a câmara.

Breve alívio

São 15h30 e uma carrinha branca percorre o caminho de terra batida, parque de campismo adentro, até ao lote de Marcelino. É um sábado de céu límpido, mas há um vento fresco que percorre as copas dos pinheiros bravos que se erguem acima de caravanas e tendas e faz soar um rumor.

Enquanto o irmão e o funcionário de mudanças vão acartando caixotes e a parca mobília para o veículo, Marcelino vai arrumando sacos, murmurando para não se esquecer do mais importante - as cruzetas, o comando de televisão que achava perdido, “as botas da pequenita”, o saco da roupa - enquanto decide entre o que fica e o que vai.

O processo de mudanças ainda não tinha terminado e, por isso, ainda não está tranquilo. “Ainda não acordei. Ainda não consegui parar. Mas, só o facto de adormecer e não sentir este vento daqui e a miúda aflita, é lógico que me sinto mais aliviado”, confessava. Uma casa é um espaço que se preenche aos poucos e a mobília vai ali entrando consoante as possibilidades. A prioridade de Marcelino foi uma cama para o quarto de Soraia, enquanto faz de um colchão insuflável a sua.

Durante as três primeiras semanas não teve o gás instalado, o que o obrigou a aquecer água para garantir banhos quentes a Soraia e a cozinhar em discos eléctricos improvisados. Parte deste período inicial foi também passado a tratar de papelada – primeiro para habitação, para telecomunicações, para energia – sem que tenha tido possibilidade de aceder ao conteúdo dos contratos antes de os assinar, garante, apesar de lhos terem lido em voz alta.

A autarquia conta uma versão diferente: refere que Marcelino “foi previamente questionado acerca da viabilidade de outorga de um contrato que lhe iria ser apresentado em formato de escrita corrente”, sem que tenha apresentado objecção, uma vez que teria “uma aplicação no seu telemóvel que lhe permitia sem dificuldade aceder ao conteúdo do texto escrito”. Não é verdade, rebate Marcelino, uma vez que a aplicação apenas consegue identificar pequenos trechos e nunca um documento completo.

O PÚBLICO enviou à Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) um pedido de esclarecimento sobre que obrigações legais têm as empresas, na hora de celebrarem contratos com pessoas cegas, mas não obteve resposta.

25.1.23

Existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema em Gaia

Marta Neves, in JN

Em Gaia, a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, assinou protocolo de constituição do primeiro núcleo local da Garantia para a Infância

Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, que esta terça-feira anunciou que o concelho é o primeiro do país em que será constituído um núcleo local da Garantia para a Infância.

No Parque Biológico de Gaia, onde esta terça-feira foi assinado o protocolo entre as entidades envolvidas - tutela, Câmara de Gaia e Coordenação Nacional da Garantia para a Infância -, Ana Mendes Godinho explicou que "este núcleo será desenvolvido pela rede social local, comandado pela Autarquia, através dos parceiros locais de intervenção social".

Salientou que será o próprio núcleo a ter a identificação de todas as crianças que estão abrangidas para a Garantia para a Infância "para que haja uma intervenção personalizada com cada uma delas".

No caso de Gaia, "ainda que existam 4472 crianças em situação de pobreza extrema, este modelo vai abranger cerca de 4900", adiantou a governante, sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".

Tanto que, "a nível europeu, Portugal é o primeiro país a arrancar com o foco na visão integrada da Garantia para a Infância", acrescentou, dando conta que "foi algo bastante elogiado na Comissão Europeia".

"É um dia especial porque é a concretização de uma forma diferente de olhar para as crianças", assumiu, a propósito da presença em Gaia.

Na prática, são 76 medidas de políticas públicas que os parceiros locais devem seguir, mediante uma matriz da Coordenação Nacional da Garantia para a Infância.

Isto significa que no terreno os parceiros terão de ter "capacidade de identificação das várias situações, e intervir, seja através do reforço das prestações sociais, como os abonos, seja com as creches gratuitas, tendo uma capacidade de intervenção personalizada relativamente a cada uma destas crianças".

Ana Mendes Godinho considera fulcral a necessidade de "intervir no acesso aos serviços que todos consideram essenciais para se promover a igualdade de oportunidades, havendo a garantia de acesso a creches, saúde e alimentação", pois só assim será possível "romper ciclos de pobreza".

Habitação condigna

Dentro da área social, outro dos "pilares estratégicos", pretende-se garantir a cada criança "o acesso a condições habitacionais" condignas.

Para promover "uma real inclusão", Portugal contará para este modelo com 6% do Fundo social Europeu, com fundos do Plano de Recuperação e Resiliência e do próprio Orçamento de Estado.

A responsável destacou ainda que "haverá alguns instrumentos do Portugal 2030 direcionados às crianças, que estarão condicionadas à existência de núcleos para a Garantia à Infância".

Em Gaia, o projeto-piloto "vai começar agora com uma formação inicial com a Coordenação Nacional, onde serão abrangidas todas as áreas governativas que dizem respeito às áreas estruturantes da Garantia", referiu ao JN Sónia Almeida, da Coordenação Nacional.

No país, já há a intenção de outros municípios também aderirem à Garantia para a Infância, como Torres Vedras, Vila Franca de Xira, Fundão e Campo Maior. "Os que se quiserem aliar estamos de portas abertas", assegurou a governante.

Aumentar número de creches

Relativamente ao acesso às creches gratuitas, a ministra do Trabalho e da Segurança Social disse que "em todo o país existem 120 mil lugares de creche, sendo que 100 mil são da rede social".

Ana Mendes Godinho deu conta que este programa arrancou em parceria com a Segurança Social , "através da rede protocolada com o setor social". Também referiu que "não havendo capacidade de resposta por parte da rede social, por inexistência de vagas, a medida que se aplica é a do setor privado".

A responsável reforçou que o Estado está "a trabalhar para aumentar a capacidade de resposta da rede do setor social", assumindo como meta "aumentar em dez mil o número de lugares da rede de creche".

7.7.22

Presidente da Segurança Social nega corte no número de subsídios de educação especial

in DN

Catarina Marcelino revelou que neste ano ​​​​​​​letivo já foram pagos 9.300 pedidos, no valor global de 13,1 milhões de euros, enquanto no período homólogo, até junho, "haviam sido pagos 7.600 pedidos, num montante de 9,1 milhões de euros".A presidente do Instituto da Segurança Social (ISS), Catarina Marcelino, negou esta quarta-feira que haja menos crianças apoiadas com o subsídio de educação especial, garantindo que houve um aumento de 20% nos processos pagos em comparação com o ano passado.

A ser ouvida na Comissão de Segurança Social e Inclusão, na Assembleia da República, a presidente do ISS afirmou haver "um equívoco" em relação a notícias sobre a atribuição do subsídio de educação especial, uma prestação paga para assegurar a compensação de encargos relativos a apoio a crianças e jovens com deficiência, garantindo que "não houve cortes".

Em meados de junho, vários órgãos de comunicação social noticiaram que um em cada quatro subsídios de educação especial tinha sido cortado entre janeiro e abril e que as famílias estariam a ser confrontadas com cortes indiscriminados, numa altura em que famílias e terapeutas organizaram um protesto frente à segurança social de Vila Nova de Gaia.

Segundo a presidente do ISS, trata-se de uma prestação que não é paga de forma mensal, mas sim com a apresentação da fatura pelo pagamento dos apoios, e que pode ser paga em várias parcelas consoante as faturas dão entrada nos serviços da segurança social.

Catarina Marcelino explicou que o reconhecimento do direito ao subsídio carece de uma declaração médica comprovativa da natureza da deficiência, sendo que quando há insuficiente justificação da necessidade do apoio, o ISS envia o pedido para ser avaliado por equipas multidisciplinares de avaliação médico-pedagógica.

De acordo com a responsável, no atual ano letivo 2021/2022 já entraram na segurança social 32 mil requerimentos, dos quais 22 mil até ao mês de outubro, "um incremento de 14% face ao ano letivo anterior, em que entraram 28 mil requerimentos".

Adiantou que todos os processos foram enviados para as outras entidades responsáveis, a Direção-geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEST), estabelecimentos do ensino profissional e equipas de intervenção precoce, para respetiva análise, tendo recebido de volta até hoje 20 mil processos devidamente analisados.

"Destes 20 mil processos recebidos, a segurança social procedeu ao diferimento de 17 mil apoios, ou seja, 85% dos apoios que vieram informados destas entidades têm direito ao subsídio", salientou.

Acrescentou que após o deferimento, o pagamento do subsídio é feito assim que é apresentada a fatura pelo pagamento dos serviços feito pelas famílias, "o que muitas vezes só acontece muito tempo depois da notificação do deferimento".

Catarina Marcelino revelou que neste ano letivo já foram pagos 9.300 pedidos, no valor global de 13,1 milhões de euros, enquanto no período homólogo, até junho, "haviam sido pagos 7.600 pedidos, num montante de 9,1 milhões de euros".

"Estamos a falar de um aumento de 20% no número de processos pagos este ano face ao ano anterior, no mesmo período, e um aumento de 40% do valor pago a título de subsídio de educação especial", disse a presidente do ISS.

De acordo com a explicação da responsável, "não se pode extrapolar o número de beneficiários com base no número de pagamentos mensais" porque o pagamento mensal não é um valor fixo, mas sim contra fatura, o que significa que "os pagamentos mensais podem incluir várias faturas correspondentes a vários meses de consultas".

Acrescentou que o valor pago no respetivo ano letivo, até junho, cresceu 40% face ao mesmo período do ano passado e que analisados os últimos cinco anos constata-se um "crescimento consistente", em que o número de requerimentos aumentou 80% e o número de apoios diferidos cresceu 76%.

Catarina Marcelino disse também que no ano letivo de 2022/2011 foram apoiadas 24 mil crianças e o valor total pago aumentou 78%, estando em 42 milhões de euros.

"Não existe nenhuma redução de apoio, antes pelo contrário, registamos um aumento sustentado do apoio prestado pelo subsídio de educação especial e temos apoiado um número maior de crianças de ano para ano", concluiu.






8.2.22

Voluntariado combate exclusão social em Gaia

in JN

O Município de Vila Nova de Gaia vai avançar com um projeto-piloto para combater a exclusão social das pessoas com deficiência, promovendo a sua integração em ações de voluntariado.

O programa VolunTalento é financiado pela Portugal Inovação Social, com o investimento social do Município de Gaia e o apoio da EMVIO (Estratégia Municipal de Voluntariado Inteligente e Organizado de Vila Nova de Gaia). "A iniciativa prevê a criação de um programa intensivo e experimental de voluntariado mais inclusivo, a partir do Centro de Inclusão Social (CIS) do Magarão. O objetivo principal passa por melhorar o acesso ao exercício do voluntariado a pessoas maiores de 18 anos com incapacidade ou deficiência (física ou mental) leve a moderada", explica a Autarquia.
O Município alerta, porém, que para avançar com o projeto " é imprescindível a participação ativa de organizações com utentes com deficiência, que possam estar interessados em integrar ações de voluntariado; e, por outro lado, organizações com oportunidades de voluntariado que possam integrar a rede que irá permitir a realização de atividades".

Nesse contexto, na segunda-feira, às 10 horas, realiza-se uma apresentação online do projeto a organizações interessadas que trabalhem em Gaia. "Durante cerca de uma hora, será dada a conhecer com maior detalhe a iniciativa, desenhando, com as organizações, os próximos passos", clarifica a Câmara.

Os interessados devem inscrever.se As entidades interessadas deverão inscrever-se, ainda nesta sexta-feira, através de um formulário online.

4.10.21

Câmara de Gaia cria projecto de acompanhamento e inclusão de sem-abrigo

in Público on-line

InteGrar irá apoiar pelo menos 80 pessoas durante dois anos, através de um acompanhamento personalizado e contínuo.

A Câmara de Gaia está a estudar a instalação, na avenida da República, de uma casa de acolhimento, integração e inclusão dos sem-abrigo do concelho, revelou esta quarta-feira à Lusa a vereadora da Acção Social, Marina Mendes.

O projecto, que representa um investimento de 170 mil euros, é financiado em 85% pelo Norte 2020, através do Fundo Social Europeu (FSE) (135 mil euros), e “aguarda apenas a criação do espaço para arrancar”, indicou a autarca.


“O projecto ainda não arrancou por causa do espaço físico, dado ter de ser alugado. Já temos uma hipótese e será na zona da avenida da República, pois tem de ser numa zona bem coberta pelos transportes para que as pessoas possam usufruir diariamente do espaço”, acrescentou.

Segundo o comunicado da autarquia, o projecto InteGrar foi aprovado pelo Programa Operacional Regional do Norte - Norte 2020 - e será promovido em parceria com a Gaiurb, a delegação de Gaia da Cruz Vermelha Portuguesa e a Agência Piaget para o Desenvolvimento (APDES).

O projecto terá um “período temporal de dois anos, terá como base de intervenção pelo menos 80 sem-abrigo, o que não invalida que se atinja o número de pessoas evidenciadas no diagnóstico, quer pela via do acompanhamento pela equipa, quer pela via do atendimento, informação e encaminhamento para resposta da rede ou pela procura autónoma por parte dos sem-abrigo”, acrescenta.

Através de um conjunto de acções, “pretende-se uma resposta integrada de acompanhamento, trabalhando a prevenção para o fenómeno e uma intervenção especializada com vista à reinserção social e profissional e o combate à sua reincidência”, lê-se ainda no comunicado.

O apoio passa por “um acompanhamento personalizado e contínuo a cada pessoa, através de uma equipa multidisciplinar, com o objectivo de promover a autonomia, a responsabilização, o empoderamento e a inclusão social”.

“É um projecto abrangente, não há um limite de pessoas para serem acompanhadas. O número de sem-abrigo no concelho de Gaia será sempre o número tangível para o nosso projecto, porque nenhum deles ficará sem apoio se o solicitar”, salientou Marina Mendes.

De acordo com a autarquia, esta inclusão “assentará no plano individual mediante a motivação, as aspirações e os desejos pessoais, promovendo competências pessoais, sociais e de empregabilidade”.

A casa de acolhimento será “uma resposta diurna, de convívio, lazer e actividades lúdico/didáticas, um espaço de socialização que potencie a procura dos serviços, o acesso a informação sobre os recursos existentes na rede social, bem como o acesso a bens de primeira necessidade e a kits alimentares”, continua o documento.

Estão também previstas “acções de capacitação e empregabilidade, a criação e dinamização do grupo de auto-ajuda e um programa de treino de competências para a vida”, acrescenta.

“É óbvio que não poderemos impor [a comparência na casa], mas a maioria dos sem-abrigo de Gaia estão a ser acompanhados por equipas no terreno e será dada continuidade a esse apoio bem como a outros que precisem de ajuda e que não tenham ainda esse acompanhamento”, completou a autarca.

Segundo a autarquia, Gaia tem vindo a registar um crescente número de pessoas sem-abrigo. A 31 de Dezembro de 2019, o concelho tinha 188 pessoas nesta situação, sendo o segundo concelho da Área Metropolitana do Porto com mais sem-abrigo, dos quais 103 sem tecto e 85 sem casa.

Três meses depois, em Março de 2020, depois de um diagnóstico para a implementação do NPISA (Núcleo de Planeamento e Intervenção dos Sem-Abrigo) de Gaia, constatou-se a existência de 201 pessoas, sendo 116 sem tecto, a viver em espaços públicos, abrigos de emergência e locais precários, e 85 sem casa, assinala ainda o documento.

21.7.21

Aumento de pedidos obriga Gaia a duplicar verba do programa de apoio ao arrendamento

in Público on-line

Reforço do orçamento foi aprovado por unanimidade. Autarca de Gaia diz que pedidos são em grande número

A verba destinada ao apoio ao arrendamento “mais do que duplicou” este ano em Vila Nova de Gaia, revelou esta segunda-feira o presidente da Câmara, após uma reunião de executivo na qual foi aprovado um reforço de 100 mil euros.

Com o reforço aprovado por unanimidade, o programa de apoio ao arrendamento de Vila Nova de Gaia viu cabimentado, este ano, um total de 850 mil euros. Em 2020, o mesmo programa necessitou de 400 mil euros de cabimentação.


“Temos recebido muito pedidos. Este ano o programa mais do que duplicou”, disse o presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, que falava aos jornalistas no final de uma reunião camarária.

Desses 850 mil euros, 700 mil estão já executados, frisou o autarca, estimando que as solicitações quer de quem gere o programa, quer de quem o procura “não fiquem por aqui”. “Estamos em Julho e é este o cenário. No ano passado foi necessário no total menos de metade”, completou.

De acordo com informação enviada à agência Lusa pela autarquia de Gaia, no distrito do Porto, “no presente ano foram já aprovados 438 apoios” e “actualmente existem ainda 84 candidaturas em fila de espera”.

Animais protegidos

A sessão camarária desta terça-feira também ficou marcada pela aprovação unânime do protocolo que visa a criação de uma resposta para animais de companhia de vítimas de violência doméstica. O nome do projecto-piloto é “Animais protegidos, vítimas protegidas”.

Em causa está uma parceria entre a Câmara de Vila Nova de Gaia e a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) com vista ao desenvolvimento de uma resposta para a necessidade de acolhimento e protecção dos animais de companhia de vítimas de violência doméstica em equipamentos especializados existentes no município, nas situações em que os organismos da Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica (RNAVVD) não o possam garantir.

De acordo com informação camarária, no primeiro trimestre de 2021, a CIG procedeu ao levantamento das necessidades de adaptação na RNAVVD, no âmbito do qual concluiu que a maioria das vítimas considera não dispor de condições de acolhimento de animais de estimação.

“Muitas vítimas não querem pedir apoio e adiam a sua saída de uma relação violenta com receio pela segurança dos seus animais, optando muitas vezes por permanecer em situações de alto risco à sua integridade física e psicológica”, é descrito no protocolo.

Mas, através deste projecto, a autarquia fica comprometida a assegurar o acolhimento dos animais de companhia das vítimas de violência doméstica que lhe sejam sinalizados pelas entidades da RNAVVD, depois de devidamente validados pela CIG.

É também responsabilidade da autarquia, garantir a alimentação, os cuidados médico-veterinários e outras acções que se revelem necessárias para o bem-estar animal, “dando prioridade à segurança e confidencialidade relativamente à origem do animal”.

8.7.21

IHRU despeja 11 famílias de casas ocupadas no centro de Gaia

Maria Monteiro (Texto) e Nelson Garrido (Fotografia), in Público on-line

Há nove anos, vários agregados apropriaram-se de casas vazias no Bairro de Cabo-Mor, em Mafamude, por não terem alternativa habitacional. Agora, têm ordem do IHRU para sair. Câmara dará “todo o apoio ao IHRU e ao tribunal” para reposição da legalidade. 

Antes de, há cinco anos, ocupar uma das habitações que estavam livres no Bairro de Cabo-Mor, em Mafamude, no centro de Vila Nova de Gaia, Rute Nunes sentia-se como um caracol, sempre com a casa às costas. “Onde eu fosse tinha de levar a minha casa, senão estava desgraçada”, conta ao PÚBLICO. Em 2015, saída da prisão em liberdade condicional e com uma filha bebé, começou a tentar reconstruir a sua vida. Esteve temporariamente em casa da mãe, pediu ajuda ao Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) e foi morar para casa de um vizinho “por favor”. 

Teve de sair quando o vizinho foi preso e ficou sem casa. Andou cerca de um ano a viver “como uma bola de pingue-pongue” — saltava de casa em casa, de favor em favor, e ia à mãe quando queria tomar banho, comer ou lavar a roupa. “Isso não dava estabilidade à minha filha.” No bairro, há muito se sabia da existência de casas públicas que haviam sido renovadas e estavam desabitadas. A vizinha de baixo ia sair dali e perguntou-lhe se “queria ocupar”. Desesperada e sem alternativa, aceitou. Encontrou uma casa degradada, sem portas e com paredes sujas. Pediu ajuda aos irmãos com tintas e produtos para lavar tudo. 

“Não estava habitável.” Na altura, já estava a ser acompanhada pela Segurança Social, devido à sua situação de vulnerabilidade social, económica e habitacional, por isso a instituição terá ficado, desde logo, a par da ocupação. Nos últimos cinco anos, viveu o seu dia-a-dia a olhar por cima dos ombros, mas foi a 30 de Abril que ficou sem chão. “Vieram-me bater à porta, apresentaram-se como doutores do tribunal e informaram-me verbalmente que tinha 14 dias para sair”, recorda. Foto Rute recebeu ordem para sair da casa que ocupou a 30 de Maio. 

Desocupação forçada por “ameaças" Rute pertence a um de 11 agregados que, recentemente, receberam ordens do IHRU para desocuparem as casas, sem lhes ser apresentada uma solução habitacional. Houve quem fosse notificado por carta, mas neste caso, quando pediu para ser avisada por escrito, disseram-lhe que “não tinha direito a isso”. 

“Disseram que eu era um ‘esbulho’”, relata a moradora. Segundo conta ao PÚBLICO, terá havido uma mudança de postura de quem veio comunicar o despejo na segunda visita, a 14 de Junho. “Aí já ameaçaram com um processo, com tribunal de menores.” Os mesmos argumentos terão sido proferidos junto de outras famílias que, temendo ficar sem os filhos, saíram “a bem”.  De acordo com o movimento Habitação Hoje, um dos exemplos é Tatiana, que “após abandonar a casa sob ameaça de retirada das crianças pela protecção de menores, deixou os filhos, um com sete meses e outro com sete anos, na casa dos pais e, sem qualquer solução, vive desde então com o companheiro, num veículo”. 
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Quando, há um mês, Rute bateu o pé, sugeriram-lhe que falasse com a Segurança Social para resolver a situação, mas as opções apresentadas não eram solução. Voltar para a “casa sobrelotada” da mãe, onde também vivem dois irmãos e os sobrinhos, era impensável. Pôs-se, também, a questão de ir para uma casa-abrigo durante dois meses, mas só podia levar a filha mais pequena. “Os dois mais velhos, de que agora tenho guarda partilhada, não podiam estar comigo.” Por fim, propuseram-lhe o aluguer “em zonas [periféricas] como Crestuma, Lever ou Sandim”. Mas, diz, “ali não há casas, e [no centro de] Gaia o mais barato que vi foi 450€ por um T0 ou T1”. 

Valor impossível de suportar, uma vez que só faz uns “biscates de estética”, parcos rendimentos a que se juntam o RSI e abonos. Esforços para regularizar situação Num bloco mais à frente vive Lisandra. Está aqui “fez um ano este mês”, depois de se ter separado do pai dos filhos. Como fugiu de casa, vítima de violência doméstica, não conseguiu levar as crianças para a instituição onde esteve, durante um mês, em 2019. Foi, depois, para casa de uma tia, mas a família não aceitou a separação, “[considerada] uma vergonha por ele ser de etnia cigana”. Cortou relações com a família e teve de se desenvencilhar sozinha. “Tive necessidade de fazer o que fiz”, assume, referindo-se à apropriação da casa onde vive. Mas, pouco tempo depois de chegar aqui, ter-se-á dirigido ao IHRU para “legalizar tudo”, mas o pedido foi-lhe negado.  

Recebeu uma carta em Fevereiro para sair em “dez dias”, fez sucessivos contactos para regularizar a situação, sem sucesso. Também está inscrita para habitação camarária na Gaiurb, mas o pedido permanece sem resposta. Bruna ainda não recebeu ordem de despejo, mas como Lisandra, fez vários esforços junto do IHRU para “pedir uma renda, água, luz, tudo direitinho, porque queria pagar”. “Sempre disseram que tinha de sair, que nunca ia haver contrato”, afirma. 

Teve de sair de casa depois de se juntar com o companheiro, pois ambas as famílias reprovavam a relação e, sem sítio para onde ir, construiu “um barraco onde não tinha nada”. “Só tínhamos água e luz pelas vizinhas que tinham pena da gente”, lembra. Estava grávida e, quando soube que havia “pessoas a arrombar casas para fazer festas e para dançar”, tomou conta de uma há seis anos.  O ambiente foi pacífico até que “começaram a vir para aí pessoas que metem a música muito alta e andam num entra e sai”, acrescenta Marta, irmã de Rute que está na lista de espera da Gaiurb “há 9 anos”. 

“Os vizinhos, tantos anos sem barulho, de certeza que começaram a ligar para a Gaiurb e por um pagam todos”. O certo é que, em Março, o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, revelou ter pedido a intervenção do tribunal para agilizar o processo de desocupação das casas do IHRU, que já entrara com uma providência cautelar. Na altura, citado pela Lusa, o autarca disse que se tratava de “apartamentos ocupados clandestinamente” por pessoas que “não são pessoas de Gaia, nem estão registadas em Gaia”. As três moradoras que falaram ao PÚBLICO dizem ter raízes em Gaia e naquele bairro, onde nasceram e foram criadas. “A minha mãe mora aqui desde sempre e os meus sogros também”, indigna-se Bruna. “Basta ir à junta da freguesia ver isso.” IHRU e Câmara querem “reposição da legalidade" De acordo com Helena Souto, da Habitação Hoje, a abordagem do IHRU tem-se caracterizado por uma “violência silenciosa e calculada”, porque a ordem de despejo tem sido apresentada a diferentes pessoas de “duas em duas semanas” para “criar menos união entre as pessoas”. 

“O IHRU não está a cumprir com o dever de garantir habitação para todos que dela necessitem”, critica. O movimento enviou uma carta ao IHRU, à Secretaria de Estado da Habitação e ao Ministério das Infraestruturas e Habitação, mas diz que o “IHRU não tem interesse em resolver o problema”. 

Em e-mail ao PÚBLICO, o IHRU informa que “as situações aqui identificadas não correspondem efectivamente a qualquer processo de despejo, mas antes a processos de desocupação, por motivo de ocupações ilegais promovidas em habitações do IHRU”. Aquela entidade acrescenta que as habitações em causa “iam ser objecto de reabilitação para nova colocação ao serviço das famílias que aguardam, em listas ordenadas, pela atribuição de uma habitação pública”.  O actual contexto de “escassez de respostas públicas face às necessidades existentes”, sustenta, evidencia a necessidade de “através do Programa 1.º Direito, reforçar a resposta existente com vista ao efectivo enquadramento de todas as necessidades da população”. 

O IHRU considera, ainda, que “a existência deste tipo de processo [de ocupação], ainda que possam estar em causa agregados que careçam de respostas sociais, não é compatível com a existência de um procedimento formal para atribuição destas habitações”.  Os processos de desocupação das casas, apesar de não “terem sido suspensos por diploma legal”, foram suspensos pelo IHRU “com o início da pandemia e com a entrada em vigor de medidas mais restritivas de confinamento”, mas a “retoma gradual à normalidade e a necessidade de repor a legalidade na atribuição dos fogos às famílias torna fulcral a prossecução do processo de desocupação dos imóveis” para proceder à sua reabilitação e atribuição a famílias “que se encontram a aguardar nas listas de espera do IHRU e do município”. 

O Instituto refere, ainda, que uma vez iniciado o procedimento cautelar, “é salvaguardado o apoio aos ocupantes destas habitações através da Segurança Social, a fim de garantir uma alternativa habitacional” a estas famílias, “desde que devida e legalmente identificadas junto do IHRU ou dos municípios”. Foto A Câmara de Gaia e o IHRU querem repor a legalidade para atribuir as casas a famílias “que se encontram a aguardar nas listas de espera do IHRU e do município”.

Esta segunda-feira, os moradores participaram numa concentração em frente à Câmara de Gaia para pedir uma audiência ao presidente, mas esta não foi concedida, tendo-se procedido a uma desmobilização accionada pela PSP. Contactada pelo PÚBLICO, a Câmara de Gaia remete para as declarações feitas à Lusa. 

“Não foram recebidos, como não serão recebidos, não seremos complacentes com pessoas que agridem o património público, violam as regras e se utilizam da etnia para se vitimizarem”, disse Eduardo Vítor Rodrigues. O autarca reconheceu que a “Câmara dará todo o apoio ao tribunal e ao IHRU para que haja a reposição da legalidade” e propôs que “se precisam de casa, se inscrevam e respeitem as regras”. As casas, lembrou o socialista, “estavam prontas para entregar a famílias carenciadas” que tinham sido sinalizadas pela Segurança Social.

4.5.20

Vila Nova de Gaia. 31 mil alunos, 9000 computadores em falta e uma ideia para resolver o problema à escala nacional

Rute Sousa Vasco, in Sapo24

Vila Nova de Gaia foi um dos concelhos com mais infetados com covid-19 no país, à semelhança de vários municípios na região norte. Travado o avanço do número de contágios, a educação passou a ser o desafio seguinte. O presidente da autarquia e também da Área Metropolitana do Porto, Eduardo Vítor Rodrigues, avançou com uma iniciativa para as situações prioritárias mas, ao mesmo tempo, apresentou uma ideia a António Costa: a de usar os fundos de combate ao insucesso escolar para comprar computadores à escala nacional.

É em tempos como os que vivemos que percebemos como a estatística pode com a informação certa dar-nos uma perceção distorcida de alguns problemas. Têm sido semanas a tentar perceber o que as curvas nos dizem no que respeita à progressão e contenção da covid-19 e a necessidade de perceber o que nos dizem os números não se esgota aí. A educação é outra das áreas onde precisamos de interpretar o que os números nos dizem.

Senão vejamos: de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), no ano passado, 80,9% dos agregados familiares tinham acesso a internet em casa, sendo que nas famílias com filhos até aos 15 anos a percentagem subia para 94,5%.

Ou seja, e 5% dos estudantes com menos de 15 anos viviam em casas sem Internet. 5% em 100% não é uma percentagem que assuste. 5% numa realidade como a atual significa que, no mínimo, há 50 mil estudantes - só no ensino básico - sem acesso à internet [mais sobre este tema em "Ter um computador é um luxo". Este é um retrato do ensino á distância em Portugal, o milagre possível")

Com o fecho das escolas, agrupamentos escolares, autarquias, associações de pais, de professores e o Ministério da Educação perceberam que era necessário ter informação sobre as carências de equipamento informático e de acesso - uma ideia que ficou reforçada com a decisão de manter o terceiro período do ano letivo em ensino às distância para a maior parte dos alunos.

Entre as várias respostas, nomeadamente na sociedade civil com projetos como Student Keep, as autarquias estiveram na linha da frente face ás responsabilidades que têm ao nível do ensino público. Vila Nova de Gaia é uma das autarquias onde o problema da falta de computadores e de acesso tem maior expressão pela própria dimensão do concelho. "Temos, no total de alunos abrangidos pelo ensino público, 31 mil estudantes. No 1º. ciclo temos 11.000 e no pré-escolar, 4.000. Isso significa que estamos a falar de mais alunos do que muitos concelhos têm de habitantes", explica, nesta entrevista, o presidente da câmara, Eduardo Vítor Rodrigues. Que confessa que começaram cedo à procura de soluções, mesmo com a pressão que se fazia sentir nas primeiras semanas de abril no tema sanitário. "Para ser honesto, passámos todo o período das tradicionais férias da Páscoa já absolutamente convencidos de que não iria haver quadro para aulas presenciais no 3º trimestre".

Chegaram assim a uma primeira resposta que consistiu na entrega de 400 computadores e 1000 tablets a alunos mais carenciados. Um número manifestação insuficiente, já que a estimativas no concelho são de cerca de 9000 estudantes sem recursos para estudar m casa. E que é ainda maior se projetado à escala de uma área metropolitana com 600 mil alunos.

Student Keep. Um plataforma de padrinhos para levar computadores a quem precisa

A iniciativa nasceu no movimento Tech4Covid-19, que junta já mais de 4000 voluntários, muitos da comunidade tecnológica nacional. Não por acaso, tem como um dos primeiros voluntários um responsável pela área de inovação numa empresa, casado como um professora do ensino básico, com dois filhos em isade escolar e a viver em Coimbra. Um conjunto de fatores que permitiu a Rui Nuno Castro ter, desde os primeiros dias de aulas em casa, a perceção que seria preciso fazer alguma coisa para fazer chegar computadores aos alunos que não têm esse equipamento para estudar.

Nasceu assim o Student Keep, que, no final de abril, contava já com mais de 500 padrinhos individuais e mais de 40 empresas. Nomes como o do casal Seferović, jogador do Benfica e a mulher Amina, ou empresas como a EDP, além do patrocínio do Santander e da Fundação Gulbenkian.

A ideia é simples: quem tem um ou mais equipamentos que possam ser doados a alunos inscreve-se na plataforma e a partir daí é estabelecido contacto com as escolas da área de residência de forma a fazer chegar a quem precisa. Além da doação, os voluntários podem também entregar "tempo" para reparar ou instalar computadores - e já há mais de 100 inscritos. Uma história que pode acompanhar no episódio desta semana do The Next Big Idea.

Uma dimensão que fez com o que o autarca de Gaia e presidente da Área Metropolitana do Porto apresentasse ao primeiro-ministro e ao ministro da Educação uma ideia: a de usar fundos do Portugal2020 para combate ao insucesso escolar para prevenir o insucesso escolar que poderá advir da falta de meios para estudar em casa. E, com esses fundos, fazer uma compra de equipamentos ao nível nacional, evitando situações de desequilíbrio no país. A ideia foi "bem aceite", mas falta Bruxelas dizer que sim. "Quando fizemos esta proposta estávamos no fim do mês de março e, para o arranque do 3º período, não teríamos tempo para que aquela máquina extraordinária que é a burocracia de Bruxelas se pronunciasse rapidamente. Agora, o que eu acredito é que no início do próximo ano letivo teremos com certeza condições para o fazer porque contra aquilo que é normal, há dinheiro".

Quando perceberam que a frente da educação, das escolas, vos ia exigir tomar algum tipo de iniciativa?

Eduardo Vítor Rodrigues - Para ser honesto, passámos todo o período das tradicionais férias da Páscoa já absolutamente convencidos de que não iria haver quadro para aulas presenciais no 3º trimestre. Os números apontavam para que isso acontecesse, as tendências eram claras. Portanto, não foi uma surpresa quando, no último dia do timing previsto, quinta-feira santa, foi anunciado que não teríamos aulas presenciais. O município já tinha preparado um plano de intervenção, dentro do quadro das nossas competências, que são em primeiro lugar o 1º. ciclo e o pré-escolar, mas não esquecendo que depois havia também trabalho a fazer nos 2º. e 3º. ciclos e no secundário, ou na parte do secundário que não ficasse contemplada por aulas presenciais. E, portanto, começámos a trabalhar nessa altura.

Quantos alunos, entre o pré-escolar, o ensino básico e o secundário, existem em Vila Nova de Gaia? De quantas escolas estamos a falar?

Esse começa por ser um problema, ao que depois se acrescenta outro: temos, no total de alunos abrangidos pelo ensino público, 31.000. No 1º. ciclo temos 11.000 e no pré-escolar, 4.000. Isso significa que estamos a falar de mais alunos do que muitos concelhos têm de habitantes.

O que é uma grande exigência…

E levanta um segundo problema: na verdade, o município tem também a responsabilidade de coordenar, porque é uma resposta municipal, um programa de apoio extra-curricular que abrange os alunos do 1º. ciclo e pré-escolar, num total de 15.000 alunos. É um programa que se chama “Gaia Aprende Mais” e que funciona das quatro e meia às sete e meia da tarde, com um conjunto de iniciativas que vão desde a introdução ao francês até ao judo ou ao karaté e é um programa estritamente municipal. Por isso sentimos uma necessidade ainda maior de intervenção, porque nesse grupo de alunos do “Gaia Aprende Mais” está um conjunto de 800 que são alunos com necessidades educativas especiais. E não quisemos, no período especial que estamos a viver, deixá-los “encostados” à espera de uma próxima oportunidade; se é um projeto inclusivo…

Já havia algum levantamento sobre quantas famílias, quantos alunos, qual a carência de equipamentos - computadores, tablets – caso fosse necessário estudar em casa?

No início do ano letivo, no momento das inscrições e matrículas e depois no arranque do ano letivo propriamente dito, é feito um diagnóstico sócio-económico, que tem o seu nível de falibilidade. Estamos a falar de um diagnóstico que questiona os alunos sobre a existência do equipamento em casa. Isso não é necessariamente a disponibilidade do equipamento para uma situação destas – o aluno pode ter equipamento em casa, que é dos pais e depois é usado apenas pontualmente e não com a assiduidade que se exige. Não vou dizer que não tivesse de ser atualizado, e quando foi atualizado deparámo-nos com duas questões: estamos a falar de computadores para alunos e com necessidades educativas especiais, sublinhar.


E qual foi a segunda questão?

É bom não esquecer que no levantamento que fizemos tivemos também, talvez para surpresa de muitos, não para mim, a necessidade de apoio, por parte dos professores. Não me parece uma coisa surpreendente, porque o município fornece todo o equipamento a todos os seus trabalhadores. Criou-se talvez a ideia de que o professor, por natureza, tem um computador portátil, que usa para a escola, ao contrário dos outros trabalhadores da Câmara que recebem o alicate comprado pelo município. Quando numa casa coexistem dois professores e só há um computador, percebemos que não há, de facto, disponibilidade do computador para, ao mesmo tempo, ambos estarem a trabalhar. Portanto, do lote de computadores disponibilizados disponibilizamos 50 para serem entregues, por empréstimo, a professores.

Do ponto de vista de números, conseguiram chegar a alguma conclusão sobre quantos precisariam?

Temos um número indicativo de 30% de necessidade em cima do número total de alunos, ou seja, precisaríamos de cerca de 9.000 computadores.

E na realidade, desses 9.000, qual é a capacidade de resposta, nesta fase?

Desses 9.000 temos três situações distintas: temos aqueles que não têm computador nem internet, temos aqueles que têm computador, mas não têm internet, que são poucos, e temos aqueles que têm internet mas não têm computador e que são mais porque têm normalmente internet fruto do pacote de televisão associado ao wi-fi e depois não têm é o computador.

O que fizemos foi criar respostas diferenciadas para estas situações. Não fazia sentido pagar um bundle de computador e internet se já existe internet em casa. As opções consistiram na compra de 400 computadores em bundle com hotspot e ligação à internet, 300 hotspot com ligação à internet, mas sem computador e 1000 tablets - bons tablets – que servem para o trabalho em casa, sobretudo o trabalho que diz respeito ao acesso à internet para utilização de plataformas.

Neste 3º trimestre é garantido que as aulas serão em casa para uma boa parte da população estudantil, mas não sabemos o que nos reserva o próximo ano letivo. O que significa que essas necessidades que foram identificadas, mesmo de uma forma faseada, terão de ter resposta. Como está a pensar fazer?

Para já, cobrimos aquilo que era absolutamente fundamental nesta fase. Infelizmente a escala do município em termos demográficos não corresponde necessariamente àquilo que é a escala financeira. Tive oportunidade de propor, quer ao senhor ministro e ao senhor primeiro-ministro, quer como presidente da câmara de Gaia quer como presidente da área metropolitana, uma solução que me parecia inteligente.

HÁ, NESTE MOMENTO, UMA LINHA DE FINANCIAMENTO PARA O COMBATE AO INSUCESSO ESCOLAR QUE TEM UMA TAXA DE UTILIZAÇÃO, DE EXECUÇÃO, NA ORDEM DOS 30%
Não ignoro que não é fácil, de repente, ir ao mercado e comprar milhares de computadores. É evidente que isso não se faz de um dia para o outro, ainda para mais quando tivemos este processo covid-19 a acontecer na China e, portanto, muito do hardware que vem de lá esteve bloqueado este tempo todo. Mas julgo que é fácil de perceber que, no início do próximo ano letivo, se fizermos o trabalho de casa, temos um instrumento financeiro que nos vai ajudar a garantir um stock de material informático nas escolas, com muita facilidade e diria até sem nenhum tipo de consequências do ponto de vista financeiro para o orçamento de estado. Porque há, neste momento, uma linha de financiamento para o combate ao insucesso escolar que tem uma taxa de utilização, de execução, na ordem dos 30%.

Ora, 30% é uma taxa de execução de um programa que acabará, no fim do quadro comunitário que, como sabe, acaba no final de 2020, depois com o adiamento suplementar de um ano, ano e meio.

Como é que vê essa implementação?

Temos aqui a possibilidade, não a reboque do combate ao insucesso escolar mas, mais importante de tudo, a reboque da prevenção do insucesso escolar e da universalização do acesso às plataformas eletrónicas, à internet, etc, podermos fazer um trabalho de financiamento, por essa linha, que nos ajudasse e que ajudasse as próprias escolas. É bom dizer que estamos a incidir muito no hardware, mas em muitas escolas do país, infelizmente, o software é muito limitado e o seu licenciamento é tão limitado como o software. Portanto, também é bom que se perceba que vamos ter de ter aqui (no software) uma atuação, mais dia menos dia, Sob pena de estarmos todos iludidos com os computadores e depois os computadores chegam ao agrupamento e não há software para lá colocar ou, pelo menos não há software licenciado para lá colocar.

Qual foi a resposta do Governo à sua proposta?

A resposta foi imediatamente favorável. O senhor ministro da Educação e o senhor primeiro-ministro olharam para isto com grande interesse.

Portanto, vai avançar?

Eu acredito que sim. É preciso também dizer que, se não avançou de imediato, é porque nem o primeiro-ministro tem poder para alterar os regulamentos sem autorização da Bruxelas. Quando fizemos esta proposta estávamos no fim do mês de março e, para o arranque do 3º período, não teríamos tempo para que aquela máquina extraordinária que é a burocracia de Bruxelas se pronunciasse rapidamente. Agora, o que eu acredito é que no início do próximo ano letivo teremos com certeza condições para o fazer porque contra aquilo que é normal, há dinheiro. Precisamos de ajustar apenas o regulamento e isso está na nossa mão e na mão da negociação com Bruxelas - e faz todo o sentido que assim aconteça. É muito importante que se reconheça que não estamos apenas a falar de um processo que diga respeito às famílias mais pobres. Estamos também a falar de um processo que diz respeito a muita gente da classe média, média-média e média-baixa, que nas estatísticas de poder de compra e de rendimentos não está no nível de pobreza que permite aceder a todos os apoios. Está num nível que é ligeiramente superior àquela que é a linha da pobreza, dos apoios sociais, e qualquer perda de rendimento a faz tombar na franja seguinte e que necessita tanto como aqueles que aparecem como os mais pobres. A classe média e a nossa classe média, em Portugal, está em muitos casos e em muito volume, muito próxima daquilo que é o limiar de pobreza. Às vezes estamos a falar de diferenças de 100 euros ou de 150 euros que num processo de lay-off se desvanecem. Por isso tivemos muita cautela com os agrupamentos, em conceber este programa não apenas para aqueles que apresentam no início do ano letivo uma condição que lhes permite aceder imediatamente a todos os apoios sociais, e que os têm, mas também àqueles que foram vítimas recentemente, há quinze dias ou três semanas, de um processo de perda rápida e brutal de rendimentos que de repente os fez cair na estrutura. Sob pena de, se não tivermos esta atenção, termos classes médias rapidamente a transformar-se em classes pobres mas sem nenhum tipo de acesso aos apoios sociais porque só mais tarde, fazendo prova por condição de recursos, vêm a receber algum tipo de apoio que nunca é retroativo. 1

Do ponto de vista da capacidade de resposta da sociedade civil, que espera que haja algum tipo de colaboração?

Por muito que nos tenhamos esforçado – nós, os agrupamentos, as próprias juntas de freguesia – esse é um ponto a que os empresários e os eventuais doadores chegaram mais tarde. E porquê? Porque durante as primeiras semanas todo o esforço de doação foi posto em cima do hospital, por razões que se percebem. Só neste momento é que se começou a ver que havia muito interesse e muita utilidade no envolvimento destes atores neste processo, que as vezes é de empréstimo, outras vezes é mesmo de doação. E, portanto, fazer disto um processo de envolvimento da comunidade. Eu tenho de dizer que me sinto muito orgulhoso de Vila Nova de Gaia. A disponibilidade tem sido enorme. Temos tido em múltiplos agrupamentos, em empresas locais - não estamos a falar de grandes empresas, o que também diz muito de tudo isto. Empresas locais, que vivem até com algumas dificuldades, com lay-off, mas que se disponibilizam neste processo coletivo, quase comunitário, a participar, a disponibilizar os seus próprios computadores, estando em lay-off, mas sobretudo a adquirir e a colocar nas escolas, como doação definitiva à escola.

O número que falou em relação a Vila Nova de Gaia e atendendo à sua dupla função como presidente da Área Metropolitana, é espelhável na realidade da área metropolitana? Há 30% estimados de famílias que podem não ter acesso a computador em casa?

Pelos contactos que tenho tido com os colegas da área metropolitana, e não só, infelizmente, a situação tende a agravar-se à medida que saímos desta malha urbana mais central. É verdade que em municípios como Porto, Gaia, Matosinhos há um poder de compra mais elevado. Também é verdade que existem franjas de pobreza associadas a urbanizações sociais ou outras, mas é sobretudo verdade que quando chegamos à segunda ou terceira malha do anel metropolitano e percebemos a realidade sócio-económica, a situação apresenta números generalizadamente piores. Também é verdade que aí, temos municípios que, não tendo exatamente os mesmos recursos que Porto, Gaia ou Matosinhos, têm apesar de tudo, um contingente demográfico suficientemente baixo, nesta faixa etária, para com 200 ou 300 computadores resolverem o problema de toda a gente, coisa que é impensável fazer nas grandes cidades.

Para fechar este ponto dos números: na Área Metropolitana do Porto, falamos de quantos alunos, entre estes três níveis de ensino?

Na Área Metropolitana do Porto falamos de 17 municípios que vão desde o Porto, cidade, até Arouca correspondendo a dois distritos, do Porto e Aveiro, num total de alunos, no ensino público, superior a perto de 600 mil alunos.

Como vai ser este regresso à normalidade em Vila Nova de Gaia?

Nesta fase estamos muito focados na preparação das condições de entrada do 11º e 12º anos. Aí temos de garantir um conjunto de condições, não apenas as tecnológicas, mas também condições de segurança pessoal, porque admito que seja obrigatório usar máscara no transporte público, e muitos alunos e professores utilizam o transporte público. Depois, dentro da própria escola, haverá também medidas de segurança que têm de ser implementadas.

Relativamente ao concelho como um todo, estimo que no dia 4 possamos ter um início de abertura gradual de alguns serviços. Estou a referir-me ao comércio local, ao comércio de bairro, não ainda às grandes superfícies. Mas há condições para impor regras para circulação e para abertura deste tipo comércio local, o que tem de estar associado ao retorno à normalidade. Portanto, o que imagino é que no dia 4 arranquemos, no município e se calhar pelo resto do país, com um conjunto destes serviços a funcionar e que isto seja uma forma de nos aperfeiçoarmos nas novas relações que vamos ter, nos novos comportamentos que vamos ter.

Este progressivo retorno tem um de dois caminhos: ou vai ser um progressivo retorno que, por etapas, nos vai levar o mais possível próximo daquilo que era a nossa normalidade, é o que desejo; ou vai ser um retorno que vai ter, nos quinze dias ou três semanas seguintes, um revés se as pessoas acharem que já está tudo ultrapassado e que já podem interagir normalmente. O que espero é que fique claro que este retorno vai ter de ser feito com muita cautela, muita consciência de cada um, individual, e ao mesmo tempo com imposição de medidas rigorosas para que se perceba que não é um aliviar de condições para um retorno a uma alegada normalidade. Acho que vai ser muito difícil, nos próximos muitos meses, podermos falar de retorno à normalidade.

Quais são as principais frentes de atuação em Vila Nova de Gaia?

Para que isto aconteça, o município está em várias frentes, desde a utilização deste período de menor intensidade de circulação no espaço público para fazer a desinfeção do espaço público (jardins, ruas passeios) até a própria manutenção dos nossos equipamentos que venham a ser usados de forma diferenciada. Dou apenas um exemplo, que não sendo estritamente nosso, é dos seis municípios da malha central da Área Metropolitana, que são os autocarros da STCP. Neste momento estamos a cabinar os autocarros de forma a que o motorista fique inserido numa célula não tendo contacto com os utentes e dessa forma protegendo o motorista, ainda que entenda, e será isso que vai acontecer seguramente, que os autocarros terão de ter uma percentagem que não a atual, que é apenas de um terço, mas uma percentagem condicionada de acesso ao próprio serviço. Há muitas alterações a fazer: a colocação de gel ou máscaras em máquinas de vending nas grandes zonas de paragens de autocarros ou do metro vai ser uma inevitabilidade, porque de certeza que se vai circular no transporte público com máscara. Portanto, há muita coisa a fazer e isto são apenas alguns exemplos. Julgo que nunca como hoje, os municípios foram chamados a diversificar tanto sua área intervenção.

Acho também que nunca como agora os municípios mostraram tanto essa capacidade de adaptação e até de empenho, tantas vezes posta em causa quando se falava da descentralização, para que as coisas corressem o melhor possível.

O primeiro-ministro numa reunião, por videoconferência, comigo enquanto presidente da Área Metropolitana do Porto, e com o presidente da Câmara do Porto e com o presidente da Câmara de Lisboa, também presidente da Área Metropolitana de Lisboa, e os ministros do Ambiente, dos Transportes, das Infraestruturas e Habitação, comentava: “Preciso de ouvir os autarcas ou aqueles que representam estruturas das autarquias, porque é diferente perceber a realidade a partir da visão mais técnica, às vezes muito tecnocrata, ou percebê-la partir da voz dos próprios que levantam problemas que às vezes são difíceis de pensar".

Por exemplo, quando se tratava de perceber a percentagem de ocupação que cada autocarro pode ter, é preciso não esquecer que abrindo o comércio local e as aulas, como se perspetiva abrir, se formos muito ciosos na taxa de ocupação dos autocarros, não vamos ter as pessoas dentro dos autocarros mas vamos ter aglomerações dentro dos abrigos, portanto é preciso reforçar as frequências para que os autocarros circulem mais assiduamente e para que não se acumulem pessoas nos abrigos. Na verdade, é a mesma coisa, ou pior até, ter pessoas nos abrigos ou dentro dos autocarros a fazer um pequeno percurso. Estas questões, muitas vezes escapam ao dia-a-dia.

Mais importante que tudo foi adaptar-me emocionalmente. Porque uma coisa é gerir o município naquela lógica da gestão tradicional. Outra coisa foi começar a perceber que, afinal, quando chegamos a um momento destes, temos de dar todos as mãos. Tivemos de nos envolver com lares que são privados, com IPSS que, sendo parceiros são também privados. Lembro que, no caso de Vila Nova de Gaia, temos dentro dos lares de idosos mais de 2.500 pessoas, em 59 lares. É, mais uma vez, mais do que muitos concelhos têm de habitantes. Por exemplo, a problemática dos testes nos Lares tem sido absolutamente estonteante, com muitas nuances. Acho que tenho aprendido muito, mas, sinceramente, o que peço a mim próprio é capacidade de resistência e de resistência emocional. Porque os problemas com que nos confrontamos muitas vezes, como o abandono do idoso no hospital, são problemas que nos interpelam numa lógica que já não é de gestão apenas.

Depois é trabalhar. Tem sido extraordinário. Sem nenhum tipo de exageros, tenho de dizer, e por natureza já sou um crente na natureza humana. Nunca vi as pessoas que, por um lado, não se podem cumprimentar, beijar, como tradicionalmente, mas que nesta fase estão tão imbuídas dum espírito solidário, de empenho, às vezes até de alguma irresponsabilidade. Como um senhor de idade que se senta sempre a jogar dominó em frente à câmara; pedi-lhe para ir para casa e responde “Oh, presidente, eu não sou como vocês, do tempo dos iogurtes. Eu sou um resistente. Já passei muita fome!” E nós ficámos sem saber o que dizer. Também desse ponto de vista tem sido extraordinário perceber como as pessoas voltaram a ganhar o espírito de comunidade.

Escrevi num artigo, há dias, em que dizia que iniciámos um processo de desglobalização. [Acabou] Aquilo que para nós era estar hoje aqui e passados uns dias estar noutra ponta qualquer do globo ou valorizar tudo o que é de fora e tantas vezes desvalorizar o que é nosso. Acho que vamos passar por um tempo de reforço dos nossos laços, das nossas redes de sociabilidade e daquilo que é nosso, daquilo que é a nossa cidade, o nosso país. Acho que esse processo de desglobalização está a acontecer e vai mesmo reforçar-se.

25.2.14

Estágios remunerados prestes a começar no âmbito do programa Capacitação-Emprego

in Câmara Municipal de Gaia

Os estágios remunerados criados no âmbito do programa Capacitação - Emprego, resultante de uma parceria entre o Município de Gaia e o Instituto de Emprego e Formação Profissional, vão iniciar já nas próximas semanas, com uma duração de 12 meses.

O anúncio foi feito por Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara de Gaia, durante uma visita à primeira turma que concluiu esta acção de formação (23 formandos), que decorreu no ISLA, e que antecede os referidos estágios.

Trata-se de um programa que visa a criação de 300 estágios remunerados destinados a jovens desempregados, com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos, inscritos no IEFP e detentores de uma qualificação de nível 3, 4, 5, 6 e 7 do Quadro Nacional de Qualificações (QNQ).

O programa contempla, ainda, munícipes gaienses inscritos no IEFP, como desempregados à procura de novo emprego, com idade superior a 30 anos, desde que tenham obtido, há menos de três anos, uma daquelas qualificações e não tenham registos de remunerações na Segurança Social nos últimos 12 meses. As candidaturas estão abertas, ainda, aos cidadãos residentes em Gaia, com deficiência, inscritos como desempregados no IEFP, sem limite de idade.

Os estágios serão distribuídos de acordo com o QNQ: 150 estagiários com nível 6 ou superior (licenciados/mestres) em empresas; 90 com nível 3 a 5, inclusive, em IPSS e outras entidades privadas sem fins lucrativos; 50 com nível 6 ou superior (licenciados/mestres) em IPSS e outras entidades privadas sem fins lucrativos; e 10 estagiários, de qualquer nível do QNQ, com deficiência e/ou incapacidade.

"O que fizemos em Novembro, altura em que celebramos o protocolo, foi idealizar um programa que veio a ser assinado pelo secretário de Estado do Emprego que, agora, culmina na primeira etapa", afirmou Eduardo Vítor Rodrigues, acrescentando: "Tenta não ser um carrossel de estágios e empregos precários em que as pessoas se embrulham, como tem acontecido no nosso país, mas sim dar um conjunto de competências adicionais e romper com este ciclo de precaridade e pobreza".

O programa iniciou com jovens desempregados à procura de emprego, mas vai ser alargado a activos empregados passíveis de handicaps de formação que os tornam empregados de risco, segundo explicou o presidente da Câmara de Gaia. "Vamos tentar fazer o que um país decente faz, ou seja, apostar na aprendizagem ao longo da vida, envolvendo entidades públicas e privadas. Vamos chegar às empresas e sensibilizar os empresários que também precisam de formação. Vamos tentar dar capacitação à própria empresa e aumentar a produtividade".

A propósito, Eduardo Vítor Rodrigues manifestou a vontade de um efeito-réplica deste programa, para que seja possível "mostrar que algo pode ser feito na vida das pessoas e instituições". De resto, "se as empresas perceberem os benefícios de um trabalhador motivado, já temos um dos principais objectivos alcançado".

Beneficiarão deste programa as entidades promotoras com sede em Gaia, ou cuja atividade do estágio decorra, exclusivamente, no concelho, que se candidatem à medida "Estágios Emprego". No caso da entidade promotora ser uma empresa, o acesso ao apoio está limitado a micro, pequenas e médias empresas, até a um limite máximo de cinco estagiários por empresa.

12.9.13

Gaia é um dos concelhos mais atingidos pelo desemprego

Isabel Cunha, in RTP

A Antena 1 retrata alguns dos concelhos do país, fixando o que faz falta e o que se discute perante a aproximação das eleições autárquicas.

O concelho de Vila Nova de Gaia está no topo no que respeita à taxa de desemprego e é um o segundo município do país mais endividado.

O concelho tem tido a liderança do social democrata Luis Filipe Menezes, o que gera expetativa sobre o futuro político na autarquia.