Por Cátia Vilaça, in Jornal Público
Projecto T3tris trabalha absentismo escolar em comunidades ciganas de Braga. Nos bairros escondidosda cidade há crianças, como Jiovani, a aprender música e a regressar ao ensino
Jiovani estava preocupado. Com razão: era dia de visitas na escola. Dentro de momentos, a alta-comissária para a Imigração e Diálogo In- tercultural, Rosário Farmhouse, viria conhecer a escola do 1.º ciclo e jardim-de-infância do bairro de Nogueira da Silva, em Braga, atrás de árvores e montes, longe da vista, do movimento, de tudo e já próximo do limite da cidade. Jiovani e os seus companheiros preparavam-se para recebê-la com uma performance musical de percussão. Minutos antes da apresentação, o rebuliço tomava conta das crianças. A professora tentava controlá-los, mas em vão. Ainda assim, à chegada da comissária estava tudo a postos.
A recente visita prosseguiu com teatro de fantoches, para terminar novamente com música. Jiovani volta a mostrar os seus dotes, desta vez vocais. Mas o palco era das raparigas, dançando como se tivessem nascido ensinadas, perante o olhar atento da comitiva.
A formação de um grupo de percussão é apenas uma das actividades dinamizadas pelo projecto T3tris, a trabalhar com crianças e jovens de etnia cigana desde Janeiro deste ano. É um dos 130 projectos nacionais financiados pelo programa Escolhas, sob a alçada do ACIDI (Alto Comissa-riado para a Imigração e Diálogo Intercultural). O objectivo é trabalhar o absentismo escolar e promover actividades artísticas e, em dez meses, já há sucessos a registar. O reingresso escolar de quatro crianças é um dos primeiros a ser destacados por Bárbara Santos, técnica de Psicologia e coordenadora do projecto. Destas crianças, duas encontravam-se em situação de abandono, enquanto as outras duas registavam níveis de absentismo muito elevados, colocando-as numa situação de quase abandono.
Trabalhar o regresso à escola é um processo que começa fora dela. A intervenção dos técnicos é feita tendo em conta as áreas curriculares mais críticas em cada criança. Mas o apoio às actividades lectivas não se extingue uma vez alcançado o reingresso. Uma das funções dos técnicos é dar apoio aos alunos no estudo, usando para isso uma das salas da Escola de Nogueira da Silva, onde o projecto es- tá sediado. Para Bárbara Santos, é assim que se trabalha a integração. Atendendo às necessidades individuais e respeitando a diversidade cultural. Na opinião da técnica, expe- riências como a turma cigana de Bar- queiros, em Barcelos, não fazem sentido, pelo facto de as crianças não terem sido agrupadas de acordo com as suas necessidades, mas antes segundo a etnia.
A par do apoio lectivo, há aulas de informática leccionadas na unidade móvel da Brag@Brinca, um sistema itinerante equipado para o efeito. As actividades artísticas ocupam também boa parte do tempo de técnicos e crianças. Além do grupo de percussão, já foi formada uma equipa de futebol - com a respectiva claque feminina - e um grupo de flamenco, uma dança enraizada na cultura cigana. Jiovani é disso um exemplo. Os técnicos notaram o seu talento para o canto e para a música e resolveram apostar nele. Depois de uma tentativa falhada, embora por poucos pontos, de entrar no Conservatório Calouste Gulbenkian, Jiovani passou nos testes e conseguiu uma bolsa para estu- dar música, enquanto prossegue os estudos na Escola de Nogueira da Sil- va. Jiovani tem 12 anos mas ainda não concluiu o primeiro ciclo do ensino básico. "Falta-lhe motivação", explica Bárbara Santos, convencida do estímulo que a música lhe pode proporcionar.


