in Diário de Notícias
Os problemas relacionados com a crise alteram as rotinas e as relações familiares. Muitos casos de violência desencadeiam-se após situações de maior 'stress' provocadas pelas dificuldades económicas.
Desemprego
Pais ficam mais "inacessíveis"
A perda do emprego e consequente dificuldade em conseguir voltar a trabalhar pode deixar os pais mais "inacessíveis", reconhece Eduardo Sá. As crianças são muitas vezes relegadas para segundo plano perante o objectivo de voltar a arranjar trabalho, tal como mostra a experiência das comissões de menores. Além disso, aumenta o stress e a irritabilidade dos pais perante os filhos. As crianças sentem que os pais estão mais "agitados", mas Eduardo Sá considera que esta situação só surge quando existem outros problemas. Até porque "não é uma situação de desemprego que transforma um pai responsável".
Alcoolismo
Consumo de álcool pode ser agravado
"Salvo situações excepcionais, a crise não cria alcoolismo", defende Eduardo Sá. No entanto, o especialista também considera que estas dificuldades económicas podem acentuar casos de problemas com álcool. Também as comissões de menores referem que o maior perigo em tempos de crise é o aumento do consumo destas bebidas, que costuma levar à violência doméstica. Muitas vezes, as pessoas já bebiam demais, "apenas disfarçavam melhor, especialmente na relação com os colegas de trabalho", refere o psicólogo. Mas já em casa iam dando alguns sinais de dependência alcoólica, defende.
Violência doméstica
Crianças mais expostas à violência
Para Eduardo Sá, a violência já existe antes das dificuldades económicas começarem a sentir-se no seio familiar. A crise até pode acentuar tendências, defende Eduardo Sá, mas não provoca mudanças drásticas de comportamento. "São comportamentos que já lá estavam, mas estavam precariamente compensados." Muitas vezes, as crianças nem são as vítimas directas da violência doméstica, mas assistem às agressões em casa, como contam algumas comissões de protecção de menores contactas pelo DN. De qualquer forma, o especialista lembra que "não podemos desculpar isto com a crise".
O facto de ser apenas um dos pais a sustentar a casa, seja porque o outro perdeu o emprego ou porque vive sozinho, pode levar a uma situação de duplo ou triplo emprego. São principalmente as mães que vivem sozinhas com os filhos que acabam por ter de arranjar mais do que um trabalho, deixando as crianças sozinhas em casa muitas vezes durante todo o dia. Naturalmente que nestes casos os pais "estão menos disponíveis", admite Eduardo Sá. E são estas situações que mostram a necessidade de "políticas sociais. Isto só acontece porque não há uma política nem de família, nem de menores", critica.
Ruptura familiar
Dificuldades alimentam discussões e rupturas
"As situações de crise ajudam a descompensar as relações já presas por arames." Esta é a convicção de Eduardo Sá, que acredita que os divórcios e os problemas não surgem apenas devido à crise mas podem ser um forte foco de tensão entre os casais, reflectindo-se depois nas relações com os filhos. Apesar deste agravamento, não se pode apontar o dedo só às dificuldades económicas. "Hoje em dia parece que temos de ter um álibi para tudo, e não pode ser assim", refere o especialista. Defendendo a necessidade de os portugueses olharem para os problemas de frente, sem necessidade de procurarem uma desculpa.


