in Jornal Público
Quatro pessoas revelam quem são e o que as faz roubar tempo ao tempo que não têm para se dedicarem aos outros. Não procuram reconhecimento, não querem medalhas e há até quem não tenha contado à família aquilo que faz. Também asseguram que recebem muito mais do que aquilo que oferecem
Não gosto muito de falar disto. Tenho amigos que me chamam maluco, outros dizem que eu seria mais útil à sociedade se doasse o que ganho numa manhã. Mas isto é diferente. Quando passo uma manhã na Clínica de Apoio à Saúde Oral sirvo pessoas que de outra maneira não teriam acesso àqueles cuidados médicos. E dou mais do que dinheiro: dou o meu tempo, os meus conhecimentos, a minha experiência, aquilo que sou e sinto. Dou-me.
Há outros colegas a colaborar neste projecto da Mundo a Sorrir, uma associação de médicos dentistas solidários. Penso que serei dos mais velhos. Tenho 45 anos e não estou desocupado, de forma alguma. Trabalho em várias clínicas e uma ou duas vezes por mês tiro a manhã de segunda-feira para trabalhar naquele espaço da associação, que funciona nas instalações do Hospital Conde de Ferreira, no Porto.
Ali, os doentes são muito especiais. Não me escolheram como médico. São conduzidos por uma instituição particular de solidariedade social e chegam-me frágeis, impressionantemente frágeis. Se eu lhes disser que tenho de lhes extrair todos os dentes da frente não colocam objecções, não protestam e nem sequer perguntam: "E depois?" Simplesmente entregam-se. E não deviam.
Essa fragilidade, essa forma de aceitarem sem questionar tudo o que a vida lhes dá, aumenta de uma maneira tremenda a nossa responsabilidade, o nosso dever de os tratar com o cuidado, o respeito e o afecto que merecem e que não estão em condições de reclamar.
O problema é que isso só é possível dentro de alguns limites: raramente vejo o mesmo doente duas vezes; o tempo despendido com um tem de ser apenas o necessário, para que outro não deixe de ser atendido; e os recursos materiais que as empresas doam ou que nós próprios levamos são insuficientes para que possamos optar sempre por soluções conservadoras e menos radicais. Chamo-me Cármen, tenho 36 anos e sobre a minha identidade pouco mais posso dizer. Porque neste tipo de voluntariado o anonimato é uma regra, mas também porque quase ninguém sabe que faço atendimento no telefone SOS Voz Amiga. Não contei, sequer, à minha mãe.
Trabalho na área da economia, num meio muito elitista, onde é fácil perdermos de vista o que realmente faz com que a vida tenha um sentido. O nascimento da minha filha ajudou-me a ver o quanto estava afastada dos valores que recebi e que gostaria de lhe transmitir.
Pois, a minha filha, essa sim, um dia, saberá. Saberá por que é que a mãe abdicou de estar com ela muitas horas, para ajudar pessoas que não conhecia. O respeito e o dever de ajudar os outros, os que são diferentes, os que têm menos do que nós, todos os que precisam - essa é a herança que lhe quero deixar. Não é uma tarefa fácil. Somos nós, o telefone, e alguém em desespero do lado de lá da linha. Às vezes sabemos o que dizer; outras só podemos dizer que, face a dor tamanha, não sabemos mesmo o que dizer. E, nesses casos, temos de procurar juntos um caminho, temos de conversar até descobrirmos algum sinal de esperança. Nem sempre é possível. Já me aconteceu desligar e não saber se poderei voltar a ouvir aquela voz.
São cerca de dez por cento os casos em que a pessoa que nos telefona pensa em suicidar-se ou em que o suicídio está mesmo em curso. E quase todos os contactos envolvem situações de angústia e de dor agudas. Perguntam-me se levo os problemas dos outros para casa. Mais do que isso - há uma ou duas vozes que nunca mais deixarão de estar comigo. Não quero que pareça que vivo em desespero, longe disso. Temos reuniões semanais, com um psiquiatra e um psicólogo, em que partilhamos experiências e angústias. Mais claramente: não somos autodestrutivos, mas, depois de vivermos algumas "chamadas", temos de ter o cuidado de nos reconstruirmos. Só assim podemos continuar. Tenho muitos amigos que dizem que não têm tempo. Mas quem é que tem? Eu também tenho de estudar, de praticar desporto, de estar com a minha família, com o meu namorado, com os meus amigos; também gosto de ir à praia e ao cinema, de passear, de me divertir. É sempre possível arranjar tempo para fazer voluntariado, se realmente quisermos. E eu quis.
Tenho 20 anos, sou estudante do 3.º ano de Enfermagem e não vou dizer que isso foi indiferente à decisão de me oferecer para apoiar adultos que residem na Associação de Paralisia Cerebral do Porto. O que não aceito é que sugiram que o fiz para ter mais umas linhas no currículo. Quem faz voluntariado por essa razão vai uma ou duas vezes e não fica, não aguenta. E eu estou lá há mais de dois anos.
No início foi um choque, não sabia como lidar com aquelas pessoas, inteligentes, afectivas, alegres, mas com tantas limitações, principalmente ao nível da mobilidade. Depois percebi que enquanto eu os ajudava a ultrapassar obstáculos físicos, eles ensinavam-me a aproveitar melhor a vida. Tiram mais partido do que podem fazer do que outros, que podem muito mais e não dão valor a isso.
Quando há saídas - à praia, ao cinema, ao bowling - ligam-me da associação e eu vou ajudar. Se ficam algum tempo sem me chamar, sou eu que telefono: esqueceram-se de mim? Não vou deixá-los, mas quero diversificar experiências. Inscrevi-me como voluntária no Instituto Português de Oncologia, espero que me chamem para uma entrevista; e estou impressionada com o aumento da pobreza, se puder vou ajudar a distribuir refeições.
Tudo isto tem a ver com enfermagem, sim. Quando acabar o estágio e começar a trabalhar terei vivido experiências e contactado com realidades muito diferentes das minhas. Serei uma pessoa mais completa, terei mais facilidade em compreender os outros e, por isso, também serei uma enfermeira melhor.
Ontem saí de casa às 21h, para fazer "a volta", que é como chamamos ao circuito de distribuição de alimentos e agasalhos pelos sem-abrigo, em Lisboa. Só regressei às quatro da madrugada e, hoje, às 9h30 já estava a trabalhar. O meu marido diz que está na hora de eu acalmar, mas não. Quero aproveitar isto até ao fim, até ao nascimento do meu bebé, em Fevereiro.
Podia ter ido visitar doentes, num hospital. Por vários acasos fui parar à Comunidade Vida e Paz e foi na rua que percebi que estava a ganhar muito mais do que aquilo que dava.
O nosso objectivo não é apenas matar a fome e o frio aos sem-abrigo, mas usar os alimentos e os agasalhos como um meio de chegar até eles, de os levar a aceitar a nossa ajuda, que tem como objectivo a sua reinserção social. Há gente que nos pergunta: "Mas, se podem ajudá-los, por que é que os deixam na rua, por que é que não os vão buscar?"
Essa é a primeira coisa que aprendemos: a aceitar que a maior parte não quer este tipo de ajuda e que, ainda assim, não devemos desistir, porque entre todos aqueles que a recusam pode haver um que aproveita a oportunidade de começar de novo e esse - mesmo que seja apenas um - justifica todo o projecto.
Aprendemos, também, que aquelas pessoas que passam o dia a vaguear já foram como nós. Tiveram uma família, um emprego e um salário até que, um dia, um desgosto, um divórcio ou um vício as atirou para a rua. Cada uma delas tem uma história. Se tivermos sorte, conseguimos descobri-la, entrar nela e tentar modificá-la.
Às vezes, no trabalho, rio-me. Os meus colegas comentam o último livro que leram, as novelas que viram, o filme do momento. E eu ouço-os, espantada, e penso que não sei nada do que se passa no mundo. E, no entanto, sei.
Textos escritos por Graça Barbosa Ribeiro, com base em entrevistas feitas a Nuno Serrano, Cármen, Ana Vale e Mafalda Mendonça


