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6.2.23

Em Olhão, pede-se a prisão dos suspeitos de agressão mas também há “receio” nas ruas

Idálio Revez, in Público

Alguns dos jovens serão provenientes de um bairro problemático. Há quem se apresse a sentenciar a prisão imediata dos jovens e quem lembre que é também importante “integrar”.

As recentes agressões a um imigrante nepalês, numa das ruas de Olhão, deixaram os moradores daquela cidade apreensivos e com receio de novos episódios. “Quando vou para a pesca, pelas 5h ou 6h da manhã, tenho algum receio de andar na rua”, admite Fernando Alves. O mesmo sentimento marca as conversas que tem com os seus conterrâneos. A seu lado, sentado num banco de jardim da Avenida da República, está um seu velho camarada de faina, reformado. “Deviam ir todos presos”, sentencia o homem, que recusa identificar-se. Como ele, há mais habitantes que apelam à necessidade de “mais acção policial” e admitem também o receio.

As agressões aconteceram mais à frente, a meio da Rua Vasco da Gama, na noite de 25 de Janeiro. É precisamente nessa artéria que vive o presidente da Câmara de Olhão, António Pina. “Retirá-los [os jovens agressores] da comunidade brevemente era importante, até para a segurança deles. A população olhanense não aceita aquilo”, disse já no sábado à SIC. A PSP promete, para esta segunda-feira, “mais informação” sobre a investigação a este grupo de jovens que, num mês, já terá agredido 15 imigrantes em oito situações semelhantes.

Mas nem todos os olhanenses se apressam a clamar apenas pela prisão dos suspeitos. “É mais fácil mandar prender ou institucionalizar do que integrar”, diz António Terramoto, preocupado com o que vai ouvindo e com o perigo de se cair “no extremismo”. “Não posso deixar de condenar o acto praticado”, sublinha.

A meio da tarde deste domingo, José Ponte levava o cão a passear pela trela. “Moro na rua ali ao lado. Não consigo perceber como é que ninguém viu, para chamar a polícia.” Alguns dos jovens do grupo, entre os 16 e os 19 anos, são conhecidos por se passearem pela cidade - não estudam, nem trabalham. Muitos deles residem no Bairro dos Índios, uma zona referenciada pelas autoridades como problemática.

António Terramoto chama precisamente à atenção para as condições económicas e habitacionais da população. “Estão na origem de muitos problemas sociais na cidade”, sustenta. Letícia Gonçalves, de 93 anos e encostada a um cajado, retribui ao cumprimento de “Boa tarde”, com um sorriso. Ouve mal. “Não tenho dinheiro para comprar aparelho de ouvir, recebo 500 euros de reforma e vivem comigo dois filhos doentes”. Já o antigo jogado de futebol Fernando Alves, actualmente mariscador, queixa-se da dureza da faina: “Temos de andar com água pela cintura”. Da dureza do trabalho, salta para o contraste com que observa alguns grupos de jovens “sem futuro”.

Do outro lado da vida, um grupo de taxistas fala da notícia do dia: “Deu na televisão que a polícia já sabe quem eles são. Também não deve ser difícil”, comenta Manuel Serafim, ex-emigrante em França: “Trabalhava na agricultura, conheci as dificuldades de quem está fora do seu país”, diz, solidarizando-se com a vítima, de 26 anos, residente há três meses em Portugal. Ao regressar a casa no seu primeiro dia de trabalho foi atacado por um grupo de “sete ou nove” jovens, que num vídeo difundido nas redes sociais, aparecem encapuzados.

O motorista mais antigo da praxa de táxis, prossegue o discurso das dificuldades: “Estou aqui desde 8h, passa das 3h da tarde, só fiz um serviço. Fui levar uma senhora ao bairro do Gaiato.” Entretanto, não resiste a comentar as notícias sobre o último caso de violência. “Só vem dar má fama, prejudica a imagem da terra”, critica.

Já o pescador Fernando Alves deixa um alerta enquanto se despede. “Se vai ao Bairro dos Índios, tenha cuidado”. A zona habitacional, situada do lado norte da EN 125, apresenta nas paredes dos prédios, grafitados, sinais de que o elevador social não está a passar por ali. Numa das ruas adjacentes, está sentado à porta de casa, um homem, de 56 anos. Quando se ergue, nota-se que coxeia. “Cai de cima de um andaime, fiquei inválido para trabalhar na construção civil”. Sobre os jovens vizinhos, alegadamente envolvidos nas agressões lamenta o sucedido mas é parco nas palavras. “Cada um faz a sua vida”, diz deixando depois apenas uma nota de receio sobre o bairro: “Às vezes, quando estou deitado, ouço uns tiros de caçadeira, coisas dessas…”. Não quer problemas e pede para não ser identificado.

8.6.22

Mangualde terá novo Cento Local de Apoio à Integração de Migrantes

in Mais Beiras

O Município de Mangualde celebrará, no dia 14 de junho, um Protocolo de Cooperação com o Alto Comissariado para as Migrações, I.P. (ACM, I.P.), simbolizando o nascimento do CLAIM Mangualde – Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes de Mangualde, um centro de apoio local que tem como função acolher, informar e apoiar cidadãos migrantes.

A cerimónia protocolar, que terá lugar no Salão Nobre da Câmara Municipal de Mangualde, pelas 11h00, contará com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Mangualde, Marco Almeida, da Ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, da Secretária de Estado da Igualdade e Migrações, Isabel Almeida Rodrigues e da Alta-Comissária para as Migrações, Sónia Pereira.

Sendo Mangualde um concelho comprometido e empenhado em promover a inclusão social de todos os seus habitantes, contando na sua população com residentes estrangeiros em número significativo, a criação do CLAIM Mangualde é de extrema importância e relevância no que toca a solidificar as condições de acolhimento, informação e apoio a cidadãos migrantes.

Esta celebração protocolar demonstra que as autarquias locais assumem um papel cada vez mais relevante na implementação da política pública, possibilitando uma maior adequação das respostas através de serviços descentralizados centrados no atendimento de proximidade para permitir uma resposta mais eficaz às populações, em especial às social e economicamente mais vulneráveis.

CLAIM – CENTRO LOCAL DE APOIO À INTEGRAÇÃO DE MIGRANTES

Os CLAIM são gabinetes/espaços de acolhimento, informação e apoio que têm como missão apoiar todo o processo de acolhimento e integração de pessoas migrantes, articulando com as diversas estruturas locais, e promovendo a interculturalidade a nível local. Estes serviços prestam apoio e informação geral em diversas áreas, tais como, regularização, nacionalidade, reagrupamento familiar, habitação, retorno voluntário, trabalho, saúde, educação, entre outras questões do quotidiano. A Rede CLAIM conta também com CLAIM especializados, que intervêm em diferentes áreas, por forma a complementar e solidificar o seu processo de integração.

Com o objetivo de promover uma integração de proximidade, os CLAIM resultam de parcerias estabelecidas entre o Alto Comissariado as Migrações (ACM, I.P.) e autarquias, instituições de ensino superior ou entidades da sociedade civil que, em cooperação, promovem um atendimento integrado. Em algumas regiões, esse atendimento é prestado em regime de itinerância, fazendo chegar o serviço junto de pessoas migrantes que de outro modo não têm acesso a ele, seja por falta de mobilidade ou ausência de outros recursos. O atendimento é personalizado e conta com a colaboração de técnicos e técnicas com habilitações para o efeito.

16.6.20

Quase 150 sem-abrigo em Lisboa arranjaram casa ou emprego desde início da pandemia de covid-19

in Público on-line

Desde o início do surto de covid-19 já passaram pelos quatro centros de acolhimento de emergência para sem-abrigo criados pelo município de Lisboa mais de 500 pessoas.

Quase 150 pessoas, até agora, em situação de sem-abrigo em Lisboa, conseguiram desde o início da pandemia de covid-19 encontrar casa, um quarto ou um emprego, no âmbito de programas desenvolvidos pela câmara municipal, segundo anunciado esta segunda-feira.

Segundo uma nota do gabinete do vereador da Educação e Direitos Sociais, Manuel Grilo, do BE (que tem um acordo de governação da cidade com o PS), desde o início da pandemia já passaram pelos quatro centros de acolhimento de emergência para sem-abrigo criados pela autarquia mais de 500 pessoas.

Dessas, 47 foram encaminhadas para o programa Housing First, um projecto financiado pela Câmara de Lisboa em que as pessoas são integradas em habitações tendencialmente individuais e têm um acompanhamento por técnicos que as orientam a gerir uma casa tendo em vista a sua integração social. A autarquia prevê que até ao final do ano um total de 380 pessoas estejam alojadas através deste programa.

Outras 51 pessoas, segundo a nota do gabinete de Manuel Grilo, foram encaminhadas para “outros tipos de resposta de alojamento, como quartos em apartamentos partilhados”.

Na última quinzena, casos aumentaram 63% em Sintra e 64% na Amadora. Veja os gráficos com as subidas nos concelhos de Lisboa

Através da RedEmprega, 45 pessoas que passaram pelos centros de acolhimento conseguiram emprego “e podem hoje voltar a ser independentes”, lê-se ainda na nota.

A RedEmprega é um programa que a autarquia tem em parceria com a APEA - Associação Portuguesa de Emprego Apoiado e a Fundação Aga Khan Portugal e que tem como objectivo “reforçar a resposta de empregabilidade para pessoas vulneráveis na cidade”, apoiando a inclusão no mercado de trabalho e promovendo a inclusão social.
“Uma parte considerável das pessoas que caíram na rua desde o início do ano fê-lo porque perdeu o emprego ou uma fonte de rendimentos estável, decorrente da crise económica que vivemos”, refere o comunicado.

Actualmente, a Câmara de Lisboa tem em funcionamento quatro centros de acolhimento de emergência para sem-abrigo, com capacidade para acolher 220 pessoas: no Pavilhão Municipal Casal Vistoso, na Casa do Largo, no Clube Nacional de Natação e na Pousada da Juventude do Parque das Nações.

11.5.20

Ciganas com um pé na tradição e outro na universidade

Céu Neves, in DN

Mulheres ciganas e a estudar no ensino superior foi o ponto de partida da reportagem do DN, em setembro de 2017. A Priscilla terminou o curso de direito e as outras cinco estão a finalizar. Têm idades e experiências de vidas diferentes, comungam o gosto pelos estudos e o respeito pela cultura da etnia. Assim entende a integração. Hoje republicamos essa reportagem.

Priscila e Sónia têm um sonho: ter um curso superior. Mas enquanto Priscila seguiu o percurso regular e está a concluir a licenciatura em Direito, Sónia deixou a escola aos 9 anos, casou aos 15 e teve a primeira filha aos 16. Voltou aos estudos no ano passado para se preparar para os exames do regime para os alunos com mais de 23 anos e vai iniciar o curso de Educação Social. Duas mulheres ciganas com muito em comum - desde logo o respeito pelas tradições da etnia, mas com perspetivas e rumos diferentes. "Casar? Não quero falar disso, estou concentrada nos estudos", responde Priscila. Um percurso diferente de Sónia: "Chegava-se ao 4.º ano e acabava-se a escola. Os meus pais trabalhavam na feira e eu tinha de ficar em casa a tratar dos meus irmãos. Conheci o meu marido aos 15 . Juntámo-nos e tivemos a primeira filha."

Conheceram-se no âmbito do programa OPRE, que começou como projeto associativo e se transformou numa medida política o ano passado, para incentivar a comunidade cigana a tirar um curso superior. Passaram de oito para 24 bolsas de estudo e, este ano, concedem 30. As candidaturas começaram na quinta-feira. Cada aluno tem 1 500 euros anuais, verba a cargo dos gestores da bolsa, que pagam diretamente as despesas, como as propinas.

Priscila Sá tem 20 anos e será uma das primeiras ciganas a licenciar-se - há outra finalista em Lisboa em Sociologia. Os ativistas da comunidade só conhecem mais uma cigana com um curso superior, por isso, esperam multiplicar os casos de sucesso com o OPRE . "Só no programa conheci mulheres ciganas a estudar, porque é complicado. Muita gente não quer seguir, outras os pais não deixam, há crenças de que não é seguro. Há também a questão do casamento, na escola há a possibilidade de conhecerem alguém que não seja de etnia. E há quem pense que estudar é um desperdício de tempo, que "eu devia estar casada e com filhos". Os que apoiam são os que têm mente mais aberta."

Priscila pensa nas amigas de infância para chegar à conclusão de que todas estão casadas e com filhos e brinca: "Já não tenho amigas". Conquistou outras na Universidade Lusófona, no Porto, onde estuda e todos sabem que é cigana. "Sempre souberam, quem é da zona do Porto percebe pelo sotaque, eles têm um sotaque mais carregado". Se sentiu discriminação, foi pela positiva. Diz que tem tido a colaboração de professores e colegas, também é apoiada pela ação social e é bolseira do OPRE desde o ano passado. Tem ouvido um ou outro comentário preconceituoso, aos quais reage de forma positiva, por exemplo, quando se discutem matérias de criminalidade. "Brincam: "Cuidado com o cigano." Depois, olham para mim e dizem: "Sem ofensa"."

Os pais de Priscila sempre entenderam que a educação é a chave de sucesso. "A minha mãe quis estudar e não foi possível, então, criou-me de outra forma. E o meu pai [quem a criou não o biológico]sempre me incentivou, às vezes parece que sabe mais de Direito do que eu. Vende carros e lida com advogados, sabe da prática e eu sei de teoria, somos uma boa dupla. Desde que me conheço como gente que quero ser advogada", conta. Tem dois irmãos, de 2 e 4 anos respetivamente, que terão o mesmo percurso se o entenderem.

A família vive em Francelos, Vila Nova de Gaia, onde há outros ciganos mas não tantos como no bairro dos avós. São feirantes, incluindo os pais mesmo que nem sempre tenham exercido a atividade, e passaram-lhe o bicho. "Nas férias trabalho nas feiras com a minha mãe, gosto muito de ajudar a montar as coisas, de interagir com as pessoas e de toda aquela agitação."

Priscila sugere vir à entrevista com o traje académico. Vem maquilhada, com os longos cabelos, características das mulheres ciganas. Chega acompanhada de um tio, ela está "habituada"à vigilância. Acha natural, como natural entende não sair sozinha à noite, muito menos para uma discoteca. "Saio com os meus pais, é um casal novo e fixe, gostam de se divertir". Reconhece que os rapazes têm mais facilidade. "Podem fazer tudo, é tudo mais fácil para os homens, acontece na sociedade em geral".

Nunca chumbou e espera manter a folha limpa até ao fim dos estudos, concluir Direito este ano letivo e estagiar num escritório de advogados. E já tem patrono, "um dos melhores do Porto", assegura. Quer especializar-se em criminologia, esperando não ter mais dificuldades por ser cigana. "Um advogado é um profissional independente, penso que não terei problemas se for boa naquilo que faço". A sua comunidade terá um lugar especial. "Vou ajudar em tudo o que puder, tem-me apoiado".

Tirar as "crianças ciganas do beco"
Sónia Prudêncio, 30 anos, sempre gostou de estudar, também nunca chumbou, mas foi obrigada a deixar a escola aos 9 anos. "Os meus pais tinham muitos filhos, eu era a menina mais velha, tinha de ficar a cuidar dos meus irmãos quando eles iam à feira". Conheceu o marido no noivado de um primo, tinha ela 15 anos e ele 22, namoraram "um tempo" e juntaram-se. "Não foi uma escolha da família, nunca houve compromisso [os pais combinarem o casamentos dos filhos], foi um namoro de adolescentes normal".

Sónia Pridêncio, 30 anos, Gondomar, 1.º ano de Educação Social no Instituto Politécnico do Porto, como o marido. As dilhas, Alaíde e Bruna, também estudam© Rui Oliveira/Global Imagens
Um companheiro com quem tem inteira cumplicidade, incluindo nos estudos. Ele é o Bruno Prudêncio, tirou o 12. º ano, é assistente operacional na câmara e vai entrar com ela no 1.º ano de Educação Social no Instituto Politécnico do Porto, no curso noturno, enquanto que ela frequentará o diurno.

Cabelos longos, não deixou que a maternidade lhe descurasse a apresentação. Sónia sorri muito ao falar no voltar à escola e na esperança de melhores dias. "Casámos e tivemos a nossa filha tinha eu 16 [ia fazer 17], nasceu com um problema de pele, o que exige mais cuidados. Estivemos um tempo estagnados e, ao fim de dois anos, o meu marido começou a estudar à noite, tirou o 9.º ano, depois o 12.º, tinha 28 anos quando acabou. Eu cuidava das filhas e envolvi-me em atividades ligadas à comunidade cigana. Quando surgiu esta oportunidade não hesitei. Elas estavam mais crescidas, a mais nova entrara na escola , tinha uma vida mais independente e decidi ir atrás do meu sonho."

Contou esse sonho num programa televisivo, a que assistia Bruno Gonçalves (ver entrevista). O dirigente associativo enviou-lhe uma mensagem e explicou-lhe que não era preciso voltar ao ensino básico para chegar à universidade, falou-lhe no programa OPRE. Teria que se inscrever nas unidades curriculares para se preparar para o exame de acesso ao ensino superior dos mais de 23 anos, o que fez com sucesso. "Apesar de não estar na escola, sempre fui uma pessoa interessada em ir mais além. E graças a Deus consegui. Voltar a estudar não é fácil, ainda por cima só com o 4.º ano de escolaridade, mas quando se tem vontade faz-se tudo".
As filhas, a Bruna de 12 anos, e a Alaíde de 8, seguem a conversa. É a Bruna quem responde quando lhe perguntamos o que pensam dos pais voltarem à escola. "Dá-nos mais força para estudar". Ela quer ser cientista em Biologia, a irmã, professora de ginástica. "Somos todos estudantes", comenta a mãe.

Não esquece o dia em que voltou à sala de aula. "Senti um grande orgulho, também o orgulho da minha comunidade, apesar de todas as dificuldades, cheguei lá, é um feito extraordinário, e tenho-me sentido muito acarinhada." No primeiro dia, sentou-se a um cantinho, receosa mas também para não dar muito nas vistas. "Os meus colegas chamaram-me logo para o pé deles, estão sempre a puxar por mim, nos grupos de estudo e em tudo, os meus professores disponibilizam todos os meios."

O pior são os transportes, já que vive no bairro social do Baguim do Monte, em Gondomar, e estuda na cidade do Porto. Um bairro onde teve sérias dificuldades de integração. "Sinceramente, não sei quem ficou mais chocado se quem cá morava ou eu. Antes morava num bairro na Maia, com ciganos e não ciganos. Aqui não havia ciganos, veio a minha e mais duas famílias ciganas. Até fizeram uma abaixo-assinado para não virmos. Senti muito racismo."

Aparentemente, essa fase passou. Sónia e as filhas são saudadas por todos. A família Prudêncio faz a diferença não só entre a comunidade cigana como entre a população local. Vivem numa casa social, que têm vindo a melhorar, os livros são mesmo para estudar e a escola é uma oportunidade. Mas, mais que ser um exemplo, querem ajudar os outros a fazer o mesmo. "As crianças são o bem mais precioso na nossa comunidade, daí a minha paixão por este curso. Quero motivá-las, tirá-las do beco, mostrar que há horizontes e, trabalhar também com os pais, desmistificar a ideia de que os ciganos não são capazes."

Marisa Oliveira, Cheila Ribeiro e Tânia Oliveira. da Figueira da Foz, no 1.º ano de Animação Socioeducativa, Escola Superuor de Educação de Coimbra© Fernando Fontes/Global Imagens
O programa OPRE enquadra-se na Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, dando continuidade ao projeto Opré Chavalé, promovido, no ano letivo 2015/16, pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, em parceria com a Associação Letras Nómadas. O ano letivo passado passou a ser desenvolvido pelo Alto Comissariado para as Migrações em parceria com a Associação Letras Nómadas e a Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens.

Animação socioeducativa em maioria
Marisa, Cheila e Tânia vivem na Figueira da Foz e têm tido trabalhos temporários na área da mediação na comunidade. São mulheres vistosas e bem-dispostas que se preparam para iniciar o curso de Animação Socioeducativa na Escola Superior de Educação de Coimbra, a licenciatura que tem mais estudantes do programa, seis no total. Candidataram-se nos + de 23, estão entusiasmadas com o ensino superior, revelam experiências de vida diferentes, garantem que lutam diariamente contra o preconceito, que nas associações que dinamizam recebem telefonemas a quem recusaram emprego devido à sua etnia. O curso é para trabalhar com a comunidade e mostrar-lhes que são capazes. Também querem mostrar "à sociedade maioritária" que têm de "valer pelo que fazem e não por estereótipos".

Os 24 bolseiros do ano passado, 13 raparigas e 11 rapazes - entretanto, desistiram dois -, distribuem-se, ainda, pelas áreas de serviço social (4), Educação Social (5), Sociologia (1), Psicologia (1), Direito (3), Fotografia (1), Desporto (1), Automação Naval (1) e Qualidade Alimentar (1), oriundos de 18 concelhos e distribuídos por 17 instituições de ensino. Neste primeiro ano, a taxa de aprovações foi de 71%, que sobe para 77 % no caso do sexo feminino.

Marisa Oliveira, 38 anos, é loira, não parece portuguesa nem cigana. Conta que o senhorio só conheceu o marido três meses depois de lhes alugar a casa e de como a "grande" amizade que entretanto fizera como uma vizinha se desmoronou no dia em que a mãe a visitou, imagina ela que devido às saias compridas que a matriarca usa. A mesma pessoa a quem uma mulher alugou casa, sabendo que era cigana e que respondeu perante as preocupações de Marisa. "Qual é o problema, desde que paguem a renda e mantenham tudo em condições..." Também há reações positivas.

Marisa é mediadora do programa OPRE e vice-presidente da Associação Ribalta Ambição, que promove a igualdade de género nas comunidades ciganas. Fez mediação numa escola, trabalhou num laboratório de próteses dentárias, gostou muito mas as tarefas não tiveram continuidade por falta de verba dos empregadores. Completou em adulta o 6.º ano, mais tarde o 9.º nas Novas Oportunidades, fez depois os exames de acesso aos + de 23 e entrou, tal como a irmã Tânia. "Em criança gostava da escola mas morava muito longe, a minha mãe não tinha transporte e fiquei em casa. Aos 9 anos fazia uma panela de sopa para toda a família". E é com as crianças que gostaria de trabalhar, para lhes poder passar o seu testemunho, com contrato efetivo.

A presidente da Ribalta Ambição é Tânia Oliveira, 36 anos, a irmã de Marisa, das três a que tem tido um trabalho mais continuado. Está há 15 anos em funções de mediação, atualmente na empresa municipal de habitação Figueira Domus, no âmbito de programa de emprego para a inserção. Diz, meio a brincar meio a sério: "Faço a descodificação da linguagem." É nos bairros sociais que quer trabalhar, também defende o envolvimento na vida política, para lutarem pelos seus direitos.

A associação a que Tânia preside não se dirige exclusivamente à etnia. "Figueira da Foz a sorrir", por exemplo, um projeto de higiene oral que apresentaram à autarquia com boas hipótese de ser implementado, destina-se a todas as crianças carenciadas. Figueira da Foz e Torres Vedras são as autarquias que consideram mais terem feito para a integração da comunidade.
Cheila Ribeiro, 27 anos, está separada e tem um filho, nasceu tinha ela 17 anos. O pai de Cheila é pastor evangélico - 59,1% dos ciganos pertencem à Igreja Evangélica da Filadélfia, segundo o Estudo Nacional sobre as Comunidades Ciganas.

É a mais assertiva das três, brinca que o seu dia tem mais de 24 horas tantas são as coisas que faz, desde miúda. "Não acabei a 4.ª classe, éramos quatro e eu era a mais velha, os meus pais trabalhavam na feira e tinha que haver alguém para tomar conta dos outros." Voltou à escola no ano passado para se ingressar no Ensino Superior nos + de 23. "Eu a e Marisa metemo-nos neste curso empoderar os nossos jovens, para que eles se envolvam na política e lutem pelos seus direitos. Sou a sexta na lista do Bloco de Esquerda para a Freguesia de Tavarede."

Não concorda com a existência dos bairros sociais, nem com os subsídios de subsistência. "Os bairros sociais são uma forma de manter as pessoas fechadas num espaço, não promovem a integração. E o Rendimento de Inserção Social (RSI) é um caramelo que dão aos pobres, somos escravos da pobreza". Palavras duras de Cheila, mas são de alguém que viu as portas de emprego fecharem-se por ser cigana. Tem trabalhado em programas de mediação ou de inserção laboral, atividades temporárias. "Nem numa loja de chineses me aceitaram. Porquê? Fui dona de uma loja, fazia a receção da mercadoria, fecho e abertura da caixa, tudo."

Cheila, Tânia e Marisa são o orgulho da família e de muitas mulheres ciganas, sobretudo das mães, ignoram quem desdenha na comunidade e, curiosamente, têm ouvido mais apoios por parte das mais velhas, sublinha a Marisa: "Têm 50 e 60 anos e dão o exemplo delas, não estudaram, viveram para a família e agora não têm condições , vivem do RSI".

Elas demonstram que os agregados familiares ciganos estão a mudar. A Tânia é solteira, "e boa rapariga", a Marisa é casada e não tem filhos, a Cheila é mãe separada. Não é isso que as afasta das tradições, muito menos das feiras. "Claro, é o passado da criança cigana, quase todas cresceram nas feiras." Admiram o respeito pelos mais velhos - "não vê um cigano num lar" -, compreendem o dever das meninas "preservarem a honra" e o não saírem sem ser acompanhadas - têm as festas ciganas, onde "há música e alegria" - , o luto pela morte do companheiro, o que leva as mulheres a cortarem os longos cabelos e a vestirem-se de preto, para a vida.

Magistrada com pai na primeira fila

No dia em que Vânia Lourenço, 19 anos, presidir a um julgamento, é seguro que o pai, Ringo Lourenço, estará na primeira fila, com um grande sorriso e, talvez, algumas lágrimas. A menina é a filha do meio de quatro raparigas e é ele que a tem impulsionado para "seguir em frente". Ela está no 1.º ano de Direito da Universidade Portucalense, quer seguir a magistratura. O verbo do pai é "ir". "Se nos convidam, vamos, já fomos às escolas, vamos estar nas mesas de voto nas eleições autárquicas. Sempre as incentivei a estudar, a vida das feiras não é para elas, não têm ordenado, já não rende tanto, e eu sou uma pessoa bem integrada na sociedade". E a Vânia gosta das feiras, "mas para passear". "Não quero fazer vida da feira, levantar às 5 de manhã e, às vezes, nem ganhar para o gasóleo."
Ringo conta uma história: "Ela tem o traje académico desde que entrou na Universidade. Foi o tio que o comprou, fez uma aposta com um cigano que dizia que ela não ia conseguir." E a rapariga já tem convites de trabalho, assim conclua os estudos. "Vai concluir, não tem que ter complexos", advoga o pai.

A filha mais velha de Ringo casou e tem uma filha, as mais novas do que a Vânia "estão bem encaminhadas nos estudos". Ele saiu do bairro social há 24 anos, para morar em frente da escola primária onde as filhas iniciaram os estudos. Tem feito vida da feira, agora está desempregado, justifica que a saúde não o tem deixado trabalhar com continuidade, sofreu várias operações. Acompanha a filha para todo o lado, nomeadamente nas festas da universidade. Não achou piada às praxes.

Vânia aceita bem a companhia, agradece o entusiasmo, respeita os hábitos ciganos, não casará com um não cigano, mas não é nisso que pensa, garante: "Agora é o tempo para estudar."

23.2.18

Integração das comunidades ciganas não pode centrar-se apenas na habitação

in Público on-line

Secretária de Estado para a Cidadania reagiu ao relatório da Amnistia Internacional que denuncia as comunidades de ascendência africana e ciganas como as mais frágeis e vulneráveis em Portugal.

A secretária de Estado para a Cidadania afirmou nesta quinta-feira que a intervenção para a integração das comunidades ciganas não se pode "centrar exclusivamente" na questão da habitação e defendeu "planos mais integrados e amplos" em articulação com as autarquias.

Rosa Monteiro comentava desta forma à agência Lusa o relatório da Amnistia Internacional (AI), divulgado nesta quinta-feira, que identificou as comunidades de ascendência africana e ciganas como as mais frágeis em termos de habitação, resultado de serem comunidades vulneráveis que vivem em condições frágeis dentro da sociedade.

"O problema da habitação das comunidades ciganas é um problema que tem vindo a ser identificado e que tem séculos", disse a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, defendendo que "a intervenção para a integração das comunidades ciganas não se pode centrar única e exclusivamente na questão da habitação" e que é necessário "criar planos e modelos mais integrados e amplos".

Rosa Monteiro adiantou que tem estado a trabalhar com a secretária de Estado da Habitação para que as "respostas a implementar a nível habitacional sejam um contributo decisivo e efectivo para a integração e não discriminação destas populações mais carenciadas".

"Temos trabalhado de forma integrada e articulada" com o Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e o Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) no sentido de "encontrar caminhos" para que o novo programa de apoio às carências habitacionais graves, 'Primeiro direito', seja "canalizado para as necessidades, atendendo às especificidades" de cada comunidade.

Para Rosa Monteiro, "é muito importante e decisivo" que os planos sejam desenvolvidos "numa articulação estreita" com os municípios. "Estamos a desenhar isso, temos um novo financiamento via ACM para apoiar a elaboração de planos em alguns municípios", avançou.

Este ano Portugal vai assumir o projecto ROMED do Conselho da Europa, que assenta numa lógica de intervenção junto de municípios para o desenvolvimento de actividades de mediação intercultural e a criação de grupos de acção locais com este enfoque. Segundo Rosa Monteiro, as queixas que chegam à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) no domínio da habitação "são poucas".

"Temos duas contra-ordenações em contexto habitacional", uma relacionada com dificuldades de acesso à habitação pela comunidade cigana e outra relativa a "um obstáculo" em "razão da cor da pele". "Não obstante, temos registado um aumento muito significativo de queixas, no seu global, que chegam à CICDR: 119 em 2016, 179 em 2017.

Um estudo realizado pelo IHRU revelou que existem 2461 famílias de comunidade ciganas residente em alojamentos não clássicos. A secretária de Estado congratulou-se ainda com "os aspectos muito positivos" destacados no relatório da Amnistia Internacional relacionados com o combate às discriminações e a promoção e protecção das pessoas LGBTI.

"O relatório destaca aspectos muito positivos que têm a ver até com evoluções legislativas dadas neste último ano, um aspecto com o qual temos que nos congratular", sublinhou. Rosa Monteiro destacou "o avanço paradigmático notável no combate às discriminações e o reforço" feito o nível da CICDR e os "grandes avanços em matérias da promoção e protecção das pessoas LGBTI".

2.2.18

Secretária de Estado: acabar com discriminação das pessoas ciganas implica capacitá-las para a mudança

in Público on-line

A titular das pastas da cidadania e igualdade sublinhou que os ciganos são "um dos públicos mais discriminados na sociedade portuguesa" e que "a integração é um processo bilateral, que envolve os dois lados": a sociedade e as comunidades ciganas.

A secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade considerou esta terça-feira, em Lisboa, que para acabar com a discriminação das pessoas de etnia cigana é preciso "trabalhar com as comunidades", capacitando-as para que "sejam agentes activos da mudança".

Rosa Monteiro falava no Centro Nacional de Apoio à Integração de Migrantes, na entrega dos protocolos que formalizam a execução, entre 2018 e 2019, de 18 projetos apoiados pelo Fundo de Apoio à Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas.

A titular das pastas da cidadania e igualdade sublinhou que os ciganos são "um dos públicos mais discriminados na sociedade portuguesa" e que "a integração é um processo bilateral, que envolve os dois lados": a sociedade e as comunidades ciganas.

Segundo Rosa Monteiro, é necessário "trabalhar com as comunidades, e não para as comunidades, capacitando as comunidades para que sejam agentes ativos da mudança".

A secretária de Estado espera que "o trabalho positivo" que tem sido feito em prol das comunidades ciganas por organizações não-governamentais, instituições de solidariedade social e associações de ciganos, com a colaboração de câmaras municipais e juntas de freguesia, "seja contagiante de toda a sociedade".

Entre os 18 projetos financiados este ano pelo Fundo de Apoio à Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, no valor total de 250 mil euros, incluem-se um 'kit' pedagógico sobre a história e cultura ciganas, um programa de rádio da e para a comunidade cigana em Belmonte e a formação de competências de mulheres e mães ciganas.

Bairro das Pedreiras surpreende governantes: “É muito pior do que eu pensava”

Com uma duração máxima de ano e meio, os projetos são promovidos por organizações não-governamentais, associações ou grupos informais de ciganos e instituições de solidariedade social, com a parceria de escolas, universidades e autarquias, sendo financiados quase exclusivamente pelo Alto Comissariado para as Migrações.

Para o alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado, iniciativas como estas procuram "colmatar 500 anos de costas voltadas" entre a sociedade portuguesa e a comunidade cigana.

31.1.18

Acabar com discriminação de ciganos implica capacitá-los para a mudança, defende secretária de Estado

in Sapo24

Números da violência contra mulheres na Madeira remetem para "ação urgente"

PAN quer acabar com utensílios descartáveis de plástico em alguma restauração
A secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade considerou hoje, em Lisboa, que para acabar com a discriminação dos ciganos é preciso "trabalhar com as comunidades", capacitando-as para que "sejam agentes ativos da mudança".

Rosa Monteiro falava no Centro Nacional de Apoio à Integração de Migrantes, na entrega dos protocolos que formalizam a execução, entre 2018 e 2019, de 18 projetos apoiados pelo Fundo de Apoio à Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas.

A titular das pastas da cidadania e igualdade sublinhou que os ciganos são "um dos públicos mais discriminados na sociedade portuguesa" e que "a integração é um processo bilateral, que envolve os dois lados": a sociedade e as comunidades ciganas.

Segundo Rosa Monteiro, é necessário "trabalhar com as comunidades, e não para as comunidades, capacitando as comunidades para que sejam agentes ativos da mudança".

A secretária de Estado espera que "o trabalho positivo" que tem sido feito em prol dos ciganos por organizações não-governamentais, instituições de solidariedade social e associações de ciganos, com a colaboração de câmaras municipais e juntas de freguesia, "seja contagiante de toda a sociedade".

Entre os 18 projetos financiados este ano pelo Fundo de Apoio à Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, no valor total de 250 mil euros, incluem-se um 'kit' pedagógico sobre a história e cultura ciganas, um programa de rádio da e para a comunidade cigana em Belmonte e a formação de competências de mulheres e mães ciganas.

Com uma duração máxima de ano e meio, os projetos são promovidos por organizações não-governamentais, associações ou grupos informais de ciganos e instituições de solidariedade social, com a parceria de escolas, universidades e autarquias, sendo financiados quase exclusivamente pelo Alto Comissariado para as Migrações.

Para o alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado, iniciativas como estas procuram "colmatar 500 anos de costas voltadas" entre a sociedade portuguesa e a comunidade cigana.

26.1.18

Capacitar a sociedade para dar resposta à integração dos imigrantes

Ana Luísa Correia, in DNotícias

23 elementos representativos de 18 entidades públicas e privadas da Região, incluindo 10 das 11 autarquias, participaram ontem e hoje num Curso de Formação de Empreendedorismo para Imigrantes promovido numa parceria entre a Secretaria Regional de Educação e o Alto Comissariado para as Migrações.

Na cerimónia de entrega de certificados, que decorreu há pouco, o secretário regional de Educação, Jorge Carvalho, explicou que esta formação “teve por base o grande fluxo de regresso de lusodescendentes provenientes da Venezuela” embora, ao longo dos anos, a Região receba sempre imigrantes de outros países. Por isso, ressalvou, “é importante estarmos preparados para dar a melhor resposta aqueles que nos procuram”.

Jorge Carvalho acrescentou assim que se torna importante capacitar “um conjunto de parceiros para uma realidade que sempre existiu mas que neste momento é acentuada fruto desse fluxo mais significativo dos nosso emigrantes, particularmente na Venezuela”, sublinhando que a parceria com o Alto Comissariado para as Migrações “visa aproximarmo-nos a um conjunto de outras respostas que vão existindo no todo nacional e aquilo que se pretende também é que, sendo a Região parte integrante do território nacional possam também ser aqui desenvolvidos os projectos e iniciativas que esta instituição vem desenvolvendo no país”.



10.10.17

Presépio de Priscos deu trabalho a 18 reclusos durante três anos

in Correio do Minho

Já lá vão três anos desde que a Paróquia de Priscos dá trabalho a reclusos do Estabelecimento Prisional de Braga, o que decorre de um protocolo assinado, no âmbito do Presépio ao Vivo de Priscos, com a Direcção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP).

Neste período de três anos foram 18 os detidos envolvidos na construção do Presépio Vivo de Priscos. São pessoas que encontram neste gesto um passo importante para “uma segunda oportunidade de reintegração social a pessoas que, por vezes, não tiveram sequer uma primeira oportunidade”, refere o padre João Torres, pároco de Priscos.

“Já passaram por aqui, ao longo destes três anos cerca de 18 reclusos. Cumprindo a sua pena de reclusão entraram também num processo de humanização, porque acredito que estas pessoas se possam reintegrar na sociedade e não há melhor forma de integração do que o trabalho”, afirmou.

O pároco considera que a situação da reclusão é “uma das áreas onde se evidenciam grandes índices de pobreza e de exclusão social extrema”. O sacerdote assume o princípio de que “enquanto cidadãos podemos e devemos ser capazes de apoiar na redução da reincidência”, e por outro lado, “no aumento dos casos de integração de sucesso na comunidade”, e isso levou-o a reflectir e a propor uma ideia de intervenção, no Presépio ao Vivo de Priscos.
Os dividendos tirados da solidariedade dos visitantes do Presépio ao Vivo de Priscos e a ajuda do Município de Braga, através do Orçamento Participativo suportam o pagamento aos reclusos, para “compensar o trabalho prestado por cada um, na proporção do esforço despendido e em função do número de dias de trabalho”.

A remuneração é de 419,22 euros, a que acresce uma percentagem de 10% que reverte para os Serviços Prisionais. Esta espécie de salário é depositado na conta individual dos reclusos, mas só pode ser utilizada pelos beneficiários uma parte do valor, a outra só após cumprida a pena. Trata-se de um incentivo após a liberdade.

Os reclusos cumprem um horário de trabalho entre as 8.30 e as 17 horas, com intervalo de 60 minutos para almoço, entre as 12 e as 13 horas. São acompanhados por um guarda prisional. “Ao longo destes três anos o guarda Ribeiro foi muito mais que um vigia, foi conselheiro, psicólogo e técnico de reinserção social”, refere o abade de Priscos.

A selecção dos reclusos fica a cargo do estabelecimento prisional de Braga, que selecciona os reclusos com competências para a realização das tarefas propostas e têm de respeitar vários critérios, nomeadamente terem cumprido uma parte substancial da pena ou já terem realizado sem quaisquer problemas saídas precárias, entre outras condições.

“Este tipo de trabalho no exterior é inquestionavelmente, um elemento positivo e primordial no tratamento penitenciário, pela utilidade social que se reveste e pela valorização que proporciona ao indivíduo, sendo também, um elemento de coesão social, na medida em que permite estabelecer e consolidar relações sociais. Através do exercício de uma actividade laboral estruturada e continuada, os reclusos desenvolvem competências pessoais e sociais, nomeadamente ao nível da aquisição de hábitos de trabalho, cumprimento de horários e regras e gestão das relações laborais”, acrescenta.

18.9.17

"O ensino superior é algo muito distante..."

Céu Neves, in Diário de Notícias

Bruno Gonçalves tem 41 anos e é um dos quatro ciganos finalistas do ensino superior. Este ano letivo termina o curso de Animação Socioeducativa na Escola Superior de Educação de Coimbra . É um dos impulsionadores do projeto OPRE, que lançou bolsas de estudo para que crianças de bairros sociais pudessem estudar e servir de exemplo aos outros. O resultado foi a multiplicação do número de estudantes universitários na comunidade. E o objetivo a alcançar é a criação dos programas especiais.

Onde moram os estudantes que estão no ensino superior?

Oitenta por cento dos jovens apoiados pelo programa OPRE são oriundos dos bairros sociais. Quando foi pensado, a principal intenção era que estas crianças dos bairros se tornassem num exemplo e que incentivassem as outras crianças ciganas a irem à escola.

No ano letivo passado, candidataram-se às bolsas de estudo 24 alunos, 13 são mulheres. Como olha para esta maioria?

São elas que estão numa situação mais vulnerável. Este programa tem a preocupação de envolver, pelo menos, 40% de alunos do sexo feminino, mas os objetivos foram superados.

Faz mais diferença quando são mulheres, como referiram as universitárias?

As mulheres são mais organizadas, mais estrategas, têm uma participação mais assertiva. Conseguiram em quatro anos, o que eu não consegui em 20 de ativismo. E tiveram uma taxa de sucesso escolar de 77%, enquanto que a dos homens foi de 71%, o que acontece na sociedade em geral.

Como é que a comunidade cigana reage ao facto destes jovens frequentarem a universidade?

Depende das mentalidades. Para grande parte da comunidade, o ensino superior é algo muito distante, daí existir algum receio e também desconhecimento. Os céticos dizem que a sociedade não irá dar uma oportunidade a estes jovens, que se vão licenciar para ficar no desemprego. Entram naqueles parâmetros da autoexclusão, porque na realidade há um preconceito contra os ciganos. Outros reagem bem e incentivam.

E do lado do meio escolar?

Há relatos de estudantes que sentem que têm de provar duplamente que são bons, porque são bolsistas e ciganos. Há muita pressão para não falhar. Nas aulas que suscitam debates sobre questões sociais vê-se que há preconceito e desconhecimento da comunidade. Há relatos de muito apoio, por exemplo, na ESEC (Escola Superior de Educação de Coimbra) somos muito bem tratados.

Um exemplo do preconceito é dizer que os ciganos vivem do Rendimento Social de Inserção?

A comunidade está cansada de viver do RSI, preferiam não depender dele, e essa não é a realidade da maioria. Grande parte da comunidade cigana é jovem e o RSI abrange sobretudo pessoas entre os 50 e 60 anos, que não arranjam emprego.

O programa dá continuidade ao projeto OPRE Chavalé ("Erguei-vos Jovens" em romani)e é uma parceria entre o Alto Comissariado para as Migrações , a Associação de Letras Nómadas e Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens. Tem prazo de validade?

Entendo que estas medidas positivas têm que ser temporais, que devem durar só até que se verifique a regularidade, até que o acesso dos ciganos ao ensino superior esteja normalizado. Só nessa altura não necessitaremos delas. O objetivo é que todos entrem pelo ensino regular, com o 12.º ano e os exames nacionais.

Nestes 22 - dois homens desistiram - há quem tenha entrado pela via regular, quantos?

A maioria entrou pelo sistema regular, ou seja, depois de completar o 12.º ano. Os outros através do programa mais de 23 anos.

E quantos acabam o curso este ano letivo?

Quatro, dois em Animação Socioeducativa, uma em Direito e e outra em Sociologia.


3.8.17

Governo vai rever estratégia para a integração das comunidades ciganas

Carolina Dias, in Público on-line

Vão ser contratados a partir de Setembro 50 mediadores ciganos para facilitar e consolidar a ligação entre comunidades e serviços públicos.

A Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC), aprovada em 2013 durante o Governo de Passos Coelho, “vai ser revista”, adiantou ao PÚBLICO a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Catarina Marcelino. Mais mediadores, bolsas para estudantes no superior e criação de emprego são algumas das apostas.

O documento que deveria vigorar até 2020 vai sofrer alterações porque as propostas avançadas em 2013 vieram a revelar-se “pouco eficazes”, explicou Catarina Marcelino. A decisão surge na sequência de uma reunião que manteve no passado dia 27 com sete organizações representativas das comunidades ciganas portuguesas. A revisão da estratégia para a integração das comunidades ciganas “é para estar concluída em 2018”, garantiu. Estiveram também presentes na reunião, para além da secretária de Estado, o ministro adjunto Eduardo Cabrita e o Alto-Comissário para as Migrações, Pedro Calado. “Julgo que pela primeira vez um ministro e uma secretária de Estado receberam e reuniram com representantes das comunidades ciganas”, frisou Catarina Marcelino ao PÚBLICO.

Habitação, emprego e educação, bem como o combate à discriminação, são os elementos estruturantes da nova estratégia para uma comunidade que “está muito pouco integrada”, assinala a governante.

Para além desta decisão, o Governo vai avançar com um programa de atribuição de bolsas de estudo a estudantes ciganos no ensino superior. “Já apoiamos 25 jovens que o Alto-Comissário para as Migrações (ACM) está a acompanhar”, adiantou.

E a partir de Setembro será iniciada a contratualização de “50 mediadores ciganos com dinheiros comunitários”. Ter elementos desta etnia a desempenhar este tipo de funções é uma necessidade que Catarina Marcelino classifica de “prioritária”. A ligação entre municípios, escola e comunidade e mais eficaz se for feita através dos mediadores ciganos, sobretudo quando o “caminho é a educação” para atenuar a discriminação e aproximar os ciganos da comunidade maioritária.

A criação de emprego é outra das propostas que o Governo pretende concretizar, recorrendo a uma linha de financiamento com recurso a fundos comunitários. “Queremos acabar como estereótipo de que eles [ciganos] não querem trabalhar”, vinca a secretária de Estado.

A experiência para a aplicação de algumas das medidas contempladas na revisão da estratégia para a integração das comunidades ciganas tem sido recolhida junto de entidades espanholas, nomeadamente a Fundação Secretariado Gitano. “Queremos combater a desconfiança aproveitando os ensinamentos já alcançados com experiências semelhantes em Espanha”, diz Catarina Marcelino.

Apesar dos fracos progressos alcançados até hoje nas inúmeras tentativas para aproximar as comunidades ciganas e não ciganas, os resultados mais promissores salientam-se na área da saúde, nas campanhas de vacinação e no acompanhamento nos cuidados perinatais.

Na educação, houve uma progressiva afluência às creches e jardins-de-infância. A percentagem de analfabetos permanece acima dos 50%.

28.3.17

Em Reguengos os alunos de etnia cigana deixaram de ser uma minoria que vive à parte

Clara Viana, in Público on-line/i>

Projecto Criar Futuro destina-se a crianças e jovens em risco de abandono escolar. Inclui apoios nos trabalhos para casa, actividades de leitura e pintura, teatro, jogos nos recreios. E também uma horta que, lá mais para o Verão, deve estar mais completa.

Dalila, 12 anos, está indecisa entre ser professora ou cantora quando crescer. Começou por apontar a primeira profissão, mas não resistiu em juntar logo a segunda. Vânia, nove anos, segue-lhe os passos. Já Francisca, com sete, fica-se pela primeira opção.

Todas elas são de etnia cigana, bem como as outras três meninas que na tarde da última sexta-feira acorreram à antiga casa do juiz da comarca de Reguengos de Monsaraz, que agora pertence à câmara municipal. Vão lá quase todos os dias para terem apoio na realização dos trabalhos para casa, para pintarem, lerem, fazerem teatro.

“Para aprender coisas novas”, acrescenta Dalila, que está no 4.º ano de escolaridade e vai entoando várias músicas à procura da que dará melhor com a designação Dia do Estudante, que se assinalava naquela sexta-feira. Diz por isso que é também o seu dia.

As seis meninas fazem parte do grupo de 70 crianças e jovens entre os seis e os 14 anos que estão a ser acompanhados pelo projecto Criar Futuro, promovido pela autarquia e que é um dos 90 que integram a sexta geração do programa Escolhas. Este programa, apoiado pelo Alto Comissariado para as Migrações, tem como missão “promover a inclusão social de crianças e jovens de contextos socioeconómicos vulneráveis, visando a igualdade de oportunidades e o reforço da coesão social”.

Este é também o objectivo do Criar Futuro, que escolheu como público-alvo crianças e jovens com problemas de insucesso e de abandono escolar. Dos participantes actuais, cerca de 20 são de etnia cigana. Ou seja, quase metade dos estudantes desta etnia inscritos no Agrupamento de Escolas de Reguengos de Monsaraz, um dos parceiros do projecto, estão abrangidos.

Para já, o principal trunfo do projecto, que arrancou há um ano, é o de estar a “promover activamente a integração”, frisa a vereadora da Educação, Joaquina Margalha. Na escola do 1.º ciclo de Reguengos esta “integração” pratica-se todos os dias por via das actividades que são desenvolvidas durante o recreio da hora do almoço — uma hora para desenvolver jogos e outras actividades que são organizadas pela equipa do Criar Futuro e que aos poucos tem “envolvido toda a comunidade escolar”, conta Rita Cavaco, 32 anos, que é professora do 1.º ciclo e coordenadora da iniciativa.

Inclusão digital
É ela uma das animadoras desta “dinamização do recreio”. Diz que passou a ser hábito a partilha de actividades e experiências entre os alunos de etnia cigana e os outros. “As relações entre eles melhoraram”, frisa. O mesmo se passa no outro eixo do Criar Futuro, que tem praça no Centro de Inclusão Digital. “Já vêm juntos da escola para cá”, refere José Carlos, 29 anos, responsável por este espaço e que faz também parte da equipa técnica.

No espaço, que dispõe de seis portáteis e uma impressora, estão dois alunos no dia da visita do PÚBLICO. André de 14 anos, cigano, e Ionel, 15 anos, romeno. Os filhos de imigrantes, que ali são sobretudo da Moldávia e da Roménia, fazem também parte do público-alvo do projecto. André está no 7.º ano, numa turma do Programa Integrado de Educação e Formação (PIEF), destinado a alunos com um historial de insucesso. Ainda domina mal a leitura e a escrita, embora segundo José Carlos tenha melhorado com a passagem este ano para o PIEF, por este ter uma abordagem mais prática.

André corrobora ao mesmo tempo que percorre o seu Facebook. Quando tem dificuldades em escrever uma frase no chat pede a José Carlos que o ajude. Ionel também está à espera de apoio para montar um power point onde vai apresentar um guião de leitura do livro O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia Mello Breyner. O resumo tinha-feito antes, na sede do Criar Futuro.

Pode o combate ao insucesso escolar justificar a separação de alunos por etnia?

“Os pais [dos alunos ciganos] também começaram a vir aqui, principalmente para tirar músicas para levarem para o culto e para consultarem anúncios e enviarem emails, sobretudo por causa dos seguros dos carros. E eu ajudo-os”, conta José Carlos. Em cima de uma das mesas do centro está um conjunto de folhas A3 com histórias do povo cigano. O trabalho, que envolveu as famílias dos estudantes, foi desenvolvido pelas alunas mais velhas, com o apoio de uma estudante do 12.º ano, Rosa Marques, 21 anos. Ao lado, noutra folha A3, está escrita esta frase: “Ser cigano é ser lutador.”

Para além de aluna do Agrupamento de Escolas de Reguengos, Rosa Marques também dá aulas no conservatório local. A sua perícia musical é uma mais-valia no contacto com estes alunos, que não perdem uma oportunidade para cantar ou dançar. Para participar na equipa técnica do Criar Futuro, Rosa comprometeu-se a concluir o 12.º ano. Falta-lhe fazer Matemática A.

“Vais conseguir. Tiveste boas notas!”, anima-a uma das suas parceiras noutro projecto previsto no programa do Criar Futuro, com o objectivo de “promover a integração social e comunitária”: a criação de uma associação de jovens de Reguengos. Foi constituída em Fevereiro passado. “Queremos que os jovens se fixem por cá. Queremos que tenham uma voz no concelho”, resume Sofia Rico, uma das fundadoras da associação, que tem sede também na antiga casa do juiz da comarca.

Mobilizar as famílias
Na sala ao lado, quatro das meninas de etnia cigana estão a terminar os blocos multicores que têm na capa a inscrição Dia Nacional do Estudante. Foi a actividade escolhida para sexta-feira. Há outras duas que estão a fazer os trabalhos para casa com a ajuda de Cátia Godinho, 35 anos, psicopedagoga e que é responsável também por sessões de acompanhamento individual desenvolvidas no agrupamento de escolas com o objectivo de ajudar “a estruturar projectos de vida e trabalhar competências pessoais”.

Francisca olha pela janela. “Plantámos alfaces”, diz. Foi uma das últimas actividades no espaço do Criar Futuro. Lá para o Verão esperam ter uma horta completa.

Este espaço é mais procurado pelas meninas. Os rapazes também passam por lá, mas ficam menos tempo. O seu local preferido é o Centro de Inclusão Digital. Por ali não há gorros nem bonés nas cabeças. É uma das regras do projecto. Como também o é a pontualidade. As várias actividades diárias têm horas marcadas, que decorrem após o fim das aulas na escola do 1.º ciclo. Terminam às 16 horas e cerca de 15 minutos depois já há alunos a baterem à porta do Criar Futuro.

Mal começa a anoitecer regressam ao bairro onde vivem. É uma regra que as crianças de etnia cigana não quebram. Mas para as ter ali foi também preciso desenvolver um trabalho junto das famílias, ganhar-lhes a confiança. Rita Cavaco diz que esta missão tem dado frutos, mas está longe de estar concluída, já que o objectivo é que as famílias se envolvam também nas actividades do projecto.

“São famílias que não privilegiam muito a escolarização. Se não as conseguirmos mobilizar para este objectivo as crianças acabam por falhar”, resume Joaquina Margalho.

24.1.17

Quem disse que um sem-abrigo e uma voluntária não se podem apaixonar?

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Conheceram-se no Porto e é lá que estão a criar uma organização para ajudar outros sem-abrigo a integrarem-se.

Estava um frio dos diabos. Dora Matos distribuía comida pelos sem-abrigo na Praça da Batalha, no centro do Porto. Outra voluntária reconheceu Christian Georgescu e, entusiasmada, pediu-lhe que lhes tirasse uma fotografia. Os olhares deles cruzaram-se.

Christian chegara à cidade havia três anos. Viajara três dias numa camioneta de Bucareste ao Porto. Três dias de ansiedade, nariz tapado, pupilas dilatadas, dores, náuseas, espirros, bocejos. Para trás ficava uma história criminal que prefere esquecer. Não se livrou da heroína, começou a misturá-la com base de cocaína, a usar “speedball”.

Naquela noite, 3 de Dezembro de 2013, já não dormia encostado ao mercado de São Sebastião, a umas centenas de metros daquela praça. Tão-pouco entrava em lojas para furtar o que lhe viesse às mãos, com o objectivo de despachar tudo na Ribeira. Oito meses disso bastaram-lhe. Aderira a um programa de substituição opiácea. Dormia na Casa da Rua, comunidade de inserção da Santa Casa da Misericórdia do Porto, na Rua Duque de Loulé.

“Cortei com quem andava a roubar”, comentara meses antes com o PÚBLICO. “Já para mim acabou. Roubar acabou. Foi uma vida que não gostei. Já para mim acabou.”

Naquela noite, Christian era um homem sorridente, elegante, perfumado. Celebrara 35 anos dias antes e estava orgulhoso de fazer parte da comissão organizadora do encontro “Uma vida como a arte: Existimos! Somos Pessoas!”, a primeira iniciativa do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo da Cidade do Porto (NPISA) a contar com a colaboração de pessoas com experiência de rua.

Nem sabem como ficaram ligados online. Supõem que seguiram uma sugestão da amiga comum. Quando se voltaram a ver, quatro meses depois, numa reunião d’ “Uma vida como a arte”, ele exclamou: “Olha a minha amiga do Facebook!” Ela sorriu. Apresentou-se como voluntária do grupo Arcanjos – amor ao próximo. Queria fazer mais do que distribuir comida.

Dias depois, lá estavam, desta feita numa iniciativa do Grupo de Acção Social do Porto, uma organização não-governamental vocacionada para a ajuda ao desenvolvimento, que também integra o NPISA, uma rede constituída pela Segurança Social e mais de 60 entidades formais e informais de apoio aos sem-abrigo. Convidadas a conversar com os voluntários para os ajudar a serem melhores voluntários, pessoas com experiência de rua queixavam-se dos atrasos, da qualidade da comida, do tratamento preferencial dado a este ou aquele.

“Eu, primeiro, só ouvi”, conta Christian. “Comecei a bater mal com o que estavam a dizer.” Resolveu tomar a palavra. Disse mais ou menos isto: “Gosto de vestir bem, gosto de cheirar bem, gosto de andar limpo. Tudo o que eu tenho vestido foi dado por voluntários. As minhas meias, as minhas cuecas, as minhas calças, a minha camisa, o meu casaco. Você está a dizer mal da comida. Você encontra comida melhor em casa? Não há. Na pensão? Não há. Onde está obrigado a ir? Às carrinhas. As pessoas que estão nas carrinhas deixam a casa delas, as famílias delas, a vida para estar ali, a entregar comida.”

Dora ouviu aquele homem de sotaque estranho, que lhe parecia tão simpático: “Tudo o que disse, a forma como disse, captou a minha atenção. Notei gratidão. Muitas vezes, na rua, não há isso. Parece que é uma obrigação dos voluntários estar ali.” Ele também estava a achar graça àquela mulher, três anos e dez meses mais nova. “Eu estava a ver Dora voluntária. Era agitada, faladora, brincalhona. Era um género de pessoa que eu gostava.”

Calhou cruzarem-se pouco depois em casa de alguém. Ele acompanhou-a ao táxi. Trocaram números de telefone. No dia seguinte, ele ligou-lhe. E no seguinte. E no seguinte. E no seguinte. Ela emprestava-lhe os ouvidos, aconselhava-o. “Eu achava que ele tinha muita necessidade de falar”, diz ela. “De falar sem ser julgado”, esclarece. Foram tomar um café. “Ele dizia que eu era o anjo dele. Até me ofereceu uma asa.”, recorda ela. “Ainda és o meu anjo”, diz ele. “Eu estava a ver alguém que se importava comigo”, prossegue. “E precisavas disso. De alguém que lidasse contigo sem ser por obrigação.”

Houve mexerico. Dora não se esquece disso: “Esta ligação fazia confusão a toda a gente por eu ser voluntária e ele sem-abrigo.” Técnicas que, a título formal ou informal, o iam acompanhando disseram-lhe “que ele era muito sensível, que podia confundir a amizade, que lidava mal com a frustração”. Quando se sentia muito frustrado, cortava-se. Acontecia recair.

Christian sentia-se profundamente só. Fizera um grande amigo, o educador de pares Vítor Santos, da equipa de rua do Espaço Pessoa – Centro de Encontro e Apoio a Prostitutas e Prostitutos da Cidade do Porto. Conhecera-o em São Bento, a trocar seringas, a distribuir preservativos, a encaminhar toxicodependentes e trabalhadores do sexo. Fora ele quem o ajudara a sair da rua e a trocar a heroína pela metadona. Era “uma inspiração”. Como ele, Chris gostava de fazer o curso de Gestão de Associações de Utilizadores de Drogas e Trabalhadores Sexuais na Agência Piaget para o Desenvolvimento. Só que ele apareceu morto, uma noite, na Rua Escura, na Sé do Porto.
Afligia-se para encher as horas. Não podia ficar na Casa da Rua, a ler um livro ou a escrever num caderninho de linhas o que lhe vinha à cabeça, por mais chuvosos que fossem os dias. Às 9h tinham todos de estar porta fora. Só podiam voltar às 12h para almoçar. Uma vez saciados, tinham de tornar a sair. Ficavam lá fora até às 17h30, no Inverno, ou 19h, no Verão.

Ia à Biblioteca Municipal de São Lázaro, na Rua do Saco. Ia à praça da alimentação do centro Comercial Gran Plaza, na Rua Fernandes Tomás. Outros sem-abrigo paravam por lá. Livravam-se do frio e acediam à Internet. Às vezes, ao fim do dia, dava umas voltas a ver se alguém atirara para o lixo copos, pratos, candeeiros, livros, estatuetas, roupas, sapatos, qualquer coisa de jeito que pudesse vender na feira da Vandoma, nas Fontainhas, ao sábado de manhã. Sempre ganhava “para tabaco, café, alguma coisa doce”.

Esmagava-o a solidão. “Eu nunca pensei! Eu nunca pensei chegar a uma altura da minha vida em que só falaria com toxicodependentes, alcoólicos, mendigos, prostitutas, prostitutos, sem-abrigo”, comentou então com o PÚBLICO. O resto do mundo parecia-lhe interdito no que aos afectos dizia respeito.

Naquela época, estava ainda mais frágil. Sentia muito a falta de Vítor. Sentia ainda a dor da impossibilidade de uma paixão que tivera por uma estudante da Universidade Católica do Porto que fizera estágio na Casa da Rua. O irmão viera ao Porto averiguar a possibilidade de abrir um negócio com ele e fora embora zangado. Tornara a consumir drogas ilícitas.

“Minha cabeça naquela altura não trabalhava bem”, diz Christian, agora. E o que começava a sentir por Dora metia-lhe medo. “Não a conhecia bem, bem. Estava com medo de me apaixonar tanto por ela e ela dizer: vai-te embora. Depois, avançando na relação, vi a força dela.”
“Primeiro, era uma relação maternal”, lembra ela. “Eu sentia necessidade de o proteger. A certa altura, isso mudou, comecei a sentir entusiasmo por ele. Não sou de dúvidas. Se tenho dúvidas, acabo com elas. Acabei a relação que tinha.” Ao saber que ela pusera um ponto final no namoro, ele encheu-se de esperança. “Não é fácil estar ao lado da pessoa que se gosta e não dizer, não dar aquele carinho”; sublinha. Aproximaram-se mais ainda.

Quando se uniram, em volta deles tudo era estranheza. “Fui convidada a largar o voluntariado”, diz Dora. “Disseram-me que se queria envolver-me com o Chris devia largar o voluntariado. Não misturar as coisas.” Estava no último ano do curso de Educação Social. Parecia-lhe que havia quem estivesse a confundir os deveres de um técnico no exercício da sua profissão com os deveres de um voluntário. “Disse que não ia largar o Chris nem o voluntariado.” Mesmo no seu grupo sentiu necessidade de marcar posição: “O Chris é sem abrigo, mora na Casa da Rua, mas é meu namorado e tem de ser tratado como tal. Têm de o respeitar, mais nada. Eu não tenho vergonha do que ele é ou foi.”

A mãe torceu o nariz, mas a tia-avó, a mulher que a criou, a quem ela chama “mãe velhinha”, aceitou o namoro. Uma irmã de Dora já entrara nas drogas e saíra delas. “Ela gosta de pessoas que dão a volta”, enfatiza. “A desgraça que foi a vida dele! Ele não desistiu de procurar um futuro melhor. Ele veio do estrangeiro. Se não tivesse iniciativa, não tinha aprendido português, continuava a ir à Rua Escura comprar droga, continuava a roubar. Ele sempre me disse que queria sair da Casa da Rua, que queria deixar a metadona, que queria trabalhar.”
Já não consome metadona. Foi reduzindo a dose. Deixou de consumir em Maio de 2014. Agora só toma um analgésico para as dores de cabeça. Já não mora na Casa da Rua. Partilha um espaço com a namorada. “Voltar a ter casa!”, exclama. “Não sei se alguém pode ter palavras para explicar o que é isso. Ter uma cama, lençóis limpos, cheirosos. Não ter frio, não ouvir barulhos, não ter alguém a bater à porta e a dizer que está na hora.…. É uma felicidade.”

Emprego é que ainda não arranjou. “Ainda ontem tive um serviço”, diz ele. “Um grande senhor, uma maravilha de senhor, chama-me quando precisa. Ele faz mudanças, pequenas obras. Quando o cliente diz para levar ajudante, ele chama-me. Ontem estava a comentar com ele. Pegas em coisas de 20, 30, 40, 50, 60, 100 quilos e ganhas seis euros por hora. Seis euros!”


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Está inscrito na Plataforma+Emprego, projecto do NPISA-Porto que procura sinergias com o mundo empresarial para integrar sem-abrigo no mercado laboral. E no centro de emprego. Regularizou a situação no território nacional. Falta-lhe um certificado de habilitações para pedir equivalência. A técnica que o acompanha aconselhou-o a inscrever-se numa escola para fazer reconhecimento, validação e certificação de competências.

O sonho de Christian, agora, é ajudar outras pessoas. O casal está a regularizar uma organização com o nome “Saber Compreender”. A ideia é recolher cobertores, produtos de higiene, águas, sumos, pães e algo para lhes pôr dentro, percorrer pontos críticos da cidade, usar os donativos como chaves para abrir as portas de quem está na rua. O objectivo final, explica ela, é “tirar da rua, acompanhar à Segurança Social e continuar a acompanhar depois de a pessoa ser alojada num albergue, numa pensão ou num quarto de casa”.

Christian quer retribuir. Foi um dos fundadores do movimento Um Vida como a Arte. Faz parte da CASO – Consumidores Associados Sobrevivem Organizados. Já fez o curso de Gestão de Associações de Utilizadores de Drogas e Trabalhadores Sexuais na Agência Piaget. Sexta-feira de manhã, apresentou o “Saber Compreender” na reunião do NPISA-Porto. “Amo minha namorada, amo meus amigos, amo o Porto, que me deu oportunidade de renascer”, remata.

19.9.16

Migrações: «A integração da comunidade cigana passa pela educação» - Catarina Marcelino

In Agência Ecclesia

Tomar, Santarém, 15 set 2016 (Ecclesia) – A secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Catarina Marcelino, esteve esta terça-feira em Tomar no seminário “A realidade das comunidades ciganas”, e apontou que o caminho para a integração passa pela educação.

A governante elogiou o trabalho que os parceiros têm vindo a realizar em Tomar e sublinhou que o caminho para a integração passa em grande medida pela educação: para isso é necessário que sejam dadas condições às crianças e jovens ciganos para frequentarem a escola, mas também que as suas famílias assumam esse objetivo, conforme se pode ler num comunicado enviado hoje à Agência ECCLESIA.

“Há pessoas na comunidade cigana que querem viver à margem da lei, como as há na comunidade não cigana”, frisou Catarina Marcelino, afastando a hipótese de ser motivo para a discriminação que assegura continuar a haver em Portugal em relação à etnia.

A iniciativa do seminário foi do projeto “Hai Shala?” expressão romani (língua cigana) que significa “você entende?”, é financiado pelo Alto Comissariado para as Migrações e resulta de uma candidatura da Cáritas de Tomar, em parceria com o Município e com um grupo informal da comunidade cigana local ao Fundo de Apoio à Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas.

Os objetivos deste encontro foram de difundir a história e a cultura ciganas, bem como capacitar os agentes educativos para um trabalho mais profícuo junto das crianças e jovens estudantes da etnia cigana.

A sessão de abertura contou ainda com a presença de Célia Bonet, presidente da Cáritas de Tomar e de Almerindo Lima, representante da comunidade cigana do concelho e contou ainda com a participação de dois projetos que são já fruto do “Hai Shala?”, o grupo de dança “Kalon Bolarias” e a banda “Filhos do Vento”.

SN

19.1.16

Na feira, Belém fala na integração dos ciganos

Reportagem de Miguel Midões na feira da Nazaré, in TSF

Pela primeira vez numa ação de rua, Maria de Belém visitou ao final da manhã a feira da Nazaré.

Ter poucas ações de rua não é uma estratégia para fugir à confrontação com a população, garante a candidata. Na feira da Nazaré cruzou-se sobretudo com feirantes de etnia cigana.

Sendo o direito à igualdade uma das bandeiras da sua ação de campanha, Maria de Belém aponta caminhos para uma melhor integração dos ciganos em Portugal, como "a alfabetização, a integração das pessoas adultas nas pessoas no sistema escolar e o crescimento da sensibilidade deles na integração dos filhos".

Em relação ao que o país tem feito para integrar a população cigana, Maria de Belém sublinha o papel que tem desempenhado o RSI (Rendimento Social e Inserção), que tem potenciado a integração desta etnia. Confrontada com as dificuldades, admite: "temos salários muito baixos e pede-se muitos sacrifícios às pessoas, mas temos de trabalhar para melhorar".

18.1.16

Um mês depois, refugiados aprendem português e primeiro bebé nasce em maio

in Jornal de Notícias

Um mês após terem chegado a Portugal, os 24 refugiados já começaram a ter aulas de português, as crianças já estão na escola e o primeiro bebé de origem síria nascerá em maio em Ferreira do Zêzere.

Ao abrigo do Programa de Relocalização de Refugiados da União Europeia, Portugal recebeu, a 17 de dezembro, o primeiro grupo de 24 refugiados proveniente da Eritreia, Sudão, Iraque, Síria e Tunísia, que estavam nos centros de acolhimento da Grécia e de Itália.

"O primeiro mês de integração destas famílias está a correr como o planeado e previsto, ou seja, as famílias foram acomodadas pelas instituições anfitriãs nos seus locais de acolhimentos", disse à agência Lusa o diretor do Serviço Jesuíta aos Refugiados (SJR), instituição que faz parte da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR).

André Costa Jorge adiantou que, nesta primeira fase, de acolhimento a prioridade é acolher os refugiados e garantir a articulação com os serviços competentes, como Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), saúde e educação, além de iniciarem a aprendizagem da língua portuguesa.

"Felizmente e, até à data, temos um registo muito positivo da fase de acolhimento com vista à integração", afirmou, sublinhando que "uma das primeira prioridades é aprender o português", uma vez que "é muito difícil para alguém que não domine a língua do país de acolhimento conseguir movimentar-se e fazer as coisas básicas", como pedir um copo de água ou explicar-se no médico.

O diretor do SJR disse que é expetável que os refugiados falem razoavelmente português no final do primeiro ano.

Além da língua, apontou também como obstáculos à integração "todo o património de trauma psicológico", o que leva, muitas vezes, a demorarem algum tempo a ter novamente confiança.

"Uma das dificuldades é o trauma, por um lado, e, por outro, o desajuste nas expetativas que vão encontrar no país de acolhimento, que faz com que o processo, pelo menos neste primeiro ano, seja mais duro", realçou.

Das duas famílias acolhidas pela PAR, uma delas, proveniente do Iraque, está a viver no Laranjeiro e uma das duas crianças já está a frequentar a escola. A outra família, alojado em Ferreira do Zêzere, é de origem Síria, tem um bebé de 10 meses e o novo membro vai já nascer em Portugal, em maio, estando a mãe a receber todos os cuidados médicos de uma grávida.

O diretor do SJR destacou que, por acaso, o médico de família que está a acompanhar esta grávida é também de origem síria, o que facilita o processo de comunicação.

André Costa Jorge disse ainda que, em ambos os casos, está já a ser preparada a possibilidade de empregabilidade, estando a ser feitos os contactos com várias instituições.

O Conselho Português para os Refugiados (CPR) acolhe um casal e duas primas de 18 e 20 anos da Eritreia.

"Esta família está num processo de integração normal, como os outros requerentes de asilo e refugiados que chegam a Portugal. Está a ter progresso na aprendizagem do português", disse à Lusa a presidente do CPR, Teresa Tito Morais, adiantando que este processo é lento.

Segundo Teresa Tito Morais, estes quatro refugiados vivem num apartamento e recebem um apoio financeiro para alimentação e transportes.

"A prioridade é terem, logo à partida, todo um conjunto de informações e simultaneamente começarem logo com as aulas de português", disse, acrescentando que aos refugiados é dado a conhecer a zona onde estão inseridos, feito um acompanhamento para tratarem do processo de asilo e reencaminhá-los para os serviços de saúde.

Teresa Tito Morais afirmou ainda que, para já, não há, em termos de integração, resultados muito concretos, porque é cedo.

Ao abrigo deste programa, definido em setembro de 2015 pela UE, Portugal disponibilizou-se para acolher cerca de 4.500, tendo apenas chegado este primeiro grupo.

4.12.15

Sampaio defende "agenda europeia para migração, integração e cidadania"

In "TVI 24"

Combate ao terrorismo reúne dezenas de políticos em Lisboa

O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, defendeu, esta quinta-feira, em Lisboa, a necessidade de uma nova agenda europeia relacionada com migração, integração e cidadania contra o terrorismo e a radicalização e apontou a importância dos líderes religiosos muçulmanos neste combate.

"Apesar de ser parte integrante da Europa, a diversidade cultural tornou-se um assunto que divide as nossas sociedades" e o crescimento dos partidos de extrema-direita e anti-imigração é um "sintoma claro do crescente mal-estar" e que mostra "como os medos e os preconceitos podem transformar-se numa bomba-relógio social em toda a Europa, se não tiver a resposta correta", disse o ex-Presidente, na abertura do Fórum Lisboa 2015, uma iniciativa do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa que vai discutir a radicalização e o terrorismo durante dois dias.

Para Jorge Sampaio, a crise "económica, financeira, social, cultural e moral" que se vive atualmente na Europa "tem de ser enfrentada a todos os níveis, em particular ao nível europeu", até porque, sublinhou, não é circunstancial, mas "uma verdadeira mudança de paradigma".
Se a radicalização é "um processo com muitas camadas", a desradicalização "requer também uma intervenção a vários níveis que leva o seu tempo para atingir os objetivos".

"Precisamos de uma nova agenda europeia para a migração, integração e cidadania", considerou, defendendo também a necessidade de uma "visão política ousada e uma estratégia de longo prazo que combine políticas públicas apropriadas - na educação, alojamento, emprego e políticas para a juventude - e ações da sociedade civil para reconstruir sociedades coesas e inclusivas, não só a nível europeu, mas também nacional e local".

Jorge Sampaio, que também já presidiu ao Fórum Lisboa, advogou que está a decorrer uma transformação religiosa no Islão, em que a religião é cada vez mais vista como a expressão de um direito humano individual e menos como um direito coletivo de uma comunidade.

Esta transformação, sustentou, "tem de ser fortemente apoiada e promovida desde o interior" e, por isso, os líderes religiosos nos países muçulmanos e nas comunidades "devem impedir que visões extremistas e o fundamentalismo transformem o Islão num instrumento de violência e terror".

Também na sessão de abertura, André Azoulay, conselheiro do rei de Marrocos, levantou a questão sobre a capacidade das organizações internacionais, nomeadamente a Organização das Nações Unidas (ONU), para responder aos desafios atuais.

Evocando os atentados do mês passado em Paris e o ataque que causou pelo menos 14 mortos na Califórnia, na quarta-feira, considerou que é inevitável avaliar "se não é tempo de as instituições internacionais que regulam a sociedade serem revistas e talvez reformadas".

Há que refletir se "o Conselho de Segurança ou diferentes instituições da ONU são capazes de tomar as decisões necessárias e de encontrar as palavras, as atitudes e as ações que possam responder a este desafio, a que o mundo hoje não consegue responder", considerou.

Azoulay, que venceu no ano passado o Prémio Norte-Sul, entregue pelo Centro Norte-Sul, defendeu que os terroristas devem saber que "no pasarán" ("não passarão", lema utilizado internacionalmente para demonstrar determinação contra o inimigo).

"Não devemos dar-lhes a satisfação de instalarem o medo nos nossos corações", disse, exemplificando que o seu país, Marrocos, reconhece na Constituição as raízes berbere, judaica, árabe, muçulmana e africana.

"Hoje é esse ponto que devemos enfatizar para que todos percebam que no mundo árabe há sociedades que reconhecem a diversidade e a multiplicidade das nossas identidades", disse, considerando que "é nesta complexidade que se vai conseguir combater esta cultura de morte".

Para a diretora-geral de Democracia do Conselho da Europa, Snežana Samardžić-Marković, "a confiança nas instituições democráticas e a construção de sociedades realmente inclusivas são um antídoto contra o medo e uma pré-condição para a segurança democrática".

A responsável recordou que o Conselho da Europa desenvolveu um plano de ação para combater o extremismo violento e o extremismo conducente ao terrorismo, que "tem dois objetivos principais: reforçar o quadro legal contra o terrorismo e extremismo violento e prevenir a radicalização violenta através de medidas concretas no setor público, em particular nas escolas, nas prisões e na internet".

O Fórum Lisboa 2015, com o tema “Como combater a radicalização e o terrorismo: mecanismos de prevenção e conhecimento partilhado no espaço mediterrânico europeu”, conta com mais de 50 oradores, num total de 250 participantes oriundos de 40 países.

10.11.15

Refugiados querem saber português e trabalhar na comunidade

in Diário de Notícias

Foi um longo caminho percorrido entre a guerra, o campo de refugiados egípcio e a vila de Penela onde têm novas casas feitas de sonhos

Na pequena vila de Penela, um concelho do interior do distrito de Coimbra, reina ainda a curiosidade. Ao final da manhã de ontem, os funcionários da câmara que trabalham na rua em frente ao complexo habitacional onde moram agora quatro famílias de refugiados não tinham ainda vislumbrado qualquer sinal das 22 pessoas que chegaram a Portugal no fim de semana e que, pelo menos durante dez meses, vão morar ali, no interior do país. Não era de estranhar. Afinal, os refugiados da Síria e do Sudão aguardavam a chegada de Natalyia Beck, a ucraniana que sonhou este projeto de integração ao serviço da Fundação ADFP - Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo (ver caixa).

Ainda estavam a habituar-se à luz, ao clima e às casas quando o DN os visitou, ontem. A maioria tem filhos pequenos, alguns ainda bebés. A mais nova é filha de Sameer Mohamad Ghalyoun, tem apenas 10 meses, nasceu no campo de refugiados do Cairo, no Egito, e há de dar os primeiros passos no apartamento que agora espera a família, em Penela. Foi um longo caminho para a paz e para a liberdade que a família percorreu desde a Síria, que deixou há dois anos. Tal como a irmã, também um dos três meninos rapazes (o casal tem quatro filhos) nasceu no campo de refugiados e experimenta pela primeira vez viver numa casa a sério. "Muitos deles nunca tiveram um brinquedo, sequer", conta Natalyia, diretora do Centro de Instalação de Refugiados Paz/Peace", que os acompanhou desde o aeroporto até Penela.

9.11.15

Refugiados sírios têm escolas, médicos e ensino do português à espera

Rute Coelho, in Diário de Notícias

Vieram da Síria mas também da Eritreia os 17 refugiados que ontem chegaram a Lisboa, pais e mães com as suas crianças

Portugal recebeu ontem o segundo grupo da recente vaga de refugiados. São 17 pessoas que fogem da Síria, onde a guerra civil parece interminável, e da Eritreia - a "Coreia do Norte africana", pela repressão levada a cabo pelo regime (como a descreveu o jornal brasileiro Folha de S. Paulo). Já estavam asilados em países terceiros, fora da União Europeia, e serão agora reinstalados em Lisboa e Penela.

Escolas para as crianças, cuidados de saúde, aulas de português e formação profissional estão já garantidos para estas famílias que procuram reconstruir as suas vidas no nosso país. "Estes grupos da reinstalação têm à sua espera um projeto de dez meses que inclui aprendizagem da língua portuguesa, saúde e escolas para as crianças", explicou aos meios de comunicação social o diretor adjunto do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Luís Gouveia.

Com os que chegaram no sábado e com a desistência de uma família de cinco pessoas, que recusou vir para Portugal e que ficou no Cairo (Egito), ascendem a 40 os refugiados que vão ser acolhidos em Lisboa, Sintra e Penela (distrito de Coimbra).

As duas famílias que aterraram às 15.00 de ontem em Lisboa são compostas por um casal sírio (o homem com 37 anos e a mulher com 32) e os quatro filhos, com idades entre 1 e 5 anos.E uma mãe eritreia com 39 anos e os seus três filhos de 10, 8 e 6 anos. Nesta primeira fase de integração em Portugal, vão já aprender a para eles exótica língua portuguesa. Os sírios falam a língua árabe e os eritreus a língua tigrina. Conseguem ainda falar algum inglês, como o DN constatou no aeroporto.

A família síria seguiu para Penela, onde se juntará a outros refugiados que chegaram no sábado, sendo acompanhada pela Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo (FADFPMC). A mãe eritreia e os três filhos ficaram em Lisboa, aos cuidados do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS). Outra organização não governamental, o Centro Português para os Refugiados (CPR), acolhe os que vão para Sintra. Cada uma destas organizações recebeu 20 mil euros do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras para atender às primeiras necessidades dos refugiados, nomeadamente o alojamento com rendas acessíveis, através de protocolos com as autarquias de Penela, Lisboa e Sintra, e acesso a programas de formação profissional, adiantou o diretor adjunto do SEF, Luís Gouveia. Essa verba é apenas 20% do total, sendo o restante montante (240 mil euros) assegurado pela União Europeia.

"Numa primeira fase os refugiados vão aprender a língua portuguesa e depois haverá uma segunda etapa com formação profissional. No espaço de uma semana o SEF vai emitir autorizações de residência provisórias que lhes permitirá obter trabalho", referiu o responsável.

Família desistiu de Portugal

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras recebeu a "informação do ACNUR (agência da ONU para os refugiados) no Cairo de que uma família com cinco elementos tinha desistido do programa de reinstalação em Portugal. É um programa voluntário e em qualquer altura podem desistir", adiantou Luís Gouveia, sem concretizar o motivo. "Esta foi a informação inicial que o ACNUR nos deu." Devido a essa desistência, "do contingente de 45 pessoas só vamos receber 40. Esses cinco estavam previstos chegar hoje (ontem) no voo das 19.00".

Entre os refugiados estão pessoas com um nível médio de qualificação e uma pessoa com um curso superior na área de contabilidade. As profissões desempenhadas nos países de origem são variadas, desde canalizador, alfaiate, vendedor, até contabilista com curso superior e um técnico de física e química. Regra geral as mulheres não tinham ocupação profissional anterior, refere o SEF.

Os 40 deslocados que chegaram agora a Portugal "só poderão circular pela Europa finda a primeira fase da integração". Segundo o diretor adjunto do SEF não será preciso um plano especial de segurança para os acompanhar, uma vez que o risco não é considerado elevado.

15.6.15

Portugal integra bem imigrantes e mal ciganos

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Ao mesmo tempo que leva puxão de orelhas por discriminar ciganos, país é reconhecido por bem receber imigrantes.

Portugal recebeu esta sexta-feira uma boa notícia e uma má notícia em matéria de integração das suas minorias: mantém-se como segundo melhor país do mundo a receber imigrantes, segundo o Índex de Políticas de Integração Migratórias, mas continua a fazer pouco pelas comunidades ciganas.

O MIPEX, na sigla inglesa, é uma referência sobre políticas de integração em toda a Europa. A avaliação de Portugal foi apresentada nesta sexta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. O índice completo, encabeçado pela Suécia, só será conhecido no final do mês, em Bruxelas.

Portugal manteve o investimento nas políticas de integração e até se esforçou para as tornar mais eficazes, lê-se no documento. Recebe 75 pontos em 100, mais um do que no último estudo, realizado em 2010, por ter melhorado o acesso à protecção as vítimas de violência doméstica e a programas de incentivo ao emprego.

O MIPEX pega em 167 parâmetros de oito áreas para avaliar, de uma forma ampla, a integração dos imigrantes em todos os países da União Europeia, os Estados Unidos, a Austrália, o Canadá, a Islândia, o Japão, a Coreia do Sul, a Nova Zelândia, a Noruega, a Suíça e a Turquia.

Na edição deste ano, Portugal destaca-se pela elevada pontuação na luta contra a discriminação, no acesso à nacionalidade, na possibilidade de reagrupamento famílias e nas condições de igualdade do mercado laboral. não obteve pontuação tão boa no acesso à saúde, à educação e à habitação permanente.

O país é considerado o Estado da Europa do Sul que melhor combate a discriminação e promove a igualdade. Não se pensa, porém, que o seu baixo número de queixas quer dizer que está tudo a ser feito para informar os imigrantes sobre os seus direitos.

Portugal já foi melhor no que concerne a procura de trabalho, formação e reconhecimento de competências, mas ainda é tido como exemplo no que diz respeito ao emprego em condições de igualdade de oportunidades. Citando números de 2011 e 2012, o índex aponta uma taxa de desemprego de 28% entre cidadãos extracomunitários, abaixo dos 33% da média dos países analisados.

Os autores revelam inquietação em matéria de acesso à saúde - por força da crise económica, os imigrantes "encontram mais obstáculos administrativos" e "serviços de saúde que dão menos respostas". E fazem várias recomendações sobre educação. Entendem que o país deve investir mais nas competências interculturais de quem presta tais serviços, melhorando o acesso aos primeiros anos de escolaridade, envolvendo mais os pais, criando mais oportunidades a adultos.

No mesmo dia, o Conselho da Europa puxou as orelhas ao país pela forma como lida com as comunidades ciganas: "Portugal continua a encetar pragmáticos mas limitados passos em direcção à implementação da Convenção para a Protecção das Minorias Nacionais", escreveu o Comité Consultivo.

O Comité admite que há projectos para a promoção do diálogo intercultural e o combate à discriminação racial e que foram tomadas “medidas para facilitar a inclusão dos migrantes". Entende, porém, que é preciso melhorar a legislação no sentido de combater a discriminação de forma mais eficaz.

No email enviado às redacções, diz saber que Portugal adoptou a Estratégia Nacional de Integração das Comunidades Ciganas (2013-2020) e criou o Grupo Consultivo para a Integração das Comunidades Ciganas (CONCIG). Ajuiza, todavia, que nada disso evitou "as dificuldades ainda atravessadas por esta minoria no acesso ao emprego, à educação, à habitação, à saúde e à segurança social".

Em jeito de resposta, o Alto Comissariado para as Migrações (ACM) escreveu que está a ser preparada "uma nova versão da legislação anti-discriminação", que deverá estar pronta ainda este ano. A ideia é aumentar o combate "às práticas discriminatórias" e "promover a mediação enquanto ferramenta de resolução".